Bahrein

José Horta Manzano

O Bahrein, reino insular do Oriente Médio, é um país muito pequeno, mas muito rico. Pelas contas do FMI, seu PIB em 2017 foi de US$ 52.000 por habitante. Para efeito de comparação, no mesmo ano o Brasil cravou US$ 15.500 por habitante. Uma senhora diferença de 1 pra 3,5.

A economia do país é inteiramente baseada na extração de petróleo. Antes da descoberta do óleo negro, a ilha era habitada por tribos que comerciavam com outros povos da região. Não sei bem o que vendiam nem o que compravam, mas esse detalhe pouco interessa à nossa história.

O fato é que, como todo o mundo sabe, as reservas de petróleo não são infinitas. É difícil dizer quanto tempo vão durar, porque vai depender do ritmo de extração. Mas, do jeito que vão as coisas, com o mundo buscando (e encontrando!) fontes renováveis de energia, não vai demorar muito pra que o petróleo perca boa parte de seu interesse e os preços despenquem.

Os dirigentes do pequeno país não são bobos nem vivem dentro de uma bolha. Sabem perfeitamente que, se nada fizerem, dentro de poucas décadas voltarão a andar de camelo nas areias de seu desértico país. Com chance, poderão vender alguns quilos de tâmaras a alguma caravana de passagem.

A fim de não sofrer esse triste fim, já faz anos que vêm investindo para transformar o reino em um polo de “soft power”, um moderno centro de tecnologia, de telecomunicações e de turismo. Só assim escaparão de um retorno a condições medievais.

Bolsonaro esteve lá estes dias, pra inaugurar a embaixada do Brasil em Manama, a capital, e pra saudar o soberano. Na véspera de ser recebido pelo rei, nosso presidente estava ainda em Dubai. Foi lá que, imaginando que o auditório fosse integrado por um bando de ignorantes, contou a grande mentira que marcou seu passeio médio-oriental: que a Amazônia ainda estava “do mesmo jeitinho e do mesmo tamanho que tinha quando chegaram os portugueses 500 anos atrás”. A enormidade coincidiu com a publicação dos números de desmatamento do mês passado: 876,5 km2. Tem ideia do que isso signifique?

Faz dois dias, escrevi sobre o assunto. Volto a bater na mesma tecla porque acabo de me dar conta de que a superfície do Reino do Bahrein – com tudo incluído: a ilha principal, ilhas costeiras, camelos, o rei, os ouros e os mármores – atinge 785,0 km2. Resultado do páreo: só no mês de outubro, apesar do negacionismo crônico de Bolsonaro, o Brasil destruiu uma área de cobertura vegetal maior que a superfície do Bahrein inteiro!

Fico aqui calculando quantos barris de ouro negro o rei do desértico país não daria pra ter uma parte, uma pequena parte, um tiquinho desse verde todo que o Brasil vai destruindo a cada dia que passa. Nem que fosse meia dúzia de árvores.

A floresta intocada

Bolsonaro mergulhado nos ouros e nos mármores do Oriente Médio.

José Horta Manzano

Bolsonaro, o indesejado das gentes, não é bem-vindo em nenhum país civilizado. Não recebe convite para visitar nenhum deles. Sem ter o que fazer, perambula pela periferia do mundo. E leva junto os bolsonarinhos, que também parecem não ter nada mais importante pra fazer na vida.

Estes dias, está fazendo turismo nos palácios de ouro e mármore que ditaduras hereditárias levantaram, com o dinheiro do petróleo, sobre as areias do desértico Oriente Médio.

Nenhum jornalista ousou fazer-lhe a pergunta fatal: “Então, presidente, aquela promessa de campanha de transferir a embaixada do Brasil de Tel Aviv para Jerusalém, como é que fica?”. Não convém reavivar memória de ofensas passadas, justamente quando se está de visita à casa dos ofendidos.

Em discurso pronunciado neste 15 de novembro, Bolsonaro garantiu, alto e bom som, que a Amazônia continua virgem e intocada, exatamente como a encontraram os primeiros exploradores portugueses chegados em 1500.

Distorcida pelo linguajar peculiar do capitão, a frase saiu picadinha. Mas o fundo de seu pensamento era esse. Garantiu, sem corar, que as queimadas são um mito. Em seu raciocínio, a floresta, sendo úmida, não pode arder. (Me fez lembrar aquele impagável discurso em que o Lula ensinava que só havia poluição no Brasil porque a Terra gira; não girasse, não haveria poluição.)

Por coincidência, no mesmo 15 de novembro, o Instituto de Pesquisas Espaciais anunciou a triste verdade: diferentemente do que anuncia o capitão, a floresta amazônica continua encolhendo. Só no mês passado (outubro), 876,5 km2 viraram pó.

No Brasil, país acostumado a cifras gigantescas – de população, superfície, assaltos e mortes por covid –, esse número não impressiona. Em outras partes do mundo, não é bem assim.

A Suíça, por exemplo, abriga 8 milhões de habitantes espalhados por 26 cantões. Pois saiba o distinto leitor que a superfície de floresta amazônica brasileira destruída no mês de outubro é exatamente a mediana da área dos cantões suíços. Isso quer dizer que metade dos cantões tem superfície menor que 876,5 km2, enquanto a outra metade tem superfície maior que a zona desmatada. “Ah, mas a Suíça é país pequeno!” – dirá um desmancha-prazeres. Ah, é? Então leia o que vem a seguir.

A superfície que foi desmatada só no mês de outubro pode não impressionar no Brasil, mas deixa de queixo caído em outras partes do mundo. É mais que 8 vezes a superfície do município de Paris, número que impressiona qualquer francês. É mais que 7 vezes a área do município de Milão, vastidão de deixar abobado qualquer italiano. Para todos eles, é aterrorizante imaginar que o Brasil destrói, a cada 3 dias, a cobertura vegetal de uma área do tamanho de uma grande metrópole.

