Come è brutta la vecchiaia!

José Horta Manzano

Tive, muitos anos atrás, um colega de trabalho italiano que, por conviver com a mãe velha e doente, filosofava: «Come è brutta la vecchiaia!» ‒ Como é feia a velhice!

Eu, que andava pelos trinta e poucos anos à época e não convivia com nenhum velho doente, não dei grande importância à observação. Mas guardei a frase, que solto ‒ em sonoro italiano! ‒ sempre que o momento me parece adequado.

Hoje, abrigado já há muitos anos sob o manto do Estatuto do Idoso, posso opinar em conhecimento de causa. Em princípio, não estou de acordo com a frase do colega ‒ que, aliás, perdi de vista há décadas. Percebo que todas as idades têm um lado bom e outro menos agradável.

A criança e o adolescente têm energia pra dar e vender. No entanto, têm de se conformar com regras e obrigações que nem sempre lhes parecem agradáveis. O jovem adulto, se já se liberou das imposições dos pais e da escola, tem de sofrer a pressão do chefe e da família que constituiu. Na idade madura, cada um se sente já dono do próprio nariz, mas é invadido pela preocupação com o que está por vir: como é que vou me virar quando me aposentar e tiver de encarar brusca diminuição de renda?

by Jacques Faizant (1918-2006), desenhista francês

Minha avó costumava dizer que «tudo na vida tem conserto, só para a morte não há remédio». Tinha razão. Chegada a velhice, as coisas se ajeitam. Pouco a pouco, o indivíduo tem a agradável sensação de ser menos participante e mais espectador. Enquanto a saúde permite, a gente vê a vida passar. Com bonomia e com certo desapego, observamos as queixas e preocupações dos mais jovens. Certas coisas que antes eram primordiais hoje nos parecem tão insignificantes…

No entanto, ainda estamos vivos, que diabos! Eu, que passei a vida sem dar importância à política, nunca imaginei que a situação no Brasil fosse chegar ao descalabro atual. Vejo que a coisa não se ajeita, que a débâcle é cada dia mais evidente, que os valores estão subvertidos, que Executivo e Legislativo estão corroídos pela corrupção desabrida, que até a Justiça dá sinais de estar-se corrompendo moralmente. À vista disso tudo, acaba-se sentindo que alguma coisa tem de ser feita. Sem se dar conta, a gente se vai transformando numa espécie de ativista político.

Acontece sem querer, mas é irrefreável, que ninguém tem sangue de barata. O passar dos anos apaga muitos fogos, é verdade, mas o intelecto continua aceso. Enquanto a cabeça «está boa», a gente permanece agudamente sensível ao comportamento dos que nos governam. Com uma vantagem sobre os mais jovens: já liberados de muitas obrigações, temos mais tempo à disposição.

Cada um combate com as armas que tem. Quando digo «ativista político», não imaginem que eu vá sair enrolado numa bandeira a brandir palavras de ordem na avenida. Cada um na sua. Minha campanha é modesta. Minha grande arma é este blogue, que, aliás, não existiria não fossem as visitas do distinto leitor ‒ a quem agradeço. Não vou parar de atirar minhas pedrinhas nos que me parecerem indignos da posição que ocupam, podem ficar tranquilos.

Por enquanto, para a presidência, não tenho candidato. Mas uma coisa é certa: darei meu voto àquele (ou àquela) que me parecer mais bem armado para ocupar o trono. Do jeito que vão as coisas, os candidatos brilharão não tanto pelas qualidades que têm, mas pelos defeitos que não têm. O postulante ideal terá a ficha limpíssima, imaculada. Será firme sem ser brutal. Terá espírito vivo ainda que não seja um portento de inteligência. Terá um verniz de cultura sem ser necessariamente um filólogo. Será hábil na política mesmo que não seja uma raposa. Terá experiência no métier ainda que não seja um profissional da política.

Por enquanto, na amostragem de que dispomos, a escolha está difícil. Mas o tempo é bom remédio. Quarta-feira que vem é dia crucial ‒ o «dia D do Lula», expressão sugestiva que li em algum lugar. Vamos deixar passar a tempestade. Seja qual for a decisão do Supremo, ela orientará a campanha eleitoral. Sejamos pacientes. Quem viver, verá.

O tempo da delicadeza

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Há poucos dias uma amiga virtual postou um comentário em uma rede social que me deixou intrigada e reflexiva. Dizia ela que acreditava ter entrado em definitivo na terceira idade já que “qualquer coisinha” a comovia às lágrimas.

Foi o que bastou. Não consegui mais me concentrar em nenhum outro assunto desde então. Passei todo esse tempo me perguntando se ela era dotada de uma liberdade interna especial ou se havia também no meu caso uma correlação palpável entre envelhecimento e maior sensibilidade.

Explico. Sou uma exceção aberrante no que se refere à capacidade de chorar. Sou capaz, sim, de me emocionar – e muito até – diante de eventos trágicos ou excepcionalmente felizes, mas não consigo me abandonar por inteiro ao choro. No máximo, experimento um nó na garganta, rictos faciais, a voz se esganiça e uma ou outra lágrima furtiva aflora. Em segundos, porém, meu maxilar trava, a musculatura do peito se retesa, a garganta fecha tanto que fica difícil respirar e a dor faz com que o processo seja interrompido.

by Elodie de Poitiers, artista francesa

A única experiência de choro convulsivo espontâneo que guardo na lembrança aconteceu no meu primeiro dia de aula no jardim de infância. Minha mãe havia me deixado na porta do colégio e voltado apressada para casa para cuidar de meu irmão recém-nascido. A sensação de abandono, de ter sido alijada do ninho sem aviso prévio e entregue à sanha de um bando de totais desconhecidos foi tão forte que eu tive de ser levada para o ambulatório médico da escola, onde fiquei até que o cansaço tomasse conta de mim e eu adormecesse.

