Plebisul

José Horta Manzano

Nestes tempos de eleições, um plebiscito informal ‒ sem validade legal ‒ está passando em brancas nuvens. De fato, um coletivo de cidadãos formou-se para promover consulta popular no Paraná, em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul com vista a desmembrar os três Estados sulinos do resto do Brasil. Os eleitores foram convocados para este sábado 1° de outubro.

Embora a iniciativa pareça desfocada, merece algumas considerações. Movimentos separatistas sempre existiram no mundo e tudo indica que assim continuará. Para que um divórcio seja viável, é imperativo que exista um problema permanente e insolúvel. Não vislumbro nenhum motivo válido nem irremediável a sustentar o pleito do comitê separatista.

plebisul-2O Brasil, como um todo, vai mal. Disso sabemos todos. Mas sabemos também que há soluções para repor nosso país no bom caminho. Os acontecimentos políticos e sociais dos últimos dois anos, com Lava a Jato & companhia, estão mostrando a via. Embora ainda haja resistência e esperneio de setores interessados em que nada mude, o tempo é senhor do destino: sabemos que as mudanças que estão começando a tomar forma são passos no bom sentido. Portanto, a situação de débâcle que atravessamos não deve nem pode ser considerada definitiva. É grande a esperança de que o amanhã seja melhor.

O planeta está repleto de separações ‒ já consumadas ou apenas desejadas ‒ por razões de absoluta incompatibilidade de coexistência. Motivos religiosos são fonte de fortes atritos: Irlanda, Iraque, Síria, Sudão são exemplos conhecidos. São regiões em que divergências de fé podem levar a enfrentamentos sangrentos. Não é o caso do Sul do Brasil.

Há casos de disparidade linguística. Metade da Ucrânia fala ucraniano, enquanto outra metade fala russo. Uns e outros não se entendem e não fazem questão de conviver sob o mesmo teto. Catalães falam língua própria, diferente do castelhano ‒ língua dominante na Espanha. Em casos assim, muitos advogam a separação como solução. Não é o que acontece no Sul do Brasil. Por lá, todos assistem às mesmas novelas e identificam os diálogos como língua materna, exatamente como ocorre nos demais Estados da União.

plebisul-1Há casos mais cabeludos. A nação curda, unida pela língua, pela religião e pelas tradições, encontra-se espalhada por quatro países. Vicissitudes históricas privaram a nação curda de um Estado. A situação, difícil de resolver, é ponto importante de discórdia entre turcos, sírios, russos e americanos na atual guerra travada naquela região. O «fator curdo» torna a leitura das razões do conflito incompreensível para nós. Nada disso ocorre no Brasil.

Os Estados do extremo sul tanto têm pontos comuns entre si quanto têm parecença com o resto do país. Nem mais, nem menos. Naquelas bandas, faz mais de século que não se ouve falar em províncias oprimidas por um poder central tirânico. Nem mesmo durante a última ditadura isso aconteceu ‒ não foram mais nem menos oprimidos que os demais brasileiros. Aliás, diga-se de passagem que, dos cinco presidentes militares, três eram gaúchos.

Não sei qual é exatamente a intenção do comitê que incentiva esse extravagante movimento separatista. Seja ela qual for, um anseio tão radical não se justifica. Fica a impressão de ser obra de um pequeno grupo que, em vez de baralhar as cartas, melhor faria se contribuísse para o bem comum. Todos temos outras prioridades neste momento. Generosidade é bom.

A Eurocopa e seus nomes

José Horta Manzano

Já a caminho das quartas de final, a Eurocopa 2016 tem quebrado alguns recordes. Até agora, cada partida teve, em média, 1,6 gols ‒ o número mais baixo desde mil novecentos e nada. A crise anda feia. Estão economizando até gols, o sal e a pimenta do esporte. A continuar assim, teremos de decretar vitória por pontos, como no boxe.

Algumas curiosidades já apareceram. A Irlanda venceu a Itália, uma das favoritas. A Islândia, considerada a equipe mais fraca, empatou com Portugal e com a Hungria. E venceu a Áustria. Dizem que trinta mil islandeses ‒ dez por cento da população do país! ‒ estão na França para torcer pela seleção.

