Ressaca

José Horta Manzano

Este sábado com cara de Quarta-Feira de Cinzas é propício para algumas reflexões futebolísticas despretensiosas.

Azedou
A copa, que era pra ser de champanhe, virou cálice de amargura. Quem provou, desaprovou.

João que chora, João que ri
Tristeza de uns, alegria de outros: os franceses estão rindo à toa por terem escapado de enfrentar o Brasil. Caíram com a Bélgica. Não sei se fizeram bom negócio. Há controvérsia.

Quem muito espera…
Quem fixa meta muito elevada está mais sujeito a se desapontar. Em geral, países põem objetivos mais modestos: chegar às oitavas ou chegar às quartas de final, por exemplo. Quando chegam lá, ficam supercontentes. Já o Brasil mira sempre ao primeiro lugar, sem alternativa possível. Eis por que se decepciona. Não é fácil chegar lá ‒ acontece uma vez a cada 20 ou 30 anos, e olhe lá! Além do mais, nosso país não detém o monopólio do bem jogar.

Soberba
Todos os comentaristas brasileiros se puseram a tentar descobrir onde é que o Brasil errou. Este aponta a falha de tal jogador, aquele reclama da arbitragem, um outro acusa o selecionador. A mim, parece que o problema é exatamente esse egocentrismo que cega.

Todos raciocinam como se a seleção brasileira fosse o centro do universo e que todas as demais equipes gravitassem em órbita longínqua e excêntrica. O bom senso informa que não é assim. Se a seleção do Brasil tem seus méritos, as demais também os têm.

O Brasil jogou bem, não há que dizer. Se perdeu, não é porque tenha jogado mal: é porque a Bélgica jogou muito melhor. O time de vermelho estava num patamar mais elevado, foi mais realista e mais eficaz. Deixou de lado dribles espetaculares ‒ e desastrosos ‒ para ir direto ao essencial. É menos artístico, mas funciona. A nós, está faltando humildade pra reconhecer essa realidade. Repito: nosso país não detém o monopólio do bem jogar.

Palco iluminado
Jogadores vão a campo pra jogar, não pra dar espetáculo teatral. O drama tem de estar centrado na bola que rola. Sem bola, acabou o show. É patético assistir, depois de uma derrota, ao choro convulsivo de marmanjos com pés de barro. Pega mal pra caramba. Tinham mais é que sair rapidinho do gramado e ir chorar no vestiário. Está faltando compostura.

De luxo
Vejo aqueles espectadores decepcionados, chorando pelas arquibancadas, morrendo de pena dos jogadores. E conjecturo que talvez tenham feito prestação pra comprar a passagem para a Rússia. Quem sabe ainda vão passar alguns meses de aperto até quitar o carnê. Enquanto voltam para o hotel, enxugam uma derradeira lágrima e afivelam as malas, os pobres meninos que choravam em campo já terão embarcado num jatinho privê de volta para fazer a festa na mansão de Londres ou de Paris. Ou de Mallorca, que ninguém é de ferro.

Brexit ‒ 7

José Horta Manzano

Você sabia?

A União Europeia, sucessora da Comunidade Econômica Europeia, não se resume a um prédio em Bruxelas povoado de algumas centenas de funcionários. Nestes 60 anos de existência, criou-se uma alentada burocracia e um emaranhado de dependências e instituições espalhadas pelo continente.

As agências da UE são organismos distintos das instituições propriamente ditas. São dezenas de entidades jurídicas independentes, criadas para executar tarefas específicas de apoio. Entre elas, estão: a Agência do Meio Ambiente, com sede em Copenhague (Dinamarca); o Observatório de Drogas e Toxicomania, que funciona em Lisboa; a Autoridade de Segurança Alimentar, localizada em Parma (Itália); a Agência de Produtos Químicos, estabelecida em Helsinque (Finlândia).

No total, são cerca de cinquenta entidades, a maioria delas «descentralizada», ou seja, implantada fora do eixo Bruxelas-Luxemburgo. Duas importantes agências estão situadas no Reino Unido: a Agência Europeia dos Medicamentos e a Autoridade Bancária Europeia. O terremoto causado pelo Brexit significou a transferência obrigatória desses dois organismos. Têm de abandonar Londres. Todos os países membros lançaram olhares de cobiça. Quem seriam os herdeiros?

Só para dar uma ideia da importância dos benefícios que a implantação de uma instituição desse quilate pode trazer para a cidade que a abriga, falemos da Agência dos Medicamentos. Oferece impressionantes 900 empregos diretos e propicia criação de 1600 empresas anexas, que oferecerão milhares de empregos indiretos. É pra ministro nenhum botar defeito.

Oito candidatos se apresentaram para acolher a Autoridade Bancária e nada menos que dezenove cidades se propuseram a receber a Agência dos Medicamentos. Bonn, Amsterdam, Barcelona, Helsique, Bratislava, Milão, Paris, Dublin, Varsóvia, Viena estavam entre elas. A escolha teve lugar ontem, segunda-feira.

O romântico e improdutivo sobressalto separatista catalão inviabilizou a candidatura de Barcelona, que era uma das favoritas. Ninguém instalaria uma estrutura tão complexa numa região que periga deixar de fazer parte da UE a qualquer momento.

A escolha, a cargo da Comissão Europeia, segue regras um bocado complexas. Lembra um pouco a eleição de um papa, com vários turnos de votação secreta. A cada turno, as cidades menos votadas vão sendo eliminadas. Ao final, Paris herdou a prestigiosa Autoridade Bancária Europeia. Quanto à cobiçada Agência Europeia dos Medicamentos, vai-se mudar para Amsterdam. Franceses e holandeses estão sorrindo de orelha a orelha.

Se os britânicos pudessem votar de novo sobre o Brexit, não tenho certeza de que o resultado seria o mesmo. Agora é tarde.

De asilo & de embaixadas ‒ 2

Cláudio Humberto (*)

Com o agravamento da situação penal de Lula, que tem grande risco de cumprir pena de prisão em regime fechado, parlamentares voltaram a discutir a hipótese de fuga do País.

Fontes do PT confirmam que essa opção tem sido considerada pelo próprio Lula. O problema é que ele seria preso sem demora, mediante mandado internacional de captura.

Por isso, a opção seria asilar-se em embaixada “amiga”, tipo Equador, Bolívia ou Venezuela. Mas, pelas regras internacionais, um condenado em ação penal não recebe status de asilado político e sim de fugitivo de justiça.

