Dez das onze

José Horta Manzano

O fato é raro e digno de entrar para o catálogo de recordes. Na noite de 1° de junho, das onze manchetes da primeira página do Estadão online, nada menos que dez falavam da Petrobrás, mais especificamente de doutor Parente, presidente demissionário da estatal.

Estadão online, 1° jun 2018

Num editorial deste 2 de junho, o jornal lamenta a demissão do dirigente. Constata que «a decisão foi celebrada por todos os que trabalham incansavelmente em favor do subdesenvolvimento travestido de “justiça social”».

Relatou os comentários da esquerda-caviar. “Já vai tarde”, disse Guilherme Boulos, candidato a presidente. “Era o que a sociedade esperava”, declarou o presidente do Senado, Eunício Oliveira. “Finalmente!”, tuitou o PT.

E arrematou considerando que, “enquanto o governo perde quadros de imenso valor como Pedro Parente, personagens notórios mais por escândalos que por capacidade administrativa continuam prestigiados no Palácio do Planalto. Nada disso augura um bom futuro nem para o governo nem para o País”.

Francamente, ninguém segura o progresso.

A vergonha continua

José Horta Manzano

Sabe aqueles dias em que você se sente envergonhado com as notícias vindas do Brasil? Nem falo dos escândalos de corrupção, um atrás do outro, uma barbaridade. Corrupção existe por toda parte, em maior ou menor grau, mais ou menos visível. Diferentemente dos ladrões brasileiros, rapinadores estrangeiros trabalham com maior finesse. De vez em quando, algum caso vêm à luz, mas é mais raro.

O que tem me deixado incomodado estes dias é aquela história da «cura gay». O distinto leitor não imagina a repercussão que tem tido por aqui. Parece coisa medieval. O Brasil está rebaixado ao nível de país selvagem, como aqueles grotões africanos onde crianças albinas ‒ nascidas com problemas de pigmentação ‒ são assimiladas a seres diabólicos e rejeitadas.

O portal austríaco GGG dá a notícia das “Konversionstherapien” com um bocado de ironia. Cita uma psicóloga que, depois de «falar com Deus», acusa a proibição da cura gay.

O espanhol El País bota na manchete: «Indignación en Brasil después de que un juez autorice ‘terapias’ para gais» ‒ que dispensa tradução.

Nos EUA, o New York Post chega a mencionar a reação do companheiro daquele jornalista inglês que andou espalhando vazamentos do Wikileaks.

O italiano Il Mattino conta que a decisão do juiz brasileiro quanto à «terapia psicológica» provocou tempestade. Fala também da repercussão que estremeceu as redes sociais.

O canal estatal de televisão France TV Info relembra a onda de protesto levantada pela decisão judicial.

Fico aqui a matutar como é possível que a solitária decisão de um juiz isolado possa afrontar regras e práticas estabelecidas e aceitas há décadas. Algo está desequilibrado.

Imagino (e espero) que logo entre nos eixos. Enquanto isso, fica a vergonha de vir de um país que dá sinal tão evidente de atraso e de barbárie.

Antes tarde

José Horta Manzano

A primeira estrada de ferro comercial ligando duas cidades foi inaugurada na Inglaterra em 1830. Ligava Liverpool a Manchester.

Estadão, 4 março 2017

Estadão, 4 março 2017

Com perto de 200 anos de atraso, o Brasil começa a se dar conta de que o transporte ferroviário é, de longe, mais interessante e vantajoso que o rodoviário. Antes tarde que nunca.

Força, Brasil!

Na fila dos passaportes

José Horta Manzano

Até em Cuba os ventos estão mudando de quadrante. A cerca de arame farpado virtual que constringia os cidadãos e os impedia de deixar a ilha está-se afrouxando. Nos tempos em que as farpas da cerca eram ainda mais afiadas, aquela blogueira que afrontava o regime teve de ter muita paciência e insistir durante anos pra conseguir um visto de saída.