A torcida islandesa

A torcida islandesa

Como de costume, o nome de certos jogadores, especialmente do leste europeu, são impronunciáveis. E alguns até soam engraçado. Na categoria dos trava-línguas, notei dois poloneses imbatíveis: Błaszczykowski e Jędrzejczyk, nomes reservados para iniciados. Se sua língua ainda estiver inteira, tente pronunciar Srna, sobrenome do capitão do time croata. Dá impressão de que está faltando um pedaço, não?

Um caso curioso em que o selecionador, figura respeitada, tem sobrenome combinando com a função é o do treinador croata. O homem se chama Cacic. Pra cacique nenhum botar defeito.

Entre os engraçados, selecionei alguns. O time croata conta um atacante que corre o tempo todo e tem nome apropriado: chama-se Vida. Conta também com um fortíssimo jogador, atualmente no Barça, que leva o desesperador nome de Rakitic.

O polonês Błaszczykowski

O polonês Błaszczykowski

A República Tcheca nos brindou com um certo Kolar, uma pérola. Sem esquecer Plasil, tiro e queda para jogos enjoativos.

Na Albânia, o selecionado Cana jura de pés juntos nunca ter recebido propina na vida. Nessas horas, seu colega Sadiku deixa escapar um sorrisozinho malandro.

A seleção italiana tem um jogador rapidíssimo, daqueles que se reservam para entrar só no fim da partida, quando a decisão está por um fio. Leva sobrenome um tanto incongruente: Immobile. Também da Itália é o jogador Pellè, sobrenome que se pronuncia exatamente como o apelido de Edson Arantes do Nascimento.

A Turquia já abandonou o torneio. Eliminados no primeiro turno, os jogadores já voltaram pra casa. Também, pudera. Com um goleiro chamado Babacan, não tinha como ir pra diante.

O croata Plasil

O croata Rakitic

Importados
Na categoria made in Brazil, a Eurocopa 2016 não fez feio. Tivemos o alagoano Pepe, naturalizado português; o mineiro Guilherme, naturalizado russo; e ainda Thiago Alcântara, filho de paraibano, que nunca foi italiano embora tenha nascido quando o pai era jogador na Itália, e que acabou se naturalizando espanhol.

Isso tudo sem contar os que já nasceram com dupla cidadania, como o catarinense Eder e o paulista Thiago Motta que jogam pela seleção italiana. Tem mais um: o paranaense Thiago Rangel Cionek, que evolui no time polonês.

O francês Louis Picamoles

O francês Louis Picamoles

Nota picante
Diferentemente do que acontece na Grã-Bretanha, na Austrália, na Nova Zelândia e na Argentina, o rugby não é popular no Brasil. O esporte da bola oval é rude, ríspido, violento, próprio pra quem não tem medo de se machucar. É bastante difundido na França, país que conta com um dos melhores jogadores do mundo apesar do sobrenome incômodo. Chama-se Picamoles. O distinto leitor há de se lembrar que o «s» final não é pronunciado em francês.

Vergonhas

José Horta Manzano

Na Europa, meia dúzia de companhias aéreas oferecem bilhetes a preço extraordinariamente baixo. Todas elas juram que, para reduzir drasticamente o custo, não descuidam da manutenção dos aparelhos nem da segurança. Se o fizessem, seria suicídio certo. No instante em que se acidentasse um avião por falha na manutenção, a companhia iria pro beleléu.

Elas se valem da optimização de numerosos parâmetros. Conservando a segurança, podam o que pode ser podado. Não servem lanchinho. A duração das escalas é reduzida. A logística é estudada milimetricamente para resultar em rendimento máximo. O próprio pessoal de bordo encarrega-se da limpeza da cabine entre voos. As rotas servidas são as mais frequentadas.

Avião 14Três dessas companhias são baseadas na Irlanda e nas Ilhas Britânicas. A irlandesa RyanAir é uma delas. Só na Europa, serve 31 países e começa a considerar seriamente dar continuidade a sua expansão planetária. Como as outras, oferece passagem a preços muito atraentes. Em certos casos, sai tão barato que a gente se pergunta onde está a mágica.

Infelizmente, nosso país não está no visor de nenhuma dessas empresas. A RyanAir, talvez a mais ousada delas, já pôs um pé no México, outro na Colômbia e vai começar a operar na Argentina em 2017. Mais que isso, está estudando entrar em todos os mercados da América do Sul. Corrigindo: em quase todos. O Brasil, infelizmente, não faz parte dos mercados visados. Por quê?

