O caça cassado

José Horta Manzano

O protótipo do caça francês Rafale fez o primeiro voo em 1991. Fabricado pelas indústrias Dassault, o modelo corresponde às exigências da aeronáutica militar francesa. Paris comprometeu-se a comprar 180 aparelhos, dos quais 142 já foram entregues.

Avião 6Sofisticado mas muito caro, o Rafale não foi um sucesso de vendas. Mais de vinte anos depois de lançado, nenhum país, além da França, tinha mostrado interesse. Eis senão quando, um Lula no auge da popularidade, a pouco mais de um ano de terminar o segundo mandato, faz anúncio estrondoso.

Contrariando os interesses dos que entendem do assunto ‒ as Forças Aéreas Brasileiras ‒, tomou a decisão pessoal de entabular negociação firme em vista de adquirir 36 exemplares. Para comemorar e oficializar o acordo, convidou Nicolas Sarkozy, então presidente da França, para assistir aos festejos do 7 de setembro. Estávamos em 2009.

A forte limonada servida no almoço há de ter deixado os dois presidentes eufóricos. Imprudentemente, deram o fechamento do negócio por favas contadas. Garantiram que o Brasil estava comprando os aviões franceses.

Lula e SarkozyO tempo passou, os dois presidentes terminaram o mandato, e o assunto morreu. A razão do malogro das discussões não ficou clara, deixando a cada um liberdade para imaginar o que bem entender.

Em 2015, para alegria do fabricante, o Egito encomendou 24 aparelhos. Meses mais tarde, o Catar também adquiriu duas dúzias. São pedidos firmes ‒ aliás, os três primeiros aparelhos já foram entregues ao país das pirâmides.

Interligne 18h

Monsieur François Hollande, atual presidente da França, está de visita oficial à Índia este fim de semana. A principal razão da viagem é o interesse demonstrado por Nova Delhi em adquirir 36 Rafales. Escaldados pelo fiasco quando das tratativas com o Brasil, franceses e indianos se abstêm de apregoar que o negócio está no papo.

Hollande IndiaQuando as negociações entre o Brasil e a França goraram, todos imaginaram que tivesse sido por razões técnicas ou ligadas à transferência de tecnologia. Hoje, desencadeada a Lava a Jato, sabemos que operações políticas envolvendo dinheiro gordo encerram mais mistérios do que sonha nossa vã filosofia.

Assim, fica no ar a pergunta: «Por que é mesmo que deixamos de comprar os Rafales?». Que cada um imagine o que quiser.

Decisão salomônica

José Horta Manzano

Não há que dizer, tem gente esperta entre nossos dirigentes da alta cúpula. Não estou brincando nem ironizando. Não serão muitos, mas há gente de respeitável eficiência. Ontem recebemos uma demonstração.

É verdade que os da linha de frente, aqueles que aparecem na tevê e na mídia dia sim, outro também, costumam se enfiar em saias justas, chegando até a arruinar estratégias bem construídas pelos homens da sombra. Felizmente, há casos que dão certo.Avião 4

Faz quase 20 anos que as Forças Aéreas alertaram o governo sobre o iminente sucateamento dos caças supersônicos em serviço. Tomada de preços foi organizada na época. A partir daí, o assunto foi posto em banho-maria até que, com a chegada do Lula, foi definitivamente engavetado. Não se sabe bem por que. Talvez tenha sido por mera pirraça. Ou falta de visão. Afinal, bolsa família e palanque permanente saem mais barato e dão mais voto que compra de avião a jato.

Mas há novelas que têm final feliz. O próprio presidente que havia ordenado o congelamento do programa despertou, de repente, em 2009. Naquele ano, o presidente da França foi o convidado de honra para as festividades do 7 de setembro, nossa data maior. Na ocasião, um Lula eufórico e falante ― talvez em razão de um café da manhã mais abundante que de costume ― deu a entender ao visitante que o Brasil se preparava a bater o martelo na questão dos caças: o Rafale francês seria o escolhido. Só faltou ser carregado nas costas pela comitiva de empresários que acompanhava o presidente visitante.

