Arca de Noé vegetal

José Horta Manzano

Você sabia?

Dez anos atrás, numa gelada ilha norueguesa localizada nas cercanias do Polo Norte, foi inaugurado o maior depósito de sementes do planeta. Seu nome em inglês é Svalbard Global Seed Vault ‒ Silo Global de Sementes, situado no arquipélago de Svalbard.

O ambicioso projeto, posto em marcha por iniciativa conjunta dos governos escandinavos, tem agregado apoio de outros países e da iniciativa privada. A Fundação Bill & Melinda Gates dá patrocínio significativo. Uma vintena de países também contribui ‒ o Brasil entre eles.

Entrada do Silo Global de Sementes, em Svalbard

A ideia é antiga. De fato, já existem, espalhados pelo globo, numerosos pequenos bancos de sementes. No entanto, cada um deles está especializado num tipo limitado de espécies, com vistas a preservar o patrimônio regional. O projeto norueguês é mais ousado: visa a reunir sementes de todas as plantas que crescem no planeta, com foco especial nas espécies que servem de alimento ao homem.

De propósito, o sítio de estocagem foi escolhido numa região de clima extremamente frio. Escavado numa colina, o «banco» fica a 120m de profundidade. A temperatura gira constantemente entorno de 18° abaixo de zero, exatamente como num congelador. Sem necessidade de compressor, naturalmente.

O intuito é salvaguardar todas as variedades de vegetais que compõem a alimentação humana em todos os pontos do planeta. Catástrofes naturais, enchentes, incêndios florestais, guerras, contaminação química ou atômica podem levar certas culturas à extinção. Daí a utilidade do silo global. Ele está para a vegetação terrestre como um “backup” está para o computador.

Longyearbyen, povoado mais importante do arquipélago
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Ao comemorar dez anos de existência, o silo já armazena mais de um milhão de variedades vegetais, provenientes de todos os cantos do mundo. As sementes não duram eternamente. O tempo de armazenamento pode variar, mas não é ilimitado. As mais frágeis têm de ser renovadas a cada 50 anos, antes de perder a fertilidade. As mais resistentes podem ser estocadas por cinco mil anos ou até mais. Assim mesmo, para maior garantia, o silo norueguês tenciona renovar o estoque de cada espécie a cada vinte ou trinta anos.

Antes do que se imaginava, o sistema já mostrou sua utilidade. A guerra que tem sacudido a Síria estes últimos anos matou gente, destruiu cidades e acabou com plantações. As regiões onde os embates se acalmaram pretendiam voltar a cultivar a terra castigada, mas faziam falta sementes de espécies desaparecidas. Foram acudidos pelo silo global.

Foi a primeira demonstração prática da utilidade do banco vegetal. Oxalá fosse a última.

O voto do Conselho de Segurança

José Horta Manzano

A ONU, fundada em 1945, é retrato do mundo político daquele momento. A antiga Sociedade das Nações, criada logo após o primeiro conflito mundial, não tinha sido capaz de evitar o segundo. A ONU foi pensada como anteparo a futuras guerras. Embora não tenha conseguido evitar todas, contribuiu para impedir a catástrofe nuclear que se temia nos tempos da Guerra Fria.

Quando da fundação, havia duas condições para fazer parte do clube. A primeira era ser Estado independente. A segunda, ter declarado guerra à Alemanha pelo menos três meses antes do fim do conflito. Os membros fundadores não foram muitos: resumiram-se a 51. Os perdedores da guerra só foram admitidos anos mais tarde, e não todos ao mesmo tempo. Hungria e Itália entraram em 1955. No ano seguinte, foi a vez do Japão. A Alemanha só se tornou membro em 1973.

ONU ‒ sede de Nova York

Prevendo que, em casa onde vive muita gente, todos falam e ninguém se entende, os idealizadores criaram o Conselho de Segurança, órgão que, de facto, toma as decisões importantes. O CS, como é conhecido, compõe-se de 15 membros. Cinco deles são permanentes e os demais, temporários.

Os membros permanentes são justamente os maiores e mais fortes aliados que haviam vencido a Segunda Guerra. Por acaso, todos eles acabaram se tornando potências nucleares, ainda que não o fossem em 1945. São eles: EUA, Rússia (antes URSS), China, Reino Unido e França. Os dez membros rotativos são eleitos com mandato de dois anos. A cada ano, renova-se metade das dez cadeiras.

Os não-permanentes são Estados distribuídos equitativamente pelos continentes. A América Latina tem direito a duas cadeiras. Entre os membros não-permanentes, o Japão é o que já foi eleito mais vezes: está cumprindo o 11° biênio. Em segundo lugar, vem o Brasil, que já ocupou uma cadeira no CS durante 10 biênios. Em seguida, está a Argentina, eleita 9 vezes. Por razões que a razão desconhece, o Brasil não se tem candidatado a uma vaga rotativa estes últimos anos. Pelo mecanismo de funcionamento da ONU, terá de esperar até 2022 ou 2023 para postular de novo.

Atualmente, o Uruguai (biênio 2016-2017) e a Bolívia (biênio 2017-2018) ocupam as cadeiras do CS reservadas para a América Latina. O Japão, membro ativo e assíduo, tem lugar garantido até o fim de 2017. As regras da ONU não permitem a eleição de um membro não-permanente para dois biênios consecutivos.

ONU ‒ sede de Genebra

Para ser bem sucedida, uma proposição submetida ao CS terá de ser aceita pela maioria simples dos 15 membros, ou seja, se obtiver 8 votos a favor, entra em vigor. Mas há um senão: o voto contrário de um dos membros permanentes tem valor de veto.

O bombardeio com armas químicas orquestrado pelo ditador da Síria contra um vilarejo, que matou dezenas de civis e horrorizou o mundo, foi objeto de pedido de resolução de reprovação apresentado ao CS por EUA, França e Reino Unido. Submetido ao voto, o pedido obteve 10 votos a favor, 3 abstenções e 2 votos contrários.

Embora a maioria dos membros tenha votado a favor, um dos que se opuseram era a Rússia, cujo voto contrário tem valor de veto. Assim, a resolução não pôde ser  adotada. Sabe o distinto leitor qual foi o país que acompanhou a Rússia? Pois foi nossa vizinha e hermana, a Bolívia.

Surpreendente, não? Nenhuma decisão governamental é inocente ‒ há sempre algum interesse por detrás, ainda que não seja claro à primeira vista. Não acredito em legames ideológicos entre a Bolívia e o sanguinário ditador sírio que justifiquem voto tão bizarro. O buraco é mais embaixo.

Com o “projeto criminoso de poder” fora de cena, o Brasil volta ao caminho da civilização. Banidos os Kirchner, a Argentina também se afasta da esfera bolivariana. A aproximação entre Cuba e EUA, inaugurada por Obama, tende a apartar a ilha caribenha da influência de Caracas. Por fim, a orientação bolivariana da própria Venezuela está em acelerada decomposição. O alinhamento da Bolívia à Rússia parece ser sinal desesperado de busca de apoio, de procura de novo padrinho, em virtude de crescente isolamento. Não acredito que Moscou se deixe enternecer pelo olhar langoroso de La Paz.

Manchete incômoda

José Horta Manzano

A lista de Fachin não está em cartaz somente em nosso país. Já deu a volta ao mundo. O Brasil volta às manchetes internacionais em companhia incômoda. Na chamada de hoje do quotidiano francês Libération, aparecemos no mesmo nível de Dortmund e da Síria.