Passaporte brasileiro 2O Brasil nunca foi de segurar cidadãos. Desde que os primeiros aventureiros e piratas aqui aportaram, entrou e saiu quem quis. Desde que o cidadão tivesse meios de financiar a viagem, tinha liberdade pra ir e pra vir. Mas as coisas mudam ‒ e nem sempre na boa direção.

Saiu estes dias uma informação que nos aproxima da Cuba dos anos mais espinhudos. Passaporte solicitado à PF na cidade de São Paulo leva quatro meses para ser emitido. Trocado em miúdos, se o distinto cidadão se candidatar agora, tem chances de receber o documento em novembro. Enquanto isso, pode esperar sentado.

A razão da demora? Falta papel. Falta papel… Falta competência, cáspite! Não consta que tenha havido aumento brusco na demanda de passaportes. Portanto, o problema não vem de lá. O que se deduz é tremenda falta de planejamento. Alega-se que, na Casa da Moeda, uma máquina deixou de funcionar. Toda máquina é susceptível de enguiçar hoje ou amanhã. Prevendo isso, toda organização séria tem, guardado na gaveta, um plano B. Na Casa da Moeda, ainda acreditam em Papai Noël.

Fila do passaporte, São Paulo

Fila do passaporte, São Paulo

Foi a PF quem teve de improvisar seu plano B. Mediante cobrança de uma «taxa de emergência», expede o documento em prazo mais curto. Atenção: não se trata de passaporte de emergência, aquele que sai em 24 horas. É modalidade intermediária, uma novidade. Mostra que toda lei é feita pra ser burlada.

Não sei o que ressente o distinto leitor. Quanto a mim, tenho às vezes a sensação de estarmos andando pra trás.

Interligne 18cNota difícil de acreditar
Atualmente, há 191 mil pessoas na fila, todas esperando pelo precioso documento. Um número pra cubano nenhum botar defeito.

Nota birrenta
O assunto saiu da atualidade. Assim mesmo, fico me perguntando se a família Lula da Silva devolveu os passaportes diplomáticos que nosso guia concedeu ‒ indevidamente ‒ a todos os membros da famiglia, no seu último dia de mandato. Abuso de autoridade não é crime? Taí mais um pra adicionar ao prontuário do chefe-mor.

Não viaje, fique em casa

José Horta Manzano

Li ontem que a Câmara Federal converteu em lei uma medida provisória que reduz de 25% para 6% a mordida que a Receita Federal dá em cada montante que brasileiros enviam ao exterior.

O distinto leitor pode até nem acreditar, mas este blogueiro não sabia que o fisco cobrasse imposto dito «de renda» sobre remessas que cidadãos comuns fazem para o estrangeiro. Não sei se é uma «jabuticaba» (especificidade brasileira) ou se existe em outras terras. O fato é que eu nunca tinha imaginado que tal aberração pudesse existir.

Guichê 1Embora a alíquota tenha sido suavizada, o pedágio continua a ser cobrado a cada envio de fundos. Que seja para viagem de turismo, de negócios, de serviço, de treinamento, tanto faz. Até fundos enviados por cidadãos viajando em missão oficial são puncionados. É uma enormidade. A cobrança é injusta, burra e extravagante.

É injusta porque soa como punição imposta aos que tiverem ousado trabalhar, economizar e alcançar condições de fazer turismo fora do país. A mensagem profunda é: «Não vale a pena se esforçar para subir na vida, cidadão. Toda ascensão social será castigada!»

É burra porque penaliza empresários em viagem de negócios ou de serviços. Passa por cima do fato que nosso país, com parque industrial em desmonte acelerado, busca desesperadamente clientes e oportunidades novas no exterior. Esse imposto burro só faz aumentar o custo Brasil. Viagens de negócios deveriam, ao contrário, ser incentivadas.

Dinheiro 5É extravagante porque pune viagens de treinamento. A tecnologia invade, cada dia com mais força, a vida do cidadão comum. Ideias novas, aparelhos novos, dispositivos novos, técnicas novas requerem operadores bem formados. Se um cidadão viaja ao estrangeiro para receber treinamento, voltará sabendo mais do que sabia ao deixar o país. Deve-se concluir que a ideologia oficial é barrar aos brasileiros o caminho do aprendizado?

