De esquerda ou de direita?

José Horta Manzano

O Oriente Médio é prova de fogo pra qualquer aventureiro. É uma corda estendida à altura do tornozelo, pronta a jogar ao chão qualquer político forasteiro que ouse arriscar-se a tomar posição ou simplesmente emitir opinião sobre as desavenças locais. Não há como escapar: se se agrada a um lado, desagrada-se ao outro. O melhor mesmo é ser cortês com todos e evitar tomar partido. Em público, pelo menos.

Nesse particular, dois dos mais recentes presidentes de nossa República foram particularmente infelizes. Com jeitão presunçoso de quem diz «deixa, que o papai aqui resolve», Lula da Silva causou um estrago na imagem de relativa neutralidade que o Brasil mantinha até então em assuntos médio-orientais. Ao tentar resolver, à valentona, o conflito milenar, trocou os pés pelas mãos e foi expulso do ringue. Tendo forçado a porta da frente, acabou atirado pela janela dos fundos. E não resolveu nadinha.

Vai, agora, doutor Bolsonaro… e repete a dose. Sua intervenção foi menos presunçosa que a do antecessor, é verdade, mas deixou patente sua constrangedora ingenuidade e sua absoluta falta de traquejo em assuntos internacionais. Tendo em linha de mira o naco neopentecostal de seu eleitorado, houve por bem tomar abertamente partido por um dos contendores no conflito da região. Naturalmente, despertou a ira do outro litigante, que, por acaso, é um dos principais clientes do agronegócio brasileiro. Uma temeridade.

Uma desgraça não costuma vir sozinha. Doutor Araújo, aquele que usa barba de djihadista e exerce as funções de ministro das Relações Exteriores, declarou a repórteres que o nazismo era um movimento de esquerda. Dado que o moço já tem pronunciado babozeiras, os jornalistas correram pra doutor Bolsonaro pra perguntar-lhe o que achava da declaração. Decepcionou-se quem esperava ver o chefe dando um puxão de orelhas no pupilo desgarrado.

O presidente mostrou que seu raciocínio lógico continua estacionado ao nível da escola primária. Lembrou a todos que o partido nazista se chamava Partido Nacional Socialista, pois não? «Portanto, se era socialista, era de esquerda.» Elementar, meu caro Watson! Ai, ai, ai, que vergonha, minha gente! Se o Lula tinha escancarado ao mundo a ousadia dos ingênuos, doutor Bolsonaro acrescentou nova nuance: a firmeza de convicção que só aos ignorantes é permitida.

Não preciso dizer que, se a mídia internacional tinha deixado passar a declaração do ministro barbudo, deitou e rolou em cima da cândida confirmação do presidente. Deu em todos os jornais. Se estivesse faltando comprovação, ela aqui está: a ignorância não é de esquerda nem de direita ‒ é universal.

Olhar vesgo

José Horta Manzano

Não sei quem está mais próximo do desespero, se a mídia nacional ligada ao PT ou a mídia internacional em bloco. Enquanto, no Brasil, veículos próximos ao lulopetismo estão em estado de agitação, no exterior todos os veículos parecem em estado de convulsão, pouco importando em que bordo político estejam ancorados.

Os artigos e as análises são diários. Jornais, rádios de informação, tevês, portais ‒ todos se mostram horrorizados com a perspectiva de a malvada extrema direita tropical suplantar a bondosa esquerda, tão preocupada com o bem-estar dos desvalidos. (Mas tão empenhada em roubar o dinheiro desses mesmos desvalidos ‒ detalhe que passa em silêncio.) Falas e escritos vêm por atacado.

A rádio Europe 1, emissora francesa, no jornal falado e no portal, mandou ao ar: «Brasil, há urgência: a esquerda continua com dificuldade na mobilização contra Jair Bolsonaro».

Por seu lado, a oficial Rádio França Internacional dá destaque, no portal internet, ao fechamento ordenado pela Justiça de dezenas de páginas de apoio a doutor Bolsonaro. Assim mesmo, concede que se trata do “provável futuro presidente do Brasil”.

