Santo de casa

José Horta Manzano

Você sabia?

Chegou até aqui o eco de um auê gerado por mudanças curriculares cozinhadas pelo Ministério da Educação. Se entendi bem, o ensino da História, já massacrado, será definitivamente torpedeado.

Diminuindo a ênfase do estudo da Idade Média, do Renascimento, do Iluminismo ‒ períodos e movimentos indispensáveis para entender nossa cultura ‒, atenção especial deverá ser dada à História da África.

Por definição, a História começa quando determinado grupo humano alcança a capacidade de deixar registro dos acontecimentos. Pouco importa o suporte: tabuinhas de argila, papirus, papel, disco rígido servem. Enquanto a transmissão for apenas oral, não se fala em história, mas em pré-história.

Cabo BojadorNa alta antiguidade, os únicos habitantes da África a deixar registro foram os egípcios do tempo dos faraós e seus vizinhos imediatos, a leste e a oeste. Os povos da África subsaariana desconheciam a escrita. Os primeiros registros sobre aquela região só começaram a aparecer depois que o português Gil Eanes dobrou o Cabo Bojador, em 1434. Conclui-se que o currículo dos brasileirinhos vai focar na pré-história da África Negra. É surpreendente.

Imagino e espero que esse atentado contra o ensino da História não passe de boato ou de intriga da oposição. Recuso-me a acreditar que o Brasil se esforce, de propósito, por apagar o passado. Se bem que… o esquecimento do passado faz parte do caráter nacional. Quer ver?

Vou propor-lhe uma adivinhação. O inventor do rádio era:

Interligne vertical 12□  alemão
□  americano
□  italiano
□  brasileiro

Radio 4Se você respondeu alemão, deve ter-se lembrado do físico Heinrich Hertz. Não foi ele.

Se você respondeu americano, talvez seja porque o nome de Thomas Edison lhe tenha vindo à cabeça. Tampouco foi ele.

Caso você tenha respondido italiano, não passou longe. Certamente lembrou-se de Guglielmo Marconi, o inventor da telegrafia sem fio. Mas rádio é outra coisa. Não foi Marconi.

Pois fique o distinto leitor sabendo que a radiodifusão é invenção de um brasileiro. Sim, senhor. Na virada do século XIX para o século XX, o padre gaúcho Roberto Landell de Moura fez as primeiras demonstrações públicas de transmissão radiofônica. Um espanto! E olhe que não foi numa praia deserta diante de três gatos pingados, como aquele voo dos irmãos Wright. A demonstração foi pública, em plena cidade de São Paulo, diante de cientistas e figurões.

Padre Landell de Moura

Padre Landell de Moura

Por razões difíceis de explicar, a invenção de Landell foi sepultada pela poeira da História. Apesar das provas, dos testemunhos, das patentes depositadas, o inventor foi ignorado. Santo de casa não costuma fazer milagres.

Para conseguir a inclusão da saga do gaúcho genial na grade curricular, o Portal dos Jornalistas lançou uma petição. Se você estiver de acordo e quiser apoiar, basta clicar aqui e seguir as instruções. Quanto mais gente assinar, mais chances teremos de resgatar feitos e gestos do sagaz e injustiçado inventor.

Não vai lhe custar nada nem vai inocular vírus no seu aparelho. As gerações futuras hão de agradecer-lhe pela atenção.

História e cultura da África

José Horta Manzano

Quem já não esboçou um sorriso ao ouvir a velha frase «Brasil, capital Buenos Aires»? É como a gente zombava do desconhecimento quase total que estrangeiros tinham do Brasil.

Hoje já é folclore. Pessoalmente, nunca pilhei ninguém trocando Brasília por Buenos Aires. Mais comum ― embora as coisas venham mudando lentamente estes últimos 20 anos ― era a crença de que nossa língua era o espanhol. Muitos, no exterior, ainda imaginam que assim seja. A maioria, no entanto, já se deu conta de que falamos uma outra língua, derivada do português, aqui na Europa geralmente chamada de brasileiro.

