Na fila dos passaportes

José Horta Manzano

Até em Cuba os ventos estão mudando de quadrante. A cerca de arame farpado virtual que constringia os cidadãos e os impedia de deixar a ilha está-se afrouxando. Nos tempos em que as farpas da cerca eram ainda mais afiadas, aquela blogueira que afrontava o regime teve de ter muita paciência e insistir durante anos pra conseguir um visto de saída.

Passaporte brasileiro 2O Brasil nunca foi de segurar cidadãos. Desde que os primeiros aventureiros e piratas aqui aportaram, entrou e saiu quem quis. Desde que o cidadão tivesse meios de financiar a viagem, tinha liberdade pra ir e pra vir. Mas as coisas mudam ‒ e nem sempre na boa direção.

Saiu estes dias uma informação que nos aproxima da Cuba dos anos mais espinhudos. Passaporte solicitado à PF na cidade de São Paulo leva quatro meses para ser emitido. Trocado em miúdos, se o distinto cidadão se candidatar agora, tem chances de receber o documento em novembro. Enquanto isso, pode esperar sentado.

A razão da demora? Falta papel. Falta papel… Falta competência, cáspite! Não consta que tenha havido aumento brusco na demanda de passaportes. Portanto, o problema não vem de lá. O que se deduz é tremenda falta de planejamento. Alega-se que, na Casa da Moeda, uma máquina deixou de funcionar. Toda máquina é susceptível de enguiçar hoje ou amanhã. Prevendo isso, toda organização séria tem, guardado na gaveta, um plano B. Na Casa da Moeda, ainda acreditam em Papai Noël.

Fila do passaporte, São Paulo

Fila do passaporte, São Paulo

Foi a PF quem teve de improvisar seu plano B. Mediante cobrança de uma «taxa de emergência», expede o documento em prazo mais curto. Atenção: não se trata de passaporte de emergência, aquele que sai em 24 horas. É modalidade intermediária, uma novidade. Mostra que toda lei é feita pra ser burlada.

Não sei o que ressente o distinto leitor. Quanto a mim, tenho às vezes a sensação de estarmos andando pra trás.

Interligne 18cNota difícil de acreditar
Atualmente, há 191 mil pessoas na fila, todas esperando pelo precioso documento. Um número pra cubano nenhum botar defeito.

Nota birrenta
O assunto saiu da atualidade. Assim mesmo, fico me perguntando se a família Lula da Silva devolveu os passaportes diplomáticos que nosso guia concedeu ‒ indevidamente ‒ a todos os membros da famiglia, no seu último dia de mandato. Abuso de autoridade não é crime? Taí mais um pra adicionar ao prontuário do chefe-mor.

Perdão da pena

José Horta Manzano

Faz já uns dias que o Procurador-Geral da República pediu a soltura de senhor José Dirceu, conhecido «guerreiro do povo brasileiro», atualmente na cadeia. O procurador-geral há de estar entre os que acham que idade avançada dilui a culpa do criminoso.

Não sou da mesma opinião. Não acho que velhice seja doença nem defeito. É uma fase da vida como qualquer outra, com suas regalias e suas deficiências, suas vantagens e seus problemas. E olhe lá, que falo de cátedra. Criminoso é criminoso, pouco importa a idade.

Chamada G1, 28 jun 2016

Chamada G1, 28 jun 2016

Concordo que se dê tratamento especial a doentes, inválidos e a todos os que têm capacidade diminuída por obra do acaso, por fatores independentes de sua vontade. Condoer-se da sorte de criminosos unicamente porque chegaram aos setenta é rematado exagero.

Fico pensando em Bernard Madoff, aquele estelionatário americano. Muitos hão de lembrar do personagem que fez muitas dezenas de vítimas. Aquele criminoso foi para trás das grades quando tinha 70 anos, exatamente a mesma idade que José Dirceu tem hoje. Condenado a 150 anos de prisão em regime fechado, o espertalhão só tem uma esperança de sair um dia: viver até os 220. Vai ser difícil.

Chamada Estadão, 28 jun 2016

Chamada Estadão, 28 jun 2016

Analisando bem, os «malfeitos» de Madoff, no fundo, prejudicaram um pequeno círculo de instituições financeiras e de pessoas físicas. Grandes ou pequenos, eram investidores. Todo investimento comporta riscos. Assim funciona o capitalismo.

Já os «malfeitos» de Dirceu são de outra natureza, bem mais abrangentes e infinitamente mais cruéis. Foram perniciosos ao atingir justamente os mais frágeis. Quanta gente terá morrido por falta de assistência em hospitais onde não havia dinheiro nem pra comprar esparadrapo?

Toda a mídia anunciou que o procurador-geral era favorável ao «perdão da pena» do antigo chefão caído em desgraça. Perdão da pena? Achei esquisito. Vamos por partes.

Chamada Agência Brasil, 28 jun 2016

Chamada Agência Brasil, 28 jun 2016

Depois de julgado e condenado, todo criminoso cumpre a pena que lhe tiver sido imposta. Se perdão houver, será concedido ao condenado, não à pena. Em outros termos, perdoado será o condenado, aquele que cometeu o crime.

O termo perdão costuma carregar ideia de julgamento moral, religioso, divino. Para bem separar alhos de bugalhos, melhor será recorrer ao verbo indultar ou ao verbo comutar. Indulta-se o indivíduo, comuta-se a pena.

Corrigindo, fica assim: o procurador-geral é favorável à comutação da pena imposta ao figurão caído. Ou ainda: o procurador-geral é favorável à concessão de indulto ao condenado. Agora, está perfeito.

Partido Comunista

José Horta Manzano

Entre o fim da última guerra e o fim da década de 80, a Itália chegou a ter o maior e mais importante partido comunista europeu ‒ com exceção da União Soviética, naturalmente. Nas eleições de 1976, no auge da popularidade do partidão, 34,4% dos eleitores italianos deram seu voto a comunistas, um recorde.

O outros países da Europa não ficavam muito atrás. Na França, na Espanha pós-franquista e no Portugal pós-Salazarista, a extrema esquerda chegou a assustar pelo grande número de eleitos. Mas nada é eterno.

Partido 2A queda do Muro de Berlim, em 1989 escancarou o esfacelamento da União Soviética e assinalou o fim da utopia. O fracasso do sistema, após décadas de uso em uma dezena de países, era evidente. O resultado tinha sido a criação de pequena classe de privilegiados e a coletivização da pobreza. As consequências da débâcle foram inevitáveis.