Os defensores do asilo em embaixada lembram a Lula o caso de Julian Assange, do WikiLeaks, que fez isso em Londres para fugir da Justiça. Há cinco anos na embaixada do Equador, Assange não tem direito a salvo-conduto para deixar o país. Como Lula o seria, Assange é fugitivo da justiça.

As embaixadas da Bolívia de Evo Morales e da Venezuela do ditador Nicolás Maduro seriam os mais prováveis destinos de Lula. A diferença é que Lula foi condenado por corrupção. Assange é acusado de violência sexual, na Suécia, por não usar preservativo.

(*) Cláudio Humberto é jornalista. Mantém coluna no Diário do Poder.

Nota deste blogueiro
Seria decisão temerária o Lula pedir asilo na Bolívia ou na Venezuela. Instáveis, esses países não são propriedade do clã que os subjuga atualmente. Apenas «estão» bolivarianos. O governo desses países hermanos, assentado sobre bases frágeis e hostilizado por numerosos vizinhos, pode ruir a qualquer momento. Assim que desmoronar, como é que fica nosso líder?

O asilo pode muito bem ser revogado. O demiurgo de Garanhuns periga transformar-se então em nau sem rumo, a vogar ao sabor das ondas, sem ter mais onde atracar. Faz lembrar o finado xá da Pérsia, que, expulso do país pela revolução islâmica, ninguém queria acolher. Triste fim.

Mais vale ficar de tornozeleira em São Bernardo do Campo. Ainda que tenha de morar “de favor” em apartamento emprestado.

O terrorismo de lá e o de cá

José Horta Manzano

Na manhã deste domingo 4 de junho, a mídia britânica falada e escrita põe foco total sobre o atentado de ontem, que matou sete passantes que atravessavam a Ponte de Londres e feriu uma cinquentena de infelizes que se encontravam no lugar errado na hora errada.

A manifestação de indignação e pesar dos países vizinhos foi unânime e chegou rápido. Monsieur Macron, Frau Merkel, Signor Gentiloni, Señor Rajoy estiveram entre os primeiros. Jornais dos países mais próximos estamparam o ocorrido em primeira página. Algumas estações de rádio vão passar o dia em edição especial. O Brasil não ficou atrás. A edição online do Estadão, jornal nacional de referência, põe a terrível notícia no topo das manchetes. É a primeirona das dez notícias que o jornal considera as principais do momento.

Chamada Estadão, 4 jun 2017

Descendo de elevador pela primeira página do jornal online, passadas a dez manchetes, vem a secção de Esportes ‒ que bem se poderia chamar Futebol. Mais abaixo, aparece o Jornal do Carro, que nos mostra a «incrível» coleção de carros do português Cristiano Ronaldo. Descendo ainda mais um pouco, surgem livros e espetáculos em cartaz, dicas para turistas que preparam viagem ao exterior e conselhos sobre plantas de apartamento.

Mais abaixo, depois de considerações sobre decoração de interior e após uma tira de quadrinhos, chegamos à parte internacional. Ali, em caracteres bem miúdos, informam que acaba de falecer a 62a. vítima das manifestações do povo venezuelano contra a clique que segura as rédeas do país. Sem contar os 1189 feridos contabilizados até o momento. A notícia é dada displicentemente, com a mesma ênfase com que seria anunciada uma empolgante partida de críquete entre duas equipes do Paquistão.

Senhor! São nossos vizinhos de parede! O drama que se desenrola na casa ao lado da nossa merece um pouco mais de destaque. Nós tivemos a sorte de desencadear uma Operação Lava a Jato enquanto ainda era tempo. Os infelizes venezuelanos, sabe-se lá por que, esperaram demais. Como resultado, por aquelas bandas, o bando dominou tudo. E, como a corriola de ineptos daqui, não faz a menor ideia de como tirar o país do buraco.

Chamada Estadão, 4 jun 2017

Que estamos esperando? Que o regime caia de podre? Que hordas de refugiados atravessem a fronteira e venham sobrecarregar os já precários serviços públicos de Roraima? Por mais que a gente se compadeça do povo britânico pelo difícil momento que atravessam, nossos vizinhos têm direito a um pouco mais de atenção. Tanto a mídia quanto o governo brasileiro têm de mostrar maior interesse em desatar o nó daquele país.

É verdade que também temos nossos problemas, no entanto, uma coisa não impede a outra. O Brasil não pode ficar paralisado, à espera da prisão de um Lula ou da destituição de um Temer. A vida continua. Lula e Temer passarão, mas a Venezuela continuará colada à nossa fronteira.

Por sua população e por seu peso econômico, nosso país é o líder natural da região. Está na hora de assumir suas obrigações. Temos de agir para dar um basta à situação caótica dos vizinhos. Ou vamos esperar que morram todos de fome? Não falta muito.

O alfaiate

José Horta Manzano

Alfaiate 2Muitos anos atrás, meu professor de Inglês contava uma história que, nos garantia ele, era verídica. Um alfaiate português tinha acabado de estabelecer-se em Londres. Máquina de costura, tesourões, moldes, manequins e todos os petrechos comprados, abriu a portinha.

No frontispício, mandou pintar seu próprio nome: «PAIVA Taylor» – Alfaiataria Paiva. O primeiro cliente entrou e já soltou logo um gentil «Good morning, Mister Paiva!». Só que, seguindo hábitos da escrita inglesa, ele pronunciava “Mister Pêiva”. A partir daquele dia, todos os clientes – sem exceção – chamaram seu Paiva de Pêiva.

O alfaiate, cujo conhecimento de inglês ainda era incipiente, ficou sem entender por quê. Ao fim de alguns dias, rendeu-se ao que lhe pareceu evidente: os ingleses preferem assim.

Mandou chamar o letrista e encomendou nova placa. ‘Agora vai sair ao gosto local’, pensou ele. Dias depois, chegou o letreiro «PEIVA Taylor». Feliz, o artesão imaginou ter resolvido o problema.

Alfaiate 1Para decepção de seu Paiva, o primeiro cliente a entrar foi logo cumprimentando: «Good morning, Mister Peiva». Só que, respeitando os códigos da língua inglesa, ele pronunciava “Mister Piva”.

O alfaiate sentiu um nó nos miolos. ‘Ó raios! O gajo há de ser analfabeto‘, pensou. O segundo, depois o terceiro, em seguida o quarto cliente confirmaram a evidência: todos chamavam seu Paiva de Piva.

Alfaiate 3Paciente e preocupado em não decepcionar a crescente clientela, ele se resignou a substituir mais uma vez o letreiro. Não demorou mais que alguns dias para ser pregada a nova placa: «PIVA Taylor». ‘Agora, vai!’ – pensou o artesão.

