O paletó

José Horta Manzano

A primeira foto
Treze anos separam estas duas fotos. A primeira, de novembro 2009, mostra um Lula ainda galhardo recebendo Nicolas Sarkozy. O então presidente da França, tendo acreditado nas promessas do demiurgo, trazia no bolso de trás o contrato de venda dos caças de última geração franceses Rafale. A euforia não ia durar muito.

Naquela altura, nem Lula nem Sarkozy podiam imaginar que cada um deles teria, anos mais tarde, de enfrentar a justiça. Lula foi o primeiro. Perdeu, e teve de passar ano e meio à sombra. Sarkozy, já condenado em primeira instância a 3 anos de prisão (dos quais um em regime fechado), recorreu e espera atualmente a decisão da segunda instância.

Lula purgou parte de sua pena. A virulência de Bolsonaro, a violência de sua gestão e os escândalos de corrupção que pipocam em torno da Presidência acabaram minimizando os “malfeitos” do Lula. Comparadas ao que se vê hoje, as diabruras dos “aloprados” de outrora parecem pecadilhos infantis.

A segunda foto
A segunda foto, bem recente, mostra um Lula que soube resistir a um excesso de procedimentos estéticos e que hoje não exibe o rosto tipo Barbie como Putin. Assim mesmo, um certo envelhecimento é visível. É da vida.

O distinto leitor talvez tenha reparado num detalhe que acompanha nosso guia em ambas as fotos: a camisa. Trata-se de um modelito pseudandino (quando se podia escrever pseudo-andino ficava mais claro), confeccionado por afamado alfaiate de La Paz. A camisa – será um blusão? – foi oferecida ao Lula por Evo Morales, então todo-poderoso chefão boliviano, aquele que se apossou de uma refinaria da Petrobrás com anuência do lulopetismo, lembra?

Pelo estado impecável em que se encontra a camisa-blusão, ela parece ter sido feita com tecido de qualidade superior. (Americano talvez? Ui! Cala-te, boca!) Quem passa muito tempo encarcerado costuma economizar roupa. É que, em países mais organizados, presos usam uniforme. Não foi o caso do Lula. Passou ano e meio trancafiado na sede da PF de Curitiba, numa suíte com banheiro e esteira particulares. Não usou uniforme. Deve ter usado muito pouco a camisa. E deve ter cuidado muito bem dela.

E daí?
E daí? Se lhe deram de presente, é dele. Usa quanto e quando quiser.

Será?
A partir do momento em que um cidadão se apresenta como pré-candidato a um cargo público, atrai os holofotes. Deve então tomar certas precauções e prestar atenção no que diz, onde vai, com quem vai, como se veste.

O Lula já parece ter entendido que não convém aparecer em público vestindo camiseta vermelha ornada de foice e martelo. Se fizesse isso, abriria uma avenida à voz crítica dos que temem um “comunismo” morto e enterrado há 30 anos.

Ninguém exige que nosso guia apareça em público trajando terno e gravata, que ficaria demasiado artificial. Assim mesmo, se eu pudesse dar a ele um conselho, acho que ele devia evitar trajes exóticos como a “guayabera” (uniforme de caribenhos e dos bondosos irmãos Castro), o chapelão do hondurense Zelaya e, naturalmente, a camisa-blusão do Evo Morales. São peças de vestuário que remetem a “compañeros” sulfurosos. Exibir essas relíquias é abrir o flanco para ataques do adversário.

Nos tempos que correm, basta uma boca fechada e pouco de recato no vestuário pra ser logo visto como presidenciável. A que ponto chegamos, não?

Quem avisa, amigo é.

Quando o assunto é dinheiro…

José Horta Manzano

23 jan° 2017
Circundado por sete homens engravatados, Donald Trump assina decreto limitando o financiamento de ongs que defendem o aborto. A imagem é simbólica: um conclave exclusivamente masculino retratado no exato momento em que, de certa maneira, cerceava a liberdade feminina de dispor do próprio corpo. A foto deu a volta ao mundo.

2017-0215-01-tsr3 fev° 2017
Indignado com a atitude do presidente americano, o governo sueco reagiu. Divulgou uma foto de uma de suas ministras cercada de equipe exclusivamente feminina. O retrato foi tirado por ocasião de assinatura de acordo sobre mudanças climáticas. Em sua página web, o governo sueco se declara feminista ‒ com muito orgulho.

2017-0215-02-tsr11 fev° 2017
Em visita a Teerã (Irã), a titular do Ministério do Comércio sueco fez-se acompanhar por um grupo de assessoras. Todas eram mulheres. Mas uma imagem vale mais que mil palavras: no momento de saudar o presidente do país, a ministra desfilou com a cabeça coberta pelo véu islâmico. Todas as integrantes do comitê traziam o adereço.

2017-0215-03-tsrO instantâneo causou estupor pelas bandas de Estocolmo. Como é possível que justamente um governo que se autodefine como «feminista» se dobre aos códigos vestimentários iranianos? A explicação é simples e pouco elegante: quando o assunto é dinheiro, ideologia não vigora.

Aliás, essa é uma lição que os brasileiros estão carecas de saber. Na prática, a teoria é outra.

Interligne 18cPS
As mandachuvas suecas entraram em saia justa por se terem «afinado» na hora H, quando, em tempos normais, costumam se gabar de ativismo feminista. Pecaram pela soberba.

Fora isso, não vejo escândalo no fato de mostrar respeito a costumes locais quando se é forasteiro de visita.

2017-0215-04-tsrQuando são recebidas pelo papa, todas as mulheres se apresentam com véu ou chapéu. E ninguém se escandaliza. Vasto mundo.

A cabeça

Cabeça 1José Horta Manzano

Da capital da República vêm notícias espantosas. Começou com caixa dois. Segundo argumento capcioso brotado, à época, da cabeça do chefe-mor, é aquele tipo de captação que «todo o mundo faz».

Foi argumento capcioso , capítulo deplorável na história recente do país. O capitalismo tradicional, capturado pela incapacidade que só cabe na cabeça de mentecaptos, fez o Brasil regredir ao tempo das capitanias hereditárias.

É incabível que nosso país esteja cativo de cabos e caporais que usurpam o capuz de governantes. Mas tudo tem fim: capa, chapéu e capote estão caindo. Os incapazes que desgraçaram o Brasil não vão escapar. Serão capturados e despachados ao destino que lhes cabe: vão acabar atrás das grades.

Interligne 18h

Observação etimológica
O textozinho acima faz uso de numerosos parentes linguísticos. Entre as 114 palavras mencionadas, nada menos de 28 são da mesma família. Uma em cada quatro! Descendem todas de antiquíssima raiz indo-europeia *ker, que evoluiu para caput em latim. É o avô de nossa cabeça. Como se sabe, cortada a cabeça, o corpo não sobrevive.

Cabeça 2Veja agora o mesmo texto com os parentes sublinhados.

Da capital da República vêm notícias espantosas. Começou com caixa dois. Segundo argumento capcioso brotado, à época, da cabeça do chefe-mor, é aquele tipo de captação que «todo o mundo faz».

Foi argumento capcioso , capítulo deplorável na história recente do país. O capitalismo tradicional, capturado pela incapacidade que só cabe na cabeça de mentecaptos, fez o Brasil regredir ao tempo das capitanias hereditárias.

É incabível que nosso país esteja cativo de cabos e caporais que usurpam o capuz de governantes. Mas tudo tem fim: capa, chapéu e capote estão caindo. Os incapazes que desgraçaram o Brasil não vão escapar . Serão capturados e despachados ao destino que lhes cabe: vão acabar atrás das grades.