Já no início dos anos 90, o partidão italiano foi dissolvido. O espanhol, que também chegou a ter muitos afiliados, não consegue ser representado na assembleia. O britânico e o alemão, com número restrito de membros, tampouco estão presentes no parlamento.

Na França, surpreendentemente, o partido resiste. Não só resiste, como mantém orgulhosamente o nome: Parti Communiste Français. Não só mantém o nome, como organiza anualmente a Fête de L’Humanité, uma espécie de quermesse com comidas, bebidas, discursos, presença de políticos importantes e aparição garantida nos telejornais do dia. Não só organiza festas, mas também festivais que chegam a atrair 600 mil pessoas.

Jornal 4Além de festas e festivais, publicam, até hoje, um jornal. Órgão oficial do Partido Comunista Francês, o jornal L’Humanité é quotidiano. A média é de 40 mil exemplares vendidos a cada dia, verdadeira façanha nestes tempos de internet. Quanto à ideologia, pouco mudou. Continuam a dividir o mundo entre «nós & eles», insistindo na estratégia da vitimização dos oprimidos. De cada notícia, continuam a destacar o lado que lhes interessa. Fazem cara de paisagem para o resto.

Em artigo de 29 junho, insistem em afirmar que o Brasil sofre atualmente um golpe de Estado. Alegam que dona Dilma, eleita democraticamente, está sendo destituída por um golpe parlamentar. Esquecem de mencionar que os parlamentares, exatamente como a presidente, também foram democraticamente eleitos. Silenciam sobre o fato de nossa Constituição estar sendo cumprida à risca. Afirmam que o alegado golpe está sendo dado para fragilizar e destruir conquistas sociais. E por aí vai, o artigo é longo e irritante.

Sede do Partido Comunista Francês, Paris O projeto é de Oscar Niemeyer, num misto de Senado Federal e Edifício Copan

Sede do Partido Comunista Francês, Paris
O projeto é de Oscar Niemeyer. Lembra um misto de Senado Federal e Edifício Copan

Fico um tanto surpreendido com a ingenuidade de quem acredita nessa história de que a eternização da pobreza interessa aos poderosos. Aos políticos que se sustentam do voto dos miseráveis, certamente interessa a manutenção da pobreza. Já a industriais, a banqueiros, a comerciantes e a outros empreendedores, parece-me evidente que, quanto maior for o poder aquisitivo da população, mais felizes estarão.

Visão pessoal é livre. Que cada um acredite no que quiser.

God save the Vikings!

José Horta Manzano

Com tanto problema em roda, o distinto leitor dificilmente vai encontrar tempo e ânimo pra assistir a um jogo de futebol. Principalmente se ele cair em plena segunda-feira à tarde. E com mais razão ainda se as seleções em campo forem Inglaterra e Islândia, países tão distantes e tão assimétricos.

Aconteceu hoje nas oitavas de final da Eurocopa. De um lado, estava um time forte, representando uma Inglaterra de 53 milhões de habitantes, pátria do futebol. Do outro, uma seleção desconhecida, pescada num país de 330 mil pessoas, perdido pelas bandas do Polo Norte.

A animadíssima torcida islandesa

A animadíssima torcida islandesa

Todos achavam que a Inglaterra engoliria a Islândia numa garfada só. Ninguém imaginava que aqueles vikings fossem osso tão duro de roer. Não jogam, certamente, um «futebol champanhe», mas são tenazes, aguerridos, destemidos e incansáveis. Têm a ousadia daqueles de quem nada se espera.

O impensável aconteceu. A poderosa seleção inglesa, dirigida pelo venerando Roy Hodgson, levou a maior humilhação de sua história. Acaba de perder da pequena Islândia por 2 x 1.

Eliminados os britânicos, agora são os vikings que vão enfrentar o dono da casa nas quartas de final. França e Islândia se boxearão domingo que vem às 4h da tarde (hora de Brasília). O time islandês realizou verdadeira façanha, um segundo Brexit!

A Eurocopa e seus nomes

José Horta Manzano

Já a caminho das quartas de final, a Eurocopa 2016 tem quebrado alguns recordes. Até agora, cada partida teve, em média, 1,6 gols ‒ o número mais baixo desde mil novecentos e nada. A crise anda feia. Estão economizando até gols, o sal e a pimenta do esporte. A continuar assim, teremos de decretar vitória por pontos, como no boxe.

Algumas curiosidades já apareceram. A Irlanda venceu a Itália, uma das favoritas. A Islândia, considerada a equipe mais fraca, empatou com Portugal e com a Hungria. E venceu a Áustria. Dizem que trinta mil islandeses ‒ dez por cento da população do país! ‒ estão na França para torcer pela seleção.

A torcida islandesa

A torcida islandesa

Como de costume, o nome de certos jogadores, especialmente do leste europeu, são impronunciáveis. E alguns até soam engraçado. Na categoria dos trava-línguas, notei dois poloneses imbatíveis: Błaszczykowski e Jędrzejczyk, nomes reservados para iniciados. Se sua língua ainda estiver inteira, tente pronunciar Srna, sobrenome do capitão do time croata. Dá impressão de que está faltando um pedaço, não?

Um caso curioso em que o selecionador, figura respeitada, tem sobrenome combinando com a função é o do treinador croata. O homem se chama Cacic. Pra cacique nenhum botar defeito.

Entre os engraçados, selecionei alguns. O time croata conta um atacante que corre o tempo todo e tem nome apropriado: chama-se Vida. Conta também com um fortíssimo jogador, atualmente no Barça, que leva o desesperador nome de Rakitic.

O polonês Błaszczykowski

O polonês Błaszczykowski

A República Tcheca nos brindou com um certo Kolar, uma pérola. Sem esquecer Plasil, tiro e queda para jogos enjoativos.

Na Albânia, o selecionado Cana jura de pés juntos nunca ter recebido propina na vida. Nessas horas, seu colega Sadiku deixa escapar um sorrisozinho malandro.

A seleção italiana tem um jogador rapidíssimo, daqueles que se reservam para entrar só no fim da partida, quando a decisão está por um fio. Leva sobrenome um tanto incongruente: Immobile. Também da Itália é o jogador Pellè, sobrenome que se pronuncia exatamente como o apelido de Edson Arantes do Nascimento.

A Turquia já abandonou o torneio. Eliminados no primeiro turno, os jogadores já voltaram pra casa. Também, pudera. Com um goleiro chamado Babacan, não tinha como ir pra diante.