É verdade que, desde sempre, o Brasil cultivou seu isolamento e seu provincianismo. Tempos houve em que, para poder viajar ao exterior, a gente precisava de um visto de saída expedido pela Polícia Federal. Isso felizmente acabou, mas sobrou esse imposto. Podia fazer sentido em outras épocas. Hoje, combina com Cuba e Venezuela. No Brasil, dá recado ambíguo.

Interligne 18hNota a jato
Espero que o fisco federal tenha pensado em cobrar o devido imposto “de renda” de todos os que, pressionados pela Lava a Jato, estão devolvendo o que roubaram. Afinal, essa bolada saiu do Brasil livre de impostos. Sem prejuízo do processo penal, que o devido tributo seja calculado pela alíquota de 25%, que estava em vigor à época. E que se aplique multa e correção.

O ministro da Ciência e Herodes

Cláudio Tognolli (*)

Interligne vertical 11a“Como você vai fazer um barco navegar contra o vento e contra a corrente, só acendendo uma fogueira embaixo do tombadilho?”, perguntava-se, publicamente, em 1803, Napoleão Bonaparte, sobre o barco a vapor do engenheiro americano Robert Fulton.

“Colocar um homem em um foguete e projetá-lo até o campo gravitacional da Lua – talvez pisar lá – e voltar à Terra: tudo isto constitui um sonho maluco digno de Júlio Verne. (…) Esse tipo de viagem feita pelo homem nunca vai acontecer, independentemente de todos os avanços no futuro”, estabeleceu o físico Lee DeForest, em 1957.

“Pessoas bem informadas sabem que é impossível transmitir a voz através de fios e que, se fosse possível fazer isto, esta coisa não teria valor prático algum” – editorial do Boston Post, em 1865, redigido por um jornalista indignado com a invenção do telefone.

O que esperar de Rebelo?
O novo ministro da Ciência, Aldo Rebelo, é comunista de carteirinha e também jornalista. Entregar a ciência a Aldo Rebelo é como entregar o berçário ao Rei Herodes. E as patacoadas disparadas contra as invenções científicas mais populares, como você leu acima, é o que devemos esperar de Rebelo. Se ele resolver abrir a boca, é claro.

Não vai aqui nenhum ataque pessoal, ad hominem, contra Rebelo. Filiado ao PC do B desde 1977, seria de estranhar se ele não fosse comunista profissional. O que é comunista profissional?

É aquele para quem só existe o que podemos tocar com as mãos. (Para eles, assim sendo, Gisele Bündchen não existe…) Afinal, “a prova da existência do pudim está em comê-lo”, notava Engels, coautor do Manifesto do Partido Comunista.

Luta entre o Carnaval e a Quaresma by Pieter Bruegel (≈1525-1569), artista flamengo

Luta entre o Carnaval e a Quaresma
by Pieter Bruegel (≈1525-1569), artista flamengo

Valores medievais
Aldo Rebelo pode ser entendido também por outra explicação comunista. O pensador marxista alemão Ernst Bloch (1885-1977) gostava de apontar o que chamava de “contemporaneidade do anacrônico” (em alemão, Gleichzeitigkeit der Ungleichzeitigkeit).

Ou seja: você vive no século 21, mas pode estar dividindo o seu espaço, lado a lado, com quem ainda mantém valores medievais. Ou simplesmente com quem acha que a ida do homem à Lua não passa de montagem de vídeo.

Aldo Rebelo é tudo isso aí. Costuma dizer que não há aquecimento global porque ele é “improvável”.

Vamos a casos recentes:

Interligne vertical 16 3Kb– Rebelo é pai daquela loucura de que estrangeirismos tinham de ser limitados no Brasil. Aprovado por unanimidade na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania em 2007, o projeto ainda aguarda votação em plenário. Se ele vingar, o aplicativo Whats Up terá de se chamar “E aí?”; o mouse do computador, “rato”; I-Pad, “Eu bloco”.