O sisudo primeiro canal da televisão pública alemã lança ao ar uma pergunta inquietante: “Com fake news rumo à vitória?”

Já o quoditiano austríaco Wiener Zeitung aborda uma outra faceta da inquietação internacional. O artigo que discorre sobre os eleitores de doutor Bolsonaro leva o título “Brasil a caminho de se tornar estado religioso”. Note-se que esse receio não costuma estar presente no argumentário de analistas tupiniquins.

O alemão Westfälische Rundschau trata Ronaldinho Gaúcho e Rivaldo como ETs. Em alentado artigo, procura explicar a seus incrédulos leitores as razões pelas quais os craques apoiam o capitão reformado.

Jornal suíço Le Matin

Até o quotidiano suíço Le Matin dá contribuição ao alvoroço. Em artigo intitulado “ Os desafios da eleição presidencial no Brasil”, o site do jornal mostra vídeo de um minuto com cenas de rua de nossa campanha eleitoral acompanhadas de informações em sobreimpressão. A uma certa altura, mostram meia dúzia de gatos pingados empunhando cartazes sob a legenda: “Em Genebra, os brasileiros da Suíça protestaram contra Bolsonaro”. (A palavra ‘protestaram’ vem em letras vermelhas.)

Só que tem uma coisa. No primeiro turno, 3077 eleitores compareceram às urnas instaladas na cidade suíça. Nada menos que 51,2% escolheram doutor Bolsonaro. Doutor Haddad não ficou senão em terceiro lugar, atrás de Ciro Gomes, com apenas 12,4% dos votos. Dependesse de Genebra, o capitão já estaria eleito. É curioso ver a imprensa dar mais importância aos protestos ‒ que podiam até estar sendo organizados pela militância paga ‒ do que ao voto secreto, que é a palavra final dos eleitores. Curioso.

A imagem do Quixote

José Horta Manzano

Estes últimos tempos, em razão das eleições, a mídia estrangeira tem falado um bocado do Brasil. Nosso país, embora seja um anão político e diplomático, está entre as dez maiores economias do planeta. Ainda que haja desigualdades abissais entre os cidadãos, a massa de consumidores torna o país economicamente atraente.

Na tevê, tenho assistido a debates, mesas redondas e entrevistas. Nos jornais, leem-se longas análises. Parecem sinceramente preocupados com o que as pesquisas indicam, mas devo constatar que, via de regra, erram no diagnóstico. É interessante notar que, para um observador não iniciado, o momento político brasileiro é impenetrável.

O europeu está formatado para enxergar um mundo político dual. Na sua visão, o que não é de direita, é de esquerda. E vice-versa. Fala-se em política de esquerda, deputado de direita, atitude de extrema esquerda, visão de extrema direita. E assim por diante, tudo encaixadinho nos moldes. Acontece que, no Brasil, sabemos que não é bem assim.

Em nossa terra, o nome do homem sempre contou mais do que filiação partidária. Há deputados que já mudaram sete vezes de partido ‒ e tudo bem, que ninguém está nem aí. Lula da Silva, por exemplo, está aliado ao mesmo tempo ao Partido Comunista e a Paulo Maluf. E ninguém vê nada de errado nisso. Pra cabeça de um europeu, é noite sem lua.

Vai daí, na Europa, todos tendem a etiquetar o PT de Lula da Silva como partido de esquerda, enquanto encaixam Bolsonaro como político de extrema direita. É compreensível que, partindo dessas premissas equivocadas, não cheguem a lugar nenhum. Simplesmente não entendem como é possível que respeitável parcela de eleitores brasileiros se estejam preparando a votar num homem de extrema-direita.

Nós sabemos que a verdadeira razão da enxurrada de votos que o deputado campineiro está pra receber vem do fato de ele haver cristalizado a imagem do Quixote que nos há de livrar do mal lulista. Podia chamar-se Bolsonaro ou Eufrázio Bartolomeu, tanto faz. Podia ser do norte, do sul ou do meio, tanto faz. Podia ser boa-pinta ou caspento, tanto faz. Podia ser um ás da oratória ou um tartamudo, tanto faz. O está valendo é que foi visto como o mais bem posicionado para botar pra correr Lula e os maus e males que o acompanham.

