O caça cassado

José Horta Manzano

O protótipo do caça francês Rafale fez o primeiro voo em 1991. Fabricado pelas indústrias Dassault, o modelo corresponde às exigências da aeronáutica militar francesa. Paris comprometeu-se a comprar 180 aparelhos, dos quais 142 já foram entregues.

Avião 6Sofisticado mas muito caro, o Rafale não foi um sucesso de vendas. Mais de vinte anos depois de lançado, nenhum país, além da França, tinha mostrado interesse. Eis senão quando, um Lula no auge da popularidade, a pouco mais de um ano de terminar o segundo mandato, faz anúncio estrondoso.

Contrariando os interesses dos que entendem do assunto ‒ as Forças Aéreas Brasileiras ‒, tomou a decisão pessoal de entabular negociação firme em vista de adquirir 36 exemplares. Para comemorar e oficializar o acordo, convidou Nicolas Sarkozy, então presidente da França, para assistir aos festejos do 7 de setembro. Estávamos em 2009.

A forte limonada servida no almoço há de ter deixado os dois presidentes eufóricos. Imprudentemente, deram o fechamento do negócio por favas contadas. Garantiram que o Brasil estava comprando os aviões franceses.

Lula e SarkozyO tempo passou, os dois presidentes terminaram o mandato, e o assunto morreu. A razão do malogro das discussões não ficou clara, deixando a cada um liberdade para imaginar o que bem entender.

Em 2015, para alegria do fabricante, o Egito encomendou 24 aparelhos. Meses mais tarde, o Catar também adquiriu duas dúzias. São pedidos firmes ‒ aliás, os três primeiros aparelhos já foram entregues ao país das pirâmides.

Interligne 18h

Monsieur François Hollande, atual presidente da França, está de visita oficial à Índia este fim de semana. A principal razão da viagem é o interesse demonstrado por Nova Delhi em adquirir 36 Rafales. Escaldados pelo fiasco quando das tratativas com o Brasil, franceses e indianos se abstêm de apregoar que o negócio está no papo.

Hollande IndiaQuando as negociações entre o Brasil e a França goraram, todos imaginaram que tivesse sido por razões técnicas ou ligadas à transferência de tecnologia. Hoje, desencadeada a Lava a Jato, sabemos que operações políticas envolvendo dinheiro gordo encerram mais mistérios do que sonha nossa vã filosofia.

Assim, fica no ar a pergunta: «Por que é mesmo que deixamos de comprar os Rafales?». Que cada um imagine o que quiser.

Sem escala

José Horta Manzano

Os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro eram para ser a cereja em cima do bolo, a consagração do Estado Novo reencarnado. Deviam cobrir de louros a cabeça de nosso guia genial simbolizando o ápice de sua estupenda carreira. Deviam gravar, no mármore do panteão nacional, a memória imorredoura do admirável líder-mor.

Mas a vida é cruel. O Mensalão, o Petrolão, a Lava a Jato, o vexame dos 7 x 1, as delações, as condenações, o espectro da Papuda, a catástrofe econômica, a inflação paralisante, a fuga de cérebros, a humilhação imposta por agências de notação, a aproximação de Cuba com os EUA, a desaceleração da China contribuíram para o desmoronamento do projeto.

Televisão Suíça ‒ captura de tela

Televisão Suíça ‒ captura de tela

As Olimpíadas passaram a segundo plano. A cereja que devia enfeitar o bolo está podre. O golpe de graça está sendo assestado pelo vírus Zika. Em todas as línguas, o mundo está sendo alertado para o perigo. A mídia internacional desaconselha fortemente toda visita à América do Sul, em especial ao Brasil. A advertência é imperativa para grávidas.

No Brasil, há quem pressinta que estamos em meio a uma década perdida. Guardando as devidas proporções, a situação atual chega a evocar um panorama que não se observava havia mais de um século.

Televisão Suíça ‒ captura de tela

Televisão Suíça ‒ captura de tela

Na virada do século XIX para o século XX, o Rio de Janeiro era uma cidade suja, infestada de focos de doenças tropicais ‒ malária e febre amarela principalmente. Antes do saneamento orquestrado por Oswaldo Cruz e apoiado pelo presidente Rodrigues Alves, europeus evitavam visitar a cidade.

Revolta da Vacina, 1904

Revolta da Vacina, 1904

Companhias italianas de navegação tranquilizavam os passageiros ‒ imigrantes que se dirigiam à Argentina ‒ garantindo que a viagem seria direta, «senza scalo a Rio de Janeiro», sem escala no Rio.

Mais cedo ou mais tarde, a epidemia de febre zika há de ser refreada. A endemia de violência e criminalidade, infelizmente, ainda vai afugentar visitantes por algum tempo.

Alguns alertas:
Televisão Pública, Suíça
Sydney Morning Herald, Austrália
La Repubblica, Itália
Portal Yle, Suécia

Intercâmbio prejudicado

José Horta Manzano

Ninguém gosta de pagar imposto. A gente só paga porque não tem outro jeito. Por sinal, mais e mais países adotam o sistema de retenção na fonte, modalidade em vigor no Brasil há muito tempo. É justamente para evitar ‘hesitação’ do contribuinte na hora de pagar.

Queiramos ou não, é assim que os países funcionam: o rendimento dos habitantes é puncionado, seja na fonte, seja mais tarde. Todos entendem que é mal necessário. Mas tudo tem limite. O que nos contraria não é tanto o desconto, mas o mau uso que eventualmente se faz do dinheiro recolhido.

Imposto 1A revelação das tenebrosas transações que correm à solta no Brasil nos deixa revoltados. Com que então, o fruto do meu suor vai parar no bolso de sanguessugas que ainda riem na minha cara? O sentimento de injustiça, de raiva e de impotência é insuportável.

Sabemos que a conjugação de ladroagem com incapacidade e ignorância tem feito nosso país retroceder na escala da civilização. Anos de malandragem e roubalheira levaram as contas públicas ao fundo do poço.

Interligne 18h

Desde o começo deste ano, valendo-se de uma imprecisão na legislação fiscal, a Receita Federal instituiu novo imposto. Toda remessa para o exterior está sendo tributada. O tapa não foi dado de mão morta: a alíquota é de 25 por cento. E tem mais: toda remessa legal é, por definição, constituída de dinheiro já tributado pelo Imposto de Renda. Estamos falando de dupla tributação.

O imposto não atinge, naturalmente, os milhões subtraídos ilegalmente e depositados em paraísos fiscais. Esse tipo de operação, intermediada por doleiros e acobertada por gente graúda, zomba das leis e goza de isenção. Os prejudicados são cidadãos do andar de baixo, aqueles que ganham a vida com o próprio trabalho.

Imposto 2As principais vítimas são brasileiros que aderiram a programa de intercâmbio. Os que batalham pós-graduação, mestrado e doutorado no estrangeiro também entram na dança. A vertiginosa desvalorização do real combinada com o confisco de 25% tornam a permanência de muitos estudantes inviável.

Além de ser confiscatória, a intolerável medida pouco contribuirá para elevar o nível do erário dilapidado. Pior que isso, essa tributação cerceia os jovens que se aperfeiçoam no estrangeiro ‒ exatamente os que poderiam contribuir para a elevação do nível cultural do Brasil de amanhã.

É mais uma vez a Pátria Educadora garantindo o atraso.

Frase do dia — 283

«O Brasil será responsável por um a cada três novos desempregados em 2016 no mundo. A afirmação é da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Em informe anual, a entidade revela que o País registrará o maior salto na taxa de desemprego entre as grandes economias do mundo neste ano. Perderão o emprego 700 mil brasileiros.»

