Três casos emblemáticos

José Horta Manzano

Caso número um
Em fevereiro de 2013, doutora Annette Schavan, ministra da Educação da Alemanha e amiga chegada da chanceler Angela Merkel, foi acusada de plágio. Descobriu-se que sua tese de doutorado havia sido fortemente inspirada ‒ pra não dizer copiada ‒ de textos anteriores.

Em países sérios, não se brinca com certas coisas. «Com o coração partido», segundo suas próprias palavras, Frau Merkel não hesitou: separou-se na hora da ministra trapaceira. Incriminada, a doutora foi chorar sua vergonha nalgum canto. Nunca mais se ouvir falar dela.

Caso número dois
Em março de 2013, uma investigação levada a cabo por um jornal parisiense descobriu que o ministro do Orçamento da França havia sido titular de uma conta pessoal secreta num banco suíço. Se o fato já seria grave para um cidadão comum, imagine a saia justa do ministro ao qual cabe cuidar do orçamento do país.

Num primeiro momento, monsieur Cahuzac compareceu à Assembleia Nacional e, diante dos eleitos do povo, negou veementemente. Mas o jornal tinha mais trunfos. Deu a público uma gravação em que o ministro se referia abertamente à conta secreta. Não teve jeito. Imediatamente, monsieur Hollande, então presidente do país, mostrou ao ministro a porta da saída. Banido da vida pública, o antigo ministro teve de enfrentar processo criminal.

Caso número três
Em janeiro de 2018, uma certa doutora Cristiane Brasil ‒ nome pio e sobrenome patriótico ‒ foi designada pelo presidente da República para assumir a pasta do Trabalho.

Antes que fosse ungida no cargo, veio à tona a notícia de que a doutora é ré em processo que corre na Justiça do Trabalho. Pelo menos três antigos funcionários a acusam de haver burlado leis trabalhistas. Acionado, um juiz suspendeu liminarmente a nomeação da doutora.

Diante do contrassenso de instalar no Ministério do Trabalho uma pessoa contra a qual correm processos justamente na Justiça trabalhista, o presidente da República cancelou imediatamente a nomeação. Certo?

Errado, senhores! O presidente mandou acionar a Advocacia Geral da União ‒ cujos funcionários, como todos os demais, são (bem) remunerados com nosso dinheiro ‒ e deu-lhes a incumbência de lançar mão de todos os recursos possíveis para segurar o rojão e assegurar que a quase ex-futura ministra tome posse do cargo.

E ainda há quem se pergunte por que raios o Brasil não consegue sair do subdesenvolvimento…

A lógica de Mr. Trump

José Horta Manzano

Cão que ladra não morde ‒ diz o povo sabido. De fato, convém desconfiar de quem vocifera. O mais das vezes, agressividade verbal não passa de fachada, escudo de proteção, sinal certeiro de fragilidade interior. Quanto mais exaltado for o discurso, menor importância lhe deve ser concedida. Gesticulação hostil não costuma ser característica de pessoa inteligente. Em nosso país, tivemos, não faz tanto tempo, um presidente que se encaixava bem nesse perfil. Aliás, o personagem, embora desmascarado, continua firme na encenação inútil.

Quando da campanha eleitoral, Mr. Trump impressionou muitos de seus conterrâneos. Seu discurso verborrágico e agressivo seduziu boa parte do eleitorado, tanto que conseguiu ser eleito para o cargo de presidente.

O homem, infelizmente, não tem demonstrado ser dono de inteligência brilhante. É uma pena. Já chegou à chefia do Executivo americano carregando um passivo de promessas eleitoreiras praticamente impossíveis de ser cumpridas. A história do muro de três mil quilômetros, por exemplo, uma bobagem para enganar trouxa. O então candidato chegou a convencer ingênuos eleitores de que a grande ameaça para o bem-estar do país vinha de imigrantes clandestinos, pobres e descalços. E muita gente acreditou.

Mr. Trump acaba de dar mais uma prova de despreparo e de incapacidade para ocupar o cargo para o qual foi eleito. Ao anunciar que não vai cumprir o compromisso assumido por seu país, sacramentado quando seu predecessor assinou o acordo sobre o clima, mostrou que, além de irresponsável, é particularmente pobre em matéria cinzenta.

by Vicente Freitas de Araújo (1955-), desenhista cearense

De fato, para quem martelou slogans do tipo «America first» (os EUA primeiro) e «Make America great again» (ressuscitar a grandeza dos EUA), a loucura que o presidente acaba de cometer é de um inacreditável primarismo. Conseguiu, com uma declaração, pôr contra si os demais 194 países que assinaram o acordo ‒ uma façanha!

Os resultados imediatos são:

 • o repúdio unânime de todos os governos

 • a antipatia dos habitantes do planeta

 • o crescimento da importância política da China, que se apressou em reafirmar a firme intenção de manter a palavra dada

 • a desconfiança de aliados outrora fiéis, como os europeus, que ficaram todos com um pé atrás.

Nem Freud, num dia de bom humor, conseguiria acompanhar o raciocínio de Mr. Trump. Seja qual tenha sido a intenção do extravagante presidente, ele acaba de embarcar em canoa furada. Mostrou os limites de sua lógica.

Monsieur Hollande, ex-presidente da França, resumiu em poucas palavras: «Trump rejette l’avenir» ‒ Trump manda o futuro às favas.

Um dia, será julgado pelos próprios netos.

Ministra tagarela

José Horta Manzano

Em 1792, no turbilhão da revolução, a França cometeu o irreparável: guilhotinou o rei Luís XVI. Nem a rainha escapou. Por mais que tivesse sido leviano e pouco sensível aos reclamos do povo, o monarca vivia e agia conforme as regras de seu tempo. Se não foi um pioneiro das reformas e da modernização do país, tampouco se comportou pior que seus antecessores. Destituí-lo e afastá-lo da coisa pública ‒ como fizeram, um século mais tarde, com D. Pedro II ‒ já estaria de bom tamanho. Condenar Luís XVI à guilhotina foi rematado exagero.

Costuma-se dizer que os franceses se desvencilharam do rei mas guardaram a monarquia. Embora pareçam excessivas, essas palavras não estão longe da realidade. A pompa e os ouros dos palácios parisienses que abrigam as principais instituições são a parte visível. Em meio a brocados, cortinas, tapetes, mármores, lustres, quadros e tapeçarias, paira a nostalgia da realeza.