Ao fim e ao cabo, a mentira presidencial tem perna curta. Doutor Jair Messias não é o único canal de informação da plateia que acompanhou seu palavrório nas Arábias. Como pessoas bem formadas e bem informadas que são, todos eles, a estas alturas, já devem estar a par dos números do Inpe. Já conhecem a verdade. Eles, sim, dispõem de canais que lhes dão informações eficazes.

Não faço ideia de quem prepara os discursos do capitão. Há de ser gente que nunca sai da bolha. Eles parecem acreditar que o mundo é composto de devotos que bebem unicamente as “verdades” espalhadas pelos canais bolsonaristas.

Enganam-se, fazem o presidente dar vexame. De tabela, envergonham a todos nós.

Pra que serviu a CPI?

Excursão à Europa
Depois de deixar a embaixada pela porta dos fundos, Bolsonaro dá seu passeio turístico pelas ruas de Roma, sempre rodeado por pequena multidão de apoiadores descontraídos e sorridentes.
30 out° 2021

José Horta Manzano

Faz quase 3 anos que nos acostumamos a ter na Presidência um sujeito de poucas qualidades e muitos defeitos. Fanfarrão, boca-suja, despreparado, desfocado, misantropo, debochado, ignorante, covarde, egoísta, mentiroso – são seus desarranjos mais amenos. Os mais pesados teriam de ser descritos com palavrões impublicáveis.

É impressionante como a gente acaba se habituando a uma realidade trágica. E isso tinha de acontecer logo no Brasil, país tão carente de um personagem esclarecido, bem-intencionado e de mão firme para dirigir a República. E tinha de acontecer justo durante o maior desastre sanitário desde a Gripe Espanhola, de 1918.

Que remédio? É nossa sina. Desde que o velho FHC desceu a rampa, já lá se vão 20 anos, nossos presidentes têm sido assim: uns mais empacados, outros menos, mas todos desligados do Brasil real, distantes das necessidades verdadeiras da população. Tem sido um desfile de indivíduos indignos de ocupar a Presidência de um país cuja Constituição concentra tamanho poder nas mãos de um indivíduo só.

A gente sempre espera que o próximo será melhor. “Desta vez, vai!” – é a torcida de todos. No entanto, ai de nós todos, tirando a devoção cega que uma minoria de eleitores possa ter por este ou aquele, há que constatar: é um pior que o outro.

Só que, desta vez, com Bolsonaro, atingimos o ápice, o cúmulo, o topo, o nec plus ultra – impossível ir mais longe. (Pelo menos, é o que se espera; há gente pior, mas vamos torcer para que nunca sejam eleitos para a Presidência.)

Há quem acredite que a CPI da Covid não serviu pra nada. Não é minha opinião. Ela serviu para reafirmar – de papel passado e com firma reconhecida –, o que todo o mundo já sabia sobre o governo do capitão. Pra reforçar, ainda apareceram mais podres, como o Ministério da Saúde envolvido em negociata com vacinas, um episódio de corrupção explícita do governo Bolsonaro. A corrupção à la Bolsonaro, que antes era apenas suposição, tornou-se realidade fáctica.

A notícia atravessou as fronteiras. O mundo inteiro agora conhece a verdadeira face da sinistra farsa que se desenrola nos palácios de Brasília. De passeio em Roma para ouvir o discurso dos grandes dirigentes mundiais na reunião do G20, o popular capitão teve de deixar a embaixada do Brasil pela porta dos fundos. Na entrada principal, estavam jornalistas e manifestantes contrários à sua presença. Nem Dilma, nos piores momentos de seu desastrado governo, teve de passar por esse tipo de vexame. O homem só sai à rua cercado por uma vintena de seguranças tipo dois por dois.

Aos olhos do mundo, o Brasil, como nação, continua firme e forte. O mundo compreende que, ao eleger Bolsonaro, os brasileiros deram um pulo no escuro. Se o eleitorado soubesse, na época, o que se sabe hoje, o capitão jamais teria sido eleito. Este blogueiro, que acompanha diariamente o que se diz no exterior sobre o Brasil, tem se dado conta de que a imagem do presidente se descola cada dia mais do povo brasileiro. A opinião pública mundial aprendeu a fazer a diferença entre o desvairado dirigente e o povo, que é obrigado a suportá-lo. Guardando as devidas proporções, a situação é comparável ao que ocorre atualmente no Afeganistão: o povo é visto como vítima dos talibãs, não como cúmplice.

Há potentados pouco recomendáveis no mundo. Eu não poria a mão no fogo por gente como Putin (Rússia), Lukachenko (Bielo-Rússia), Kim Jung-il (Coreia do Norte), os bondosos irmãos Castro (Cuba), Maduro (Venezuela), Erdoğan (Turquia) & outros. Mas, no fundo, o que é que o mundo sabe deles? Pouco, muito pouco. Quase nada.

No caso de Bolsonaro, depois do relatório final da CPI, é diferente. Afinal, o inquérito não foi instruído por revolucionários juvenis, mas por senadores da República, eleitos pelo povo. Durante meses, as manchetes da imprensa mundial fizeram eco aos depoimentos e às acusações da CPI. Ninguém mais pode dizer que não sabia. Agora, terminados os trabalhos, o Brasil não será mais o mesmo. Todos nós sabemos. E o mundo também.