Em entrevista ao jornal argentino La Nación, Mr. Declan Ryan, cofundador e presidente da companhia, declarou com todas as letras o seguinte: «Iniciamos negociaciones en todos los países de la región menos en Brasil ya que hay mucha corrupción.» A frase dispensa tradução. Gostaríamos muito de ter ido dormir sem essa.

América do Sul sem Brasil

América do Sul sem Brasil

Não precisa ser muito perspicaz pra entender a mensagem. O estrago impingido ao país pelo lulopetismo não só saqueou empresas mas também empacou o país. Como efeito colateral, refreia investimentos externos que trariam benefícios a todos.

Depois que, no começo do século, a Argentina foi atingida por uma débâcle econômica gerada pela má gestão,  o país passou 15 anos comendo o pão que o diabo amassou. Pela mesma lógica, é razoável prever que o Brasil só volte a recuperar a atratividade perdida lá pelo ano 2030.

Pra você ver, amigo, aonde podem levar a ignorância, a incompetência e a irresponsabilidade no trato da coisa pública.

No topo da Terra

José Horta Manzano

Você sabia?

A não confundir com a Irlanda, a Islândia é um pequeno país, uma ilha situada no extremo norte do Oceano Atlântico, terra de poucas árvores e muitos vulcões. De nome pouco convidativo ‒ Island, do escandinavo is, significa Terra do Gelo ‒ é um dos países de população mais homogênea do globo.

Islândia: gêiser

Islândia: gêiser

É povoada por apenas 300 mil pessoas. Seus habitantes são descendentes de vikings que, vindos da Escandinávia, lá se estabeleceram mil anos atrás. Desde então, a imigração tendo sido praticamente nula, o resultado foi um contingente populacional harmonioso e coeso. Quase todos os ilhéus são aparentados, em maior ou menor grau. Quando um islandês trava amizade com outro, um dos assuntos preferidos é conferir a proximidade de parentesco entre os dois. Serão primos em nono grau? Em décimo segundo? Todo islandês, principalmente os jovens, tem instalada no telefone celular uma aplicação específicamente desenvolvida para facilitar a busca genealógica.

Islândia: banho em piscina termal natural

Islândia: banho em piscina termal natural

A terra é fértil, mas o clima não ajuda. Não é que faça frio exagerado ‒ os invernos são menos rigorosos que os da Europa Central. Na capital, Reykjavik, a média das temperaturas mínimas do mês mais frio é de 3°C abaixo de zero. Para comparação, a alemã Munique registra, no mesmo mês, 5° abaixo de zero.

O que falta, na Islândia, é calor. Em julho, o mês mais quente, a média das temperaturas mais elevadas não alcança 14°C. Uma «tórrida» tarde de vinte graus merece manchete de jornal no dia seguinte.

Islândia: estufas aquecidas por geotermia

Islândia: estufas aquecidas por geotermia

Em compensação, a terra é rica em fontes, lagos e gêiseres de água muito quente. Essa abundância gratuita de fontes de calor traz vantagens não desprezíveis. Canalizada, a água fervente serve para aquecer casas e imóveis, tornando desnecessária a queima de combustível. A atmosfera agradece.

A água quente serve também para climatizar grandes estufas onde se cultivam frutas e legumes que, ao ar livre, não vingariam. Consequência curiosa: a Islândia é o maior produtor europeu de banana. A poucos quilômetros do Círculo Polar Ártico, quem diria, não?

Islândia: estufa aquecida por geotermia

Islândia: estufa aquecida por geotermia

Assim mesmo, a maior riqueza do país foi e continua sendo a pesca, base da alimentação e da economia da ilha. A regulação rigorosa que a União Europeia impõe às atividades pesqueiras é, aliás, o freio que retém os islandeses de pleitear adesão à UE.

Fiquei sabendo hoje que os primeiros refugiados sírios foram recebidos na Islândia. São 50 pessoas, o que não parece muito. No entanto, comparados à população da ilha, equivalem a um Brasil dando asilo a 3500, de uma vez só. De memória, não me ocorre registro semelhante.

