A decepção e a euforia

José Horta Manzano

Doutor Sergio Moro escolheu o dia 12 de julho para pronunciar sua decisão no primeiro processo criminal que visa um ex-presidente do Brasil desde a instauração do regime republicano. E condenou pesado: quase dez anos atrás das grades. Fossem nossos costumes em matéria de aplicação de penas análogos aos de países civilizados, o condenado já estaria no xilindró. Mas, sacumé, somos um povo cordial.

Não deve passar de coincidência, mas um 12 de julho ‒ não tão antigo assim ‒ já foi ocasião de comoção nacional. Nós já esquecemos, mas os franceses se lembram muitíssimo bem. Nessa mesma data, em 1998, a França conquistou a Copa do Mundo de futebol no imponente Stade de France pelo placar incontestável de 3 a 0. Ganharam da prestigiosa equipe de Ronaldo e Romário, um feito e tanto.

A mídia francesa hoje fala do Lula evidentemente. (A mídia do mundo inteiro fala.) Mais que isso, dá cobertura à visita de Mister Trump, que pousou em Paris hoje de manhã como convidado de honra para a festa nacional do 14 de julho. E, naturalmente, todos comemoram a façanha do 12 de julho de 1998. Principalmente porque não se repetiu.

Sem chance

José Horta Manzano

Sabemos todos que pesquisa de opinião pode ser torcida, retorcida e distorcida conforme o que se está querendo ouvir. Os especialistas no assunto conhecem bem as manhas. Há perguntas que induzem o entrevistado a dar a resposta que se deseja. A ordem em que se apresentam as opções conta. Misturar nomes conhecidos do grande público com ilustres desconhecidos também tem importância. Há mil e um truques que pesquisadores não hesitam em utilizar.

Já faz algum tempo que tenho visto sondagens focadas nas eleições presidenciais de 2018, previstas para realizar-se para daqui a um ano e três meses. É cedo demais para sondar. Além disso, tirando o eterno candidato Lula, nenhum outro se declarou formalmente. Portanto, sem ao menos saber quem vai concorrer, como é possível chegar a resultado razoável?

Achei interessante que o nome da doutora Dilma não apareça em nenhuma das pesquisas. Seus direitos políticos foram mantidos, pois não? A doutora governou o país durante cinco anos. Por que, diabos, os institutos a eliminam arbitrariamente da lista de possíveis candidatos? E que dizer de doutor Temer então? Ainda que fosse destituído ‒ o que está longe de acontecer ‒, pode candidatar-se em 2018. Assim mesmo, não aparece em nenhum cenário.

Em compensação, aparecem figuras como Luciana Genro, Eduardo Jorge e Ronaldo Caiado que, convenhamos, pouca gente conhece. Francamente, em matéria de parcialidade, a mais recente pesquisa eleitoral parece imbatível. Falando em imbatível, o Lula aparece com 30% dos votos no primeiro turno, independentemente do nome dos concorrentes. É possível que nem a inclusão da doutora e do atual presidente viesse a modificar o resultado.

Como contrapeso, saiu ontem pesquisa do Instituto Paraná. Foi divulgada pelo blogue de Lauro Jardim, alojado no jornal O Globo. Aos entrevistados não foi perguntado em quem votariam. Mais sutil, o instituto quis saber se o sondado achava que, pelas denúncias já apuradas, há motivos para o Lula ou doutor Temer serem presos. Aí vem a surpresa: 62% dos entrevistados acham que o Lula deve ir para o xilindró ‒ perto de 2 em cada 3 brasileiros! Só doutor Temer bate nosso guia. De cada 5 eleitores, 4 acham que o lugar dele também é na cadeia.

Agora comparemos. No primeiro turno, o Lula mantém, em qualquer cenário, seus 30% de eleitores fiéis. Vamos admitir. No entanto… 62% querem mais é vê-lo atrás das grades. A conclusão se impõe. Por mais que nosso guia caído apregoe, não teria possibilidade nenhuma de ser eleito caso a eleição fosse agora. Dado que será daqui a 15 meses, a situação só tende a piorar. Para ele.

Aqui se faz, aqui se paga

José Horta Manzano

Costuma-se dizer que um mal nunca vem sozinho. Sei não, mas parece que o destino é realmente brincalhão. As «brincadeiras» ‒ nem sempre de bom gosto ‒ são cíclicas, como uma linha ondulada. Tem horas em que a gente se sente no topo da onda, com um bocado de coisas boas acontecendo. O chefe dá um aumento, o médico informa que os preocupantes exames deram resultado negativo, o vizinho barulhento se muda. E tem, infelizmente, aquela temporada em que más notícias se acumulam.

