Discurso na ONU

José Horta Manzano

Salvo intérpretes simultâneos, ninguém presta muita atenção aos discursos pronunciados na abertura da sessão anual da ONU. Intérpretes, naturalmente, são obrigados, por dever de ofício, a não perder uma palavra. Fora eles, cada um dá importância ao discurso de seu presidente. E a mais nada.

Não escutei todos os discursos – só faltava! –, mas acompanhei o de Bolsonaro, o de Trump e o de mais meia dúzia de dirigentes. Não pretendo aqui fazer análise comparativa entre todos, mas vou revelar a impressão que algumas passagens me deixaram.

Os discursos de Trump e de Bolsonaro seguiram linha semelhante: traziam ambos a palavra de um governante acuado, angustiado, preocupado com o próprio destino. Tanto o discurso de um quanto o do outro se destinavam ao público interno.

Sabe-se que Trump anda pisando em ovos, de olho nas eleições de novembro. Sabe-se também que Bolsonaro anda sentindo o cerco da justiça e da polícia ao próprio clã. Nas entrelinhas, o discurso de ambos deixava transparecer essa preocupação.

Sem atuação internacional digna do tamanho do país, Bolsonaro mencionou as forças de paz que, ao longo da história, contaram com participação de militares brasileiros. Ah, a falta que uma política internacional faz!

Uma diferença notável entre os discursos lulopetistas e o de Bolsonaro é que aqueles reivindicavam, a cada ano, um lugar para o Brasil entre os grandes, com direito a assento permanente no Conselho de Segurança. Com Bolsonaro, parece que o Brasil se acomodou no papel de coadjuvante.

Tanto Trump quanto Bolsonaro se gabaram de ter feito tudo o que não fizeram. Ambos pintaram um quadro de combate à pandemia como se tivessem sido eles os idealizadores. Nada mais falso; foram eles o principal empecilho. Bolsonaro teve o topete de sugerir que foi ele quem deu instruções a prefeitos e governadores. Todos sabem que não foi assim; prefeitos e governadores tiveram que batalhar firme para aplicar as políticas preconizadas pelas autoridades sanitárias mundiais.

Sem se dar conta da contradição, Bolsonaro diz o sim e o não, o verso e o reverso. E faz isso na mesma frase. Em exercício de negacionismo explícito, disse que a floresta, por ser úmida, é incombustível. Logo a seguir, quase sem pausa pra respirar, acrescentou que as queimadas são provocadas pelo caboclo e pelo índio que queimam o roçado em busca da sobrevivência. Afinal, o mato queima ou não queima, doutor?

Trump e Bolsonaro destoaram da polidez aveludada que costuma reinar naquele recinto. O americano atacou veementemente a China, acusando seu maior parceiro comercial de todos os males. O brasileiro acusou (sem provas) a Venezuela pelo derramamento de óleo que atingiu nosso litoral no ano passado. Como se sabe, a origem daquele desastre nunca ficou estabelecida com segurança.

Ficou mais uma vez demonstrado que presidente de uma república não pode ser improvisado. As falas de Trump e de Bolsonaro são a prova disso. Ambos são gente saída não se sabe de onde, sem eira nem beira, oportunistas sem o mínimo de cultura e de abertura de espírito indispensáveis para exercer a função que lhes foi outorgada.

Bolsonaro pronunciou (e louvou) o nome de Trump, o que não é habitual, nem fica bem. Escancara uma subserviência que só faz rebaixar a «soberania» reclamada pelo Planalto. O presidente de Cuba não perdeu a ocasião para queixar-se do «império» (leia-se os EUA); é recorrente.

A Rússia foi feliz na instalação das bandeiras como pano de fundo, atrás de Vladimir Putin. Apareciam, lado a lado, a bandeira nacional e a da ONU. Ficou bonito. Tanto a estética quanto a simbologia ficaram nos trinques.

No fundo, o que mais me agradou da apresentação do Brasil foram as legendas. Tradução benfeita e legenda colocada à margem inferior, permitindo visão integral da imagem. A tradução foi impecável. Pena não se poder dizer o mesmo do discurso. Mas disso a gente já sabia. Ou não?

Ignorante e encastelado

José Horta Manzano

Ignorante e encastelado, nosso presidente vive em universo minguado. Sua visão não alcança além da ponta do nariz. Os cortesãos, também adeptos do ensimesmamento, não ajudam. Até os (poucos) cujo currículo mostra alguma abertura no passado acabam por curvar-se em oportuno mimetismo: arrogantes e agressivos, imitam o chefe.

O grande desejo de doutor Bolsonaro é que a duração do mandato seja a mais longa possível. Permanecer no trono lhe dá certa proteção contra a prisão. Ele tem atacado muita gente e feito muitos inimigos. Sabe que vingança é prato que se come frio. Sabe que um dia, fatalmente, perderá a imunidade – e teme esse dia. Lembra-se do que aconteceu com Lula da Silva, que, apesar da monumental popularidade com que deixou o governo, teve de purgar ano e meio de cadeia.

Doutor Bolsonaro tem razão de temer. A insistir em dirigir os negócios do Estado brasileiro com tal cegueira, o acúmulo de inimigos ressentidos o levará à Papuda após o fim do mandato.

Primeiro fator
Ele não sabe (e ninguém lhe diz) que o planeta está em rápida mutação; a sensibilidade ecológica, incipiente no Brasil, está crescendo muito depressa mundo afora.

Segundo fator
Ele não percebe (e ninguém lhe conta) a repercussão global causada por sua tresloucada política de destruição da Amazônia, que não combina com a sensibilidade ecológica do século 21. No exterior, é assunto que rende. Não se passa um dia sem que a mídia mundial volte ao assunto. Jornais, rádios e tevês apontam sem parar o bizarro dirigente que promove o aniquilamento da maior floresta equatorial do mundo.

Conclusão
Ele não enxerga (e ninguém lhe revela) que os importadores de produtos brasileiros estão sofrendo pressões cada dia mais fortes para deixar de comprar do Brasil e passar a importar de outras fontes.

Ao viver na ingenuidade dos ignorantes, doutor Bolsonaro está brincando com fogo. A força das ruas e a bateção de panelas não são nada se comparadas com a potência silenciosa dos grandes exportadores brasileiros. Na hora em que os negócios deles começarem a diminuir, o tom vai mudar. Empresário nenhum aprecia que alguém lhe atravanque o caminho. O que Bolsonaro não consegue ver vai custar caro a todos – a ele e a nós também.

A seguir, um sortilégio de artigos que se recortam todos os dias na imprensa mundial. Recortei comentários indignados até na mídia de Bangkok, na longínqua Tailândia.

Jornal Ouest France, França

Bangkok Post, Tailândia

Agenzia Nova, Itália

Die Zeit, Alemanha

El Observador, Uruguai

Paris Match, França

Bochecha com bochecha

José Horta Manzano

Todos os brasileiros não-robotizados têm uma sensação de desconforto quando doutor Bolsonaro solta suas barbaridades. Elas são costumeiras, mas – que remédio? – a gente não se acostuma. Para nós que vivemos longe da pátria, então, o desconforto é maior; chega a ser vergonha. Quando alguém começa a falar do presidente do Brasil, a gente se mexe na cadeira e quer mais é que a conversa se desvie logo pra outro assunto. É muito chato ter de explicar o tempo como é que esse estropício chegou lá.

Quanto aos ministros, enquanto seus insultos não atingem personalidades do exterior, ninguém fala deles. Felizmente. Só entram para o noticiário quando algum, mais ousado ou com mais pressa de agradar ao chefe, agride um país estrangeiro ou um figurão internacional. Aí, de novo, a gente pode ir se preparando para uma sessão desculpa.