Ofensa pode custar caro

José Horta Manzano

Pelo tamanho do país, até que o Brasil não exporta tanta fruta assim. Aqui na Europa, alguns anos atrás, até que se via, aqui e ali, algum produto brasileiro. Hoje em dia, mais e mais se vê uva do Chile, goiaba da Tailândia, abacaxi da Costa do Marfim, banana-maçã das Ilhas Canárias, figo da Turquia, laranja da África do Sul.

Alguma importação do Brasil haverá, mas não sobressai. Não sou especialista na área, daí não saber explicar a razão da mudança que se opera estes últimos anos. Chutando, eu diria que o volume de certas exportações específicas (suco de laranja, por exemplo) aumentou muito e acabou por encobrir o encolhimento de outras vendas. Se alguém souber mais, todo esclarecimento é bem-vindo.

Acabo de ler um artigo no site da Câmara de Comércio Árabe Brasileira. Fala justamente da exportação de frutas brasileiras para o imenso mercado árabe. Comparado com o que se exporta para a Europa, EUA, Canadá e até para a China, o volume de vendas a países árabes é modesto. Mas o importante são as perspectivas de crescimento.

A Câmara de Comércio informa que, de 2018 para 2019, o aumento foi de 34%. É considerável para um ano só. A continuar assim, o mundo árabe vai logo se tornar importante cliente do Brasil nessa área também.

Alguém precisa avisar, sem demora, a doutor Bolsonaro. Embora esteja entre os grandes, o Brasil não é o único produtor de frutas. Muitas outras nações estão aí, grudadas, na fila, só esperando a ocasião pra abocanhar mercados. Se nosso admirável doutor – especialista em soltar ofensas gratuitas e gerar confusões evitáveis – continuar batendo na tecla da mudança da embaixada de Tel Aviv para Jerusalém, afastará esse mercado florescente e será o único culpado de o Brasil perder mais essa.

Crista alta

José Horta Manzano

Talvez o distinto leitor já se tenha dado conta: doutor Bolsonaro está mais manso. Oh, não digo que se tenha civilizado de todo. Longe disso! Continua soltando coices, dando pinotes e relinchando feito potro bravo. Mas, aos poucos, vai-se amansando.

Lembram-se da bravata inicial, aquela da transferência da embaixada em Israel de Tel-Aviv pra Jerusalém? Essa provocou até a visita do premiê israelense, única personalidade não latino-americana presente à cerimônia de tomada de posse. Pois a veleidade já foi pra lata do lixo.

De lá pra cá, à força (ou por falta de força), fanfarronices e outras farofas têm sido varridas. A Cancún brasileira na baía de Angra dos Reis, em área de reserva natural? Pode esquecer! E por quê?

by Alisson Affonso (1979-), artista gaúcho

Porque, caso ele ousasse mandar tocar um projeto desse calibre, o mundo civilizado lhe desabaria sobre o cocuruto. Receberia ameaças de toda parte. Tratados de cooperação seriam denunciados. Ajuda financeira seria cortada. Retaliação pesada viria por aí.

O planeta tem regras, algumas escritas, outras habituais ainda que não contratuais – customary, como dizem os ingleses. Só quem pode passar por cima delas é quem tem muuuito poder. Donald Trump, por exemplo, que tem nas mãos as rédeas da maior potência do planeta.

Estados estão sujeitos a um emaranhado de leis, obrigações, dívidas, deveres. Não dá pra fazer de conta que o Brasil é um planeta à parte. Não é assim que funciona. Doutor Bolsonaro é café pequeno perto dessa gente graúda. Vai ter de se amansar, goste ou não.

Aliás, já deve estar se dando conta de que cada pronunciamento seu é um desastre que acaba sendo prejudicial pra ele mesmo. Embora não seja um luminar, tampouco é totalmente tapado. Portanto, aos poucos, de tanto levar pancada, vai acabar aprendendo. Vai baixar a crista e acabar se tornando um presidente comum. E que tome cuidado e ande na linha, que é pra não terminar em Curitiba, como um conhecido antecessor.

Agrément

José Horta Manzano

Mandando às favas toda a tradição diplomática, doutor Bolsonaro anunciou urbi et orbi – à cidade e ao mundo – que nomearia um dos bolsonarinhos para a chefia da embaixada do Brasil em Washington, o posto mais cobiçado da carreira, de costume reservado a profissional calejado e ultraexperimentado. O anúncio causou frisson. A memória do Itamaraty não registra caso de nome divulgado antes da obtenção do agrément. É que, caso ele não seja concedido, a estrepolia resultará num tapa na cara do Estado brasileiro, uma senhora afronta. Não convém facilitar. Mas o que é mesmo esse tal de agrément?

Como costuma ocorrer em matéria diplomática, a palavra é francesa. Foi importada tal e qual, com a grafia original. O acento que aparece sobre o é não é nosso acento tônico. Segue a ortografia francesa. É que a letra e, em francês, pode ter três sons diferentes. O acento tônico indica que, neste caso, o e tem som fechado, como nosso ê. A palavra inteira, para nossos ouvidos, soará oxítona, com acento tônico na última sílaba – algo próximo a «agremã».

O agrément é o reconhecimento emanado de uma autoridade oficial. Na França, onde seu uso é mais amplo, atesta que o indivíduo tem a formação e as qualidades necessárias para exercer a função que pleiteia. Em português, o campo semântico se estreitou. O agrément é usado exclusivamente em linguagem diplomática. Emitido por um Estado, significa que ele concorda com receber determinado indivíduo como representante de outro Estado.