O croata Plasil

O croata Rakitic

Importados
Na categoria made in Brazil, a Eurocopa 2016 não fez feio. Tivemos o alagoano Pepe, naturalizado português; o mineiro Guilherme, naturalizado russo; e ainda Thiago Alcântara, filho de paraibano, que nunca foi italiano embora tenha nascido quando o pai era jogador na Itália, e que acabou se naturalizando espanhol.

Isso tudo sem contar os que já nasceram com dupla cidadania, como o catarinense Eder e o paulista Thiago Motta que jogam pela seleção italiana. Tem mais um: o paranaense Thiago Rangel Cionek, que evolui no time polonês.

O francês Louis Picamoles

O francês Louis Picamoles

Nota picante
Diferentemente do que acontece na Grã-Bretanha, na Austrália, na Nova Zelândia e na Argentina, o rugby não é popular no Brasil. O esporte da bola oval é rude, ríspido, violento, próprio pra quem não tem medo de se machucar. É bastante difundido na França, país que conta com um dos melhores jogadores do mundo apesar do sobrenome incômodo. Chama-se Picamoles. O distinto leitor há de se lembrar que o «s» final não é pronunciado em francês.

Vergonhas

José Horta Manzano

Na Europa, meia dúzia de companhias aéreas oferecem bilhetes a preço extraordinariamente baixo. Todas elas juram que, para reduzir drasticamente o custo, não descuidam da manutenção dos aparelhos nem da segurança. Se o fizessem, seria suicídio certo. No instante em que se acidentasse um avião por falha na manutenção, a companhia iria pro beleléu.

Elas se valem da optimização de numerosos parâmetros. Conservando a segurança, podam o que pode ser podado. Não servem lanchinho. A duração das escalas é reduzida. A logística é estudada milimetricamente para resultar em rendimento máximo. O próprio pessoal de bordo encarrega-se da limpeza da cabine entre voos. As rotas servidas são as mais frequentadas.

Avião 14Três dessas companhias são baseadas na Irlanda e nas Ilhas Britânicas. A irlandesa RyanAir é uma delas. Só na Europa, serve 31 países e começa a considerar seriamente dar continuidade a sua expansão planetária. Como as outras, oferece passagem a preços muito atraentes. Em certos casos, sai tão barato que a gente se pergunta onde está a mágica.

Infelizmente, nosso país não está no visor de nenhuma dessas empresas. A RyanAir, talvez a mais ousada delas, já pôs um pé no México, outro na Colômbia e vai começar a operar na Argentina em 2017. Mais que isso, está estudando entrar em todos os mercados da América do Sul. Corrigindo: em quase todos. O Brasil, infelizmente, não faz parte dos mercados visados. Por quê?

Em entrevista ao jornal argentino La Nación, Mr. Declan Ryan, cofundador e presidente da companhia, declarou com todas as letras o seguinte: «Iniciamos negociaciones en todos los países de la región menos en Brasil ya que hay mucha corrupción.» A frase dispensa tradução. Gostaríamos muito de ter ido dormir sem essa.

América do Sul sem Brasil

América do Sul sem Brasil

Não precisa ser muito perspicaz pra entender a mensagem. O estrago impingido ao país pelo lulopetismo não só saqueou empresas mas também empacou o país. Como efeito colateral, refreia investimentos externos que trariam benefícios a todos.

Depois que, no começo do século, a Argentina foi atingida por uma débâcle econômica gerada pela má gestão,  o país passou 15 anos comendo o pão que o diabo amassou. Pela mesma lógica, é razoável prever que o Brasil só volte a recuperar a atratividade perdida lá pelo ano 2030.

Pra você ver, amigo, aonde podem levar a ignorância, a incompetência e a irresponsabilidade no trato da coisa pública.

Competição de malandros

José Horta Manzano

Este aqui levou 150 milhões. Aquele ali devolveu 70 milhões. O empresário X confessou ter dado 200 milhões de propina. O empresário Y reconhece generosidade de 90 milhões. A mulher do Cunha, só de comprinhas pessoais feitas com dinheiro de bolso, gastou um milhão. Estamos falando de dólares em todos os casos.

Perto desses, os malfeitos conhecidos de Luiz Inácio da Silva, apontado por muitos como o «capo di tutti i capi», são irrelevantes. Um sítio com pedalinhos de lata e um apartamento num feio edifício de frente para uma praia apinhada. Mais uns caraminguás ciscados pelos herdeiros. Francamente, algo está fora de esquadro.

by Amarildo Lima, desenhista capixaba

by Amarildo Lima, desenhista capixaba

Duas hipóteses podem ser propostas. A primeira supõe que o antigo sindicalista tenha sido ludibriado ‒ levado no bico, como ele diria. Companheiros mais espertos enchiam os bolsos com o grosso da rapina enquanto ele era feito de bobo, entretido com migalhas, como índio iludido com lantejoulas. Se assim for, nosso guia há de estar mordendo os dedos de raiva por ter sido tão ingênuo.

A segunda hipótese presume que o sítio e o apê não sejam senão cortina de fumaça que esconde gigantesco tesouro muito bem enrustido.

Se eu tivesse de escolher entre as duas hipóteses, ficaria com a segunda. Costumo duvidar da propalada inteligência de nosso guia, mas não chego a acreditar que seja um bocó de mola.

Seja qual for a resposta, saberemos um dia. De qualquer maneira, Luiz Inácio, já setentão, não parece ter boas perspectivas de tranquilidade nos anos que lhe restam. Que seja arquimilionário ou apenas proprietário duns pedalinhos de lata tanto faz. Ver desmoronar sua imagem e escorrer pelo ralo seu projeto megalômano é punição dantesca.

Não viaje, fique em casa

José Horta Manzano

Li ontem que a Câmara Federal converteu em lei uma medida provisória que reduz de 25% para 6% a mordida que a Receita Federal dá em cada montante que brasileiros enviam ao exterior.

O distinto leitor pode até nem acreditar, mas este blogueiro não sabia que o fisco cobrasse imposto dito «de renda» sobre remessas que cidadãos comuns fazem para o estrangeiro. Não sei se é uma «jabuticaba» (especificidade brasileira) ou se existe em outras terras. O fato é que eu nunca tinha imaginado que tal aberração pudesse existir.

Guichê 1Embora a alíquota tenha sido suavizada, o pedágio continua a ser cobrado a cada envio de fundos. Que seja para viagem de turismo, de negócios, de serviço, de treinamento, tanto faz. Até fundos enviados por cidadãos viajando em missão oficial são puncionados. É uma enormidade. A cobrança é injusta, burra e extravagante.

