De mão beijada

José Horta Manzano

No dia 7 de setembro de 2009, o presidente do Brasil recebeu, com pompa e cerimônia, um convidado mui especial. Era Nicolas Sarkozy, à época presidente da França.

De mão beijada

De mão beijada

O hóspede trazia um largo sorriso nos lábios e um contrato na maleta. No fundo, o estrangeiro vinha em viagem de negócios. Agia como caixeiro-viajante de luxo. Afinal, preparava-se para fechar uma venda de 4 bilhões de euros, montante considerável.

O Lula tem, como qualquer um, suas qualidades e seus defeitos. Entre eles ― não sei se botar na conta das qualidades ou dos defeitos ― está uma inacreditável e absoluta insensibilidade a assuntos de ideologia. Não é um homem de esquerda nem tampouco de direita. Não é do seu feitio tomar partido entre partes conflitantes. Suas prioridades são de outra ordem, mais pessoais.

De mão beijada

De mão beijada

Essa indiferença pode bem ser explicada pelo fato de que nosso guia, quando jovem, passou necessidade. Ideologia é pra quem teve mais sorte na infância e na juventude ― confira-se o caso de nossa atual presidente. Quem tem fome quer mesmo é encontrar um prato de comida, que ninguém se alimenta de filosofia.

O pouco interesse que o Lula demonstrou por relações internacionais abriu uma avenida para seus numerosos assessores, grande parte dos quais, não tendo enfrentado os começos difíceis do chefe, podiam dar-se ao luxo de enxergar o mundo através de óculos ideológicos.

Rafale sem transferência de tecnologia

Rafale sem transferência
de tecnologia

Os franceses sabiam que o Rafale era o avião mais caro de sua categoria. Sabiam também que nenhum exército estrangeiro havia ainda encomendado nem um exemplar sequer. Astutos, devem ter-se dado conta do viés ideológico da corte palaciana de Brasília, que queria a todo custo livrar-se de toda dependência do execrado «império norte-americano».

Valeram-se então da atonia de nosso messias em assuntos de política estrangeira e, matreiros, tentaram vender o que não pretendiam entregar. Prometeram transferir ao Brasil a tecnologia do fabrico dos Rafales.

Ora, sejamos lúcidos. Passaria pela cabeça de alguém acreditar que uma tecnologia de ponta, alcançada depois de dezenas de anos de pesquisa e investimento, pudesse ser dada, assim, de mão beijada, a um país estrangeiro somente porque ele fez uma boa compra? Precisa ser muito crédulo para se deixar engabelar por essa lorota. Quem acreditou nisso nunca deve ter ouvido a historia do pulo do gato.

Felizmente, a cúpula decisória brasileira parece não ser composta unicamente por gente que vive nas trevas. Algum espírito mais esclarecido há-de ter-se dado conta de que estariam empatando o dinheiro suado dos brasileiros numa espécie de conto do vigário. Iam comprar mercadoria que não seria entregue nunca. Pelo sim, pelo não, o assunto foi engavetado já faz quase 4 anos.

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A imprensa francesa repercute estes dias uma notícia divulgada pela Reuters. Segundo a agência, o Brasil de Dilma estaria prestes a finalizar a compra de 36 unidades do avião F18 americano. O fato de a notícia ser divulgada na sequência da recente visita do vice-presidente americano ao Planalto pode não ser mera coincidência.

De mão beijada

De mão beijada

É altamente provável que Brasília se tenha finalmente convencido de que não existe almoço grátis. Nem a França, nem os EUA, nem nenhuma outra potência jamais entregaria a receita junto com o bolo. Os critérios de escolha têm de ser outros: o desempenho e o custo.

Não adianta acreditar em Papai Noel. Tecnologia avançada não é artigo de supermercado. Se nossos estrategistas(?) quiserem, realmente, chegar lá, terão de seguir o mesmo caminho que seguiram os outros: investimento em escola, instrução pública, pesquisa, formação científica. Vai demorar. Mas não há atalho.

Lá não exatamente como cá

José Horta Manzano

Antigamente, exportávamos café. Chegada a industrialização, incrementamos o comércio exterior vendendo chuveiros elétricos para a África e automóveis Passat para o Iraque.

A partir dos anos 1990, começamos a exportar gente. Levas de brasileiros sem formação partiram à conquista do mundo, numa onda migratória que não deixa de lembrar a dispersão de europeus pelo mundo 100 anos antes. Todos empurrados pelo mesmo aperto.

Um novo ítem está pronto para entrar na pauta de exportação: nossa vasta expertise em assaltos coletivos. Temos lá ampla experiência, um know-how preciso e precioso, ainda longe do alcance de todo o mundo, como se verá.Interligne 23

O profissionalismo
Em parcas linhas, a Folha de São Paulo nos informa que 3 bandidos puseram suas mãos à obra em frente ao Aeroporto de Congonhas ― um dos campos de pouso mais movimentados do País. Promoveram um arrastão e levaram os pertences de pelo menos 5 pessoas. Em seguida, escafederam-se.