Dizem que Deus escreve direito por linhas tortas. Meia hora depois da afixação da placa, entrou o primeiro cliente. Bem educado, soltou logo um: «Good morning, Mister Piva». Para espanto do artesão, o homem tinha pronunciado Mister Paiva! O alfaiate imaginou ter ouvido mal. Mas tinha ouvido muito bem. A partir daquele dia, todos os que entraram chamaram seu Paiva de Paiva.

Seu Paiva, cujas habilidades linguísticas não são lá essas coisas, continua sem entender até hoje. Devoto de São Sebastião, acredita ter alcançado uma graça.

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PS: Não posso garantir que a história seja verdadeira. No entanto, posso asseverar que o sobrenome do professor de Inglês era… Paiva. Fora de brincadeira.

Aeroporto sem trem

José Horta Manzano

Avião 7A cada vez que penso nos bilhões rapinados da Petrobrás e do erário, imagino o que poderia ter sido feito com esse patrimônio caso não tivesse ido parar no bolso dos cangaceiros que nos governam.

Intuitivamente, a gente se lembra dos mais precisados ‒ hospitais e escolas em primeiro lugar. Mas falta dinheiro por toda parte. Uma sociedade tem muitas facetas e todas elas demandam atenção e cuidado. Não é aceitável que governantes não cuidem de cada uma.

AviaoO maior aeroporto do país fica em Guarulhos (SP). Tem nome de gente, mas praticamente ninguém usa: foi sempre chamado de Guarulhos e assim continuará. Além de turistas, por ali transitam homens de negócios, investidores, visitantes ilustres, todos aqueles a quem gostaríamos de dar boa impressão de nosso castigado país. Como se sabe, não há segunda chance de dar uma primeira impressão.

Pra quem chega, a realidade, logo de cara, é um choque: o aeroporto não está conectado com a metrópole por estrada de ferro. Nem metrô nem trem expresso nem bonde. Nada. A única solução para transpor os 30km até o centro é a estrada de rodagem. De carro, de ônibus, de caminhão ou de moto, tráfego pesado e eventuais enchentes terão de ser enfrentadas.

Aeroporto esteiraFosse o aeroporto recém-inaugurado, já seria surpreendente que não se tivesse pensado em construir ligação férrea ao mesmo tempo em que se instalava o terminal aéreo. Visto que foi inaugurado 30 atrás, a ausência de transporte rápido e confiável foge à compreensão de todo forasteiro.

Avião 6Em 2014, o Aeroporto de Guarulhos ficou em 30° lugar em número de passageiros. Não é pouca coisa. Nos 29 primeiros lugares, estão 12 aeroportos americanos, 4 chineses e os inevitáveis Frankfurt, Paris, Londres, Amsterdam, Tóquio.

Por Guarulhos transitam mais passageiros do que por campos de aviação importantes como Munique, Sydney, Roma, Barcelona, Toronto, Zurique, Milão, Lisboa, Copenhague. A estação aérea paulista é de longe a mais importante da América Latina. O segundo classificado, o da Cidade do México, fica em longínqua 48ª posição.

Faz 30 anos que, episodicamente, se fala vagamente em interligar o terminal com o centro da cidade. Embora, vez por outra, o assunto volte à tona, não passou, por enquanto, de conversa fiada. Os maiores aeroportos do mundo são conectados por meio confiável à metrópole mais próxima. Por que fazemos questão de continuar sendo a exceção?

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PS: O governo paulista acaba de anunciar que, pela enésima vez, fica paralisada a construção da interligação da rede de metrô ao Aeroporto de Congonhas, campo de pouso urbano.

Aeroporto Congonhas 1O aeroporto foi inaugurado em 1936, em sítio então desabitado e afastado do centro. A cidade cresceu e envolveu o campo de aviação. Contruiu-se o metrô. A primeira linha do metropolitano ‒ que passa a 1,5km do Aeroporto de Congonhas ‒ opera desde 1974. Nesses quarenta anos, as autoridades que nos governam foram incapazes de completar esse quilômetro e meio que falta. Contando, assim, parece brincadeira, coisa de filme cômico, não?

É verdade que o atual governo federal é mastodonticamente incompetente. Mas ‒ há que dizê-lo ‒ a incapacidade administrativa e o descaso com a coisa pública vêm de longe e estão incrustados na alma nacional.

De uma tragédia a outra

Piramide 1José Horta Manzano

Cada nova tragédia tira o foco da precedente. Os sangrentos acontecimentos de Paris tiraram do mapa a recente catástrofe ocorrida na península do Sinai. Refiro-me ao Airbus russo que caiu no deserto egípcio faz pouco mais de duas semanas. Vale lembrar que ambos entram na categoria dos atentados.

Se a importância de calamidades fosse medida em função do número de mortos, o desastre aéreo, com 224 vidas ceifadas, teria sido mais significativo que o da França. Mas a contabilidade macabra não funciona assim – outros fatores entram no cálculo.

A matança de Paris ocorreu… em Paris, cidade mítica. Toda agressão contra a Cidade Luz é ressentida como afronta ao mundo todo. Tivesse o atentado acontecido em Londres, Berlim ou Madrid, a comoção não teria sido tão intensa.

Avião 13No entanto, a queda do avião russo traz consequências catastróficas. Para o Egito, pobre e superpovoado – com mais de 80 milhões de habitantes – os rendimentos do turismo são cruciais. O balneário de Charm El-Cheikh, no litoral do Mar Vermelho, é pérola preciosa entre as atrações turísticas do país.

Na Rússia, desde que o rublo começou a degringolar, o povo empobreceu rapidamente. A partir daí, intensificou-se o tráfego aéreo entre Moscou ou São Petersburgo e a estância egípcia, destino de baixo custo, ao alcance do turista padrão. Diariamente, multidões de russos fugiam das neves subárticas para espreguiçar sob o sol do Mar Vermelho.

A confirmação de que o desastre aéreo foi provocado por bomba instalada a bordo por terroristas desfere duro golpe. As companhias aéreas já suspenderam, por tempo indeterminado, voos em direção ao Egito. Evitam, em especial, o aeroporto de Charm El-Cheikh.

Praia Charm El-CheikhComo consequência, turistas russos não podem mais passar uma semanazinha de férias num dos únicos lugares quentes que estavam ainda ao alcance de seu bolso. Pior que isso, o Egito deixa de recolher preciosas divisas estrangeiras. Estima-se que a perda será de 300 milhões de dólares mensais – três bilhões e meio por ano.