Reykjavik, cidade capital da Islândia

Reykjavik, cidade capital da Islândia

Num comportamento exemplar, os islandeses acolheram de braços abertos esses estrangeiros, no sentido mais amplo da expressão. Milhares se propuseram a ajudar. Houve quem oferecesse um quarto da própria residência, houve quem propusesse um emprego. Lojas e firmas se cotizaram para dar uma mão. Ikea, o gigante escandinavo da fabricação de móveis, deu um cheque de 700 euros a cada asilado, para ser descontado na compra do que lhes for útil dentro do sortimento da loja. O governo do país se comprometeu a oferecer a todos curso de islandês além de uma ajuda de custo durante os primeiros meses, até que se ajeitem.

Há quem pode mais, há quem pode menos. Se a gente olhar em volta, vai sempre encontrar alguém mais necessitado que nós. Parabéns aos simpáticos islandeses.

Islândia 6Nota edificante
Sigmundur Davíð Gunnlaugsson, primeiro-ministro do país, foi flagrado em envolvimento no escândalo dos ‘Panama Papers’. Não deu outra: em 24 horas, foi defenestrado pelos conterrâneos indignados.

Prêmio Nobel

José Horta Manzano

Hoje parece inacreditável, mas Lula da Silva já foi indicado para o Prêmio Nobel da Paz. No longínquo ano de 2003, o mundo tinha lançado olhar bondoso sobre o recém-eleito presidente do Brasil. Fora das fronteiras, muitos acreditaram na lisura e nas boas intenções dele e do bando que assumia as rédeas.

Medalha que acompanha o Prêmio Nobel

Medalha que acompanha o Prêmio Nobel

Indicações para o Prêmio Nobel costumam ser dadas por academias e por universidades do mundo todo. O instituto que cuida da escolha dos laureados está aberto a sugestões desde que venham de instituições de alto coturno.

Os nomes sugeridos não costumam ser divulgados. Assim mesmo, em 2003, a insistência de algum jornalista conseguiu arrancar do diretor do Instituto Nobel a informação de que havia 165 candidatos na categoria da Paz. Rumores insistentes davam a vitória de nosso guia como “muito provável”.

Lygia Fagundes Telles

Lygia Fagundes Telles

Passada esta dúzia de anos, os medalhões do respeitável instituto devem ajoelhar-se todos os dias, levantar as mãos pro céu e agradecer por terem escapado de saia pra lá de justa. Já imaginaram? Ver um nobelizado encontrar-se, doze anos mais tarde, na mira da Justiça por suspeita de crimes rasteiros ‒ cometidos justamente na época da outorga do prêmio? Ufa, de que sufoco se safaram!

A União Brasileira de Escritores acaba de sugerir oficialmente, para o Nobel de Literatura, o nome de Lygia Fagundes Telles, possivelmente a maior escritora brasileira viva. A veneranda senhora completará 93 anos em abril. A hora é agora.

Torço para que seja escolhida. Faço votos para que a quase catástrofe que teria sido a outorga do prêmio de 2003 ao demiurgo que nos governava não tenha deixado os dirigentes do Instituto Nobel ressabiados.

Marie Curie

Marie Curie

Lembro que cinco de nossos hermanos argentinos já foram agraciados, três dos quais em categoria científica. A pequena Irlanda já viu seis cidadãos subirem ao pódio. Treze cidadãos da diminuta Dinamarca já foram premiados. Índia, China, África do Sul e Rússia ‒ os outros integrantes do Brics ‒ já têm muitas dezenas de cidadãos no quadro de medalhas. O Brasil não tem unzinho.

Gostaria muito que Lygia recebesse a honraria. E sonho com o dia em que conterrâneos nossos começarão a ser brindados em categorias científicas. É capaz de demorar.

Interligne 18h

Para complementar
Marie Curie Skłodowska, cientista franco-polonesa, foi a primeira mulher a receber Prêmio Nobel. E veio para arrasar: ganhou duas vezes e em categorias diferentes! Em 1903, levou o prêmio de Física. Em 1911, arrebatou o de Química. Quem dá mais?

Cada cabeça, uma sentença ― 4

José Horta Manzano

Como numerosos países, a Irlanda oferece, a seus nacionais que tencionem viajar ao estrangeiro, informações práticas sobre usos e costumes de diversos destinos. O site do ministério irlandês de assuntos exteriores exibe longa lista com duas centenas de países e regiões. A extensa relação inclui até lugares pouco frequentados como as Ilhas Salomão, o Turcomenistão, a Coreia do Norte.

