A Cancún brasileira

José Horta Manzano

Em 2012, o cidadão Jair Bolsonaro iniciava o último ano de seu terceiro mandato consecutivo como deputado federal pelo Rio de Janeiro. Nascido e criado em São Paulo, estava estabelecido no Rio havia décadas e, como parlamentar, representava aquele estado.

Na manhã de 25 de janeiro – uma quarta-feira – o parlamentar achou que o dia estava excelente pra uma pescaria. Navegou até as águas claras da Estação Ecológica de Tamoios, unidade de conservação marinha criada em 1990 na Baía da Ilha Grande, região de Angra dos Reis (RJ). A área, reservada à pesquisa científica, é interditada ao acesso público. Estende-se por 5,7% da superfície da Baía da Ilha Grande.

Pouco tempo depois de chegar ao local e sacar dos apetrechos do perfeito pescador, aconteceu o que tinha de acontecer: foi apanhado por um fiscal do Ibama em flagrante delito de pesca proibida. Observe-se que o deputado não vestia escafandro de exploração submarina, mas camiseta e sunga. Nas mãos, não segurava aparelho fotográfico subaquático, mas uma vara de pesca. Não havia como negar a razão da excursão. O fiscal ainda tomou a precaução de guardar registro fotográfico da cena.

Habituado à dissimulação descarada típica dos políticos de alto coturno e baixa moralidade, cujo arquétipo é o integrante do baixo clero da Câmara, Bolsonaro começou por negar a evidência. Deu carteirada, perguntou ao fiscal se sabia com quem estava falando, sacou do celular e mostrou intimidade com o ministro da Pesca da então presidente Dilma Rousseff. Enfurecido, acabou se retirando sem pagar a multa aplicada pelo fiscal. E ainda debochou do funcionário: prometeu voltar dia seguinte pra continuar a pescaria interrompida.

A partir daí, o deputado Bolsonaro agiu como costumam agir os poderosos. Além de negar-se a pagar a multa pela infração, acionou a (já sobrecarregada) justiça do país. Mandou alegar ter estado ausente do local no dia do flagra. Vingativo, fez o que estava, então, em seu poder para retaliar o Ibama, na forma de um projeto de lei para desarmar os fiscais do órgão quando em cumprimento de missão.

O tempo passou. Bolsonaro não pagou a multa, nem se desculpou, nem deu sua versão do ocorrido. Mais tarde, elevado ao cargo maior do Executivo nacional, (o agora doutor) Bolsonaro não se deu conta de que, nestes tempos de feicibuque, uotisápi e vazamentos de tudo quanto devia ser secreto, tornou-se impossível guardar segredo de deslizes passados. A solução rápida e indolor para pôr panos quentes e esvaziar toda controvérsia seria pagar a multa e virar a página. Não foi o que ele fez.

Que tal um “Spring break” (férias de Páscoa) na paradisíaca Cancún?

‘Vingança é prato que se come frio’ – costuma dizer o povo sabido. Doutor Bolsonaro parece ser daquele tipo descrito pelo velho Tancredo Neves no dia em que comentou que ‘tem gente que guarda mágoa em geladeira’. Seis anos depois do episódio da infração, além de não pagar o que devia ao Ibama, Bolsonaro foi bem mais longe. Assim que lhe passaram a faixa, deu ordem para que o fiscal que ousara multá-lo seis anos antes fosse sumariamente desbancado – perdeu o cargo e foi rebaixado.

A vingança que sufoca o coração de nosso presidente vai além. É poderosa e irrefreável. Já propôs ideia fabulosa: transformar o santuário ecológico de Tamoios em estação turística de alta frequentação. Uma «Cancún brasileira», segundo sua visão. Pobre presidente!

Sua experiência no campo turístico, além de invadir reserva ecológica, não enxerga mais longe que estações de turismo de massa. Cancún (México), Varadero (Cuba), Punta Cana (Rep. Dominicana) são exemplos dessa versão ultrapopular de turismo. Caravanas de voos charters decolam toda sexta-feira à noite da Europa, abarrotados de turistas, em direção a esses «paraísos» tropicais. A troca da guarda, isto é, a partida dos antigos ocupantes e a chegada dos novos, se faz aos sábados.