Se os terroristas queriam castigar o país dos farós, o objetivo foi atingido.

Meia hora de atraso

José Horta Manzano

Até fins do século XIX, cada vilarejo vivia à hora local. O relógio da matriz ritmava o tempo da população. Mas, sacumé, ninguém segura o progresso. Em matéria de hora, a multiplicação de estradas de ferro marcou o fim da informalidade. A exatidão do horário dos trens depende da uniformização da hora.

Só para dar uma ordem de grandeza do problema, observe-se que, num país de dimensões relativamente modestas como a França, a hora local podia variar até 40 minutos entre localidades situadas no extremo oeste e no extremo leste do território. A medição padronizada do tempo se impunha.

Hora local – vigente até fins do séc. XIX

Hora local – vigente até fins do séc. XIX

O Império Britânico era a potência dominante à época. Por feliz coincidência, o meridiano que passa sobre Londres, se prolongado para dividir o globo em duas metades, atravessa o Oceano Pacífico justamente numa região despovoada, entre Ásia e América. Assenta como luva para se tornar linha de referência.

Assim ficou combinado: o meridiano de Londres – dito GMT ou «de Greenwich» em referência ao observatório astronômico local – foi adotado como ponto de partida para a divisão virtual do globo em 24 fusos de mesmo tamanho, um para cada hora do dia.

A maior parte dos países contenta-se de um único fuso horário para todo o território, seja por razões práticas, seja porque a superfície cabe inteira num gomo só. Já outros se estendem por dois ou mais fusos. A Rússia, com onze fusos, bate todos os recordes.

Linha internacional da data

Linha internacional da data

Quase todos os países se conformaram em adotar horas inteiras: GMT+1, GMT+5, GMT-3, etc. Fica mais cômodo. Mas é difícil pôr todo o mundo de acordo. Há um clube fechado de países que, mais meticulosos, optaram por hora quebrada: GMT+9½, GMT-5½. Há até um caso excepcional: o Nepal adotou o fuso GMT+5h45, caso único.

ChavezUm belo dia, a Venezuela de Chávez decidiu mudar de fuso horário. A razão invocada foi a adequação da hora oficial à hora solar. Poucos acreditaram. Observadores atribuem a reviravolta à síndrome do “falem mal, mas falem de mim”, atitude típica de mandatários autocráticos. Dia 9 dez° 2007, os relógios de todo o país foram atrasados em meia hora. Vivem agora num fuso sui-generis: GMT-4½.

Ultimamente, a Coreia do Norte – país mais fechado do planeta – considerou que era chegada a hora de apagar o último vestígio da colonização japonesa, encerrada faz exatos 70 anos. Dia 15 ago 2015, todos os relógios daquele triste pedaço de mundo foram atrasados em meia hora. Dando adeus à hora de Tóquio, os coreanos do norte vivem agora no original fuso GMT+8½.

Para o observador atento, é sintomático que dois países governados de modo truculento tenham atrasado os relógios. Vai além de simples coincidência. É marca simbólica de um atraso não de meia hora, mas de um século.

A árvore e o fruto

José Horta Manzano

Você sabia?

Papa Francisco 3Aconteceu na Bolívia em 1867. O embaixador britânico foi recebido em palácio pelo ditador Mariano Melgarejo. Como era costume local, foi-lhe oferecido um copo de chicha, bebida feita com milho fermentado. O embaixador recusou e pediu um chocolate quente. A recusa foi tomada como afronta pelo ditador que, enfurecido, decidiu vingar-se imediatamente.

Mandou vir uma grande tigela de chocolate e obrigou o visitante a engoli-la até a última gota. Em seguida, ordenou que pusessem o diplomata sentado de trás pra diante no lombo de um burro. Assim que o homem foi amarrado na incômoda posição, a população foi chamada para o espetáculo. Com o embaixador em cima, o burro deu três voltas na praça principal de La Paz. Após o episódio, Melgarejo despachou o estrangeiro de volta a Londres. Sem o burro.

Queen Victoria:

Queen Victoria: “Bolivia does not exist”

Victoria, imperatriz britânica e mulher mais poderosa do planeta à época, não apreciou o ocorrido. Em reação epidérmica, ordenou que um destacamento da frota inglesa singrasse imediatamente em direção à Bolívia e bombardeasse a capital. Alertada por seus assessores sobre o fato de La Paz ficar nas alturas, longe da costa e fora do raio de ação da marinha de guerra, Victoria descarregou sua raiva simbolicamente. Dirigiu-se ao mapa-múndi, riscou um enorme X sobre o país ofensor e declarou: «Bolivia does not exist» – a Bolívia não existe.

A história encarregou-se de cumprir (ou quase) a profecia da rainha Victoria. Em menos de um século, a Bolívia perdeu metade do território.

Bolívia - territórios perdidos desde 1867 (clique para aumentar)

Bolívia – territórios perdidos desde 1867
(clique para aumentar)

Ao oferecer ao papa Francisco uma bizarra escultura representando um crucifixo camuflado sobre foice e martelo, señor Morales, atual mandachuva da Bolívia, retomou a tradição nacional de ofensa a estrangeiros ilustres.

Com o deboche, o irrespeitoso presidente logrou a façanha de insultar, ao mesmo tempo:

Interligne vertical 12um chefe de Estado;

um sorridente senhor com idade para ser seu pai;

o chefe da religião seguida por 80% dos bolivianos;

um bilhão de católicos que respeitam seu líder religioso.

Não é coisa pouca.

Señor Morales demonstrou o que todos já sabiam: sua estupidez e sua inépcia para exercer o cargo que lhe foi confiado. Descendente político direto do ditador de 1867, confirmou também o ensinamento daquele sábio provérbio: o fruto nunca cai muito longe da árvore.

Data importante

José Horta Manzano

Você sabia?

Conclamação do 18 junho 1940

Conclamação do 18 junho 1940

Hoje os franceses acordaram com uma desagradável sensação de esquizofrenia.

Tradicionalmente, o 18 de junho é dia de orgulho patriótico. Relembra-se, a cada ano, o primeiro discurso pronunciado pelo General de Gaulle e irradiado pela BBC de Londres.

Em maio de 1940, poucos dias tinham bastado às tropas da Alemanha nazista para atacar, invadir, ocupar e submeter a França. A inesperada e repentina debâcle gerou um salve-se quem puder que desorganizou o país.