Por curiosidade, andei consultando algumas fichas. Fiquei agradavelmente surpreso: são extensas, bastante acuradas e atualizadas. Para o Brasil, por exemplo, entre as dezenas de perigos óbvios, chegam a alertar para o risco do golpe conhecido como Boa-noite, Cinderela. Para a eventualidade de o turista ser assaltado, dão as mesmas recomendações que a polícia: não resista; mais vale entregar o ouro aos bandidos do que perder a vida.

Em verde, os países mais seguros

Em verde, os países mais seguros

Naturalmente, as dicas estão na rede, accessíveis a todos. A equipe do departamento de informações da Televisão Suíça andou folheando as advertências. Levaram um susto daqueles de cair da cadeira. Contrariando o que parecia óbvio, a Suíça não aparece entre os mais seguros. A equipe ficou despeitada.

A triste constatação foi parar na manchete do site de informações da rádio-televisão pública. Para mostrar o choque e para acentuar o desagrado, o título da matéria foi: «Segundo a Irlanda, a Suíça é mais perigosa que o Brasil».

Cada um enxerga o mundo com os próprios óculos. Ficou patente que as autoridades irlandesas mostram maior preocupação com o risco de atentados e de tumultos sociais do que com a criminalidade nossa de todos os dias.

Pais perigoso 1Em função do risco, os países estão classificados em cinco categorias. Na primeira, entram os menos perigosos, aqueles que requerem nada mais que cuidados básicos. Entre outros, estão lá os EUA, a Suécia, a Nova Zelândia, a Alemanha e… o Brasil.

Pais perigoso 2Na segunda categoria, estão as regiões que requerem cuidado redobrado. Estão lá a China, a Rússia, Angola, a Turquia e… a Suíça(!).

Pais perigoso 3No terceiro degrau, situam-se os destinos que exigem extrema atenção. Nesse nível, estão a Venezuela, a Argélia, a Nigéria e… a França(!).

Pais perigoso 4O quarto nível compreende os países que só devem ser visitados em caso de necessidade absoluta. O Sudão, o Paquistão, o Congo estão entre eles.

Finalmente, na quinta categoria, estão os países que não devem ser visitados em hipótese alguma. Como é compreensível, lá estão a Líbia, a Síria, o Iraque, o Afeganistão.

Ânimo, minha gente. No olhar simpático e indulgente dos irlandeses, o Primeiro Mundo é aqui!

Pioneirismo helvético

José Horta Manzano

Você sabia?

«Irlanda é primeiro país onde povo, em referendo, aprova casamento gay.»

Irlanda 2Com termos assim, a mídia planetária trouxe a boa-nova: o verdejante, tradicional e ultraconservador país do trevo dava mais um passo em direção à modernidade. O aplauso foi universal.

Não sei a que agência noticiosa atribuir a autoria da ideia de que o governo irlandês teria sido o primeiro submeter ao povo a aprovação do casamento gay. A afirmação não é verdadeira.

Nestes tempos de alastramento instantâneo da informação, verdades se espalham com velocidade. Mentiras, infelizmente, também. Em matéria de casamento gay aprovado pelo povo, a primazia cabe à Suíça. Conto-lhes a história.

Desde o início deste século, a sociedade mandava sinais mais e mais flagrantes de mudança. Era passado o tempo em que homossexuais eram obrigados a viver na clandestinidade, apartados dos demais cidadãos e vistos com reserva. Tornou-se, então, imperativo que a lei passasse a refletir a evolução das mentes.

Entendendo o problema, o governo federal de Berna propôs ao parlamento nova legislação sobre o assunto. Estabelecia as bases e as regras para oficializar e sacramentar a união entre pessoas do mesmo sexo. As câmaras aprovaram a lei já em junho de 2004.

Para que ficasse bem claro que a vontade dos cidadãos estava sendo obedecida, ficou combinado que o texto seria submetido a referendo. Dia 5 junho 2005, o povo suíço aprovou, em referendo, a lei já votada pelo parlamento. A Suíça tornou-se, assim, o primeiro país onde a união entre pessoas do mesmo sexo foi aprovada pelo voto popular. Dez anos antes da Irlanda.