O essencial da atualidade desta quarta-feira, segundo Libération ‒ quotidiano francês
Chamada de 12 abril 2017

A menção à cidade alemã de Dortmund se deve ao ataque à bomba perpetrado contra o ônibus que levava a equipe de futebol local. A menção à Síria foi feita em virtude do encontro que se realiza hoje em Moscou entre o ministro de Relações Exteriores russo e seu homólogo americano.

«Falem bem, falem mal, mas falem de mim»(*) ‒ já dizia o outro. No fundo, eu preferia que, do Brasil, falassem bem. Pero… así son las cosas.

(*) É possível que essa frase seja deturpação do que um dia escreveu o irlandês Oscar Wilde: «The only thing worse than being talked about is not being talked about» ‒ A única coisa pior que cair na boca do povo é não cair na boca do povo.

A solução do problema sírio

José Horta Manzano

Durante meio milênio, a região onde se situa a Síria atual esteve sob o mando do Império Otomano, como era chamada a extensa zona dominada pelos turcos. Quando espocou a Primeira Guerra mundial, os otomanos tiveram o azar de escolher o lado errado: apoiaram a Alemanha e o Império Austro-Húngaro. Perderam.

Na sequência da derrota, a Grã-Bretanha e a França puseram em prática o plano já acertado anos antes: repartiram o Oriente Médio em zonas de influência britânica ou francesa, um pouco para cada um. As fronteiras da Síria, tanto quanto as dos outros países da região (Jordânia, Iraque, Líbano, Kuwait), foram desenhadas nas pranchetas de Londres e de Paris. Muito provavelmente por ignorância, os decididores deram pouca ou nenhuma importância à população local, às etnias, às religiões, às alianças ou inimizades seculares. Deu no que deu. O caldeirão ferveu.

Na época dos otomanos, quando as ordens vinham de Constantinopla, estavam todos no mesmo saco, sob domínio estrangeiro. A partir do momento em que tiveram de autogovernar-se, o problema se pôs: qual das comunidades toma as rédeas? Aquilo virou um faroeste onde manda quem grita mais.

Repare na complexidade étnica da população síria
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Como se não bastassem as brigas intestinas, interesses externos têm contribuído para apimentar o molho. A criação do Estado de Israel, a descoberta de petróleo na região, a Guerra do Iraque, as pretensões iranianas de domínio regional, o antagonismo entre EUA e Rússia são fatores agravantes. Chegamos ao ponto em que nenhuma solução será satisfatória para todos. O emaranhado de interesses é tão complexo que, por mais que se procure um ponto de equilíbrio, não é possível encontrá-lo. Tem-se de optar pelo «menos pior».

Infelizmente, a única linguagem que se fará ouvir será a da firmeza e da força. Apesar de todos os defeitos, o longo período de domínio otomano trouxe relativa paz à região. Não será uma oposição entre EUA e Rússia que vai aplacar ódios ‒ só pode desembocar numa guerra por procuração. A melhor solução passará por um acordo, de preferência sob patrocínio da ONU, que garanta:

A destituição do atual ditador
É condição sine qua non. Enquanto Bachar permanecer no comando, será impossível acalmar os ânimos. O acúmulo de ódios é grande demais.

O desarmamento da população
Sempre haverá revólver escondido dentro de colchão. Mas todo esforço deve ser envidado para confiscar e neutralizar armamento pesado, tradicional e químico.

A manutenção da base naval russa de Tartus
Sem isso, nenhum acordo será alcançado ‒ toda proposta será vetada pelos russos. Eles veem a base como necessária para garantir presença na região.

Outra visão da complexidade étnica do território
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A criação de uma federação
A atual Síria será partilhada entre dezenas de microestados. Para definir as fronteiras, serão levadas em conta as diferenças entre os diversos povos: religião, língua, tradições, história.

Um poder central neutro sob mando externo
Um protetorado deverá ser estabelecido, preferivelmente sob a guarda da ONU. Um representante escolhido pelas Nações Unidas exercerá o poder executivo. Será substituído periodicamente. Não deverá ser árabe, nem originário da região, nem de nenhum dos membros permanentes do Conselho de Segurança.

Pronto, aí está a solução, que o resto é blá-blá-blá. Podem, naturalmente, deixar tudo como está pra ver como fica. A guerra não terá fim e ninguém sairá ganhando. Menos os fabricantes de armas, que continuarão esfregando as mãos.

Make America great again

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 28 jan° 2017

Todos entenderam que a desintegração da União Soviética, na última década do século 20, anunciava o fim do bilateralismo. De fato, o fracasso de setenta anos de coletivismo demonstrou que os trilhos do comunismo não serviam. O sistema implantado por Lenin e aperfeiçoado a ferro e a fogo por Stalin chegou ao apogeu ao derrotar a Alemanha nazista mas foi incapaz de trazer prosperidade e bem-estar ao próprio povo. Acabou apodrecendo sozinho, de dentro para fora, sem bomba, sem guerra, sem choro nem vela.

Durante os vinte anos seguintes, a hegemonia americana instalou-se soberana. Nenhuma potência lhe batia nos tornozelos. Tinha chegado ao primeiro lugar por mérito e também, sejamos francos, pelo fracasso do adversário. Quando o inimigo joga a toalha, o vencedor, ao sentir-se todo-poderoso, baixa a guarda e amolece. Foi o que aconteceu.

Poucos se deram conta de que a Rússia, empobrecida e com o orgulho ferido, não se havia resignado a assumir o rótulo humilhante de «nação emergente». Quem já foi rei não perde a majestade assim tão fácil. As portas se escancararam para a entrada em cena de um salvador da pátria. E ele surgiu de onde ninguém esperava.

bandeira-eua-2No caos que se seguiu à débâcle do império, uma oligarquia formada por um punhado de novos-ricos tomou o lugar da antiga «nomenklatura». O grupo decidiu entregar as rédeas do país a um obscuro funcionário de carreira, na certeza de que, por detrás do pano, continuariam a dar as cartas. Erro fatal. Pinocchio, Dilma e tantos outros demonstram que esse tipo de acerto costuma falhar. Falhou.

Em quinze anos, Vladimir Putin botou pra correr a turma de padrinhos e, com mão de ferro, instalou-se no comando. Um pouco por sorte, um pouco por se ter rodeado de gente competente, conseguiu elevar espetacularmente o nível de vida do povo. Sua popularidade, já nas alturas, continua subindo. A prosperidade do país permitiu-lhe quintuplicar o orçamento militar. Sem estardalhaço, a Rússia voltou a meter medo. Retomou a Crimeia, considerada desde sempre como território nacional. Apossou-se de facto da região oriental da Ucrânia. De olho na base naval que detém em território sírio, não hesitou em apoiar o ditador do país, com o objetivo de conservar as preciosas instalações militares.

Por seu lado, a China encontrou em Xi Jinping o homem forte que lhe faltava. Sereno, mas firme e esperto, o mandatário entendeu que seu país tem tudo a ganhar com a nova paisagem multilateral. Menos belicosos que os vizinhos russos, os governantes de Pequim dão prioridade ao poderio comercial. Cada vez mais, capitais chineses se apoderam de marcas tradicionais, fato que passa batido para a maioria.