No dia seguinte, a imprensa francesa festejou. Milhares de empregos seriam garantidos por vários anos, a população ficaria grata a Sarkozy. A simpatia granjearia votos preciosos para sua reeleição. Os infelizes não conheciam o percurso em zigue-zague que nosso antigo presidente costuma seguir. Conversa vai, conversa vem, o governo brasileiro pôs de novo o assunto em banho-maria.

Sem ser especialista em aeronáutica militar, entendi que as principais características político-militaro-financeiras entre os três concorrentes finais empurravam a decisão de Brasília para um beco sem saída.Avião 5

O avião americano era tecnicamente superior aos outros, apresentava a melhor relação entre qualidade e preço. Mas tinha o defeito de ser americano, pecado original intragável para a ala xiita do partido dominante.

O avião francês apresentava uma vantagem não negligenciável: vinha sem pecado original. Não era americano, muito pelo contrário. A França, desde sempre, distinguiu-se por uma política de independência com relação às outras potências. No entanto, o aparelho sofria de um mal incurável: era o mais caro. Além do que, não havia sido ― e ainda não foi ― escolhido por nenhum exército, excetuado o francês.

O avião sueco apresentava mais vantagens que os outros. A alta cúpula da Aeronáutica havia recomendado que fosse ele o escolhido. Era o mais barato. Ainda não está totalmente desenvolvido, o que deixa margem a que se anuncie um «projeto sueco-brasileiro», ainda que seja só pra inglês ver. E, mais que tudo, o Gripen tem uma vantagem oculta: é equipado justamente com motorização americana, como a do modelo rejeitado pelos integristas. Não é, nem deixa de ser. As aparências estão salvas.

Foi agora que se teve a prova de que ainda há cabeças pensantes no andar de cima. Escolheu-se o avião sueco. As vantagens são muitas.

Interligne vertical 81) Traz tecnologia americana de primeira, ainda que embrulhada com papel sueco. A ala xiita pode dormir tranquila sem a impressão de ter sido traída.

2) A FAB sente-se prestigiada, dado que esse é justamente o modelo que lhe tinha parecido mais conveniente.

3) As finanças brasileiras, um tanto alquebradas estes últimos tempos, vão ser menos solicitadas, dado que o custo desse modelo é menor que o dos outros.

4) Na Escandinávia em geral ― e na Suécia, em particular ― uma aura de simpatia se inscreve sobre o nome de nosso País. O Brasil passa a ser visto como nação amiga, simpática. Isso só pode trazer vantagens. Os suecos são grandes investidores no cenário mundial.

5) Os EUA estão satisfeitos, pois a fabricação de peças essenciais será feita, de qualquer maneira, por lá. Os empregos estão salvaguardados.

A única sombra no quadro radioso foi o fato de Brasília ter anunciado a decisão menos de uma semana depois da visita de François Hollande. Ficou uma desagradável impressão de que o presidente e a “presidenta” não chegaram a um acordo sobre eventuais ― digamos assim ― efeitos colaterais… Ficou esquisito, né?

Quanto à tão falada «transferência de tecnologia», que me perdoem os espíritos crédulos, mas devo decepcioná-los. Conhece aquela do pulo do gato? Pois é, em venda de material sensível, funciona da mesma maneira. Ensina-se algum procedimento básico, distribuem-se algumas migalhas, só para constar. Mas o grosso mesmo, o cerne da questão, o coração do problema fica muito bem preservado.

Aviãozinho da alegria

É uma questão de bom-senso. Tecnologia de altíssimo padrão, conquistada a custo de dezenas de anos de pesquisa e de bilhões e bilhões de dólares (ou euros) de investimento, não será jamais dada assim, de mão beijada, só porque um cliente encomendou 36 aparelhos.

Você sabia?
O parlamento da pequena Suíça está em via de aprovar a compra de 22 caças Gripen de modelo equivalente. Não li nenhum reclamo sobre «transferência de tecnologia».Interligne 23

Se alguém quiser dar uma olhada na reação eufórica dos suecos e no muxoxo decepcionado dos franceses, clique aqui abaixo.