Por aqui, comparam Bolsonaro a Trump, numa analogia estapafúrdia. Comparam-no ainda à francesa Le Pen ou ao italiano Matteo Salvini, ultradireitistas puros, cujo pensamento pouco tem a ver com o de nosso candidato. Não adianta. Enquanto não chegarem a perceber a verdadeira razão da ascensão de Bolsonaro ‒ e vai ser difícil que o consigam ‒ hão de perder-se em conjecturas e continuar patinando sem atinar com a lógica do movimento.

O Dia H

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 30 junho 2018.

Há gente que assistiu, por acaso, a espetáculos pavorosos como os atentados de 2001 em Nova York. Há gente que, de visita a Londres, chegou a ver a rainha passando de carruagem. Conheci um casal que, no tempo de Perón, estava de passeio em Buenos Aires justo no dia em que estourou uma revolução. Este seu criado tem orgulho de ter assistido a um acontecimento único. Pra contar, tenho de voltar no tempo.

Propaganda institucional
Aviso de mudança martelado por meses

Os humanos, em maioria, são destros. Assim, desde o tempo em que se andava a cavalo, os homens penduravam a espada do lado esquerdo, pra poder desembainhá-la mais rápido. Nos caminhos, cavalgavam pela esquerda para evitar que, ao cruzar com outro cavaleiro, as espadas se chocassem. Na época, roçar de armas era provocação para duelo.

Napoleão, que estava longe de ser humilde, fez o que pôde pra deixar rastro na história. Virou a estrutura legislativa da França de ponta-cabeça, modificou a divisão do território, alterou as bases da Instrução Pública, invadiu e ocupou meia Europa. Em seu tempo, regras de circulação ainda não estavam firmadas. Entre outras travessuras, ele determinou que, na estrada, se rodasse pela direita. De bom ou mau grado, todos os países ocupados pela armada francesa acataram a medida. A Inglaterra, que não tinha sido invadida, escapou: conservou a tradicional mão pela esquerda. Por alguma absconsa razão, a Suécia também escapou e continuou circulando pela esquerda.

Chegado o século XX, a circulação de veículos motorizados aumentou de modo exponencial. Na Suécia, o fato de dirigir pela esquerda começou a pesar. Turistas hesitavam em visitar o país, que perdia assim preciosa fonte de divisas. Em 1955, por plebiscito, o povo aprovou a mudança da mão de direção.

Adesivo relativo ao ‘Dagen H’

Em 1962, teve início o longo processo de mudança. O empreendimento era enorme: conscientizar a população, ensinar as crianças, mudar todos os sinais de tráfego, repintar as marcas no solo. O grande dia foi marcado para 3 de setembro de 1967, um domingo. Foi chamado Dagen H (Dia H), por Högertrafik ‒ tráfego pela direita.

A circulação foi suspensa a partir da véspera, exceto para táxis e ambulâncias. Durante a noite, equipes de trabalho retiraram o plástico preto que cobria as novas placas de tráfego. As novas marcas no asfalto já tinham sido pintadas. Eram de cor branca, em contraposição às antigas linhas amarelas. A marcação nova, que tinha sido inteiramente recoberta de adesivo preto, foi desvelada durante essa noite ‒ um trabalho frenético levado a cabo por milhares de voluntários.

Este escriba, que era jovem (quase criança, juro!) à época, teve o privilégio de estar presente no dia que marcou a história da Suécia. Não foi combinado, foi capricho do destino, aquele tipo de coisa sobre a qual a gente não tem controle. Nos dias que se seguiram à mudança, toda apreensão das autoridades desapareceu ao constatar-se forte baixa no volume de acidentes de circulação. É que motoristas e pedestres passaram a prestar mais atenção. A mudança, que integrou o país ao resto da Europa, foi sucesso grande.