Estes dias foi a vez de senhor Guedes, ministro que gere os dinheiros da nação. Em videoconferência patrocinada por The Aspen Institute – uma célula de reflexão frequentada por investidores estrangeiros –, o auxiliar de Bolsonaro rodou a baiana. Ele falou em inglês. Procurei o vídeo em versão original, infelizmente só circula a versão semidublada, aquela em que a voz do locutor cobre a fala original. Portanto, tenho de botar fé na (má) tradução.

O ministro foi instado a dar explicações sobre a política ambiental do governo do qual participa. Em vez de responder, decidiu, malandro, imitar a manjada linha de defesa lulopetista: arreganhou os dentes e partiu para a agressão pra cima dos mensageiros – no caso, os jornalistas. Disse horrores. Esbravejou lembrando que os EUA já tinham matado seus índios e destruído suas florestas, portanto, que nos deixassem e paz pra matar os nossos e destruir as nossas. Classudo, não?

Cheek to cheek
by Romero Britto (1963-), artista pernambucano radicado nos EUA

Acusou os EUA de serem Estado escravagista e racista. Denunciou a política econômica daquele país por estar dançando «de rosto colado» com a China (a tradução, digna de um aplicativo de tradução automática, diz ‘bochecha com bochecha’, mas desconfio que o original fosse mesmo ‘cheek to cheek’). Num insuperável rasgo de elegância, disse que nem um brasileiro bêbado ousaria conduzir o sistema bancário como fizeram os EUA quando da crise bancária de 2008 – repare na classe! Numa passagem um tanto obscura, mencionou o Lula e disse que estaria dando «apertos de mão» a Obama porque havia corrupção e compra de pessoas no Brasil. Esse pedaço, confesso, não entendi.

Entender o que dizem auxiliares de Bolsonaro é tarefa árdua. Esse senhor Guedes não foge à regra. Petulante, rosna e atira insultos assim que um microfone lhe aparece. Se o objetivo era afastar investidores, o sucesso está garantido. Se era resgatar a confiança do empresariado internacional num governo aprumado, o tiro saiu pela culatra. Se era desviar a atenção da criminosa destruição da Amazônia, em cartaz atualmente, conseguiu o efeito contrário: todos se deram conta de que Guedes tentou fugir às respostas. Fugiu às respostas, mas seu chefe não fugirá às consequências.

Aqui na Europa, a conferência não foi divulgada. Melhor para nós, que não teremos de dar explicação. Tenho pena de nossos conterrâneos que vivem nos EUA – e são muitos. Desta vez, a canseira e a vergonha são para eles. Ânimo, patrícios!

Publicado também no site Chumbo Gordo.

A conta chega

José Horta Manzano

O povo diz que ‘aqui se faz, aqui se paga’. Em linguagem mais elevada, o axioma newtoniano diz a mesma coisa: ‘A toda ação corresponde uma reação oposta e de igual intensidade’. No frigir dos ovos, todos sabem que nada sai de graça, tudo tem seu custo. Mais cedo ou mais tarde, a conta chega.

Um dia, logo no início do mandato, com aquela incúria de adolescente mal-educado cuja mãe nunca botou fé em simancol, doutor Bolsonaro achou uma graça comentar uma tuitada que ofendia Brigitte Macron, esposa do presidente da França. Acumpliciou-se ao autor da patacoada e ainda completou com um MDR (morto de rir).

A ofensa, em si, estava mais pra deboche que pra insulto. Fazia alusão ao fato de madame já ter perdido o frescor e o encanto da juventude. Piada de sarjeta. Só que doutor Bolsonaro ainda não tinha se dado conta – não se deu até hoje – de que não era dono do botequim da esquina, mas chefe do Estado brasileiro.

Na ocasião, vi pela televisão o semblante de Monsieur Macron, colhido assim que lhe deram a notícia, em plena reunião do G7. Fez, por breve instante, aquela cara de quem não estava acreditando no que ouvia. A pedrada era suficiente para derrubar qualquer Golias.

Inteligente e bom orador, engoliu em seco, pronunciou meia dúzia de palavras e fechou: «Je pense que les Brésiliens, qui sont un grand peuple, ont un peu honte de voir ces comportements – Acho que os brasileiros, que são um grande povo, sentem vergonha de ver esse tipo de comportamento». Uma saída elegante, diferente do nível rasteiro que vigora no Planalto. No final, ficou tudo por isso mesmo.

Ficou tudo por isso mesmo? Não acredite, distinto leitor. Nada fica por isso mesmo. Aqui se faz, aqui se paga. Vindo da boca de um chefe de Estado, a ofensa passou de desacato: na França, foi interpretada como agressão. Um obtuso Bolsonaro instilou ressentimento no espírito do colega francês. Todo agredido costuma ter desejo de vingança.

Hoje o episódio anda esquecido. Para azar nosso, Monsieur Macron, que ainda tem dois anos de mandato, não se esqueceu. São coisas que marcam para a vida toda. Como resultado da brincadeira de um irresponsável Bolsonaro, o Brasil pode dizer adeus – e por muitos anos – à ratificação do acordo de comércio entre a UE e o Mercosul, aquele que levou 20 anos pra ser costurado. Enquanto Macron estiver na presidência, não será assinado porque a França vai bloquear.

A conta chega. Não adianta correr.

Tem mais. A covid-19 revelou fragilidades que ninguém imaginava. A Europa descobriu que a desindustrialização das últimas décadas privou o continente de rapidez de reação. Não há mais fábrica de máscaras, por exemplo. Tudo vem da China. Por seu lado, as estrepolias de nosso ministro Salles estão puxando os holofotes para a Amazônia brasileira e o desmatamento que a destroça. Em Paris, as autoridades encarregadas de pensar o futuro do país se deram conta da total dependência, em matéria de alimentação animal, da soja estrangeira, importada principalmente do Brasil.

Macron, com o tuíte de Bolsonaro ainda zunindo no ouvido, está embarcando em nova cruzada. Tem dito, a quem quer ouvir, que seu país – grande importador de soja – tem de diversificar, procurando novos fornecedores. Países interessados em tomar o lugar do Brasil é o que não falta. É só uma questão de tempo, que essas coisas não se fazem do dia para a noite.

Sozinho, o presidente francês não tem o poder de determinar de onde seu país vai importar soja. Mas seu prestígio tem peso, e ele está se valendo disso. Tem mexido os pauzinhos no sentido de alargar o leque de fornecedores e deixar o Brasil à míngua. Para isso, conta com o apoio entusiasta de Greenpeace e de outras centenas de ongs. Agindo assim, dá satisfação à ala ecologista de seu eleitorado, colhe pencas de votos e, de quebra, dá o troco a Seu Jair.

Pois é, a conta do jantar acaba chegando um dia, embora nem sempre seja cobrada de quem encheu a pança. No caso da imbecilidade cometida por nosso presidente, quem vai pagar a dolorosa é você, sou eu, somos todos nós. Ao fim do mandato – quer siga como previsto, quer seja encurtado – o verdadeiro ofensor estará livre e solto, com pensão vitalícia, carro, motoristas, secretários e seguranças pagos com nosso dinheiro. Nós, sem ter pedido a conta, vamos ter de enfiar a mão no bolso.

Publicado também no site Chumbo Gordo.

Boicote à vista

José Horta Manzano

Se sobrar aos adormecidos miolos de Jair Bolsonaro um trisquinho de capacidade de enxergar além da ponta do nariz, é bom que esses miolos acordem rapidinho e que o doutor aguce a visão.

Assim que assumiu o mandato, ele instaurou uma política de pouco caso para com a proteção ambiental. A política é cretina. Por um lado, vem causando estrago na economia brasileira de exportação; por outro, não acrescenta um voto sequer a seu punhado de adoradores.