É injusta porque soa como punição imposta aos que tiverem ousado trabalhar, economizar e alcançar condições de fazer turismo fora do país. A mensagem profunda é: «Não vale a pena se esforçar para subir na vida, cidadão. Toda ascensão social será castigada!»

É burra porque penaliza empresários em viagem de negócios ou de serviços. Passa por cima do fato que nosso país, com parque industrial em desmonte acelerado, busca desesperadamente clientes e oportunidades novas no exterior. Esse imposto burro só faz aumentar o custo Brasil. Viagens de negócios deveriam, ao contrário, ser incentivadas.

Dinheiro 5É extravagante porque pune viagens de treinamento. A tecnologia invade, cada dia com mais força, a vida do cidadão comum. Ideias novas, aparelhos novos, dispositivos novos, técnicas novas requerem operadores bem formados. Se um cidadão viaja ao estrangeiro para receber treinamento, voltará sabendo mais do que sabia ao deixar o país. Deve-se concluir que a ideologia oficial é barrar aos brasileiros o caminho do aprendizado?

É verdade que, desde sempre, o Brasil cultivou seu isolamento e seu provincianismo. Tempos houve em que, para poder viajar ao exterior, a gente precisava de um visto de saída expedido pela Polícia Federal. Isso felizmente acabou, mas sobrou esse imposto. Podia fazer sentido em outras épocas. Hoje, combina com Cuba e Venezuela. No Brasil, dá recado ambíguo.

Interligne 18hNota a jato
Espero que o fisco federal tenha pensado em cobrar o devido imposto “de renda” de todos os que, pressionados pela Lava a Jato, estão devolvendo o que roubaram. Afinal, essa bolada saiu do Brasil livre de impostos. Sem prejuízo do processo penal, que o devido tributo seja calculado pela alíquota de 25%, que estava em vigor à época. E que se aplique multa e correção.

Caixa preta

José Horta Manzano

Vivemos no século 21. Todo o mundo tem telefone no bolso. Com dois cliques, sem se levantar da cadeira, qualquer um pode ter acesso ao outro lado do planeta. Coisas de ficção científica, como conversas ao vivo com som e imagem, tornaram-se corriqueiras e estão ao alcance de qualquer um.

Liga-se a tevê e pronto: lá está uma emissora internacional mostrando, ao vivo, um incêndio no Bangladesh, uma inundação na Mongólia, um tumulto em Moscou, o enterro de um figurão africano.

Caixa preta

Caixa preta

Li ontem que um jovem americano sobrevive, há ano e meio, sem coração ‒ no sentido próprio. Enquanto não aparece um órgão compatível para transplante, o que lhe foi retirado vem sendo substituído por uma maquineta de 6kg acondicionada numa mochila que o moço carrega às costas. O rapaz se movimenta, anda, sai à rua, fala, pensa, vive vida quase normal.

Mister Obama sabe, em tempo real, o que se trama em gabinetes de governos estrangeiros importantes. Mister Cameron, Frau Merkel, Mister Xi Jinping e Господин Putin(*) também sabem.

O distinto leitor pode até conhecer o site que vou nomear. Se não for o caso, aqui vai a dica. Quando estiver à espera de um conhecido que está viajando de avião, o interessantíssimo site Flight Radar é de grande utilidade. Serve também como passatempo pra momentos de farniente. Com três cliques, aparece o mapa-múndi com todos os aviões que voam naquele momento. Em movimento e em tempo real, com zoom, identificação e roteiro de cada aparelho. Um assombro.

Faz um mês, um avião da companhia EgyptAir desapareceu dos radares quando sobrevoava o Mediterrâneo. Destroços evidenciam que o aparelho se precipitou no mar. A França deslocou navios da Marinha, dotados de sonares altamente sensíveis, para a região onde se supõe que o avião tenha despencado. Faz quatro semanas que buscam as caixas pretas que encerram dados técnicos do voo e gravação dos sons da cabine. Na realidade, a cor das caixas é laranja, o que não altera o problema.

Imagem do site Flight Radar clique para ampliar

Imagem do site Flight Radar
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Nada garante que os objetos sejam um dia encontrados. Ainda que localizados, não é certo que estejam em condições de revelar os segredos que contêm. Supondo que não se as localizem nunca, ficaremos sem saber o que aconteceu. Erro humano, ação deliberada, falha mecânica, atentado terrorista? É possível que nunca se venha a conhecer a verdade.

Tendo na mão um telefone conectado a um satélite, qualquer um pode ser localizado, ouvido e gravado ainda que se encontre em pleno Sahara. Como é possível que conversas e dados de voo não seja registrados em tempo real e dependam de um disco rígido inserido numa frágil caixinha de metal que pode terminar no fundo do mar?

Para não iniciados, como eu, é um espanto.

Interligne 18c

(*) Господин (= Gaspadín) é marca de respeito que os russos antepõem ao nome de alguém. Nos tempos da União Soviética, o uso foi suspenso. Todos passaram a tratar-se por Товарищ (= Tavárich), ou seja, ‘camarada’. Derrubado o Muro de Berlim, tudo voltou ao que era antes no quartel de Abrantes.

Nomes e sobrenomes

José Horta Manzano

Você sabia?

Nestes tempos de Eurocopa, estive observando que 22 dos 23 jogadores da seleção islandesa de futebol têm sobrenome terminado em «son». Pareceu-me curioso. Resolvi pesquisar e consegui informações interessantes.

A mais surpreendente é que os islandeses não têm sobrenome. Pelo menos, não como entendemos nós. O costume é dar à criança um prenome (simples ou duplo) seguido pelo prenome do pai acrescido do sufixo -son (filho). Assim, Hordur Magnusson é um rapaz chamado Hordur, cujo pai se chamava Magnus.

O mesmo sistema se aplica a meninas. Levam um prenome seguido pelo prenome do pai com o sufixo -dottir (filha). Helga Magnusdottir é a moça chamada Helga, cujo pai se chamava Magnus. (Quem tiver noções de inglês há de perceber a semelhança entre «dottir» e «daughter».)

Na impossibilidade de usar o nome paterno, em caso de paternidade desconhecida ou não declarada, resolve-se o problema dando à criança o nome da mãe, sempre seguido de -son para meninos ou de -dottir para meninas. Os únicos que têm direito de usar sobrenome ‒ e de transmiti-lo aos descendentes ‒ são os (raros) islandeses de origem estrangeira.