Rei Luís XIV recebe o embaixador da Pérsia – Versailles, 1715
by Antoine Coypel (1661-1772), pintor francês

A palavra deriva do verbo agréer (= acolher favoravelmente, aceitar). Por sua vez, esse verbo descende de gré, que é a forma francesa do adjetivo latino gratus (=grato). E aí chegamos ao ancestral comum. Se não temos, em nossa língua, palavra correspondente ao agrément francês, temos uma coleção de primos próximos e afastados. Grato, gratidão, malgrado, agradecer, grado, gratificar, congratular, grátis, graça, gratuito. Todas essas palavras carregam, de perto ou de longe, um sentido de gratidão.

Ao receber o agrément do Estado que o acolherá, o novo embaixador passará a ser persona grata, ou seja, pessoa acolhida de bom grado, de boa vontade, sem objeção. Se o agrément lhe devesse ser negado, o infeliz se tornaria persona non grata, vexame pelo qual ninguém quer passar.

Doutor Bolsonaro assumiu pesado risco ao tornar pública a nomeação do bolsonarinho antes de receber o agrément de Washington. Traquinagem de gente inexperiente. Mas observadores atentos garantem que o “de acordo” virá. Por seu lado, muitos acham que o desterro de um dos problemáticos filhos do presidente só pode ser benéfico para o Brasil, na medida que doutor Bolsonaro perderá um dos tripés que o sustentam. Pessoalmente, não sou dessa opinião.

Acredito que a embaixada em Washington é muito mais do que um festival de mundanidades, com um coquetel aqui, uma visita ali, uma recepção acolá. A chefia da embaixada tem de ser entregue a um profissional ultraexperiente, o que não é o caso do bolsonarinho. Que os filhos em torno do presidente sejam dois ou três, pouca diferença faz: o desvario do pai será o mesmo. Um dos rebentos enxertado na embaixada de Washington pode causar estrago maior.

La famiglia
O distinto e culto leitor certamente conhece o verbo inglês to agree (=concordar) assim como o substantivo agreement (=acordo). Agora já se deve ter dado conta de que são empréstimos tomados diretamente do francês. To agree vem do verbo agréer. E o agreement inglês é o exato correspondente do agrément francês.

Ispiquingri?

José Horta Manzano

Fosse doutor Bolsonaro dotado de sagacidade em matéria política, a gente até acreditaria ser balão de ensaio, daqueles que a gente solta só pra ver que efeito faz. Mas não. Nosso presidente passou longe da fila da sutileza logo antes de descer à terra no bico da cegonha. Com ele, não há balão de ensaio. O que diz é o que pensa, vem cru e sem tempero. O problema, como bem frisa o Conselheiro Acácio, é que as consequências costumam vir depois. E olhe que vêm mesmo.

A mais recente tirada estapafúrdia do presidente foi o anúncio de sua intenção de nomear um dos bolsonarinhos para chefiar a embaixada do Brasil em Washington. Não é balão de ensaio, acreditem. É o que doutor Bolsonaro pensa, o que ele acha melhor para ele, logo, para o Brasil. Escolheu o filho que, eleito deputado federal em outubro passado, com monumental votação, não tem sido a figura mais assídua do hemiciclo.

Mas os brasileiros podem dormir tranquilos porque, antes de assumir o posto, o bolsonarinho deverá passar pelo crivo do Senado da República. Por pior que sejam os parlamentares da Câmara Alta – e não são tão ruins assim – não deixarão passar esse disparate.

Cego guiando cego
by Frits Ahlefeldt, desenhista dinamarquês

O filho do presidente não é diplomata. Nunca chefiou embaixada, nem consulado. Não foi sequer atendente de guichê de entrega de passaporte. É lícito pensar que não passaria no exame de entrada no Instituto Rio Branco. No de saída, então, nem em sonho. Nossos diplomatas são numerosos e estão entre os profissionais mais bem formados do país. Não faz sentido introduzir um estranho no ninho. Em festa de inhambu, jacu não entra.

A escolha do rebento presidencial para o mais alto posto de nossa diplomacia passa incontestável atestado da falência da Instrução Pública no país e dá prova escancarada do constrangedor monolinguismo nacional: o rapaz conhece bem inglês. Ah, se o rapaz conhece bem inglês, então está em condições de assumir o cargo – é o que imagina doutor Bolsonaro.

Ora, ora… Vejam, senhores: a ignorância nacional em matéria de conhecimento de línguas estrangeiras é tão monumental que o fato de um cidadão arranhar seu inglesinho já lhe dá currículo suficiente pra ser titular da mais importante embaixada que o Brasil mantém.

In terra caecorum monoculus rex.
Em terra de cegos, quem tem um olho é rei.

A que ponto chegamos!

Falam de nós – 27

José Horta Manzano

De modo discreto, o Itamaraty destricota a trama trançada por Lula da Silva quando ocupava o trono do Planalto. Naqueles anos de desvario, os olhos gulosos de nosso guia enxergavam longe, bem pra lá da Presidência. O posto de secretário-geral da ONU seria um coroamento digno, uma prova incontestável de que o homem tinha chegado lá. Como proceder? – era a pergunta.

O melhor caminho era angariar a simpatia do maior número de pequenos países, pra conseguir apoio deles na hora decisiva. No que tange às ditaduras africanas, era fácil: bastava conquistar o «dono» de cada país, problema que dinheiro resolve facilmente. Quanto a pequenos Estados democráticos, onde governos mudam ao sabor das eleições, um jeito de agradar era abrindo embaixada lá. Uma representação do Brasil é sempre bem-vinda porque eleva a importância de pequenos países.

Embaixada do Brasil em Bridgetown, Barbados
(país insular caribenho de 278 mil habitantes)

O lulopetismo adotou essa solução. Abriu uma rede de embaixadas nossas em ilhotas do Caribe, países que poucos seriam capazes de localizar no mapa e dos quais pouca gente já ouviu falar. Acontece que embaixada dá despesa. Virada a página do lulopetismo e afastada a ideia de o presidente do Brasil se tornar secretário-geral da ONU, as embaixadas em países microscópicos tornaram-se sorvedouro de dinheiro sem retorno nenhum.

