Panama Papers

José Horta Manzano

Dinheiro voadorNossa avalanche de escândalos genuinamente nacionais tem deixado em segundo plano muito escândalo estrangeiro. Taí um caso raro em que a cotação do produto nacional é mais elevada que a do importado, algo digno de nota.

Meus cultos leitores hão de ter lido ou ouvido sobre o vazamento de informações sensíveis que se convencionou chamar Panama Papers. Acostumados que estamos a ter conhecimento de roubos bilionários, esse assunto nos pareceu mixuruca. Não tem sido muito comentado entre nós.

É natural. O escritório panamenho de onde escapou o vazamento não é banco, não tem cofre-forte, não guarda dinheiro alheio. São especializados em abertura de sociedades ditas offshore ‒ empresas de mentirinha, como o açougue do Renan ‒ situadas em países opacos, dos quais é difícil obter qualquer tipo de informação.

Dinheiro lavagemEssas empresas, que só existem no papel, são utilizadas como paravento, como biombo, pra ocultar o nome de detentores de fortunas ilícitas. Pra quem não está familiarizado, eis como funciona o esquema.

O cidadão X, dono de fortuna cuja origem prefere ocultar, pretende guardar seu botim num discreto paraíso fiscal. Antes disso, toma todas as precauções para que seu nome não apareça. Dirige-se a uma empresa especializada no assunto ‒ como essa do Panamá, por exemplo. Solicita abertura, em seu nome, de uma firma nas Ilhas Virgens Britânicas. É a firma A.

Em seguida, essa firma A abrirá uma firma B, situada noutro país opaco ‒ nas Ilhas Caimã, por exemplo. Nessas alturas, o nome do dono da fortuna já não figura nos documentos. Para maior garantia, a firma B abrirá uma terceira, a firma C, situada noutro paraíso fiscal. Como essas empresas de fachada estão domiciliadas em países pouco abertos à cooperação financeira internacional, vai ficando cada vez mais difícil encontrar o verdadeiro dono da penca de empresas.

Dinheiro 2Para terminar, a firma C abre uma conta em novo paraíso fiscal ‒ Hong Kong, por exemplo ‒ e lá deposita a dinheirama. Como o distinto leitor se pode dar conta, fica difícil até para o juiz Moro & equipe seguir o fio da meada e encontrar o dono do pecúlio.

Voltando aos Panama Papers, trata-se de informações vazadas de escritório especializado em abrir firmas. Por mais que se escrutem os livros, não se encontrarão valores. É apenas a ponta do fio da meada ‒ o resto do novelo continua emaranhado.

Interligne 28a

Capítulo linguístico
Cada língua deu à expressão inglesa Panama Papers o tratamento que lhe pareceu conveniente. A maioria optou pelo mínimo esforço e tomou as palavras como vieram:

Em holandês, italiano, tcheco e espanhol, ficou:
Panama Papers

Em francês, alemão e polonês, jornalistas têm sido um bocadinho mais cuidadosos e, para marcar a origem estrangeira, costumam botar entre aspas:
“Panama Papers”

Surpreendentemente, outras línguas foram caprichosas e encontraram soluções mais aprimoradas. São elas:

Turco
Panama belgeleri = Documentos do Panamá

Norueguês
Panama-avsløringer= Divulgações do Panamá

Sueco
Panama-härva = Meada (emaranhado) do Panamá

Por fim, russos e húngaros, mais liberais, forjaram duas expressões:

Russo
Панама плачет (Panama platchet) = Vazamento do Panamá
Панамский архив (Panámskii arkhiv) = Arquivos panamenhos

Húngaro
Panama-iratokról = Documentos do Panamá
Panama-ügyben = Caso Panamá

Quanto a nós, menos criativos, vamos de Panama Papers mesmo, com casca e tudo. Pra que reinventar o que já vem pronto, não é? Dá uma preguiça…

A confirmação da picaretagem

José Horta Manzano

Lula caricatura 2Num tempo em que era principiante na política e suas bravatas ainda encantavam, o Lula chegou a dizer que havia «300 picaretas» na Câmara. O tempo passou, o antigo metalúrgico foi eleito à presidência da República e passou a acreditar que tinha alcançado o poder eterno, total e inamovível.

Surpreendentemente, no lugar de batalhar para limpar a Câmara dos elementos indignos que havia denunciado, preferiu aliar-se a eles para sustentar sua vaidade e sua sede de perenidade.

Não deu certo, como hoje sabemos. A soberba cegou nosso guia e não lhe permitiu enxergar que não se constrói edifício sem alicerces. O prédio ruiu. Humilhado, o taumaturgo hoje foge da Justiça e teme a prisão. Para escapar, empenha-se em aliciar aqueles mesmos que um dia chamou picaretas.

A crer no Placar do Impeachment, publicado pelo Estadão e atualizado continuamente, os parasitas oportunistas que se abrigam sob a cúpula da Casa do Povo não são tão numerosos como imaginava o líder hoje caído.

No momento em que escrevo, o inventário de votos declarados é o seguinte:

285 votos a favor da destituição da presidente
114 votos contra a destituição da presidente
114 em cima do muro

No total, chega-se aos 513 deputados. Em seu falatório peculiar e ambíguo, o Lula nunca explicou com clareza o que entendia por “picareta”. É lícito supor que se referisse à pouca honestidade e à falta de seriedade de parlamentares.

PicaretaO placar do Estadão parece indicar que os “picaretas” são muito menos numerosos do que apregoava o antigo presidente. Afinal, no momento grave que vive nosso país, é primordial que cada um se defina. Que sejam pelo sim, que sejam pelo não, o importante é que façam conhecer sua posição. Afinal, cada um deles está lá representando um naco da população.