Suisse 18Neste país alpino, pouco dado a espalhafatos, a união não é chamada de «casamento». Para não chocar sensibilidades mais tradicionais, criou-se um nome específico. Em alemão, é Eingetragene Partnerschaft. Em francês, adotou-se a tradução ipsis litteris: Partenariat Enregistré. Em italiano, ficou Unione Domestica, nome meio sem graça. Até um novo estado civil foi criado especificamente para acomodar os que se viessem a se unir na forma da nova lei. Em português, um neologismo calcado na língua inglesa poderia servir de tradução: partenariado.

Irlanda 1O texto entrou em vigor dia 1° de janeiro de 2007. A temida destruição da família tradicional, temida por profetas do apocalipse, parece não ter acontecido. A família continua firme e forte. E manda lembranças.

É tranquilizante viver sob regras claras. Pão, pão, queijo, queijo. No Brasil, apesar da tão decantada tolerância nesse campo, até hoje não há – que eu saiba – um texto definitivo, claro, peremptório, inatacável. A omissão do legislador sobre a união legal entre pessoas do mesmo sexo abre brecha para que o judiciário faça a lei, o que não é exatamente sua atribuição.

E assim vamos, aos trancos e barrancos, como de costume.

A galega

José Horta Manzano

Você sabia?

Gaita 2Se alguém lhe perguntasse qual foi o primeiro instrumento musical estrangeiro a chegar ao Brasil depois do descobrimento, que é que você responderia? A guitarra? A flauta? A trombeta? Que nada, tá gelado!

Muitos distintos leitores hão de se surpreender com o que vem agora. O primeiro instrumento – que veio já na esquadrilha de Pedro Álvares Cabral – não foi nenhum dos que mencionei acima. Foi a gaita. Quando digo gaita, refiro-me à gaita de foles ou gaita galega, não à gaita de boca. Agora vem a prova:

Gaita 3«Passou-se então além do rio Diogo Dias, almoxarife que foi de Sacavém, que é homem gracioso e de prazer; e levou consigo um gaiteiro nosso com sua gaita. E meteu-se com eles a dançar, tomando-os pelas mãos; e eles folgavam e riam, e andavam com ele muito bem ao som da gaita

Fragmento da carta que Pero Vaz de Caminha, escrivão da esquadra de Cabral, enviou a El-Rey D. Manuel I para dar a boa-nova do achamento de novas terras.

Gaita 4As origens desse instrumento de sopro se perdem na poeira do tempo. Indícios de sua existência já foram encontrados até junto à tumba de faraós que viveram cinco mil anos atrás.

Ao longo dos séculos, surgiram dezenas de variedades de gaita, engenhoso instrumento de sopro. Diferentemente de seus congêneres, que dependem do sopro direto do executante, a gaita de foles dispõe de uma bolsa onde o ar fica armazenado.

Portanto, o esforço do músico para encher a bexiga não corresponde necessariamente à saída do fluxo de ar. A vantagem é que a gaita de foles é capaz de produzir som contínuo, independentemente do ritmo de respiração do instrumentista. Nenhum outro instrumento de sopro permite essa façanha.

Gaita 1Desde a Antiguidade, cada região da Europa conheceu sua versão de gaita. Hoje em dia, ela está praticamente esquecida na maioria dos países. Ainda é cultuada no mundo celta: Escócia, País de Gales, Irlanda, Bretanha (França), Galiza (Espanha), norte de Portugal.

Gaita 5O portal La Voz de Galicia dá informação curiosa. O Brasil tem uma única fábrica de gaita de foles. Ela se encontra nos arrabaldes de São Paulo e produz meia dúzia de modelos diferentes. O fabricante, artesão que conta apenas com a ajuda da esposa, é autodidata.

Construir gaita dá trabalho e leva tempo. Quem estiver interessado, tem de entrar numa lista de espera de 6 meses. Robles Luques, o artesão, sonha com o dia em que o primeiro instrumento chegado ao País se popularizará.

O momento atual assenta como luva: com a “Pátria Educadora” em ação, Robles encontrará com facilidade o encorajamento e o financiamento que lhe fazem falta. Que os anjos digam amém.

A marcha dos 4 milhões na França envergonha o Brasil

Cláudio Tognolli (*)

Paris

Paris

A marcha dos 4 milhões, em Paris, envergonha a América Latina em geral e o Brasil em particular. Prova que, tecnicamente, abandonamos a cidadania há muito.