E os Estados Unidos, como ficam nestes tempos de transição? Têm ainda, ninguém duvida, o maior mercado e o mais forte poderio bélico do planeta. Mas a assunção de Donald Trump à Casa Branca, contrariando as aparências, ameaça esse predomínio. Sua campanha baseou-se no lema «Make America great again». (Repare o distinto leitor que, num lapsus linguæ, o «again» traz embutida a ideia de que o país já deixou de ser grande.)

bandeira-eua-2Em si, a ideia até que faz sentido: todo mandatário tem obrigação de aprimorar o desempenho do país e a prosperidade da população. O problema é o caminho escolhido: um agourento isolacionismo. Num mundo que tende à multipolaridade, construir muros e romper tratados de comércio internacional não é a melhor maneira de evoluir. Eliminar a versão castelhana do site da Casa Branca, então, é recuo infausto que demonstra estreiteza cultural. «Cê é grande, mas cê não é dois» ‒ responde a sabedoria popular às ameaças do valentão. Deslumbrado com o próprio umbigo, o presidente narcisista não se dá conta de que o mundo gira e o país vai acabar ficando pra trás.

A árvore plantada pelo ingênuo e parlapatão presidente dos EUA não dará os frutos que ele espera. Não tendo entendido como funciona o frágil e sutil equilíbrio entre as nações, optou por entrar de sola, como elefante em loja de cristais. Se for realmente rico como diz ser, deve saber que dinheiro é imune a patriotismo. Caso se sintam incomodados, os grandes capitais de que seu país dispõe não hesitarão em procurar portos mais seguros. E aquele que prometeu fazer «America great again» periga armar um desastre. A continuar por essa vereda, quando se apagarem as luzes do mandato, sua «America» vai estar «smaller» ‒ apequenada.

Procura-se porto seguro

José Horta Manzano

O caldeirão do Oriente Médio ferve. Sempre ferveu, não é de hoje. Ponto de origem e de difusão da civilização ocidental, abriga uma emaranhado de povos díspares. As linhas de fratura passam pela língua, pela religião, pela etnia, pelo histórico de enfrentamentos que alimenta a discórdia. Para engrossar o caldo, há petróleo naquela parte do mundo, o que atrai interesse comercial e político.

Síria: mosaico étnico

Síria: mosaico étnico

Não adianta tapar o sol com a peneira: nunca houve e nunca haverá democracia na região. Pelo menos, democracia como entendemos nós. É inviável, não tem jeito. O intrincado de problemas é de tal grandeza, que não há como formar consenso. O mando será obrigatoriamente autoritário, que não há outra maneira. Todos dirão «sim, senhor» a quem gritar mais alto.

Mais brutais ou menos, mais sanguinárias ou menos, mais restritivas ou menos ‒ essa é a graduação possível entre as ditaduras. Que ninguém espere ver o povo da Síria, do Iraque, do Kuwait e de numerosos outros territórios da região elegendo um dia, democraticamente, seus representantes e dirigentes, numa democracia pluripartidária. Vai demorar muito pra esse dia chegar. Por enquanto, vige a lei do mais forte.

Base militar naval russa de Tartus, Síria

Base militar naval russa de Tartus, Síria

Muita gente tem reclamado da ação dos russos na Síria, de sua aliança com o sanguinário Bashar el-Assad. Pra começar, sanguinários são todos os chefes de guerra daquelas paragens. Não há um melhor que outro. O fato é que a dinastia el-Assad conseguiu segurar o país e manter uma certa estabilidade, ainda que precária, desde 1970.

Quanto aos russos, que o distinto leitor me perdoe a franqueza: não estão nem aí para os povos da região, para o drama dos desabrigados, para o sofrimento dos feridos nem mesmo para os infelizes que perderam a vida. O interesse crucial é conservar a base naval de Tartus, na Síria, concedida a eles por Hafez el-Assad (o pai), nos anos 1970. Desde então, a troca de favores entre Moscou em Damasco tem sido contínua. É um toma lá dá cá. Por um lado, a Rússia faz o necessário para garantir o trono da dinastia alauíta e seu domínio sobre o país. Por outro, o clã garante a cessão da base, verdadeiro «Guantánamo russo».

Bashar el-Assad e Vladimir Putin

Bashar el-Assad e Vladimir Putin

A Rússia, apesar de ser o maior país do planeta em superfície, ressente-se cruelmente da falta de abertura marítima para águas temperadas, livres de gelo o ano inteiro. Para ser operacional o tempo todo, sua frota marítima tem de contar com bases instaladas em clima mais ameno. As instalações de Tartus são ideais para abrigar a frota mediterrânea. Assim como os Assad têm garantido a permanência russa na região, os russos não pretendem abandonar os Assad. Se o clã que domina a Síria é composto por gente pouco recomendável, tanto faz. Essa preocupação não tira o sono dos dirigentes de Moscou.

Só no dia em que as potências entenderem o objetivo maior dos russos é que será possível pensar em trégua, conferência ou acordo de paz. É capital enfiar na cachola que a Rússia sempre dará seu apoio a quem lhe garantir a permanência da base naval.

Plebisul

José Horta Manzano

Nestes tempos de eleições, um plebiscito informal ‒ sem validade legal ‒ está passando em brancas nuvens. De fato, um coletivo de cidadãos formou-se para promover consulta popular no Paraná, em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul com vista a desmembrar os três Estados sulinos do resto do Brasil. Os eleitores foram convocados para este sábado 1° de outubro.

Embora a iniciativa pareça desfocada, merece algumas considerações. Movimentos separatistas sempre existiram no mundo e tudo indica que assim continuará. Para que um divórcio seja viável, é imperativo que exista um problema permanente e insolúvel. Não vislumbro nenhum motivo válido nem irremediável a sustentar o pleito do comitê separatista.

plebisul-2O Brasil, como um todo, vai mal. Disso sabemos todos. Mas sabemos também que há soluções para repor nosso país no bom caminho. Os acontecimentos políticos e sociais dos últimos dois anos, com Lava a Jato & companhia, estão mostrando a via. Embora ainda haja resistência e esperneio de setores interessados em que nada mude, o tempo é senhor do destino: sabemos que as mudanças que estão começando a tomar forma são passos no bom sentido. Portanto, a situação de débâcle que atravessamos não deve nem pode ser considerada definitiva. É grande a esperança de que o amanhã seja melhor.

O planeta está repleto de separações ‒ já consumadas ou apenas desejadas ‒ por razões de absoluta incompatibilidade de coexistência. Motivos religiosos são fonte de fortes atritos: Irlanda, Iraque, Síria, Sudão são exemplos conhecidos. São regiões em que divergências de fé podem levar a enfrentamentos sangrentos. Não é o caso do Sul do Brasil.

Há casos de disparidade linguística. Metade da Ucrânia fala ucraniano, enquanto outra metade fala russo. Uns e outros não se entendem e não fazem questão de conviver sob o mesmo teto. Catalães falam língua própria, diferente do castelhano ‒ língua dominante na Espanha. Em casos assim, muitos advogam a separação como solução. Não é o que acontece no Sul do Brasil. Por lá, todos assistem às mesmas novelas e identificam os diálogos como língua materna, exatamente como ocorre nos demais Estados da União.

plebisul-1Há casos mais cabeludos. A nação curda, unida pela língua, pela religião e pelas tradições, encontra-se espalhada por quatro países. Vicissitudes históricas privaram a nação curda de um Estado. A situação, difícil de resolver, é ponto importante de discórdia entre turcos, sírios, russos e americanos na atual guerra travada naquela região. O «fator curdo» torna a leitura das razões do conflito incompreensível para nós. Nada disso ocorre no Brasil.