Palácio de Versailles - Salão dos espelhos

Palácio de Versailles – Salão dos espelhos

O detalhismo protocolar deixa patente, ainda hoje, que o rei se foi, mas ritos e salamaleques continuam. Um banquete preparado duzentos anos atrás no Palácio de Versalhes não era muito diferente das recepções que se oferecem hoje a visitantes estrangeiros importantes. Nesse aspecto, o presidente da República apenas substituiu o rei ‒ o ambiente pouco mudou. Fica a impressão de que os franceses procuram, há dois séculos, se redimir do momento de loucura que os levou ao regicídio.

A rigidez da posição de cada membro do governo no organograma é reminiscência do ancien régime. A fixidez das regras lembra o estatuto de cada antigo cortesão. Nas altas esferas do Estado, a tradição é seguida à risca. O presidente, como nos tempos do rei, tem carta branca não só para escolher ministros e assessores mas para determinar a posição hierárquica de cada um.

Madame Ségolène Royal

Madame Ségolène Royal

Uns são mais iguais que outros. O número um do governo é, naturalmente, o primeiro-ministro. A partir daí, o chefe de Estado é livre para estabelecer, à sua guisa, a ordem protocolar dos demais. Cada presidente fixa a ordem como melhor lhe parecer. Neste final melancólico da gestão de François Hollande, Madame Ségolène Royal, ministra da Ecologia, ocupa a terceira posição. É lugar de alto prestígio.

Cada país enviou representante para acompanhar as homenagens fúnebres feitas a Fidel Castro, o bondoso ditador cubano falecido dias atrás. Somente dois países europeus mandaram a Cuba um membro do governo: a Grécia e a França. Monsieur Hollande designou Madame Royal, número 3 do governo.

lula-dilma-e-maduroEm boca fechada, não entra mosca. Ségolène Royal, que fala pelos cotovelos, é conhecida por declarações desastradas. Entrevistada ontem, ousou declarar que os revolucionários cubanos «se inspiraram na Revolução Francesa mas souberam evitar o terror»(?). Minimizando os excessos cometidos pelos mandachuvas da ilha caribenha durante 60 anos, defendeu o regime e exaltou «a liberdade de consciência(!), a liberdade de religião, a limpeza e a excelente segurança» que reinam na gerontocracia dos Castros. Nem o Lula foi tão ousado.

Defesa tão explícita do violento regime pegou mal pra diabo. Francamente, «liberdade de consciência» não foi a característica maior do regime instaurado por Fidel. Os embaixadores de Luís XVI eram mais talentosos.

Saia justa

José Horta Manzano

A morte de Fidel Castro, ocorrida quando o «lider máximo» já estava com 90 anos e enfermo havia uma década, não surpreendeu. Entristeceu alguns, alegrou outros, mas a Terra não vai deixar de girar por causa disso.

De toda maneira, quando se atinge idade canônica, o que tinha de ser feito está feito. Não há mais nada a acrescentar, nem para o lado do bem nem para o lado do mal.

Quanto ao legado do bondoso velhinho de Cuba, não são necessárias muitas palavras: basta observar o dia a dia do povo da ilha, que deixa patente a herança de quase 60 anos de castrismo. Como diz o outro, pior não fica.

che-guevara-1Foi-se o comandante mas deixou uma saia justa para os mandatários do mundo. Quando morre um personagem importante ‒ especialmente tão longevo ‒, chefes de Estado ou de governo afluem para assistir aos funerais. É o costume. No entanto, no caso do velho e impiedoso homem forte de Cuba, a presença de personalidades causa embaraço.

De fato, os que forem estarão dando uma espécie de aval à política dos Castros. Já os que deixarem de ir vão marcar certa distância dos métodos da «revolución» e dar mostra de desaprovar o estilo cubano de governar. Ao não comparecer, estarão enfraquecendo sua posição como parceiro preferencial da nova política comercial que está despontando na ilha. Que fazer?

No momento em que escrevo, alguns chefes de Estado ou de governo já definiram posição. Vamos ver como está a lista.

Os que apenas mandarão representante:
● François Hollande (França)
● Shinzo Abe (Japão)
● Johann Schneider-Ammann (Suíça)
● Theresa May (Reino Unido)
● Vladimir Putin (Rússia)
● Felipe VI (Espanha)
● Justin Trudeau (Canadá)
● Michelle Bachelet (Chile)
● Mauricio Macri (Argentina)
● Narendra Modi (Índia)
● Hassan Rohani (Irã)
● Xi Jinping (China)
● Michael O’Higgins (Irlanda)
● Kim Jong-un (Coreia do Norte)

Que se note a curiosa ausência de dirigentes ideologicamente próximos do regime cubano, como o da Rússia, o da China, o do Irã e o da Coreia do Norte. Barack Obama (EUA) ainda não divulgou decisão oficial, mas deu sinais de não ter intenção de comparecer.

havana-1

Do lado dos que confirmaram presença, estão alguns incontornáveis:
● Nicolás Maduro (Venezuela)
● Evo Morales (Bolívia)
● Daniel Ortega (Nicarágua)
● Rafael Correa (Equador)

Robert Mugabe, presidente do Zimbábue, que está entre os dirigentes malvistos no mundo civilizado, vai estar presente. O ditador Teodoro Obiang, da Guiné Equatorial, também. Jacob Zuma, da África do Sul, fortemente contestado em seu país, é outro que deverá assistir às cerimônias.

Até o momento, o único mandatário europeu a ter confirmado presença é Alex Tsipras, da Grécia.

Em atitude coerente com a atual visão política do Planalto, Michel Temer já designou representante. Despachou dois ministros para marcar presença. Faz sentido.

Alguns dos que citei devem estar-se sentindo incomodados pelo falecimento do «lider máximo». Está-lhes custando tremenda saia justa.

O preço da vaidade

José Horta Manzano

Quatro anos atrás, quando foi eleito e assumiu a presidência da França, monsieur François Hollande se sentia como se estivesse sentado numa nuvem, pairando sobre a humanidade. Tinha chegado lá! Ele não é um caso especial. Todo figurão político, uma vez eleito para cargo importante, parece entrar num universo paralelo. É difícil escapar ao sentimento de superioridade, à impressão de invulnerabilidade daquele que já entrou para a História.

Por aqueles dias, dois jornalistas do jornal Le Monde pensaram em escrever um livro contando a história da presidência Hollande. Pediram entrevista ao presidente e apresentaram-lhe a ideia. Montar o livro era obra de paciência. Ficou combinado que, ao longo de três ou quatro anos, os dois escritores teriam encontros com o presidente para recolher suas confidências.

francois-hollande-10Agora, seis meses antes do fim do mandato de monsieur Hollande, o livro finalmente ficou pronto e acaba de ser posto à venda. Traz o resumo de mais de sessenta encontros, espalhados por quatro anos em cerca de 200 horas de conversa. Como se sabe, a desgraça atrai mais a atenção do que a felicidade. Todos os jornalistas do país leram rapidamente a obra a fim de descobrir as passagens mais picantes.