– Em 2002, Aldo propôs a proibição de “inovação tecnológica poupadora de mão de obra”. Seriam proibidas as fotos digitais e as xeroxes.

– Em 2000, Aldo tentou proibir a utilização de sistema de catraca eletrônica em veículos de transporte coletivo de passageiros.

– Em 2001, defendeu a adição obrigatória de 10% de raspa de mandioca na farinha de trigo destinada à fabricação do pão francês, o famoso pãozinho de 50 gramas. A ideia era “melhorar os nutrientes do pão e fomentar a cadeia de produção da mandioca”. Aprovado no Congresso, o projeto foi vetado. Por quem? Por Lula.

– Em 2003, tentou transformar o Halloween (Dia das Bruxas), celebrado em 31 de outubro nos Estados Unidos, no Dia Nacional do saci-pererê.

É esse o nosso homem na ciência. E ponto final.

(*) Claudio Tognolli é escritor, jornalista e músico. O artigo foi publicado pela Tribuna da Internet, 1° jan 2015..

Rapidinha 29

José Horta Manzano

Biométrico
A Venezuela adota sistema biométrico para espionar o que o povo compra no supermercado. Dada a carência crônica de itens básicos, o cidadão tem direito de comprar cada tipo de alimento somente uma vez por semana.

É a tecnologia moderna a serviço do atraso.

Novo sufoco vem aí

José Horta Manzano

O portal RFI (Radio France International ― conglomerado estatal da mídia francesa) publicou, neste 6 de agosto, artigo sobre o atraso nas obras para os Jogos Olímpicos de 2016. Segundo a reportagem, John Coates, vice-presidente do CIO (Comitê Internacional Olímpico) criticou abertamente os preparativos, qualificando-os de “os piores” que havia visto em 40 anos de carreira.

Faltando apenas dois anos para o evento, somente 70% das obras previstas foram iniciadas. Isso significa que 30% delas se encontram ainda em estado de projeto. Não nos esqueçamos de que o Rio acolherá 15 mil atletas oriundos de 200 países. Sem contar as delegações e cerca de 8 milhões de turistas.

Um trecho do artigo é especialmente marcante. Transcrevo abaixo no original. Traduzo em seguida.

JO 2016Interligne vertical 9La baie de Rio où auront lieu les épreuves de voile toujours pas dépolluée

Une régate de voile a eu lieu ces derniers jours dans la baie de Rio de Janeiro, une épreuve test pour les autorités. L’occasion pour les sportifs de voir l’avancée de cette dépollution. Leur constat est amer. «Si les Jeux olympiques avaient lieu demain, nous aurions réellement un problème», c’est ce qu’a affirmé l’Australien, Mathew Belcher, médaillé d’or olympique de 2012 à Londres.

Les navigateurs ont été confrontés à l’extrême pollution de la Baie de Rio. Elle est tellement contaminée qu’il est interdit de s’y baigner. Certaines zones sont même devenues des égoûts à ciel ouvert. Car à l’heure actuelle, la moitié des eaux usées de la ville sont rejetées dans la baie sans être traitées. La ville s’est engagée auprès du Comité international olympique (CIO) à ce que 80% des eaux usées soit retraité d’ici les Jeux olympiques, mais les associations de protections de l’environnement n’y croient tout simplement pas.

Même si la Mairie de Rio affirme qu’il n’y aura aucun danger pour la santé des athlètes, il vaudra mieux que ces derniers ne tombent pas par-dessus bord. La situation à Rio de Janeiro reste extrêmement préoccupante, voire choquante.

JO 2016 2

Interligne vertical 9Baía de Guanabara, que acolherá as competições de vela, ainda não foi despoluída

Faz poucos dias, realizou-se uma regata à vela na baía do Rio de Janeiro, um teste para as autoridades. Era momento propício para os esportistas verificarem o andamento das obras de despoluição. A constatação é amarga. «Se os JOs tivessem de começar amanhã, teríamos um problema de verdade», afirmou o australiano Mathew Belcher, ganhador de ouro olímpico em Londres 2012.