Jardim público com motivo lembrando o ‘Dagen H’

No Brasil, já circulamos pela direita, o que afasta toda ideia de mudança. No entanto, sem intenção de ofender os canhotos, o funcionamento de nosso país é que anda, digamos assim, meio esquerdo. Quando a gente acha que vai melhorar, ‒ pimba! ‒, desmorona tudo de novo. Não passa uma semana sem notícia bizarra. Outro dia, a televisão portuguesa mostrou entrevista de um ministro de nosso tribunal maior. Indagado sobre o caso Lula da Silva, o magistrado afirmou que a prisão do antigo presidente «viola a Constituição brasileira».

Não cai bem juiz, mormente do STF, dar entrevista sobre caso em andamento. Opinião de magistrado deve ser dada na Corte, não diante das câmeras. Pior ainda: a declaração foi feita a jornalistas estrangeiros. Quem vier a assistir à entrevista, na certa guardará a certeza de que a prisão do antigo líder é ilegal, quando essa não é mais que a convicção pessoal de um dos juízes. É afligente que ministro da Corte Maior cometa leviandades desse jaez.

Para «endireitar» a circulação, o processo sueco levou cinco anos. Para endireitar nosso país, posto que seja um dia instaurado, o processo periga ser bem mais demorado.

Um fundo de verdade

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Refletindo sobre o julgamento de um ex-presidente em Porto Alegre, sobre a onda de moralismo que se espraia por todas as áreas do país e sobre o devido respeito às leis, cheguei à triste conclusão de que há, sim, um fundinho de verdade nas lamúrias da esquerda brasileira.

Antes de mais nada, #nuncaantesnahistóriadessepaís um chefe do Executivo viu-se forçado a depor coercitivamente, ser julgado formalmente por corrupção e lavagem de dinheiro e enfrentar a humilhação de ter seu passaporte apreendido após condenação unânime em segunda instância.

Sabemos todos, mesmo que não queiramos admitir, que praticamente todos os antecessores do infeliz personagem tiveram lá seus deslizes éticos, administrativos, financeiros e políticos, sem jamais terem sido levados às barras de um tribunal. Por que, então, só ele e agora que estamos a poucos meses de uma nova eleição presidencial? A condenação da #almamaispuradoplaneta terá sido reles consequência de ele ter se compadecido do infortúnio secular do lado menos favorecido da sociedade brasileira e ter-lhe propiciado mais educação, mais renda, mais empregos, mais direitos e menos desigualdade? Ou os tempos deveras são outros? Evoluímos como cidadãos combativos ou regredimos como massa de manobra de líderes populistas?

by Gilmar Fraga (1968-), caricaturista gaúcho

Depois, inútil negar, a tese mil vezes repetida dentro e fora de nossas fronteiras do #égolpe provou estar ao menos parcialmente correta. Desde a carta aberta do atual mandatário, queixando-se de sua irrelevância política no cargo de vice-presidente e prometendo ser um articulador mais competente para recolocar o Brasil nos trilhos, até os dias de hoje, a consciência crítica dos cidadãos tem sido abalada quase diariamente por sucessivas infrações à ética e à moralidade pública perpetradas por ministros, secretários de Estado, integrantes do partido governante, membros da base aliada e pelo próprio presidente. Por maiores que sejam as evidências, os indícios e as provas, nenhum deles foi afastado do cargo por decisão judicial ou teve de se defender em juízo. Inquietante, não é mesmo?

Se tudo o que fizemos em infinitas manifestações de rua foi trocar seis por meia dúzia, como desacreditar da existência de interesses inconfessos nas batalhas pelo impedimento da então presidente? Pense rápido: o que conta mais para a concretização de um futuro esplendoroso para o país, a competência ou o caráter? O olhar social ou o equilíbrio da economia? Envie sua resposta em vídeo para a principal emissora do país, tomando o cuidado de manter o celular na posição horizontal, deitado.