Depois disso, talvez por uma questão de sobrevivência, aprendi a evitar manifestações públicas ruidosas de tristeza, raiva ou alegria profunda. Quando não dá para controlar a emoção, permito-me apenas ficar com os olhos marejados, mas sempre em total silêncio e compostura.

Voltando ao tema da correlação entre envelhecimento e maior sensibilidade, não encontrei dentro de mim nenhuma evidência estatística que confirmasse a tese de minha amiga, nem no sentido de maior intensidade, nem no de maior frequência. Porém, alguma coisa me dizia que talvez fosse possível detectar uma diferença qualitativa entre o que nos comove na juventude e aquilo que nos leva às lágrimas na velhice.

Essa não é, evidentemente, uma constatação científica. Não entrevistei ninguém e não pesquisei bibliografia sobre o assunto. Depois de muito refletir e contando tão somente com o apoio de minhas vivências pessoais, consegui estabelecer algumas analogias com o processo físico de envelhecimento.

Da mesma forma como nossa pele torna-se a cada dia mais fina e translúcida, acredito que o sutil tecido que compõe a camada externa de nossa alma também se adelgaça. Sem precisarmos nos defender com tanto afinco das convenções sociais, deixamos que nossa condição anímica circunstancial aflore com mais facilidade. Com a alma mais mole ou mais transparente, como queiram, as emoções ficam literalmente mais à flor da pele.

by Claire Frelon, artista francesa

Mas, é importante observar, não é qualquer emoção que nos subjuga na velhice. Ao menos no meu caso pessoal, aquelas mais intensas e típicas da juventude, ligadas à adrenalina e ao cortisol, mais assustam do que comovem. Acredito que, com o passar dos anos, a musculatura estriada da alma, boa para enfrentar com galhardia os embates da paixão, vai aos poucos sendo substituída por musculatura lisa, que reage melhor aos momentos de ternura e está associada à secreção de endorfinas e serotoninas. Estar em meio à natureza, ver o dia amanhecer, observar crianças e animais brincando juntos em total harmonia, testemunhar um gesto de perdão ou um momento de superação são situações em que as emoções típicas da velhice são ativadas mais prontamente.

Falando nisso, acaba de me ocorrer que é possível que as criaturas longevas voltem emocionalmente a um estágio primitivo, animal mesmo, no que diz respeito aos modos não verbais de relacionamento. Como cães ou lobos, aprendemos a identificar com mais precisão a energia que emana das pessoas à nossa volta e passamos a emprestar menor importância às palavras e à razão. E, por assim ser, tornamo-nos mais hábeis para decifrar intenções e mais aptos a lidar com a fragilidade, a sutileza e a serenidade, que também habitam a alma humana.

Só posso torcer para que essas hipóteses ditadas por minha intuição estejam certas e que os leitores mais “entrados em anos” se identifiquem. Mas, atenção: ao formulá-las, entendi que elas se aplicam apenas às pessoas normais. Como diria Nelson Rodrigues, os canalhas também envelhecem…

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Reforma da Previdência

José Horta Manzano

O grau de avanço de uma sociedade se mede pela proteção que ela oferece a seus membros mais frágeis. É tarefa de Estados organizados patrocinar serviços básicos. Cabe ao Estado proporcionar instrução pública, formação profissional, saúde pública, defesa do território, segurança pública. A lista não é exaustiva. Todas essas atribuições são, naturalmente, financiadas pela contribuição de todos através dos impostos.

Oferecer proteção aos que já não têm condições de ganhar o pão quotidiano pelos próprios meios é conceito relativamente recente. De fato, quando a grande maioria da população vivia da agricultura, o problema praticamente não existia. Na sociedade rural, famílias eram grandes, com duas ou três gerações debaixo do mesmo teto. A solidariedade familiar supria a incapacidade de sustento dos membros inválidos. Toda família tinha «agregados», «filhos de criação» e outras figuras hoje raras. Eram parentes ou conhecidos sem meios de sobrevivência.

A industrialização do país e a urbanização da população redistribuíram as cartas. Famílias diminuíram de tamanho. A solidariedade para com chegados e agregados se esgarçou. O Estado viu-se na obrigação de garantir amparo aos que, em virtude de idade avançada ou de saúde debilitada, já não podem prover ao próprio sustento.

Nas décadas de 1930 e 1940, grande parte dos países puseram de pé um sistema de arrimo para cidadãos que chegassem à velhice. O Brasil não foi exceção. Refletindo a sociedade da época, nossas regras levaram em conta que a expectativa de vida do cidadão girava por volta de 50 anos. Nos últimos 75 anos, muita coisa mudou. Avanços na medicina e nos cuidados alongaram a expectativa de vida. Projeções indicam que a humanidade tende a ter vida cada vez mais longa. Apesar das transformações, nenhum governo teve a ousadia de meter a mão nesse vespeiro. Nossas regras de aposentadoria não foram alteradas. Cada um empurrou a batata quente para o seguinte. Estacionamos num mundo simpático, mas distante da realidade.

Pirâmide etária do Brasil ‒ 1980, 2020, 2050
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A diminuição do número de jovens e o aumento de cidadãos idosos contribuem para a defasagem do sistema. Os problemas de financiamento foram se avolumando e chegaram a um ponto crítico. A continuar do jeito que está, o país perderá toda capacidade de investimento: a totalidade do dinheiro disponível será destinada a cobrir o rombo da Previdência.

O governo atual, com um presidente sem intenção de se recandidatar, decidiu peitar profunda reforma na Previdência. A atitude é louvável e necessária. Dado que o problema não foi enfrentado durante décadas, o salto é muito grande e tem assustado o povo e seus representantes.

