Presidenta

José Horta Manzano

Desde sempre, a humanidade tem sido constituída por distintos segmentos. O mais das vezes, é possível distinguir, à primeira vista, a que bloco cada cidadão pertence. Na Europa medieval, nobres, monges e plebeus se distinguiam facilmente pela vestimenta. Não havia como se enganar, bastava um olhar rápido.

No Brasil do século XIX, uma distinção visível ‒ sem ser a única ‒ entre escravo e homem livre estava nos pés: escravo não tinha direito de andar calçado. Passasse alguém de sapato, ficava a certeza: escravo não era.

by Alberto Correia de Alpino F°, desenhista capixaba

by Alberto Correia de Alpino F°, desenhista capixaba

Estes últimos cinco anos, repetidas manifestações de rua ajudaram a fazer a distinção entre os simpatizantes do governo central e os demais. É simples: enquanto os primeiros costumam se paramentar de vermelho, os outros vão de verde-amarelo. Mas nem todos os dias tem desfile. Como é que fica o resto do tempo?

A presidente, ora afastada, encarregou-se de acrescentar regra fundamental ao jogo: desde que assumiu o cargo, exigiu ser chamada de «presidenta». Gramaticalmente, não está errado. Mas, convenhamos, vai contra o espírito da língua. Cabeçuda, a interessada bateu pé. Queria porque queria. Foi a conta. Palacianos e áulicos se adaptaram rapidinho aos desejos de madame. O resto do país ignorou o capricho.

A partir daí, ficou fácil distinguir entre adeptos e adversários da ‘gerentona’. Admiradores, aliados e cúmplices sempre se referiam a ela como «presidenta». Os demais preferiram a forma tradicional «presidente». A Empresa Brasil de Comunicação, também conhecida como tevê do Lula ‒ aquela que as más línguas chamam de tevê traço ‒ aderiu à novidade desde o primeiro dia. Seguiu determinação imposta pelo andar de cima. O resto da mídia ignorou a novidade.

Assim, por cinco anos, deixou de ser necessário perguntar se alguém nutria simpatia pelo governo. Bastava prestar atenção: pronunciar «presidenta» valia carimbo na testa.

EBC 1Mas tudo tem fim. Rei morto, rei posto. Já faz alguns dias que a mui oficial “tevê do Lula” aboliu oficialmente a bizarra expressão. Por extensão, a Agência Brasil segue o mesmo passo. Custou, mas, por fim, toda a mídia nacional se pôs de acordo. A palavra “presidente” reintegrou-se na língua falada no Brasil.

No entanto, tudo tem seu lado menos sorridente: o termo deixou de ser sinal distintivo de adeptos da líder caída. Tem nada, não. Jã não eram muitos.

Frase do dia — 224

«A estatal EBC, criada no governo Lula, custa caro e entrega pouco. Ou entrega nada: a TV Brasil, “tevê do Lula”, é traço em audiência. No entanto, sem compromisso com custos ou resultados, a EBC avança no bolso do contribuinte para manter 2.446 pessoas com salários como os R$ 54.102,81 de um “chefe da assessoria” ou os R$ 56.072,05 recebidos por um superintendente. São salários superiores ao teto de ministro do Supremo Tribunal. Fosse uma empresa privada, a EBC já teria quebrado há muito tempo.»

Cláudio Humberto, jornalista, em coluna do Diário do Poder.