Seleção islandesa de futebol clique para ampliar

Seleção islandesa de futebol
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É de regra também escolher o prenome do recém-nascido numa lista reconhecida oficialmente. Ela contém mais de 1800 prenomes femininos e pouco mais de 1700 masculinos. Para dar ao filho um nome fora da lista, precisa obter autorização do Comitê Islandês de Nomes.

Há condições para que ele seja aceito. Unicamente letras do alfabeto nacional podem ser usadas. O nome proposto tem de ser declinável. Para tanto, tem de ser foneticamente adaptado ao espírito da língua. Nomes terminados em «o», por exemplo, não serão autorizados porque nenhuma palavra islandesa termina com essa letra. São palavras indeclináveis. Nomes que, no futuro, possam causar constrangimento à criança são igualmente recusados.

Cada terra com seu uso. Num país de 300 mil habitantes, é possível conservar esse costume tradicional. Agora imagine o distinto leitor se nossos 200 milhões de conterrâneos se chamassem «João filho de Pedro» ou «Maria filha de Antônio». Adicionaria confusão a um país já confuso. Ou não?

Mas gostei da regra que, fora da lista oficial, um nome não será aprovado se puder representar risco de constranger seu portador. Ah, se pelo menos essa regra valesse no Brasil… Evitaria muito nome ridículo e pesado de carregar.

Interligne 18cNota esportiva
Ontem ocorreu a primeira zebra deste Euro 2016. A respeitada equipe portuguesa, aquela que conta com o festejado Cristiano Ronaldo, não conseguiu ir além de um magrinho 1 x 1 contra a Islândia, considerada a seleção mais fraca do torneio.

Marcaram bobeira

José Horta Manzano

Não conheço Eduardo Cunha nem a digníssima esposa. Nossos caminhos nunca se cruzaram. As informações que tenho sobre o casal ‒ nem sempre elogiosas, diga-se ‒ vêm da mídia. Tenho, assim mesmo, sérias dúvidas sobre a esperteza e a inteligência atribuídas a senhor Cunha.

Os erros monumentais cometidos pelo casal dão mostra estonteante de que falta, aos dois, traquejo internacional. Não estão acostumados a transitar pelo mundo dos ricos tradicionais. Essa falta de vivência levou senhor Cunha a crer que seus trambiques não seriam jamais descobertos. E, se desvendados fossem, que a situação se resolveria em torno de uma pizza, fácil, fácil.

Lista (parcial) dos gastos da esposa e da filha de Senhor Cunha

Lista (parcial) dos gastos da esposa e da filha de Senhor Cunha

No entanto, o cerco em torno do casal serelepe tem-se apertado, e a pizzaria parece estar fechada para reforma. Estes últimos dias, a ação do juiz mais adorado e mais detestado do Brasil, dependendo de que lado da cerca se encontre o observador, desaguou na acusação formal de senhora Cruz, a esposa. Na impossibilidade (momentânea) de pegar o tubarão, a Justiça optou por apanhar o lambari. A gastadora compulsiva tornou-se ré de processo criminal.

by Ivan Cabral, desenhista potiguar

by Ivan Cabral, desenhista potiguar

Ah, como é fácil fazer compras com dinheiro alheio… A lista (parcial) de gastos, publicada pela imprensa, é impressionante. A autodeclarada «dona de casa» e sua filha frequentaram os pontos preferidos pelos novos-ricos. Prada, Balenciaga, Louis Vuitton, Chanel, Ermenegildo Zegna, Yves Saint Laurent, Louboutin, Burberry, Christian Dior ‒ não deixaram de rezar em nenhum dos templos obrigatórios para quem enricou de repente.

Tivesse a compradora pagado suas despesas com dinheiro vivo, ninguém teria jamais descoberto. Preferiu utilizar cartão de crédito, que parece mais cômodo. No entanto, a falta de traquejo típica de quem cresceu longe da riqueza falou mais alto: para pagar a conta da operadora de cartão, a moça escolheu o banco errado.

Fatura mensal do cartão Visa de senhora Cruz a/c Banco Julius Baer para pagamento

Fatura mensal do cartão Visa de senhora Cruz
a/c Banco Julius Baer para pagamento

Imaginando que todo banco é igual, os Cunhas encarregaram o Banco Julius Baer, de Genebra, de cuidar dos pagamentos. Acontece que esse é banco privado, diferente dos estabelecimentos comerciais com que madame está acostumada a lidar. Banco privado não tem guichê, não tem agência aberta ao público, não recebe conta de luz, não empresta dinheiro a ninguém. São especializados em gerir fortuna de aplicadores que não querem passar a vida acompanhando o comportamento da bolsa.

Dinheiro voadorIgnorando essa peculiaridade, madame pediu ao banco que pagasse suas contas do dia a dia ‒ atitude anômala e inabitual. Isso acendeu a luzinha vermelha. Já faz anos que a Suíça deixou de ser paraíso fiscal e porto seguro para fortunas de origem duvidosa. O casal não sabia disso.

Deu no que deu. De pouco valeram os trusts e as empresas de fachada criadas pelos dois em ilhas caribenhas. O gato se escondeu, mas esqueceu o rabo fora. Em estreita colaboração com a justiça, o banco suíço forneceu tudo o que as autoridades pediram: junto com extratos de conta, veio o detalhe das surpreendentes despesas. Coisa de deixar boquiaberto. Documentos mostram que a «dona de casa» torrou um milhão de dólares em artigos de altíssmo luxo ‒ e de preço elevadíssimo.

Pronto, madame já foi apanhada pela engrenagem. O caminho que separa Monsieur Cunha de Curitiba (ou da Papuda, dependendo dos caprichos do destino) encurta-se a cada dia.

Não deu

José Horta Manzano

Para entender este artigo, precisa antes ler o que está aqui abaixo. Conto o resultado do plebiscito de ontem.

Nenhum cantão aprovou a ideia

Nenhum cantão aprovou a ideia

A conclusão já era esperada, mas a porcentagem foi um atropelo. Esmagadora maioria do eleitorado suíço (77%!) rejeitou a ideia de um rendimento básico a ser distribuído incondicionalmente a todos os habitantes.

Foi uma reprovação pra presidenta nenhuma botar defeito.

 

Dinheiro para todos

José Horta Manzano

Você sabia?

