No topo da Terra ‒2

José Horta Manzano

Mensalão, Lava a Jato, Petrolão, impeachment, é golpe, não é golpe, é traição, não é, é salvação da pátria, voto por minha mãezinha, voto por meu neto que está por nascer, voto pelo bom povo de minha querida cidade, prefiro uma suíte de hotel de luxo, prefiro um sítio em Atibaia, prefiro um pedalinho de lata… Ufa!

Se o distinto leitor está ‒ como eu ‒ exausto de ler, todos os dias, notícias que nada mais são que variações sobre o mesmo tema, tenho uma solução. Dá um pouco de trabalho, mas resolve.

2016-0424-02 IslandPrimeiro, dedique-se, corpo e alma, ao estudo da língua islandesa. Não é fácil, mas também não é nenhum bicho de sete cabeças como chinês ou vietnamita. Uma vez adquirido razoável controle da língua, abandone a mídia brasileira. Essa é a parte mais agradável: é como jogar mágoas na cachoeira.

A partir daí, deleite-se com a mídia islandesa. Crônica policial? Dois acidentes de circulação ocorreram ano passado, causados por motoristas distraídos em conversar ao celular. Fora isso, tudo em ordem, tudo na santa, nada escabroso, nada raivoso, nada nojento.

Aí vem o melhor de tudo: fora uma ou outra (rara) menção ao futebol, nenhuma notícia sobre o Brasil. A mais recente que encontrei foi dada mais de três meses atrás. Conta a história de um casal islandês preso em Fortaleza por se estar preparando para voltar à terra natal carregando oito quilos de cocaína na bagagem.

Islândia 7O artigo não deixa claro como é possível que os dois tenham sido apanhados ainda no hotel, antes de se apresentarem no aeroporto. A polícia, naturalmente, confiscou a droga, os celulares e os 50 reais que encontrou. Nenhum artigo islandês posterior informa se os estrangeiros continuam presos.

Dado que, no Brasil, esse tipo de notícia já não impressiona ninguém, vai ser difícil conhecer o fim da história. Fica como sinfonia inacabada. Cada um que use a imaginação pra dar o fim que lhe parecer mais conveniente.

Enquanto isso, temos de consolar-nos com mensalão, Lava a Jato, petrolão, impeachment, golpe e voto pelo neto que está por nascer.

As balanças de dona Dilma

José Horta Manzano

O braço armado da Justiça indonésia aplicou ontem a pena capital a meia dúzia de indivíduos. Todos eles haviam sido condenados por infração gravíssima à lei nacional que reprime a produção e o tráfico de drogas entorpecentes.

Entre os executados, estava um conterrâneo nosso. Traficante multirrecidivista, o moço estava preso e condenado havia mais de dez anos. Iludido pelo clima tropical, imaginou que sua saga teria o desfecho usual no Brasil: a impunidade e o apagamento da memória.

Deu-se mal. Assim como nem tudo o que reluz é ouro, clima quente não é automaticamente sinônimo de justiça mansa. Que o diga a cidade-estado de Singapura, aquela onde quem atira papel na rua paga multa de mil dólares.

Dilma indignadaDona Dilma – aquela que já integrou milícias cujo intuito era eliminar inimigos a tiros – «indignou-se». Chamou para consultas seu embaixador em Djacarta. Não há que pasmar: faz parte do jogo. Em código diplomático, significa que o Brasil está descontente. Daqui a algumas semanas, quando a poeira tiver baixado, o embaixador volta a seu posto, e vira-se a página.

A boa notícia é que dona Dilma já não parece mais raciocinar como fazia nos anos 1970. Já abandonou a ideia de que a solução tem de passar pelo estampido das armas. A má notícia é que dona Dilma tem várias balanças – nem todas aferidas pelo mesmo gabarito.

De fato, não me lembro de jamais ter lido uma linha sobre eventual «indignação» presidencial em referência aos mais de 150 assassinatos que ocorrem todos os dias no país que ela mesma governa há mais de quatro anos.

São cento e cinquenta execuções. Por dia. Ontem, hoje e amanhã também. Sem processo, sem condenação, sem habeas corpus, sem advogado, sem embargos infringentes. Sem «indignação» presidencial e sem recolha de embaixador.

Ah, essas balanças desreguladas… Faz-se urgente a criação de um Ministério de Pesos e Medidas.

Rapidinha 14

José Horta Manzano

Reportagem do Estadão botou a boca no trombone. Alertou autoridades para um comércio de gênero peculiar que se desenrola, diário e clandestino, na noite paulistana. Ao ar livre, em plena rua da região central do município.

Peixoto GomideVende-se droga ― da pesada ― a quem quiser. Milhares de habitués frequentam o ponto pra lá de conhecido. É curioso que autoridades policiais, justamente pagas para zelar pelo respeito à lei e às regras, não estivessem a par. Uma desatenção, certamente. Ficam devendo um favor ao jornal que pôs o dedo na ferida.

Antes tarde que nunca: agora já sabem. O governador do Estado, num daqueles pronunciamentos transcendentes, declarou solenemente que «o tráfico de drogas é crime e precisa ser combatido». Prometeu tomar as devidas providências.

17 fev° 2014 ― Chamada Estadão

17 fev° 2014 ― Chamada Estadão

Vamos torcer para que, em breve, a feira livre das drogas se transforme numa feira livre das drogas.

PS: Ah, a falta que um hífen faz!