Cláudio Humberto, jornalista em sua coluna no Diário do Poder, 20 jan° 2016.

Roubos & roubos

José Horta Manzano

Data venia, vou tomar emprestado um dos bordões em que dona Dilma mais se apoia: estou estarrecido! Logo mais, digo por quê.

O Enem, exame nacional unificado nos moldes em que hoje é organizado, não existia quando terminei a escola média. Merenda escolar tampouco havia. E a ninguém viria a ideia de chamar a professora de tia. Os códigos de urbanidade exigiam demonstração de apreço.

Estudante 2Das três diferenças que mencionei, uma foi negativa mas duas assinalam avanço. Não sei se as regras do politicamente correto ensinam a chamar professora de tia. Seja como for, ressinto como familiaridade exagerada ou até como falta de respeito. As outras duas mudanças ‒ Enem e merenda escolar ‒ me parecem passos na boa direção.

Outro dia saíram os resultados da prova de redação do Enem 2015. Mais de cinquenta mil candidatos levaram nota zero. Pronto, chegou a hora de empregar o mote de nossa presidente: é de estarrecer! São dezenas de milhares de postulantes que, ao cabo de uma dúzia de anos de estudo, não conseguem se exprimir por escrito na língua oficial. E tem mais: o total divulgado não inclui os que, embora tenham comparecido, devolveram uma folha em branco.

Estudante 4As copiosas roubalheiras que nos vêm empobrecendo têm, em teoria, solução. Controles mais severos do dinheiro que passa de mão em mão tendem a cercear a malandragem. O iletrismo ‒ pra não dizer analfabetismo ‒ de jovens que chegam às portas do ensino superior é muitíssimo mais grave.

Para complementar a informação, constato que 75% dos candidatos ‒ três em cada quatro ‒ não passou de 60% de aproveitamento. Refiro-me aos que obtiveram menos de 600 pontos, marca sofrível.

Assalto à Petrobás e a outras estatais rouba dinheiro, mas dinheiro se repõe. Já o miserável nível de ensino rouba o futuro de muita gente. É irremediável, não dá pra repor. A Pátria Educadora ainda não está mostrando resultados.

Dois pra frente, dois pra trás

José Horta Manzano

Vão cassar, não vão cassar, vão cassar, não vão cassar… Essa dança de dois passos à frente, dois passos atrás está cansativa. Como você certamente já se deu conta, estou falando da eventual cassação do mandato de dona Dilma. Parece que a destituição é possível mas pouco provável.

De toda maneira, a julgar pela situação precária em que o país se encontra, o fracasso de eventual sucessor está praticamente garantido. Qualquer um que suba ao trono vai amargar anos de impopularidade. De fato, com inflação crescendo, PIB encolhendo e desemprego aumentando, nem varinha mágica resolve imediatamente. Os próximos anos serão complicados, seja quem for o presidente.

Dilma Aerolula 2Falando em substituição de presidente, já passou da hora de reconsiderar as normas. Precisamos de vice-presidente? O personagem fazia sentido em 1889, quando militares deram o golpe que destronou D. Pedro II. Prudente, a Constituição republicana previu um substituto do mandatário-mor.

Navio 1Na época, era sábia precaução. Viagem presidencial ao exterior, por exemplo, podia durar meses. Embora o telégrafo já funcionasse, translados eram lentos. Se o presidente, de visita à Europa, tivesse de retornar às carreiras, enfrentaria quinze dias de navegação. Ter à mão um substituto designado era necessidade absoluta.

Hoje não é mais assim. A transmissão de poder que o presidente faz antes de se ausentar do país virou cerimônia protocolar, sem sentido. Com os meios de comunicação que temos hoje ‒ tudo em tempo real, com som e imagem ao vivo ‒, o presidente está em condições de exercer sua função em qualquer parte do mundo. Todo presidente vive plugado.

Aerolula 1Agora, o argumento mais forte. Se o presidente, antes de subir a escada do avião, passou as rédeas ao vice, já embarca destituído dos poderes. Não é mais presidente em exercício, mas presidente afastado. Portanto, em teoria, não tem legitimidade para representar o Brasil. Tecnicamente, sua assinatura em textos e tratados não terá valor.

Está aí mais um dispositivo constitucional que merece ser revisitado. Muitos são os países cujo presidente não tem vice à espreita. Em caso de vacância do cargo ‒ por destituição, morte, doença, renúncia ‒, convocam-se novas eleições. Desaparece o conceito de «mandato tampão». E já vai tarde, sem deixar saudade.

Passeatas e manifestações

José Horta Manzano

Tive, faz muitos anos, um chefe inglês. Espirituoso, cultivava aquele humor britânico fino e levemente irônico. Quando via um grupinho de funcionários conversando no corredor, costumava dizer: “More than two together is mutiny”(*) ‒ mais de dois juntos é motim. Era seu jeito de dizer “chega de blá-blá-blá, vamos trabalhar”. A referência a um termo militar devia ser resquício da Segunda Guerra, quando tinha combatido na Birmânia.

Motim 1Durante os anos de chumbo que o Brasil atravessou, principalmente na década de 70, reuniões eram proibidas. Como todo regime ilegítimo, a ditadura brasileira sabia que não podia mais contar com o apoio da maioria da população. Em virtude disso, temia a agregação de forças adversárias. Ao exagerar na repressão a concentrações populares, tentava reprimir toda insurreição.

Escrita quando o cadáver da ditadura ainda não havia esfriado, a atual Constituição fez questão de exagerar no sentido oposto. No que tange a reuniões, foi magnânima: liberou geral. O Inciso XVI do Artigo 5° reza assim:

Cabeçalho 5Embora a intenção fosse tranquilizar o bom povo e transmitir sensação de segurança e liberdade, o texto é problemático. Ao determinar que cidadãos podem se reunir independentemente de autorização, deixa implícito que a autoridade não tem poder de proibir reuniões. É desprendimento exagerado. De que serve avisar previamente se a manifestação não pode ser proibida?

Todo país civilizado permite reuniões, passeatas, manifestações, comícios ‒ demonstração do vigor da democracia. No entanto, toda atividade que se desenvolva temporária ou permanentemente no espaço público tem de ser sujeita a autorização. O fato de ter ‘intenção’ pacífica não é garantia de que a manifestação se desenrolará tranquilamente. O fato de os participantes não portarem arma não impede que depredem o bem comum ou que transformem bancos de jardim em armas.

Manif 2O texto legal diz que uma reunião não se pode realizar no mesmo local onde outro agrupamento já tiver sido convocado. Pois bem, suponhamos que aconteça: o grupo A anuncia às autoridades que vai-se manifestar no mesmo lugar onde o grupo B prevê reunir-se. Tendo em vista que reuniões não podem ser proibidas, a autoridade estará em palpos de aranha. Poderá apenas sugerir ao grupo que escolha outro local. E torcer pra que o pedido seja atendido.

Manif 4Admitamos outra possibilidade. Um coletivo de cidadãos informa as autoridades que vai trancar a Avenida Paulista (ou a Avenida Rio Branco no RJ, ou qualquer outra avenida brasileira de tráfego intenso) às 18h de um dia de semana. Será manifestação pacífica e sem armas. Que pode fazer a autoridade? Pelo texto constitucional, nada. Pode observar o congestionamento de longe, impotente, enquanto dezenas de milhares de cidadãos que nada têm a ver com o peixe são cerceados em seu direito de ir e vir.