Os Estados do extremo sul tanto têm pontos comuns entre si quanto têm parecença com o resto do país. Nem mais, nem menos. Naquelas bandas, faz mais de século que não se ouve falar em províncias oprimidas por um poder central tirânico. Nem mesmo durante a última ditadura isso aconteceu ‒ não foram mais nem menos oprimidos que os demais brasileiros. Aliás, diga-se de passagem que, dos cinco presidentes militares, três eram gaúchos.

Não sei qual é exatamente a intenção do comitê que incentiva esse extravagante movimento separatista. Seja ela qual for, um anseio tão radical não se justifica. Fica a impressão de ser obra de um pequeno grupo que, em vez de baralhar as cartas, melhor faria se contribuísse para o bem comum. Todos temos outras prioridades neste momento. Generosidade é bom.

No topo da Terra

José Horta Manzano

Você sabia?

A não confundir com a Irlanda, a Islândia é um pequeno país, uma ilha situada no extremo norte do Oceano Atlântico, terra de poucas árvores e muitos vulcões. De nome pouco convidativo ‒ Island, do escandinavo is, significa Terra do Gelo ‒ é um dos países de população mais homogênea do globo.

Islândia: gêiser

Islândia: gêiser

É povoada por apenas 300 mil pessoas. Seus habitantes são descendentes de vikings que, vindos da Escandinávia, lá se estabeleceram mil anos atrás. Desde então, a imigração tendo sido praticamente nula, o resultado foi um contingente populacional harmonioso e coeso. Quase todos os ilhéus são aparentados, em maior ou menor grau. Quando um islandês trava amizade com outro, um dos assuntos preferidos é conferir a proximidade de parentesco entre os dois. Serão primos em nono grau? Em décimo segundo? Todo islandês, principalmente os jovens, tem instalada no telefone celular uma aplicação específicamente desenvolvida para facilitar a busca genealógica.

Islândia: banho em piscina termal natural

Islândia: banho em piscina termal natural

A terra é fértil, mas o clima não ajuda. Não é que faça frio exagerado ‒ os invernos são menos rigorosos que os da Europa Central. Na capital, Reykjavik, a média das temperaturas mínimas do mês mais frio é de 3°C abaixo de zero. Para comparação, a alemã Munique registra, no mesmo mês, 5° abaixo de zero.

O que falta, na Islândia, é calor. Em julho, o mês mais quente, a média das temperaturas mais elevadas não alcança 14°C. Uma «tórrida» tarde de vinte graus merece manchete de jornal no dia seguinte.

Islândia: estufas aquecidas por geotermia

Islândia: estufas aquecidas por geotermia

Em compensação, a terra é rica em fontes, lagos e gêiseres de água muito quente. Essa abundância gratuita de fontes de calor traz vantagens não desprezíveis. Canalizada, a água fervente serve para aquecer casas e imóveis, tornando desnecessária a queima de combustível. A atmosfera agradece.

A água quente serve também para climatizar grandes estufas onde se cultivam frutas e legumes que, ao ar livre, não vingariam. Consequência curiosa: a Islândia é o maior produtor europeu de banana. A poucos quilômetros do Círculo Polar Ártico, quem diria, não?

Islândia: estufa aquecida por geotermia

Islândia: estufa aquecida por geotermia

Assim mesmo, a maior riqueza do país foi e continua sendo a pesca, base da alimentação e da economia da ilha. A regulação rigorosa que a União Europeia impõe às atividades pesqueiras é, aliás, o freio que retém os islandeses de pleitear adesão à UE.

Fiquei sabendo hoje que os primeiros refugiados sírios foram recebidos na Islândia. São 50 pessoas, o que não parece muito. No entanto, comparados à população da ilha, equivalem a um Brasil dando asilo a 3500, de uma vez só. De memória, não me ocorre registro semelhante.

Reykjavik, cidade capital da Islândia

Reykjavik, cidade capital da Islândia

Num comportamento exemplar, os islandeses acolheram de braços abertos esses estrangeiros, no sentido mais amplo da expressão. Milhares se propuseram a ajudar. Houve quem oferecesse um quarto da própria residência, houve quem propusesse um emprego. Lojas e firmas se cotizaram para dar uma mão. Ikea, o gigante escandinavo da fabricação de móveis, deu um cheque de 700 euros a cada asilado, para ser descontado na compra do que lhes for útil dentro do sortimento da loja. O governo do país se comprometeu a oferecer a todos curso de islandês além de uma ajuda de custo durante os primeiros meses, até que se ajeitem.

Há quem pode mais, há quem pode menos. Se a gente olhar em volta, vai sempre encontrar alguém mais necessitado que nós. Parabéns aos simpáticos islandeses.

Islândia 6Nota edificante
Sigmundur Davíð Gunnlaugsson, primeiro-ministro do país, foi flagrado em envolvimento no escândalo dos ‘Panama Papers’. Não deu outra: em 24 horas, foi defenestrado pelos conterrâneos indignados.

Recebendo refugiados

José Horta Manzano

Chamada do Estadão, 6 set° 2015

Chamada do Estadão, 6 set° 2015

Alguém está brincando com as palavras. Só nestes últimos dois dias, depois que a chanceler deu seu acordo, a Alemanha recebeu 27 trens lotados de refugiados. Calcula-se em 7000 o número total de recém-chegados. Em pouco mais de 24 horas.

Chamada do alemão Die Welt, 6 set° 2015

Chamada do alemão Die Welt, 6 set° 2015

Uma coisa é prometer, outra, bem diferente, é fazer. Como dizem os italianos, «tra il dire e il fare, c’è di mezzo il mare» – entre o dizer e o fazer, há um oceano.

Lágrimas de crocodilo

José Horta Manzano

Letras 1Discurso da presidenta é um perigo. Principalmente se for feito de improviso. E piora quando não há grande coisa a dizer – como costuma acontecer. A boa cidade de João Pessoa teve direito a uma amostra estes dias.

Todos sabem que dona Dilma peleja com a língua portuguesa. A briga é constante. O problema maior da fala da mandatária é a falta de coerência do discurso, que deixa no ar a suspeita de que seu pensamento também seja falho de lógica.

Boulet 1Há um trecho digno de nota. É quando madame declara que: «Esse país também precisa encarar de frente a questão da igualdade racial.» Temos aí três problemas.

Primeiro, o problema da convivência racial – amplificado pelos companheiros, por razões eleitoreiras. Continuar soprando sobre brasas não é a melhor solução.

Segundo, um problema de convivência pronominal. Esse país? Que país? A presidente deve ter-se enganado. Aposto que ela se referia a este país.

Terceiro, um problema pleonástico. Sua Excelência falou em encarar de frente. Como é que é? E a alguém viria a ideia de encarar de costas, presidente? Esse é parente de ver com os olhos e de entrar pra dentro.

Crocodilo 1Há mais. A meu ver, o pior foi a comprovação de que o discurso presidencial é vazio, são palavras ao vento, sem eira nem beira. Vejam como foi.