Os que querem ver dona Dilma pelas costas são já 285 (55.5% do total). Os que preferem que tudo continue como está são 114 (22% do total). E o resto? Por incrível que possa parecer, 114 representantes do povo estão em cima do muro. São quase um em cada quatro! Estão aí os picaretas comprovados. Nesta altura dos acontecimentos, não ter definido seu voto é confissão de estar à venda, à disposição de quem der mais.

Indecisão 1Embora eu não compartilhe a visão dos que preferem que a senhora Rousseff continue presidente, respeito a opinião dos que se solidarizam com ela. Naturalmente, respeito também a posição dos que desejam que a quadrilha se vá. É inadmissível, no entanto, que um quarto dos deputados ainda esteja participando desse leilão indecente.

Até o Maluf já abriu seu voto! Que estão esperando os deputados Fufuca (MA), Salame (PA), Brasileiro (MG), Marreca (MA), Cabuçu (AP), Maniçoba (PE), Tiririca (SP), Garçon (RO), Tibé (MG)? Queiram ou não, terão de se exprimir. Ou faltar à sessão solene, atitude que lhes vai pespegar indelével etiqueta de fujões. Além de picaretas, naturalmente.

Frase do dia — 297

«O relato do ex-presidente da Andrade Gutierrez aos investigadores – ao qual deu fé o STF – torna quase inexorável a condenação no Tribunal Superior Eleitoral da chapa de 2014. Trata-se de um caso de batom no colarinho. Branco, não estivesse ele maculado por malfeitorias em série.»

Dora Kramer, em sua coluna do Estadão, 8 abr 2016.

Carta para minha mãe

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Criança 8Vem aqui, mãe, precisamos conversar, olhos nos olhos. Hoje eu preciso desabafar, abrir o peito e lhe dizer tudo que não ousei colocar em palavras enquanto você estava viva. Sabe, não foi nada fácil para mim viver ao seu lado, ser sua filha. Além de nossas diferenças irreconciliáveis de personalidade, pesou muito também o seu jeito duro de amar.

Lembro das muitas vezes em que lhe pedi colo, fragilizada, e você me rechaçou dizendo que eu já estava grandinha demais para ser carregada. Eu não entendia o porquê. Aos trancos e barrancos, cresci acreditando que só poderia contar comigo mesma caso me visse num beco sem saída. Pior ainda, sentindo que não podia confiar nem em minha própria capacidade de superação se não dispusesse de uma rede de proteção.

Criança 10A bem da verdade, confesso que até hoje só encontro coragem para entrar em ação diante do inevitável. Se der para ignorar a sensação de falta de chão, faço corpo mole, disfarço, finjo que não é comigo. Se não der, respiro fundo e vou em frente destemida. Por outro lado, até hoje não consigo evitar o choro quando vejo alguém vencer um desafio difícil se apoiando nos gritos de estímulo da torcida. E eu sempre quis, mãe, que você fosse a ‘cheerleader’ de minha torcida particular. Infelizmente, da pista onde estava em criança, eu não conseguia visualizar sua figura imperial, seu ar de esfinge pronta a me devorar se eu não decifrasse suas reais intenções.

Sofri muito também, admito, com a falta de beijos e de abraços. Buscava desesperadamente alguém que me suprisse com uma mínima quantidade de afeto para compensar a aridez emocional que sentia em você. Apesar disso, estranhamente nunca pude esconder meu menosprezo pelas pessoas melosas que se apresentavam como capacitadas a me servir de mãe substituta. O que eu queria mesmo, percebo agora, era merecer manifestações de afeto e torcida despudorada de gente desacostumada a arroubos passionais, como você.

Criança 7Houve momentos, é claro, em que eu senti que você se orgulhava de mim, seja por minha determinação em não desistir de nenhuma luta, seja por minha obstinação em reafirmar meus pontos de vista e sentimentos. Houve ainda, admito emocionada, outros momentos em que fui ao chão depois de ter apanhado muito da vida e você me estendeu a mão silenciosamente, me colocando de novo em pé sem cobrar nada em troca de seu gesto nobre.

Um dia, já adulta, me dei conta de que tinha criado uma armadura para me defender das emoções ternas. Passou a ser difícil para mim também abrir os braços e acolher carinhosamente quem me pedisse colo. O mais paradoxal, mãe, é que toda essa dureza interna acabou me servindo de base para a escolha de profissão. Ela não me impediu de me transformar em defensora dos fracos e oprimidos, ainda que eu jamais tenha sentido o impulso de passar a mão na cabeça dos muitos desvalidos da sorte que atravessaram o meu caminho, exatamente como você fazia comigo.

Acho que nunca lhe contei que, graças a você, aprendi a admirar as pessoas “difíceis”. Sabe aquele tipo de pessoa que não angaria simpatias por seu jeito rude, que lhe diz as verdades mais duras sem se preocupar em ferir sentimentos? Pois então, mãe, descobri que são exatamente essas pessoas que nos ajudam a estruturar nosso caráter, a entrar em contato com nossa força interna, a moldar nosso jeito de estar no mundo como cordeiros em pele de lobo.

Criança 9Você me chamava de onça, lembra? Hoje posso lhe confessar com orgulho que aprendi a lidar com minha natureza selvagem de felino. Posso assumir sem hipocrisia minha condição de gatinho assustado quando subo em árvores muito altas e, ao mesmo tempo, a de onça feroz quando minhas crias são ameaçadas.

