Ressaca

José Horta Manzano

Este sábado com cara de Quarta-Feira de Cinzas é propício para algumas reflexões futebolísticas despretensiosas.

Azedou
A copa, que era pra ser de champanhe, virou cálice de amargura. Quem provou, desaprovou.

João que chora, João que ri
Tristeza de uns, alegria de outros: os franceses estão rindo à toa por terem escapado de enfrentar o Brasil. Caíram com a Bélgica. Não sei se fizeram bom negócio. Há controvérsia.

Quem muito espera…
Quem fixa meta muito elevada está mais sujeito a se desapontar. Em geral, países põem objetivos mais modestos: chegar às oitavas ou chegar às quartas de final, por exemplo. Quando chegam lá, ficam supercontentes. Já o Brasil mira sempre ao primeiro lugar, sem alternativa possível. Eis por que se decepciona. Não é fácil chegar lá ‒ acontece uma vez a cada 20 ou 30 anos, e olhe lá! Além do mais, nosso país não detém o monopólio do bem jogar.

Soberba
Todos os comentaristas brasileiros se puseram a tentar descobrir onde é que o Brasil errou. Este aponta a falha de tal jogador, aquele reclama da arbitragem, um outro acusa o selecionador. A mim, parece que o problema é exatamente esse egocentrismo que cega.

Todos raciocinam como se a seleção brasileira fosse o centro do universo e que todas as demais equipes gravitassem em órbita longínqua e excêntrica. O bom senso informa que não é assim. Se a seleção do Brasil tem seus méritos, as demais também os têm.

O Brasil jogou bem, não há que dizer. Se perdeu, não é porque tenha jogado mal: é porque a Bélgica jogou muito melhor. O time de vermelho estava num patamar mais elevado, foi mais realista e mais eficaz. Deixou de lado dribles espetaculares ‒ e desastrosos ‒ para ir direto ao essencial. É menos artístico, mas funciona. A nós, está faltando humildade pra reconhecer essa realidade. Repito: nosso país não detém o monopólio do bem jogar.

Palco iluminado
Jogadores vão a campo pra jogar, não pra dar espetáculo teatral. O drama tem de estar centrado na bola que rola. Sem bola, acabou o show. É patético assistir, depois de uma derrota, ao choro convulsivo de marmanjos com pés de barro. Pega mal pra caramba. Tinham mais é que sair rapidinho do gramado e ir chorar no vestiário. Está faltando compostura.

De luxo
Vejo aqueles espectadores decepcionados, chorando pelas arquibancadas, morrendo de pena dos jogadores. E conjecturo que talvez tenham feito prestação pra comprar a passagem para a Rússia. Quem sabe ainda vão passar alguns meses de aperto até quitar o carnê. Enquanto voltam para o hotel, enxugam uma derradeira lágrima e afivelam as malas, os pobres meninos que choravam em campo já terão embarcado num jatinho privê de volta para fazer a festa na mansão de Londres ou de Paris. Ou de Mallorca, que ninguém é de ferro.

Inconformados com a democracia

Editorial do Estadão, 7 nov° 2016

Um verdadeiro democrata é aquele que sabe ganhar e sabe perder uma eleição. Os caciques petistas, praticamente desde a fundação de seu partido, já demonstraram inúmeras vezes que não sabem nem uma coisa nem outra.

Quando vencem, atiram-se às mais repugnantes práticas políticas para se manter no poder e destruir a oposição; quando perdem, dedicam-se não a fazer oposição, mas a sabotar o País, na presunção de que, quanto pior a crise, maiores serão suas chances de retomar o poder, que julgam lhes pertencer por direito e por determinação histórica.

estrela-quebrada-1Depois da derrota eleitoral sofrida na disputa pelas prefeituras, o PT, se fosse mesmo democrata como alardeia, deveria ter reconhecido seus erros e deflagrado um processo de reformulação de suas práticas, amplamente rejeitadas pelos eleitores.

No entanto, a natureza autoritária desse partido mais uma vez se revela: surrados impiedosamente nas urnas depois que os brasileiros se deram conta de suas patranhas, os petistas partiram para a negação da política partidária, apelando para a violência e para o desrespeito ao Estado de Direito como forma de mascarar a realidade que lhes é hoje tão madrasta.