O compromisso, assumido recentemente pelo governo brasileiro, de “reduzir o desmatamento” vem sendo noticiado na Europa assim mesmo, entre aspas, indicação de que é de mentirinha, declaração oca pra enganar trouxa.

Artigo publicado na edição online da revista semanal francesa L’Express faz denúncia preocupante. As antenas de nosso doutor presidente – se ele as tiver – devem estar de pé, espichadas. A revista francesa cita um estudo publicado no último número da americana Science. Segundo o trabalho, 20% das exportações brasileiras de soja e de carne bovina destinadas à União Europeia provêm de zonas desmatadas ilegalmente.

Nos tempos atuais, essa informação é venenosa. Por mais contorções que faça o governo brasileiro para sustentar a afirmação de que está “reduzindo o desmatamento”, um estudo desses põe tudo por terra.

O governo brasileiro se compromete a “reduzir o desmatamento” na Amazônia.

Fechados em seu palácio, a disparar tuítes da manhã à noite, Bolsonaro & companhia sequer assomam à janela pra ver a vida passar. Ignorantes, não se dão conta de que, nos países civilizados, considerações ecológicas assumem protagonismo cada dia maior. Países civilizados são – vejam que coincidência! – os grandes clientes do Brasil.

Aqui e ali já pipocam boicotes a produtos brasileiros. Por enquanto, o grande volume exportado pelo Brasil não permite substituição imediata. Mas pode deixar. Os concorrentes – Estados Unidos, Argentina, Austrália, Canadá & outros – já estão salivando. E se organizando.

A perseverar nessa tresloucada política, doutor Bolsonaro não chega ao fim do mandato. Será apeado do poder por uma conspiração instigada, fomentada e financiada pelos grandes exportadores brasileiros que, descontentes, querem mais é vê-lo pelas costas.

Como se sabe, lá como cá, quem move o mundo é o dinheiro. Nessa lógica, é fácil entender: quem tem pouco, manda pouco; quem tem mais, manda mais. Os grandes conglomerados exportadores têm dinheiro às pencas. Logo…

Vanzolini e a floresta

José Horta Manzano

Paulo Vanzolini (1924-2013) foi um zoólogo brasileiro que, secundariamente, fazia música. Nunca viveu de sua arte, mesmo porque não precisava. A atividade científica garantia ganho suficiente. Assim mesmo, emplacou sucessos como a música Ronda (vista por alguns como o hino de São Paulo), Volta por cima (aquela que dizia: ‘levanta, sacode a poeira, dá a volta por cima), Praça Clóvis (que Chico Buarque gravou). Deixou centenas de composições, muitas inéditas.

Vanzo, apelido que lhe davam os mais íntimos, era genioso, como se dizia antigamente. Não era de trato fácil. Ranzinza, tinha a língua afiada e costumava dizer o que pensava, o que nem sempre agradava a todos.

Paulo Vanzolini, aos 88 anos, em 2012.

Sem formação musical, não conhecia solfejo, não tocava nenhum instrumento, não distinguia modo maior de modo menor. Já na ciência, eram outros quinhentos. Desde jovem, seu ofício o levou a ter contacto intenso com a mata virgem. Descobriu e descreveu dezenas de espécies desconhecidas. Como ninguém, conheceu a Amazônia, sua fauna e seus habitantes.

Já lá vão mais de dez anos, instado por um jornalista a dar sua opinião sobre a floresta brasileira, não guardou a língua no bolso. O homem, que não se ajoelhava diante do ‘politicamente correto’, disse o que pensava.

Desenvolvimento insustentável
«Vejo a situação da Amazônia com grande desgosto. (…) A Amazônia inteira quer derrubar a floresta. Principalmente o pessoal que vive lá mesmo. O único jeito seria diminuir a população. Não existe desenvolvimento sustentável. É uma besteira completa.

Enquanto a população crescer, você não vai negar comida. Enquanto tiver gente, e gente fazendo mais gente, como você vai comer sem plantar, sem matar os bichos que estão por lá? A única solução é: ‘Tranca a porta e perde a chave.’»

Sabe Deus qual seria a reação de Vanzo, se ainda estivesse entre nós, diante do festival de desmatamento incentivado pelo Planalto.

Contra-bravata

José Horta Manzano

Acabo de ler o relato de entrevista concedida por doutor Bolsonaro a um programa de televisão. A gravação teve lugar em Nova York, logo após o discurso pronunciado no púlpito da ONU. Tenho algumas considerações sobre a conversa entre o presidente e a jornalista.

Desfocados
O presidente asseverou que sua equipe e ele planejaram um pronunciamento “contundente, mas não agressivo”, necessário após “semanas de muito ataque ao Brasil”.

Entre contundente e agressivo, vai uma larga distância. Contundentes foram as palavras de Churchill ao prometer aos ingleses “sangue, labuta, lágrimas e suor”. Agressivo foi o pronunciamento de Trump quando chamou o dono da Coreia do Norte de “homem foguete (rocket man)“. É possível ser contundente sem necessariamente agredir. Pra isso, porém, é preciso arte, artigo em falta no Planalto há décadas.

A equipe de doutor Bolsonaro decidiu-se pelo tom ‘contundente’ após “semanas de muito ataque ao Brasil“. Falácia. Querer socializar os tais ‘ataques’ e compartilhá-los com o Brasil inteiro é malandragem. Os tais ‘ataques’ não foram dirigidos ao Brasil, mas ao presidente Bolsonaro pessoalmente. Não foi o povo brasileiro que insultou dirigentes europeus, foi doutor Bolsonaro. Em seu nome unicamente. O revide, naturalmente, foi dirigido a ele unicamente.

Exagerado
O presidente lembrou que o governo brasileiro não pode controlar focos de incêndio em todo o território da Amazônia. “O tamanho da nossa Amazônia é maior (sic) do que a Europa Ocidental; não tem como manter o controle“ – arrematou. Vamos passar por cima da frase mal construída. Se a gente for parar pra comentar cada pisão na lógica desferido por doutor Bolsonaro, amanhã ainda estaremos aqui.

Vamos ao que interessa: Europa Ocidental é conceito impreciso. É como coração de mãe, onde sempre cabe mais um país. Dado que não é conceito oficial, cada um põe os limites onde lhe agrada. Portanto, usar a Europa Ocidental como base de comparação de área seria proposição de má-fé. A União Europeia, sim, é entidade real, com superfície definida. Vamos supor que a esclarecida equipe de doutor Bolsonaro tenha se baseado nela.

Rápida consulta ao google esclarece a questão. A União Europeia tem superfície de 4.500.000 km2. A Amazônia brasileira (Bolsonaro falou em ‘nossa’ Amazônia) tem 3.000.000 km2. Portanto, a afirmação de que nossa floresta é maior que a Europa é mais que exagerada: é falsa.

Confissão
A entrevistadora puxou a conversa para o terreno pantanoso de eventual intervenção militar na Venezuela. Doutor Bolsonaro descartou toda ação nesse sentido. Disse esperar que as sanções econômicas americanas surtam efeito. (Esquece-se de que, ao que se saiba, sanções econômicas jamais levaram país nenhum a abrir o bico. Contorná-las é fácil como tirar chupeta de recém-nascido.)

E aí veio uma das afirmações mais surpreendentes que se poderiam esperar da boca de um presidente da República. A confissão de que nossas Forças Armadas são fracas, incapazes de enfrentar uma Venezuela. Disse ele: “No Brasil, você sabe que as nossas Forças Armadas, o seu potencial foi bastante diminuído ao longo das últimas décadas. E, pela topografia da Venezuela, qualquer intervenção militar ali, de qualquer país, seria um ‘Vietnã”.

Não é corriqueiro ouvir, do dirigente de um país, a confissão de que suas FFAA são fracas – portanto, incapazes de garantir a segurança do território. Mais comum é ouvir o contrário, afirmações do tipo: “Quem ousar mexer conosco vai conhecer o fogo do inferno”.