Os autores, por seu lado, não foram lá muito bonzinhos na hora de escolher título para o livro. Chamaram-no «’Un président ne devrait pas dire ça…’» ‒ ‘Um presidente não deveria dizer isso…’. Puseram entre aspas, dado que a frase foi realmente pronunciada pelo próprio presidente em algum momento das entrevistas. Com isso, evitaram toda acusação de traição e turbinaram a venda da obra. O livro se vende às pilhas em todas as livrarias e supermercados.

Em 200 horas de bate-papo, sai muita coisa boa, mas é inevitável que o gravador registre bobagens também. Saiu muita besteira, que incomodou muita gente. Uma delas, mais contundente, sacudiu o coreto. É o trecho em que o presidente qualifica os magistrados como «lâches», que equivale a covardes ou frouxos. Ai, ai, ai…

A magistratura se alevantou indignada. A grita foi tão estrondosa que obrigou o presidente a pedir desculpas públicas. Disse ele que o que disse não era bem o que disse, que a coisa não era bem assim, que havia sido mal compreendido. Soltou aquelas desculpas esfarrapadas de quem não tem como justificar um escorregão. Sua humilhação serviu para acalmar um pouco o escândalo. Ah, essa vaidade que acomete os poderosos… Imaginam-se todos acima do bem e do mal, sentimento ilusório.

francois-hollande-11O episódio me trouxe à lembrança certas falas do ex-presidente Lula. Também ele um dia imaginou-se inatingível. Disse cobras e lagartos. Com verbo tosco, agrediu a magistratura, numa tentativa desastrada de desqualificar justamente aqueles que, um dia, poderiam ser chamados a julgá-lo. Taí: o momento chegou.

Como o distinto leitor pode se dar conta, nosso guia não foi o único a cair na armadilha. É perigoso e contraproducente indispor-se contra a Justiça. Como se costuma dizer, não convém cuspir pra cima. O mundo dá voltas e a cusparada periga cair em cima do bravateiro. A coisa vai e a coisa vem ‒ ninguém revoga as leis da física.

Falam de nós – 18

0-Falam de nósJosé Horta Manzano

Não sei se, aí no Brasil, a frase «espirituosa» de senhor Paes, prefeito do Rio, criou remoinho. Por aqui, está dando que falar. Refiro-me à zombaria que o alcaide dirigiu aos esportistas australianos que não apreciaram ter de morar em prédio ainda em obras. Senhor Paes declarou que ia «botar um canguru» à frente do alojamento para acalmar os atletas visitantes. Reflexão fina, civilizada e bem-educada, sem dúvida.

Canguru 1Para ter uma ideia de quanto uma frase desastrada pode ofender, imagine o distinto leitor a situação inversa. Imaginemos que os Jogos Olímpicos tenham lugar na Austrália. Digamos que, ao tomar posse dos alojamentos que lhe destinaram, a delegação brasileira se dê conta de problemas sérios, reclame e se recuse a se instalar. Nessa altura, chega o prefeito da cidade e promete «botar uns macaquinhos» para animar e acalmar os visitantes. Dá pra avaliar a dor do insulto?

E dizer que senhor Paes, apesar dos pesares, não é chucro como um certo ex-presidente do país. Para ilustrar o que digo, garanto tê-lo visto, na época em que os Jogos Olímpicos foram atribuídos ao Rio, fazer um discurso… em inglês! Esse verniz de cultura, raro em nosso país, só faz dar mais peso ao pronunciamento.

A mídia planetária sabe que o Rio não é Londres. Todos já imaginavam que haveria alguns tropeços. Os primeiros ‒ as obras inacabadas ‒ talvez tivessem até passado batidos, não fosse a calamitosa declaração do prefeito. Para curiosos, aqui está a matéria tratada pelo Courrier International (França), pelo Stuttgarter Zeitung (Alemanha) e pela Tribune de Genève (Suíça).

O Los Angeles Times traz matéria de fundo, sem referência direta ao incidente provocado pelo mandatário carioca. Assim mesmo, o título é duro e desanimador: «The Olympics are coming, but Brazil, beset by troubles and gloom, yawns» ‒ Os JOs estão chegando, mas o Brasil, acossado por distúrbios e pela melancolia, boceja.

JO 2016 3O francês Challenges evoca a Olimpíada do Rio por outro ângulo. O título da matéria não tem como fugir à evidência: «Jeux Olympiques 2016: le Brésil, un hôte à bout de souffle» ‒ JOs 2016 : o Brasil, anfitrião exausto. O texto relembra que os Jogos, idealizados para confirmar o status de grande potência do Brasil, «perigam destacar a precariedade» de nossas instituições.

Na continuação, o texto dá conta do quebra-cabeça que Monsieur François Hollande e outros chefes de Estado e de governo terão de enfrentar quando da visita ao Brasil. Dado que temos atualmente dois presidentes, qual deles deve ser tratado como homólogo? Qual deles terá direito à descontração que costuma reinar entre colegas?

O rigoroso cerimonial não prevê essa situação. Não seria problema tratar com rei que reina ao lado de rei que abdicou. Tampouco causaria embaraço lidar com presidente que é e com presidente que já foi. Mas encarar dois presidentes é cenário insólito.

Interligne 18cObservação:
Nenhum jornal publicou o pedido de desculpas do prefeito. Parece que ficou por isso mesmo. Ele não aprendeu a lição da Pátria Educadora.

Brexit ‒ 1

Cabeçalho 11José Horta Manzano

Nota soberana
As agências de notação Standard & Poor’s e Fitch anunciaram, nesta segunda-feira 27, a degradação da nota soberana do Reino Unido. De AAA, passou a AA com perspectiva negativa. A nota já havia sido carimbada com perspectiva negativa pela Moody’s, a terceira das grandes agências.

Retorção
Cresce a antipatia ‒ nem sempre verbalizada ‒ e a má-vontade dos europeus contra o Reino Unido. Essa disposição não vai amenizar as discussões.

Artigo 50
A saída de um membro da UE está prevista no Artigo 50 do Tratado de Lisboa. O dispositivo foi posto ali proforma ‒ just in case, como diriam os ingleses. Ninguém imaginava que pudesse ser acionado um dia. É análogo ao artigo da Constituição brasileira que estipula a possibilidade de impedimento do presidente da República.

Artigo vago
O artigo só estabelece o princípio, sem descer aos pormenores. Dado que se trata da primeira vez que um dos Estados se prepara a desfiliar-se do clube, não há rotina estabelecida. Tudo terá de ser inventado.