Frase do dia — 311

«For the sake of ordinary Brazilians, and of all of the athletes participating, let’s hope that the Rio Games, as a sporting event, are a world-class triumph. May they also, somehow, represent a defeat for the corrupt politicians, developers, and assorted buccaneers who have made the Games, and Brazil, their particular feeding ground.»

«Em consideração aos brasileiros e a todos os atletas participantes, vamos torcer para que os Jogos do Rio sejam um triunfo planetário em matéria de esporte. Tomara que possam, de alguma maneira, significar uma derrota para políticos, promotores & outros aventureiros que usaram os Jogos ‒ e o Brasil ‒ para encher os bolsos.»

Jon Lee Anderson, escritor, em artigo publicado no prestigioso The New Yorker, 5 ago 2016.

Reflexões sobre o voto da Câmara

José Horta Manzano

Reconhecimento apressado
Neste domingo 17 abril 2016, a Câmara pediu a cada deputado que se pronunciasse a favor ou contra a aceitação de processo de destituição da presidente da República.

Lá pelas tantas, durante o voto individual, lento, arrastado, o líder do partido da presidente decidiu subitamente convocar conferência coletiva de imprensa. É inusitado. Se já não fosse estranho uma votação importante ser interrompida por coletiva de imprensa, mais surpreendente foi ouvir do entrevistado a confissão de que o Executivo reconhecia a derrota. Por que jogar a toalha tão cedo? Duas razões me ocorrem.

Em primeiro lugar, um reconhecimento antecipado poderia ter sustado a votação, o que limitaria a extensão do estrago. Se assim acontecesse, não haveria placar final.

Em segundo lugar, eventual interrupção poderia levar à invalidação do voto.

Seja como for, não deu certo. O voto foi até o fim e deu no que deu. Para o Executivo, foi verdadeiro 7 x 1.

Tchau 1Incerteza política
Muitos analistas temem que o voto da Câmara tenha dado abertura a um período de incerteza política. Discordo. Acho que, muito pelo contrário, o período de incerteza começou a se desanuviar. A situação está mais clara hoje que ontem.

Quem representa quem
Durante o voto, alguns parlamentares favoráveis à permanência da presidente argumentaram que os cinquenta e tantos milhões de votos que ela tinha recebido a legitimavam no cargo. Esqueciam-se de que o conjunto dos deputados federais reunia cem milhões de votos. Legitimidade por legitimidade, a da Câmara é bem mais significativa. Todos os eleitores estão representados lá.

Sondagem x voto real
Pesquisas têm indicado 60%, 70%, 80% até 90% de rejeição popular ao governo de Dilma Rousseff. Sacumé, pesquisa é pesquisa ‒ o que vale mesmo é o voto. Foi o que tivemos ontem. A Câmara, que representa 100% dos eleitores, votou. E mostrou que 71,5% rejeitam a presidência de dona Dilma. A conta é fácil: 367 votos representam 71.5% de 513, número total de deputados federais.

Tchau, mãe!
«Tchau, querida!» ‒ foi cartaz apresentado por muitos durante o voto. Embora combinasse pouco com a solenidade do momento, foi jocoso. O mais revelador, no entanto, foi a argumentação com que quase todos decidiram anteceder o voto. Houve quem proclamasse que votava “pelo Brasil”, “por meu Estado”, “por meus eleitores”. Era a lógica, não precisava mencionar. Houve outros que, bizarramente, puseram a família à frente. Vi gente votando porque a esposa mandou, outros mencionaram o nome da mãe ‒ tchau, mãe! ‒ dos filhos, dos netos, até dos avós. Ficou a impressão de que reuniões familiares substituíram convicção íntima dos deputados e consulta aos eleitores. Pegou mal pra caramba.

Vitória de Pirro

José Horta Manzano

Você sabia?

Continuo aplaudindo de pé a equipe responsável pela atribuição de nome às diferentes fases da Operação Lava a Jato. Vitória de Pirro… esta de hoje é mesmo de pasmar.

A expressão já era usada pelos romanos há dois milênios. Faz referência a Pirro I (318-272 a.C.), que reinava sobre a região de Épiro, na Grécia antiga. Era época de expansão. A Grécia havia fundado colônias na orla do Mediterrâneo ‒ Itália, França, Norte da África.

O crescente poderio do Império Romano, no entanto, começava a ameaçar a expansão grega. Enfrentamentos militares foram-se tornando inevitáveis.