Depois que você se foi, descobri maravilhada que eu sempre estive pronta para cavalgar o touro bravo da vida, segurando firme em seus cornos. Por mais esquisito que isso possa soar, percebi naquele 7 de abril ‒ há exatos 18 anos ‒ que é como se eu a tivesse engolido, absorvido sua força e desenvolvido autoconfiança, numa gestação às avessas.

O buraco causado por sua ausência foi parcialmente tapado não com gatos, mas com as lambidas e abraços das minhas cachorras. Com elas aprendi a me deixar extravasar amorosamente sem temer o ridículo. Redescobri a alegria e o prazer do contato de corpos. Mesmo não podendo mais tocar o seu, quero que você saiba que a lição mais poderosa que aprendi com seu jeito de ser foi a de que a verdadeira presença nunca é física, é espiritual. Hoje meu coração mole pulsa feliz dentro da carcaça de ferro que construí para mim. E me divirto desafiando outras pessoas a se valerem de um abridor de latas para tentar soltar o animal domesticado que vive dentro de mim.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Feriado bolivarianista

José Horta Manzano

Petroleo 1Desde que o desvario bolivarianista deu início ao desmonte da Venezuela, nossos infelizes vizinhos passaram a viver sob perfusão.

Médicos, remédios e espiões vieram de Cuba. Do Brasil, veio esteio político e não seria espantoso se fosse um dia revelado que até auxílio financeiro tenha sido providenciado com nosso dinheiro público. A Rússia forneceu aviões e armamento.

Bem ou mal, o país foi levando, embalado por bravatas e amordaçado por repressão e cerceamento. Mas as coisas mudam com o tempo. No caso particular da república bolivariana, a evolução foi brutal. O barateamento do preço do petróleo, única fonte de renda do país, arruinou as finanças. Fanfarronices deixaram de sustentar ilusões.

A Rússia, que também tira da exportação de petróleo boa parte de seu sustento, também sofreu. Seu desempenho como padrinho da Venezuela apequenou-se.

Cuba, como se sabe, foi convidada pelo Grande Irmão do Norte a voltar a fazer parte da comunidade das Américas. Os bondosos irmãos Castro, que esperavam por isso havia meio século, não se fizeram rogar. Entre Venezuela e EUA, não hesitaram.

Chamada do portal Entorno Inteligente, 7 abr 2016

Chamada do portal Entorno Inteligente, 7 abr 2016

Quanto ao Brasil, a cúpula política está preocupada em salvar a própria pele e escapar à prisão. Sobra pouco tempo para pensar em socorrer hermanos em dificuldade.

O resultado está aí: o país vizinho está à míngua, cada vez mais devagar, quase parando. A última novidade, não fosse trágica, seria quase engraçada: as semanas venezuelanas ganharam mais um dia de folga. A partir de agora, as sextas-feiras passam a ser dias feriados. Farão companhia aos sábados e aos domingos. Está instituída a semana de quatro dias.

Vela 1Fosse prodigalidade de um Estado rico, seria até novidade bem-vinda. Mas não é. A razão da paralisação do país três dias por semana é a escassez de energia elétrica e de água. Quando se sabe que a Venezuela está entre os maiores produtores de petróleo do planeta, tem-se a medida do descalabro criado por iluminados governantes.

Quatro fontes são as principais responsáveis pela produção de eletricidade: o petróleo, a energia nuclear, o carvão e a energia hidroelétrica. Na Venezuela, o petróleo é abundante. Mas requer investimento em infraestrutura de refino e de transmissão, fatores descurados estes últimos anos. O resultado está aí: com matéria prima para dar e vender, nossos vizinhos são obrigados a deixar de trabalhar e a espantar, com luz de vela, a escuridão.

Bravatas e desleixo costumam ter efeito desastroso.

Pensando bem – 9

José Horta Manzano

0-Pensando bem

Meu coração por ti gela
Meus amores de ti são
Por não poder amar ela
Já nela não penso não.

Cacofato 1

Cacófato deriva do grego kakophonía, onde kakos significa ruim e phonia é o som, a voz. Confronte cacofonia com sinfonia, sequência de sons harmoniosos e concertados.

Cacófato é conjunto de sons estranhos ou desagradáveis que costumam aparecer no discurso ou até no interior das palavras. Melhor evitar, que dá mais certo.

Pensamentos soltos

Cabeçalho 9Myrthes Suplicy Vieira (*)

A gente já teve um presidente que preferiu sair da vida para entrar na história. Agora estamos às voltas com uma que luta bravamente para sair da história e cair na vida.

Ué! Se os fins justificam os meios para os atuais ocupantes do poder central, por que agora eles se insurgem contra os meios utilizados por seus adversários para conseguir o fim tão desejado pela maior parte da população?

Historia 1Parece que os ameaçados de perder o título de poderosos de plantão aderiram com tudo à estratégia do “Vai que cola!”. Pode ser só uma impressão mas, sem dúvida, eles nos estão dando uma verdadeira aula de interpretação de textos escritos e falados. No quesito interpretação de intenções, então, só se pode aplaudir de pé. As aulas são definitivamente um comovente e mobilizador espetáculo.

Na novilíngua implantada com sucesso em nosso território, a expressão “Não vai ter golpe” tem sido, de longe, a mais inspiradora para demover críticos do governo dentro e fora de nossas fronteiras. Só perde para o mote “Em defesa da democracia”.

Embora este último esteja apenas dando seus primeiros passos, já mostra todo seu potencial para abalar as convicções daqueles que julgavam estar lutando pela mesma causa. A história estará a favor de qual dos lados?