Os navegadores viram de perto a poluição extrema da baía. O nível de contaminação é tal que é proibido entrar n’água. Algumas zonas são, de verdade, esgoto a céu aberto. Atualmente, metade do esgoto urbano é lançado, sem tratamento, na baía. A municipalidade prometeu ao CIO (Comitê Internacional Olímpico) que, antes da abertura dos JOs, 80% do esgoto da cidade já estará sendo tratado. As associações de proteção do meio ambiente simplesmente não acreditam.

Apesar de a prefeitura do Rio tranquilizar os espíritos garantindo que não há risco para a saúde dos atletas, será melhor que ninguém despenque do barco e caia na água. A situação no Rio de Janeiro permanece extremamente preocupante, pra não dizer chocante.

Interligne 18b

Preparem-se. O sufoco tende a se acentuar daqui a 2016.

As chaves

José Horta Manzano

Hoje terá lugar, na ultrassofisticada Costa do Sauípe ― um balneário padrão Fifa! ― o sorteio das chaves da próxima Copa do Mundo. Todos os países participantes estão pedindo, cada um a seu São Benedito nacional, que os ajude a cair num grupo fácil.

Agora, vamos fazer um esforço. Vamos supor que não haja trapaça no sorteio. Com a Fifa, nunca se sabe, mas não é impossível, pois não? Pois então. Há de haver surpresas, um ou outro ah! de alegria, muitos oh! de decepção.

No fundo, no fundo, pouco importa quais possam ser os times que o Brasil terá de enfrentar. Nossos adversários maiores já são conhecidos. São o atraso, a corrupção, a desigualdade entre os que mandam e os que são mandados, o paternalismo, a ignorância, a inação, a leniência, o descaso dos que poderiam fazer alguma coisa, a desonestidade.

by Amarildo Lima, desenhista capixaba

by Amarildo Lima, desenhista capixaba

Que o Brasil vença vários adversários e obtenha boa classificação na Copa é secundário. Quer chegue lá ou não, será um momento passageiro.

O mais desalentador é a certeza de que, após o último jogo, quando o último turista tiver embarcado e os garis tiverem varrido o lixo, nossos adversários de sempre continuarão aí, a nos envenenar a existência.

Miscelânea 12

José Horta Manzano

Desenvolvimento humano
O PNUD ― Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento ― publicou a classificação do desenvolvimento humano das unidades federativas do Brasil. O estudo está baseado nos dados do censo de 2010 e consolida os índices de renda, de longevidade e de educação apurados em cada município.

Classificação IDHM 2010

Classificação IDHM 2010 – por Unidade Federativa

Os últimos classificados na lista são, na ordem: Pará (25° lugar), Maranhão (26° lugar) e Alagoas, o campeão do atraso, em 27° e último lugar.

Faz décadas que os clãs Barbalho, Sarney e Collor ― cada um na sua terra ― vêm exercendo influência pesada nos três Estados que ora aparecem com os piores índices de desenvolvimento.

Qualquer relação entre esse coronelato e o atraso da população pode não ser mera coincidência. Veja aqui, em resolução superior, o quadro no site do PNUD.

Interligne 18e

Horário de verão
Para mim, a palavra horário evoca uma tabela organizada com horário de trem, de avião, de aula, de trabalho. O que os ingleses costumam chamar timetable. Pessoalmente, para definir a mudança da hora oficial no período estival, prefiro a expressão hora de verão. Mas horário de verão está bem ancorado na língua. Vamos de horário mesmo.

Depois de muito vaivém na fixação anual de sua data de início e de fim, o período durante o qual os relógios têm de ser adiantados estabilizou-se a partir do Decreto n° 6558, de 2008. Ficou combinado que a operação começa no terceiro domingo de outubro e termina no terceiro domingo de fevereiro.

Nos anos em que o término coincidir com o Carnaval, a volta à hora normal se fará no quarto domingo de fevereiro. Não entendo bem a relação entre o Carnaval e a hora legal, mas o legislador houve por bem evitar a coincidência. Talvez para não amputar uma hora da festa maior ― evitar revoluções é dever de toda autoridade.