Aviso aos navegantes: Quem quiser vir tomar a Amazônia brasileira, esteja à vontade. Nosso exército é fraco. Não sou eu quem diz isso, foi o presidente quem afirmou com todas as letras.

Nem Dilma Rousseff, nos momentos mais delirantes, ousou soltar uma contra-bravata desse quilate.

A floresta e os netinhos

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 31 agosto 2019.

Quando o Congresso de Viena se reuniu, duzentos anos atrás, o mundo era bem diferente. No Extremo Oriente, China e Japão ainda viviam sua Idade Média. A Índia, pobre e desunida, estava prestes a sucumbir à mão de ferro do Império Britânico. Na África, fora raras exceções, os povos ainda não estavam organizados; Estados, na acepção atual, não haviam se formado. Nas Américas em pleno processo de emancipação, os países independentes eram frágeis demais para atuar na cena mundial. Restava a Europa.

Reinos e impérios europeus constituíam as potências da época. Foram eles que se reuniram em congresso para redistribuir as cartas que Napoleão havia embaralhado. Naquele tempo, um encontro desse tipo fazia sentido. As decisões tomadas no clube dos donos do mundo não eram passíveis de contestação. Entravam em vigor, ponto e basta. E olhe que não eram resoluções de pouca importância: com as fronteiras europeias sendo redesenhadas, cada pedaço de terra era cobiçado. Doze eram as potências reunidas. Tivesse ocorrido hoje, o Congresso de Viena ganharia o apelido familiar de G12.

Dois séculos – e muitas guerras – se passaram. Foi-se o tempo em que um fosso separava as regiões periféricas das potências dominantes. Acabou-se a era em que só um punhado de gigantes comandava. O mundo hoje é matizado. O dégradé começa da potência maior e vai deslizando, em declive suave e contínuo, até o mais deserdado dos países. Já não vigora a divisão rigorosa entre países ricos e países pobres. Há nações de «classe média» ascendente.

Reuniões do G7, como a organizada no passado fim de semana, têm ares anacrônicos e cheiram a naftalina. Desse tipo de encontro, raramente brotam soluções para os problemas da humanidade. Numa mostra explícita de hipocrisia, o clube exclui a China, hoje segunda potência do planeta – um disparate! A Rússia, dona de importante economia e terrível potencial bélico, tampouco faz parte do convescote. Foi posta de castigo, como se isso fosse benéfico para a convivência entre nações. Não há que se diga: essas reuniões de gente fina que arremedam o venerável Congresso de Viena já não impõem. Pálidas imitações do original, só servem para gastar dinheiro público.

Se Monsieur Macron incluiu as queimadas da Amazônia brasileira na pauta de discussões, não terá sido exatamente por ser ecologista de carteirinha. De olho em 2022, ele está mesmo é preparando a reeleição. Pra chegar lá, tem de passar aos eleitores imagem de líder forte, combativo e, acima de tudo, empenhado na defesa do planeta, como manda o figurino atual. A luta pela preservação dos recursos naturais é legítima e louvável, mas a súbita profissão de fé do líder francês cheira a oportunismo.

Semana passada, doutor Bolsonaro se encrespou com o colega francês. Foi quando Macron, ao se referir à selva equatorial sul-americana, chamou-a de «nossa Amazônia». Bolsonaro inferiu que a França está interessada «em ter um dia um espaço aqui, na região amazônica». Enfurecido e sem se aconselhar, soltou a insinuação. Quanta tolice, capitão!

A França já tem «um espaço aqui». Fosse menos precipitado, doutor Bolsonaro teria evitado essa gafe. A Guiana Francesa, nossa vizinha de parede, é território francês e tem 97% da superfície coberta pela floresta amazônica. Isso dá a Macron o direito de dizer o que disse. Um exame de conhecimentos gerais deveria ser exigido dos pré-candidatos ao Planalto. Só quem passasse poderia registrar candidatura. No dia em que um filtro desse tipo for instalado, passaremos menos vergonha. A marca deste peculiar começo de século é a subida ao trono de indivíduos de poucas luzes. Eles tocam desafinado, e quem troca os pés somos nós.

Enquanto isso, senhores, a mata está queimando. Árvores e bichos vão desaparecendo. Se alguém pode tomar atitude eficiente, não será o G7. Muito menos Monsieur Macron. A salvação da lavoura repousa nas mãos firmes de nosso presidente. Cabe a ele decidir se, um dia, diremos a nossos netos: «Sabe, Pedrinho, no meu tempo, esta floresta era bem mais extensa». Ou se seremos obrigados a confessar: «Sabe, Pedrinho, no meu tempo, aqui havia uma floresta».

Triste fim

José Horta Manzano

Este fim de semana, aqui na Europa, os incêndios da floresta amazônica aparecem em toda a mídia: jornais impressos, veículos online, noticiário do rádio e jornais da tevê. Mesas-redondas são organizadas, com políticos, climatologistas, sociólogos, demógrafos, jornalistas. Cada um tem sua opinião sobre o problema. De onde vem? Por que ocorre? A extinção do fogo interessa a alguém? São perguntas que, muitas vezes, não têm resposta.

Das discussões a que assisti, nenhuma mencionou a matança de animais. Há tanto bicho por ali, que os estudos não chegam à quantidade exata. As contas dão sempre números redondos.

Filhote de bicho-preguiça

Numa pesquisazinha rápida, fiquei sabendo que a região abriga mais de 400 espécies de mamíferos. As espécies de répteis são outro tanto. Esse é o número de espécies, não de animais!

Há onças-pintadas, micos-leão-dourados e outros macacos, bichos-preguiça, tatus, antas, sapos. Fico imaginando o triste e doído fim dessas infelizes criaturas. São milhões, zilhões.

Já que essa carnificina comove tão pouca gente, deixo aqui minha lágrima.

Círculo Polar

José Horta Manzano

Nos últimos dias de junho, fomos castigados por uma onda de calor vinda direto do Saara. Aquela bola de fogo estacionou sobre a Europa central. Bem na época do solstício, em que os dias são mais longos, tivemos 8 dias de sufoco, sem vento, sem nuvens, com céu azul e sol brilhando das 5h da madrugada até as 9h30 da noite.

Nem no Piauí, nem no Ceará, nem no Tocantins faz calor assim. Duvida? Pois saiba que o Serviço Nacional de Meteorologia francês acaba de corrigir um dos dados publicados naqueles dias. O recorde de temperatura registrado no país não foi de 45,9°, mas exatamente de 46°. Quase cinquenta graus à sombra! Naturalmente, ninguém é obrigado a ficar à sombra.

Passados os primeiros dias de julho, acalmou. Não digo que esfriou, mas o tempo voltou ao habitual para esta época do ano. Quando todos já estavam guardando ventiladores e ventarolas no porão, catapum! Lá veio outra onda saariana. Começou anteontem e deve durar até sábado. De novo, noites mal dormidas, vegetação morrendo, racionamento de água, hospitais em alerta máximo. Em Paris, está previsto que o termômetro supere 40° hoje e amanhã. Em Genebra, 35°. Em vastas regiões da Alemanha, da Holanda e da Bélgica, 38°.

Escandinávia, 24 julho 2019
Temperaturas por volta do meio-dia

Até o extremo norte do continente está transpirando. Lá na Lapônia, no norte da nevosa Finlândia, pelas bandas onde Papai Noel vive, estão todos transpirando, inclusive as renas que servem ao bom velhinho. Coisa do outro mundo. Pra lá do Círculo Polar, a 70° de latitude, está fazendo hoje um calor de 29° ou 30°, fato jamais registrado. É a um pulinho do Polo Norte, minha gente! Muito impressionante.