A resistência da sociedade é forte, no entanto, queira-se ou não, o sistema terá de ser atualizado. Se não for agora, será no mês que vem ou no ano próximo. Não se pode mais esperar, que a situação é grave. Mais razoável seria fixar a meta que se quer atingir e, em seguida, escalonar as etapas, paulatinamente, sobre, digamos, um decênio. De chofre, como se está propondo, é paralelepípedo duro de engolir. Com ou sem apoio de base aliada, com ou sem apoio de oposição, alguma reforma, ainda que mínima, tem de ser feita. Melhor começar logo.

Aviso aos senhores deputados e senadores
Só entram para a história os que têm a coragem de enfrentar desafios. Os acomodados acabam tragados pelo esquecimento.

O reencontro

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Myrthes Suplicy Vieira (*)

Reviram-se após mais de meio século. Coração aos pulos, entreolharam-se com a empolgação de quem participa de uma expedição arqueológica e vai retirando aos poucos as grossas camadas de pó que recobriam peças delicadas e raras.

Perscrutaram com atenção e cuidado não apenas os contornos do corpo, mas a silhueta atual da alma de cada uma. Na cabeça, uma indagação persistente: O que foi que mudou? O que permaneceu inalterado depois de tanto tempo? Não havia tempo a perder com divagações, era preciso ir direto ao ponto. A cada minuto, novas rodadas de perguntas e respostas.

Chegaram a algumas poucas conclusões provisórias, ainda carentes de aprofundamento da investigação do valor histórico de cada máscara encontrada. Só haviam conseguido coletar até então dados a respeito dos contornos superficiais dos achados arqueológicos. A aparência de cada uma pouco importava, não era o foco principal da análise. Era fácil constatar em todas a perda do viço juvenil da pele, os centímetros a mais na cintura e a progressiva curvatura das costas. Faltava, no entanto, examinar como os membros daquele grupo remoto interpretavam agora as relações e o que permanecia sendo sagrado para cada um. Pouco se sabia ainda dos movimentos anímicos que haviam sulcado a superfície de cada rosto.

Com a cumplicidade de Wilma Legris www.ieccmemorias.wordpress.com

Com a cumplicidade de Wilma Schiesari-Legris
www.ieccmemorias.wordpress.com

Divertiram-se com o jogo de luzes e sombras da viagem ao passado. Depois, o usaram como referência para compor e justificar a imagem atual. Aquela ganhou o perfil de matrona de aço ‒ temperado, é bem verdade, pelos revezes da vida. Ao mesmo tempo, soube conservar o sorriso maroto e os olhos curiosos de menina apaixonada pela vida, que encara o mundo e as pessoas como se os visse pela primeira vez. A outra parece ter completado de maneira suave a transição entre a imagem de esfinge desafiadora que a caracterizava na adolescência e o perfil atual de mulher madura, descolada, segura de si e de bem com a vida. Uma terceira, ainda um tanto aturdida com o movimento pendular da história, colocava em um dos pratos da balança o orgulho pela autoridade técnica conquistada após décadas de dedicação aos estudos e, no outro, o inegável deleite com o patrimônio afetivo arrebanhado em família. A última, mais retraída, parecia continuar a não se permitir lambuzar-se com os prazeres mundanos, da carne. Sua figura de espantalho denunciava sua opção pelo ensimesmamento e um certo desleixo com outras formas de atração social. Oferecia apenas, em doses homeopáticas, pinceladas leves de seus altos e baixos no trabalho e no plano afetivo.

Constataram extasiadas que haviam cumprido, com mais ou menos sucesso, o roteiro de uma existência bem-sucedida para os padrões femininos desejados à época: casaram-se formal ou informalmente, tiveram filhos e, algumas, netos. A bem da verdade, uma delas havia escolhido compartilhar a própria existência apenas com filhos de quatro patas. Além do mais, sentiam-se apaziguadas com as escolhas que fizeram por sua forma de inserção na sociedade. Haviam desenvolvido carreiras profissionais respeitáveis, todas com passagens pela docência.

“Tivemos sorte”, parecia dizer com os olhos uma delas. Somos crias de uma mesma ninhada promissora. Nossa mãe, a escola pública, nos presenteou com alimentos essenciais para uma sobrevida digna. Nosso pai, o intelecto, nos ensinou a caçar e a sobreviver em ambiente hostil. Nossos irmãos, mesmo sendo tão diferentes entre si, nunca esqueceram como é bom poder se aconchegar uns aos outros em espírito.

Uma vez saciada a fome de informações factuais, passaram a rememorar momentos prazerosos vividos ao lado do amigo ausente. Não era preciso lamentar que ele não tivesse podido locomover-se de tão longe só para estar com elas. Ele estava presente de qualquer maneira, tinha sido mote e locomotiva do encontro. Gastaram alguns minutos elogiando seu fino senso de humor, a memória privilegiada, a inteligência arguta, a eterna disposição e presteza para refazer laços perdidos com o tempo.

x-Jacques Faizant (1918-2006), desenhista francês

x-Jacques Faizant (1918-2006), desenhista francês

Perceberam emocionadas, ao se despedir, que já não lhes restava a ansiedade juvenil de fazer juras de amor eterno, pegar todos os dados de contato, prometer nunca mais se separar. Já haviam se desapegado da angústia diante de laços que se esgarçam com o passar dos anos. A maturidade e a entrada na velhice haviam trazido consigo, como era de se esperar entre profissionais da área de humanas, a autocontenção, a ponderação, o equilíbrio emocional.

Ao final, a mais sábia dentre elas resumiu com humor e precisão milimétrica o verdadeiro significado do reencontro: “Somos o que éramos. Foi bom constatar isso”.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

FGTS ‒ duas visões

José Horta Manzano

Você sabia?

