O poder das analogias

Myrthes Suplicy Vieira (*)

A primeira vez que me dei conta da profunda sabedoria contida numa analogia ela veio envolta na saborosa e rústica forma de falar nordestina. Eu estava em Recife, coordenando um treinamento para a equipe de vendas da região. Fizemos uma pausa no meio da tarde para um café. Eu conversava com um dos participantes, que parecia empolgado com as propostas introduzidas na parte da manhã.

Ele mastigava descontraidamente uma bolacha cream-cracker enquanto me ouvia tecer considerações sobre o que viria a seguir. De repente, notei que ele fazia caretas de desagrado e, intrigada, perguntei o que o estava incomodando. Com um meio sorriso nos lábios, ele respondeu: “Não tem nada a ver com o treinamento, não. É esta bolacha… isto aqui é como dançar com irmã.” Sem entender aonde ele queria chegar, voltei a questionar: “Como assim?”. Ele retrucou de pronto, com um ar entre sério e safado: “Não tem gosto de nada!”

O poder de uma analogia reside exatamente no fato de que, ao se estabelecer uma conexão inesperada entre duas experiências díspares, vem à tona um traço fundamental do caráter de um produto/marca, de uma situação ou de uma pessoa, capaz de distingui-los de forma criativa de outros do mesmo segmento.

A pesquisa de mercado e a comunicação publicitária valem-se seguidamente desse recurso, já que não é preciso fazer nenhum esforço consciente para apreender qual é o benefício único do produto/marca que está sendo apresentado. Ao contrário, ele surge como uma espécie de revelação de algo que já se sabia, mas que ainda não havia sido colocado em palavras por ninguém. Graças a isso, o traço de união revelado adquire quase imediatamente o sentido de “verdade” para todos aqueles que partilham da mesma opinião.

Muitos devem se lembrar, por exemplo, de uma propaganda que já completou mais de vinte anos, cuja assinatura é usada até hoje como mote para fazer referência ao padrão de qualidade de alguma coisa, seja um produto/marca, situação ou pessoa: “Não é nenhuma Brastemp…”

Cansada do clima de mal-estar político e sem ver solução de curto prazo para pôr fim à agonia ética em que patinamos todos, resolvi me encher de coragem e propor aos que me leem um jogo de analogias. Para tornar o jogo mais palatável, não serão utilizados nomes de possíveis candidatos, filiações partidárias ou orientações ideológicas. Também não será levado em consideração o sistema de governo que cada um considera o mais adequado para o futuro.

O jogo é o seguinte: Imagine que a saída para boa parte dos males do país está nas mãos de uma única pessoa. Estabeleça agora uma analogia entre esse personagem e cada uma das categorias abaixo. Quando terminar, revise sua lista e identifique os motivos que o levaram a associar uma coisa à outra.

Se essa pessoa fosse:

   •  Um animal

   •  Uma ferramenta (manual ou aplicativo eletrônico)

   •  Uma música (ou gênero musical)

   •  Uma comida

Se lhe ocorrer alguma outra categoria que lhe pareça mais significativa para ressaltar a personalidade dessa espécie de “salvador da pátria” [no sentido de alguém capaz de abrir novos caminhos], não hesite em utilizá-la também. Mas atenção: o jogo tem de ser divertido e espontâneo. Registre sempre a primeira ideia que lhe passar pela cabeça, evitando o máximo que puder a autocensura, ou seja: não se importe se a ideia lhe parecer ridícula, sem sentido ou exagerada. Lembre-se sempre que não há respostas certas ou erradas.

Caso sejamos bem-sucedidos e consigamos reunir sugestões inovadoras e bem-humoradas, comprometo-me desde já a analisar os resultados e elaborar um resumo das principais características do futuro da nação com que sonhamos.

Agradeço de antemão a todos que se deixarem sensibilizar com minha proposta.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Não viaje, fique em casa

José Horta Manzano

Li ontem que a Câmara Federal converteu em lei uma medida provisória que reduz de 25% para 6% a mordida que a Receita Federal dá em cada montante que brasileiros enviam ao exterior.

O distinto leitor pode até nem acreditar, mas este blogueiro não sabia que o fisco cobrasse imposto dito «de renda» sobre remessas que cidadãos comuns fazem para o estrangeiro. Não sei se é uma «jabuticaba» (especificidade brasileira) ou se existe em outras terras. O fato é que eu nunca tinha imaginado que tal aberração pudesse existir.

Guichê 1Embora a alíquota tenha sido suavizada, o pedágio continua a ser cobrado a cada envio de fundos. Que seja para viagem de turismo, de negócios, de serviço, de treinamento, tanto faz. Até fundos enviados por cidadãos viajando em missão oficial são puncionados. É uma enormidade. A cobrança é injusta, burra e extravagante.

É injusta porque soa como punição imposta aos que tiverem ousado trabalhar, economizar e alcançar condições de fazer turismo fora do país. A mensagem profunda é: «Não vale a pena se esforçar para subir na vida, cidadão. Toda ascensão social será castigada!»

É burra porque penaliza empresários em viagem de negócios ou de serviços. Passa por cima do fato que nosso país, com parque industrial em desmonte acelerado, busca desesperadamente clientes e oportunidades novas no exterior. Esse imposto burro só faz aumentar o custo Brasil. Viagens de negócios deveriam, ao contrário, ser incentivadas.

Dinheiro 5É extravagante porque pune viagens de treinamento. A tecnologia invade, cada dia com mais força, a vida do cidadão comum. Ideias novas, aparelhos novos, dispositivos novos, técnicas novas requerem operadores bem formados. Se um cidadão viaja ao estrangeiro para receber treinamento, voltará sabendo mais do que sabia ao deixar o país. Deve-se concluir que a ideologia oficial é barrar aos brasileiros o caminho do aprendizado?

É verdade que, desde sempre, o Brasil cultivou seu isolamento e seu provincianismo. Tempos houve em que, para poder viajar ao exterior, a gente precisava de um visto de saída expedido pela Polícia Federal. Isso felizmente acabou, mas sobrou esse imposto. Podia fazer sentido em outras épocas. Hoje, combina com Cuba e Venezuela. No Brasil, dá recado ambíguo.

Interligne 18hNota a jato
Espero que o fisco federal tenha pensado em cobrar o devido imposto “de renda” de todos os que, pressionados pela Lava a Jato, estão devolvendo o que roubaram. Afinal, essa bolada saiu do Brasil livre de impostos. Sem prejuízo do processo penal, que o devido tributo seja calculado pela alíquota de 25%, que estava em vigor à época. E que se aplique multa e correção.