Os turistas, em geral de baixo poder aquisitivo, adquirem pacote completo incluindo voo, alojamento e refeições. Despejados à beira da praia de destino, enfurnam-se no hotel e de lá não arredam pé até o sábado seguinte. Dormem, comem, brincam, dançam, avermelham-se na praia particular – tudo no terreno do hotel, cercado como fortaleza e vigiado como prisão. Não estão interessados em conhecer a cultura do país que os acolhe, muito menos em gastar um dinheiro de que não dispõem. Não precisa dizer que, para construir um ‘paradisíaco’ complexo hoteleiro nas beiradas de Angra dos Reis, largas extensões de mata nativa terão de ser destruídas.

Ninguém sabe até que ponto pode chegar o implacável sentimento de vingança de doutor Bolsonaro e quais são os castigos que, para aplacá-la, ele poderá impor ao povo brasileiro. Ousará, realmente, transformar o entorno da Baía da Ilha  Grande na «Cancún brasileira»? Valei-nos, São Jorge e São Sebastião!

Observação
Este blogueiro não é adepto de nenhuma denominação dita ‘evangélica’. Assim mesmo, posso afirmar, sem medo de errar, que a vingança é considerada, em todas elas, falta pesada, pecado grande do qual convém se livrar. Doutor Bolsonaro certamente estava ausente no dia desse sermão. Um ministro evangélico nomeado para o STF há de dar cabo dessa questão. Deus acima de todos!

 

No topo da Terra

José Horta Manzano

Você sabia?

A não confundir com a Irlanda, a Islândia é um pequeno país, uma ilha situada no extremo norte do Oceano Atlântico, terra de poucas árvores e muitos vulcões. De nome pouco convidativo ‒ Island, do escandinavo is, significa Terra do Gelo ‒ é um dos países de população mais homogênea do globo.

Islândia: gêiser

Islândia: gêiser

É povoada por apenas 300 mil pessoas. Seus habitantes são descendentes de vikings que, vindos da Escandinávia, lá se estabeleceram mil anos atrás. Desde então, a imigração tendo sido praticamente nula, o resultado foi um contingente populacional harmonioso e coeso. Quase todos os ilhéus são aparentados, em maior ou menor grau. Quando um islandês trava amizade com outro, um dos assuntos preferidos é conferir a proximidade de parentesco entre os dois. Serão primos em nono grau? Em décimo segundo? Todo islandês, principalmente os jovens, tem instalada no telefone celular uma aplicação específicamente desenvolvida para facilitar a busca genealógica.

Islândia: banho em piscina termal natural

Islândia: banho em piscina termal natural

A terra é fértil, mas o clima não ajuda. Não é que faça frio exagerado ‒ os invernos são menos rigorosos que os da Europa Central. Na capital, Reykjavik, a média das temperaturas mínimas do mês mais frio é de 3°C abaixo de zero. Para comparação, a alemã Munique registra, no mesmo mês, 5° abaixo de zero.

O que falta, na Islândia, é calor. Em julho, o mês mais quente, a média das temperaturas mais elevadas não alcança 14°C. Uma «tórrida» tarde de vinte graus merece manchete de jornal no dia seguinte.

Islândia: estufas aquecidas por geotermia

Islândia: estufas aquecidas por geotermia

Em compensação, a terra é rica em fontes, lagos e gêiseres de água muito quente. Essa abundância gratuita de fontes de calor traz vantagens não desprezíveis. Canalizada, a água fervente serve para aquecer casas e imóveis, tornando desnecessária a queima de combustível. A atmosfera agradece.

A água quente serve também para climatizar grandes estufas onde se cultivam frutas e legumes que, ao ar livre, não vingariam. Consequência curiosa: a Islândia é o maior produtor europeu de banana. A poucos quilômetros do Círculo Polar Ártico, quem diria, não?

Islândia: estufa aquecida por geotermia

Islândia: estufa aquecida por geotermia

Assim mesmo, a maior riqueza do país foi e continua sendo a pesca, base da alimentação e da economia da ilha. A regulação rigorosa que a União Europeia impõe às atividades pesqueiras é, aliás, o freio que retém os islandeses de pleitear adesão à UE.

Fiquei sabendo hoje que os primeiros refugiados sírios foram recebidos na Islândia. São 50 pessoas, o que não parece muito. No entanto, comparados à população da ilha, equivalem a um Brasil dando asilo a 3500, de uma vez só. De memória, não me ocorre registro semelhante.

Reykjavik, cidade capital da Islândia

Reykjavik, cidade capital da Islândia

Num comportamento exemplar, os islandeses acolheram de braços abertos esses estrangeiros, no sentido mais amplo da expressão. Milhares se propuseram a ajudar. Houve quem oferecesse um quarto da própria residência, houve quem propusesse um emprego. Lojas e firmas se cotizaram para dar uma mão. Ikea, o gigante escandinavo da fabricação de móveis, deu um cheque de 700 euros a cada asilado, para ser descontado na compra do que lhes for útil dentro do sortimento da loja. O governo do país se comprometeu a oferecer a todos curso de islandês além de uma ajuda de custo durante os primeiros meses, até que se ajeitem.