Faz uma eternidade que o antigo senador paulista Suplicy batalha por uma ideia fixa: instaurar um rendimento mínimo de base destinado aos mais necessitados. A bolsa família, concebida com objetivos mais eleitoralistas que altruístas, não satisfez o anseio do homem político.

Arca 1Desde que dona Dilma assumiu, o antigo senador ‒ que alguns consideram desprovido do senso do vexame ‒ vem tentando marcar encontro com a mandatária. Múltiplos pedidos foram sistematicamente repelidos pela arrogante «gerentona». Agora, depois de suspensa, com o vazio em torno de si se acentuando, dignou-se a conceder-lhe entrevista. Ele foi. A mídia pouco se interessou, visto que a presidente, posta de molho, já não manda.

Conceder benefício mínimo automaticamente a todos os cidadãos não é ideia de Suplicy. Em vários países, a discussão tem aparecido, aqui e ali, sem nunca prosperar. A Suíça foi mais longe. Dado que qualquer cidadão pode pedir a convocação de plebiscito nacional ‒ desde que consiga colher o necessário número de assinaturas no prazo estipulado ‒ um passo importante está sendo dado neste domingo 5 de junho.

Entre outras matérias federais e cantonais, os cidadãos deste país deverão se pronunciar sobre a inclusão ou não na Constituição Federal de novo artigo. É o seguinte:

Art. 110a ‒ Rendimento de base incondicional

1. A Confederação instaura um rendimento de base incondicional.

2. O rendimento de base deve permitir a cada um levar existência digna e participar da vida pública.

3. Lei posterior estipulará o financiamento e o montante do rendimento de base.

Pronto, mais simples, impossível. O que se busca é inscrever o princípio na Constituição. O detalhe virá depois. O artigo posto em votação não estipula montante. Diz só que o benefício é incondicional. Todo habitante do território faz jus, seja rico ou pobre, velho ou jovem, nacional ou estrangeiro, patrão, assalariado ou desempregado.

Dinheiro 1Olhando assim, em primeira leitura, é atraente. Em teoria, a pobreza acabaria e o desemprego deixaria de assustar. No entanto, a iniciativa não é apoiada por nenhum partido político. Por algo será, como dizem os espanhóis ‒ alguma razão tem de haver.

Os oponentes argumentam que a medida acarretaria peso insuportável para a economia nacional. Novos impostos teriam de ser criados. Cidadãos que ganham pequeno salário tenderiam a abandonar o emprego para viver unicamente da alocação caída do céu. A oferta de empregos explodiria e acarretaria o desmoronamento da economia e o resultado seria, ironicamente, a impossibilidade de financiar o rendimento incondicional.

Dinheiro voadorUma desigualdade seria instaurada entre cidadãos ativos e inativos. O aumento de impostos empurraria empresas nacionais a fechar as portas e instalar-se no estrangeiro. Por detrás de tudo isso, a iniciativa sacode um dos princípios sagrados da sociedade suíça: o valor do trabalho. Dinheiro que pinga todos os meses sem ser fruto de trabalho não combina com o espírito nacional. No momento em que escrevo, os votos ainda estão sendo apurados. Mas já se configura uma vitória estrondosa do «não».

Talvez, no imaginário romântico do senador brasileiro, um mundo ideal em que dinheiro nasce em árvore seja possível. O povo suíço não compartilha essa opinião.

Grandes & pequenos

José Horta Manzano

Leio hoje que Dilma Rousseff, presidente suspensa(*), está enfurecida. Como de costume, diriam más línguas. O motivo da cólera atual é a decisão, tomada pelas devidas instâncias, de delimitar-lhe o direito de utilizar a estrutura presidencial para viagens.

A lógica é cristalina. O aparato necessário para deslocamento presidencial é pesado e custa os olhos da cara ‒ há que movimentar avião presidencial ou da Força Aérea, seguranças, equipe médica, batedores, pessoal militar, pilotos, pessoal de bordo, mecânicos, motoristas, automóveis, helicópteros, carregadores de guarda-chuva, secretários, abridores de porta, um verdadeiro exército.

Dilma 8Tais atributos de viagem de trabalho, embora custem caro aos contribuintes, são devidos ao chefe do Executivo. Acontece que, neste momento, dona Dilma está suspensa, portanto, de acordo com a Constituição, afastada de toda função oficial. Como prêmio de consolação, continua autorizada a movimentar toda a parafernália em viagens de Brasília a Porto Alegre, onde reside. Inconformada, senhora Rousseff esbraveja.

Lembrei de Charles de Gaulle, o maior dirigente que a França conheceu desde os tempos de Napoleão. Quando foi presidente, o general tinha direito às regalias inerentes ao cargo. Tinha também o direito de morar na ala residencial dedicada ao chefe de Estado e instalada no Palácio do Eliseu.

Pois imagine o distinto leitor que, assim que se mudou para o palácio, de Gaulle mandou instalar um relógio de luz para medir seu consumo particular de eletricidade. E, do primeiro ao último dia, pagou as contas de energia com seu próprio dinheiro.

Charles de Gaulle

Charles de Gaulle

Tem mais. Nas (raras) ocasiões em que convidou a familia para um almoço de celebração particular, reembolsou o Estado francês das despesas. Não parou por aí. Ao deixar a chefia do Estado, manteve intactos seus princípios: renunciou tanto à pensão de ex-militar quanto à aposentadoria de presidente da República. Recusando-se a representar um peso financeiro para os contribuintes, contentou-se com os direitos de autor pelos livros que havia escrito.

Em 1969, ao dar-se conta da baixa de sua popularidade, fez questão de pôr as coisas em pratos limpos. Encontrou um motivo qualquer ‒ uma modificação nas regras de autonomia das regiões do país, simples pretexto ‒, e convocou plebiscito nacional. Foi logo avisando que, caso a proposta fosse rejeitada, renunciaria ao cargo. Não lhe interessava estar à frente de um povo que não mais o apoiava.

Eliseu ‒ Palácio presidencial francês

Eliseu ‒ Palácio presidencial francês

Dito e feito. A maioria do eleitorado votou “não”, e o general perdeu a aposta. Na noite daquele mesmo domingo, apareceu em cadeia nacional de rádio e tevê para anunciar que renunciava à presidência. Sem falta, ao meio-dia da segunda-feira, catou as tralhas e se foi. Já idoso, viveu ainda um ano e meio. É assim. Quem é grande, é grande até o fim. Quem nasceu pra tostão, como dizia minha avó, não chega a merréis.