Poucos anos atrás, no auge da popularidade e sabendo que não poderia concorrer a um terceiro mandato, o Lula sonhava com a presidência do Banco Mundial ou, por baixo, com o secretariado-geral da ONU. Por seu lado, o Nobel da Paz já lhe parecia praticamente garantido, estava no papo. Pelo menos, era voz corrente entre os cortesãos do andar de cima.

sinusoidal-1Desgraçadamente… a vida é cruel. As coisas são como são e nem sempre como gostaríamos que fossem. Nosso guia, aquele que, garboso, já passeou de carruagem ao lado da rainha da Inglaterra, está no baixo da curva. Ou no fundo do poço, se preferirem. No curto espaço de 24 horas, três notícias pesadas lhe caíram direto no cocuruto.

Dia 6 de outubro, uma pancada. O sorridente senhor Guterres, que já foi primeiro-ministro de Portugal, foi sacramentado como secretário-geral da ONU. Assume as novas funções dia 1° de janeiro. Nosso taumaturgo pode dar adeus àquele trono.

A segunda pancada ‒ essa doeu! ‒ veio no mesmo dia. Foi a decisão do STF de «fatiar» acusações de corrupção. Deixo a explicação dos pormenores para especialistas, que o assunto é meio complicado. Trocando em miúdos, fica a certeza de que nosso guia, pelo menos nesse caso específico, escapou de Curitiba mas caiu direto no tribunal maior. Condenado ali, não terá a quem apelar: é direto pro xilindró.

by Roque Sponholz, desenhista paranaense

by Roque Sponholz, desenhista paranaense

Se não bastasse a decepção de ver, ao mesmo tempo, a ONU escapar-lhe das mãos e as grades se aproximarem, recebeu outra paulada no dia seguinte. O presidente da Colômbia ‒ que insolência! ‒ acaba de ser anunciado como o ganhador do Prêmio Nobel da Paz de 2016. Justamente o presidente Santos!

O distinto leitor há de se lembrar que certos “assessores” do Lula levaram anos tentando dar uma mãozinha à guerrilha colombiana. De repente, vem um pouco conhecido presidente do país vizinho e, como quem não quer nada, acaba com o conflito de meio século! Que bordoada, Lula!

Assim são as coisas, que fazer? Resta a nosso demiurgo esperar por um convite para presidir o Banco Mundial. Nada é impossivel, mas acho que vai ser difícil. Ainda que escape da cadeia, o homem não tem inglês fluente.

Pensando bem – 10

José Horta Manzano

 

Chamada da Folha de São Paulo, 14 abr 2016

Chamada da Folha de São Paulo, 14 abr 2016

Parece até ameaça
Cruz-credo! Que Deus nos livre!
Seria cruel desgraça
Ninguém merece. Tem dó!

0-Pensando bemNo entanto, a bem refletir
Só pode ser brincadeira
Não é verdade, é gogó.

Assim que a Dilma se for,
caminho já está traçado:
é Lula no xilindró.

É deles

«A Petrobrás é nossa e ninguém tasca.»

by Eduardo "Duke" dos Santos Reis Evangelista desenhista mineiro

by Eduardo “Duke” dos Santos Reis Evangelista
desenhista mineiro

Fecho de artigo publicado, em 20 mar 2015, no blogue do cidadão José Dirceu de Oliveira e Silva, que se deixa tratar – elegantemente – por Zé Dirceu.

O figurão e blogueiro tem percurso singular. É autor da proeza pouco comum de ter conhecido a prisão em duas ocasiões assaz distintas. Na juventude, foi mandado às masmorras por tentar derrubar o regime da República. Anos mais tarde, já maduro(?) e instalado na confortável posição de mandarim-mor, voltou ao xilindró por ter convertido o Planalto em balcão de negócios.

by Arnaldo Angeli Filho desenhista paulista

by Arnaldo Angeli Filho
desenhista paulista

“A Petrobrás é nossa” é afirmação supérflua. Já nos tínhamos todos dado conta de que a empresa se tornou deles, do Zé e de sua turma. Nós, o povo brasileiro é que estamos tentando tomar de volta o que nos pertence de direito. Queremos reintegração de posse. Está difícil, mas hemos de chegar lá.

O figurão mostra que não perdeu a ingenuidade. Duas temporadas no cárcere não foram suficientes para ensinar-lhe o significado da palavra prudência.

Pois ele que se cuide, que a roda gira, e ninguém sabe o que nos reserva o amanhã.

Nunca antes

Priscila Ferraz (*)

Recordo-me muito bem de quando ainda estava criando meus filhos, tendo em mente um mundo ideal. Fazia questão de preencher aquele pequeno milagre que é o cérebro das crianças – um infinito de possibilidades – com aquilo que eu considerava correto e ético.

by Doru Axinte, desenhista romeno

by Doru Axinte, desenhista romeno

Quantas vezes os ouvi dizer: “Mamãe, mas todo mundo faz”, ou “sempre foi assim”.