A meu ver, o inciso que regulamenta reuniões em local público deveria ser revisitado. Todo ajuntamento, ainda que pacífico e sem armas, deve ser sujeito à aprovação da autoridade competente. Não nos esqueçamos que o ente nebuloso a que chamamos ‘autoridade’ nada mais é que uma das faces da representação popular.

Interligne 18c

Etimologia
(*) Mutiny (=motim, amotinamento) vem do verbo francês mutiner, hoje raramente utilizado. A origem mais provável é o verbo latino movere (=mover) por uma presumida forma intermediária movita.

Santo de casa

José Horta Manzano

Você sabia?

Chegou até aqui o eco de um auê gerado por mudanças curriculares cozinhadas pelo Ministério da Educação. Se entendi bem, o ensino da História, já massacrado, será definitivamente torpedeado.

Diminuindo a ênfase do estudo da Idade Média, do Renascimento, do Iluminismo ‒ períodos e movimentos indispensáveis para entender nossa cultura ‒, atenção especial deverá ser dada à História da África.

Por definição, a História começa quando determinado grupo humano alcança a capacidade de deixar registro dos acontecimentos. Pouco importa o suporte: tabuinhas de argila, papirus, papel, disco rígido servem. Enquanto a transmissão for apenas oral, não se fala em história, mas em pré-história.

Cabo BojadorNa alta antiguidade, os únicos habitantes da África a deixar registro foram os egípcios do tempo dos faraós e seus vizinhos imediatos, a leste e a oeste. Os povos da África subsaariana desconheciam a escrita. Os primeiros registros sobre aquela região só começaram a aparecer depois que o português Gil Eanes dobrou o Cabo Bojador, em 1434. Conclui-se que o currículo dos brasileirinhos vai focar na pré-história da África Negra. É surpreendente.

Imagino e espero que esse atentado contra o ensino da História não passe de boato ou de intriga da oposição. Recuso-me a acreditar que o Brasil se esforce, de propósito, por apagar o passado. Se bem que… o esquecimento do passado faz parte do caráter nacional. Quer ver?

Vou propor-lhe uma adivinhação. O inventor do rádio era:

Interligne vertical 12□  alemão
□  americano
□  italiano
□  brasileiro

Radio 4Se você respondeu alemão, deve ter-se lembrado do físico Heinrich Hertz. Não foi ele.

Se você respondeu americano, talvez seja porque o nome de Thomas Edison lhe tenha vindo à cabeça. Tampouco foi ele.

Caso você tenha respondido italiano, não passou longe. Certamente lembrou-se de Guglielmo Marconi, o inventor da telegrafia sem fio. Mas rádio é outra coisa. Não foi Marconi.

Pois fique o distinto leitor sabendo que a radiodifusão é invenção de um brasileiro. Sim, senhor. Na virada do século XIX para o século XX, o padre gaúcho Roberto Landell de Moura fez as primeiras demonstrações públicas de transmissão radiofônica. Um espanto! E olhe que não foi numa praia deserta diante de três gatos pingados, como aquele voo dos irmãos Wright. A demonstração foi pública, em plena cidade de São Paulo, diante de cientistas e figurões.

Padre Landell de Moura

Padre Landell de Moura

Por razões difíceis de explicar, a invenção de Landell foi sepultada pela poeira da História. Apesar das provas, dos testemunhos, das patentes depositadas, o inventor foi ignorado. Santo de casa não costuma fazer milagres.

Para conseguir a inclusão da saga do gaúcho genial na grade curricular, o Portal dos Jornalistas lançou uma petição. Se você estiver de acordo e quiser apoiar, basta clicar aqui e seguir as instruções. Quanto mais gente assinar, mais chances teremos de resgatar feitos e gestos do sagaz e injustiçado inventor.

Não vai lhe custar nada nem vai inocular vírus no seu aparelho. As gerações futuras hão de agradecer-lhe pela atenção.

Extradição de nacionais

José Horta Manzano

Constituições são promulgadas na esteira de acontecimentos importantes. Mudança de regime e fim de guerra estão entre os fatos que dão origem à redação de nova Lei Maior. Assim aconteceu no Brasil. Saído de mais de vinte anos de regime repressivo, o país reclamava novo ordenamento. O anseio concretizou-se em 1988, quando entrou em vigor a atual carta magna, também conhecida como «Constituição Cidadã».

Constituição 4Na intenção de ser explícitos e na pretensão de colmatar toda fresta que pudesse ressuscitar o falecido regime, os constituintes acabaram pecando por excesso. Nossa Carta é extensa. Seus 245 artigos contrastam com os meros 129 que regem nossos hermanos argentinos, por exemplo.

Alguns dos dispositivos, por absurdos, nunca chegaram a ser aplicados. O Artigo 192 estipula que «as taxas de juros reais (…) não poderão ser superiores a doze por cento ao ano». A injunção faz sorrir quando se constata que o crédito rotativo anda cobrando taxas de quase 400%.

Constituição 3Outros artigos, mal estruturados, geraram problemas sérios. Foi o caso da transmissão da nacionalidade. Escrita numa época em que o número de brasileiros no exterior ainda era relativamente modesto, a Lei Maior descurou esse particular. Devia ter estipulado, clara e simplesmente, que filho de pai brasileiro ou de mãe brasileira é brasileiro. Ponto e basta. Em vez disso, estabeleceu condições. A nacionalidade só se transmitia ao rebento nascido no exterior se ele viesse um dia a residir no Brasil e optasse(?) pela cidadania brasileira.

Dado que a esmagadora maioria dos países não concede cidadania automática a filhos de estrangeiros, ainda que lá tenham nascido, o dispositivo gerou uma legião de pequenos apátridas. Não eram brasileiros nem tinham a nacionalidade do país em que haviam nascido. A situação colidia de frente com a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Levou anos, mas, felizmente, essa falha primária foi sanada.

JustiçaDurante o regime militar, estava prevista a pena de banimento de cidadãos brasileiros. Na intenção de extirpar todo risco de degredo de nacionais, a Constituição de 1988 estabelece que nenhum cidadão brasileiro poderá ser banido nem extraditado. Sobre esse assunto, nem todos os países têm a mesma visão.

Brasil e Portugal, entre outros, proíbem a extradição de nacionais. Espanha, Argentina, Bélgica silenciam sobre o assunto ‒ na prática, cada caso será estudado individualmente. A Itália consente, desde que o caso esteja previsto em convenções internacionais. A Suíça só extraditará um nacional se ele der seu consentimento expresso.

Justiça 6Não me parece escandaloso nem ilícito entregar um criminoso brasileiro à justiça de outro país. Nacionalidade brasileira não deveria ser garantia de abrigo seguro para criminosos procurados por outros países. Traficantes internacionais, corruptos de alto coturno, mafiosos de toda espécie que tenham cometido crimes fora do país deveriam poder ser entregues ‒ respeitadas certas condições ‒ à justiça estrangeira.

A pátria tem o dever de proteger cidadãos de bem. Malfeitores e criminosos internacionais não deveriam ser automaticamente acolhidos sob o mesmo manto.

Falam de nós – 16

0-Falam de nósJosé Horta Manzano

A colheita da semana é magra. As manchetes que mencionam o nome de nosso país foram, como de hábito, desalentadoras. Aqui estão algumas, de cinco diferentes países.

Gang of Kids
Reportagem do site Yahoo dedicado a viagens e viajantes está longe de encorajar turistas a visitar o Brasil em geral e o Rio de Janeiro em particular. Traz um vídeo de 40 segundos, presumivelmente produzido pela empresa Globo, em que uma impressionante sequência de assaltos é praticada à luz do dia em pleno centro da cidade.