De Gaulle - alocução

De Gaulle – alocução

Levas de parisienses e de habitantes de grandes cidades refugiaram-se no interior. O governo desintegrou-se. Um velho marechal, herói da Primeira Guerra, foi chamado para tomar as rédeas do país. Assumida a tarefa, o militar decidiu cessar o combate, entregar os pontos e assinar a rendição. Constituiu-se um governo fantoche, só de fachada. No comando, monitorado pelos invasores, ficou o marechal.

Um militar graduado, mais aguerrido que outros, não se conformou com a situação. Transferiu-se para a Inglaterra – país não ocupado pelos alemães – e pôs-se a organizar, a partir de Londres, a resistência contra os invasores. Seu primeiro ato foi justamente o pronunciamento radiofônico, que hoje completa 75 anos, no qual conclamava os conterrâneos à resistência armada.

Napoleon 2Um outro fato histórico bem mais antigo também faz aniversário neste 18 de junho. Exatamente 200 anos atrás, a derrota das tropas francesas na Batalha de Waterloo(*) punha fim à era napoleônica. Na sequência, o imperador seria desterrado para a Ilha de Santa Helena, onde viveria o resto de seus dias.

Pontes, estações de metrô, praças e avenidas francesas celebram batalhas vitoriosas de Napoleão: Austerlitz, Iéna, Wagram. Já as derrotas, como a batalha perdida de Trafalgar, não são homenageadas. Waterloo é a pior de todas, aquela que freou definitivamente a expansão territorial do país e marcou o declínio do domínio francês sobre a Europa e a consequente ascensão da Inglaterra como primeira potência.

Napoleon 1Na Bélgica, está sendo organizada hoje uma reconstituição da batalha. Centenas de figurantes, todos vestidos a caráter, participam da encenação. Entusiastas, ingleses aplaudem. Franceses apreciam menos.

Uma particularidade é comum ao 18 de junho de 1815 (Waterloo) e ao de 1940 (Alocução de Charles de Gaulle). Ambos os acontecimentos assinalaram o começo do fim de uma era.

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(*) Waterloo é um vilarejo ao sul de Bruxelas, no atual território da Bélgica. A pronúncia na língua local (flamengo) é vaterlô. Uóterlú é o nome do lugarejo lido por um inglês. Falando nisso, Waterloo é também nome de música. Fez sucesso estrondoso quarenta anos atrás quando, cantada pelo grupo sueco Abba, foi vencedora do Concurso Eurovisão 1974.

Nota picante: naquele ano, coube à Inglaterra hospedar a competição. A França não participou. Naturalmente, uma coisa não tem nada a ver com a outra.

Quem quiser recordar a alegre canção Waterloo – gravada ao vivo durante a apresentação no festival – pode clicar aqui.

Osso duro de roer

Wilma Schiesari-Legris (*)

Percy é o nome do cocker spaniel da minha norinha Cate. Seu pelo é anelado e rebelde, da cor do mel, e contém o mesmo néctar que cora seus olhos. Inevitavelmente, o olhar do Percy é tão humano que, se ele não fosse cachorro pelo focinho e pela cauda, seria gente pelo olhar. Tem um olhar que pede amor, secretamente em silêncio, e sabe como proceder.

Cachorro 20Cate conhece Percy com perfeição e vice-versa. Ela ensinou-lhe a fala dos homens e o afago dos deuses. Quando ela se senta, ele se prostra aos pés da dona e espera aquele gesto tantas vezes repetido que começa pelo olhar: levemente caídos, olhos nos olhos, os seus e os dela!

Depois dessa atenção direta e sem divergência, a mão humana e feminina passa entre as orelhas de Percy, rodeia-lhe a face, sobe outra vez para o alto da cabecinha e se prolonga no dorso do animal, que prefere então sentar-se.

Não se trata de repetição mecânica de afagos e carinhos, mas de uma linguagem altamente pontuada de frases de amor de ambos os lados, declarações tantas vezes repetidas no silêncio mútuo que se instala entre ambos, mesmo quando todos nós falamos e gesticulamos juntos em família.

Percy está atento a tudo o que ocorre em seu redor, mas principalmente concentrado nos passeios manuais que se realizam ao sabor do seu corpo canino. Silencioso e receptivo, leva consigo o lugar do amante que por vezes é do meu filho. Mas Percy chegou primeiro e meu filho Olivier conhece o seu lugar, mesmo na classificação amorosa e conivente que existe entre os três.

Cachorro 19Cate e Olivier vivem em Londres e Percy vive em Guildford, terra onde Lewis Carroll escreveu Alice, lugar arranjado com arte e harmonia, a 50 minutos de Londres, onde a cidade ainda não deglutiu completamente a natureza. É um cão farmer no sentido nobre do termo: um gentle dog!

Para aquecer o corpo sempre em busca de calor, normalmente Percy senta-se perto da lareira acesa quando Cate não se encontra em casa. Quando ela retorna, são outros quinhentos! Ele se instalará onde ela o fizer, sentinela de sua dona, no país das maravilhas. Não se moverá a nenhum momento, sentindo o pelo a deslizar na carícia das mãos que o afagam. A respiração continuará normal entre ela e ele e Olivier os observará, sem sequer rosnar um pouquinho…

Cachorro 21Muito asseado e cheiroso, Percy jamais escalará os sofás e os leitos e sequer dirigir-se-á para o interior dos quartos. Montará a guarda, se for preciso, diante da porta fechada da ama, defenderá sua dona de qualquer tentativa de ataque, esperará que ela se desperte antes de precisar partir, dividirá com ela o breakfast e, se for preciso, tomará com ela o chá das 5, molhando, com ajuda da patinha, o cake no nobre líquido!

E seu coraçãozinho de cão diminuirá de tamanho para aguentar a frequência acelerada que provavelmente estraçalharia seu peito quando Cate se levantar para partir com o Olivier. Uma lágrima triste de cachorro vai escorrer na sua carinha desnorteada e ele vai colar a orelha por cima para disfarçar a emoção.

Despedir-se-ão todos e ele ficará com a mãe de Cate, em busca de um espelho que possa atravessar. – Socorro! Estou atrasado! – e, discretamente, sem poder colocar o curto rabo entre as pernas, engolirá um Lexotan para poder dormir.

(*) Wilma Schiesari-Legris é escritora. Edita o blogue IeccMemorias.wordpress.com.

Tresnoitados

José Horta Manzano

Relogio CFF

Hoje, que é domingo, ainda não está dando pra perceber, mas amanhã é que todos vão sentir na pele. Ou na pálpebra. Sentir o quê? A mudança de hora, ora! Todos os países europeus ‒ com exceção da Rússia e de dois ou três vizinhos ‒ entraram na hora de verão este fim de semana.