Eu vinha com aquela célebre frase das mães: “Isso não é motivo para fazer errado. Se um amigo seu se atirar da ponte, você vai atrás?”

Gostaria de passar esse mesmo sermão àqueles que hoje, em sua defesa, nada mais têm senão algo como: “Não somos os únicos. Não somos os primeiros, antes de nós outros faziam.”

E daí? Só porque crucificaram Jesus, vamos crucificar alguém? Só porque se caçavam negros na África para escravizá-los, vamos fazer o mesmo? Só porque um louco resolveu exterminar toda uma raça, alegando que não eram satisfatórios, vamos encaminhar nossos irmãos para incineração?

Irmãos Metralha 1O que está em pauta é o que está acontecendo agora. Se ainda houver chances de punir malfeitos antigos, que se faça, mas com certeza temos de punir os crimes que estão sendo cometidos agora, se não, com que cara enfrento meus filhos? O que direi para meus netos? Com certeza, farei o mesmo sermão que fiz há tempos para minha prole, pois sou responsável por mim mesma. Não permitirei que façam de mim uma pessoa pior, tentando me igualar a eles.

by Dereck Bruno Lopes Teixeira, desenhista piauiense

by Dereck Bruno Lopes Teixeira, desenhista piauiense

Só podemos constatar que, isso sim, nunca antes na história deste país, quiçá do mundo, houve tanta corrupção dentro de um governo. Nunca antes teve tanta gente envolvida em crimes contra a população que um dia resolveu sufragar os políticos que hoje dirigem(?) nosso país.

Corrupção mata quando não destina verbas para a segurança e a saúde; leva à ignorância quando desviada da educação. O dinheiro que hoje enriquece os políticos e seus partidos, na intenção de perpetuá-los no poder, é do povo brasileiro.

Os corruptores já estão começando a ser julgados. Entretanto, os corruptos ou subornados – pois é isso que são, já que, sem propina, não se trabalha para o governo – são os que eu mais desejo ver no xilindró.

Algemas 1Dentre nossas instituições, hoje vejo a Policia Federal funcionando como nunca antes. Estão fazendo seu trabalho. Tenho esperança de que a justiça também faça o seu, pois serão lembrados por seus atos. Observe-se que notas de pesar nas redes sociais a respeito da morte de determinado ex-ministro receberam inúmeros comentários de ódio e raiva por ter ele liberado tantos criminosos das grades. Terá que trilhar um árduo caminho em busca de paz e descanso.

Nunca antes em minha vida desejei tanto ver a justiça triunfar.

(*) Priscila Ferraz é escritora
www.kbrdigital.com.br/blog/category/priscila-ferraz/

Mau negócio

José Horta Manzano

E o Pizzolato, hein? Alguém se lembra dele? É aquele condenado no processo do Mensalão que, julgando-se mais esperto que os outros, escapou do país com passaporte forjado ― emitido em nome de um parente morto havia décadas.

Sentenciado a quase treze anos no xilindró, valeu-se da dupla cidadania ítalo-brasileira e correu para a pátria-mãe. Por certo, imaginou ser acolhido de braços abertos, como bom filho que a casa torna.

Prisioneiro 3Enganou-se. Apanhado pela polícia peninsular, está encarcerado em regime fechado há quase seis meses, longe de parentes e amigos, sem perspectiva de sair tão já. Protocolarmente, o governo brasileiro requereu sua extradição, mas não se tem notícia de que haja profundo empenho em trazê-lo de volta tão cedo.

Na verdade, a presença em território nacional de um provável detentor de detalhes incômodos poderia ser embaraçosa para antigos companheiros. No Brasil, como se sabe, todos dão entrevista, desde presidente e juíz até traficante, arruaceiro e prisioneiro. Já pensou se o homem, ressentido, dá com a língua nos dentes e revela tenebrosas transações? Quanto mais tarde voltar, melhor.

O cidadão binacional fez mau negócio. Enquanto seus companheiros de infortúnio já tiveram suas multas quitadas e estão a caminho da liberdade, signor Pizzolato ainda pode bem amargar longos meses de cadeia italiana. Anos até. E sem os privilégios da Papuda.

Interligne 18b

Obs: Artigo da Folha de São Paulo deste 31 de julho informa que ― será coincidência? ― os petistas condenados no Mensalão foram os primeiros a quitar sua dívida para com a Fazenda Nacional. Já o fugitivo ausente do território ainda carrega o peso da multa estipulada no ato condenatório.