Falam de nós – 24

0-Falam de nósJosé Horta Manzano

Schwulen-«Therapie»
Causou surpresa a decisão judicial brasileira de permitir que se pratique terapia psicológica visando à conversão de orientação sexual. A eficácia dessa Schwulen-«Therapie» ‒ “terapia” homossexual ‒ é posta em dúvida por muita gente. De fato, faz 26 anos que a Organização Mundial da Saúde retirou oficialmente a homossexualidade da lista de doenças psíquicas. Assim sendo, é paradoxal tratar como doença uma orientação pessoal que doença não é. O portal alemão NTV discorre sobre o assunto.

Asilo para bilionários
De olho em estrangeiros endinheirados, um punhado de países da União Europeia oferece visto de residência aos que se dispuserem a investir na economia local. Cada Estado estabelece condições diferentes.

Chipre, o mais generoso, outorga, logo de cara, o passaporte do país aos afortunados. Portugal não chega a tanto, mas propõe o «visto dourado», que permite ao estrangeiro tornar-se residente no país. Para tanto, basta aplicar 500 mil euros no mercado imobiliário. Com isso, o forasteiro obterá permissão de residir por cinco anos em Portugal. Vencido o prazo, poderá solicitar o passaporte.

Em Chipre, o afluxo maior é de russos e ucranianos abastados. Já em Portugal, dominam os chineses, seguidos pelos brasileiros. Segundo a imprensa portuguesa, figurões envolvidos na Lava a Jato estão entre os beneficiados. Assim que a operação foi deflagrada no Brasil, vários deles investiram em terra lusa e solicitaram o visto dourado. O quotidiano lisboeta Expresso dá informação sobre a fila de corruptos que buscam asilo nas ribeiras do Tejo.

Passaporte chipriota

Reforma da ONU
Diversos chefes de Estado discursaram ontem no púlpito oficial da ONU, quando da abertura da sessão anual. Todos eles ‒ sem exceção ‒ pronunciaram discurso dirigido ao público do próprio país. Trataram de incluir algumas frases de efeito, com perfume internacional, mas o cerne da fala foi, sim, pensado para o povo que os elegeu. Assim fizeram Mr. Trump, Monsieur Macron, doutor Temer e todos os outros.

O diário alemão Handelsblatt passou por cima das platitudes da fala de nosso presidente. Reteve unicamente o choro tradicional (e inútil), repetido a cada ano, por meio do qual o Brasil clama por reforma da estrutura do Conselho de Segurança. Pouco importa o formato que o CS adquira após a reformulação desde que inclua o Brasil como membro permanente. Que se danem os outros.

Melhor esperar sentado, que de pé cansa.

«Pequenos juízes»
A estação de rádio estatal France Culture preparou uma série de quatro emissões, de uma hora cada uma, sobre os «pequenos juízes» que se levantam contra a corrupção. Faz um confronto entre os que oficiaram vinte anos atrás na Itália, quando da operação Mani Pulite ‒ Mãos Limpas, e os que ora promovem a Lava a Jato.

A série de programas esmiuça a paisagem político-policial brasileira para tentar descobrir quem é quem e que poder tem cada um desses atores. Uma coisa é certa: sobressai a imagem de um Brasil gangrenado pela corrupção.

ViaFauna
O portal francês Fredzone traz artigo interessante sobre a ViaFauna, uma start-up brasileira. Explica que a pequena empresa criou dispositivos capazes de antecipar, por meio de raios infravermelhos, a presença de animais na pista de estrada de rodagem. Considerando que animais são vítimas quotidianas de colisões ‒ que podem ser fatais tanto para os animais quanto para humanos ‒, os dispositivos de detecção representam novidade pra lá de bem-vinda.

Pilotos do Brasil
Ryanair, a maior companhia aérea europeia de baixo custo, está enfrentando problema importante. O ritmo infernal imposto pelos horários apertados deixa pequena margem para imprevistos. Quando, por um motivo qualquer, um avião atrasa, provoca reação em cadeia. Dezenas de aparelhos perdem o ritmo.

A legislação trabalhista não permite que pilotos ultrapassem um certo número de horas seguidas de trabalho. O resultado frequente é que, mesmo com autorização para decolar, aparelhos têm de permanecer no solo por motivo de o piloto já ter atingido o limite legal de horas de serviço.

Faltam pilotos. A companhia propôs um bônus aos que renunciarem a tirar férias. Ainda que acatada por todos, a medida não tapará o buraco. A empresa está em busca de novos comandantes. O Brasil é o primeiro país na lista de prospecção ‒ quem dá a notícia é o diário italiano Il Tempo. Quando a Varig foi pro espaço, os pilotos foram acaparrados por empresas da então emergente China. Agora acontece de novo. Quem se candidata?