Há quem pode mais, há quem pode menos. Se a gente olhar em volta, vai sempre encontrar alguém mais necessitado que nós. Parabéns aos simpáticos islandeses.

Islândia 6Nota edificante
Sigmundur Davíð Gunnlaugsson, primeiro-ministro do país, foi flagrado em envolvimento no escândalo dos ‘Panama Papers’. Não deu outra: em 24 horas, foi defenestrado pelos conterrâneos indignados.

Este mar é meu

José Horta Manzano

Você sabia?

A expressão águas territoriais define, em grandes linhas, a superfície marítima que pertence a cada país com saída para o mar. Até o século XIX, o assunto não aparecia entre as preocupações maiores. Considerava-se que as águas territoriais se estendiam até 3 milhas da costa (menos de 6km), distância que correspondia ao alcance de um tiro de canhão.

Brasil – Zona Econômica Exclusiva (clique para aumentar)

Brasil – Zona Econômica Exclusiva
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O século XX trouxe outra visão de mundo. O litoral adjacente a cada país passou a ser olhado como zona de exploração econômica – para atividades pesqueiras principalmente. Convencionou-se então fixar o limite das águas territoriais em 12 milhas marítimas, cerca de 22km.

A partir dos anos 70, alguns Estados pressionaram para conseguir que sua zona de exploração fosse alargada. Depois de muita discussão, uma convenção foi assinada em 1982 em Montego Bay. Põe pingo nos ii, dá nome aos bois e fixa limites precisos. Define com precisão as expressões mar territorial, zona contígua, zona econômica exclusiva, plataforma continental e águas internacionais. Fixa em 200 milhas a contar da costa (370km) o limite da zona econômica exclusiva.

França – Zona Econômica Exclusiva (clique para aumentar)

França – Zona Econômica Exclusiva
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O país «proprietário» exerce domínio exclusivo sobre as 200 milhas que lhe são atribuídas. Seus direitos englobam a coluna d’água e o subsolo sobre o qual ela se assenta. O dono é o único com direito a pescar e extrair o que bem entender. Está em casa.

Quando se fica sabendo dessas particularidades, entende-se melhor por que certos países beiram conflito armado pela posse de ilhotas desérticas e desabitadas. É o caso do diferendo entre a Rússia e o Japão sobre as Ilhas Curilas. A China é outro que batalha pela posse de ilhazinhas das quais ninguém nunca ouviu falar.

Chile – Zona Econômica Exclusiva (clique para aumentar)

Chile – Zona Econômica Exclusiva
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Não fosse a Convenção de Montego Bay, o petróleo brasileiro de alto-mar poderia ser explorado pelo primeiro que chegasse. Isso inclui o hipotético pré-sal. Sem aquele acordo, nunca teríamos assistido ao assalto à Petrobrás. Nossos medalhões teriam de ter encontrado outras tetas obesas…

Japão 1A convenção de 1982 deixou uma brecha. Estabeleceu que a zona exclusiva de cada país pode ser prolongada até um máximo de 650km, caso o interessado assim o deseje. Só tem um porém: a partir de 200 milhas, o «proprietário» só tem direito a explorar o subsolo. A coluna d’agua é internacional, aberta a todos. A água e tudo o que ela contém naturalmente.

Valendo-se dessa brecha, a França acaba de estender sua zona exclusiva de exploração do subsolo marinho a 650km. Visto que possui pequenas ilhas espalhadas pelo globo, o país acrescentou meio milhão de quilômetros quadrados à superfície de que já dispunha.

Com isso, pelo critério de zona econômica exclusiva, os onze milhões e meio de quilômetros quadrados franceses ultrapassam todos os outros países. Nesse quesito, a França ocupa doravante o primeiro lugar. Surpreendente, não? O Brasil só aparece em 12° lugar, com pouco mais de 3,5 milhões de km2, atrás do Japão e até do Chile.

Petroleo 2Essa história de zona exclusiva pode parecer bobagem mas não é. A China anda construindo navios para exploração mineral em alto-mar. Ao longo da navegação, a água vai passando por sistema de filtragem que retém o que interessa: ouro, titânio ou qualquer outro mineral raro e precioso. Quem diria, não?