Quem convive diariamente com situações como essas não se espanta. Mas duvido que um estrangeiro, depois de assistir a essas imagens, persevere no projeto de visitar o Brasil.

Assalto 9Carestia alastrante
O austríaco Der Standard dá informação sobre a «transbordante» inflação, que ultrapassou dez por cento em 2015. Entre as causas, são destacadas as «suntuosas» despesas do governo.

Karneval der Korruption
Carnaval da Corrupção. Com esse título, o alemão Frankfurter Rundschau conta que a temática da próxima festa nacional brasileira de facto ‒ o Carnaval ‒ será a corrupção sob todos os aspectos. Máscaras, marchinhas, carros alegóricos farão parte dos festejos. Até ‘o japonês da Federal’ é mencionado.

Carnaval 12Queda livre
Brasil em queda livre ‒ é manchete do Neue Zürcher Zeitung, jornal suíço de referência. O longo artigo pinta, com tintas vivas e realistas, a atual situação do Brasil. Fala de tudo: corrupção, rebaixamento por agências de classificação de risco, falências, desemprego, inflação, troca de ministros, catástrofe ambiental, Jogos Olímpicos.

Para rematar com olhar optimista, o articulista observa que a desvalorização do real pode representar excelente oportunidade para os exportadores brasileiros que forem rápidos no gatilho.

Dragon 1Decaída
“Brasile: dalla gloria dei Brics al terzo mondo.” Brasil: da gloria do Brics ao Terceiro Mundo. É o que constata artigo alojado no italiano Corriere della Sera. Pessimista, dá uma imagem bastante crua do momento brasileiro. Fala de uma presidente que passa o tempo a defender-se do impeachment. Lembra que o partido atualmente no poder está envolvido em escândalos sem fim, cujo denominador comum é o financiamento ilícito de campanhas acompanhado por enriquecimento pessoal de líderes. Menciona estatais saqueadas que se encontram em estado terminal.

Num escárnio, termina perguntando se Deus seria mesmo brasileiro, como dizem. A dúvida fica no ar.

De lemas e motes

José Horta Manzano

A maioria dos países adotou um lema nacional. Não é obrigatório, mas costumeiro. Muitos deles são binários (Patria o Muerte) ou ternários (Liberté, Égalité, Fraternité). Há os que seguem outro padrão, como o AEIOU do falecido Império Austríaco: Austriae Est Imperare Orbi Universo ‒ cabe à Áustria reger o mundo. Presunçoso, não?

Lema 3Um exame mais atento dá boas pistas sobre o foco das prioridades nacionais no momento em que cada divisa foi escolhida. A inquietação com relação à coesão nacional é generalizada, com especial ênfase em países que congregam etnias, religiões ou línguas variadas. Boa parte das antigas colônias na África segue a receita:

Maláui:              Unidade e Liberdade
Burkina Faso:        Unidade, Progresso, Justiça
Costa do Marfim:     Unidade, Disciplina, Trabalho
Rep. Centroafricana: Unidade, Dignidade e Trabalho
Gabão:               Unidade, Trabalho, Justiça
Serra Leoa:          Unidade, Liberdade, Justiça
Angola:              A União faz a Força
Burundi:             Unidade, Trabalho, Progresso

Além desses, mais uma dezena de africanos inclui no lema a aspiração à unidade nacional. Foge à regra a divisa de Botsuana. Resume-se a uma palavra: Pula que, no dialeto banto falado naquelas bandas, significa chuva. É de crer que o clima seja bastante árido.

Lema 5Nas Américas, domina a sensação de falta de liberdade. Alguns séculos depois da chegada do colonizador, foram surgindo gerações de nativos que identificaram no europeu o agente da opressão. No momento em que se tornaram independentes, os novos países adotaram motes que faziam alusão à liberdade recém-conquistada.

Os anos que se seguiram demonstraram que o colonizador não era o único responsável pela opressão e que a liberdade podia ser suprimida por conterrâneos, como de fato foi. Cubanos, venezuelanos, haitianos e até brasileiros já viram esse filme.

Vários dísticos americanos exaltam a liberdade:

Argentina:       Na União e na Liberdade
Colômbia:        Liberdade e Ordem
Rep. Dominicana: Deus, Pátria, Liberdade
Guatemala:       Liberdade
Peru:            Livre e Feliz pela União
Uruguai:         Liberdade ou Morte

Lema 1Na Europa, vários lemas mencionam Deus: Dinamarca, Liechtenstein, Monaco, Polônia, por exemplo. Sintomaticamente, a Moldávia, pequeno país de língua latina espremido entre vizinhos de fala eslava, escolheu mote apropriado: «Nossa língua é um tesouro».

Curiosa é a divisa da Itália: «Una Repubblica democratica, fondata sul lavoro» ‒ uma República democrática baseada no trabalho. A frase aparece já no primeiro artigo da Constituição de 1946. A menção à democracia é compreensível para um povo que acabava de se livrar do regime fascista. Já a alusão ao trabalho é mais intrigante.

Lema 4Para finalizar, vamos lançar uma rápida vista d’olhos a nosso conhecido «Ordem e Progresso». Trata-se de abreviação de frase bem mais longa forjada pelo pensador Auguste Comte. O original francês é: «L’amour pour principe et l’ordre pour base; le progrès pour but.»o amor como princípio e a ordem como base; o progresso como objetivo.

Em geral, slogans não me agradam. Mais imprudente ainda é transformá-los em símbolo nacional. Situações mudam, a vida segue e a frase pode deixar de fazer sentido. Pode-se chegar ao ponto de ter de explicar o que a frase significava no contexto em que foi escrita.

Não é nosso caso, como sabem os distintos leitores. Nosso lema continua sendo aspiração de todos. Ordem, nunca tivemos. A cada vez que a coisa parecia bem encaminhada, sobreveio mudança brusca de regime, capaz de tudo demolir e de nos obrigar a reconstruir a partir do zero.

Lema 2Quanto ao progresso, com altos e baixos, a segunda metade do século XX trouxe muita esperança e muito otimismo. Até não faz muito tempo, parecia até que estávamos chegando lá.

Desgraçadamente, de um ano pra cá, descobrimos que muitos dos avanços apregoados não passavam de propaganda enganosa. Na verdade, o ritmo de transformações diminuiu tanto que temos hoje a sensação de regredir.

Que «Ordem e Progresso» continue sendo nosso lema. Ainda falta muito, mas, quem sabe, um dia ainda chegamos lá.

O agrément do embaixador

José Horta Manzano

Faz um mês, escrevi um artigo concordando com a decisão do Planalto de não conceder o agrément ao novo embaixador de Israel em Brasília. Em correspondência particular, um distinto e fiel leitor, com argumentação muito bem construída, discordou de minha opinião.

Ele tem lá suas razões, admito de bom grado. No entanto, acho que, para ser plenamente entendido, o incidente atual tem de ser considerado como novo capítulo de uma novela que se vem desenrolando faz vários anos.

O assunto é interessante. Assim, gostaria de aproveitar a oportunidade para aprofundar, em atenção a outros distintos leitores, minha visão sobre o acontecido. Eis por que decidi tornar pública a cartinha que acabo de escrever a meu correspondente. Aqui está ela.

Interligne 18h

Prezado amigo,

Peço desculpas antecipadas para a eventualidade de algum propósito meu lhe parecer demasiado cru. Sem chegar ao hiperrealismo, acredito que, em certas ocasiões ambíguas, cada boi deve levar seu nome.