Enquanto isso, com o planeta derretendo, o desmatamento da Amazônia come solto. E tudo segue tranquilo, sob a batuta de um Bolsonaro instalado em palácio, alheio ao que ocorre no mundo real, aplaudido e instigado pela corte de bajuladores.

Do jeito que vai, uma coisa parece certa: o presidente só tem alguma chance de ser reeleito se o adversário for um político identificado com o lulopetismo. Sempre que o planeta não se tenha incendiado daqui até lá, naturalmente.

Presidente espada em punho

José Horta Manzano

Na manhã de sexta-feira passada, doutor Bolsonaro mandou arrumar a mesa com cuidado evitando expor latinha de leite condensado. Preparou-se pra tomar café em companhia de jornalistas estrangeiros.

Ele teria preferido que os convidados lhe fizessem perguntas amenas sobre o sol de Copacabana, a última vitória do Palmeiras, o turismo no Pantanal, a esperança de ratificação-relâmpago do acordo comercial Mercosul-UE. Mas… que remédio? Por dever de ofício, jornalista é formatado a ser inconveniente. Os estrangeiros principalmente. As perguntas pisaram os calos presidenciais. Direto, com força e com vontade.

Bolsonaro diz que desmatamento da Amazônia é mentira
BBC, Reino Unido

Os questionamentos giraram em torno do desmatamento que governo nenhum, inclusive o de doutor Bolsonaro, conseguiu conter até hoje. Há que frisar que o fato é incompreensível para cidadãos de países mais avançados. Como é que pode? – se interrogam eles. O governo central do país não tem força pra impor lei e diretivas em todos os pontos do território nacional?

Para Bolsonaro, o desmatamento da Amazônia é ‘fake news’
AGC News, Itália

Perguntaram também sobre os bolsões de pobreza, borrões que arruínam qualquer quadro geral de prosperidade que se queira mostrar. O contingente de população que depende da bolsa família é prova escancarada da evidente pobreza de um naco enorme de brasileiros. Para quem vive num país mais adiantado, é um mistério que os impostos coletados dos abastados não seja suficiente pra alavancar a ascensão social dos desfavorecidos. Onde vai parar essa dinheirama? Em que finalidade é gasto?

Esses dois pontos são básicos. Quer o presidente aprecie, quer não, voltarão sempre à mesa. Pode ser café da manhã, almoço, jantar ou até entrevista nos jardins da Casa Branca. Jornalistas do Primeiro Mundo vão continuar a pedir explicações sobre o que não conseguem entender. Não é pra encher o picuá. É porque não conseguem entender que, entra governo, sai governo, e as coisas não mudam.

A Amazônia é do Brasil, não de vocês! – diz Bolsonaro aos europeus.
Bloomberg, EUA

Doutor Bolsonaro tem as certezas só permitidas aos ignorantes. Incapaz de interpretar as razões da inquietação dos estrangeiros, toma as perguntas por ofensa grave. Logo desembainha a espada e põe-se a defender a pátria de uma agressão que só existe em sua imaginação. «A Amazônia é nossa e não cabe a ninguém nos ensinar como cuidar dela» – é o mantra rebatido nessas ocasiões. O caminho não é esse. Negar a realidade não a faz desaparecer.

Somos todos cidadãos do mesmo planeta. O bom senso ensina que é como se fôssemos viajantes de um mesmo barco. Ninguém quer ver o barco afundar. Ninguém quer ver a comida acabar. Ninguém quer sofrer incêndio a bordo. Ninguém quer que o ar condicionado enguice. Ninguém quer enfrentar tempestade.

Apesar das afirmações de Bolsonaro, a Amazônia pertence a todos
Taipei Times, Taiwan (Formosa)

A Amazônia está sob nossa guarda, mas a saúde do planeta depende da saúde da floresta equatorial. O clima mundial já não anda lá essas coisas. O avanço do desflorestamento nas regiões equatoriais só pode piorar uma situação já fragilizada. Vem daí a preocupação dos estrangeiros. Pouca diferença faz que doutor Bolsonaro os receba com aparato ou com leite condensado no pão. Enquanto os grandes problemas brasileiros persistirem, todos continuarão a se perguntar por quê. Menos acanhados, jornalistas estrangeiros continuarão ousando perguntar em voz alta.

O inverno extraordinário

José Horta Manzano

Você, que vive no Sul ou no Sudeste, às vezes sente um friozinho. Mas saiba que já houve épocas bem mais geladas. Entre os distintos leitores, muito poucos hão de se lembrar do terrível inverno de 1955. Aqui vai a descrição detalhada do fenômeno extraordinário daquele ano, coisa que só acontece uma vez por século.

Quarta-feira, 27 julho 1955. Naquela data, mais de 60 anos atrás, tinha início a mais espetacular onda de frio já oficialmente registrada no Brasil. Os registros oficiais de 1912 até a atualidade estão aí para confirmar.

ANÁLISE GERAL
A onda polar que atingiu o Brasil no final de julho 1955 foi marcante em cinco aspectos atípicos.

1°) A extensão territorial
Segundo os dados disponíveis, a onda polar derrubou as temperaturas em mais de 60% do território nacional ― mais de 5 milhões de km2. Mais: embora não tenham sobrado cartas sinóticas, os dados indicam que a frente fria ultrapassou a linha do Equador.

2°) A geada
As geadas cobriram extensão territorial excepcional. Estima-se que o fenômeno tenha ocorrido em 90% da região Sul. Chegou a gear em quase todo o litoral gaúcho e também em alguns trechos do litoral de Santa Catarina e do Paraná, fenômeno pra lá de raro.

3°) A neve
Nevou nos três estados sulinos com grande intensidade. A altura da neve acumulada no solo atingiu 70cm na serra catarinense. Além disso, no alto da serra gaúcha, o fenômeno continuou por 4 dias consecutivos. Foi a nevada mais longa já registrada na região. A neve cobriu também áreas de baixa altitude do RS e parte expressiva do PR.

4°) As máximas diurnas
A temperatura máxima diurna registrada em todos os municípios atingidos pela onda de 1955 foi anormalmente baixa. O caso mais emblemático ocorreu em São Joaquim (SC), onde, durante três dias seguidos, o termômetro permaneceu abaixo de zero ― tanto de noite quanto de dia.

5°) As mínimas noturnas
As ondas de frio registradas em 1918, 1925 e 1933, embora muito fortes, não cobriram regiões tão extensas quanto a de 1955. Em centenas de localidades brasileiras, o recorde de baixa temperatura verificado em 1955 ainda não foi quebrado. Essa afirmação vale tanto para o extremo sul do RS quanto para a Amazônia.

Após escrupulosa comparação, pode-se garantir que a frente polar de 55 foi a mais importante de todas as que já se registraram no Brasil.

A CRONOLOGIA DO FENÔMENO

Nota: Os dados que se seguem baseiam-se nos registros no Inmet

Terça-feira, 26 julho 1955
O sul do Chile e o sudoeste da Argentina são invadidos por uma massa polar de trajetória continental. Ao mesmo tempo, o sul do Brasil vive um forte veranico.

Quarta-feira, 27 julho 1955
A massa de ar progride em direção ao norte e chega ao Rio Grande do Sul. Durante o dia, a temperatura despenca e o Inmet já registra neve à tarde em Bom Jesus. Enquanto isso, o Estado de São Paulo recebe a pré-frontal, com bastante vento, mas sem queda de temperatura.

Quinta-feira, 28 julho 1955
A massa polar, apesar de intensa, enfrenta grande resistência e avança lentamente pelo Brasil. No RS e em SC já faz muito frio e cai neve. Em Bom Jesus (RS), neva forte durante a tarde e a noite. No PR, a temperatura só cai mesmo a partir do meio da tarde e no Estado de SP a pré-frontal continua forte. Pelo interior, a massa polar avança em direção à Amazônia.