Velhice 2Quando me perguntam sobre o assunto, costumo responder que, igualzinho ao Brasil, a Suíça também conta com um fundo de garantia obrigatório para beneficiar trabalhador assalariado. Aliás, o FGTS brasileiro, que existe desde 1966, é anterior ao suíço, que só foi criado vinte anos mais tarde. Em ambos os países, o objetivo do fundo é amparar o trabalhador, ainda que o conceito de «amparo» não seja o mesmo.

No Brasil, o fundo foi instituído mais para neutralizar um problemão que ameaçava empresas. A estabilidade adquirida por funcionários antigos emperrava a produtividade e aumentava o risco de falência. A instituição do fundo desafogou empregadores e, como efeito colateral, beneficiou trabalhadores.

Na Suíça, país cujos assalariados nunca usufruíram de «estabilidade» no emprego, o fundo foi criado com vista a reforçar o rendimento dos aposentados. Eis por que a poupança obrigatória é alimentada paritariamente, ou seja, o empregador entra com 50% e o funcionário contribui com a outra metade. Tanto no Brasil como na Suíça, o pecúlio fica numa conta individual bloqueada. Cada assalariado tem a sua.

Velhice 5O FGTS brasileiro nasceu com vocação diferente. Visa a criar uma ponte para amparar o assalariado em períodos de desemprego. Frequentemente, a cada mudança de emprego, o funcionário retira seus haveres e esvazia a poupança. Se algo sobrar para a velhice, não será mais que valor residual, coisa pouca. Os anos de velhice não serão beneficiados.

Na Suíça, para garantir um reforço dos rendimentos do aposentado, o pecúlio só poderá ser retirado quando o contribuinte atingir 65 anos de idade. Há pouquíssimas exceções à regra. Uma delas permite que parte do fundo (até 20%) seja utilizada para compra de casa própria. Assim mesmo, com uma condição: caso a casa venha a ser vendida posteriormente, o contribuinte é obrigado a devolver o dinheiro, que será de novo incorporado à poupança obrigatória. Há outros casos em que o fundo pode ser resgatado, mas são casos raros e excepcionais.

Velhice 4Ao chegar à idade da aposentadoria, o assalariado tem duas opções: tanto pode retirar o pecúlio de uma vez como pode deixá-lo intocado. Neste último caso, fará jus a uma renda vitalícia. Pelas regras atuais, receberá benefício anual equivalente a 6.5% do capital acumulado. O pagamento é mensal. Em caso de falecimento do beneficiário, o(a) viúvo(a) continuará recebendo o benefício até o dia de seu último suspiro.

A diferença entre a visão brasileira e a suíça é quase filosófica. No Brasil, a poupança forçada é devolvida ao beneficiário a qualquer momento da vida, ainda que ele esteja em condições de encontrar novo emprego. Na Suíça, deu-se prioridade a amparar aqueles que, por causa da idade, têm chance praticamente nula de encontrar colocação. Quando um cidadão chega à velhice em situação de penúria, quando o valor da aposentadoria é insuficiente para cobrir as necessidades básicas, a sociedade terá de ampará-lo financeiramente. É justamente isso que se procura evitar.

Cada terra com seu uso.

Imprevidência social

José Horta Manzano

«O Crédito Pessoal Consignado é uma linha de empréstimo pessoal para você usar como quiser» ‒ é assim que um grande banco brasileiro apresenta o «produto». Chamativo, parece um negócio da China. Mas convém desconfiar, que nem tudo que reluz é ouro.

Velhice 5O Senado da República acaba de aprovar medida provisória que permite ao trabalhador do setor privado dar as economias amealhadas no FGTS como garantia para tomar empréstimo. «Para usar como quiser» ‒ a propaganda é clara. Embora venha travestida de bondade, a medida é trágica, um atentado contra as camadas menos abastadas da população.

Poupança nunca foi nosso ponto forte. Por razões históricas e resistentes, grande parte de nosso povo vive na corda bamba, na base do «amanhã, vamos ver», à espera do milagre virá na hora da necessidade.

Velhice 4Poucos têm algum tipo de amortecedor ou de colchão que lhes garanta trégua ou desafogo na necessidade. Cidadãos jovens, com força e ânimo, têm mais chance de superar situações adversas. O aperto maior vem nos velhos dias, quando toda atividade remunerada cessa. Antigamente, a solidariedade de parentes e descendentes paliava. Pouco a pouco, o esgarçamento do tecido familiar tradicional impôs a generalização do sistema de aposentadoria.

Assim mesmo, a renda de velhice era pouca, nem sempre dava para o gasto. Foi essa lacuna que o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço quis preencher. Instituído em 1966, veio complementar segurança econômica de idosos. Respondendo a tendência planetária, outros países também adotam instituto análogo.

Até na Suíça, um pecúlio obrigatório para assalariados existe desde 1985 destinado a reforçar os proventos dos idosos. Diferentemente do que ocorre no Brasil, essa poupança é realmente reservada para os velhos dias. O único caso em que pequena porção pode ser retirada antecipadamente é para compra de casa própria. Faz sentido. Ter moradia contribui para a segurança econômica.

by Jean-Louis Calmejane, artista francês

by Jean-Louis Calmejane, artista francês

A aberrante MP, editada nos estertores do governo de dona Dilma, vai no sentido errado: esvazia os fundamentos do FGTS. Foi mais uma comprovação de que, para salvar a própria pele, nossos governantes estão dispostos a qualquer abominação. A anuência dos senadores é escândalo ainda maior.

O FGTS tem de continuar fiel a seu princípio: garantir vida mais digna aos que trabalharam a vida inteira. Acenar com créditos eventuais «para você usar como quiser» desvirtuam a poupança.