Discussão 1Logo de início, uma premissa tem de ser posta: Estados não têm sentimentos, têm interesses. Nesse nível, relacionamentos não passam pelo coração, mas pelo cérebro. E, naturalmente, pelo bolso…

Imigrantes italianos, alemães e japoneses são componentes pra lá de importantes dos alicerces de nossa nação. Imigrantes franceses, britânicos e americanos foram bem menos numerosos. Se dependesse de razões afetivas, o Brasil, na última grande guerra, teria integrado o eixo Berlim-Roma-Tóquio. No entanto, os interesses do Estado brasileiro falaram mais alto, daí o governo da época ter escolhido o campo aliado.

Discussão 2Ao Estado brasileiro, no fundo, pouco se lhe dá que os ânimos entre israelenses e palestinos se acirrem ou se acalmem. Dito assim, pode até ser chocante, mas, convenhamos, é a realidade. Fazendo abstração do aspecto humanitário, os fatos políticos daquela lonjura não acarretam maiores consequências para nós.

Em condições normais, é mais que provável que a nomeação de novo representante israelense para a embaixada em Brasília passasse totalmente despercebida, fosse quem fosse o indicado. Mas as condições não eram normais, aí está o nó. A história se desenvolve num continuum. Ao isolar um fato, perde-se o fio, e o relato perde coerência. Para entender o imbróglio, não precisa voltar aos tempos bíblicos nem mesmo à criação do Estado de Israel. Basta relembrar o que ocorreu poucos anos atrás, nos tempos do Lula.

Sob inspiração de seus áulicos, o então presidente deu demonstração de que ingenuidade aliada a ignorância e apimentada por mau aconselhamento só pode dar, digamos, desasseio ‒ pra evitar palavra malcheirosa. É inacreditável, mas nosso guia acreditou que, com uns dois jogos de futebol e três tapinhas nas costas, poria fim ao conflito. E que ainda faria jus ao Prêmio Nobel.

Sua intrusão espetaculosa no conflito causou irritação em Israel e em outros atores que, há anos, pelejam para ajeitar a situação. O Lula foi rapidamente instado a descer do imaginário pedestal e a dar-se conta de que sua intromissão não era bem-vinda. A contragosto, o folclórico personagem encolheu-se. Seu entourage engoliu a derrota mas guardou rancor.

Discussão 3Poucos anos mais tarde, em julho de 2014, uma exacerbação no contencioso médio-oriental deu motivo ao Planalto para exteriorizar o rancor refreado. Considerando que Israel usava força desproporcional na Faixa de Gaza, chamou para consultas o embaixador brasileiro em Tel Aviv. Na aveludada linguagem diplomática, isso significa forte desagrado.

Até lá, convenhamos, os acontecimentos eram banais. Não havia ofensa nem descompostura. Foi aí que, destemperado, o governo israelense tropeçou. Em declaração confiada ao porta-voz do Ministério de Relações Exteriores, proclamou ao mundo que «This is an unfortunate demonstration of why Brazil, an economic and cultural giant, remains a diplomatic dwarf»esta infeliz demonstração dá a prova de que o Brasil, gigante econômico e cultural, permanece um anão diplomático. Ao insulto desnecessário, o porta-voz acrescentou, dias depois, zombaria ainda menos diplomática. Em entrevista à televisão, não hesitou em reforçar a humilhação que o Brasil acabara de sofrer na Copa do Mundo. Disse: «This is not football. In football, when a game ends in a draw, you think it is proportional, but when it finishes 7-1 it’s disproportionate»isto não é futebol. No futebol, quando um jogo termina empatado, o resultado é equilibrado, mas quando termina 7 x 1, é desproporcional.

A fala arrogante e prepotente foi mal recebida por Brasília. É compreensível. O homem, além de dar um tapa na cara, ainda cuspiu em cima. A formulação não ficou bem na boca de quem, dias antes, pretendia nos dar lições de diplomacia. Não é surpreendente que o Brasil tenha guardado sabor amargo.

A recusa do agrément ao novo embaixador proposto por Israel tem de ser analisada na sequência desse diferendo. Estivesse o horizonte desanuviado, ninguém se preocuparia com o fato de o diplomata ser militante e porta-estandarte de uma causa que o Brasil não apoia.

Dislike 2Mas o molho é ainda mais apimentado. Com a intenção de criar fato consumado, Tel Aviv mais uma vez fugiu aos códigos diplomáticos. Em vez de comunicar o nome do novo embaixador a Brasília em primeiro lugar, como manda o figurino, o governo israelense vazou a informação primeiro à imprensa. Foi a conta. O Planalto não estava preparado para nova humilhação.

Portanto, há que relativizar. O Lula trocou os pés pelas mãos, é indiscutível, mas não insultou. Já a reação do governo israelense agrediu e ofendeu. O que vemos hoje se inscreve na continuação daquele desagradável episódio.

Mas não há que botar mais gasolina na fogueira. A melhor resposta que Israel poderia dar seria deixar vago o posto de embaixador no Brasil por longos meses. Com isso, sem voltar a insultar, mostraria seu descontentamento. Passado algum tempo, quando a poeira tiver baixado, volta-se ao assunto.

De qualquer maneira, entre mortos e feridos, todos se salvarão. A meu ver, é muito discurso pra pouco defunto.

Um abraço cordial.

PS: Um artigo do Washington Post de 25 jul° 2014 dá uma panorâmica dos fatos. Está aqui.

Drones

José Horta Manzano

Drone militar

Drone militar

A palavra inglesa drone designa a abelha-macho. Embora usemos raramente, temos, em nossa língua, tradução exata: zângão. No mundo das abelhas, o macho não trabalha e não produz mel. Serve apenas para reprodução.

Por metáfora, costuma-se tratar pejorativamente de zângão (ou zangão ou ainda zângano) todo indivíduo encostado, que vive à custa de outrem. A palavra nos vem do castelhano. Parece ser de formação expressiva ‒ uma imitação do ruído do inseto.

A língua inglesa distingue entre drone (aparelho militar) e UAV (por Unmanned Aerial Vehicle), destinado a uso civil. Drones são de uso privativo do exército e da polícia. UAVs são utilizados na cinematografia, na agricultura, na televisão. Nós não chegamos a essa sutileza. Chamamos drone a todos esses aparelhos, pouco importando que carreguem bombas ou câmeras.

Drone 1Os primeiros objetos voadores desse gênero apareceram no final da Segunda Guerra. Desde o começo, devido ao zumbido que emitiam, receberam o apelido que conservam até hoje.

No Brasil, seu uso ainda não está regulamentado. Em decorrência, não se conhece nem mesmo o número exato de aparelhos em serviço. Há quem estime em doze mil engenhocas. É uma falha ameaçadora. Nossas autoridades não deviam esperar que uma catástrofe aconteça para regulamentar.

O jornal O Globo informa que, para preencher o vácuo legal e para garantir um mínimo de segurança durante os Jogos Olímpicos deste ano, a Aeronáutica proibiu o uso de drones «no espaço aéreo». É muito pouco e muito vago. Regras têm de ser claras e exaustivas. Há que estipular quem pode e quem não pode pilotar, que organismo confere a habilitação, que qualificações o candidato tem de demonstrar para conseguir o brevê, como e onde registrar o objeto.

Drone civil

Drone civil

Drones, ainda que desarmados, representam risco. Mal pilotados, podem chocar-se com veículos em movimento, invadir residências. Podem até levar um helicóptero à queda.