Sexta-feira, 29 julho 1955
O bloqueio do veranico perde força, mas ainda assim o ar polar avança devagar pelo Brasil. No Centro-Oeste, a onda de frio chega a Cuiabá e dá início a uma forte friagem. Em São Paulo, o tempo muda à tarde com a chegada da frente fria. As temperaturas despencam. Neva muito nas serras gaúchas e catarinenses. Em Bom Jesus (RS), registra-se intensa queda de neve durante 24 horas seguidas.

Em São Joaquim (SC), além da nevasca, a temperatura máxima do dia foi negativa. Não subiu acima de -1ºC.

Em Joaçaba, no interior catarinense, nevou a tal ponto que houve interrupção no tráfego de algumas ruas. A precipitação durou o dia inteiro. No fim do dia, a neve chegaria ao Paraná. Em Porto Alegre (RS), a máxima foi de apenas 8,5ºC, uma das mais baixas registradas até hoje.

Sábado, 30 julho 1955
A onda de frio atua com fortíssima intensidade no Sul, em parte do Sudeste, na maior parte do Centro-Oeste e até no oeste da Amazônia brasileira. O dia amanhece gelado desde o Rio Grande do Sul até o Amazonas.

Em Cuiabá a mínima chega a 4,3ºC e, na cidade de Lages (SC), desce a 5ºC negativos. Nesse dia, continua a nevar nas serras do RS e de SC, embora já com menor intensidade. Por outro lado, as precipitações caem sob forma de neve intensa sobre vasta região do Paraná. A cidade de Palmas (PR) recebeu de 30 a 50cm de neve, volume extremamente raro.

No Paraná, neva nas cidades de Clevelândia, Francisco Beltrão, Santo Antônio, União da Vitória, Inácio Martins, Guarapuava, Cascavel e Pato Branco, entre outras.

Também em Curitiba parece ter ocorrido o fenômeno. Jornais locais da época afirmam que caíram flocos de neve nos bairros do Bacacheri, Boqueirão e na região do Afonso Pena. É perfeitamente plausível, dado que a temperatura variou entre -2ºC e 3ºC na cidade naquele dia.

Também foi divulgada pela imprensa a queda de neve em Porto Alegre (RS). Mas o Inmet não registrou oficialmente essa ocorrência.

Outro fato digno de nota é a temperatura máxima diária mais baixa registrada em São Joaquim (SC): apenas -2,0ºC. Só em uma outra ocasião registrou-se máxima diária inferior a essa: foi em julho de 1993, com 2,4ºC negativos.

Ao mesmo tempo em que tudo isso ocorre no Sul, a massa polar continua seu avanço e chega a Manaus (AM). Ao longo do dia o tempo abre em toda a Região Sul.

Domingo, 31 julho 1955
A onda de frio atua no auge de sua força em todo o Centro-Sul e em boa parte da Amazônia. Na Região Sul, o céu limpo na madrugada favorece a queda da temperatura e a formação de fortes geadas. A friagem, como o fenômeno é chamado na Amazônia, atua com força total.

Veja algumas mínimas registradas no Brasil naquele dia:

Guarapuava (PR): -8,4ºC
São Joaquim (SC): -8,1ºC
Ivaí (PR): -6,0ºC
Curitiba (PR): -5,0°C
Aquidauana (MS): -0,9ºC
Paranaguá (PR): 2,3ºC
Laguna (SC): 2,4ºC
Florianópolis (SC): 4,0ºC
Cruzeiro do Sul (AC): 10,2°C
Manaus (AM): 18,5°C

Pela manhã, as geadas devastaram as lavouras de café do Paraná. Foi um desastre econômico, dado que a rubiácea era, de longe, o principal produto de exportação do País.

Em São Paulo, geou apenas na cidade de Catanduva, que registrou mínima de -1ºC. No leste do estado, o céu ficou limpo a partir da tarde e as temperaturas despencaram à noite.

No Amazonas, a onda polar ultrapassou a linha do Equador.

Segunda-feira, 1 agosto 1955
De a madrugada, o frio atingiu seu auge e o amanhecer foi gélido no Centro-Sul. Eis algumas mínimas:

Rio Grande do Sul
Bom Jesus: -9,8°C (recorde histórico do Estado)
Alegrete: -3,0°C
Bagé: -2,0°C
Iraí: -4,3°C
Passo Fundo: -2,5°C
Pelotas: -3,4°C
Porto Alegre: -1,2°C
São Luiz Gonzaga: -1,2°C
Santa Maria: -2,0°C

Santa Catarina
São Joaquim: -6,4°C
Urussanga: -4,6°C
Camboriú: -1,2°C

Paraná
Castro: -7,5°C
Rio Negro: -7,2°C
Ivaí: -6,1C°
Jaguariaíva: -2,7°C
Paranaguá: 3,8°C

São Paulo
Avaré: 0,3°C
São Paulo (Mirante de Santana): 1,5°C
São Paulo (Horto Florestal): 0,7°C

Mato Grosso
Cuiabá: 9,0°C
Aquidauana: -2,2°C
Corumbá: 3,3°C

Amazônia
Alto Tapajós: 11,1°C
Uaupés: 18,1°C
Manaus: 19,0°C
Iauaretê: 16,5°C (na linha do Equador)
Cruzeiro do Sul: 9,6°C

As geadas foram muito intensas em toda a Região Sul e atingiram também boa parte de São Paulo. Geou em Catanduva, Limeira, Avaré, Itú, Monte Alegre do Sul, Tatuí. Em Presidente Prudente, a mínima desceu a -1ºC.

Neste dia, a onda de frio começou a perder força, embora ainda mantendo temperaturas relativamente baixas durante o dia.

Terça-feira, 2 agosto 1955
A onda de frio perde força rapidamente, mas de manhã o frio foi intenso principalmente no Estado de São Paulo.

Mínimas:
Camboriú, SC: -1,2°C
São Paulo, SP: -2,1°C (recorde histórico)
Santos, SP: 4,3°C
Iguape, SP: 3,2°C
Angra dos Reis, RJ: 9,9°C
Itajubá, MG: 1,2°C

No dia 3 ainda foram registradas mínimas negativas no Sul do país, mas no dia 4 o ar frio já se dissipava totalmente. Mesmo assim, Teresópolis registrou apenas 1,2°C.

Foi o fim da superonda polar do inverno de 1955.

Com informações de: Abaixodezero.com

Publicado originalmente em 26 jul° 2013

 

Respirar oxigênio

José Horta Manzano

Este artigo saiu esta semana na revista americana Esquire Magazine. Expõe a birra tenaz que o governo Bolsonaro nutre contra a conservação do verde amazônico.

Se você aprecia respirar oxigênio, o presidente do Brasil periga não ser a sua pedida.

O turista estrangeiro e o custo Brasil

José Horta Manzano

Em meados do século passado, era habitual que cada país contasse com (pelo menos) uma companhia aérea nacional. Era um dos componentes do orgulho e do sentimento de autossuficiência da nação. Todo país importante ‒ e até algum menor ‒ contava com «sua» empresa aérea. Se não fosse o único proprietário, o Estado era acionista majoritário.

O sistema vigorou até pelos anos 1980. Varig, Swissair, Pluna, Air France, PanAm, Iberia, Alitalia se encaixavam no modelo. Até a Bolívia tinha seu Lloyd Aereo. Estado que não possuísse empresa aérea nacional era olhado com comiseração.

Pelas voltas que o mundo dá, os últimos trinta anos trouxeram grandes turbulências. Varig, Pluna, Lloyd Aereo Boliviano sumiram do mapa. Swissair, quem diria, fez falência e foi engolida pela LuftHansa. A Alitalia, no miserê há anos, funciona sob perfusão. A Air France e a holandesa KLM, para não entrar em colapso, tiveram de se unir em casamento forçado. A PanAm, que chegou a ser uma das maiores do mundo, simplesmente fechou portas e escotilhas. Em matéria de companhia aérea, o conceito de «orgulho nacional» se esvaziou. Hoje vale quem pode, não necessariamente quem quer.