Magro e grave, outro dia um comerciante dos Jardins comentava: «Em São Paulo, se mata apenas para ouvir o barulho do tombo. Mas deixa pra lá, sempre foi assim». No Brasil roubos e matanças já se incorporaram ao nosso biótipo: saem pela urina. E sem pedrinhas machucantes.

Há finais de semana em que se matam 50 pessoas em São Paulo. Homicídios mataram 56 mil brasileiros em 2013. Qual o hino da Irlanda? Na prática, a balada Sunday Bloody Sunday, do U2. Sabe quantos morreram no Domingo Sangrento em janeiro de 1972? Quatorze ativistas. Quantos morreram no nosso Carandiru? Cento e onze. Os números brutais de matanças no Brasil não mais nos emocionam.

O brasileiro incorporou à sua sub-rotina o acostumar-se com mortes a quilo e roubos a tonelada. Uma vez, em Israel, um ministro caiu por desviar seis mil dólares. Por aqui, todos seguem firmes com o petrolão. E Dilma vai muito bem, obrigado.

Interligne vertical 11aNo livro Os Sertões, Euclydes da Cunha descreve o brasileiro como o Hércules-Quasímodo: «Falta-lhe a aparência impecável, o desempenho, a estrutura corretíssima das organizações atléticas. É desgracioso, desengonçado, torto. Hércules-Quasímodo, reflete no aspecto a fealdade típica dos fracos. O andar sem firmeza, sem aprumo, quase gingante e sinuoso, aparenta a translação de membros desarticulados. Agrava-o a postura normalmente abatida, num manifestar de displicência que lhe dá um caráter de humildade deprimente».

Somos Hércules porque ainda sobrevivemos nesta pré-coerência estilizada que é a cidadania brasileira.

Os 4 milhões de pessoas nas ruas não protestaram apenas contra as mortes. Protestaram contra o estado de coisas que o terror traz.

Bordeaux

Bordeaux

Sabem o que é o terror? É o medo sem objeto. Por isso, a Bruxa de Blair fez tanto sucesso: não eram tubarões ou Jasons ou Chucks no ataque: eram ventos, galhinhos. Era o Nada. Por isso, Heidegger e Sartre diziam que a questão mais fundamental da filosofia do século 20 era o Nada.

A França não quer viver no estado do Nada. Neste sábado, os policiais franceses foram orientados a retirarem suas fotos das redes sociais porque «o ataque terrorista pode vir de qualquer canto». Ninguém suporta o terror sem objeto.

Isso serve para os dois lados. Logo depois do ataque às torres gêmeas, o presidente George W. Bush mostrava a foto dos 19 terroristas. Mais tarde, proibiu a divulgação. Saía de cena o «terrorista» e entrava o «terrorismo», o que justificava combatê-lo onde interessasse a Bush. Foi assim que se forjou a invasão do Iraque.

Marselha

Marselha

O cineasta Alfred Hitchcock admitia que «não existe terror no estrondo, mas na antecipação dele». Richard Nixon, que foi presidente dos EUA, gostava de dizer que «as pessoas reagem ao medo, não ao amor». E Goebbels, ministro da Propaganda de Hitler, orgulhava-se de ter detectado que «falamos sempre não para dizer algo, mas para obter algum efeito».

O terrorismo vive de efeitos. Quer se fazer presente mesmo onde jamais vai estar. A França não protesta apenas contra as mortes, mas contra um estado de coisas no ar.

Mas o brasileiro jamais vai conhecer esse tipo de sensibilidade. Afinal, Hércules-Quasímodo não tem tempo pra essas coisas…

(*) Claudio Tognolli é escritor, jornalista e músico.

Interligne 18cObservação deste blogueiro
Analisando os 56 mil homicídios que ocorrem no Brasil a cada ano, chegamos à média de 153 por dia. Dá 6,4 por hora. Desde o momento em que o distinto leitor iniciou a leitura deste artigo, é enorme a probabilidade de (pelo menos) um humano ter sido assassinado. Comparados a nossa cifra impressionante, os caídos em guerras e guerrilhas de Afeganistão, Iraque, Síria & adjacências – todos juntos! – são café pequeno. Nesse ramo de atividade, pelo menos, somos campeões do mundo. Fazemos mais e melhor que qualquer país em guerra.