A Anac promete regras até agosto, mês das Olimpiadas. Até lá, é aconselhável usar chapéu de couro. Nunca se sabe se um besourinho metálico vai resolver despencar sobre algum cocuruto.

Primeiro tempo: 5 x 0

José Horta Manzano

Quando raiou o ano de 1966, faz exatamente 50 anos, um Brasil confiante se preparava para conquistar definitivamente a Copa Jules Rimet. O ‘escrete canarinho’, como se dizia na época, tinha ganhado duas edições consecutivas do campeonato mundial de futebol ‒ em 1958 na Suécia e em 1962 no Chile. Para um povo empavonado, a terceira vitória estava no papo. Eram favas contadas. Afinal, quem tinha um Pelé e um Garrincha não podia perder.

Artista Claudette SoaresNo início daquele ano, Luís Carlos Miele e Ronaldo Boscoli montaram um espetáculo musical no Teatro Princesa Isabel, Rio de Janeiro. A estrela era a cantora Claudette Soares, dona de voz delicada, sensual e de belo timbre. A moça estava então no auge da carreira. O coadjuvante era o iniciante Taiguara, e o Jongo Trio garantia o acompanhamento.

Um punhado de músicas de autoria de gente da pesada compunha o espetáculo. Baden Powell, Vinícius de Morais, Billy Blanco, Ronaldo Boscoli, Marcos Valle, Tom Jobim, Dolores Duran, Roberto Menescal, Francis Hime, Carlos Lyra estavam representados. Uma garantia de sucesso!

Na onda do tricampeonato, que parecia ao alcance da mão, os produtores encontraram nome esperançoso: Primeiro Tempo: 5 x 0. Haja confiança!

Desgraçadamente, o time brasileiro acabou dando inesperado vexame naquela copa. Não tendo nem passado da primeira fase, os jogadores voltaram pra casa desenxabidos.

Primeiro tempo 5 x 0Sem imaginar, os produtores estavam profetizando. Os inacreditáveis cinco a zero no primeiro tempo viriam um dia, sim, senhor. Não exatamente como imaginaram os autores do espetáculo.

Aconteceu, como sabem os distintos leitores, dia 8 julho 2014 no Mineirão. Naquela partida entre Brasil e Alemanha, o primeiro tempo se encerrou, de fato, com cinco a zero no placar. Para desencanto dos torcedores, não fomos ’nós’ a ganhar, mas ‘eles’.

Apesar do fracasso da Seleção em 1966, o espetáculo musical ficou três anos em cartaz, o que é considerado sucesso grande. Já a realidade do 7 x 1 periga ficar gravada na memória nacional por muito mais tempo.

Como já ensinava o Conselheiro Acácio, profetizar é muito arriscado. Principalmente quando se prevê o futuro.

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Para quem tiver curiosidade e tempo, o som do espetáculo de 1966 está no youtube. São 48 minutos. Aqui.

Para quem tiver curiosidade mas pouco tempo, a voz do dueto Claudette Soares/Dick Farney, em belíssima composição de Baden Powell, também está registrada. São três minutos e meio. Aqui.

Façam de conta que não estou aqui

José Horta Manzano

Cameron 1Nas sociedades pequenas e nas tribos, o chefe reúne todos os membros, sobe numa pedra ou num pedestal qualquer, e fala a seu povo. Olha todos de frente, dirige-lhes a palavra, dá as instruções, distribui eventuais elogios ou admoestações. E, em certas ocasiões, recebe apupos ‒ faz parte dos riscos do ofício.

Com o crescimento das sociedades, reunir todos os componentes foi-se tornando problemático. O chefe viu-se obrigado a viajar para dirigir-se a pequenos grupos em cada parada.

Putin 1Cem anos atrás, a popularização do rádio esboçou a solução. A voz, ouvida em receptores e amplificada por alto-falantes, compensava a ausência física do personagem. De Winston Churchill a Getúlio Vargas, de Josef Stalin a Juan Domingo Perón, todos os grandes dirigentes recorreram ao rádio para falar ao povo.

O advento da televisão melhorou o grau de comunicação. Além da voz, a imagem do chefe passou a chegar a cada cidadão. É como se o personagem estivesse ali, na sua frente, numa conversa entre quatro olhos.

Merkel 2Faz meio século que todos os chefes de Estado ou de governo entenderam o alcance da palavra oral associada à imagem. Garante a presença e pode operar milagres. Fotos e vídeos circulam diariamente, mas não são eles a impressionar. Há momentos simbólicos em que pronunciamento solene se impõe. O período das festas de fim de ano é um deles.

Valendo-se da ocasião, os principais dirigentes do planeta falaram a seus eleitores. Olho no olho, prestaram contas do ano que se termina e esboçaram as perspectivas para o que entra.

Hollande 4No Reino Unido, David Cameron fixou o olho na câmera e dirigiu-se a cada britânico. O mesmo fez Vladimir Putin na Rússia. Direto de Berlim, Angela Merkel seguiu o mesmo caminho. De Paris, François Hollande também deu seu show televisivo. Matteo Renzi, chefe do governo italiano, foi mais longe: convocou coletiva de imprensa. O fundo da verdade é que nenhum deles deixou passar a ocasião de mostrar quem é o capitão do navio.

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Enquanto isso, no Brasil…
Ah, já vão longe os tempos do «Trabalhadoooores do Brasil!» radiofônico do velho Getúlio. Por medo de panelaço ou de tropeços na elocução, nossa chefe-mor não apareceu na tevê. Nem mesmo o rádio transmitiu sua voz. A dirigenta limitou-se a assinar um texto escrito sabe-se lá por quem. Está no site do Planalto.

Patria Educadora 1Vivemos num país onde o slogan «Pátria Educadora» ainda não se transformou em realidade. Há, entre nós, milhões de semiletrados incapazes de compreender fala formal ‒ muito menos se for escrita. Nossa sociedade vegeta imantada pela imagem televisiva. Ao deixar publicar em seu nome longo texto de 2 páginas, 5665 toques e 876 palavras, a intenção da presidente ficou clara: «Me esqueçam! Façam de conta que não existo!»

No fundo, tem razão dona Dilma. Quando nada se tem a dizer, mais vale recolher-se à própria insignificância.

Annus horribilis

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 2 jan° 2016

Em discurso pronunciado por ocasião das celebrações de seus quarenta anos de reinado, Elizabeth II, com ar sinceramente compungido, qualificou o ano que corria, 1992, como «annus horribilis». A expressão pescada no latim contrapunha-se a «annus mirabilis» ‒ ano maravilhoso ‒, título de notável poema escrito trezentos anos antes por conterrâneo seu.

Elizabeth II 1Tinha razão a rainha. Coisas nunca dantes vistas naquele país tinham sobrecarregado o ano e abalado a monarquia. Divórcios no seio da real família, escândalos mercadejados pela imprensa, querelas palacianas expostas à luz do dia e até um ruinoso incêndio numa de suas residências tinham-lhe anuviado o horizonte.

Bola cristal 1Mas tudo é relativo. Acontecimentos valem dentro do contexto em que ocorrem. Se a rainha fosse daquelas de conto de fadas, com poder de enxergar o futuro em bola de cristal ‒ e se tivesse pressentido o sufoco que o ano de 2015 estava reservando para o Brasil ‒, teria classificado seu 1992 como mero «annus placidus».

Para nós, que não temos reis nem castelos, os engasgos do ano que acaba de expirar foram desesperadores. Não se passou semana sem novo escândalo. E dizem que isso foi só aperitivo. Sabe Deus o que vem por aí!