Está em tramitação no Congresso do Brasil um projeto de lei para permitir a abertura irrestrita do setor aéreo ao capital privado ‒ dispositivo considerado pecado mortal até um passado recente. Se aprovado, será passo na boa direção. Toda medida que possa trazer benefício ao usuário será sempre bem-vinda, pouco importando quem sejam os investidores da empresa. Por evidente, nenhum investidor vai botar seu dinheiro em saco sem fundo. De tabela, o risco de corrupção será menor.

Em entrevista concedida estes dias, o presidente da Embratur se pronuncia a favor da medida. Até aí, estamos de acordo. Dado que o Brasil se encontra distante dos centros geradores de turistas, os aeroportos são o principal portão de entrada. A nova lei tende a atrair companhias de baixo custo, fato que será apreciado tanto por turistas que chegam quanto por brasileiros que saem.

A certa altura, o entrevistado diz achar que o maior entrave à vinda de turistas estrangeiros é o «custo Brasil». Ignoro o sentido que ele empresta a essa expressão. Se ele se refere ao nível de preços de transporte, alojamento e alimentação, incorre em equívoco. Paris e Londres, apesar de figurar entre as cidades mais caras, encabeçam a lista das mais visitadas. Esse fato tende a demonstrar que o custo (monetário) não é empecilho.

by José Miguel Pereira de Sampaio (1927-2016), desenhista gaúcho
Charge publicada em 1949 na Revista do Globo
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Para quem vê o Brasil de longe, como este blogueiro, salta aos olhos que a criminalidade ‒ também conhecida como violência ‒ é a primeiríssima barreira. De pouco adianta mostrar fotos de praias paradisíacas quando, no instante seguinte, o candidato a turista lê na mídia que um arrastão acaba de depenar banhistas em Copacabana. Ou que um grupo que fazia trilha foi violentado. Ou que um estrangeiro desavisado, tendo entrado por engano numa favela, foi assassinado com rajada de metralhadora.

O buraco é bem mais embaixo. Em massa, turistas europeus visitam a China, que fica a 12 horas de voo. Em massa, norte-americanos fazem turismo na Europa, numa viagem que não sai em conta. Multidões de japoneses e outros extremo-orientais atravessam o Pacífico, numa viagem cansativa e interminável, para conhecer os EUA.

Por que é que tão poucos chegam até o Brasil? Por que será que desprezam praias, florestas tropicais, metrópoles gigantescas, pousadas encantadoras, relíquias coloniais, fauna e flora prodigiosos, sol e calor garantidos? Não será pelos preços elevados nem pela falta de conexões aéreas. A maior barreira é o temor de serem vítimas de assalto ou de bala perdida.

Se l’Italia fosse il Brasile

José Horta Manzano

Tenho um amigo italiano enamorado pelo Brasil. Originário da região de Veneza, Massimo Pietrobon é blogueiro e poliglota. Vive a maior parte do ano em Barcelona (Espanha), mas sempre que pode dá uma escapada pra rever a Terra de Santa Cruz.

Apaixonado por Geografia em geral ‒ e por mapas em particular ‒, Massimo teve uma ideia outro dia. Tomou um mapa da Itália e deu a cidades italianas importantes o nome de localidades brasileiras. Para cada caso, acrescentou uma justificativa, algum aspecto que sirva de elo entre ambas. Ficou interessante e curioso. Dou aqui abaixo um apanhado das muitas correspondências entre os dois países encontradas pelo Massimo.

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Para começar, São Paulo, cinzento e chuvoso mas principal centro econômico, só pode corresponder a Milão. Por seu lado, o Rio de Janeiro, caótico mas denso de beleza e de turismo, se encaixa bem com Roma, a outra metrópole italiana.

I love ITFlorianópolis, bela, turística e ilhoa, compara-se com Veneza, que tem as mesmas características. Recife, centro-mor do Nordeste, se conjuga maravilhosamente com Nápoles, centro-mor do Sul da Itália. Perto de Nápoles, está Amalfi, preciosidade histórica. E ao lado do Recife, o que é que está? Olinda, naturalmente, nossa joia antiga e carregada de história.

Outro ponto focal do Sul italiano é a ilha da Sicília, a confrontar com o outro representante do Nordeste brasileiro: a Bahia. Portanto, Salvador é Palermo.

A longínqua Amazônia, com Manaus, isolada capital, só pode ser a Sardenha e sua capital Cagliari. Ambas as regiões são selvagens e souberam conservar a cultura dos primitivos habitantes.

E Bolzano, a capital do Tirol do Sul, onde predomina a língua alemã? Corresponde a Blumenau, centro maior da imigração germânica no Brasil. Já as belezas históricas e naturais da Toscana se adaptam bem às preciosidades e às paisagens das Minas Gerais.

Turim, cidade organizada e funcional, combina com Curitiba, ao passo que o grande porto industrial de Gênova tem tudo a ver com o de Santos. Falando de cursos d’água, o mais importante da Itália é o Rio Pò, que se lança ao mar num delta cuja capital é Ferrara. Não é absurdo compará-la a Belém, situada exatamente onde o Amazonas desemboca no Atlântico. Outro ponto comum é que as duas cidades estão encharcadas de História.

I love BRPorto Alegre, cidade portuária que já se aproxima dos confins culturais do Brasil, é Trieste, onde já é perceptível a mestiçagem entre italianos, eslavos do sul e remanescentes do antigo Império Austro-Húngaro.

Na hora de comparar cidades saídas de uma prancheta de urbanista, não há que hesitar: a italiana Latina e nossa Brasília têm esse ponto em comum.

A grande cidade brasileira situada próxima de um dos pontos cardeais da rosa dos ventos é João Pessoa, que marca o extremo leste das Américas continentais. Na Itália, corresponde a Reggio Calabria, que assinala a ponta sul da bota.

Bandeira brasileira com as cores italianas

Bandeira brasileira com as cores italianas

Não há como não mencionar a região de Parma, de onde é exportado para todo o mundo o delicioso queijo parmesão, aquele sem o qual o macarrão perderia a graça. (Dizem que macarrão sem queijo é como amor sem beijo…) Que se compare Parma com nosso Estado de Minas que, no Brasil, é referência em matéria de queijo.

Há certamente outras semelhanças. Que o leitor curioso ponha o bestunto a funcionar. Buona fortuna a tutti!

PS: Para visitar o site original, clique aqui.

Floresta – vida e morte

José Horta Manzano

Você sabia?

Floresta 1Na visão brasileira, floresta é floresta, o resto é o resto. Para a maioria de nós, a palavra lembra Amazônia, região mítica e distante, que poucos visitaram.

Em zonas temperadas, a oposição entre a selva e o resto é menos nítida. Sabia o distinto leitor que 32% do território suíço é coberto de floresta? Sim, senhor!

Parece inacreditável principalmente levando em conta que mais de oito milhões de habitantes se espremem num território equivalente à quarta parte do Uruguai. Como é que ainda sobra espaço pra floresta? Fica ainda mais difícil de acreditar quando se lembra que parte da Suíça é inabitável em virtude da presença de lagos, altas montanhas, glaciares ou neves eternas. Pois, assim mesmo, árvores cobrem um terço da superfície total.

Floresta 2Vale notar que a floresta, na Europa, não se apresenta de forma contínua como conhecemos no Brasil. Áreas arborizadas se alternam com pastos, campos cultivados ou zonas urbanizadas. Vista do alto, a paisagem é bastante diferente do que conhecemos. Manchas de floresta, bem recortadas e comportadinhas, convivem com áreas de plantio ou de habitação.