Ainda, quando vamos finalmente enfrentar a dolorosa realidade de que o sistema judiciário brasileiro é enviesado, inconsistente, lento e ideologicamente comprometido? Quem ignora que a expressiva maioria de suas decisões é tomada com base não no RG, mas no CIC? Quem não se apercebe do fato de que nem os magistrados da mais alta corte do país obedecem estritamente ao que reza o texto constitucional e atropelam muitas vezes a separação de poderes? Como deixar de lado as evidências de que são capazes de incluir em seus arrazoados argumentações que configuram, sem sombra de dúvida, #perseguiçãopolítica?

by Gilmar Fraga (1968-), caricaturista gaúcho

Aí estão para provar casos emblemáticos como o impedimento da posse do ex-presidente no cargo de secretário de governo por suspeita de desvio de finalidade e a passividade de vários juízes federais frente à escolha de uma deputada condenada por infrações trabalhistas graves para o cargo de ministra do Trabalho, ou a nomeação de um indivíduo com mais de 120 pontos em sua carteira de habilitação para o cargo de diretor do Detran de Minas Gerais.

Não, senhores, definitivamente não há como tapar o sol com uma peneira. O fato cabal, irrefutável, é que #semLulanãohádemocracia. Chega de mimimi de quem não tem coragem de analisar os fatos políticos com espírito de isenção.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Posição de ocasião

Dora Kramer (*)

De volta à oposição, os deputados ditos de esquerda comportaram-se como se os últimos anos não tivessem existido. A proposta aprovada em primeiro turno na Câmara com os exatos 355 votos esperados pelo governo de Michel Temer, conceitualmente é bastante semelhante à Lei de Responsabilidade Fiscal criada no governo Fernando Henrique Cardoso 16 anos atrás e quase em tudo igual à proposta feita pelos então ministros Antonio Palocci e Paulo Bernardo há dez anos como forma de consertar as contas.

Dilma 17Na época, Dilma ganhou a parada qualificando a sugestão como “rudimentar”. Lula poderia ter bancado a posição de Palocci e Bernardo, como fez FH em relação a Pedro Malan, mas preferiu avalizar a posição da ministra-chefe de sua Casa Civil, em via de assumir a candidatura à Presidência da República. O restante da história é sobejamente conhecido e hoje reconhecido passo essencial do PT na direção do abismo administrativo.

(*) Dora Kramer é jornalista, analista política e escritora. O texto acima foi extraído de artigo publicado no Estadão de 12 out° 2016.

De política e de pastel

José Horta Manzano

Remo 2Estava lendo no Le Monde, diário francês de referência, artigo sobre nosso novo ministro da Fazenda. Bem-humorado, o articulista diz que o recém-empossado figurão foi campeão de remo na juventude, mas que por enquanto, no ministério… está remando.

Mas não é desse senhor que eu queria falar. De qualquer maneira, após tantos anos de gestão calamitosa e inconsequente, nem com varinha mágica seria possível consertar da noite pro dia. Quem estiver esperando que as coisas entrem logo nos eixos pode ir tirando o cavalo da chuva ‒ como dizem nossos amigos gaúchos.

Queria contar a vocês uma curiosidade. Cada um enxerga o mundo segundo os próprios parâmetros, é natural. Nos países europeus, parlamentos se dividem entre os eleitos de esquerda e os de direita. Até uma ou duas décadas atrás, o ideário de cada ala era bastante diferente.

Proletários de todos os países, uni-vos!

Proletários de todos os países, uni-vos!

Depois do desmanche do bloco socialista e da incontestável constatação de que o paraíso do proletariado não passava de lorota, as coisas começaram a mudar. A visão de mundo de esquerdistas e direitistas convergiu a ponto de ser hoje muito difícil  apontar diferenças significativas. Cada uma das duas correntes de pensamento deu um passo em direção à outra.

Desencantados com experiências fracassadas, os socialistas (os «de esquerda») já não preconizam intervenção do Estado em todos os meandros da sociedade. Por seu lado, assustados com o liberalismo excessivo que levou ao baque econômico de 2008, os «de direita» já reconhecem a necessidade de uma certa dose de regulação por parte do Estado.

Falar em esquerda e direita faz menos sentido a cada dia que passa. Assim mesmo, clichês têm vida longa. Na Europa, jornalistas e analistas ainda fazem questão de colar uma etiqueta na testa de mandatários e de partidos. A força do hábito faz que apliquem automaticamente os mesmos parâmetros a políticos e à política de países longínquos.