Historia 2Defensores do fisiologismo, do clientelismo e do golpismo, tremei! É chegada a hora de colocar todas as cartas na mesa. Nossa corte suprema está a postos para banir da vida pública todos aqueles que tentam quebrar o pacto do Estado de Direito, da legalidade democrática e da probidade administrativa…

Ei, você aí, ouviu o que eu disse? Para de prestar atenção aos grampos que vazaram seletivamente. Não adianta pedir arrego nem se esconder na barra da toga daquele magistrado golpista. Nós é que vamos fazer justiça!

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Recordar é viver ― 7

As dúvidas do Lula

José Horta Manzano

23 set° 2010
Questionado sobre os ataques feitos anteriormente à imprensa, Lula disse duvidar «que exista um país na face da terra com mais liberdade de comunicação do que neste País, da parte do governo».

20 out° 2013
Sobre denúncias de corrupção, Lula disse duvidar «que exista no mundo um país com a quantidade de fiscalizações que o Brasil tem».

Blabla 228 ago 2014
Cutucando o PSDB, Lula disse duvidar que o partido do ex-presidente FHC «tenha feito 10% do que fiz para investigar». E usou uma analogia doméstica para explicar a diferença entre os partidos. «Eles tinham um tapete desse tamanho para jogar a sujeira debaixo. Nós tiramos esse tapete da sala», afirmou. «Só tem um jeito: é ser honesto e ter decência. Se fizer sacanagem com o dinheiro público tem que pagar».

19 out° 2006
«Se houve crime eleitoral, terei que pagar», diz Lula. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que estará sujeito à punição da Justiça Eleitoral caso seja comprovado que o dinheiro apreendido pela Polícia Federal que supostamente seria usado para compra do dossiê contra tucanos saiu da sua campanha de reeleição.

24 set° 2007
Deu no NYT: Lula duvida de provas contra Dirceu
Além de exaltar a economia brasileira e evitar falar do colega venezuelano, o presidente Lula disse em entrevista ao jornal New York Times que não há provas do envolvimento do ex-ministro da Casa Civil e deputado cassado José Dirceu (PT) com o mensalão.

Blabla 725 ago 2012
«Lula duvida que Aécio concorra à presidência. Acha até que ele trabalhará para costurar o apoio dos tucanos a Eduardo Campos.»

1 fev° 2012
«Lá nos EUA, a crise é um tsunami. Aqui, se chegar, vai chegar uma marolinha que não dá nem para esquiar.»

20 jan° 2016
«Não tem uma “viv’alma” mais honesta do que eu neste país», diz Lula.

Os de fora ‒ 3

José Horta Manzano

Imigração 6Quando Getúlio, Juscelino, Jânio presidiam a República, brasileiro estabelecido no exterior era coisa rara. Havia um caso aqui, outro ali. Podia ser uma moça que se houvesse casado com estrangeiro e decidira se estabelecer na terra do marido. Podia haver um outro que, em visita à terra dos pais, tivesse resolvido ficar por uns tempos. Podia ainda ser um terceiro, dono de importante fortuna, que se permitia gozar as delícias de Paris por anos a fio.

Dos anos 80 para cá, a mudança do panorama foi rápida e impressionante. Crise, inflação, criminalidade estão na raiz da transformação. Meio Brasil descobriu que tinha direito a requerer cidadania estrangeira. A outra metade, mesmo sem cidadania, vestiu-se de cara e coragem.

Lavar chãoNas últimas décadas, foram centenas de milhares a trilhar caminho inverso ao de nossos antepassados. Numerosos fizeram como Iracema, a cearense do Chico Buarque de Hollanda ‒ aquela que foi pra ‘América’ lavar chão numa casa de chá.

São poucos os que se foram para exercer ofício compatível com a própria formação. Assim mesmo consideram que o sacrifício compensa. Pelo menos, escapam à violência e à crise.

Pela estimação do Itamaraty, somos hoje 3,1 milhões de expatriados. Esse contingente é maior do que a população de qualquer uma das 8 unidades menos populosas da Federação. Há tantos brasileiros no exterior quantos há no Mato Grosso ou no Distrito Federal.

É aí que a porca torce o rabo. Brasileiros expatriados têm direito ‒ obrigação! ‒ de votar para escolher presidente da República. Se não o fizerem, levam multa. No entanto, não têm nenhum representante na Câmara nem no Senado. A incongruência é gritante.

Deputados por Estado clique para ampliar

Deputados por Estado

Enquanto meio milhão de habitantes de Roraima contam com 8 deputados federais e 3 senadores para levar sua voz ao parlamento, os três milhões de brasileiros do exterior ‒ seis vezes mais numerosos que os simpáticos roraimenses ‒ vivem na orfandade, sem quem defenda seus interesses.

Está mais que na hora de modificar a Constituição com vista a reconhecer que não somos cidadãos de segunda categoria.

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Dinheiro bem-vindo
Em 2015, as remessas enviadas pelos brasileiros do exterior chegaram a dois bilhões e meio de dólares. Falamos de dólares! Ninguém reclamou. E olhe que é montante pra nenhum mensaleiro ou petroleiro botar defeito. O incremento foi de 15,6% em comparação com 2014. A vantagem maior é que todo esse dinheiro injetado na economia nacional vem de graça, sem investimento. Cai do céu e, mais importante, não tem fins de lucro. Vem para ficar.

El estruendo

«Los brasileños no saben en qué área de la vida les va peor: si en las eliminatorias del Mundial de Rusia, donde navegan en una desacostumbrada mitad de tabla; en la arena política, donde la presidenta Dilma Rousseff se desliza en tobogán hacia el impeachment, o en la economía, donde millones de personas sobrellevan como pueden una larga recesión.