 

Brexit ‒ 5

José Horta Manzano

Dia 23 de junho de 2016, os 28 países membros da União Europeia foram dormir tranquilos. Na manhã seguinte, ao esfregar os olhos, deram-se conta, atônitos, de que faltava um. O Reino Unido tinha escapado pela janela. Por via de plebiscito, a maioria dos eleitores britânicos tinha exprimido o desejo de se desligar da União Europeia.

Em tese, parece simples: assina-se o distrato e pronto, o casamento está dissolvido. Na prática é bem mais complicado. A cada dia, surge novo nó a desatar. Afinal, foi um casamento de 44 anos! O mais recente imbróglio do qual tive notícia tem a ver com o tráfego aéreo entre países da União.

Desde que o transporte aéreo se popularizou, a partir dos anos 1970, países e companhias aéreas travaram batalha pesada para regulamentar o setor. Direitos de trânsito, escalas técnicas, regras de reciprocidade, endosso de bilhete eram rigidamente regrados. Pelo final dos anos 80, os céus da União Europeia foram desengessados. O abrandamento das regras permitiu o aparecimento de companhias de baixo custo ‒ em português: low cost companies.

Atualmente, dezenas de empresas ocupam o nicho, a maioria dedicada a voos turísticos. Duas delas, entretanto, alargaram o horizonte de negócios e se destacam nitidamente das outras: a Ryanair e a Easyjet. São gigantes no ramo. A primeira é irlandesa e a segunda, britânica. Na prática, ambas tem a Grã-Bretanha como plataforma principal de operações. Servem não somente a turistas, mas também a milhares de homens de negócio que utilizam seus voos a cada dia. Afinal, sai tão barato!

O Brexit, como é fácil imaginar, vem balançar o coreto dessas duas companhias. O baixo preço é fruto de uma fieira de acordos tornados possíveis pela integração dos países europeus. Com a saída efetiva do Reino Unido, ninguém sabe como ficarão os direitos de tráfego aéreo intraeuropeu. Alguma incidência o divórcio há de ter sobre a operação das empresas de baixo custo, isso é certo. Só falta conhecer a extensão do estrago. A partir do momento em que a Grã-Bretanha ‒ base de operação de ambas as empresas ‒ for considerada país estrangeiro, os acordos perderão a validade e terão de ser renegociados um a um.

Não seria surpreendente que a Easyjet se «naturalizasse», passando a exibir passaporte de qualquer um dos países da União. Podem ambas também transferir a base de operações para outro país. As opções são numerosas e só o tempo dirá o que vai acontecer. No fim, tudo acaba se ajeitando mas, enquanto isso, muita turbulência ainda vai sacudir as aeronaves.

Vergonhas

José Horta Manzano

Na Europa, meia dúzia de companhias aéreas oferecem bilhetes a preço extraordinariamente baixo. Todas elas juram que, para reduzir drasticamente o custo, não descuidam da manutenção dos aparelhos nem da segurança. Se o fizessem, seria suicídio certo. No instante em que se acidentasse um avião por falha na manutenção, a companhia iria pro beleléu.

Elas se valem da optimização de numerosos parâmetros. Conservando a segurança, podam o que pode ser podado. Não servem lanchinho. A duração das escalas é reduzida. A logística é estudada milimetricamente para resultar em rendimento máximo. O próprio pessoal de bordo encarrega-se da limpeza da cabine entre voos. As rotas servidas são as mais frequentadas.

Avião 14Três dessas companhias são baseadas na Irlanda e nas Ilhas Britânicas. A irlandesa RyanAir é uma delas. Só na Europa, serve 31 países e começa a considerar seriamente dar continuidade a sua expansão planetária. Como as outras, oferece passagem a preços muito atraentes. Em certos casos, sai tão barato que a gente se pergunta onde está a mágica.

Infelizmente, nosso país não está no visor de nenhuma dessas empresas. A RyanAir, talvez a mais ousada delas, já pôs um pé no México, outro na Colômbia e vai começar a operar na Argentina em 2017. Mais que isso, está estudando entrar em todos os mercados da América do Sul. Corrigindo: em quase todos. O Brasil, infelizmente, não faz parte dos mercados visados. Por quê?

Em entrevista ao jornal argentino La Nación, Mr. Declan Ryan, cofundador e presidente da companhia, declarou com todas as letras o seguinte: «Iniciamos negociaciones en todos los países de la región menos en Brasil ya que hay mucha corrupción.» A frase dispensa tradução. Gostaríamos muito de ter ido dormir sem essa.