Li a notícia no portal russo Sputnik: o Itamaraty está fechando algumas dessas representações. As embaixadas na Dominica (Roseau) e em Antígua e Barbuda (Saint John’s) já fecharam as portas. As próximas a cessar atividades são as de Granada (Saint George), São Cristóvao e Neves (Basseterre) e São Vicente e Granadinas (Kingstown). Considerando o volume de negócios entre o Brasil e esses pequenos países, as embaixadas não farão falta a ninguém. Apesar dos cortes, ainda há muita embaixada cuja existência é difícil justificar.

Mixórdias incompreensíveis

Ruy Castro (*)

Entra presidente, sai presidente, e os funcionários das embaixadas brasileiras no exterior continuam sofrendo. Nossos governantes precisam viajar de vez em quando e, como não são obrigados a falar outra língua ‒ nenhum governante é ‒, dependem dos intérpretes para conversar com seu colega estrangeiro ou com a imprensa local. Esses intérpretes, se forem do velho Itamaraty, são fluentes nas línguas internacionais e competentes na dos países em que servem. O problema são os presidentes. Além das asneiras que dizem, quase todos têm péssima dicção.

Jair Bolsonaro, pelo que já se viu e ouviu, é um desastre vocal. Fala depressa demais e suas consoantes atropelam as vogais, numa mixórdia quase incompreensível ‒ é como um trem descarrilado, com os vagões, no caso, as sílabas, amontoados uns sobre os outros. Às vezes, desiste de uma frase pelo meio e a substitui por outra, que, idem, não conclui. Esse suposto à-vontade não quer dizer segurança ou desembaraço, mas desleixo, mesmo. Ou contratam uma professora como Glorinha Beutenmüller para ensinar Bolsonaro a falar, ou seus intérpretes terão de pular miudinho.

Não é só Bolsonaro, claro. Lula era língua presa ‒ ainda é. Seus esses soam como efes, tipo “Eu fó queria faber, eu fou ou não fou o dono do fítio?”. Imagine-o, em presidente, falando com Mugabe, do Zimbábue, Maduro, da Venezuela, ou Ali Bongo, do Gabão, e os intérpretes tendo primeiro de traduzi-lo para o português antes de vertê-lo para seus ditadores favoritos.

Já o problema de Dilma eram os absurdos que dizia, como “Depois que a pasta de dente sai do dentifrício, ela dificilmente volta pro dentifrício”. E o de Temer é o conteúdo zero com os pronomes certos ‒ suas falas são um vácuo, não dizem nada.

E Fernando Collor? Posso calcular o suplício do intérprete se ele dissesse lá fora o que, certo dia, disse aqui: “Eu tenho aquilo roxo!”.

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. Seus artigos são publicados em numerosos veículos.

Jerusalém x Tel-Aviv

José Horta Manzano

Em matéria de política externa (mas não só), o lulopetismo é contrarreferência. Para acertar, basta fazer o contrário do que fizeram eles. Se foram, convém não ir. Se ficaram, é bom afivelar malas e partir rápido. Agir assim é a melhor receita pra atingir o alvo.

Uma das gafes mais sonoras de Lula da Silva ‒ memorável vexame ‒ foi a desastrada tentativa de interferência no nó do Oriente Médio. Ao forçar a entrada de um lugar onde não tinha sido chamada, a trôpega diplomacia petista acabou se pondo mal com todos os envolvidos. Não resolveu problema nenhum e, humilhada, teve de recolher-se à própria insignificância.

A embrulhada médio-oriental é angu de caroço. Interesses conflitantes, irreconciliáveis e às vezes incompreensíveis se embolam num balaio de gatos. Pra quem é de fora, mais vale dar um sorrisinho, cumprimentar a todos educadamente, mas permanecer longe, equidistante de cada um.

Itamaraty, Brasília

Doutor Bolsonaro anunciou que tenciona transferir a embaixada do Brasil em Israel de Tel Aviv para Jerusalém. Não sei o que é que o terá levado a essa ideia inoportuna. Num vespeiro daqueles, a melhor atitude a tomar é deixar como está. Toda ação, ainda que simpática a uns, será tomada como agressão por outros. Não vale a pena forçar a barra.

Desde que Mr. Trump anunciou a mudança da embaixada dos EUA para Jerusalém, seu gesto foi seguido por um único país: a Guatemala ‒ por mistérios insondáveis, diga-se. Por que raios o Brasil tem de seguir por esse caminho pedregoso? Doutor Bolsonaro pode até sentir vontade de deslocar a embaixada, mas o Estado brasileiro não tem interesse nisso.

Ainda há tempo de minorar o efeito negativo do anúncio. Doutor Bolsonaro pode, por exemplo, ir adiando a transferência da embaixada até o dia de São Nunca. Não dá pra reparar o mal causado pelo anúncio, mas o tempo atenua o impacto.

Quanto a futuras decisões em negócios internacionais, o novo presidente deveria guardar sempre em mente, como um mantra: se o PT fez, não farei; se o PT não fez, faço rápido.

Cada um por si

José Horta Manzano

Saiu hoje a notícia fresquinha: acompanhando os EUA, o Paraguai decidiu transferir sua embaixada em Israel para Jerusalém. As novas instalações devem ser inauguradas hoje, com a presença de Horacio Cartes, presidente do Paraguai. Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel, também assistirá ao evento.

Há quem se alegre com o fato de os Estados Unidos terem transferido a embaixada para Jerusalém, reconhecendo assim, de facto, que a cidade é a capital de Israel. Há também quem rejeite a decisão americana. Todos terão bons argumentos. Até aí, tudo bem.