La tristeza desborda las calles de San Pablo y de Río de Janeiro y se derrama sobre América latina, que ve la caída del gigante con preocupación. Porque el estruendo hace temblar a todos. Además de la Argentina, que lo sufre directamente en el comercio y la economía, son muchos los que siguen de cerca el penoso día a día de un país que solía ser citado con admiración.

El mismo ex presidente Luiz Inacio Lula da Silva, que desde el escándalo de corrupción de Petrobras es tan buscado por la justicia como rechazado por la población, se permitió exaltar los viejos tiempos del país que él lideraba.»

A queda do Brasil: um estrondo que faz tremer todos os vizinhos

A queda do Brasil: um estrondo que faz tremer todos os vizinhos

«Os brasileiros não sabem em que área a coisa está pior: se nas eliminatórias do Mundial da Rússia, onde navegam do lado inabitual da tabela; se na arena política, onde a presidente Dilma Rousseff desliza de tobogã em direção ao impeachment; se na economia, onde milhões aguentam como podem uma longa recessão.

A tristeza transborda as ruas de São Paulo e do Rio e se derrama sobre a América Latina, que assiste preocupada à queda do gigante. Porque o estrondo faz que todos tremam. Além da Argentina, cujo comércio e cuja economia são afetados diretamente, muitos são os que acompanham de perto o sofrido dia a dia de um país que costumava ser citado com admiração.

O próprio ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que, desde o escândalo da Petrobrás, tanto é buscado pela Justiça como rechaçado pela população, permitiu-se exaltar os velhos tempos do país que ele liderava.»

Interligne 18h

Trecho de artigo publicado pelo argentino La Nación em 3 abril 2016. O texto integral está aqui.

A médica que dispensou o filho da petista

David Coimbra (*)

Médico 3Quando li a notícia sobre a médica que se recusou a atender uma criança porque a mãe dela era do PT, fiquei revoltado. «E o Juramento de Hipócrates?» ‒ pensei, olhando para o Leste, na direção de onde suponho se esparramem as ilhas gregas. «O que Esculápio, Hígia e Panaceia pensarão disso?»

Pior: o presidente do Sindicato dos Médicos, Paulo de Argollo Mendes, disse que a médica estava certa em se negar a prestar atendimento. «Por favor » ‒ ralhei, ainda pensando na ética da velha e sábia avó Grécia. «Mesmo que o paciente fosse Hitler, o médico não poderia recusar!»

Médico 2Continuei com minhas exclamações, até que entrevistamos o presidente do Sindicato, ontem, no Timeline da Gaúcha. Paulo de Argollo explicou que a médica não se negou a dar atendimento a uma emergência, nem veta petistas em geral, mas aquela em particular. O que ela fez foi solicitar aos pais da criança que trocassem de pediatra porque não aguentava mais a conversa deles durante as consultas.

Bem… Nesse ponto, comecei a entender a médica. É que todo sectário é um porre, seja qual for o dogma. Eles estão sempre prontos para a briga, e gente sempre pronta para a briga é extremamente aborrecida.

Reparem no atual slogan dos petistas: «Não vai ter golpe, vai ter luta». Luta? Contra quem eles vão lutar? Será guerra civil, é isso? Vai haver distribuição de armas nos diretórios do PT? Ou será só o exército do Stedile que vai para a frente de batalha?

Luta, luta, eles estão sempre em luta. José Dirceu é o «guerreiro do povo brasileiro», André Vargas desafia o STF erguendo o punho fechado, eles se acham Espártaco enfrentando as legiões de Crasso em defesa da liberdade dos escravos, Zapata liderando os camponeses contra a tirania de Porfírio Diaz, Marx aconselhando os proletários do mundo a se unirem. O sonho deles é travar a luta de classes. Combater o bom combate, como disse Paulo de Argollo.

Neltair "Santiago" Rebés Abreu, desenhista gaúcho

Neltair “Santiago” Rebés Abreu, desenhista gaúcho

Que babaquice!

Sim, existem explorados e exploradores, negros e brancos, ricos e pobres, empresários e proletários, sim, mas o mundo não está dividido apenas entre explorados e exploradores, negros e brancos, ricos e pobres, empresários e proletários. O mundo é mais sofisticado, a sociedade é mais complexa e o Brasil, felizmente, é mais variado e complicado do que qualquer fórmula maniqueísta.

Médico 4Antes era mais fácil: você era contra a ditadura ou a favor dela. Ponto. Agora é preciso pensar um pouco. Quem é contra o governo do PT não é necessariamente tucano, nem simpático a Bolsonaro, nem entusiasta do futuro governo Temer. Quem considera a bolsa família um bom programa não é necessariamente petista. Quem é contra o aparelhamento do Estado pelo governo não é necessariamente a favor do Estado mínimo. E quem é petista não é necessariamente um chato. Mas, neste momento de ânimos espinhados, há que reconhecer que os petistas se transformaram em pessoas especialmente chatas.

Se você se afasta de uma pessoa de quem não gosta, você está sendo saudável; se você se aproxima, procurando o confronto, você está com problemas sérios.

Uma médica não querer atender um paciente por ele ser de determinado partido ou ter determinada opinião é totalmente reprovável. Uma médica não querer atender um paciente que a incomoda é totalmente compreensível. Importunos de todo o mundo: vade retro!

(*) David Coimbra é jornalista e colunista do jornal Zero Hora, de Porto Alegre.

O retrato

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 2 abril 2016

Faz ano e meio. Assim que Dilma Rousseff conquistou, pela segunda vez, vitória nas urnas, utilizei este espaço para dar-lhe meus parabéns. Aproveitei para pedir-lhe que não perseverasse na tática de alargar brechas entre classes de cidadãos, estranho método inaugurado por seu predecessor. Sugeri que não exacerbasse antagonismos e que pusesse fim à retórica do «nós» contra «eles».