Rainha Elizabeth 1Surpresa
Todos foram surpreendidos com o resultado do voto dos britânicos. Todos apostavam no «in», imaginando que o «out» estivesse fora de cogitação. Perderam todos. O espanto foi ainda maior no campo dos que tinham pedido o divórcio. Nigel Farage, presidente do partido ultranacionalista Ukip, anda perdido como cego em tiroteio. Não estava preparado para essa eventualidade. Não sabe o que fazer.

Cameron de pé firme
Recusando-se a agir como é praxe em ocasiões como essa, David Cameron, o perdedor, recusa-se a deixar o cargo de primeiro-ministro imediatamente. Prefere esperar que a poeira baixe. Sabe que, assim que a ficha cair, o panorama vai ficar bem mais escuro para seu sucessor.

Consulta
Por incrível que pareça, a saída do Reino Unido está longe de ter sido formalizada junto à UE. O plebiscito tinha caráter meramente consultativo. Numa hipótese absurda, o parlamento britânico poderia até ignorar o resultado e seguir adiante como se nada tivesse ocorrido.

Formalização
Para ser levado em conta, o pedido de saída tem de ser feito de maneira oficial à direção do clube, em Bruxelas. Pode ser que esse passo ainda demore a ser dado.

Composição da Union Flag (= Union Jack)

Composição da Union Flag (= Union Jack)

Uns com pressa…
Monsieur Hollande (França) e Signor Renzi (Itália), entre outros, têm pressa e querem que o processo corra acelerado. Compreende-se. França e Itália têm regiões que reclamam a independência. Quanto mais rápido se apagar esse incêndio, melhor será.

… Outros sem
Frau Merkel (Alemanha) gostaria que o processo fosse bem vagaroso, sem um grama de precipitação. O Reino Unido é o terceiro parceiro comercial da Alemanha, daí a prudência germânica. Além disso, a Alemanha não tem nenhuma região reclamando independência.

Quantos à mesa?
Como ninguém havia previsto um plano B, é hora de improvisar. A reunião de chefes de Estado marcada, já faz tempo, para 28 e 29 de junho vai se realizar. O jantar de terça-feira contará com os 28 mandatários. O primeiro-ministro britânico, no entanto, não foi convidado para o almoço de quarta-feira. Vai comer sanduíche.

Castro em Paris

José Horta Manzano

Quando veio a público, a notícia da construção do porto de Mariel (Cuba), financiada pelo BNDES, levantou muita poeira. Afinal, o custo da obra atingia a cifra respeitável de um bilhão de dólares. Pior que isso, parte do investimento estava sendo feita a fundo perdido, ou seja, era um presente do Brasil. Frise-se que o verdadeiro financiador, o contribuinte brasileiro, nunca foi consultado.

À época, muitos denunciaram a impropriedade da ajuda. Com tantos problemas internos, não tinha cabimento destinar todos aqueles milhões ao desenvolvimento de um país estrangeiro em detrimento das incontáveis necessidades de nosso próprio povo.

Porto de Mariel, Cuba

Porto de Mariel, Cuba

Imaginou-se que a decisão do governo brasileiro só podia decorrer da simpatia de nossos dirigentes pelo regime dos bondosos irmãos Castro. O tempo passou, o assunto saiu de foco e tudo acabou ficando por isso mesmo.

Depois que a operação Lava a Jato revelou a cascata de escândalos que conhecemos todos, vale lançar um olhar atualizado ao caso do financiamento de Mariel. Não é descabido cogitar sobre o verdadeiro propósito do “presente” oferecido à ilha caribenha.

Se a Petrobrás, que fica ali na esquina, foi espoliada na surdina, quem garante que os milhões despachados à ilha distante não terão servido a finalidades menos confessáveis? Quem pode afiançar que a bolada não terá ido parar em cofres que nada têm a ver com o porto cubano? Fica no ar a pergunta. Um dia ‒ talvez nem demore muito ‒ saberemos a verdade.

François Hollande 9Señor Raúl Castro, primeiro-irmão e dirigente atual da República de Cuba está em Paris. É a primeira visita oficial de um presidente cubano à França desde que os Castros tomaram o poder, 55 anos atrás. O anúncio da abolição do embargo comercial aguçou o apetite de muita gente.

Se a intenção do Brasil, ao contribuir precocemente para o desenvolvimento da ilha, tivesse sido de estar entre os primeiros beneficiários da abertura que se anuncia, a manobra teria sido pouco eficaz. Cuba prefere, naturalmente, relacionar-se com quem tem mais dinheiro e melhor tecnologia. É natural.

No entanto, se a hipótese que levantei estiver correta, os que nos dirigem já terão recebido seu quinhão. Com isso, devem estar satisfeitos. Eles, com certeza. O Estado brasileiro, nem tanto.

O caça cassado

José Horta Manzano

O protótipo do caça francês Rafale fez o primeiro voo em 1991. Fabricado pelas indústrias Dassault, o modelo corresponde às exigências da aeronáutica militar francesa. Paris comprometeu-se a comprar 180 aparelhos, dos quais 142 já foram entregues.

Avião 6Sofisticado mas muito caro, o Rafale não foi um sucesso de vendas. Mais de vinte anos depois de lançado, nenhum país, além da França, tinha mostrado interesse. Eis senão quando, um Lula no auge da popularidade, a pouco mais de um ano de terminar o segundo mandato, faz anúncio estrondoso.

Contrariando os interesses dos que entendem do assunto ‒ as Forças Aéreas Brasileiras ‒, tomou a decisão pessoal de entabular negociação firme em vista de adquirir 36 exemplares. Para comemorar e oficializar o acordo, convidou Nicolas Sarkozy, então presidente da França, para assistir aos festejos do 7 de setembro. Estávamos em 2009.

A forte limonada servida no almoço há de ter deixado os dois presidentes eufóricos. Imprudentemente, deram o fechamento do negócio por favas contadas. Garantiram que o Brasil estava comprando os aviões franceses.

Lula e SarkozyO tempo passou, os dois presidentes terminaram o mandato, e o assunto morreu. A razão do malogro das discussões não ficou clara, deixando a cada um liberdade para imaginar o que bem entender.

Em 2015, para alegria do fabricante, o Egito encomendou 24 aparelhos. Meses mais tarde, o Catar também adquiriu duas dúzias. São pedidos firmes ‒ aliás, os três primeiros aparelhos já foram entregues ao país das pirâmides.

Interligne 18h

Monsieur François Hollande, atual presidente da França, está de visita oficial à Índia este fim de semana. A principal razão da viagem é o interesse demonstrado por Nova Delhi em adquirir 36 Rafales. Escaldados pelo fiasco quando das tratativas com o Brasil, franceses e indianos se abstêm de apregoar que o negócio está no papo.