Aftonbladet, Suécia

Televisão sueca

SVD Näringsliv, Suécia

Le Monde, França

Les Echos, França

La Tribune, França

De mão beijada

José Horta Manzano

No dia 7 de setembro de 2009, o presidente do Brasil recebeu, com pompa e cerimônia, um convidado mui especial. Era Nicolas Sarkozy, à época presidente da França.

De mão beijada

De mão beijada

O hóspede trazia um largo sorriso nos lábios e um contrato na maleta. No fundo, o estrangeiro vinha em viagem de negócios. Agia como caixeiro-viajante de luxo. Afinal, preparava-se para fechar uma venda de 4 bilhões de euros, montante considerável.

O Lula tem, como qualquer um, suas qualidades e seus defeitos. Entre eles ― não sei se botar na conta das qualidades ou dos defeitos ― está uma inacreditável e absoluta insensibilidade a assuntos de ideologia. Não é um homem de esquerda nem tampouco de direita. Não é do seu feitio tomar partido entre partes conflitantes. Suas prioridades são de outra ordem, mais pessoais.

De mão beijada

De mão beijada

Essa indiferença pode bem ser explicada pelo fato de que nosso guia, quando jovem, passou necessidade. Ideologia é pra quem teve mais sorte na infância e na juventude ― confira-se o caso de nossa atual presidente. Quem tem fome quer mesmo é encontrar um prato de comida, que ninguém se alimenta de filosofia.

O pouco interesse que o Lula demonstrou por relações internacionais abriu uma avenida para seus numerosos assessores, grande parte dos quais, não tendo enfrentado os começos difíceis do chefe, podiam dar-se ao luxo de enxergar o mundo através de óculos ideológicos.

Rafale sem transferência de tecnologia

Rafale sem transferência
de tecnologia

Os franceses sabiam que o Rafale era o avião mais caro de sua categoria. Sabiam também que nenhum exército estrangeiro havia ainda encomendado nem um exemplar sequer. Astutos, devem ter-se dado conta do viés ideológico da corte palaciana de Brasília, que queria a todo custo livrar-se de toda dependência do execrado «império norte-americano».

Valeram-se então da atonia de nosso messias em assuntos de política estrangeira e, matreiros, tentaram vender o que não pretendiam entregar. Prometeram transferir ao Brasil a tecnologia do fabrico dos Rafales.

Ora, sejamos lúcidos. Passaria pela cabeça de alguém acreditar que uma tecnologia de ponta, alcançada depois de dezenas de anos de pesquisa e investimento, pudesse ser dada, assim, de mão beijada, a um país estrangeiro somente porque ele fez uma boa compra? Precisa ser muito crédulo para se deixar engabelar por essa lorota. Quem acreditou nisso nunca deve ter ouvido a historia do pulo do gato.

Felizmente, a cúpula decisória brasileira parece não ser composta unicamente por gente que vive nas trevas. Algum espírito mais esclarecido há-de ter-se dado conta de que estariam empatando o dinheiro suado dos brasileiros numa espécie de conto do vigário. Iam comprar mercadoria que não seria entregue nunca. Pelo sim, pelo não, o assunto foi engavetado já faz quase 4 anos.

Interligne 09

A imprensa francesa repercute estes dias uma notícia divulgada pela Reuters. Segundo a agência, o Brasil de Dilma estaria prestes a finalizar a compra de 36 unidades do avião F18 americano. O fato de a notícia ser divulgada na sequência da recente visita do vice-presidente americano ao Planalto pode não ser mera coincidência.

De mão beijada

De mão beijada

É altamente provável que Brasília se tenha finalmente convencido de que não existe almoço grátis. Nem a França, nem os EUA, nem nenhuma outra potência jamais entregaria a receita junto com o bolo. Os critérios de escolha têm de ser outros: o desempenho e o custo.

Não adianta acreditar em Papai Noel. Tecnologia avançada não é artigo de supermercado. Se nossos estrategistas(?) quiserem, realmente, chegar lá, terão de seguir o mesmo caminho que seguiram os outros: investimento em escola, instrução pública, pesquisa, formação científica. Vai demorar. Mas não há atalho.