Como se escolhem os ministros

Era uma vez um rei que queria ir à pesca. Chamou seu ministro de Meteorologia e pediu-lhe a previsão do tempo para as horas seguintes. O ministro assegurou-lhe que não ia chover.

No caminho, o rei encontrou um camponês montado num burro. Ao ver o monarca e seus apetrechos de pesca, o campônio achou melhor prevenir:
«É melhor Vossa Majestade regressar ao palácio porque vai chover muito.»

O rei cogitou com seus botões:
«Ora, eu tenho um ministro meteorologista ― por sinal muito bem pago ― que me disse o contrário. Vou mais é seguir em frente». E assim fez.

Burro de carga

Burro de carga

Não deu outra: a chuva torrencial logo veio e arruinou a pescaria. O rei ficou encharcado e apanhou um resfriado. Furioso, voltou ao palácio e, entre dois espirros, demitiu o ministro.

Ato contínuo, mandou chamar o camponês e ofereceu-lhe o cargo. Em sua simplicidade, o homem foi sincero:
«Majestade, não sou político nem entendo nada disso. Só sei é que, quando as orelhas do meu burro estão caídas, é sinal de chuva. Não falha nunca.»

O rei então usou a lógica: nomeou o burro.

Foi assim que teve início o costume de nomear burros que, desde então, têm as posições mais bem pagas no governo.

De caniço e samburá

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Este não pode

Você sabia?
José Horta Manzano

Na maior parte dos países europeus, a pesca de lazer é regulamentada. Não pesca quem quer, onde quer, como quer, nem quanto quer. Tem de ser tudo direitinho, como manda o figurino.

Alguns anos atrás, recebi por alguns dias a visita de um amigo japonês. Era verão, estávamos na França à beira de um lago, e meu amigo ― pescador diletante ― exprimiu seu desejo: gostaria de pescar por aqui. Que peixe dá?

Eu não sabia, mas fui-me informar. As variedades de peixes consegui logo descobrir, esse não foi o problema. A complicação veio em seguida. Para pescar na França, precisa ser membro de uma das 4200 associações reconhecidas pelo estado. Os sócios pagam uma anuidade que lhes dá o direito de pescar.

Mas a França é país altamente turístico. Os visitantes de passagem, como meu amigo, não foram esquecidos. Pode-se pagar por uma autorização temporária de uma ou duas semanas. Sai proporcionalmente mais caro, mas, pelo menos, o turista poderá empunhar seu caniço dentro da lei.

Dentro da lei? Um momentinho, ainda faltam algumas instruções. As associações de pescadores amadores fornecem um manual com as regras a serem absolutamente respeitadas. Não é um manualzinho, é um livrão, mais impressionante que esses catálogos escritos em 42 línguas, que acompanham os eletrodomésticos.

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Este pode

Meu amigo japonês quase caiu de costas quando ficou sabendo. Disse que, no Japão, a coisa é bem diferente. A pesca de lazer é livre, cada um pesca o peixe que quiser, onde preferir. No entanto, neste vasto mundo, nem que o pescador se chame Raimundo encontrará a solução. (Com a necessária piscadela cúmplice a Drummond.)

Leigo no assunto, sou incapaz de traduzir em tupiniquim o jargão do mundo da pesca amadora. As técnicas descritas no manual são sete. Há cinco tipos diferentes de material de base, sem contar os accessórios. A pesca pode ter lugar em água doce em movimento, em água doce parada, no mar próximo à terra, em mar aberto. A variedade de iscas, nós, linhas é vasta. Há lugares onde é permitido pescar. Vinte metros mais à frente, já pode ser proibido. O bom pescador terá obrigatoriamente de carregar ― no bolso ou no samburá ― um mapa especificamente desenhado para a pesca naquela precisa região.

Não se pesca a qualquer momento do ano, não. Tudo varia conforme a região, o tipo de linha, o tipo de material, o ponto do rio ou do lago. Certas espécies podem ser pescadas o ano inteiro, enquanto outras só podem ser apanhadas algumas semanas por ano.

Há variedades de animais protegidos. Se, por desventura, um deles vier a ser capturado, tem de ser solto e devolvido imediatamente à água. O bom pescador tem de ir à faina munido de uma régua. Cada espécie de peixe tem um comprimento mínimo, abaixo do qual terá de ser devolvido à vida.

E ai de quem ousar desobedecer. Fiscais estão à espreita para aplicar multa aos contraventores. E a multa pode ser pesada, cuidado!

Meu amigo japonês achou que era mais simples comer um sushi num restaurante típico. Mesmo que não fosse preparado na hora, na frente do freguês…