Hollande IndiaQuando as negociações entre o Brasil e a França goraram, todos imaginaram que tivesse sido por razões técnicas ou ligadas à transferência de tecnologia. Hoje, desencadeada a Lava a Jato, sabemos que operações políticas envolvendo dinheiro gordo encerram mais mistérios do que sonha nossa vã filosofia.

Assim, fica no ar a pergunta: «Por que é mesmo que deixamos de comprar os Rafales?». Que cada um imagine o que quiser.

Sete voltas na língua

José Horta Manzano

O distinto leitor já deve ter ouvido o conselho: «se estiver sob forte emoção, conte até dez antes de tomar qualquer decisão». É recomendação sábia mas raramente seguida. Decisão tomada na hora da raiva, do sufoco ou da pressão geralmente dá aborrecimento.

Faz hoje exatamente um ano que a redação do semanário francês Charlie Hebdo foi invadida por terroristas que assassinaram uma dúzia de funcionários. O ato covarde ecoou no planeta. Passeatas, manifestações, discursos políticos, medidas de segurança reforçada se seguiram.

Paris, atentados de 13 nov° 2015 Balanço de mortos e feridos

Paris, atentados de 13 nov° 2015
Balanço de mortos e feridos

Meses mais tarde, quando a ferida ainda não havia cicatrizado, veio a tragédia dos atentados de 13 de novembro. Naquela noite terrível, 472 pessoas, de 26 diferentes nacionalidades, foram mortas ou feridas. Dois conterrâneos nossos, aliás, estavam entre as vítimas. Na França, a comoção atingiu o grau máximo.

Passeport françaisO abalo do momento provocou reação forte do presidente François Hollande. Ele preconizou a retirada da nacionalidade francesa a quem fosse condenado por crime de terrorismo. A ele e a seus conselheiros, o simbolismo da medida pareceu à altura da enormidade do crime.

Como toda decisão tomada de afogadilho, essa também deu que falar. Observadores mais atentos alertaram para o fato de que eventual destituição de nacionalidade criaria apátridas, o que é contrário à Declaração dos Direitos Humanos, aos quais a França é tão apegada.

Para consertar o estrago sem perder a face, o presidente corrigiu: a confiscação da nacionalidade francesa somente se fará se o terrorista tiver dupla cidadania, a francesa e uma outra. Ficou pior a emenda que o soneto.

Com a modificação na proposta, estariam criadas duas categorias de franceses. Por um lado, haveria os de primeira linha, dos quais a nacionalidade não poderia, em nenhuma hipótese, ser retirada. Por outro, haveria os de segunda linha, sujeitos a perder a cidadania. Um atentado frontal ao princípio de igualdade dos cidadãos.

Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão Aprovada em 14 junho 1793

Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão
Aprovada em 14 junho 1793

Estes dias, diante do imbróglio criado pelo pronunciamento irrefletido, o assunto não sai das manchetes. Personalidades do mundo político (mas não só) deitam e rolam. Cada um faz questão de dar sua opinião e de dizer o que pensa. Fulano desdiz sicrano, que desmente beltrano. O pau come firme. Tornou-se verdadeiro debate nacional, equivalente ao bate-boca sobre impeachment de dona Dilma. No momento em que escrevo, decisão definitiva ainda não foi tomada.

Impossível vai ser encontrar solução que satisfaça a todos. O mais provável é que saiam todos desapontados. De outra vez, antes de falar, Monsieur Hollande devia dar sete voltas na língua. Nós também.

Façam de conta que não estou aqui

José Horta Manzano

Cameron 1Nas sociedades pequenas e nas tribos, o chefe reúne todos os membros, sobe numa pedra ou num pedestal qualquer, e fala a seu povo. Olha todos de frente, dirige-lhes a palavra, dá as instruções, distribui eventuais elogios ou admoestações. E, em certas ocasiões, recebe apupos ‒ faz parte dos riscos do ofício.

Com o crescimento das sociedades, reunir todos os componentes foi-se tornando problemático. O chefe viu-se obrigado a viajar para dirigir-se a pequenos grupos em cada parada.

Putin 1Cem anos atrás, a popularização do rádio esboçou a solução. A voz, ouvida em receptores e amplificada por alto-falantes, compensava a ausência física do personagem. De Winston Churchill a Getúlio Vargas, de Josef Stalin a Juan Domingo Perón, todos os grandes dirigentes recorreram ao rádio para falar ao povo.

O advento da televisão melhorou o grau de comunicação. Além da voz, a imagem do chefe passou a chegar a cada cidadão. É como se o personagem estivesse ali, na sua frente, numa conversa entre quatro olhos.

Merkel 2Faz meio século que todos os chefes de Estado ou de governo entenderam o alcance da palavra oral associada à imagem. Garante a presença e pode operar milagres. Fotos e vídeos circulam diariamente, mas não são eles a impressionar. Há momentos simbólicos em que pronunciamento solene se impõe. O período das festas de fim de ano é um deles.

Valendo-se da ocasião, os principais dirigentes do planeta falaram a seus eleitores. Olho no olho, prestaram contas do ano que se termina e esboçaram as perspectivas para o que entra.

Hollande 4No Reino Unido, David Cameron fixou o olho na câmera e dirigiu-se a cada britânico. O mesmo fez Vladimir Putin na Rússia. Direto de Berlim, Angela Merkel seguiu o mesmo caminho. De Paris, François Hollande também deu seu show televisivo. Matteo Renzi, chefe do governo italiano, foi mais longe: convocou coletiva de imprensa. O fundo da verdade é que nenhum deles deixou passar a ocasião de mostrar quem é o capitão do navio.

Interligne 18h

Enquanto isso, no Brasil…
Ah, já vão longe os tempos do «Trabalhadoooores do Brasil!» radiofônico do velho Getúlio. Por medo de panelaço ou de tropeços na elocução, nossa chefe-mor não apareceu na tevê. Nem mesmo o rádio transmitiu sua voz. A dirigenta limitou-se a assinar um texto escrito sabe-se lá por quem. Está no site do Planalto.

Patria Educadora 1Vivemos num país onde o slogan «Pátria Educadora» ainda não se transformou em realidade. Há, entre nós, milhões de semiletrados incapazes de compreender fala formal ‒ muito menos se for escrita. Nossa sociedade vegeta imantada pela imagem televisiva. Ao deixar publicar em seu nome longo texto de 2 páginas, 5665 toques e 876 palavras, a intenção da presidente ficou clara: «Me esqueçam! Façam de conta que não existo!»

No fundo, tem razão dona Dilma. Quando nada se tem a dizer, mais vale recolher-se à própria insignificância.

Devo ir por aqui ou por ali?