Rei Pirro I

Rei Pirro I

Rei Pirro I havia estabelecido uma colônia no sul da Itália, chamada Heracleia. A “invasão” irritou os romanos, que decidiram expulsar os forasteiros. Uma batalha foi travada entre os autóctones e as tropas do rei Pirro. O exército grego venceu a batalha, mas suas tropas sofreram danos irreparáveis. A aparente vitória militar acabou revelando-se contraproducente por ter resultado em derrota a longo prazo.

Desde então, toda vitória que se transforma em fracasso costuma ser chamada de «Vitória de Pirro». A história guarda uma alentada lista de batalhas que entram nessa categoria. Feitos não militares às vezes costumam ser batizados com o mesmo epíteto. É justamente o caso da mais recente fase da Lava a Jato.

Meus parabéns!

José Horta Manzano

Quando um povo elege chefe de Estado ou de governo, é praxe que mandatários de outros países enviem ao eleito mensagem de congratulações. É mais raro que se envie mensagem aos perdedores.

Bem, isso é o que costuma ocorrer no mundo real. No entanto, em certos bolsões que vivem num limbo, fora do tempo, num universo de fantasia, as coisas não funcionam como no resto do globo.

Unk 03Señor Nicolás Maduro, o pouco talentoso mandachuva venezuelano, sofreu derrota acachapante nas eleições de domingo passado. Que não seja por isso. Señor Raúl Castro, número um da gerontocracia cubana, mandou-lhe mensagem de fã entusiasta e admirativo(*).

Para conferir, fui direto à fonte: recortei a notícia do mui oficial diário Granma, órgão oficial do Partido Comunista Cubano. Ponho a mensagem logo aqui abaixo. Clara, ela dispensa tradução. Dado que ainda estamos num país livre, o distinto leitor está autorizado a esboçar, ao final da leitura, um sorriso zombeteiro. Francamente, tem gente que não tem medo do ridículo.

Interligne vertical 12Estimado Maduro:

He seguido, minuto a minuto, la extraordinaria batalla que han dado y escuché con admiración tus palabras.

Estoy seguro de que vendrán nuevas victorias de la Revolución Bolivariana y Chavista bajo tu dirección.

Estaremos siempre junto a ustedes.

Un abrazo

Raúl Castro Ruz

Interligne 18h

(*) Não há notícia de que alguma mensagem de parabéns tenha sido enviada aos vencedores das eleições.

Frase do dia — 213

«A senadora Kátia Abreu, indicada para o ministério da Agricultura, em 2007 foi relatora da proposta de derrubada da CPMF na Comissão de Constituição e Justiça.

O fim do imposto do cheque foi a maior derrota do governo Lula, usada na campanha de reeleição de Dilma para acusar Marina Silva e Aécio Neves de terem contribuído para ‘retirar recursos da saúde’.»

Dora Kramer, em sua coluna no Estadão de 26 nov° 2014, ao apontar a memória seletiva que reina no andar de cima.

7 x 1

José Horta Manzano

O selecionado brasileiro de futebol foi derrotado pela equipe nacional alemã. O fato, em si, não tem nada de extraordinário. Espantosa é a amplidão do marcador. Que fazer? São coisas da vida.

Os fatos têm a importância que lhes atribuímos. Os atributos que tenho lido e ouvido ― ligados ao jogo deste 8 de julho ― são terríveis. Desonra, fracasso, desgraça, tragédia, debacle.

Não exageremos. Cabeça fria, minha gente. Daqui a alguns dias, acaba a «Copa das copas». Os jogadores voltarão para a Europa, autoabsolvidos, felizes com seus salários milionários. Para o povo brasileiro, ficarão os problemas e… as contas a pagar.

Crédito: Kopelnitsky, EUA

Crédito: Kopelnitsky, EUA

Aqui abaixo vai um elenco dos substantivos exacerbados com que o episódio foi descrito.

Interligne vertical 11cLástima? Lástima é conceder habeas corpus a cartola da Fifa, preso por ter-se locupletado. Lástima é não se dar conta de que, solto, o acusado pode destruir provas e forjar álibi.

Decadência? Decadência tem sofrido a indústria brasileira desde que nossos ingênuos dirigentes permitiram que a indústria chinesa estrangulasse, pouco a pouco, a nossa.

Desonra? Desonra é constatar que, em pleno século 21, nosso País ainda tem hordas de analfabetos.

Extermínio? Extermínio é o que continua sendo praticado contra nossas florestas em plena era de monitoramento em tempo real por satélite. Habeas corpus não vale em caso de queimadas.