O que mais me perturba nessa história não é tanto os EUA terem tomado a atitude polêmica. O que me incomoda de verdade é ver o Paraguai, um dos quatro sócios do Mercosul, tomando unilateralmente uma decisão desse quilate.

Cada um é dono de seu nariz. Ninguém pode tolher do país vizinho a liberdade de plantar embaixada onde bem entender. Só que tem um detalhe: quando se faz parte de uma sociedade, convém combinar com os sócios antes de se posicionar em assuntos internacionais.

Ninguém imagina um dos membros da União Europeia tomar esse tipo de iniciativa ‒ está fora de cogitação. Por que, então, no Mercosul pode?

Se o objetivo for desbotar a imagem e enfraquecer a coesão do (já debilitado) bloco, o Paraguai ajudou a dar um grande passo.

Desculpa esfarrapada

José Horta Manzano

O Partido dos Trabalhadores deu a público um filmezinho gravado por Lula da Silva pouco antes de ser preso, semanas atrás.

No vídeo, como de costume, o demiurgo peita a Justiça. Sem ruborizar, declara que podia ter fugido; se não o fez, foi porque é inocente e pretende se defender.

Dizem as más línguas que a coisa não é bem assim. Se Lula não fugiu é porque não imaginava que ordem de prisão contra ele fosse dada. Caso fosse dada, não seria cumprida. Caso fosse cumprida, ele sairia do cárcere em 24 horas.

Deu tudo errado. Ele estaria mais bem acomodado se tivesse buscado refúgio numa confortável embaixada amiga. Ah, se arrependimento matasse…

Passaporte cobiçado

José Horta Manzano

Quando vim à Europa pela primeira vez, Matusalém vivia e os bichos ainda falavam. Viajava-se de navio, que avião custava os olhos da cara e não era pra qualquer um. A viagem era demorada, mas ninguém tinha pressa.

Embarquei num navio misto, um cargueiro que dispunha de cabines para poucos passageiros, uns vinte no total. O bilhete saía bem mais em conta que em navio de linha, dada a incerteza quanto às datas de partida e chegada. Cargueiro não segue percurso rigoroso, podendo a todo momento ser desviado da rota para apanhar carga nalgum porto.

Entre os passageiros, lembro-me de um senhor de certa idade, que falava nossa língua com forte sotaque estrangeiro. Contou-me sua história. Judeu originário da península balcânica, tinha sofrido deportação e todos os horrores da Segunda Guerra. Ao fim das hostilidades, encontrava-se numa terra que não era a sua, sem família, sem dinheiro e sem nacionalidade. Apátrida.

A apatridia é situação insuportável. Solto no mundo, o indivíduo não goza de garantias civis como os demais. Rejeitado pela sociedade, tem dificuldade para viajar, para se alojar, para trabalhar. Leva existência de pária.

Esse senhor tinha conseguido, alguns anos antes de nos encontrarmos, um visto de imigração para o Brasil. Viveu em nosso país o tempo suficiente para adquirir o direito de solicitar a cidadania brasileira. Assim que conseguiu, guardou no bolso o precioso documento, juntou os trapos e empreendeu a viagem de volta às origens. Foi quando nossos caminhos se cruzaram, naquele barco.

Naqueles tempos, nosso passaporte era cobiçado por gente que fugia da miséria, da violência, da errância provocada pelas guerras. Dos que desembarcavam no Brasil, alguns retornavam à terra de origem, mas a maioria acabava ficando. Muitos conterrâneos descendem desses imigrantes.

O tempo passou e os horrores da guerra foram se esmaecendo. A procura pelo Brasil diminuiu. Nesse meio-tempo, surgiu outro tipo de candidatos. A partir dos anos 1960-1970, nosso país começou a ser procurado por gente, digamos assim, menos recomendável. O Brasil passou a ser visto como refúgio de assaltantes, mafiosos ‒ aquele tipo de gente que não é flor que se cheire.

Essa tendência está certamente sendo freada em virtude da Operação Lava a Jato. A bandidagem internacional já deve estar-se dado conta de que aqui já não é paraíso de malfeitores. Vinte anos atrás, não era assim.

Ontem, ficamos sabendo que, em meados dos anos 1990, o então ditador da dinastia norte-coreana e o filho conseguiram passaporte brasileiro. Era um documento «falso verdadeiro». O suporte era de verdade, livreto impresso na Casa da Moeda, nos conformes. Já os dados inscritos eram totalmente falsos.

Acredito que a coleção de passaportes «falsos verdadeiros» do ditador e do filho aprendiz não se restringisse ao brasileiro. É permitido supor que tivessem em mãos documentos similares emitidos por outros países. Pode sempre ser útil quando se deseja viajar incógnito ou ‒ nunca se sabe ‒ caso um dia tivessem de escapar a toque de caixa.

Fica no ar uma pergunta: como conseguiram os passaportes, emitidos pelo serviço consular da embaixada do Brasil em Praga? Parece mais que provável que tenham contado com cumplicidade no seio do pessoal da representação brasileira. Ouso imaginar que o responsável maior não faça parte do complô: cabe a ele nada mais que assinar os passaportes preparados pelos funcionários. O buraco é mais embaixo.

Passaram-se mais de vinte anos, é verdade, mas o crime é grave. Espero que o Itamaraty vá fundo nas investigações. Nem que fosse para reforçar controles que coibam esse tipo de fraude no futuro. Se bobear, ainda vai aparecer algum Bin Laden com passaporte tupiniquim.