José Horta Manzano

Governantes em perdição – é curioso – costumam repetir as mesmas frases, preconizar as mesmas medidas, sacar as mesmas desculpas. E, às vezes, reproduzir os mesmos trejeitos.

Às vésperas da desastrada renúncia ao cargo de presidente do Brasil, em 1961, Jânio Quadros foi surpreendido por um fotógrafo. Rendeu um instantâneo que ficou na história.

Janio 2Interligne 28a

François Hollande, presidente da França, foi apanhado dia destes em posição que lembra muito a de nosso tresloucado mandatário de meio século atrás.

François Hollande 6

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Quem será o próximo? Roque Sponholz, desenhista paranaense, já tem seu palpite.

by Roque Sponholz, desenhista paranaense

by Roque Sponholz, desenhista paranaense

Censura à francesa

José Horta Manzano

Com um número de desempregados girando em torno de 10% da população em idade de trabalhar, a França luta contra a estagnação. Já houve momentos piores, mas o crônico problema é causa de permanente angústia.

by Kianoush, desenhista iraniano

by Kianoush, desenhista iraniano

No Brasil, até 1994, o assunto principal era a inflação. Hoje, a corrupção dos políticos subiu à ribalta e suplanta qualquer outro tema. Nossa inflação, pelo menos por enquanto, passou para segundo plano.

Na França, faz trinta anos que o desemprego serve de pano de fundo a toda discussão política. Vez por outra, algum acontecimento extraordinário oculta, por um momento, a preocupação tradicional. Mas a eclipse é de curta duração. A realidade volta logo a dominar.

Censura 2Monsieur Hollande, presidente de todos os franceses, chegou a declarar publicamente, ano passado, que sua candidatura à reeleição estava ligada à «inversão da curva do desemprego». Em miúdos: caso o número dos que buscam trabalho não diminua daqui até 2017, ele não concorrerá a novo mandato, jogará a toalha, entregará o trono ao sucessor e voltará pra casa, rabo entre as pernas. Se manterá ou não a palavra dada, só o tempo dirá. De todo modo, a promessa presidencial dá a dimensão do problema da escassez de emprego na França.

No fim de 2014, o governo francês anunciou projeto de lei-ônibus para lutar pela recuperação econômica. São inúmeros artigos que tratam de assuntos variados: liberalização do horário de funcionamento de estabelecimentos comerciais, flexibilidade de autorização a particulares para se dedicar ao transporte público, afrouxamento no registro de certas profissões regulamentadas, simplificação de funcionamento de cadernetas de poupança, abrandamento de normas de dispensa de funcionários.

Censura 3Entre as modificações previstas, está uma que causou rebuliço. Trata da abolição do sacrossanto direito que a mídia tem de guardar segredo quanto a suas fontes de informação. O projeto pretendia afrouxar as normas vigentes. A mídia francesa enxergou aí uma tentativa de cerceamento do direito de informar. Levantou-se clamor nacional.

Censura 4O governo cedeu. Retirou do projeto o artigo que mexia no segredo profissional dos jornalistas. A lei que será proposta ao parlamento não comportará nenhuma menção à liberdade de imprensa. Fica afastado o espectro da censura disfarçada.

Enquanto isso, no Brasil, o governo continua insistindo em seu famigerado plano eufemisticamente chamado de «controle social da mídia». Espero – e acredito – que nosso Congresso não ousará votar nenhum dispositivo nesse sentido. Se bem que, com parlamentares que temos, acostumados a sacrificar o bom senso em prol de benefícios pessoais, nada é garantido. É bom desconfiar e convém manter a vigilância. O futuro dirá.

Urna eletrônica na França

José Horta Manzano

Faz anos que dois grandes partidos condividem a cena política francesa: UMP (direita) e PS (esquerda). É verdade que o atual marasmo econômico alavancou um terceiro ator, a Frente Nacional, partido de extrema-direita, que se vale de métodos populistas. Sua ascensão vem assustando muita gente.

Daqui a oito dias, os afiliados à UMP (União por um Movimento Popular) votarão para eleger o presidente do partido. O voto será eletrônico, método praticamente desconhecido na França.

Vozes já se alevantam dentro da agremiação para denunciar a alta periculosidade do sistema. Muitos veem, no voto eletrônico, risco grande de fraude, de pirataria cibernética, de sobrecarga e falha na consolidação de dados.

UMPNo entourage de Nicolas Sarkozy – antigo presidente da República e atual candidato a dirigir o partido – estão os que mais desconfiam do sistema. Na França, cargo de presidente de partido político é trampolim excepcional para projetar-se e atingir esferas mais altas.

François Mitterrand, antes de ser eleito ao posto máximo da República, tinha sido presidente de partido. O mesmo aconteceu com Jacques Chirac e com François Hollande. Daí a preocupação de Nicolas Sarkozy. Conquistar o cargo de presidente da UMP é, para ele, de capital importância.

François Hollande, que preside o país atualmente, anda amargando índice de popularidade próximo de zero. Assim como no Brasil já se ensaiou um tímido «Volta, Lula!», na França também começa a se elevar um «Retourne, Sarkô!».

Pode até ser que dê certo. Com duas condições: se o voto eletrônico da semana que vem não atrapalhar; e se, mais adiante, a Frente Nacional não melar o jogo. De todo modo, ainda faltam dois anos e meio para a eleição presidencial.

Como se vê, desconfiança com voto eletrônico não é exclusividade nossa.

Na lábia ou na raça?

José Horta Manzano

Quem é que manda num grupo? Aquele que conseguir provar à turma que é o mais forte. Desde os tempos do homem de Cro-Magnon, tem sido assim. Antes, se decidia no braço, no fio da espada ou na ponta da lança. Hoje mudou. Como não fica bem ensanguentar arenas para escolher chefe, costuma-se dar preferência a métodos mais aveludados.

Nos países civilizados, inventaram-se outros meios de escolher líder. O voto, por exemplo. Cada cidadão exprime sua vontade (mais ou menos) secretamente, e pronto! Aquele que a maioria tiver decidido assume a chefia.

O método é menos sanguinário, mas nem por isso menos brutal. A selvageria, antes escancarada, manifesta-se agora por outros canais. Mentira, agressão verbal, calúnia, propagação de boato, produção de dossiê, cooptação de testemunhas duvidosas, ocultação da realidade, negação de fatos evidentes, engodo, terrorismo imagético – eis a nova face da violência.

Dilma 8Mas assim é, gostemos ou não. O preocupante é que, a cada eleição, mais violentos vão-se tornando os expedientes. Sabe-se lá onde vamos parar. Para 2014, alguns já tinham prometido «fazer o diabo». Digo-vos: do diabo, não vimos ainda nem o rabo. Com o perdão de Shakespeare, há muito mais demônio do que possa imaginar nossa vã filosofia.