Como no resto do mundo, a justificativa para impor esse desagradável ritual bianual é poupar energia. Muitos contestam argumentando que os inconvenientes pesam mais que a diminuta economia. É discussão sem fim, que vem dando pano pra mangas e não vai se extinguir tão já.

A primeira experiência concreta de instaurar hora de verão teve lugar na Alemanha, em 1916, em plena guerra mundial. A ideia, considerada genial, foi adotada pelo Reino Unido e pela França naquele mesmo ano.

De lá pra cá, a adoção da mudança de hora foi esporádica. De quando em quando, um país decidia instaurá-la, enquanto vizinhos não tocavam no relógio. Nos tempos em que as comunicações internacionais em tempo real eram reduzidas, a discrepância não incomodava muito.

Mas os tempos mudaram, e a uniformização da prática foi-se fazendo necessária. A partir do início dos anos 80, um após o outro, todos os países europeus foram-se alinhando à rotina.

Relógio solar

Relógio solar

Nos primeiros anos, o Reino Unido, embora adotasse a hora de verão, não mexia em seus relógios ao mesmo tempo que os demais países europeus. A mudança entrava em vigor com defasagem de algumas semanas com relação aos vizinhos. Maldosos, os franceses aproveitavam para repetir que «os ingleses não conseguem mesmo fazer nada como os outros».

Essa excepcionalidade terminou em 1998. Naquele ano, a União Europeia normatizou a prática. Ficou combinado que a hora de verão passasse a vigorar da 1h (GMT) do último domingo de março até às 2h (GMT) do último domingo de outubro.

Relógio moleAgricultores e criadores de gado detestam a medida. Argumentam que vacas, que não usam relógio, devem ser ordenhadas sempre à mesma hora. É grita inútil. A norma que estabelece a dança das horas periga continuar ad vitam aeternam.

Anotemos pois: a partir deste 29 de março, Brasília está distante quatro horas de Lisboa, Dublin e Londres. E cinco horas dos outros países da Europa ocidental.

Falando nas agulhadas que ingleses e franceses adoram aplicar-se mutuamente, ocorre-me que nossa expressão sair de fininho se traduz assim:

Interligne vertical 13em inglês: «take a French leave» (sair à francesa)

em francês: «filer à l’anglaise» (escapar à inglesa).

Mal-educados são sempre os outros, nunca nós mesmos. Interessante, não?

Vamos terminar parodiando o fecho com que Millôr Fernandes costumava encerrar suas historietas: pano rapidíssimo.

A chave da cadeia

Ruy Castro (*)

Desvendaram ― de novo ― o mistério de Jack, o Estripador. Não é a primeira, nem a segunda vez. De trinta em trinta anos, alguém se apresenta como tendo descoberto a identidade do assassino. Jack, como se sabe, foi o homem que, na Londres de 1888, matou cinco prostitutas, mutilou seus corpos, retirou-lhes ovários, útero e outros órgãos. E a Scotland Yard nunca o apanhou.

O suspeito da vez é Aaron Kosminski, imigrante polonês, então com 23 anos, e seu acusador, Russell Edwards, escritor e detetive diletante. Ele diz ter examinado o DNA das manchas de sangue e esperma contidas num xale encontrado junto a Catherine Endowes, a quarta vítima de Jack, e tê-lo confrontado com o patrimônio genético de descendentes diretos de Catherine e de Kosminski. O resultado está no livro Naming Jack the Ripper (Identificando Jack, o Estripador, que não demora a sair por aqui). Já é um best-seller ― como todos sobre Jack nestes 126 anos.

London oldPessoalmente, meu suspeito favorito ainda é o príncipe Albert Victor, neto da rainha Vitória. Pelo menos, Albert tinha um motivo: matar a prostituta que dizia estar grávida dele e eviscerá-la para arrancar o feto. Como o príncipe não sabia direito quem era, o jeito era ir matando até encontrar. Quando aconteceu, ele parou de matar. Um médico da rainha acompanharia Albert em cada crime. Mas, como nos outros casos, nada ficou provado.

Na Inglaterra, há mais de cem livros em catálogo sobre Jack: Jack de A a Z, enciclopédia de Jack, as cartas de Jack, o diário de Jack, guia turístico de Jack, Jack para crianças. Só falta um livro de receitas. E não será o de Edwards que esgotará o assunto.

No Brasil é diferente. Nos casos de corrupção, por exemplo, sabe-se quem foi o ladrão, seu DNA, o nome dos cúmplices, o caminho do dinheiro e quem se beneficiou. Só não se sabe onde fica a chave da cadeia.

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista da Folha de São Paulo.

Como comportar-se em Hong Kong

José Horta Manzano

Você sabia?

Hong Kong ― bondes de dois andares

Hong Kong ― bondes de dois andares

Dia 1° de julho de 1997, quando o território de Hong Kong foi devolvido à China, poucos acreditavam que a mãe-pátria levaria realmente a sério o acordo firmado com o Reino Unido.

Fazia 155 anos que aquele pedaço de chão estava sob domínio britânico ― desde o Tratado de Nanquim, de 1842. Nos anos negros em que a China continental sofria faminta os horrores do regime de Mao e de sua Revolução Cultural, Hong Kong curtia tranquila seu mormaço, protegida de todo mal pelo guarda-chuva do Império Britânico.

Hong Kong ― a bandeira

Hong Kong ― a bandeira

Pelo que ficou acertado entre Londres e Pequim nos anos 1990, o governo chinês se comprometia a manter, pelo menos durante 50 anos após a retrocessão, a relativa autonomia do território, sua moeda própria, seu bilinguismo, seu arcabouço legal, seu sistema político. Até suas próprias regras de tráfego.

Atemorizados, os hongkongueses mais abastados despacharam a tempo sua fortuna para recantos mais acolhedores. Alguns, mais assustados, optaram por solução radical: foram-se de mala e cuia.

Cheguei a perguntar a alguns hongkongueses conhecidos meus se não estavam amedrontados com a perspectiva de a cidade ser encampada pelo gigante chinês. Invariavelmente respondiam todos que, como não eram endinheirados, nada tinham a temer.

Tinham razão os que não se assustaram. A pátria-mãe cumpriu o prometido. Hoje, passados 17 anos, Hong Kong leva vidinha tranquila de região especial administrativa. Enquadra-se na filosofia «um país, dois sistemas», uma especificidade chinesa.