A bem da verdade, é de constatar que o recurso ao antagonismo entre categorias de brasileiros se atenuou no discurso presidencial. O mérito é menos da presidente e mais do deslocamento da imaginária linha de fratura. O encorpamento do campo adverso acendeu luz vermelha no Planalto e deixou claro que era melhor botar a metáfora de molho.

Manif 3Dá tristeza, contudo, perceber que, antes mesmo que Dilma Rousseff assumisse o cargo maior, o mal já estava feito e a ferida, aberta. Nem nos tempos em que nosso povo se debateu sob feroz ditadura ‒ varguista ou militar ‒ hostilidades e ressentimentos entre cidadãos foram tão palpáveis. Se o objetivo tático dos que ora nos governam era segmentar e categorizar o povo, podem gabar-se de ter atingido o intento. Para seu desalento, no entanto, a parcela que os apoia vem-se apoucando a cada dia. O chavão do tiro que saiu pela culatra se aplica.

Ao ritmo em que avança a carroça, o caminho se estreita e o horizonte se fecha. Prever o futuro, como diz o outro, não é tarefa fácil. Tudo indica, no entanto, que os humores do Congresso se preparam a abreviar o mandato de Dilma. Se assim for, a ordem constitucional dispõe que Michel Temer ocupe o trono vacante. Missão espinhosa.

Numa primeira análise, tirando a honra de ganhar retrato na galeria de presidentes, o encargo será áspero. As finanças vão mal, a economia vai pior, a inflação come solta, o desemprego cresce, o PIB encolhe, a confiança na classe política esfarelou-se. O regime político de países vizinhos, antes considerados parceiros preferenciais, dá sinais de esgotamento. Na comparação internacional, o Brasil desaponta. Com tantas goteiras no teto, como impedir a inundação da casa?

Dilma e TemerChavão por chavão, aqui cabe outro: há que fazer das tripas coração. Paradoxalmente, é menos complicado erguer sobre escombros do que consertar um buraco aqui, uma avaria acolá. Com o país do jeito que está, não sobra alternativa, há que refundá-lo. Michel Temer, senhor de vasta experiência em coisas da política, tem o estofo necessário para a tarefa e dispensa palpites. Assim mesmo, deixo aqui algumas reflexões.

O atual vice-presidente, caso assuma a chefia do Executivo, terá chegado lá sem ter recebido um voto sequer. Longe de sombrear sua gestão, essa particularidade lhe confere amplitude de ação. Dado que não fez promessas, não poderá ser acusado de trair eleitores ‒ uma vantagem e tanto! A situação do Brasil desceu a um estado tal de degradação que qualquer ação que não se assemelhe a manobra para escapar da Justiça só poderá ser benfazeja. O alívio que a maioria do povo sentirá ao se dar conta de que o pesadelo terminou há de traduzir-se em simpatia ‒ e até em certa condescendência ‒ para com o novo mandatário.

Será um mandato curto, pouco mais de dois anos. Se senhor Temer quiser deixar marca positiva e relevante na história do país, terá de agir rápido. Para começar, tem de alinhavar um ministério com titulares capazes e de ficha limpa. Dividir por dois o número de ministros será medida apreciada.

Surfando na onda que clama por um Brasil decente, o chefe do Executivo deveria engajar pleno esforço na implantação do parlamentarismo. A hora é agora, que não dá mais pra esperar. Nosso regime presidencialista simplesmente se exauriu, mostrou seus limites, está gasto até a lona. Não tem remédio.

Galeria de presidentes da República

Galeria de presidentes da República

Outra reforma importante, sem a qual o parlamentarismo não funcionará, é a instauração do voto distrital puro, majoritário, com deputados eleitos em dois turnos. É a única maneira de aproximar representantes de representados. Cada eleitor conhecerá o deputado que o representa. Um benefício extra virá no bojo do voto distrital: a diminuição radical do número de partidos e a extinção das legendas de aluguel. Não é coisa pouca.

Essas são as grandes medidas, complicadas para governante eleito, mas ao alcance de um presidente sem voto, que nada prometeu. Claro está que senhor Temer pode optar pela facilidade e deixar tudo como está. Nesse caso, sua biografia desertará os livros de história e sua memória se resumirá a um retrato na galeria.

O bebê e o banho

José Horta Manzano

Um ditado francês manda ter cuidado para não jogar o bebê junto com a água do banho. Nada é inteiramente bom, assim como nada é totalmente ruim. Por pior que seja o caso, sempre dá pra salvar alguma coisa.

Senhor Luiz Roberto Barroso, juiz do STF, foi apanhado de surpresa ontem ao proferir opinião sem se dar conta de que a fala estava sendo gravada. Falou livre e solto até que percebeu a indiscrição.

Bebe eau du bain 1Análises e comentários raivosos apareceram hoje de manhã, focados todos nas críticas que o ministro fez à incompetência dos que deverão substituir a atual presidente caída. Segundo os articulistas, o passado petista do ministro o condena. Bobagem. Que os titulares de um passado absolutamente imaculado atirem a primeira pedra!

O furor dos comentaristas parece considerar que a alma humana é unifacetada e imutável. Não é bem assim. Mesmo a personalidade do pior dos facínoras tem aspectos menos sombrios.