América do Sul sem Brasil

América do Sul sem Brasil

Não precisa ser muito perspicaz pra entender a mensagem. O estrago impingido ao país pelo lulopetismo não só saqueou empresas mas também empacou o país. Como efeito colateral, refreia investimentos externos que trariam benefícios a todos.

Depois que, no começo do século, a Argentina foi atingida por uma débâcle econômica gerada pela má gestão,  o país passou 15 anos comendo o pão que o diabo amassou. Pela mesma lógica, é razoável prever que o Brasil só volte a recuperar a atratividade perdida lá pelo ano 2030.

Pra você ver, amigo, aonde podem levar a ignorância, a incompetência e a irresponsabilidade no trato da coisa pública.

Greve suicida

José Horta Manzano

Outro dia, ia-lhes falar da greve da Air France. Comecei contando a história da origem da palavra, enveredei por outros caminhos, acabou o espaço e o problema da companhia aérea foi… pro espaço. Expressão, aliás, assaz adequada ao presente caso.

Volto ao assunto hoje. Já faz dez dias que os pilotos da companhia aérea nacional francesa estão de braços cruzados. Menos da metade deles está cumprindo tabela ― o resto não aparece nem pra bater ponto. Qual seria a razão dessa greve?

Avião 3Desde que o ultracodificado transporte aéreo se desregulou, nos anos 90, o mercado virou de ponta-cabeça. Foi um deus nos acuda. Companhias sólidas e tradicionais como a americana Pan Am, por exemplo, não aguentaram o tranco. Sumiu a Varig. A belga Sabena foi pro beleléu. Até a superséria Swissair teve de fechar as portas do hangar da noite pro dia.

Há males que vêm pra bem. Nessa efervescência, quem saiu lucrando foi o viajante. A primeira reação das companhias que sobraram foi procurar atrair clientela com ofertas originais.

Lembro-me que a Iberia propunha um programa chamado Madrid amigo. A passagem de ida e volta Suíça-Brasil, vendida ao preço habitual, dava direito a passar uma noite em Madrid. Traslado do aeroporto ao centro, alojamento em hotel de categoria superior e jantar estavam incluídos na tarifa. Eu mesmo cheguei a aproveitar dessa promoção mais de uma vez.

Air FrancePoucos anos mais tarde, empreendedores arrojados ousaram criar companhias aéreas de baixo custo ― em português corrente: low cost companies. A ideia é singela. Corta-se toda gordura desnecessária. Não há serviço de bordo. Cobra-se tarifa extra para transportar bagagem. Voos saem ou chegam em horas antes impensáveis, como em plena madrugada.

As grandes empresas tradicionais têm sentido o baque. Por que, diabos, alguém pagaria 200, 300 ou 400 euros por uma viagem entre cidades europeias, quando a EasyJet ou a RyanAir lhe propõem o mesmo trajeto por 25, 30 ou 40 euros?

Nessa óptica, a Air France decidiu criar sua própria filial «low cost». Com outro nome, outro quadro de pessoal, outra sede. Na verdade, a companhia já existe em feitio incipiente, com poucos aparelhos. Chama-se Interavia. A intenção da companhia-mãe era deslocar a sede da filial para Lisboa, onde os salários são mais baixos e as condições, mais favoráveis.

Contrários a essa ideia, os pilotos da Air France se solidarizaram com os hipotéticos futuros funcionários da Interavia e entraram em greve. Exigem que a companhia-mãe desista da ideia. Ou, na pior das hipóteses, que mantenha a sede em Paris e que os pilotos da filial tenham o mesmo nível salarial que os da matriz. Faz dez dias que a queda de braço se prolonga.

A meu ver, a atitude dos pilotos da Air France cheira a suicídio coletivo. Estão a serrar o próprio galho em que estão sentados. Impedir que sua empresa desenvolva o projeto de filial de baixo custo nem é a medida mais nociva: há pior.

Aviao

A França e a Itália têm fama de serem palco de greves frequentes. São países em que, por um sim, por um não, decide-se entrar em greve e fazer passeata. Até polícia, médico, radialista, tabelião (sim, senhor!) faz sua grevezinha de vez em quando.

Esperto, o viajante ajuizado evita, sempre que possível, fazer escala em Paris ou na Itália. Pessoalmente, nas dezenas de viagens que fiz ao Brasil, passei uma vez só por Paris e nunca pela Itália. Justamente para evitar ser bloqueado por alguma greve repentina.

O principal aeroporto de Paris é importante ponto de conexão para viajantes em trânsito. A atitude imprevidente dos pilotos da Air France está reforçando a ideia de que mais vale evitar passar por lá ― nunca se sabe. É por isso que esse movimento me parece inconveniente. Pode voltar-se contra os interesses dos próprios grevistas.