Perdão da pena

José Horta Manzano

Faz já uns dias que o Procurador-Geral da República pediu a soltura de senhor José Dirceu, conhecido «guerreiro do povo brasileiro», atualmente na cadeia. O procurador-geral há de estar entre os que acham que idade avançada dilui a culpa do criminoso.

Não sou da mesma opinião. Não acho que velhice seja doença nem defeito. É uma fase da vida como qualquer outra, com suas regalias e suas deficiências, suas vantagens e seus problemas. E olhe lá, que falo de cátedra. Criminoso é criminoso, pouco importa a idade.

Chamada G1, 28 jun 2016

Chamada G1, 28 jun 2016

Concordo que se dê tratamento especial a doentes, inválidos e a todos os que têm capacidade diminuída por obra do acaso, por fatores independentes de sua vontade. Condoer-se da sorte de criminosos unicamente porque chegaram aos setenta é rematado exagero.

Fico pensando em Bernard Madoff, aquele estelionatário americano. Muitos hão de lembrar do personagem que fez muitas dezenas de vítimas. Aquele criminoso foi para trás das grades quando tinha 70 anos, exatamente a mesma idade que José Dirceu tem hoje. Condenado a 150 anos de prisão em regime fechado, o espertalhão só tem uma esperança de sair um dia: viver até os 220. Vai ser difícil.

Chamada Estadão, 28 jun 2016

Chamada Estadão, 28 jun 2016

Analisando bem, os «malfeitos» de Madoff, no fundo, prejudicaram um pequeno círculo de instituições financeiras e de pessoas físicas. Grandes ou pequenos, eram investidores. Todo investimento comporta riscos. Assim funciona o capitalismo.

Já os «malfeitos» de Dirceu são de outra natureza, bem mais abrangentes e infinitamente mais cruéis. Foram perniciosos ao atingir justamente os mais frágeis. Quanta gente terá morrido por falta de assistência em hospitais onde não havia dinheiro nem pra comprar esparadrapo?

Toda a mídia anunciou que o procurador-geral era favorável ao «perdão da pena» do antigo chefão caído em desgraça. Perdão da pena? Achei esquisito. Vamos por partes.

Chamada Agência Brasil, 28 jun 2016

Chamada Agência Brasil, 28 jun 2016

Depois de julgado e condenado, todo criminoso cumpre a pena que lhe tiver sido imposta. Se perdão houver, será concedido ao condenado, não à pena. Em outros termos, perdoado será o condenado, aquele que cometeu o crime.

O termo perdão costuma carregar ideia de julgamento moral, religioso, divino. Para bem separar alhos de bugalhos, melhor será recorrer ao verbo indultar ou ao verbo comutar. Indulta-se o indivíduo, comuta-se a pena.

Corrigindo, fica assim: o procurador-geral é favorável à comutação da pena imposta ao figurão caído. Ou ainda: o procurador-geral é favorável à concessão de indulto ao condenado. Agora, está perfeito.

Revendo…

Myrthes Suplicy Vieira (*)

“Na véspera de não partir nunca,
ao menos não há que arrumar as malas”

Fernando Pessoa

– Você me disse que ia passar a vida toda tentando fazer-me feliz. – É que eu não imaginava que fosse viver tanto.

Há pouco tempo, registrei aqui neste espaço minhas percepções sobre o lado obscuro do envelhecimento. Hoje quero alterar meu ângulo de visão e tentar listar as mudanças que caracterizam o lado luminoso da velhice.

Antes de mais nada, sinto em mim que estou mais conectada com aquilo que alguns especialistas em psicologia e psiquiatria chamam de “energias sutis”. Explico melhor: ao longo da vida, vamos aos poucos abrindo mão das experiências de alta intensidade que atraem tanto os mais jovens. Aprendemos a trocar adrenalina por endorfina, a substituir a paixão por velocidade pela degustação lenta dos prazeres.

Vin 1Exemplos? Vários, a maior parte dos quais ligados aos órgãos dos sentidos: a sensação prazerosa de uma brisa tocando nosso rosto, o calor gostoso na pele quando nos sentamos ao sol em um dia frio, nosso palato e nossa língua absorvendo lentamente os sabores e os aromas de um bom vinho, nossa pele arrepiando e nossos pelos se eriçando quando alguém sussura alguma coisa íntima em nosso ouvido, nossos olhos se enchendo de água diante da ternura ou da beleza.

– Não fiquei de todo satisfeita com o transplante de quadril.

– Não fiquei de todo satisfeita com o transplante de quadril.

Depois vem a “idade do conforto”. Já não prestamos tanta atenção aos ditames da moda e às regras sociais. Em vez do salto agulha, um bom mocassim. Em vez das sensuais roupas apertadas, vastidão de tecidos de toque macio. Em vez da cirurgia plástica, um bom spa. Em vez dos almoços de negócio em lotados restaurantes fashion, comidinha caseira ingerida bem devagar em meio a um papo descontraído com os amigos. Em vez do mobiliário Bauhaus, afundar gostosamente num velho sofá que, de tão usado, já assumiu a forma de nosso corpo.

Entramos então em pleno desfrute do “tempo da delicadeza”. Nada de som muito alto, nada de comida muito temperada, nada de gargalhadas histéricas, nada de arroubos passionais, nada de ativismo político exacerbado. Mais vale observar em silêncio emocionado uma flor se abrindo do que participar de um espetáculo circense. É nossa alma que começa a exigir autocontenção.