Ainda que desagradem aos críticos, algumas considerações de senhor Barroso foram lúcidas e pertinentes. Ele disse, por exemplo, que a amplitude do dito «foro privilegiado» é desastre para o país. Preconiza que seja restrito ao presidente de cada um dos três poderes, a mais ninguém. Considera que o modelo atual estimula fraude de jurisdição. Tem razão.

by Jacques Sardat (aka Cled'12), desenhista francês

by Jacques Sardat (aka Cled’12), desenhista francês

Argumenta ainda que o atual sistema eletivo não reflete a vontade popular. O voto majoritário faz que o cidadão vote num candidato e, sem se dar conta, acabe elegendo outro. Recomenda o voto distrital, pelo qual cada eleitor escolhe o seu representante, do qual poderá cobrar as promessas de campanha. Do jeito que está, o cidadão não se sente representado e os representantes não se sentem vinculados aos que neles votaram. É belo exemplo de esquizofrenia.

A posição do ministro é equilibrada ‒ subscrevo. Um presidencialismo exaurido, como o nosso, deveria ‒ esse, sim ‒ ser jogado com o bebê e com a água do banho. No ponto a que chegamos, a instauração de parlamentarismo com voto distrital será mudança pra lá de bem-vinda.

Esqueça a mediocridade dos representantes atuais. Com o passar do tempo, um vínculo mais sólido se estabelecerá entre o povo e seus parlamentares. Será solução benéfica para todos.

Mudando de assunto…

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Dois artigos abordando direta ou indiretamente a relação entre câncer e psiquismo chamaram minha atenção nestes últimos dias.

O primeiro, um vídeo de Dráuzio Varella, no qual ele afirma enfático que “não há nenhuma possibilidade” de que distúrbios de caráter estritamente psicológico possam provocar “mutações genéticas”. En passant, ele ainda discorre sobre a falta de comprovação científica de que a religiosidade ou a espiritualidade possam interferir positivamente para a cura do câncer. Diz ainda, com ar paternalista de desaprovação, que as tentativas de associar o aparecimento de um tumor cancerígeno a aspectos psicológicos e a não resposta ao tratamento à “falta de vontade” do paciente são duplamente cruéis, já que instilam culpa em uma pessoa já combalida pela doença.

Doente 1O segundo, um artigo publicado na Folha de São Paulo por Marcelo Leite, no qual ele contesta asperamente a decisão de juízes do STF e de congressistas no sentido de liberar a produção e distribuição da fosfoetanolamina. Ao longo de seu arrazoado, ele equipara a assim chamada “pílula do câncer” a coisas como barbatana de tubarão, cogumelo do sol e maca peruana e conclui autocraticamente: “São pseudomedicamentos que se aproveitam da credulidade e do desespero dos enfermos e de seus parentes para vender uma esperança desumana”. Mais para a frente, ele argumenta ainda que as pessoas que aprovaram o uso dessa droga sem o aval da Vigilância Sanitária são “os mesmos que não pensam duas vezes antes de desperdiçar milhões do contribuinte quando forçam o SUS a pagar terapias duvidosas com células-tronco e que tais em países asiáticos”.

Um minuto de silêncio para absorver o impacto dessas informações e para lamentar a morte do verdadeiro espírito científico. Tudo isso em dois sentidos principais: o primeiro, aquele que considera que só se pode chamar de “ciência” as investigações quantitativas; o segundo, aquele que ignora que resultados obtidos em um estudo podem ser contestados por outros, dependendo da premissa de base, da acurácia dos instrumentos utilizados e dos conhecimentos vigentes à época de cada estudo. Ai, Santo Einstein, que seria de ti nas mãos desses iluminados?

Doente 3Respeito o desejo que esses doutores manifestam de proteger incautos de curandeiros e de falsas promessas. Não posso deixar, no entanto, que eminências pardas da medicina alopática mexam impunemente num vespeiro do qual faço parte. Reconheço a veracidade desta ou daquela afirmação isolada, admito que sua indignação pode ser legítima, mas pasmo com a ligeireza intelectual com que esses senhores estabelecem conexões entre fatores absolutamente díspares. Para mim, é como alardear que está provado cientificamente que baratas não ouvem pelas pernas, já que um estudo controlado mostrou que elas não saem do lugar quando expostas a ruídos altos, sem mencionar que suas pernas foram previamente arrancadas uma a uma.

Seres humanos não são máquinas de laboratório. Não possuem apenas corpos físicos que podem ser submetidos a estímulos físico-químicos para anotação de reações orgânicas. Gostemos ou não, humanos contam também com todo um aparato psíquico que interage e influencia decisivamente suas reações orgânicas a esses mesmos estímulos. E, pouca gente se dá conta disso, há uma proibição ética universal de testar reações psíquicas em laboratório.

Todo cientista que se orgulhe desse título conhece muito bem o assim chamado “efeito placebo”. Para quem nunca ouviu falar dele, eu explico: o simples fato de estar recebendo uma pílula (de açúcar ou substância inerte) – ou, de forma mais insidiosa, o simples fato de estar recebendo atenção de pesquisadores médicos ‒ pode fazer com que o paciente experimente “cura” de seus sintomas. Em outras palavras, a crença psicológica – ou ato de fé, para religiosos e espiritualistas ‒ de que se está recebendo a resposta desejada para dar fim ao sofrimento humano é tão forte que é capaz de promover alterações orgânicas importantes, na mesma direção da droga que está sendo pesquisada.

Se isso é verdade facilmente constatável no caso de tratamentos experimentais, por qual razão a interferência psíquica não seria verdadeira para determinar o aparecimento de doenças, inclusive as que implicam mutações genéticas, como o câncer? Wilhelm Reich, um médico, psicanalista e cientista natural, dissidente de Freud, dedicou boa parte de sua vida ao estudo da sexualidade humana e do câncer. Já na primeira metade do século 20, ele conceituou o câncer como uma espécie de “desistência” da pessoa frente aos desafios da realidade (os contornos psicanalíticos dessa tese podem ser conhecidos mais em detalhe em seus livros) e afirmou que o órgão afetado será sempre simbólico dessa desistência.