Por um lado, a escolha menos sanguinolenta nos tranquiliza. Por outro, abre alas para falsos líderes, para gente que não tem os atributos mínimos pra assumir as rédeas. É vitória mais na lábia que na raça. O resultado é desastroso: líderes fracos, bizarros, ilegítimos, rejeitados por grande parte dos comandados.

E não pense o distinto leitor que nosso País é o único a enfrentar esse problema. O nosso é caso emblemático, tão profunda é a rejeição que nossa líder desperta em boa parte da população. Mas acontece também alhures.

Veja o caso da França. Quando assumiu seu trono, em jun° 2012, Monsieur Hollande usufruia da confiança de 55% de seu povo. De lá pra cá, o crédito foi rolando ladeira abaixo. Neste nov° 2014, está batendo no fundo do poço. Consegue suscitar a confiança de escassos 13% dos cidadãos.

Cota de confiança de François Hollande em porcentagem, de jun° 2012 a nov° 2014

Índice de confiança de François Hollande
em porcentagem, de jun° 2012 a nov° 2014

Mister Obama é outro caso sintomático. Reeleito dois anos atrás, acaba de sofrer severa derrota eleitoral. Por via de eleição de representantes, o povo negou-lhe maioria em ambas as câmaras. Assim como o presidente da França, o líder americano terá de amargar estes próximos dois anos num limbo de legitimidade.

Que fazer? Instituir mandato anual, com eleições todo mês de outubro? Optar por um regime parlamentar que relegue o presidente a papel decorativo? Voltar a decidir a chefia no muque ou no sangue das arenas? Ou, mais simples, censurar pesquisas que avaliem a popularidade de dirigentes?

Cá pra mim, tenho a impressão de que, malgrado os defeitos que o atual sistema possa ter, estamos condenados a conviver com ele ainda por muito tempo.

Sic est res – a coisa é assim.

Abobrinhas

José Horta Manzano

Em declaração pra lá de incoerente, Arnaud Montebourg ― o explosivo ministro da Economia da França ― reclamou, este fim de semana, que a política econômica do país está «no rumo errado» e que tem de ser redirecionada.

Imaginem: um ministro que fala mal de sua própria política! Diante do escândalo, a situação ficou insustentável. Na segunda-feira de manhã, o país ficou sabendo que o primeiro-ministro tinha apresentado sua demissão ao presidente da República. Com isso, todos os ministros foram exonerados.

Blabla 2O presidente pediu ao primeiro-ministro que permaneça no cargo. Estão, os dois juntos, alinhavando o novo ministério. Amanhã saberemos quem são os escolhidos. É forte a probabilidade de o ministro afrontador não fazer parte do novo grupo.

No Brasil, se pegasse a moda de dispensar ministro que diz bobagem, não sobraria muita gente em torno de dona Dilma.

Pra sua sardinha

José Horta Manzano

Os jornais brasileiros deram: «Brasileiro agraciado com o “Nobel” de matemática».

Os jornais franceses deram: «Francês agraciado com o “Nobel” de matemática».

Nunca tinha ouvido falar desse prêmio. Fui procurar e fiquei sabendo que existe desde 1936. Acredito que não sejam muitos os que já haviam tido notícia dessa distinção. Antes tarde que nunca.

De início, imaginei que o brasileiro e o francês fossem pessoas diferentes. Não são: o homem é o mesmo. Um carioca de nascimento, com pinta de galã de filme de faroeste, imagem bem distante da que a gente tem do matemático raquítico, encurvado, pele emaciada, guarda-pó e óculos de fundo de garrafa.

Artur Ávila Foto: S. Ruat, Photothèque CNRS

Artur Ávila
Foto: S. Ruat, Photothèque CNRS

Artur Ávila, o jovem que acaba de receber a cobiçada láurea, nasceu, cresceu e se formou no Brasil. Faz, porém, treze anos que reside e trabalha na França, onde dirige um departamento no prestigioso CNRS (Centro nacional de pesquisa científica).

Imagino que, bem acolhido por seu país adotivo, o moço se tenha naturalizado ― sem perder a cidadania originária. Good for him, melhor pra ele!

Além do prêmio, aliás bem modesto se comparado ao polpudo provento que um Nobel oferece, Artur recebeu congratulações de dois chefes de Estado: Dona Dilma Rousseff e Monsieur François Hollande mandaram-lhe saudações afetuosas. Não é pra qualquer um.

Cada um puxa a brasa pra sua sardinha.

Ecos na mídia francesa:
TF1 (principal canal da tevê francesa)
France info (rádio pública francesa)
Jornal Le Point
Jornal Le Figaro
Jornal Le Monde
Site do CNRS (Centro nacional de pesquisa científica)

Os óculos do Monsieur

José Horta Manzano

Os menos jovens certamente se lembrarão das gravatas Hermès do senhor Collor, aquele que ― é até difícil acreditar ― um dia foi presidente de nosso país. Afortunado desde o berço, o referido cavalheiro não dispensava adereços de luxo, do colarinho ao bico do sapato. A imprensa e o povo achavam graça. Afinal, se ele paga com dinheiro do seu próprio bolso, que mal há?

Por outros motivos, que não convém aqui esmiuçar, o presidente foi impedido de prosseguir no cargo em 1992. Voltou pras Alagoas. Mas o exemplo ficou guardado na gaveta. Seus sucessores imediatos, o deselegante Itamar e o pão-duro FHC, não se interessaram pelo legado do antecessor. Não sobressaíram pelo esmero no vestir. Mais tarde, no entanto, com a chegada ao Planalto do presidente-operário, os costumes ancien régime foram devidamente restabelecidos.

É notório que nosso guia não regateou na hora de escolher seus impecáveis trajes. Importados, de preferência, tinham de ter caimento perfeito. O corpo não ajudando muito, o bom corte compensava. A imprensa e o povo acharam graça, e ficou tudo por isso mesmo.

François Hollande Foto Kenzo Tribouillard, AFP

François Hollande
Foto Kenzo Tribouillard, AFP

No Brasil, a agonia das pequenas indústrias é encarada com indiferença pelo governo central. O que conta mesmo são os grandes números gerados por aquela meia dúzia de grandes exportadores de matéria-prima. São os que melhoram as estatísticas. São os que têm capacidade de despejar no partido doações generosas. O resto é o resto. Que cada um cuide de si.

Exatamente como o Brasil, a França está em processo acelerado de desindustrialização. Badulaques são sistematicamente importados da China. Artigos menos chinfrins vêm de países de mão de obra barata ― Europa Oriental, Marrocos, Tailândia.

