Visita ao Piauí

José Horta Manzano

Doutor Bolsonaro visitou o interior do Piauí. Visita de médico, rapidinha. E pensar que médicos fazem falta por aquelas lonjuras. Talvez a população gostasse mais de receber um doutor de verdade, daqueles que examinam e dão remédio. Mas remédio que cura, não desses fajutos que a gente vê por aí, pô!

by Antônio Carlos Nicolielo (1948-), artista paulista

Visita de doutor de araque é como chuva no sertão. Vem de repente, faz um barulhão e deixa todo o mundo alegre. Mas vai-se embora logo, deixa a terra mais seca que antes, não tem serventia. É mera ilusão, que hoje responde pelo nome mais sofisticado de marketing eleitoral.

Curiosidade
Você sabia que a palavra piauiense reúne 5 vogais grudadas umas nas outras? Em nossa língua, está aí a mais extensa coleção de vogais, em sequência, numa só palavra.

Outras línguas ostentam impressionantes sequências de consoantes. O alemão, por exemplo, tem o sobrenome Schürch, um cacho de 6 consoantes para uma vogalzinha. Enquanto isso, o gênio do português é conviver com fileiras de vogais. E ninguém se assusta com isso. Uai, é? Ô, é e é, uai!

O elixir que salva?

José Horta Manzano

O presidente de Madagascar convocou ministros, embaixadores e jornalistas para assistirem a anúncio importante. Subiu ao palco, tomou o microfone e informou que tinha sido encontrado remédio local contra a covid-19, elaborado com plantas da ilha.

Com a garrafa na mão, acrescentou, entre dois goles tirados direto do gargalo, que o elixir faz efeito em 7 dias. A bebida já tem até nome: chama-se Covid-Organics, marca afinada com o zeitgeist (= espírito do tempo). Andry Rajoelina – esse é o nome do presidente – disse ainda que o remédio já tinha sido testado e aprovado por cientistas locais.

Andry Rajoelina, presidente de Madagascar
apresentação do Covid-Organics

Ficou no ar um certo desconforto. Jornalistas, que queriam ter acesso ao detalhe dos testes clínicos, voltaram de mãos abanando e consideraram que tudo aquilo estava opaco demais. Embaixadores, que examinam o mundo com a régua de medir vantagens para o próprio país, saíram desconfiados de que não passava de marketing barato; de fato, se o planeta passar a se interessar pela bebida, o crescimento das exportações malgaxes será exponencial. A OMS, por seu lado, pôs o “remédio” entre aspas e advertiu que sua eficácia está longe de ser comprovada.

Ocupado em combater inimigos imaginários, doutor Bolsonaro deve ter perdido a informação. Ainda bem, senão haveria o risco de ele também se tornar garoto-propaganda do elixir que salva.

O vírus e o pão

José Horta Manzano

O surto de coronavírus assusta. Dizem que pegou o mundo de surpresa. Pudera! Alguém estaria suficientemente escolado pra encarar um pesadelo desses sem surpresa? O susto vira pânico quando se descobre que não há remédio contra a infecção.

Estamos acostumados a ter medicamento pra tudo. Tuberculose, sífilis, lepra, poliomielite, sarampo e outros males que flagelaram a humanidade por séculos hoje têm cura e, em certos casos, até vacina imunizante.

De repente, surge um bichinho desconhecido, sorrateiro, oportunista; e todos passam a desconfiar de todos. Se passa alguém de máscara, logo imaginamos que esteja doente. Se alguém tosse ou dá um espirro, logo se afastam todos à sua volta – e ainda olham feio.

Aqui onde vivo, nos supermercados, os pães estão às moscas (força de expressão). Pão sobra mas, em compensação, não se encontra mais fermento. Há duas razões para isso. Por um lado, o confinamento deixa o povo sem ter que fazer; ir para a cozinha amassar pão é excelente remédio contra o tédio. Por outro, muitos preferem agora fazer pão em casa por receio de contaminação; nunca se sabe: alguém pode ter tossido em cima do pão na gôndola.

Não sei se ainda se acha fermento no Brasil neste momento. Se houver, sugiro ao distinto leitor tentar a experiência de amassar e assar o próprio pão. É simples, basta respeitar as regras. Receitas há, aos montes: basta passear pelo youtube. Bom apetite.

Voltando ao assunto…

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Remedio 1Acabo de ler a notícia de que a presidente da República sancionou lei que libera a produção e a venda da fosfoetanolamina. Se estou feliz? Não, não estou. Ao contrário, estou assustada com as possíveis consequências do açodamento com que ela foi liberada e quero explicar meus motivos.

Outro dia, um jornalista escreveu artigo defendendo a ideia de que é possível estar certo pelas razões erradas. Ele se referia ao cenário político brasileiro e à incrível debandada de parlamentares que compunham a base de apoio da presidente. Ele estava certo, suponho, mas não é a isso que me refiro hoje.

Na reportagem que informava a liberação da chamada “pílula do câncer”, o autor afirma com todas as letras que, “apesar de estudos científicos não terem apontado nenhuma eficácia dessa substância”, a Casa Civil teria recomendado a liberação “para evitar qualquer ameaça de desgaste (e de perda de votos) às vésperas da votação do impeachment na Câmara”.