Na Europa, faz 30 anos que o acordo é o seguinte: adiantam-se os relógios no último domingo de março e volta-se a atrasá-los no último domingo de outubro. Um detalhe notável, no entanto, faz a diferença. Na Europa, estudos revelaram que o momento mais calmo do dia está situado entre as 2 horas e as 3 horas da madrugada. Assim, quando os relógios marcam as 2h da manhã do último domingo de março, passa a ser 3 horas. E às 3 horas do último domingo de outubro, atrasam-se os relógios para marcarem 2 horas.

É curioso que, no Brasil, tenham pensado em não perturbar o Carnaval, mas não tenham situado a mudança na hora mais sossegada da madrugada.

Seja como for, a partir de 27 de outubro, Brasil e Europa estarão separados apenas por 3 horas.

Relógio ― modelo oficial da Rede Ferroviária Suíça

Relógio ― modelo oficial da Rede Ferroviária Suíça

Há uma outra particularidade brasileira advinda do fato de nem todos os Estados aderirem à mudança de hora. Dou-lhes um exemplo significativo. O município de Caravelas (BA) está situado na mesma latitude de Santa Rita do Araguaia (GO). Dado que as duas estão separadas por quase 15 graus de longitude, a hora solar, inflexível, determina que a cidade baiana está uma hora à frente da goiana. Esse é o tempo real, astronômico. No entanto o horário de verão gera uma surpreendente distorção. Quando for meio-dia em Caravelas, já será uma hora da tarde em Santa Rita, na contracorrente da lógica geográfica.

Como já cantava Noel Rosa, num maxixe de 1932, são nossas coisas, são coisas nossas. Se quiser ouvir a gravação original, clique aqui.

Bulindo com a bala

José Horta Manzano

Desde que a peça teatral L’Arlésienne, do escritor e dramaturgo francês Alphonse Daudet (1840-1897), foi encenada pela primeira vez, a palavra arlésienne entrou na linguagem comum do país.

L'Arlésienne com dedicatória do autor

L’Arlésienne
com dedicatória do autor

Em sentido próprio, designa uma mulher originária da cidade de Arles, no sul da França. Na peça, é o nome de uma personagem que não aparece nunca, que ninguém vê. Desde então, quando quer se aludir a algo ou a alguém que não se vê, que não periga aparecer, diz-se que «c‘est comme l‘arlésienne», é como a arlesiana.

Estes dias, foi anunciado o enésimo adiamento do leilão em que se pretende confiar, a um consórcio de empresas, a construção do famigerado trem-bala ligando Campinas ao Rio de Janeiro, via São Paulo. Lembrei-me da arlesiana. Com sua sabedoria do século XIX, minha avó diria que esse trem aí só será inaugurado no dia de São Nunca.

O tempo passa e as coisas mudam. Quando esse projeto foi concebido, o País vivia tempos de euforia. Presidente taumaturgo, economia florescente, dinheiro entrando a rodo, céu de brigadeiro. Foi nessa onda que pareceu a nossos mandarins uma excelente ideia investir o que fosse necessário para convencer Fifa e CIO que os próximos megaeventos planetários tinham de se realizar no Brasil.

Trem de São Nunca

Trem de São Nunca

Não deve ter sido difícil convencer os comandantes mundiais do esporte. São gente muito compreensiva e bastante flexível. Aliás, desde que os fenícios inventaram a moeda, ficou bem mais fácil convencer.

No embalo de copona, copinha, jogos olímpicos, veio também o trem-bala. Sem falar em transposição(*) de rios. Obras faraônicas, de prestígio, vistosas, imponentes, que nem os generais chegaram a ousar nos tempos do Brasil grande.

Os ventos mudaram. Hoje seria impensável impor ao povo brasileiro o gasto de bilhões de reais em façanhas de tão pouca utilidade. Enfim, o que está feito, está feito. Não faz sentido demolir estádios modernosos nem anular a copa. No entanto, o trem-bala, que nem começado está, de certeza nunca se fará.