Nada mudou ou quase. A região especial manteve sua administração própria, suas leis, sua moeda, sua bandeira. Até a organização do tráfego foi mantida: em Hong Kong circula-se pela esquerda, à moda inglesa.

Hong Kong ― bairro de escritórios

Hong Kong ― bairro de escritórios

A única alteração visível é um acréscimo bem-vindo. A língua chinesa padrão, aquela que se fala em Pequim, é agora ensinada desde a escola elementar, coisa que não ocorria no tempo dos britânicos. Com isso, os pequerruchos navegam entre três falares: o cantonês (língua local), o mandarim (chinês padrão) e o inglês. Uma riqueza.

Hong Kong ― comércio popular

Hong Kong ― comércio popular

A fronteira entre o minúsculo território e a China continental continua lá, mais bem guardada que nunca. Se assim não fosse, a pequena língua de terra perigava afundar sob o peso de milhões de migrantes.

Estes últimos anos, a subida do nível financeiro tem despertado em muitos chineses a curiosidade de conhecer o antigo território britânico. Lá não se entra assim, sem mais nem menos: precisam de um visto. Os que podem comprovar ter certa folga financeira não têm problema, que a porta está sempre aberta.

Hong Kong ― vista aérea

Hong Kong ― vista aérea

Para quem, como nós, vive do outro lado do globo, pode parecer exagero. Mas é verdade: uma barreira civilizacional separa os chineses dos hongkongueses. Para os que atravessam a fronteira pela primeira vez, o choque cultural é garantido. Os da China continental são vistos em Hong Kong como primitivos, incultos, broncos. Isso é fonte de mal-entendidos e de tensões.

Para baixar a voltagem, a mui oficial agência de notícias Nova China publicou uma lista de conselhos destinada aos cidadãos que tencionam visitar Hong Kong. Eis algumas das dicas:

HK ― regras de comportamento

HK ― regras de comportamento

Fale baixo
Evite chocar-se com as pessoas ou empurrá-las
Não converse aos gritos com pessoas distantes
Trate o pessoal de serviço com polidez
Evite pechinchar exageradamente
Não coma nem beba no metrô
Não atire lixo ao chão e não cuspa na rua
Só viaje na primeira classe se tiver comprado o bilhete

Espera-se que todos sigam as sugestões afastando, assim, todo risco de guerra civil.

Transporte urbano

José Horta Manzano

Você sabia?

Dizem que a China é país muito corrupto ― pode ser. Dizem que o sistema de governo é extremamente autoritário ― parece que é. Dizem que grandes desigualdades sociais subsistem ― é certeza.

O que não se diz tão frequentemente é que o salto dado pelo país em vinte anos não ocorreu por obra e graça do Divino. Foi fruto de planejamento, de aplicação, de trabalho.

Um governo errático como o nosso, com critérios efêmeros e mudanças diárias, jamais chegará ao ponto a que chegaram os chineses. O modus operandi do governo brasileiro é paradigma de ineficiência.

Muitos problemas subsistem na China, mas é indisfarçável que o governo central daquele país tem investido na preparação do futuro. Trabalham duro no sentido de garantir aprovisionamento em matérias primas e desenvolvimento tecnológico.

Pequim tem-se mostrado menos preocupada com futebol e mais com o desenvolvimento da capacidade técnica e intelectual do povo. Quem planta, colhe.

Entre outros pontos, o governo cuidou de dotar suas metrópoles de atributos que facilitam a vida moderna. Como o transporte, por exemplo. Em janeiro passado, foram inauguradas as mais recentes linhas de metrô de Xangai. Com as linhas 12 e 16, a rede de transporte metropolitano da maior metrópole chinesa atinge a extensão de 567 quilômetros ― recorde mundial.

O programa de construção do metrô de Xangai prevê acrescentar, nos próximos anos, outros 230 quilômetros ― mais que a extensão total do metropolitano parisiense.

Metrô do Rio e de Xangai: evolução nos últimos 20 anos

Metrô do Rio e de Xangai: evolução nos últimos 20 anos

Para efeito de comparação, aqui vai a extensão atual de alguns metrôs:

Interligne vertical 11Xangai:           567km
Londres:          402km
Nova York:        373km
Moscou:           325km
Madrid:           293km
Cidade do México: 227km
Santiago:         103km
Istambul:          82km
São Paulo:         74km
Rio de Janeiro:    41km

Na China, não se organizam passeatas pedindo melhora na mobilidade urbana. Primeiro, porque é proibido. Segundo, porque não precisa.

Interligne 18bObs: Com informações do ReporterGazeta.com.br

A última democracia?

José Horta Manzano

O site de informação Slate traz ― tanto em sua versão inglesa quanto na francesa ― artigo assinado por Anne Applebaum com interessante visão das futuras Copas do Mundo.

«Será o Brasil a última democracia a organizar uma Copa do Mundo?» ― é a pergunta que encabeça o artigo.

A jornalista constata que as obras grandiosas construídas especialmente para Copas e Jogos Olímpicos tendem a tornar-se elefantes brancos. Estádios sul-africanos, japoneses, sul-coreanos e pequineses, erigidos especificamente para esses grandes encontros esportivos, são hoje subutilizados.

by Paulo Ito

by Paulo Ito

As estruturas de concreto levantadas para os Jogos Olímpicos de Inverno de Sotchi, na Rússia, já começam a trincar. A reciclagem pós-olímpica do leste de Londres, tão anunciada pela mídia, ainda não é realidade. Onde quer que se tenham realizado Copas e Olimpíadas, despesas foram muito superiores ao orçamento.

A única diferença entre outros países e o Brasil é que, para nós, o arrependimento chegou antes. Já faz meses que o povo brasileiro se manifesta contra os gastos irresponsáveis que nosso governo se comprometeu a fazer.

O mundo tem observado a reação dos brasileiros com olhos mais atentos do que se imagina. Estes últimos meses, Alemanha, Suíça, Suécia e Polônia, assustadas com as despesas, retiraram sua candidatura para organizar os JOs de Inverno.

Munique (Alemanha) e Davos-St.Moritz (Suíça) renunciaram na esteira da recusa que seus cidadãos exprimiram nas urnas. O povo de Cracóvia (Polônia) foi o mais radical: 70% dos eleitores rechaçaram os Jogos.

Pelo andar da carruagem, as únicas candidaturas que deveriam se manter para os Jogos de Inverno 2022 são Pequim (China) e Almaty (antiga Alma-Ata, Cazaquistão). Não por acaso, ambas as cidades estão em países autoritários, onde o povo não tem como manifestar sua opinião.