Em meio a tamanha atribulação, poucos se lembraram de que, neste primeiro de janeiro, entrou oficialmente em vigor a grafia imposta pelo AO 90 ‒ aquele acordo ortográfico engendrado e firmado faz mais de um quarto de século. Apreciadas por alguns, execradas por muitos, as novas regras são agora norma oficial. Ai de quem ousar afrontar a lei! Manda quem pode, obedece quem tem juízo.

AO 90 1Pessoalmente, tenho duas objeções. São estéreis, visto que o que foi decidido, decidido está. Assim mesmo, quero deixá-las aqui consignadas como derradeiro desabafo. Isso feito, não se volta mais ao assunto, pelo menos até a próxima alteração das regras.

Minha primeira bronca é com a dança dos hífens. Onde antes havia certezas, hoje sou obrigado a conferir no dicionário a grafia de cada palavra composta. Os arquitetos do acordo perderam excelente ocasião para eliminar de vez o fugaz e irritante tracinho.

O segundo dissabor que o AO 90 me causou foi o banimento do trema, aqueles dois simpáticos pontinhos que, além de ser úteis, conferiam ar chique e internacional à nossa escrita ao aproximá-la do alemão, do francês, do espanhol e até do sueco.Quinquelingue Torcendo pra que o revisor deixe passar, ouso escrever, pela última vez, aquela que creio ser a única palavra que levava três tremas: qüinqüelíngüe. Não era um charme? Abrigada sob para-sol de seis pontinhos, essa preciosidade designa um poliglota versado em cinco idiomas. O acordo ortográfico, de certa maneira, acentuou a insegurança linguística de que sofremos todos. Fazer o quê?

Como contrapeso, os acontecimentos do ano de 2015 enriqueceram nosso vocabulário. Fatos tão extraordinários ocorreram que jornalistas, analistas e comentaristas foram impelidos a vasculhar fundos de baú à cata de palavras para descrevê-los. Termos que cochilavam foram desempoeirados e trazidos à luz do dia.

Desatino, desvario, bulha, impudência, banzé, desacerto, conspurcação, devaneio foram ressuscitados. Aprendemos que tanto é lícito agir diuturna como noturnamente ‒ um achado! A tragédia de Mariana, aquele mar de lama que, no sentido figurado, tinha forçado o velho Getúlio Vargas a entrar para a história ressurgiu como realidade palpável, mortífera, surreal.

Bicicleta 10Não há hoje um brasileiro medianamente instruído que não saiba o que vem a ser crime de responsabilidade ‒ conceito obscuro até um ano atrás. Outra conquista da língua popular foi a sutil diferença entre desenvolvimentismo e populismo. A nuance ainda não está muito clara, mas logo logo vamos descobrir. (Se é que diferença existe, naturalmente.) Outro ganho vocabular foi a descoberta de que pedaladas não se restringem ao universo do ciclismo.

Fato extraordinário: «Verba volant, scripta manent», máxima latina pra lá de sofisticada, entrou para o vocabulário comum. Uma vitória! Por seu lado, captamos a diferença entre o mandato que se cassa e o mandado que caça, especialmente se for mandado de prisão.

Museu 1No finzinho de um ano generoso para nossa língua, porém, uma nota de tristeza: o incêndio do Museu da Língua Portuguesa. Foi sinal a insinuar que língua, como todo organismo vivo, não merece ser encerrada em gaiola nem em museu. Mais vale desenjaulá-la e deixá-la propagar-se firme, forte, livre e solta.

Que 2016 seja um «annus laetus et faustus» ‒ alegre e venturoso. Sorte a todos! Precisamos.

Aeroporto sem trem

José Horta Manzano

Avião 7A cada vez que penso nos bilhões rapinados da Petrobrás e do erário, imagino o que poderia ter sido feito com esse patrimônio caso não tivesse ido parar no bolso dos cangaceiros que nos governam.

Intuitivamente, a gente se lembra dos mais precisados ‒ hospitais e escolas em primeiro lugar. Mas falta dinheiro por toda parte. Uma sociedade tem muitas facetas e todas elas demandam atenção e cuidado. Não é aceitável que governantes não cuidem de cada uma.

AviaoO maior aeroporto do país fica em Guarulhos (SP). Tem nome de gente, mas praticamente ninguém usa: foi sempre chamado de Guarulhos e assim continuará. Além de turistas, por ali transitam homens de negócios, investidores, visitantes ilustres, todos aqueles a quem gostaríamos de dar boa impressão de nosso castigado país. Como se sabe, não há segunda chance de dar uma primeira impressão.

Pra quem chega, a realidade, logo de cara, é um choque: o aeroporto não está conectado com a metrópole por estrada de ferro. Nem metrô nem trem expresso nem bonde. Nada. A única solução para transpor os 30km até o centro é a estrada de rodagem. De carro, de ônibus, de caminhão ou de moto, tráfego pesado e eventuais enchentes terão de ser enfrentadas.

Aeroporto esteiraFosse o aeroporto recém-inaugurado, já seria surpreendente que não se tivesse pensado em construir ligação férrea ao mesmo tempo em que se instalava o terminal aéreo. Visto que foi inaugurado 30 atrás, a ausência de transporte rápido e confiável foge à compreensão de todo forasteiro.

Avião 6Em 2014, o Aeroporto de Guarulhos ficou em 30° lugar em número de passageiros. Não é pouca coisa. Nos 29 primeiros lugares, estão 12 aeroportos americanos, 4 chineses e os inevitáveis Frankfurt, Paris, Londres, Amsterdam, Tóquio.

Por Guarulhos transitam mais passageiros do que por campos de aviação importantes como Munique, Sydney, Roma, Barcelona, Toronto, Zurique, Milão, Lisboa, Copenhague. A estação aérea paulista é de longe a mais importante da América Latina. O segundo classificado, o da Cidade do México, fica em longínqua 48ª posição.

Faz 30 anos que, episodicamente, se fala vagamente em interligar o terminal com o centro da cidade. Embora, vez por outra, o assunto volte à tona, não passou, por enquanto, de conversa fiada. Os maiores aeroportos do mundo são conectados por meio confiável à metrópole mais próxima. Por que fazemos questão de continuar sendo a exceção?

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PS: O governo paulista acaba de anunciar que, pela enésima vez, fica paralisada a construção da interligação da rede de metrô ao Aeroporto de Congonhas, campo de pouso urbano.

Aeroporto Congonhas 1O aeroporto foi inaugurado em 1936, em sítio então desabitado e afastado do centro. A cidade cresceu e envolveu o campo de aviação. Contruiu-se o metrô. A primeira linha do metropolitano ‒ que passa a 1,5km do Aeroporto de Congonhas ‒ opera desde 1974. Nesses quarenta anos, as autoridades que nos governam foram incapazes de completar esse quilômetro e meio que falta. Contando, assim, parece brincadeira, coisa de filme cômico, não?

É verdade que o atual governo federal é mastodonticamente incompetente. Mas ‒ há que dizê-lo ‒ a incapacidade administrativa e o descaso com a coisa pública vêm de longe e estão incrustados na alma nacional.

Quando a euforia é muita, o MP deveria desconfiar

José Horta Manzano

O instantâneo, registrado por Pedro Ladeira em 1° fev° 2015, fixa o momento em que senhor Eduardo Cunha foi eleito, em primeiro turno, ao posto de presidente da Câmara.