Abandonados pelas autoridades, o pequeno e o médio empresário brasileiro têm motivos para inquietação e tristeza. Já na França, o governo central empreende ações para encorajar os cidadãos a darem preferência a produto nacional, ainda que tenham de desembolsar um pouco mais. Até um ministério foi criado especialmente para tentar “endireitar” a situação. «Dê preferência ao made in France» é a palavra de ordem.

Dia destes, o presidente da República, Monsieur Hollande, foi fotografado de óculos novos. Até aí, morreu o Neves. O problema é que um fabricante francês de armação, especialista no assunto, percebeu que os óculos presidenciais não eram franceses, mas dinamarqueses.

Sacrilégio! Em tempos de penúria industrial, um descuido presidencial dessa magnitude é imperdoável. O fabricante nacional dirigiu carta aberta ao presidente, missiva que saiu na mídia do país. Além da carta, o esperto empresário mandou de presente a Monsieur Hollande uma armação legítima, das boas, garantidamente made in France. Argumentou que, na qualidade de vetor da imagem do país no exterior, não ficava bem ao presidente estampar, bem no meio do rosto, um objeto fabricado em terra estrangeira.

As próximas fotos de François Hollande confirmarão se ele assimilou a lição. Ou não.

Estrepolias: de lá e de cá

José Horta Manzano

Todos ficaram sabendo que François Hollande pagou suas estrepolias extraconjugais com moeda forte: sua companheira deixou-o falando sozinho.

Depois que todos se inteiraram de que o presidente costumava abandonar o Palácio do Eliseu numa garupa de moto para encontrar-se com uma jovem atriz 15 anos mais nova que ele, a companheira fixa foi-se embora. A França perdeu sua primeira-dama e ficou órfã de mãe.

Florent Pagny, cantor e figurinha carimbada da cena artística do país, é conhecido por não ter papas na língua. Provocado, botou fora, em linguagem chã, o que achava do acontecido.

«Para quem está num nível de responsabilidade tão elevado, das duas uma: ou tem a capacidade de se organizar para que ninguém fique sabendo ou tem de ter o poder de bloquear toda informação, como Mitterrand.»(*)

E disse mais: «Peraí, meu caro, presidente é presidente 24 horas por dia durante cinco anos. A vida privada, pode esquecer!»

AvestruzEstive pensando que, guardadas as devidas proporções, as mesmas reflexões se aplicam a nossa presidente. Haja vista a excursão gastronômica dela e de sua corte por terras lusitanas.

Quem não tem o poder de bloquear a informação tem de andar na linha ou se aplicar para que ninguém fique sabendo.

Quem é presidente tem de deixar de molho sua vida privada. Pelo menos, durante o mandato.

Taí um consolo para dona Dilma: ela não é a única a ter tido de aprender a lição na base da bordoada. Esperemos que tenham aprendido, tanto ela quanto ele.

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(*) Durante os 14 anos em que exerceu a função de presidente da França, François Mitterrand manteve duas famílias. A oficial (e conhecida por todos os cidadãos) residia no palácio presidencial. A oficiosa (conhecida pelos medalhões do regime e por praticamente todos os jornalistas) residia num apartamento parisiense. O presidente tinha dois filhos com a matriz e uma filha com a filial.

A verdade só veio à tona depois do falecimento do líder. Enquanto ele viveu, nenhum jornalista jamais ousou revelar a realidade, tamanho era o temor que o personagem infundia a todos.

Gallia Transalpina

José Horta Manzano

Você sabia?

Para os romanos, os territórios situados imediatamente fora do perímetro doméstico levavam o nome genérico de Gallia. Já os povos mais longínquos entravam na categoria depreciativa de bárbaros.

Naqueles tempos de poucas estradas e escassa comunicação, a denominação Gallia recobria um vasto território que ia das fronteiras do mundo germânico até a Península Ibérica passando pelas Ilhas Britânicas. Até a Itália do Norte cabia na classificação: era a Gallia Cisalpina.

Com o passar do tempo, a denominação foi-se restringindo ao que é hoje o território da França. Atualmente, gaulês é sinônimo de francês.

A gente costuma enxergar com nitidez os defeitos alheios e fazer vista grossa para os nossos. Os franceses adoram dizer que «les anglais ne font rien comme les autres», os ingleses fazem tudo diferente dos outros. Dizem isso sem se dar conta de que o mesmo lugar-comum lhes cai como uma luva.

Assembleia nacional francesa — a fachada

Assembleia nacional francesa — a fachada

Uma exótica particularidade gaulesa sempre foi o chamado cumul des mandats — a acumulação de mandatos eletivos. Diferentemente do Brasil, onde o candidato é obrigado a se desincompatibilizar (que palavrão!) antes do pleito, o postulante francês sempre dispensou essa formalidade.

Atualmente, sessenta por cento dos parlamentares — deputados e senadores — cumprem, ao mesmo tempo, um mandato executivo municipal ou regional. É como se, no Brasil, tivéssemos um deputado federal que fosse ao mesmo tempo prefeito de São Nicodemo do Brejo ou um senador que funcionasse também como vereador de Santa Sinfrônia do Mato Alto.

O que nos parece esdrúxulo, aos franceses sempre pareceu absolutamente natural. É o que chamam une spécificité française, realmente um caso específico. Não tenho a pretensão de conhecer o funcionamento de todos os regimes do planeta, mas tenho certeza de que hão de ser poucos os que admitem essa pluralidade de funções políticas exercidas pelo mesmo indivíduo.

Na União Europeia, em todo caso, nenhum outro país-membro prevê esse acúmulo de cargos. Faz anos que vozes se vinham levantando contra o que passou a ser encarado como aberração. Por outro lado, o argumento dos «acumuladores» era de que suas funções locais são excelentes para manter proximidade com o povo. Segundo eles, funciona como arma que os protege da tentação de pairar, deslumbrados e encastelados, acima do populacho.

Assembleia nacional francesa — o «hemicycle»

Assembleia nacional francesa — o «hémicycle»

Mas a lambança está vivendo suas últimas horas. Esta semana, o parlamento adotou, em votação final, a lei que proíbe o acúmulo de funções executivas locais — mormente a de prefeito — com um mandato de deputado ou de senador. A novidade passa a valer a partir das eleições de 2017. Até lá, fica tudo como está.

Era uma promessa de campanha do então candidato François Hollande. Dado que ele conta com maioria na assembleia, não foi difícil aprovar a novidade.

Fato digno de nota: alguns deputados da oposição votaram a favor da reforma. Sem mensalão, guiados por sua íntima convicção. Para nós, pouco afeitos a ser governados por gente honrada, é um espanto.