Porto Alegre, 12 jun° 2014 Foto Marki Djurica, Reuters

Porto Alegre, 12 jun° 2014
Foto Marki Djurica, Reuters

A mesma razão parece explicar a escolha das duas próximas sedes da Copa do Mundo: a Rússia e o Catar. Ambos apresentam a garantia de que não haverá contestação nem protesto. Quanto a algum referendo incômodo, nem pensar ― o ordenamento jurídico desses países desconhece esse instrumento.

Como outros derivativos, o esporte é ópio do povo. Dá prestígio e dá lucro. As Copas e os Jogos Olímpicos ― o zênite do esporte mundial ― são hoje em dia controlados por seleta nomenklatura. E, naturalmente, continuam sendo financiados pelos manés que somos nós.

Visão panorâmica

José Horta Manzano

Aproveitando o fim de semana, vamos dar uma espiada em torno pra ver o que é que andam dizendo de nós.

Le Brésil reste sur un chaudron social
O Brasil continua em cima de um caldeirão social
Manchete do diário argelino Liberté, num apanhado da convulsão social que sacode o país-sede da «Copa das copas».

Interligne 28aBrasilien: protester mot VM-2014 växer
Brasil: protestos contra Copa-14 crescem
Manchete do site A Voz da Rússia, em sua versão em língua sueca. Traz um relato dos protestos do dia 15 de maio.

Interligne 28aBrasilien im Chaos ― Vier Wochen vor der WM: Panzer am Strand!
Brasil em caos ― Quatro semanas antes da Copa: tanques de guerra na praia!
Reportagem do sensacionalista Bild, o jornal de maior circulação na Alemanha. Conta o que aconteceu quando da greve de policiais no Recife.

Interligne 28aMundial en Brasil, ¿una pesadilla para los viajeros?
Copa no Brasil: um pesadelo para os turistas?
Artigo do Forbes (edição mexicana) sobre os desafios que os turistas que visitarem o Brasil durante a Copa deverão enfrentar.

Interligne 28aIl Brasile rischia di perdere le Olimpiadi 2016
O Brasil está arriscado a perder as Olimpíadas de 2016
Artigo intrigante do Il Secolo XIX, tradicional diário de Gênova, Itália. Revela rumores de que, à vista do atraso na preparação da infraestrutura, o CIO (Comitê Internacional Olímpico) estaria estudando um plano B: a transferência dos jogos de 2016 do Rio para Londres.

Interligne 28aLe Mondial de tous les dangers
A Copa de todos os perigos
Artigo do jornal francês L’Alsace. Dá uma visão dos acontecimentos recentes e diz textualmente: «Infelizmente, a um mês do início da competição, a escolha do Brasil para acolher a Copa aparece como aposta de alto risco, transformando esta edição no «Mundial de todos os perigos».

Interligne 28aBrasilien: Fußball statt Schule
Brasil: futebol em vez de escola
Manchete de reportagem da rede de televisão Euronews (versão alemã). O texto descreve a comoção que toma conta do Brasil. O título sintetiza.

Copa das copas 2Quando «lutaram» para que a organização da Copa fosse atribuída ao Brasil, nossos medalhões tinham duas intenções:

Interligne vertical 141) dar uma dentadinha (ou dentadona, depende do apetite) onde fosse possível;
2) mostrar ao mundo a imagem de um Brasil evoluído, rico, poderoso, harmônico, feliz.

Ninguém tem dúvida quanto à primeira intenção: foi amplamente alcançada. Já quanto à segunda… ai, ai, ai.

Mas os figurões devem estar se lixando. Já levaram seus trocados. A vergonha fica para nós.

Rodízio eleitoreiro

José Horta Manzano

Desde que veículos automóveis proliferaram, as grandes aglomerações passaram a sofrer forte poluição atmosférica. Quando chove ou venta, o problema diminui. Já quando fica aquela pasmaceira, sem chuva nem vento, as partículas finas não se dispersam. Respirar essa sopa química é fonte de males diversos.

Cada metrópole tem lidado com o problema a seu modo. Há as que não fazem nada ― a maioria. Deixam como está para ver no que dá.

Algumas adotam sistema permanente de rodízio de veículos, como é o caso da cidade de São Paulo. Com isso, as autoridades conseguem retirar da circulação 20% da frota. Não é muito, mas sempre ajuda.

Estocolmo: pedágio urbano

Estocolmo: pedágio urbano

Outras, como Londres e Estocolmo, optaram pelo pedágio urbano. É medida mais vigorosa. Transpor os limites estabelecidos custa caro e faz que automobilistas pensem duas vezes antes de fazê-lo.

Paris não impõe, em princípio, nenhuma medida destinada a refrear o volume de tráfego. A abundante oferta de ônibus e de metrô, aliada à raridade de vagas de estacionamento, se encarrega de convencer a população a utilizar transporte público.

No entanto, depois de quase duas semanas sem chuva e sem vento, o ar parisiense ficou estes dias saturado de porcariada. Os habitantes, especialmente os mais frágeis ― idosos e crianças pequenas, começaram a apresentar problemas respiratórios.

O nó da questão é que, na França também, este é ano eleitoral. Cada um dos mais de 36 mil municípios do país deverá escolher prefeito. Medidas que atrapalham o tráfego são, por natureza, impopulares. Mas… com eleição ou não, cairia muito mal se o governo mostrasse despreocupação com a saúde do povo. Que fazer?

Resolveram cortar a maçã ao meio ― nem muito pra lá, nem muito pra cá. Esperaram até que os serviços de meteorologia predissessem o fim da calmaria atmosférica. Quando, enfim, vento e chuva estavam para chegar, o primeiro-ministro decidiu instaurar um rodízio pra lá de restritivo.

Paris: rodízio urbano Crédito: François Guillot, AFP

Paris: rodízio urbano
Crédito: François Guillot, AFP

O revezamento, baseado no algarismo final de cada placa, exclui da circulação metade da frota. Em dia par, circulam aqueles cuja placa tem número par. Em dia ímpar, vice-versa.

O sistema começou na segunda-feira, 17 de março, e se aplicou ao município de Paris e aos municípios vizinhos. Os congestionamentos habituais diminuíram 60%, um espetáculo! Em compensação, o descontentamento dos que não puderam sair de casa quase gerou uma nova Revolução Francesa.

A experiência durou apenas um dia. Já foi suspensa. Terá servido para acalmar alguns e para enervar outros. Não se pode agradar a gregos e a troianos. Será que a população gostou? Daqui a algumas semanas, as urnas vão tirar as dúvidas.