Vergonha? Vergonha é figurar na lista mundial dos paraísos da prostituição barata ― característica de um povo indigente.

Destruição? Destruição é o que a disseminação das drogas causa na população ― jovens e velhos ― nas barbas de autoridades coniventes.

Fracasso? Fracasso é o de uma política de assentamentos que, decorridas décadas, ainda não logrou satisfazer às necessidades dos sem-terra.

Fiasco? Fiasco é o resultado pífio da Instrução Pública.

Desgraça? Desgraça é constatar que, cinco séculos após o descobrimento, ainda perdura o sistema de capitanias hereditárias no jogo político do País.

Baque? Baque é ver jogadores brasileiros milionários, «ídolos» de um país sem heróis, chorando feito criança que perdeu o brinquedo. Alguém já imaginou jogador alemão chorar porque perdeu um jogo?

Calamidade? Calamidade é o crônico abandono reservado à Saúde Pública, da qual depende a esmagadora maioria de brasileiros.

Horror? Horror é o que sentimos quando a Fifa ― uma multinacional de características mafiosas ― consegue, sem esforço, impor sua vontade sobre nossos representantes e mudar nossas leis.

Derrota? Derrotas sucessivas são as que tem sofrido a diplomacia brasileira, outrora respeitada. As más companhias têm influenciado nossos inexperientes (e inescrupulosos) medalhões.

Vexame? Vexame é constatar, ano após ano, que a classificação do Brasil no índice Pisa não dá sinais de melhora.

Estrago? Estrago sentimos nós quando temos notícia de que nenhuma universidade brasileira se classifica entre as duzentas melhores do mundo. Até a USP perdeu sua posição.

Prostração? Prostração é o que sentem os cidadãos bem-intencionados quando se dão conta de que o País vem sendo governado por marqueteiros baseados em slogans.

Abatimento? Abatimento sentimos nós, cidadãos de bem, obrigados a viver enjaulados enquanto bandidos passeiam livres, leves e soltos.

Falência? Falência econômica é o fim garantido, a continuarmos seguindo o receituário da contabilidade dita “criativa”, feita para mascarar realidade vergonhosa.

Flagelo? Flagelo é o tratamento que nossas autoridades maiores vêm impingindo a nossos irmãos nordestinos, ludibriados com a quimera da bifurcação do Rio São Francisco.

Desintegração? Desintegração é o retrato do Brasil atual ― desintegração avançada do tecido social.

Drama? Drama é a ingenuidade do bom povo brasileiro. Apoiados nessa candura, os figurões atuais têm ampla chance de se reeleger. A má gestão do país periga, assim, se eternizar.

Declínio? Declínio é o que se constata ao ouvir um estádio inteiro proferindo insultos de baixo calão. É ver o povo substituindo o voto pelo berro, numa demonstração de declínio civilizatório.

Bancarrota? Bancarrota é o fim do caminho. Segundo abalizados especialistas, a continuar insistindo no paradigma econômico perigoso em que nos metemos, perigamos virar uma Argentina ou, pior, uma Venezuela.

Desastre? Desastre é amestrar um povo e incentivá-lo a enxergar o futebol como valor máximo, como glória maior da nação. Esse vezo pode até funcionar em tempos de bem-aventurança, mas o risco de colapso repentino e brutal é imenso. Foi o que aconteceu.

Catástrofe? Catástrofe é o fato de um povo cordial mas anestesiado ter aprovado ― e aplaudido até ― a dilapidação do erário para garantir o sucesso efêmero do futebol nacional. Desperdício cometido em detrimento de gritantes prioridades nacionais relegadas ao fim da fila.

Ruína? Ruína é a situação do transporte urbano num país como o nosso, onde a maior parte da população vive ou trabalha em grandes cidades.

Malogro? Malogro é o resultado de políticas assistencialistas que não diminuíram o fosso entre os que têm mais e os que têm menos. Malogrados nos sentimos em saber que o Brasil permanece entre os países mais desiguais.

Desgosto? Desgosto é o que se sente ao constatar que futebol, em nosso país, passa à frente do trabalho e das responsabilidades individuais. A prova? Os feriados decretados nos dias de jogo.

Interligne 18c

Tragédia? Tragédia é ter certeza de que, passadas as eleições de outubro, teremos mais do mesmo. O risco é grande de que os que lá estão sejam reeleitos e se sintam livres para continuar sua obra de desconstrução do Brasil.