Numa tentativa de surfar na onda do momento, madame evocou aquele infeliz bebê resgatado sem vida numa praia turca. Afirmou que o menino morreu porque «os países» criaram barreiras para refugiados. Nessa altura, faltou o gesto de grandeza – ninguém pode dar o que não tem.

Dona Dilma ateve-se a acusar «os países», totalmente esquecida de que ela preside um deles. Com a mente colonizada pela influência de seus correligionários, botou a culpa nos outros, como é hábito entre seus companheiros.

Faz mais de quatro anos que dona Dilma preside este país. Digo bem: este. A guerra civil já dura anos na Síria. Que se saiba, nossa mandatária não mexeu uma palha para acolher famílias de refugiados.

Refugiados sírios segundo a contagem da Agência da ONU para refugiados

Refugiados sírios segundo a contagem da Agência da ONU para refugiados

Derramar lágrimas agora e, levianamente, acusar «os países» de negar refúgio a perseguidos soa hipócrita e demagógico.

Terminado o discurso de João Pessoa, como é que fica? Constrói-se uma passarela para acolher famílias sírias? Ou vira-se a página e fica tudo como estava antes?

Interligne 18b

PS: Para almas tolerantes que tiverem a pachorra, o site oficial do planalto publicou o discurso da mandatária. Na íntegra.

Vítimas esquecidas

José Horta Manzano

O Brasil tem 200 milhões de habitantes. A Suíça, 8 milhões. Dá uma proporção de 25 brasileiros para cada suíço.

O Brasil tem sido país de imigração desde que o primeiro navegador aportou. A quase totalidade do povo descende de gente que chegou, por vontade ou à força, de outros continentes. Eram verdadeiros imigrantes: vieram para ficar.

A Suíça tem forte contingente de estrangeiros. Apesar disso, não aparece entre tradicionais países de imigração. Os forasteiros, em maioria vindo de países vizinhos, guardam contacto íntimo com a pátria. Conservam língua e costumes. Sempre que podem, passam férias no país onde nasceram. Chegada a idade da aposentadoria, é comum retornarem ao lugar de origem.

Siria 2No Brasil, calcula-se em 2 milhões os descendentes de árabes – predominantemente sírios e libaneses. Desconheço estatísticas suíças sobre esse particular. Seja como for, o número de sírio-libaneses é ínfimo.

Já faz alguns anos que a Síria, como bem sabem meus distintos leitores, atravessa período turbulento. Bombardeios, atentados, balas perdidas, perseguições, execuções sem julgamento, prisões arbitrárias, atrocidades, destruição em massa, ataques a minorias. A guerra civil é medonha. Quase sete milhões de infelizes – um terço da população – foram obrigados a abandonar tudo o que possuíam e fugir pra salvar a pele.

Parte dos exilados vive em acampamentos precários na Turquia, na Jordânia ou no Líbano. A maior parte dos expulsos não tem para onde fugir: vagam ao deus-dará dentro do próprio país. Uma desumanidade.

O portal Último Segundo informa que, nos últimos quatro anos, o Brasil deu refúgio a exatos 1524 sírios. Quanto à Suíça, as mais recentes estatísticas indicam a presença de 4000 refugiados daquele país. E isso não é tudo. O governo helvético acaba de anunciar que vai dar asilo, ao longo dos próximos três anos, a mais três mil sírios, perfazendo um total de sete mil refugiados daquele castigado país.

Siria 1Guardando a proporção (25 brasileiros para cada suíço) e extrapolando o número de asilados, a aritmética é implacável: para fazer igual, o Brasil deveria acolher 175 mil refugiados sírios. E isso sem levar em conta os laços de parentesco, simpatia e amizade que unem os dois países há mais de um século. Amigo deveria ser pra essas coisas. Ou não?

Realmente, o cálculo não bate, não faz sentido. Refugiado não vota, será por isso que não desperta o interesse dos poderosos? Francamente, se temos dinheiro até para perdoar dívida de ditaduras africanas, deveria sobrar um pouquinho para dar uma mão a um povo com o qual temos ligação tão forte.

Hoje em dia, na hora de tentar asilo no Brasil, criminoso tem mais chance que vítima de guerra.

É no Iraque?

José Horta Manzano

Você sabia?

Quais são as cidades mais violentas do mundo? Onde é que o número de homicídios é mais elevado? Assim, de supetão, a lógica aponta para o Oriente Médio ― Bagdá, Damasco. Talvez Cabul ou mesmo alguma metrópole africana, que a coisa por lá, às vezes, pega feio. Será?

Pois o Consejo Ciudadano para la Seguridad Pública y Justicia Penal, organização com sede no México, fez o estudo. Apurou minuciosamente o número de assassinatos cometidos no planeta em 2013. Em seguida, confrontou com a população de cada localidade. E acaba de publicar, para cada cidade, a taxa de homicídios por 100 mil habitantes .

O resultado é assustador. Entre as 50 cidades mais violentas do mundo, não há nenhuma do Oriente Médio. Estão lá somente 3 africanas ― todas na África do Sul. E o resto? Pasmem: as outras 47 estão localizadas no continente americano.

Estão lá 9 do México, 6 da Colômbia, 5 da Venezuela, 4 dos Estados Unidos, 2 de Honduras. Outros 5 países contribuem com uma cidade cada um. Mas… a conta não bate. Para chegar a 50, faltam 16 cidades. E onde é que elas estão? Uma bala perdida para quem errar.

Yes! Estão no Brasil sim, senhor! Dezesseis cidades. Das cinquenta piores, uma em cada três é nossa. Um detalhe inquietante: sete dessas capitais violentas sediarão jogos da «Copa das copas». Welcome, mister!

Nessa lista das mais violentas, uma cidade sul-africana aparece na 41a. posição. É justamente aquela que homenageia Nelson Mandela, prêmio Nobel da paz e pacificador da África do Sul.

O destino, por vezes, tem umas tiradas desconcertantes.