Farmacia 2Infelizmente, é assim que nosso país funciona. Tanto os congressistas, que aprovaram apressadamente a liberação da droga sem consulta aos órgãos médicos competentes, quanto o executivo federal operaram ‒ tudo leva a crer ‒ fazendo cortesia com chapéu alheio. Como afirma um oncologista do Instituto Brasileiro de Controle do Câncer ouvido na reportagem, a pílula “não deve ser assunto político”. Assino embaixo. Os pacientes de câncer e seus familiares não merecem que se lide irrefletidamente com sua saúde e sua qualidade de vida.

Aonde quero chegar? Quero apenas refletir sobre os meandros burocráticos que cerceiam a pesquisa médica brasileira e, nesse contexto, analisar mais em profundidade o papel da Anvisa. Que não nos faltam cientistas de alto padrão é fato sabido por todos. Que instituições de ponta no ensino e na pesquisa médica como a USP e o Instituto Oswaldo Cruz alcançaram reconhecimento internacional por sua qualidade, também. Onde está então o problema?

Posso estar enganada, mas me parece que a Vigilância Sanitária brasileira entende como missão principal a de reinventar a roda todos os dias. Basta lançar um olhar desapaixonado para o que aconteceu há alguns meses com o canabidiol. Apesar de vários estudos científicos internacionais terem apontado a importância dessa droga no controle da epilepsia e outros transtornos neurológicos, a Anvisa não se deu por vencida por meses e anos a fio, permitindo que médicos que o receitassem e pacientes que o importassem continuassem sob ameaça de prisão por tráfico de drogas. Depois, acuada diante de tantas evidências de sua eficácia, foi liberando aos poucos a importação da droga, pretendendo fazer crer que pesquisas médicas nacionais em andamento estavam chegando aos mesmos resultados.

Injeção 1Há alguns anos, a Anvisa já havia se lançado impávida à tarefa de disciplinar a comercialização de medicamentos homeopáticos. Impôs aos laboratórios a anexação de bula com indicação de uso de cada substância, dosagem, efeitos colaterais, etc., fazendo de conta que desconhecia o fato de que um mesmo medicamento homeopático pode ser – e é – usado há séculos para diversas doenças, sem relação umas com as outras. A critério do médico, é claro.

Sou leiga no assunto e não posso me pretender imparcial diante dessa iniciativa, já que na época eu era paciente da medicina antroposófica e minha cachorra estava sendo tratada com sucesso com uma injeção contra o câncer desenvolvida por um laboratório suíço e comercializada havia mais de duas décadas no Brasil (eu mesma já a havia tomado, com igual sucesso). Em decorrência da postura irredutível da Anvisa, a tal injeção foi retirada de circulação e sua importação proibida, levando ao desespero e desamparo milhares de doentes de câncer da noite para o dia. Não sei o que aconteceu com os humanos. Minha cachorra morreu.

Voltando à fosfoetanolamina, suspeito que, se o químico que desenvolveu a pílula há mais de 20 anos fosse um pesquisador estrangeiro, a Anvisa já teria se interessado em promover por conta própria estudos mais aprofundados. Acredito também que a USP teria pensado duas vezes antes de tratar um profissional formado pela própria instituição de curandeiro e determinar a lacração do laboratório que produzia a droga.

Hospital 1Isso sem considerar que eventual comprovação da eficácia da pílula do câncer poderia colocar em polvorosa poderosas indústrias farmacêuticas multinacionais, ameaçadas de perder a hegemonia no combate ao câncer e seus fantásticos lucros. E pensar que o tal químico tupiniquim, além de ter feito uma descoberta de fundo de quintal, distribuía o medicamento gratuitamente, por acreditar cegamente no próprio trabalho.

Não pretendo insinuar que todos os cientistas, pesquisadores e médicos que se colocaram acidamente contra a fosfoetanolamina tenham se deixado abater pela pressão de grupos internacionais. Mas que, inadvertidamente, ajudaram a corroborar a tese de que sofremos da síndrome de vira-latas, lá isso está claro. A começar pela constatação de que havia menos fosfoetanolamina nas pílulas do que o alardeado e a presença de “resíduos” de outras substâncias. Ora, doutores, por que não investigar cientificamente a atuação da substância pura nas células malignas e determinar a dosagem ideal antes de afirmar que a droga não faz nenhum efeito ou tem menor eficácia que a de outras drogas já comercializadas?

Remedio 2Na sequência, me causou espécie saber que especialistas brasileiros tenham se deixado envolver em intensa polêmica a respeito da distribuição da droga como suplemento alimentar. Não ‒ diziam irados os opositores ‒ estaríamos tentando cobrir o sol com peneira, o produto continuaria a ser usado como medicamento. Afinal, doutores, desculpem a petulância de perguntar: que males (além da automedicação) poderiam advir se isso acontecesse? A fosfoetanolamina apresenta ou não efeitos colaterais indesejados? É tóxica para o organismo, interage e atrapalha a ação de outras substâncias anticancerígenas?

A resposta? Ninguém sabe, até mesmo porque a pesquisa da fosfoetanolamina ainda não avançou para a fase de testes clínicos em humanos…

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.