O caso foi registrado no distrito, mas nenhum dos agredidos julgou útil comparecer à delegacia para formalizar queixa. Ponto para os bandidos, que provavelmente jamais serão identificados. Isso é trabalho bem feito.

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O amadorismo

Bandido mascarado

Bandido mascarado

Este mesmo fim de semana, 4 bandidos aprendizes tiveram a brilhante ideia de levar a cabo um arrastão num restaurante chinês da região parisiense. O acontecimento, fora de moda desde a invasão dos bárbaros, mereceu colunas inteiras de todos os grandes quotidianos franceses. Rádio e televisão não deixaram de noticiar um dos primeiros exemplos da nova e exótica modalidade de crime.

A prova de que os autores do «malfeito» desconhecem o moderno jeito brasileiro de arrastar e continuam confinados ao modus faciendi do século XIX é o fato de se apresentarem mascarados. Fica clara a influência da bandidagem de cinema, popularizada por Holywood desde os anos 30. Isso é coisa de jovens que assistiram demais a programas de tevê.

Caubói mascarado

Caubói mascarado

Imaginem que, para preparar o ataque, os quatro haviam roubado um automóvel na tarde do mesmo dia. Eu disse roubado, não furtado: fizeram descer a proprietária com seu bebê nos braços e levaram o carro.

Terminado o arrastão, os aprendizes não encontraram nada melhor a fazer do que abandonar e incendiar o carro roubado, bem no bairro onde viviam. Espertos, não? Fogaréu, correria, gritos, espanto. Alertada, a polícia chegou rápido, extinguiu as chamas, interrogou testemunhas. Três dos larápios foram logo presos. O quarto, parece história cômica, havia esquecido seus documentos dentro do carro roubado. É de dar dó, coisa de principiantes, tsk, tsk. Não precisou nem a polícia procurar. O elemento se dirigiu ao distrito e se entregou de livre e espontânea vontade.

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É chegada a hora de instaurar um verdadeiro programa de intercâmbio de experiências, digamos, arrastatórias. É uma questão de solidariedade companheira, de dar a mão a quem precisa.

Afinal, o Brasil, que já atingiu patamar de total desenvolvimento e de excelência nesse quesito, tem obrigação moral de prestar assistência a bandidos emergentes como esses da França.

A desigualdade entre as duas sociedades está ficando insuportável.

De ceca em meca

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 1° junho 2013

Quando, em 1951, foi criada a Ceca ― Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, as cicatrizes da Segunda Guerra ainda estavam abertas. Ninguém tinha vontade de reviver a experiência.

Para o fabrico de tanques de guerra, aviões e outras armas, era imprescindível dispor de aço e de carvão. O intuito da nova instituição era esconjurar o perigo de um rearmamento, em especial da temida Alemanha. Controlando a produção de aço e a extração de carvão, ficava mais fácil vigiar. Cada país ficava sabendo o que o vizinho andava aprontando.

Deu certo. A Europa começou a se apaziguar. Seis anos mais tarde, os mesmos países fundadores da Comunidade do Carvão e do Aço deram um novo passo: assinaram o Tratado de Roma e fundaram o Mercado Comum Europeu.

Foi um sucesso. Na França, forjou-se até a expressão les trente glorieuses, os trinta anos gloriosos. Esse epíteto tem sido utilizado para indicar os anos 60, 70 e 80, período de calma e de crescimento econômico ininterrupto que trouxe paz e progresso a todos os povos da Europa Ocidental.

Mas o passar do tempo altera a percepção das gentes. Passados 50, 60 anos da hecatombe de 1945, a geração que tinha conhecido a guerra foi desaparecendo. Para os jovens de hoje, a União Europeia, sucessora do Mercado Comum, é ressentida como causa de muitos dos males. Os funcionários de Bruxelas tornaram-se saco de pancada. Atribui-se-lhes a culpa de tudo o que não funciona: crise econômica, inflação, desemprego, desindustrialização, descontrole imigratório.

Exorcizado o perigo de nova guerra, a UE deixou de fazer sentido para as novas gerações. É mais estorvo que solução.

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No começo dos anos 1960, o espectro do comunismo rondava os países da América Latina. Naquele mundo bipolar, ou se estava de um lado, ou se estava do outro. A paleta política só tinha duas cores e não deixava espaço para outros matizes. Cuba já havia caído na órbita da União Soviética. Muitos brasileiros sentiam medo. Essa insegurança está na raiz da reviravolta que o Brasil sofreu em 1964, quando o poder passou para as mãos dos militares.

O que aconteceu desde então, todos conhecem. A quebra da legalidade, programada em princípio unicamente para repor o País no bom caminho, acabou durando muito mais do que estava previsto. Endureceu e eternizou-se. O regime de exceção só começou a terminar em 1985, com a eleição ― ainda que indireta ― de um presidente civil. O tiro de misericórdia veio mesmo em 1988, com a promulgação de nova Constituição.