Interligne 18h(*) Artigo 86
O texto constitucional fala em «presidente suspenso de suas funções». Mais claro, impossível. Durante o período de suspensão, o presidente está afastado de toda função oficial. É livre de viajar para onde bem entender, mas terá de fazê-lo como simples cidadão.

Cento e oitenta dias

José Horta Manzano

Na prática, a teoria é outra ‒ como se costuma dizer. Quando alinhavaram o texto atual da Lei Maior, os constituintes de 1987-88 jamais tinham assistido à destituição, nos conformes, de um chefe do Executivo. Até aquele momento, os engasgos nessa matéria tinham sido de outra natureza.

Washington Luís e Jango Goulart tinham sido apeados do poder, à força, por gente vestida de verde-oliva. Jânio ‒ ninguém entendeu até hoje exatamente por que razão ‒ tinha renunciado ao mandato ainda no primeiro ano de governo. Getúlio, mais teatral, tinha encontrado no suicídio a porta de saída. Tancredo tinha falecido antes mesmo de assumir.

Constituição 4Destituição segundo normas legais nunca tinha havido. Isso certamente explica por que a Constituição menciona a destituição do presidente da República en passant, como se legislasse sobre invasão de marcianos ou outro fato altamente improvável. Era teoria pura, o que levou o legislador a ater-se a considerações vagas e genéricas.

O Artigo 86 da Constituição, que trata do assunto, é bastante sucinto. Com visível displiscência, determina que, acusado criminalmente, o presidente será “suspenso de suas funções”. E continua: “se, decorrido o prazo de cento e oitenta dias, o julgamento não estiver concluído, cessará o afastamento do presidente”. Pronto, pára por aí. No papel, tem boa aparência. Na prática, é fonte de bagunça.

Na crença de estar legislando em teoria pura, os constituintes não se deram conta de estar plantando os germes de uma confusão dos diabos. Nada foi previsto sobre a situação do presidente suspenso. Conserva, por direito, prerrogativas e mordomias? Ou volta pra casa de ônibus?

Senado federal 1Nenhum prazo limite foi imposto ao Congresso para julgar. Em teoria, os atuais debates poderiam se prolongar, sem ferir a Lei Maior, por dois anos e meio, até o fim do mandato de Dilma Rousseff. Madame reintegraria seu cargo e ficaria até 2018.

Bom o que está feito está feito. É melhor esperar por nova Constituição para regulamentar a matéria como se deve. Fosse feita uma alteração agora, cheiraria a casuísmo. Mais vale esperar que a enxurrada passe. Serenados os ânimos, virá a alteração para deixar o assunto claro e preciso.

Enquanto isso, dona Dilma continua dando o ar de sua graça. Ainda ontem criticou o governo interino alegando que o ministério atual, por ser composto exclusivamente por homens de certa idade e de raça (aparentemente) branca, não é representativo da diversidade do povo brasileiro.

É decepcionante que, após tantos anos no andar de cima, a «gerentona» não tenha ainda aprendido a diferença entre os variados personagens com os quais conviveu. Representantes, dona Dilma, são os deputados, eleitos nominalmente pelo voto popular direto. Esses, sim, representam a diversidade da população.

Na Câmara, há homens, mulheres, jovens, velhos, pretos, brancos, religiosos, agnósticos, bonitos, feios, alguns cultivados, muitos ignorantes, gente fina e bandidos ‒ um retrato acabado da sociedade.

Dilma 15Ministério é outra coisa, dona Dilma. Ministro não é representante do povo, mas auxiliar direto do presidente, homem de confiança por ele livremente nomeado. Presidente bem-intencionado escolhe auxiliares competentes, honestos, de ficha limpa, pouco importando cor de pele, sexo ou idade.

A observação da presidente suspensa dá boa pista sobre a proverbial ineficiência de seus ministros. Há de tê-los escolhido como um iletrado organizaria livros na estante: por ordem de cor ou de tamanho. Ou de espessura, que também funciona. Não adianta. Pau que nasce torto…

E pensar que ainda teremos de suportar isso por meses.

Presidenta

José Horta Manzano

Desde sempre, a humanidade tem sido constituída por distintos segmentos. O mais das vezes, é possível distinguir, à primeira vista, a que bloco cada cidadão pertence. Na Europa medieval, nobres, monges e plebeus se distinguiam facilmente pela vestimenta. Não havia como se enganar, bastava um olhar rápido.

No Brasil do século XIX, uma distinção visível ‒ sem ser a única ‒ entre escravo e homem livre estava nos pés: escravo não tinha direito de andar calçado. Passasse alguém de sapato, ficava a certeza: escravo não era.

by Alberto Correia de Alpino F°, desenhista capixaba

by Alberto Correia de Alpino F°, desenhista capixaba

Estes últimos cinco anos, repetidas manifestações de rua ajudaram a fazer a distinção entre os simpatizantes do governo central e os demais. É simples: enquanto os primeiros costumam se paramentar de vermelho, os outros vão de verde-amarelo. Mas nem todos os dias tem desfile. Como é que fica o resto do tempo?

A presidente, ora afastada, encarregou-se de acrescentar regra fundamental ao jogo: desde que assumiu o cargo, exigiu ser chamada de «presidenta». Gramaticalmente, não está errado. Mas, convenhamos, vai contra o espírito da língua. Cabeçuda, a interessada bateu pé. Queria porque queria. Foi a conta. Palacianos e áulicos se adaptaram rapidinho aos desejos de madame. O resto do país ignorou o capricho.

A partir daí, ficou fácil distinguir entre adeptos e adversários da ‘gerentona’. Admiradores, aliados e cúmplices sempre se referiam a ela como «presidenta». Os demais preferiram a forma tradicional «presidente». A Empresa Brasil de Comunicação, também conhecida como tevê do Lula ‒ aquela que as más línguas chamam de tevê traço ‒ aderiu à novidade desde o primeiro dia. Seguiu determinação imposta pelo andar de cima. O resto da mídia ignorou a novidade.

Assim, por cinco anos, deixou de ser necessário perguntar se alguém nutria simpatia pelo governo. Bastava prestar atenção: pronunciar «presidenta» valia carimbo na testa.

EBC 1Mas tudo tem fim. Rei morto, rei posto. Já faz alguns dias que a mui oficial “tevê do Lula” aboliu oficialmente a bizarra expressão. Por extensão, a Agência Brasil segue o mesmo passo. Custou, mas, por fim, toda a mídia nacional se pôs de acordo. A palavra “presidente” reintegrou-se na língua falada no Brasil.