Remo 1O artigo que mencionei apresenta Madame Roussef como presidente «de esquerda». Na visão de um europeu, Evo da Bolívia, Maduro da Venezuela, os bondosos irmãos Castro de Cuba, Rafael Correa do Equador são classificados como políticos «de esquerda». Por seu lado, Michèle Bachelet do Chile, Mauricio Macri da Argentina, Horacio Cartes do Paraguai são «de direita».

Não compartilho dessa percepção. A linha divisória entre campos políticos na América Latina não passa entre esquerda e direita. Dizer que nossos mandachuvas se dividem entre sérios e populistas estaria mais próximo da verdade. Os europeus têm enorme dificuldade em se dar conta disso.

Pastel 1Os sérios podem ser partidários de maior ou menor intervenção do Estado ‒ não é essa a marca que os distingue dos outros. O mesmo vale para os populistas. A diferença mais marcante entre eles é que os sérios, que se tornaram mercadoria rara, vendem pastel com recheio. Já os populistas ‒ que, no Brasil, ocupam o topo da pirâmide há vários anos ‒ vendem pastel de vento.

Tripartidarismo

José Horta Manzano

Este domingo, vota-se na França. O povo está sendo convocado para eleger os dirigentes das 13 grandes regiões (um tanto artificiais) em que o país está dividido. Estes últimos tempos, por razões de economia, Paris decidiu fusionar antigas regiões. Das dezenas que, séculos atrás, compunham o país, resta apenas uma dúzia de conjuntos heterogêneos, verdadeira colcha de retalhos.

Regiões da França

Regiões da França

Região é escalão intermediário entre município e governo central. Dado que a organização política da França é unitária e não federativa, o grau de independência da região é bastante limitado. Nenhuma delas conta com Constituição, nem assembleia, nem Justiça independente. Entram na competência regional o transporte, a assistência às empresas, o zoneamento territorial, a gestão ecológica do lixo, o aprendizado dos jovens, a formação profissional.

Tradicionalmente, o mundo político francês se divide entre direita e esquerda. As últimas décadas têm levado os dois campos a convergir a ponto de as diferenças se tornarem quase imperceptíveis. Assim mesmo, ainda é importante, na cabeça de cada um, que cada político se encaixe numa etiqueta: ou é de esquerda ou é de direita.

Assemblee nationale 1

Até os anos 1970-1980, ainda eram numerosos os cidadãos que haviam vivido os horrores da guerra. Estava viva a consciência de que regimes populistas haviam arrastado o continente à catástrofe. Até aqueles anos, idéias de extrema-direita não tinham a menor chance de prosperar.

Mas o tempo passou, os antigos se foram, novas gerações que não conheceram a guerra são os adultos de hoje. Para estes, a paz é estado natural, automático, quase obrigatório. A guerra desapareceu do rol das preocupações.

As desgraças que a extrema-esquerda causou na União Soviética e na Europa Oriental só terminaram em 1989, com a queda do Muro de Berlim. O fato é recente e todos, assustados, se lembram. Como resultado, os partidos de extrema-esquerda (comunistas) sumiram do mapa.

Já a debacle que a extrema-direita (nazistas e fascistas) acarretou é antiga, acabou faz 70 anos, todos tendem a esquecer. Como filme de terror, a história esquecida tende a se repetir. De uns anos pra cá, mais e mais cidadãos aderem ao populismo nacionalista. Em todos os países do continente.

Esquerda tradicional, direita tradicional, extrema-direita populista

Esquerda tradicional   –   Direita tradicional   –   Extrema-direita populista

Pela primeira vez na história, a França periga conhecer nova partilha política. A crer nas sondagens, o tradicional bipartidarismo já era. Viva o tripartidarismo! Direita tradicional, esquerda tradicional e uma extrema-direita populista ressuscitada dominarão a paisagem política do país nos próximos anos.

Cidadãos equilibrados torcem para que o desvario dos conterrâneos não chegue ao desatino de entregar o poder central a extremistas populistas. Como bem sabem norte-coreanos, cubanos e venezuelanos, todo extremismo é daninho.