2015-1227-01 FolhaÉ possível que o retrato original seja maior e que tenha sido recortado pela Folha de São Paulo para focar no personagem central. Se assim for, numerosas carinhas sorridentes hão de ter sido cortadas.

Ilhas Cayman

Ilhas Cayman

Sabe-se hoje que senhor Cunha atuou mais em benefício próprio do que em proveito do povo que o elegeu. Sabe-se hoje que senhor Cunha é acusado ‒ com abundância de provas divulgadas pela imprensa ‒ de ter encafuado, em paraísos fiscais, milhões de dólares havidos ilicitamente. Sabe-se hoje que senhor Cunha, brindado pela natureza com temperamento violento e imprevisível, não é lá flor que se cheire.

Isso posto, fica a pergunta: o que é que leva aqueles personagens todos, no instantâneo de fevereiro, a exibir tanta euforia, tanta exaltação, tanto júbilo, tanta paixão no momento da eleição do novo presidente da Câmara? Amor puro é que não é.

Ilhas Cayman

Ilhas Cayman

A não ser quem tira a sorte grande na loteria, ninguém ri à toa. Todos riem com razão. Que motivo terá levado tão distintos parlamentares a explodir em desavergonhada e sonora gargalhada?

Fica aqui a sugestão ao Ministério Público: que requisite a foto original com todos os personagens e que investigue, em toda discrição, se algum dos alvoroçados não teria ‒ por descuido ou aleivosia ‒ omitido de declarar haveres, propriedades, barras de ouro ou toda participação em negócio homiziado em paraíso fiscal. Nas Ilhas Cayman(*) por exemplo.

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(*) Já foi assinado, em 19 março 2013, acordo de colaboração entre o governo brasileiro e o das Ilhas Cayman, conhecido paraíso fiscal. O pacto regulamenta a troca de informações em matéria financeiro-tributária. É poderoso instrumento para facilitar a descoberta de tesouros dissimulados. Vale a pena investigar, não?

De política e de pastel

José Horta Manzano

Remo 2Estava lendo no Le Monde, diário francês de referência, artigo sobre nosso novo ministro da Fazenda. Bem-humorado, o articulista diz que o recém-empossado figurão foi campeão de remo na juventude, mas que por enquanto, no ministério… está remando.

Mas não é desse senhor que eu queria falar. De qualquer maneira, após tantos anos de gestão calamitosa e inconsequente, nem com varinha mágica seria possível consertar da noite pro dia. Quem estiver esperando que as coisas entrem logo nos eixos pode ir tirando o cavalo da chuva ‒ como dizem nossos amigos gaúchos.

Queria contar a vocês uma curiosidade. Cada um enxerga o mundo segundo os próprios parâmetros, é natural. Nos países europeus, parlamentos se dividem entre os eleitos de esquerda e os de direita. Até uma ou duas décadas atrás, o ideário de cada ala era bastante diferente.

Proletários de todos os países, uni-vos!

Proletários de todos os países, uni-vos!

Depois do desmanche do bloco socialista e da incontestável constatação de que o paraíso do proletariado não passava de lorota, as coisas começaram a mudar. A visão de mundo de esquerdistas e direitistas convergiu a ponto de ser hoje muito difícil  apontar diferenças significativas. Cada uma das duas correntes de pensamento deu um passo em direção à outra.

Desencantados com experiências fracassadas, os socialistas (os «de esquerda») já não preconizam intervenção do Estado em todos os meandros da sociedade. Por seu lado, assustados com o liberalismo excessivo que levou ao baque econômico de 2008, os «de direita» já reconhecem a necessidade de uma certa dose de regulação por parte do Estado.

Falar em esquerda e direita faz menos sentido a cada dia que passa. Assim mesmo, clichês têm vida longa. Na Europa, jornalistas e analistas ainda fazem questão de colar uma etiqueta na testa de mandatários e de partidos. A força do hábito faz que apliquem automaticamente os mesmos parâmetros a políticos e à política de países longínquos.

Remo 1O artigo que mencionei apresenta Madame Roussef como presidente «de esquerda». Na visão de um europeu, Evo da Bolívia, Maduro da Venezuela, os bondosos irmãos Castro de Cuba, Rafael Correa do Equador são classificados como políticos «de esquerda». Por seu lado, Michèle Bachelet do Chile, Mauricio Macri da Argentina, Horacio Cartes do Paraguai são «de direita».

Não compartilho dessa percepção. A linha divisória entre campos políticos na América Latina não passa entre esquerda e direita. Dizer que nossos mandachuvas se dividem entre sérios e populistas estaria mais próximo da verdade. Os europeus têm enorme dificuldade em se dar conta disso.

Pastel 1Os sérios podem ser partidários de maior ou menor intervenção do Estado ‒ não é essa a marca que os distingue dos outros. O mesmo vale para os populistas. A diferença mais marcante entre eles é que os sérios, que se tornaram mercadoria rara, vendem pastel com recheio. Já os populistas ‒ que, no Brasil, ocupam o topo da pirâmide há vários anos ‒ vendem pastel de vento.

Do futuro, ninguém sabe

José Horta Manzano

Cabeçalho 4Boas surpresas podem surgir de onde menos se espera. Não é corriqueiro, mas acontece. Quando o Lula indicou, para ocupar uma poltrona no Supremo Tribunal Federal, o senhor Dias Toffoli(*), a decisão levantou um bruaá dos diabos. Foi em 2009.

Tirando os admiradores mais entusiastas de nosso guia, a escolha foi recebida com cautela e desconfiança. Desconhecido, jovem demais, antigo advogado do PT, reprovado em exame para a magistratura, alvo de processo por fraude em licitação ‒ foram as acusações que sobressaíram.

É verdade que o moço não se encaixava no perfil do ministro ideal. No entanto, a pouca idade, que parecia fator agravante, dá indícios de se estar transformando em elemento positivo. ‘A adolescência é defeito que os anos corrigem’, como diz o outro.

Dias Toffoli 1Fidelidade e gratidão são propriedades com prazo de vencimento. O fato de ter sido nomeado por este ou por aquele não é, em si, garantia de obediência nem de reverência eterna. A história está cheia de exemplos de criaturas que, com o tempo, se emanciparam do criador. É compreensível. A natureza determina que seja assim, desde animais primitivos até animais políticos.

Contrariando a bolsa de apostas, senhor Toffoli posicionou-se contra os interesses do governo na votação da semana passada sobre rito de destituição de dona Dilma. Alguns dias depois, em entrevista ao Estadão, o ministro pronunciou a frase que pus lá em cima, no cabeçalho. Foi pronunciamento sensato, uma entrevista que vale a pena ler.

Parece que, apesar do histórico pouco promissor, o rapaz esteja conseguindo se distanciar da ideologia primária e ultrapassada do PT. As declarações que deu na entrevista são animadoras. Mostram que o fato de ter chegado jovem ao Supremo pode ter sido uma vantagem: sua visão de mundo ainda não estava cristalizada.

No meio da escuridão em que está mergulhado o andar de cima, qualquer indício de lucidez é bem-vindo. Qualquer voz que se alevante para preconizar voto distrital e cláusula de barreira terá meu apoio. Ainda que venha de antigo advogado do PT.

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(*) Curiosidade etimológica
O sobrenome italiano Toffoli é frequente na região do Veneto, principalmente nas províncias de Veneza, Pordenone e Treviso. Provém de uma alteração ‒ que os linguistas chamam aférese ‒ do nome de origem grega Christopholus (=Cristóvão). O caminho é: Christopholus → Christopholi → Cristoffoli → Toffoli.