No entanto, tudo tem seu lado menos sorridente: o termo deixou de ser sinal distintivo de adeptos da líder caída. Tem nada, não. Jã não eram muitos.

Se l’Italia fosse il Brasile

José Horta Manzano

Tenho um amigo italiano enamorado pelo Brasil. Originário da região de Veneza, Massimo Pietrobon é blogueiro e poliglota. Vive a maior parte do ano em Barcelona (Espanha), mas sempre que pode dá uma escapada pra rever a Terra de Santa Cruz.

Apaixonado por Geografia em geral ‒ e por mapas em particular ‒, Massimo teve uma ideia outro dia. Tomou um mapa da Itália e deu a cidades italianas importantes o nome de localidades brasileiras. Para cada caso, acrescentou uma justificativa, algum aspecto que sirva de elo entre ambas. Ficou interessante e curioso. Dou aqui abaixo um apanhado das muitas correspondências entre os dois países encontradas pelo Massimo.

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Para começar, São Paulo, cinzento e chuvoso mas principal centro econômico, só pode corresponder a Milão. Por seu lado, o Rio de Janeiro, caótico mas denso de beleza e de turismo, se encaixa bem com Roma, a outra metrópole italiana.

I love ITFlorianópolis, bela, turística e ilhoa, compara-se com Veneza, que tem as mesmas características. Recife, centro-mor do Nordeste, se conjuga maravilhosamente com Nápoles, centro-mor do Sul da Itália. Perto de Nápoles, está Amalfi, preciosidade histórica. E ao lado do Recife, o que é que está? Olinda, naturalmente, nossa joia antiga e carregada de história.

Outro ponto focal do Sul italiano é a ilha da Sicília, a confrontar com o outro representante do Nordeste brasileiro: a Bahia. Portanto, Salvador é Palermo.

A longínqua Amazônia, com Manaus, isolada capital, só pode ser a Sardenha e sua capital Cagliari. Ambas as regiões são selvagens e souberam conservar a cultura dos primitivos habitantes.

E Bolzano, a capital do Tirol do Sul, onde predomina a língua alemã? Corresponde a Blumenau, centro maior da imigração germânica no Brasil. Já as belezas históricas e naturais da Toscana se adaptam bem às preciosidades e às paisagens das Minas Gerais.

Turim, cidade organizada e funcional, combina com Curitiba, ao passo que o grande porto industrial de Gênova tem tudo a ver com o de Santos. Falando de cursos d’água, o mais importante da Itália é o Rio Pò, que se lança ao mar num delta cuja capital é Ferrara. Não é absurdo compará-la a Belém, situada exatamente onde o Amazonas desemboca no Atlântico. Outro ponto comum é que as duas cidades estão encharcadas de História.

I love BRPorto Alegre, cidade portuária que já se aproxima dos confins culturais do Brasil, é Trieste, onde já é perceptível a mestiçagem entre italianos, eslavos do sul e remanescentes do antigo Império Austro-Húngaro.

Na hora de comparar cidades saídas de uma prancheta de urbanista, não há que hesitar: a italiana Latina e nossa Brasília têm esse ponto em comum.

A grande cidade brasileira situada próxima de um dos pontos cardeais da rosa dos ventos é João Pessoa, que marca o extremo leste das Américas continentais. Na Itália, corresponde a Reggio Calabria, que assinala a ponta sul da bota.

Bandeira brasileira com as cores italianas

Bandeira brasileira com as cores italianas

Não há como não mencionar a região de Parma, de onde é exportado para todo o mundo o delicioso queijo parmesão, aquele sem o qual o macarrão perderia a graça. (Dizem que macarrão sem queijo é como amor sem beijo…) Que se compare Parma com nosso Estado de Minas que, no Brasil, é referência em matéria de queijo.

Há certamente outras semelhanças. Que o leitor curioso ponha o bestunto a funcionar. Buona fortuna a tutti!

PS: Para visitar o site original, clique aqui.

Crescendo e minguando

José Horta Manzano

Você sabia?

O interesse pelos astros começou na noite em que o primeiro homem levantou a cabeça e viu aquele mundaréu de pontinhos luminosos no céu. Faz muito tempo, muito mesmo.

Cinco mil anos atrás, quando papirus e papel não haviam sido inventados, tabuinhas de argila já registravam informação sobre os astros e seu movimento aparente.

O Sol e a Lua, maiores e mais rápidos que os demais, foram os primeiros a chamar a atenção. O Sol, que aparecia sempre redondo e do mesmo tamanho, passou impressão de regularidade. A ideia de firmeza e constância foi reforçada pelo fato de o astro levantar-se e pôr-se, com pequenas variações ao longo do ano, sempre à mesma hora. Já a Lua variava de aparência com frequência. Embora os ciclos fossem regulares e graduais, a impressão que ficou foi de inconstância.

by Anja Uhren (1991-), artista alemã

by Anja Uhren (1991-), artista alemã

Num tempo em que o Direito da Mulher ainda não havia entrado nas preocupações humanas, o mundo era machista, bem mais que hoje. As línguas que atribuíam gênero aos substantivos puseram o Sol no masculino e a Lua no feminino. Assim aprendemos nós, nunca ninguém reclamou nem achou esquisito.

É interessante notar que a língua alemã ‒ caso único, a meu conhecimento ‒ fez o inverso. Em alemão, Lua é palavra masculina (Der Mond) e Sol é do gênero feminino (Die Sonne). Curioso, não?

Quando a professora pede aos aluninhos, já no Kindergarten (Jardim da Infância) que desenhem o Sol e a Lua, já se sabe: o Sol virá de batom e trancinhas enquanto a Lua terá chapéu e bigode.

Interligne 18gCrescendo e minguando
Continuando nosso assunto selenita(*), lembro que todos nós aprendemos, desde pequeninos, que a Lua crescente forma um C, enquanto a minguante desenha um D no céu. É fácil reter: C para crescente e D para decrescente.

É possível que o distinto leitor não saiba que, vista do Hemisfério Norte, a imagem é invertida. Por estas bandas, quando a Lua desenha um C é porque está na fase minguante. E vice-versa. Vasto mundo…

Interligne 18g(*) Selenita
Selene vem de raiz grega que traz ideia de esplendor, luz. Os antigos não sabiam que a Lua não faz mais que refletir a luz do Sol. Pouco importa. Deram ao astro noturno um nome que traduzia essa luminosidade.