Nos anos 80, com o avanço da urbanização, receava-se que, em poucas décadas, a cobertura florestal desapareceria. Constata-se hoje que o destino, cabeçudo, decidiu de outra maneira. Em vez de diminuir, a área arborizada vem crescendo pouco a pouco.

Floresta 3Como é possível? A razão do milagre é o abandono de áreas cultivadas antigamente. Especialmente em região de montanha, a agricultura é problemática e a produtividade, baixa. Não compensa. Vai daí, pouco a pouco, cultivadores dessas regiões têm abandonado a agricultura. E o que é que acontece nas lavouras descuradas? A floresta ressurge.

Resumo da ópera: ainda há esperança de salvar a Amazônia. Se as zonas desmatadas forem abandonadas, a natureza fará seu trabalho de reflorestamento. Nem tudo está perdido. Mas é aconselhável não esperar que a última árvore seja derrubada.

A ruína emergente

José Horta Manzano

Braço da Represa de Chambod, França em tempos normais

Braço da Represa de Chambod (França)
em tempos normais

Governar é abrir estradas. Governar é prever. Governar é satisfazer às necessidades de cada cidadão. Governar é botar as contas em ordem. Governar é cuidar da educação, da saúde e da segurança.

Afinal… o que é governar? É tudo isso aí e um pouco mais. Mas essa é a teoria. Na prática, como se sabe, a teoria é outra. Governantes não abrem mais estradas. Aliás, já nem cuidam das existentes.

Braço da Represa de Chambod, França esvaziada a cada 10 anos para limpeza

Braço da Represa de Chambod (França)
esvaziada a cada 10 anos para limpeza

Governantes não satisfazem às necessidades de cada cidadão. Contentam-se de ações vistosas, midiáticas, em que migalhas são distribuídas a pequena parte do público, como dinheiro em programa de auditório. O resto da plateia que se vire.

Quanto a botar as contas em dia… ai, ai, ai. Garantir o amanhã não é a tônica dos dirigentes atuais. E a educação, a saúde e a segurança – como é que ficam? De novo: toda energia é focada em ações momentâneas, aparatosas, sem compromisso com o futuro. Governantes mantêm-se fiéis ao pensamento medieval: «o futuro a Deus pertence».

A seca que persiste no sul do Brasil tem causado danos e grande temor. Caso tudo seque, não há solução a curto prazo. Luz e água vão faltar, não há alternativa. Um aqueduto para transportar o precioso líquido da Amazônia até o sul do País não se instala em uma semana.

Represa de Chambod, França esvaziada a cada 10 anos para limpeza

Represa de Chambod (França)
esvaziada a cada 10 anos para limpeza

Infelizmente, não tenho solução milagrosa. Tampouco estou aqui para apontar culpados. O descalabro atual resulta de décadas e décadas de descompromisso com o futuro.

Mas vamos ser optimistas. Crises têm seu lado bom. Servem pra abrir os olhos. De agora em diante, autoridades serão mais previdentes e guardarão em mente que os atos de hoje determinam os fatos de amanhã. Certo?

Não, distinto leitor, não é assim. A lição não está sendo aprendida. As autoridades encarregadas da manutenção das represas não estão fazendo seu trabalho. A fotomontagem aqui abaixo dá um exemplo concreto.

Represa de Atibainha: nível sobe após estiagem

Represa de Atibainha (SP):
nível subindo após estiagem severa

Um energúmeno arremessou, faz anos, uma carcaça de automóvel numa represa. Nem visto nem sabido, o esqueleto permaneceu submerso. Com a seca, reapareceu. Fotógrafos não se privaram de retratar a descoberta. Galhofeiros se encarregaram de engalanar o destroço com faixas de duvidoso humorismo. No entanto, a ninguém ocorreu o óbvio: remover a ruína insepulta.

Bondoso, São Pedro mandou alguma chuva. O nível de tanques e barragens tem subido. Fotógrafos se precipitam à beira de reservatórios para registrar o fato. E… que vemos? A carcaça continua lá, intocada, como se repousasse em túmulo adequado.

Represa 2Fosse nosso País mais civilizado, as coisas teriam seguido outro rumo. Em primeiro lugar, o responsável pelo arremesso do automóvel teria sido procurado e punido. Em segundo lugar – e rapidinho – o destroço teria sido retirado. Já imaginou o que pode acontecer amanhã se um inocente banhista der um mergulho naquele lugar? Já pensou na desgraça programada que será uma embarcação abalroar a carcaça, soçobrar e ir a pique?

De que adianta ficar eu aqui cogitando? Pessoas, grupos, departamentos inteiros são pagos para agir. Se governar é prever, fica cada dia mais evidente que não há mais governo em nosso País. Se é que, algum dia, houve.

Interligne 18fClique nas fotos para aumentar.

Último ATTO

José Horta Manzano

Há quem ainda garanta que é iminente o perigo de «uzamericânu» invadirem a Amazônia a fim de se tornarem os maiores produtores de açaí e de cupuaçu.

Mas tudo tem seu lado bom. Se isso acontecer, o guaraná ― bebida nacional por excelência ― passará a ser importado. Exatamente como uísque escocês puro malte. Quer coisa mais chique?

Já no final dos anos 1980, diante do risco de perder o controle de um naco do território nacional, os governantes militares da época decidiram desenvolver o Projeto Sivam. O nome, que soa bem, é feliz abreviação de SIstema de Vigilância da AMazônia.

A intenção era instalar uma teia de radares para monitorar a região. Um problema barrava a estrada, entretanto: a tecnologia necessária não estava disponível no Brasil.

O Planalto foi obrigado a seguir o rumo inevitável: para se prevenir contra futuras invasões, solicitaram ajuda… ao pretenso futuro invasor. Encomenda foi passada a uma empresa dos EUA. Depois de os militares terem sido mandados de volta à caserna, os sucessivos governos federais cuidaram de levar adiante o programa.

Assim mesmo, ainda há quem garanta que a ameaça persiste. Asseguram que «uzgríngu» estão à beira de nos arrancar um naco do território, justamente aquela região que antigamente ninguém queria. Era até descrita, com certo desdém, como o «inferno verde». Estamos numa democracia ― a cada um é permitido cultivar suas fobias como bem entender.

Atto 1Um outro tipo de monitoramento se tem feito necessário estes últimos anos. As alterações climáticas que se anunciam não são ameaças regionais, mas planetárias. Apesar de continuar encolhendo à vista d’olhos, a região amazônica ainda tem peso considerável no meio ambiente global.

Faz alguns anos, formou-se um consórcio entre agências brasileiras e ― quem adivinha? ― americanas para monitorar o ecossistema amazônico. São várias instituições, algumas entrando com o financiamento e outras, com a tecnologia. A USP e até o Instituto Max Planck, uma espécie de MIT alemão, integram o grupo.

Atto 2Na prática, está em construção uma altíssima torre ― alguns metros mais alta que a Torre Eiffel ― em plena Amazônia brasileira. Deve ficar pronta até o fim do ano. Seu objetivo é coletar dados científicos que, reunidos e analisados, levarão a um entendimento mais amplo da evolução do meio ambiente da floresta tropical.

Só nos resta aplaudir. Com um reparo, porém. O projeto de trinta anos atrás foi nomeado seguindo o acróstico formado pelas palavras em nossa língua (SIstema de Vigilância da AMazônia). O novo empreendimento tomou caminho mais moderno.

A Torre Alta de Observação da Amazônia deveria ser conhecida por TAOA. Ou Taoam, que soa até melhor. Não foi o que decidiram. O projeto tem o nome oficial de ATTO, por Amazonian Tall Tower Observatory.

Fica no ar a sensação de que «uzamericânu» já tomaram conta da região. E ninguém nos avisou.