Doente 2Que as emoções humanas interferem no sistema imunológico é fato sabido há mais de meio século. Que depressão e culpa são fatores intervenientes e críticos para o rebaixamento das defesas orgânicas também. Que pacientes acometidos por câncer e outras doenças terminais podem ter expectativas de vida mais altas e maior probabilidade de remissão de seus quadros graças a suas atitudes, crenças, estilos de vida e perspectivas espirituais são outras descobertas científicas relevantes, como o demonstrou à exaustão o médico americano Carl Simonton. A esperança de um futuro melhor é parte constituinte e indissociável do psiquismo humano saudável.

Emprestar paternalisticamente à credulidade de leigos alguns resultados favoráveis obtidos no consumo de certas substâncias ou em tratamentos experimentais é uma atitude que, a meu ver, não ajuda a identificar as causas nem a aprender a lidar com o sofrimento físico, a dor psicológica e o desalento espiritual da humanidade. Um pouco de humildade para encarar a complexa estrutura multifatorial humana me parece fundamental para fazer avançar o conhecimento científico. Mal não faz. Como diz um ditado popular, arrogância e água benta cada um pega o quanto aguenta.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Um elenco de golpistas

Ruy Castro (*)

Já vivi vários golpes de Estado e todos me pegaram de surpresa. Nada demais nisto, nunca participei de qualquer governo, nem podia saber que havia um golpe em curso. O incrível é que esses golpes pegaram de surpresa também os governos que derrubaram. Claro ‒ ou não seriam golpes.

O golpe que vem sendo denunciado pelo governo Dilma é diferente. Dá-se à luz do dia, tramado por 73% da população, que desaprova o dito governo, sob as barbas do Senado Federal, da Câmara dos Deputados, de membros do STF, da Procuradoria Geral, do Ministério Público, da Polícia Federal, da OAB e de outras instituições da República, que nada fazem para impedi-lo, e obedece a um complexo ritual de trâmites, todos com data marcada com meses de antecedência.

E, contrariando a natureza dos golpes, em que os golpistas atuam embuçados e na sombra, neste eles vêm à boca de cena e se identificam publicamente.

by Roque Sponholz, desenhista paranaense

by Roque Sponholz, desenhista paranaense

Na terça última (29), inúmeras categorias profissionais ocuparam as páginas dos jornais dizendo que gostariam de ver a presidente pelas costas. E se assinaram: fabricantes de sorvete, chocolate, biscoitos, balas, doces e derivados; plantadores de milho, cana e amendoim e produtores de óleos e azeites, leite, soja e macarrão.

Sindicatos das indústrias de tintas e vernizes, cerâmicas e olarias, parafusos, porcas, rebites e similares, de artefatos de metais ferrosos e não ferrosos, de curtimento de couros e peles e de extração de mármores, calcários e pedreiras.

Industriais da cerâmica de louça e porcelana, da recauchutagem de pneus e retífica de motores e do beneficiamento de fibras vegetais e descaroçamento de algodão. Alfaiates, gráficos, farmacêuticos, misturadores de adubos, criadores de suínos e controladores de pragas urbanas. Etc. etc. etc.

Nunca se viu um elenco tão variado de golpistas.

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. O texto foi publicado na Folha de São Paulo.

Pagando o pato

José Horta Manzano

O folclore político nacional tem engordado com novos figurantes. O pixuleco e o pato são as imagens mais recentes. A presença do pixuleco, todos entendem: simboliza o corruptor-mor. Já o pato representa o cidadão que acaba pagando a conta da capetagem de seus governantes.

Mas por que ter escolhido um pato? Faz alusão à expressão «pagar o pato». E qual é a origem dessa curiosa frase? Há quem conte alguma tortuosa história de um pato que teria servido como moeda de troca numa hipotética negociação. Parece que o caminho não é esse.

É interessante notar que, na roupagem castelhana «pagar el pato», a expressão é corrente também na Espanha. A explicação que os espanhóis dão sobre a origem dela é mais convincente. Tem a ver com a expulsão dos judeus, determinada em 1492 por Fernando de Aragão e Isabel de Castela.

Pato 1Naquela época, duas opções foram dadas aos israelitas: ou se convertiam ao cristianismo, ou deixavam o país. Muitos se foram, outros preferiram se converter e ficar. Entre os que permaneceram e se converteram, alguns conservaram a antiga fé. Em público, agiam como cristãos, mas na intimidade familiar, mantiveram ritos e práticas da antiga religião.

Volta e meia, uma ou outra família acabava desmascarada por um vizinho ou por um curioso. Nessas horas, antes de os denunciar à Inquisição, o bisbilhoteiro costumava chantagear os infelizes. Para escapar do tribunal, da tortura e da fogueira, os contraventores preferiam pagar o montante que o denunciante lhes exigia.

Pagavam por não ter abandonado o «pacto com Deus», ao qual os judeus aderem desde os tempos bíblicos. A linguagem popular se encarregou de deturpar a expressão. De «pagar o pacto», transformou-se em «pagar o pato».

Pato 2Etimologia
Em muitas línguas europeias, o nome do simpático palmípede deriva de antiquíssima raiz sânscrita que deu em latim=anas/anatem; em italiano=anatra; em alemão=Ente; em catalão=ànec; em lituano=antis.

Nas línguas ibéricas, a influência árabe se impôs. Tanto em espanhol quanto em português, dizemos pato, derivação do persa bat através do árabe clássico baṭṭ e do árabe hispânico páṭṭ.