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    Cidade              País       Homicídios   Habitantes     Taxa
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01  San Pedro Sula      Honduras        1,411      753,990   187.14
02  Caracas             Venezuela       4,364    3,247,971   134.36
03  Acapulco            México            940      833,294   112.80
04  Cali                Colômbia        1,930    2,319,684    83.20
05  Maceió              Brasil            795      996,733    79.76
06  Distrito Central    Honduras          946    1,191,111    79.42
07  Fortaleza           Brasil          2,754    3,782,634    72.81
08  Guatemala           Guatemala       2,123    3,103,685    68.40
09  João Pessoa         Brasil            515      769,607    66.92
10  Barquisimeto        Venezuela         804    1,242,351    64.72
11  Palmira             Colômbia          183      300,707    60.86
12  Natal               Brasil            838    1,454,264    57.62
13  Salvador            Brasil          2,234    3,884,435    57.51
14  Vitória             Brasil          1,066    1,857,616    57.39
15  São Luís            Brasil            807    1,414,793    57.04
16  Culiacán            México            490      897,583    54.57
17  Ciudad Guayana      Venezuela         570    1,050,283    54.27
18  Torreón             México            633    1,167,142    54.24
19  Kingston            Jamaica           619    1,171,686    52.83
20  Cidade do Cabo      África do Sul   1,905    3,740,026    50.94
21  Chihuahua           México            429      855,995    50.12
22  Victoria            México            167      339,298    49.22
23  Belém               Brasil          1,033    2,141,618    48.23
24  Detroit             EUA               332      706,585    46.99
25  Campina Grande      Brasil            184      400,002    46.00
26  New Orleans         EUA               155      343,829    45.08
27  San Salvador        El Salvador       780    1,743,315    44.74
28  Goiânia             Brasil            621    1,393,575    44.56
29  Cuiabá              Brasil            366      832,710    43.95
30  Nuevo Laredo        México            172      400,957    42.90
31  Manaus              Brasil            843    1,982,177    42.53
32  Santa Marta         Colômbia          191      450,020    42.44
33  Cúcuta              Colômbia          260      615,795    42.22
34  Pereira             Colômbia          185      464,719    39.81
35  Medellín            Colômbia          920    2,417,325    38.06
36  Baltimore           EUA               234      619,493    37.77
37  Juárez              México            505    1,343,406    37.59
38  San Juan            Puerto Rico       160      427,789    37.40
39  Recife              Brasil          1,416    3,845,377    36.82
40  Macapá              Brasil            160      437,256    36.59
41  Nelson Mandela Bay  África do Sul     412    1,152,115    35.76
42  Maracaibo           Venezuela         784    2,212,040    35.44
43  Cuernavaca          México            227      650,201    34.91
44  Belo Horizonte      Brasil          1,800    5,182,977    34.73
45  Saint Louis         EUA               109      319,294    34.14
46  Aracaju             Brasil            300      899,239    33.36
47  Tijuana             México            536    1,649,072    32.50
48  Durban              África do Sul   1,116    3,442,361    32.42
49  Porto Príncipe      Haiti             371    1,234,414    30.05
50  Valencia            Venezuela         669    2,227,165    30.04

As 16 cidades brasileiras estão assinaladas

A omelete e os ovos

José Horta Manzano

A alegria de uns…
Curvados e contritos, alguns grandes deste mundo estão à cabeceira da moribunda Síria. Tentam pôr-se de acordo para salvar o que ainda puder ser salvo.

Não é a primeira vez que se reúnem para esse mesmo fim, mas a gente sempre espera que seja a última. Torcemos todos para que se alcance um compromisso que garanta aos diferentes estratos do infeliz povo sírio uma convivência pacífica. Atritos e tensões sempre haverá, não nos enganemos. Mas tomara que cheguem a um acordo para, pelo menos, mitigar o conflito. Inshallah!

Se isso acontecer, os homens de boa-vontade se alegrarão. Na Síria e no resto do mundo.

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… e a irritação de outros
Não se faz omelete sem partir ovos ― dizem os portugueses. Para juntar um punhado de figurões, é preciso cautela e extrema vigilância.

Não por acaso, as autoridades suíças estão habituadas a acolher mandachuvas. A cidade de Genebra abriga, entre outros organismos, a sede europeia da ONU, a OIT (Organização Internacional do Trabalho), a OMM (Organização Meteorológica Mundial), a OMS (Organização Mundial da Saúde), a UIT (União Internacional das Telecomunicações), a UPU (União Postal Universal), o CICR (Comitê Internacional da Cruz Vermelha), a OMC (Organização Mundial do Comércio). E muitas outras menos conhecidas, sem contar as embaixadas, legações, consulados e missões permanentes.

Conferência Genebra II Crédito: AFP, Fabrice Coffrini

Conferência Genebra II
Crédito: AFP, Fabrice Coffrini

Gente importante vem e vai todos os dias, mas há dias mais especiais que outros. As reuniões da Conferência Genebra II, sobre o problema sírio, chamam a atenção do mundo inteiro. Portanto, todo cuidado é pouco para evitar atentados ou qualquer tipo de perturbação.

Apesar do nome, o encontro não se realiza em Genebra, mas em Montreux, pequena cidade turística à beira do Lago Leman, uma centena de quilômetros mais adiante. O pequeno burgo está em polvorosa. O Palace Hotel, palco das reuniões e lugar de hospedagem de várias comitivas, foi tomado de assalto. O tráfego está perturbado, as redondezas bloqueadas, ninguém pode se aproximar a menos de 100m do local. Parece praça de guerra.

Montreux Palace Hotel

Montreux Palace Hotel

Alguns comerciantes estão furiosos, porque simplesmente não terão movimento estes três dias. A farmácia, o salão de beleza, os pequenos comércios situados nas proximidades do hotel não têm chance nenhuma de ver entrar algum cliente. Estão até preparando um pedido de indenização à prefeitura.

Vamos torcer para que os frutos sejam bons: que a conferência seja um sucesso e que os comerciantes de Montreux recebam uma compensação pelo prejuízo. Não será fácil ― nem para estes, nem para aqueles.

Os dois tabus

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 4 jan° 2014

Desde que o mundo é mundo, a humanidade cultiva dois temas sensíveis: raça e religião. Lidar com eles requer prudência e tacto. Evitar acidentes é dever de todos.

Embora a razão de ser de toda religião seja a crença na continuação da vida após a morte física, a diversidade de ritos, dogmas, preceitos, obrigações, proibições é notável. Cada credo tem seu catálogo de regras. O assunto, delicado, é daqueles que se hão de tratar com luvas e pinça. Muita guerra já se travou e muita gente já morreu por divergências religiosas.

O Brasil teve sorte. As práticas animistas dos habitantes originários e o aporte de tradições africanas atenuaram a rigidez e o dogmatismo de colonizadores e de imigrantes. Embora nem sempre nos apercebamos disso, é de reconhecer que não padecemos de conflitos religiosos. Vão longe os tempos da Controvérsia de Valladolid, da Inquisição e das conversões forçadas. O afluxo de gente de vários quadrantes incutiu tolerância à índole nacional.

Visto assim do alto, esse traço de nosso caráter pode até parecer banal. Pois não é. Há pontos no globo onde ainda se luta por divergências de fé. Como prova, estão aí a Irlanda do Norte, o Egito, o Sudão, o Tibete. Até na Europa Ocidental, fricções de ordem religiosa obrigam parlamentos a legislar sobre vestimenta feminina ― o porte da burca ou do véu islâmico, por exemplo. Em nossas terras, a sunga e o fio dental já cuidaram de banir esses rigores. Nosso problema está resolvido.

Stop racismo! Crédito: harrycutting.com

Stop racismo!
Crédito: harrycutting.com

O racismo, outro tema sensível, planta raízes nos estratos mais primitivos do subconsciente. É a manifestação da desconfiança que dedicamos aos que não pertencem a nosso clã. Na prática, esse sentimento se exprime através da repulsa aos que têm cor de pele diferente da nossa, que não falam nossa língua, que não se comportam como nós. Em resumo: rejeitamos o que foge à norma.

Países onde coexistem etnias diferentes costumam ser palco de fricções. Um nada pode provocar conflitos. Essa intolerância está na raiz de atritos crônicos na Palestina, na Síria, no Iraque, na Índia, na Rússia. Na mesma linha, rebeliões nas periferias francesas e surtos de violência nos EUA nos lembram que a paz racial está longe de ser conquista planetária.

Múltiplos fatores forjaram o Brasil. Temos qualidades de fazer inveja: clima agradável, gente afável, ambiente tolerante, povo acolhedor. Mas arrastamos problemas pesados: corrupção, paternalismo, baixa instrução crônica, gritantes disparidades econômicas.