Edgar Walter Simmons (1917-1994), artista mineiro Óleo sobre tela

by Edgar Walter Simmons (1917-1994), artista mineiro
Óleo sobre tela

Chega mais tarde, lá pelos 75 anos, uma fase que uma amiga descrevia como a da “adolescência reciclada”. Passamos a nos permitir viver experiências que nos eram proibidas em nossa juventude. Pular de paraquedas? Por que não? Ir ao cinema sozinha? Pode ser. Deixar o medo do ridículo de lado e agitar num baile da terceira idade? Hum, dá para pensar. Paquerar aquele vizinho viúvo metido a descolado? Topo! Praticar “sincericídio” o tempo todo com parentes e amigos também pode ser uma experiência libertadora. O que importa é buscar o próprio prazer, tomando apenas o cuidado de não ferir intencionalmente outras pessoas.

Dança 3Pelo que observei no comportamento dos ainda mais velhos, depois dos 80 anos tem início uma fase que passo a denominar de “infância reciclada”. Comer todas aquelas comidas gordurosas que o médico contraindicou, esquecer de tomar o remédio, cabular o banho, talvez até fugir de casa – tudo adquire um gosto delicioso de transgressão desejada, de molecagem consentida, de verdadeira autoexperimentação.

Sol 1Loucura, diria você, ou será que, pensando bem, é uma sutil demonstração de sabedoria? Afinal, estaremos nos despedindo com savoir-faire das últimas cores e sabores de nossa vida.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Aberta a brecha

José Horta Manzano

Saiu ontem na Folha. O Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul entende que cadeirantes têm direito a viajar de avião de graça. Sob risco de arrumar um punhado de inimigos, digo o que penso: não concordo com a determinação do TJ.

Velhice 3Explico melhor. O tribunal não fez nada de errado, apenas aplicou a lei. Na verdade, é com a lei que não concordo. Não me parece boa ideia conceder privilégios a determinadas categorias de cidadãos em função deste ou daquele motivo aleatório. O benefício tem de estar relacionado com a carência.

Que se reservem assentos para idosos ou para gestantes faz sentido. O mimo se coaduna com a necessidade: viajar de pé é problemático para gestantes e para idosos. Já garantir passagem grátis a quem padece de certos males – deixando de lado outros enfermos – faz menos sentido.

A meu ver, essa lei, que já vigora há tempos em viagens rodoviárias interestaduais, entra na mesma senda torta das quotas para estudantes, anciãos, índios, menores de idade e outros reservatários.

Onibus 4Se se concede gratuidade de transporte a quem sofre deficiência visível – caso de quem se desloca em cadeira de rodas –, a coerência manda que o benefício seja também estendido a concidadãos que padecem de deficiência não visível. Se o cadeirante pode, também deve poder o diabético, o cardíaco, o reumático, o entérico, o maneta.

A moça a quem a arbitragem do TJ do Rio Grande garantiu bilhete grátis de avião é advogada e atleta de paracanoagem. O bom senso leva a crer que outros cidadãos de situação financeira bem mais precária também gostassem de viajar sem pagar.

Velhice 2Entendo que, até certo ponto, finanças podem ser critério de seleção: àquele que pode menos, dá-se mais. A priori, no entanto, velhice e defeito físico não deveriam justificar concessão automática de privilégio(*). Ser velho ou ser cadeirante não é sinônimo de estar mal de finanças.

A brecha dos privilégios, uma vez aberta, é difícil de colmatar. Sempre aparecerão grupos de cidadãos que julgam ter direitos mais amplos que os demais. É caminho imprevisível e perigoso, oposto ao espírito republicano.

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ET: Etimologicamente, privilégio é lei privada, ou seja, lei feita especialmente para pequeno grupo de cidadãos.

Envelhecendo

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Estou desolada. Diante do espelho, constato a celeridade com que o envelhecimento toma conta de mim em todos os sentidos. O que me incomoda não é tanto a decadência física mas principalmente aquilo que chamo de ‘perda de esperança’. Sinto que sobrevivo não por escolha mas por um simples compromisso religioso de cumprir tabela. Como se colocar ativamente um ponto final naquilo que não faz mais sentido pessoal fosse uma transgressão indesculpável perante a divindade. Contraditório, não é mesmo?

Computador 2Explico melhor essa sensação de obsolescência. Consultando o dicionário, é possível ver que, dentro de um contexto econômico, obsolescência significa “diminuição da vida útil e do valor de um bem devido não a desgaste causado pelo uso mas ao progresso técnico ou ao surgimento de produtos novos”, como informa o Houaiss. É precisamente o que sinto. Perdi todo meu valor de mercado no mundo profissional e grande parte dele na família e no meu círculo de amizades.

Submergi um tanto a contragosto no tsunami do desenvolvimento de novas tecnologias e minha recusa em utilizar as redes sociais para me comunicar foi o que bastou para decretar minha exclusão da vida prática. Não consigo lidar decentemente com tantos gadgets eletrônicos. É como se minha habilidade para mexer com essas maquininhas fosse comparável à de um hipopótamo tentando aprender passos de dança e minha inteligência estivesse próxima à de um ouriço. Novos aparelhos cada vez menores e teclados cada vez mais curtos e estreitos me parecem pensados para o uso de crianças ou para os jovens que aprenderam a digitar em seus celulares utilizando só a ponta dos dedos, só um dedo de cada vez e só uma das mãos. O mouse dos notebooks faz com que eu passe os dias praguejando contra minha canhotice e consequente falta de destreza.

by Salvatore Malorgio

by Salvatore Malorgio

O tempo, que antes me era tão precioso, perdeu agora todo o seu significado. Para mim, tanto faz se hoje é segunda-feira ou quinta, se o mês é maio ou agosto, se o ano é 1997 ou 2015. Os dias passam burocraticamente, sem deixar rastros na minha lembrança. Em que ano mesmo aconteceu a morte do meu pai? E o daquela amiga querida? Não importa. Tudo o que sobrou foi a memória dolorida do espanto, a inconformidade com a perda, a revolta contra o destino e, mais tarde, a pura e simples apatia.

