Drones

José Horta Manzano

Drone militar

Drone militar

A palavra inglesa drone designa a abelha-macho. Embora usemos raramente, temos, em nossa língua, tradução exata: zângão. No mundo das abelhas, o macho não trabalha e não produz mel. Serve apenas para reprodução.

Por metáfora, costuma-se tratar pejorativamente de zângão (ou zangão ou ainda zângano) todo indivíduo encostado, que vive à custa de outrem. A palavra nos vem do castelhano. Parece ser de formação expressiva ‒ uma imitação do ruído do inseto.

A língua inglesa distingue entre drone (aparelho militar) e UAV (por Unmanned Aerial Vehicle), destinado a uso civil. Drones são de uso privativo do exército e da polícia. UAVs são utilizados na cinematografia, na agricultura, na televisão. Nós não chegamos a essa sutileza. Chamamos drone a todos esses aparelhos, pouco importando que carreguem bombas ou câmeras.

Drone 1Os primeiros objetos voadores desse gênero apareceram no final da Segunda Guerra. Desde o começo, devido ao zumbido que emitiam, receberam o apelido que conservam até hoje.

No Brasil, seu uso ainda não está regulamentado. Em decorrência, não se conhece nem mesmo o número exato de aparelhos em serviço. Há quem estime em doze mil engenhocas. É uma falha ameaçadora. Nossas autoridades não deviam esperar que uma catástrofe aconteça para regulamentar.

O jornal O Globo informa que, para preencher o vácuo legal e para garantir um mínimo de segurança durante os Jogos Olímpicos deste ano, a Aeronáutica proibiu o uso de drones «no espaço aéreo». É muito pouco e muito vago. Regras têm de ser claras e exaustivas. Há que estipular quem pode e quem não pode pilotar, que organismo confere a habilitação, que qualificações o candidato tem de demonstrar para conseguir o brevê, como e onde registrar o objeto.

Drone civil

Drone civil

Drones, ainda que desarmados, representam risco. Mal pilotados, podem chocar-se com veículos em movimento, invadir residências. Podem até levar um helicóptero à queda.

A Anac promete regras até agosto, mês das Olimpiadas. Até lá, é aconselhável usar chapéu de couro. Nunca se sabe se um besourinho metálico vai resolver despencar sobre algum cocuruto.

Os aviõezinhos

José Horta Manzano0-Sigismeno 1

Sigismeno se interessa por assuntos de aviação, veja você! Quando pode, ele gosta de dar uma vista-d’olhos em notícias de avião e de aeronáutica.

Passeando pelo portal Flightglobal, referência em matéria de artefatos voadores, deu com um artigo sobre os caças encomendados por nossas Forças Aéreas à firma sueca Gripen.

A informação é pra lá de surpreendente. Todos tínhamos ficado sabendo que a encomenda brasileira era de 36 aparelhos. Pois parece que a quantidade já não é mais aquela. Um misterioso «representante» das Forças Armadas, cuja entidade não foi revelada, informa que a compra será triplicada. Em vez de 36 aviões, a Aeronáutica quer adquirir 108 aparelhos. Cento e oito! Dá exatamente três vezes a quantidade inicial.

Caça Gripen - foto Saab

Caça Gripen – foto Saab

Quando uma novidade dessa magnitude é espalhada à boca pequena, meio envergonhada, é bom desconfiar. A grande mídia brasileira não noticiou. É muitíssimo suspeito que decisão de gasto de 17.4 bilhões de dólares (quase 45 bilhões de reais!) seja tomada assim, nos bastidores, sem que ninguém dê um pio.

Sigismeno, que é meio bobão mas não chega a ser idiota total, ficou com a pulga atrás da orelha. Achou que era muito dinheiro e, pior que isso, percebeu que a notícia chegava em hora imprópria. Com esses desfalques à Petrobrás pipocando a cada dia, a informação de que quase 50 bilhões de reais vão ser gastos com aviões de combate cai particularmente mal.

Avião 10Esquisitice por esquisitice, Sigismeno constatou que essa história dos caças já começou torta. O Lula, presidente na época, anunciou que ia comprar Rafales franceses. Depois, deixou o dito pelo não dito, enfiou o rabo no meio das pernas, voltou aos palanques e esqueceu o assunto. Sobrou para a sucessora.

Depois de quase quatro anos de vai não vai, a pupila decidiu finalmente bater o martelo. Contrariando o que o padrinho havia garantido, firmou compromisso com a sueca Gripen. Seriam 36 aviões. Como é possível que, em momento tão delicado, os 36 se possam ter transformado em 108?

Avião 6Sigismeno tem sua ideia. Ele soube das recentes passeatas em que parte da população, sentindo-se frustrada com o que acontece no andar de cima, começa a clamar pela volta dos militares ao comando da nação. Interpretou esse aumento nas despesas militares como um afago, uma “bondade” para com os quartéis. Entendeu que o governo, desnorteado e atazanado, trata de acalmar as casernas.

É como se o Planalto dissesse: «Fiquem por aí, amigos uniformizados. Guardem seus tanques e não saiam às ruas. Não fica bem humilhá-los oferecendo malas de dinheiro, mas tomem estes aviõezinhos e façam deles bom uso. Se quiserem, podemos até comprar mais alguns, que dinheiro é o que não falta. Mas, por favor, deixem-nos em paz.»

Na falta de explicação mais convincente, estou inclinado a acreditar que meu amigo pode até ter razão. Esse Sigismeno tem cada uma…