Bala

Bala

O artigo 5° de nossa Constituição deixa bem claro que todos os brasileiros nascem livres e iguais. Num país em que falta giz nas escolas e esparadrapo nos hospitais, numa terra onde milhões de cidadãos vivem expostos à fome, ao medo, à insegurança, ao atraso cultural, à desesperança, seria inadequado ― para dizer o mínimo ― torrar 35 bilhões na construção de um trem de luxo para beneficiar uma meia dúzia.

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(*) Transposição, palavra pomposa, não é o termo mais adequado. Bipartição, tripartição ou simplesmente partição reflete a realidade com mais precisão e cai muito melhor.

Um povo cordial

José Horta Manzano

Tempos houve em que as notícias levavam semanas ou meses para chegar a regiões recuadas. Dizem que, em meados de 1890, em certos cafundós brasileiros situados pra lá de onde o vento faz a curva, ninguém estava ainda a par de que um golpe de estado havia rompido a ordem legal e imposto um novo regime. Achavam todos que o imperador ainda estivesse no trono.

Depois veio o telégrafo sem fio. Depois veio o telefone. Depois veio o rádio. Depois veio a televisão. E por fim chegou a internet ― por enquanto, a última palavra em matéria de modernidade. E tudo mudou. Notícias agora viajam à velocidade da luz. Não se consegue mais dar um espirro sem que, de Nova York a Pequim, todos fiquem sabendo. Será mesmo?

Interligne 20

Parece que nem sempre é assim, a julgar pelo que lhes vou relatar agora. A notícia é de arrepiar. Daquelas que não acontecem mais desde a Revolução Francesa. É o que imaginamos, pelo menos.

Para quem não ficou sabendo até agora, aconteceu dia 30 de junho passado, na localidade de Centro do Meio, município de Pio XII, Estado do Maranhão. Exatamente no domingo em que se jogaria, logo mais à noite, a partida final da copinha. As cenas são de uma barbárie inconcebível. Melhor que eu, o despacho da Folha de São Paulo dá os sórdidos detalhes. Conselho a almas sensíveis: abstenham-se de ler. Aqui.

Os crimes ocorreram em 30 de junho. Justiça seja feita ao site G1 (Globo), que deu a notícia no dia seguinte. Foi o único. Três dias depois, a horripilante informação começou a pingar aqui e ali, em sites de esporte, blogues, um jornal português, alguma gazeta interiorana. Da mídia prestigiosa, apenas a Folha de São Paulo deu a notícia, já no dia 4 de julho.

Decapitação

Decapitação

Foi preciso esperar até o dia seguinte, 5 de julho, para encontrar no Estadão uma nota de 5 linhas sobre o caso. Somente a partir daí a notícia espalhou-se pelo mundo. Está chegando por aqui estes dias.

Perguntas ficam no ar sobre o porquê dessa demora. É intrigante também esse véu de pudor com que os meios de comunicação brasileiros minimizaram ou simplesmente ocultaram a cena digna de tempos medievais.

De onde terá vindo a decisão de pôr panos quentes? Autocensura ou ordens superiores? Receio de que a realidade violenta do Brasil arranhe a imagem idílica do brasileiro cordial? Ignorância ninguém poderá alegar, visto que o G1, um site importante, já publicou a ocorrência nas horas que se seguiram.

Acho que não saberemos nunca. Talvez politólogos ou sociólogos possam explicar.

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Para os curiosos, aqui estão alguns sites que deram a notícia escabrosa do duplo assassinato:

1° de julho ― G1 (Globo)

2 de julho ― nada

3 de julho ― nada

4 de julho ― Esportes Terra

4 de julho ― Record (site esportivo português)

5 de julho ― Gazeta de Alagoas

5 de julho ― Estadão

6 de julho ― 20 minutes (tabloide suíço)

7 de julho ― Le Parisien (jornal francês)

8 de julho ― Gentside (site esportivo francês)

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No tempo do telefone a manivela, as notícias viajavam mais depressa.

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