Quando acordo, compilo mentalmente as tarefas que terei de executar ao longo do dia e depois as vou cumprindo mecanicamente. E, se penso no dia de amanhã, tudo o que me ocorre fazer é tentar lembrar que coisas vão ter de ser feitas nas próximas 24 horas. Tenho de ir ao banco pagar uma conta? Preciso passar na farmácia para comprar aquele remédio que está acabando? Não posso esquecer de telefonar para…

by Lena Karpinsky

by Lena Karpinsky

Olho-me ao espelho e observo condoída a desesperança instalada em meus olhos. Examino horrorizada as mudanças em meu corpo. Cadê as carnes que até uns cinco anos atrás enchiam confortavelmente estas roupas? Já dá para notar o acabamento em plissê na parte interna de meus braços e coxas e os músculos de minha barriga se espraiando num belo godê. O que foi feito do brilho dos meus cabelos e daquela luzinha que insistia em aparecer no fundo dos meus olhos? Por onde anda a curiosidade que sempre foi meu motor na vida? Pareço ridícula, tenho a figura de um espantalho que engoliu um melão e carrega nas costas, encurvado para a frente, um feixe de algodão. Estou literalmente minguando.

A vida de aposentada ajuda a acrescentar requintes de crueldade a esse quadro por si só dantesco. Quando vou ao supermercado, pego os ítens que me davam prazer consumir, fico assustada com os preços e acabo descartando-os quando chego ao caixa. Quando me alimento, já não vejo a comida com olhos de prazer ou de promessa de sabor e saúde, mas só com olhos de quantidade. Será que essa comida vai dar para chegar até o fim do mês? Se eu não comer isto aqui, vai estragar em dois dias. Isto é pouco ou muito para matar minha fome? Por falar nisso, qual é o tamanho real da minha fome? Consulto meu estômago e concluo sempre que dá para postergar por mais algumas horas a decisão de comer. Só volto ao assunto quando me sobe pelas entranhas aquela onda de enjoo e desconforto por tantos cigarros fumados inconscientemente.

by Edvard Munch

by Edvard Munch

Cinema, teatro, literatura e outras atividades culturais? Não, não posso mais pagar por esses afagos à minha alma. Além disso, só de pensar em me vestir, sair de casa, enfrentar o trânsito caótico desta cidade e pegar fila, minha disposição se esvai em segundos. Almoço com amigos? Não dá, enfrento sempre sérias restrições financeiras para encontrar o local certo, isso sem falar do meu vegetarianismo e da minha dificuldade de mastigar coisas muito duras. Uma saída à noite para uma conversa acompanhada por um drinque? Não posso, sou diabética.

Meu peito também já não vibra com praticamente nenhuma emoção. Talvez me tenha sobrado apenas a indignação derivada da leitura dos escândalos políticos ou dos tenebrosos casos policiais de violência. As emoções ditas positivas me ocorrem, sim, de quando em vez, mas parecem vir sempre filtradas. São tímidas, acanhadas, sempre em tom pastel. Às vezes experimento uma sensação de leveza ou de bem estar, principalmente quando uma brisa bate de leve em meu rosto ou quando me sento ao sol e fecho os olhos. Outras vezes me enterneço vendo minhas cachorras desfrutando de sua doce intimidade, chamando uma à outra para novas brincadeiras. Mas é só, nenhum turbilhão emocional nem num sentido nem em outro.

Meu cérebro é o último bastião. Continua teimosamente produzindo pensamentos, analisa, investiga, questiona, tira conclusões, revisa e coloca tudo em suspenso até um novo pensamento abrir espaço à força dentro dele. Tenho opiniões, sem dúvida, mas na maior parte das vezes sem serventia alguma. Estou cansada de apontar ranzinzamente o dedo contra as mazelas do mundo contemporâneo. Decididamente não tenho mais espaço nesse mundo que se transformou em um festival de selves e de selfies.

by Abby Schmearer

by Sylvia Baldeva

 

Sei que o que me falta neste momento é tolerância para acolher o novo, jogo de cintura para aprender coisas novas, alegria para remover os obstáculos e vontade de recomeçar. Não importa mais o que penso, como penso e quando penso. É só um velho hábito, uma boca torta pelo uso tão frequente desse cachimbo.

Na Antroposofia se diz que a energia vital entra pelos pés todas as manhãs e sai pela cabeça ao final do dia. Deve ser por isso que, ao longo da vida de uma pessoa, os orgãos dos sentidos vão desinvestindo aos poucos na realidade externa e o mundo interior vai ocupando lentamente os espaços vazios. É isso, a única realidade que me diz respeito é a extracorpórea. Sou um fantasma vagando desinteressado e sem direção por entre coisas e gentes.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Melhor idade?

José Horta Manzano

Devo confessar que, até meia hora atrás, desconhecia a existência de uma revista chamada AnaMaria. Meus leitores talvez conheçam. Mas não é bem da revista que lhes quero falar, ela é só um ponto de partida.

Uma amiga me mandou um texto da cronista Xênia Bier, que mantém um blog alojado no site da revista. A honestidade me obriga a confessar que tampouco dessa senhora jamais havia ouvido falar.

José Wilker

José Wilker

Li a crônica cujo título é Não chorei pela morte de Wilker, publicada em 18 abril 2014, logo após o passamento do artista. Minha amiga me tinha perguntado se eu concordava com a visão da autora sobre as agruras da velhice. Minha resposta não será cortante ― um sim ou um não.

A cronista, por certo, alinhava certos argumentos embaixo dos quais eu pespegaria meu jamegão. No entanto, há outros que me deixam meditabundo. (Que palavrão, hein, gente! Se preferir, substitua por cogitabundo, que dá no mesmo.)