«Deus é brasileiro», dizemos às vezes. Pois olhe, ainda que não passe de um dito jocoso, o fato é que, até hoje, conseguimos escapar da armadilha dos dois grandes tabus. Costumamos encarar com bonomia a diversidade religiosa de nosso povo. Tem até gente que professa duas religiões! A fé ― ou a descrença ― de cada um não constitui obstáculo à convivência. Na esfera racial, a intensa miscigenação do povo brasileiro é a prova maior de que a tolerância e a flexibilidade são a regra, não a exceção. E é melhor assim.

Sabe-se lá por que, de uns anos para cá, o ideal de igualdade e de unidade que alicerça nossa sociedade vem sendo artificialmente solapado. O elenco de normas oficiais passou a dispensar tratamento diferente a determinadas categorias de cidadãos segundo critérios raciais. Cotas e quilombos ― noções inexistentes até há pouco tempo ― entraram na pauta da modernidade brasileira.

A intenção, apesar de leviana, foi nobre. Já o resultado, a médio prazo, pode escorregar para uma ladeira perigosa e não prevista. «Discriminação positiva» é conceito ambíguo: positiva ou negativa, discriminação será sempre discriminação. Para subir de um lado, a gangorra tem de descer do outro. A cada vez que um grupo de cidadãos for privilegiado, a lógica elementar ensina que outro grupo será obrigatoriamente defraudado.

Stop racismo!

Stop racismo!

Políticas desse jaez trafegam na contramão do processo civilizatório ― são danosas para a consolidação de um sentimento de unidade nacional. Pelo contrário, podem atiçar melindres raciais, semear ressentimentos e abalar a concórdia que costumava reinar entre nós.

Se o nível de instrução pública é baixo, que se faça o necessário para elevá-lo. Dar como favas contadas que alguns são menos instruídos que outros unicamente por terem cor de pele diferente é generalização barata, uma falácia, uma ofensa. Estamos cutucando a onça com vara curta. Cuidado, ela pode se enervar!

Que a aragem leve do novo ano sopre sabedoria a nosso legislador. Mais vale recuar enquanto é tempo. Feliz ano-novo a todos!

Pinho-de-riga

José Horta Manzano

Dia 1° de janeiro, o euro ― a moeda comum a 12 países da União Europeia ― ganhou um novo afiliado. É uma daquelas três pequenas nações que agrupamos sob o nome genérico de «países bálticos», embora haja diferenças consideráveis entre elas. De comum, têm a incômoda proximidade com o gigante russo, vizinho de parede que lhes atormenta a existência faz séculos.

Imensa extensão de terra encravada no norte da Ásia, a Rússia sempre procurou uma saída marítima em águas «quentes», daquelas que não congelam no inverno. É o que explica que Moscou tenha ocupado, desde o fim da Segunda Guerra, algumas ilhotas do norte do Japão. Explica também por que fincaram pé em Kaliningrad (a antiga Königsberg), onde ainda hoje mantêm um enclave ― com frente para o mar evidentemente. Esclarece por que surrupiaram dos finlandeses a península de Kola. Deixa evidente por que apoiam o regime da Síria, país onde mantêm a base naval de Tartus.

Os três países bálticos sempre fizeram fronteira com o Império Russo. Além disso, sempre dispuseram de abertura para o Mar Báltico. Vai daí…

Tiveram de esperar a decomposição da União Soviética para lograrem sua independência.

Riga, capital da Letônia

Riga, capital da Letônia

Bem, falei, falei, e ainda não lhes disse qual é o nome do 13° membro da Zona do Euro. Mais de uma vez já tenho lido ― e da pluma de gente fina! ― que o novo afiliado é a Latvia. Não sei se será pressa, preguiça, desleixo, ignorância. Talvez uma mistura de tudo isso. Mas está errado.

As agências noticiosas despacham geralmente em inglês, eis por que falam em Latvia. Em português, faz séculos que esse país tem nome. Chama-se Letônia. Diz-se letão do que vem de lá, gente ou coisa.

Riga é a charmosa capital do pequeno país. Legou-nos a expressão pinho-de-riga, madeira bastante usada em construção.

Então, ficamos combinados, hein! Os países bálticos são: a Estônia, a Lituânia e a Letônia.

Rapidinha 6

José Horta Manzano

Cumprindo a parte que lhe toca no acordo, equipes da Opaq , a Organização para a Proibição de Armas Químicas, começam seu trabalho de de neutralização do armamento químico estocado pelas forças sírias.

No fundo, esse final feliz ― se é que se pode atribuir esse adjetivo ao apaziguamento de um conflito que já fez dezenas de milhares de mortos e centenas de milhares de refugiados ― enfim, esse final menos infeliz aquieta todos sem satisfazer a ninguém.

Os cristãos, os alauítas e outras etnias minoritárias, que se encontravam bem sob o regime, passam a sobreviver terrorizados por membros de outras etnias e, principalmente, por ideólogos e mercenários vindos do estrangeiro. Outros grupos, que viviam oprimidos pelo regime, têm de continuar a sentir o peso da bota dos mandachuvas.

Tambor de armazenamento

Tambor de armazenamento

Os Estados Unidos, sem perder totalmente a face, não saíram glorificados do episódio. Tiveram de refrear seu ímpeto belicoso e procurar outro freguês. A Rússia foi quem mais ganhou. Firmou a imagem de sua diplomacia, provou que tinha razão desde o início. Mas ― nada é perfeito ― terá de se conformar com a ingerência de técnicos da Opaq esquadrinhando o território do aliado sírio.

Fica no ar uma pergunta. Como é que os técnicos terão certeza de haver destruído todo o arsenal químico? Tanques de guerra e aviões são difíceis de esconder ― qualquer satelitezinho mambembe consegue enxergá-los. Mas… tambores ou caixotes de produtos químicos? Dá pra esconder uma boa quantidade em qualquer puxadinho.

Mais um desperdício

José Horta Manzano

Seguindo uma tradição não escrita, o representante do Brasil é o primeiro a discursar, a cada ano, na abertura da Assembleia-geral das Nações Unidas. Essa praxe perdura há 65 anos, desde que o chanceler Oswaldo Aranha inaugurou a primeira dessas reuniões de gala.

Todo o mundo sabe que as grandes decisões não são tomadas em assembleias públicas, com a presença de representantes de quase 200 países, luzes, câmeras e ação. Os destinos do planeta são decididos em conciliábulos bem mais discretos. Conversas de corredor costumam ser mais produtivas que discursos inflamados e ostensivos.

Assim mesmo, o fato de o presidente do Brasil ser o primeiro a discursar é um privilégio a não desperdiçar. Exatamente como aconteceu com Oswaldo Aranha em 1947, os ouvidos do auditório estarão frescos e descansados quando dona Dilma fizer seu pronunciamento. Ser o primeiro é melhor do que ser o décimo nono ou o quinquagésimo segundo.

Os holofotes do mundo estão apontados para a guerra na Síria, para os tímidos sinais de abertura chegados de Teerã, para o crônico problema palestino, para o tráfico de entorpecentes, para os transtornos climáticos. Seria uma ocasião de ouro para o Brasil ― eterno candidato a uma cadeira cativa no Conselho de Segurança ― mostrar seu envolvimento nos assuntos planetários e fazer saber qual é sua posição com relação a cada um deles.