Passo maior que a perna

José Horta Manzano

De criança, a gente costumava cantar:

Passa, passa três “vez”
O último que ficar
Tem mulher e filhos
Que não pode sustentar

Ah, essa sabedoria popular é… sabida! Os antigos já entendiam que só deve formar família quem tiver condições de a sustentar. Quem não tem competência não se estabelece, como diz o outro.

A ignorância e a ingenuidade de nosso guia causaram estragos profundos. Sua megalomania, à qual vassalos submissos diziam amém, atingiu em cheio a imagem do Brasil no exterior. A olhos estrangeiros, nosso país se apequenou.

O Lula e a sucessora mandaram criar 17 (dezessete!) embaixadas. Estão todas situadas em países pequenos, com os quais temos discretas relações políticas e comerciais. Só nas Antilhas e no Caribe ‒ sem contar estados maiores, como Cuba, República Dominicana e Haiti ‒ temos dez embaixadas. Estão em países que a gente não conhece nem de nome: Nassau, Antigua & Barbuda, St-Kitts e Nevis, Santa Lucia, Barbados, Granada, Dominica e por aí vai.

Ciranda 1Até na Coreia do Norte, o Lula abriu embaixada. Na época, havia 6 brasileiros no país, 3 dos quais formavam a família do embaixador. Os outros três eram funcionários da representação. Não se tem notícia de que a “colônia” tenha aumentado.

Meus distintos leitores hão de ter ficado sabendo, estes últimos meses, de vexames dados por numerosas representações brasileiras no exterior. Algumas não tinham recursos nem para aluguel, conta de telefone, salário de funcionário, despesas do dia a dia. Uma humilhação.

A decisão de instalar uma fileira de representações prendia-se à falsa premissa de que a quantidade de bandeiras nacionais içadas no exterior dava prova cabal de que o Brasil se havia tornado país importante. Uma pirotecnia. Um rojão que deu chabu.

Embaixada do Brasil em Bridgetown, Barbados

Embaixada do Brasil em Bridgetown, Barbados

Sob nova direção, o Ministério das Relações Exteriores acaba de encomendar estudo da relação entre os custos e os benefícios dessa megalomania. É provável que embaixadas ociosas sejam extintas.

Os caminhos para demonstrar a força de um país são outros, mais árduos. Experiências calcadas no amadorismo acabam custando caro aos cofres públicos ‒ que, ao fim e ao cabo, são alimentados pelos impostos de todos nós.

Impeachment é fichinha

José Horta Manzano

Bandeira St-KittsComo todo cidadão minimamente ligado ao que acontece no país, sinto-me um tanto inflamado pelos acontecimentos políticos destes dias. Esqueça a zika, o verão que não termina. Não se preocupe se o Corinthians ou o Flamengo ganharam ou deixaram de ganhar. Esqueça até o terremoto do Japão, o terremoto dos ‘Panama Papers’, o terremoto da Lava a Jato. Uma indagação domina a cabeça de todos: Dilma fica ou Dilma vai?

Como todo cidadão minimamente ligado ao que acontece no país, estava me preparando para escrever sobre nossa presidente. Afinal, fica ou vai? Já tinha até lido boa parte das manchetes da imprensa internacional. Tinha colecionado os títulos que me pareciam mais significativos. Eis senão quando… dou de cara com uma notícia que, por sua importância, sobrepuja todas as outras. Deixa o resto no chinelo. Resolvi abandonar tudo e relatar a notícia que dominou a semana em São Cristóvão & Névis, simpático Estado situado nas pequenas Antilhas. Não fica longe de lugares de nome evocador como Anguilla, Antigua & Barbuda, Montserrat, Guadalupe.

Vista geral de Basseterre, capital de São Cristóvão e Névis

Vista geral de Basseterre, capital de São Cristóvão e Névis

São Cristóvão e Névis são duas ilhotas vizinhas que se agruparam num só Estado. Integram o Commonwealth britânico, mas mantêm governo independente da matriz europeia. A população do país aproxima-se de 55 mil almas. Basseterre, capital e maior cidade do país, concentra 13 mil habitantes. Desde o tempo em que nosso guia achava que a importância de um país se media pelo número de representações diplomáticas espalhadas pelo planeta, o Itamaraty foi instado a abrir embaixada naquele país. Uma necessidade absoluta, como pode o distinto leitor avaliar.

A embaixada, que tem até embaixador residente, está lá, há alguns anos, a preparar-se para o intenso intercâmbio que virá um dia, é certeza. Na semana que passou, começou a mostrar a que veio. Finalmente, um acordo de cooperação técnica foi assinado entre Brasília e Basseterre. A partir de agora, há facilidade de treinamento dos incontáveis nativos interessados em aprender nossa língua. E vice-versa, naturalmente.

Embaixada do Brasil em Basseterre, S. Cristóvão e Névis

Embaixada do Brasil em Basseterre, S. Cristóvão e Névis

O acordo apresenta suprema vantagem. Segundo nosso embaixador, o Brasil é parceiro estratégico, pois está inserido na mesma região geográfica, portanto combateu problemas semelhantes. Tendo-os já em grande parte resolvido, pode oferecer colaboração eficiente a países como São Cristóvão.

Tudo continua como dantes no quartel de Abrantes. Nosso guia permitiu-se dar lições políticas a seus colegas do G20. Dona Dilma autorizou-se a ensinar economia a Frau Merkel. Agora chegou a vez do paradisíaco resort antilhano de aproveitar de nosso avanço civilizatório. Agora, vai!

Ah, essa soberba que nos tem turvado a visão…

Corrupto no bolso

José Horta Manzano

Você sabia?

Nem tudo está perdido. O recém-nomeado superintendente regional da Polícia Federal no Estado de São Paulo é membro da mesma corrente de pensamento seguida pelo juíz federal Moro, do Paraná.