Que morrer dormindo é uma bênção, acho que todos estamos de acordo. Como já li num relato policial : «Fulano foi dormir em boa saúde e acordou morto». Que maravilha acordar morto, não é mesmo? É como passar no exame sem fazer a prova.

Com todo o respeito que tenho pela escrita alheia, entendo que a senhora Bier bota cores muito berrantes em seu quadro. Acaba pintando o diabo pior do que ele é. Os anos maduros não são tão terríveis assim, falo por larga experiência própria.

by Jacques Faizant, desenhista francês

by Jacques Faizant, desenhista francês

Muitíssimos anos atrás, quando em casa éramos pequenos e algum dos irmãos não queria comer, lá vinha nossa avó com seu invariável sermão: «Precisa comer, menino, pra ficar gordo, forte e corado». Esse dito andava de mãos dadas com um outro: «gordura é formosura».

Por que é que estou falando em gordura? É porque os padrões estéticos mudam com o tempo ― e mudam rápido! O tecido adiposo, que hoje é detestado e combatido, já foi atributo apreciado. E olhe que não foi no tempo de Matusalém.

Assim como alguns quilos a mais, os sinais que a velhice traz tampouco eram marcas de vergonha até a Segunda Guerra. A lei segundo a qual «young is beautiful, old is ugly» ― jovem é bonito, velho é horrível ― parece ter vindo dos EUA. Espalhou-se pelo planeta. Até 60 ou 70 anos atrás, não se costumava olhar para uma pessoa de idade como se traste velho fosse. Velho era respeitado e considerado por todos.

Tem outra coisa, que vale ainda nos dias de hoje: se os anos da velhice fossem tão horríveis assim, a taxa de suicídio seria mais elevada entre pessoas entradas em anos. Ou não? Pois não é o que acontece. É impressionante a quantidade de atentados contra a própria vida entre adultos, jovens adultos e até entre adolescentes.

A madurez dissipa traços corporais externos que a moderna estética considera belos, é verdade. Leva também muito do vigor físico, não há que contestar. Mas traz compensação.

Hoje em dia, quando abro a boca para falar, percebo que todos escutam, coisa que não acontecia décadas atrás. As palavras têm mais peso. Cabelos brancos infundem reverência. Te oferecem lugar no ônibus, te seguram a porta pra facilitar a passagem. A caixa do supermercado é mais paciente se você se atrapalha na hora de digitar o código do cartão. Teus sobrinhos ou teus netos acham divertido ler a bula do remédio cujas letrinhas você não consegue mais decifrar.

Doenças? Sim, são mais frequentes. Mas a medicina tem feito progressos. A debilidade física faz parte da idade, mas não é tão grave assim. Afinal, a gente tem de morrer de alguma coisa, não? Muito mais triste é ver gente jovem sofrendo moléstia penosa ou incurável. E há muitos nessa situação.

Velhice 1A velhice pode não ser a «melhor idade», mas tampouco será a pior. Gostar ou deixar de gostar de cada idade é sentimento que está muito mais dentro da gente do que fora. O velho que passa a vida olhando pelo retrovisor, a lamentar-se dos atributos perdidos, sem se dar conta das regalias que conquistou, está de fato condenado a viver sua «pior idade».

Mas ninguém é obrigado a enxergar a vida assim. Queiramos ou não, temos de enfrentar o presente. Portanto, mais vale dar importância aos pontos positivos. Sempre os há, basta olhar ao redor com boa vontade e mente aberta.

Coragem e bola pra frente, que a Copa é nossa!

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O texto de Xênia Bier está aqui.

Velhice e pobreza

José Horta Manzano

Um conhecido meu teve, já faz muito tempo, uma pequena papelaria. Naquela época em que ainda ninguém tinha computador, nem impressora, nem escâner em casa, ele deixava uma fotocopiadora à disposição dos clientes. Por módica soma, o distinto público podia tirar suas copiazinhas em sistema de autosserviço. Pagava-se no final.

Vez por outra, aparecia uma velhinha, moradora das redondezas. Depois dos bons-dias, ela pedia para tirar umas cópias. O dono da loja, comovido com a idade avançada da cliente, nunca cobrou pelo serviço. Sempre deixava por isso mesmo.

Um dia, a anciã chegou com algumas folhas. Parecia apressada. O comerciante propôs que ela lhe confiasse os documentos. Ele mesmo tiraria as cópias, e ela podia vir logo mais à tarde buscar o calhamaço. Contente e agradecida, ela aceitou.

Meu conhecido pôs-se à obra. Deu-se conta de que tinha em mãos a declaração de renda da velhinha, preenchida e pronta para ser enviada à Receita. Não se conteve ― deu uma rápida espiada nos números. Quase caiu de costas: a cliente era dona de fortuna considerável, coisa de milhões! Um espanto.

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Decreto n° 54925

Decreto n° 54925

Ao ficar sabendo que o prefeito da cidade de São Paulo havia decretado, semana passada, que cidadãos que já tenham completado 60 anos têm o direito de viajar gratuitamente nos ônibus municipais, lembrei-me da velhinha da fotocópia.

Pelo que diz o decreto, a idade é o único critério de atribuição desse benefício. O legislador partiu de um curioso pressuposto que equipara a velhice à pobreza. A meu ver, a (relativa) juventude do prefeito distorce sua visão. Sua premissa não é necessariamente verdadeira. Todo velho não é obrigatoriamente desvalido.

Reconheço o preceito de que a sociedade deve amparar seus membros mais frágeis. É a base de todo agrupamento humano. Mas não há que confundir idade madura com precariedade financeira. O cartão que assegura a gratuidade no transporte deveria ser atribuído unicamente a anciãos que comprovassem encontrar-se abaixo de determinado nível de rendimento e de patrimônio.

Do jeito que está, pobre tem de pagar tarifa plena enquanto a velhinha da fotocopiadora viaja de graça.