No Brasil destes últimos tempos, tornou-se politicamente correto ― obrigatório, eu diria ― classificar nossa população em raças. Ooops, corrijo-me. Falar em raças é um exagero. Nossa população está sendo forçada a se separar em duas facções. De um lado, brancos, orientais e mulatos muito claros. De outro, pretos, mulatos escuros, índios, e qualquer indivíduo visivelmente mestiço. Meus leitores são gente esclarecida. Mas não se pode dizer o mesmo do grosso da população de Pindorama. A grande massa silenciosa certamente não se está dando conta do balaio de gatos que estamos tecendo.

África ― principais famílias linguísticas

África ― principais famílias linguísticas

Muitos países, especialmente aqueles que têm problemas pesados provocados pela convivência forçada de raças, etnias ou religiões diferentes, sempre nos invejaram. Podiam até não saber distinguir entre Brasília e Buenos Aires, mas sempre acreditaram que o Brasil era um país tolerante, sem conflitos raciais, sem briga com vizinhos, sem tensões religiosas. E era mesmo.

Não estou perto de me conformar com o estrago que os atuais ocupantes dos cargos de mando estão causando a nosso País. Posso até acreditar que haja uma dose de boa intenção na cabeça de alguns. Se bem que… tendo mais a crer que essas medidas proativas sejam fruto de meros cálculos eleitoreiros. Enfim seja lá qual for a razão, estamos inventando um problema novo, artificial. Dá muita pena. Já temos dores de cabeça suficientes. Não faz falta fabricar pontos de conflito entre categorias de habitantes.

Toda clivagem é potencial fonte de atritos. Zelite e povão, politicos e eleitores, «nós» e «eles», patrões e empregados, citadinos e camponeses, com-teto e sem-teto, automobilistas e pedestres, empregados e desempregados, trabalhadores com carteira assinada e trabalhadores sem carteira assinada, assalariados e autônomos, cristãos tradicionais e neopentecostais, com-terra e sem-terra. Já temos antagonismos suficientes, não fazia falta criar mais um.

Era só o que faltava: o Brasil tornar-se um país cujos cidadãos se distinguem uns dos outros por critérios raciais… O fim do mundo deve estar próximo.

Li nos jornais que o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) ― excelente iniciativa que não existia no meu tempo, diga-se de passagem ― incluiu um número elevado de perguntas sobre a história e a cultura da África.

Não quero entrar aqui na polêmica sobre se o número de questões é baixo, médio ou alto. O que me atrapalha é outra coisa. As autoridades brasileiras encarregadas da Instrução Pública parecem estar seguindo o mesmo caminho que desorienta europeus e americanos. Não faz sentido falar em «cultura da África».

África ― religiões principais

África ― religiões principais

O continente africano conta com superfície quase 4 vezes superior à do Brasil, é povoado por mais de um bilhão (yes!) de habitantes, distribuídos por 52 países independentes. Entre línguas e dialetos, mais de 2000 falares são recenseados no continente. As diferenças culturais e religiosas são muito acentuadas. Há árabes e tuaregues maometanos. Há pretos maometanos também. Há egípcios cristãos, assim como há pretos cristãos. Há negros animistas e há brancos protestantes. Há pretos evangélicos. Em alguns países se fala árabe. Em outros, o francês o inglês ou o português é língua oficial ― o que não impede que seus habitantes utilizem dezenas de línguas diferentes. A África do Sul, sozinha, tem 11 línguas oficiais!

«Cultura da África» é expressão redutora. Seria como pretender contar a «História da Ásia». Não faz sentido. Desconfio que a intenção das autoridades brasileiras encarregadas da Educação Pública não seja exatamente ensinar geopolítica nem História a nossos jovens. Eu não duvido que, por detrás dessa bondade, se esconda um cálculo indecente de fidelização de eleitores pelo viés da valorização do orgulho racial.

É claro que posso me enganar. Mas seria mais prudente não brincar com fogo.