Em entrevista ao Estadão, foi simples e direto: «É pegar corrupto no bolso», ou seja, o confisco das posses dos assaltantes do dinheiro público é pra lá de eficiente no combate a organizações criminosas que compõem as máfias brasileiras.

Disney RossetiUm mês de carceragem, tornozeleira, prisão domiciliar não bastam. Assim como a cupidez foi o motor dos larápios, a prevenção reside na perspectiva de perder tudo o que roubaram. E, por cima disso, ainda pagar multa pesada, proporcional ao valor surrupiado.

Execração pública não dissuade cara de pau. Os sem-vergonha são gente sem vergonha. Estamos cansados de ver políticos cassados – ou que renunciaram ao mandato para fugir à cassação – voltarem à ativa, cara limpa e sorridente, como anjinhos recém-escorregados de uma nuvem.

Apesar da pouca idade, o novo superintendente já acumulou experiência no ramo. Estes dois últimos anos, funcionou como adido policial junto à embaixada do Brasil na Itália. Além de participar do caso Pizzolato, teve ocasião de entrar em contacto com a experiência da polícia antimáfia daquele país. Uma escola e tanto!

Quero aproveitar o ensejo pra compartilhar uma curiosidade com o distinto leitor. O novo superintendente chama-se Disney Rosseti. São duas palavras de grafia distorcida.

O sobrenome italiano, bastante comum, deveria escrever-se Rossetti, com dois tt. Tal nome indica que, lá pelo século 13 ou 14, quando sobrenomes começaram a ser atribuídos, o patriarca da família era ruivo. Rosso (= vermelho), rossetto (vermelhinho), rossetti (os vermelhinhos). Um tê se perdeu quando a família chegou ao Brasil.

Isigny-sur-mer, Normandia, França

Isigny-sur-mer, Normandia, França

O prenome – pra lá de original – lembra Walt Disney, o idealizador de simpáticos personagens que povoaram nossa infância. Você sabia que, apesar da aparência britânica, Disney tem origem francesa?

Pois é, vem da Normandia, norte da França. Nada mais é que a grafia inglesa – um pouco arrevesada – do francês d’Isigny (= de Isigny). Quem leva esse sobrenome há de ter tido, centenas de anos atrás, um antepassado originário da graciosa cidadezinha francesa de Isigny-sur-mer, situada à beira do Canal da Mancha, bem em frente à Grã-Bretanha.

Vazamento seletivo

José Horta Manzano

Espião 4O que se passa na cabeça de cada um é mistério. Quem saberá dizer por que cargas d’água o australiano Julian Assange resolveu, um belo dia, criar um site para espalhar segredos de Estado? Curiosa ideia.

Meus cultos e distintos leitores sabem quem é o mencionado cavalheiro. Fundou um site especializado em divulgar informações sensíveis e chamou-o Wikileaks, numa (pretensiosa) alusão a Wikipedia acoplada à raiz inglesa leak (vazamento).

Vazamento 1Especializou-se em disseminar dados confidenciais do governo americano. Poderia ter escolhido outro país? Sem dúvida, mas, assim que recebeu de mão beijada informações sobre a diplomacia daquele país, optou pela facilidade. A limitação linguística de uma equipe monoglota também há de ter pesado na escolha.

Terá buscado a glória, aquela meia hora de fama que muitos almejam? Pode ser.

Terá agido por desafio pessoal, como aqueles que arriscam a vida escalando o Everest? Quem sabe.

Terá sido por interesse financeiro, como se esperasse recompensa por seus atos? Nada é impossível.

Terá sido para ficar na história como o homem que, sozinho, mexeu com as relações de poder entre as nações, como um Napoleão ressuscitado? Vai ver, é isso mesmo.

Napoleon 3Ninguém me fará acreditar que um peculiar sentido de justiça o tenha movido. Pelo contrário, acho que o indivíduo, parco de inteligência, carrega visão filosófica embotada.

Equador 1Apavorado com prováveis más consequências das estrepolias que praticou, refugiou-se na embaixada do Equador em Londres. Faz três anos que lá está, sem perspectiva de sair. Se puser o pé na rua, periga ser apanhado pela polícia britânica,  encarcerado e extraditado para os EUA.

Louco pra sair da embaixada, Mister Assange arquitetou um plano: deixar vazar informação susceptível de encolerizar determinado país e, em seguida, pedir asilo político às autoridades do Estado ofendido. Mas tem de ser país de peso, que possa forçar o Reino Unido a conceder-lhe salvo-conduto da embaixada até o aeroporto.

Começou pela França, tradicional adversário dos ingleses. Semana passada, seu site soltou informação segundo a qual não somente o atual presidente francês foi espionado pela NSA, mas também seus dois antecessores, Sarkozy e Chirac. Quatro dias depois, Mister Assange pediu asilo à França. A resposta veio no mesmo dia. O Palácio do Eliseu, estimando que o requerente não se encontra em situação de perigo imediato, rejeitou o pedido.

Espião 3O segundo na lista foi o Brasil. Logo depois que dona Dilma voltou dos EUA, Wikileaks noticiou que não só ela, mas dezenas de figurões da República tinham sido espionados. Não funcionou. O escândalo engendrado pelo Lula, quando recusou extraditar o condenado Cesare Battisti, deixou marcas em Brasília. Rapidinho, dona Dilma mandou dizer que essa história de espionagem é página virada.

Ela não disse, mas ficou o aviso: que não se atreva esse indivíduo a pedir asilo. Nem vem, que não tem.

Sejam quais forem os motivos que levaram o personagem traquinas a fazer o que fez, o preço está saindo salgado. E o equilíbrio entre as nações continua inalterado. Uma frustração. Ah, se arrependimento matasse…