O discurso de dona Dilma by Amarildo Lima

O discurso de dona Dilma
by Amarildo Lima

Que esperança! Pelo que está anunciado, nossa presidente prepara-se para malbaratar, pela enésima vez, a oportunidade que nos é dada uma vez por ano. Os luminares do Planalto, que não conseguiram até hoje se libertar de seu complexo de inferioridade e de perseguição, prepararam para dona Dilma uma fala surreal.

No momento em que escrevo, o discurso ainda não foi pronunciado. Mas o que se prevê é que nossa presidente exponha à luz dos refletores o fato de ter descoberto que grandes potências se espionam entre si, e que, ocasionalmente, podem até espionar países menos relevantes, como o nosso. Horror!

Aonde queremos chegar com essas reclamações? Nem os ideólogos que prepararam o discurso da presidente parecem saber direito o que querem. É importante ser realista. O choramingar ofendido da discursante não comoverá ninguém. Todos aplaudirão polidamente, virarão a página, e passarão a assuntos mais sérios.

No rastro do famigerado controle social da mídia, objetivo sonhado pelos que nos governam há mais de dez anos, dona Dilma pretende propor uma espécie de controle planetário dos meios de comunicação. Na sua imaginação, esse controle fechará todas as portas à espionagem.

O que Sua Excelência omitirá é o fato de a CIA (inteligência americana) e a PF (Polícia Federal brasileira) estarem colaborando estreita e regularmente há décadas. Ela tampouco dirá que a PF e a embaixada dos EUA formalizaram um acordo em 2010, durante o governo de seu predecessor. Aos incrédulos, aconselho conferir rapidamente o que publicou a Folha de São Paulo no dia 15 set° 2013.

Vejo algumas explicações possíveis para essa aparente incongruência:

1) Talvez nossa presidente não esteja a par dessas práticas.
Se assim for, está aí a prova cabal de que estamos sendo governados por um elenco de amadores que não entende do riscado. Não tinham experiência e nada conseguiram assimilar nestes doze anos de poder.

2) Talvez nossos mandachuvas realmente acreditem que o caminho é esse.
Se assim for, está aí a demonstração de uma ingenuidade pueril, digna de mentes adolescentes. Na cabeça de governantes de um país como o nosso, destoa.

3) Talvez o Planalto esteja apenas jogando para a galeria.
Esse é o pior cenário. Se assim for, ficam patentes todos os defeitos: a incapacidade, a ingenuidade e, para coroar, a má-fé. Tudo junto.

Interligne 18h

Como disse uma vez o grande Tom Jobim, «o Brasil não é para principiantes». Fosse o maestro ainda vivo, sabe Deus o que diria ao ver que os próprios governantes do País não passam de aprendizes.

A intervenção

José Horta Manzano

Quem examinar um mapa do Oriente Médio atual, com seus países bem delimitados e desenhados em diferentes cores, dificilmente se dará conta de que aquela partilha territorial é criação totalmente artificial.

Desde tempos imemoriais, a extremidade leste do Mediterrâneo foi habitada. Para lá convergiram populações vindas de horizontes diversos, cada qual com sua língua, seus costumes, suas tradições, sua religião.

Seja pela fertilidade de alguns de seus vales, seja por razões religiosas, seja ainda por sede de poder econômico, muitos se interessaram por aquelas terras ― tanto gente miúda, quanto poderosos. Desde os sumérios e os hititas, muitos povos habitaram a região. Até mesmo os romanos estenderam seus domínios até lá, ao conquistarem a orla mediterrânea do Oriente Médio.

Após a débâcle de Roma, Constantinopla, a atual Istambul, tornou-se o centro de gravidade. Dali saíam as ordens e ali chegavam os impostos, que é o que mais interessava.

A partir do século X, levas de população turcomana provenientes da Ásia Central arribaram e fincaram pé no extremo leste da Anatólia, a península onde se assenta a Turquia atual. Era um povo aguerrido. Seus chefes tinham sede de expansão.

Em cinco séculos, conquistaram toda a Anatólia, tomaram Constantinopla, desbancaram o Império Romano do Oriente, subjugaram a península balcânica e chegaram às portas de Viena. O Oriente Médio, do Mar Negro ao Egito, da Arábia Saudita à Tunísia foi submetido a uma dominação turca que duraria 400 anos. Formou-se o longevo Império Otomano.

Império Otomano

Mas o mundo gira. Quando estourou a Grande Guerra, em 1914, o sultão de Constantinopla tomou uma decisão que levaria ao desaparecimento do império: aliou-se à Alemanha. Perderam a guerra. O Tratado de Sèvres (1920) e o Tratado de Lausanne (1923) sacramentaram o esfacelamento da velha potência e sua partilha entre os vencedores.

A região foi retalhada na prancheta pelos vencedores. Inglaterra e França, potências dominantes à época, decidiram quem ficaria com o quê. E desenharam o contorno dos novos países. Raças, religiões, costumes, línguas e tradições não foram a preocupação maior dos novos mandatários.

O resultado foi a criação de países artificiais. A Síria, o Iraque, a Jordânia, o Líbano abrigam populações heterogêneas, que pouco têm a ver entre si. Dentro das fronteiras nacionais coabitam inimigos históricos.

Se um simulacro de coesão subsistiu até nossos dias, foi porque cada um dos novos países foi governado com mão de ferro por ditaduras ou governos pra lá de autoritários. Foi uma calma de aparência, como a que se viu na  Iugoslávia de Tito, na Espanha de Franco, na Tchecoslováquia comunista.

Nós outros, que vivemos em nações mais uniformes e que desconhecemos tensões étnicas ou religiosas, temos dificuldade em entender a realidade daquela região. Em palavras mais chãs, temos a impressão de que todos são meio malucos por ali, que se agridem sem real motivo.

É um pouco mais complicado que isso. A Síria, como o Iraque e os vizinhos, abriga nações díspares. Um curdo da Síria deve sentir-se tão sírio quanto um escocês se sente inglês. Certos xiitas de Basra consideram-se tão iraquianos quanto certos bascos se consideram espanhóis. A região é uma verdadeira colcha de retalhos.

Estes dias, o presidente da França e o primeiro-ministro britânico ameaçaram fornecer armas aos oponentes do mandachuva sírio. À primeira vista, parece uma decisão justa. Se a ditadura pode, impunemente, massacrar seu próprio povo, por que razão não auxiliar os pequeninos a se defenderem?

Desgraçadamente, o problema não é assim tão simples. Se, por hipótese, o ditador for apeado do poder, quem tomará seu lugar? Qual das minorias sobrepujará as demais? Vamos simplesmente trocar uma ditadura por outra?

Longe de mim aprovar que velhos, mulheres e crianças sejam trucidados nessa guerra sem fim. Que o ditador abandone seu trono e vá curtir o resto de seus dias nalgum paraíso ― há sempre gente interessada em acolher endinheirados. Mas como ficará depois?

Não tenho a resposta, muito menos o poder de interferir. Não tenho muita fé, mas sempre resta um fio de esperança de que os grandes deste mundo estejam pensando nisso.

Como em 1918, são justamente a França e a Grã-Bretanha as potências que se dizem prontas a intervir. Que intervenham, pois, e que ponham fim ao massacre. E que redesenhem o mapa da região levando em conta, desta vez, o interesse das populações. Não será tarefa fácil.

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Nota: Um artigo do Estadão de 17 de março, de autoria de Guilherme Russo, vem corroborar minha opinião. Quem se interessar vai encontrá-lo aqui.