Óculos escuros de sinistra memória

Óculos escuros de sinistra memória

No entanto, o passar do tempo faz que pessoas se vão e lembranças se embacem. A geração que conheceu o sufoco do regime militar está envelhecendo. Mais alguns anos, e não sobrará ninguém. A História pode-se repetir. Aliás, as primícias estão apontando no horizonte. Quem tiver olhos para ver, que veja.

Caída justamente no feriado do 1° de maio, uma notícia inquietante passou quase despercebida. O Instituto Datafolha publicou uma pesquisa de aparência inofensiva, mas que deveria dar que pensar. Segundo a sondagem, apenas 53% dos paulistanos concordam com a frase «democracia é sempre melhor do que qualquer outra forma de governo». Infere-se, por consequência, que a outra metade dos entrevistados não se importaria se não vigesse a democracia. Um cidadão em cada dois.

A pesquisa foi mais longe. Uma pergunta mais explícita deixou claro que 19% dos paulistanos concordam que «em certas circunstâncias, é melhor uma ditadura do que um regime democrático». De cada 5 entrevistados, um pensa assim. E a curva é ascendente.

Tanto em ceca quanto em meca, as mesmas causas costumam engendrar os mesmos efeitos. Em 1964, o rebuliço nas altas esferas era tão grande que a população do País viu com bons olhos, num primeiro tempo pelo menos, a instalação de uma ditadura. Havia esperança de que os militares varressem o «mar de lama», como se dizia na época e preparassem o Brasil para um futuro risonho. Deu no que deu.

Daqui a alguns anos, poucos se lembrarão dos anos de chumbo. Pelo andar da carruagem, a incompetência que nossos mandachuvas têm mostrado de fixar objetivos para o País tende a paralisar a governança, a ratificar sua irrelevância e, pior, a atestar sua perniciosidade. A tentação de invocar uma quebra da ordem constitucional e a instalação de um regime moralizador pode tornar-se irrefreável.

Os que controlam as rédeas do poder deveriam refletir profundamente sobre o futuro que estão forjando para os brasileiros e, naturalmente, para si mesmos.

Miscelânea 04

José Horta Manzano

Frivolidade
Roupas de «griffe» são somente fabricadas em tamanhos que não excedam os limites de tecido adiposo geralmente aceitos.

Primeira reflexão: é cruel, mas vale lembrar que quem pesa 150 quilos não precisa de roupa de «griffe» para aparecer.

Segunda reflexão: quem é rico mesmo e tem fortuna de verdade tampouco precisa vestir roupa chique. Será adulado, agradado, obsequiado, louvado, incensado ainda que se vista com andrajos.

Terceira reflexão: nossos vizinhos do norte, os hermanos bolivarianos, vivem num país que tem sido considerado um dos mais frívolos das Américas. Durante décadas, a Venezuela foi povoada por concursos de miss, lipoaspirações, exibições de riqueza em meio a um mar de miséria, cirurgias plásticas a três por dois. Tão preocupados estavam os cidadãos com seu próprio umbigo, que se descuidaram de cuidar do país. Deu no que deu.Interligne 27

Demagogia
Tanto lá quanto cá. Um dos argumentos de campanha mais contundentes de François Hollande, quando ainda era candidato à presidência da República Francesa, era o gasto excessivo e desnecessário de dinheiro público. Como bom socialista, prometia instaurar um governo austero, sóbrio, de gostos frugais e gastos comedidos.

Foi eleito. A coisa não está saindo exatamente como tinha sido planejada, mas não se pode perder a face. O Palácio do Eliseu, sede da presidência do país, anunciou aos quatro ventos que estava leiloando uma parte de sua adega. A venda foi feita e rendeu 700 mil euros. Convenhamos que, num país com PIB de 2 trilhões e 800 bilhões de dólares, não é grande coisa. Não vai ser de grande ajuda para diminuir os bilhões de euros da dívida pública. Mas, tanto lá como cá, o que vale é o símbolo.

Entre nós: garrafas de vinho não se guardam eternamente. Passado um certo número de anos ― que varia conforme a casta ― é grande o risco de sacar a rolha da garrafa e, em vez do precioso néctar, encontrar… vinagre. Portanto, o Eliseu matou dois coelhos de uma cajadada só: saiu bem na foto e, ao mesmo tempo, renovou o estoque de sua adega.

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Güenta firme!
Não sei se os conselhos dados pela Folha de São Paulo sobre como agir em caso de arrastão concordam com a advertência das autoridades policiais. Imagino que sim.

Aquilo é um incentivo à bandidagem! Tudo o que recomendam é que a vítima se mantenha em estado de passividade total. Passado o susto, quem desejar pode até dar queixa na delegacia mais próxima. Para engordar as estatísticas, decerto.

No caso de um assalto «clássico», do tipo um contra um, concordo que fica difícil, na base da valentona, enfrentar um bandido armado. Para esses casos, mais útil seria que as autoridades facilitassem o acesso da população a cursos de defesa pessoal.

Em caso de arrastão, a coisa é diferente. Se 20 assaltantes invadirem um restaurante onde apenas 5 clientes estejam jantando, a situação é realmente delicada. No entanto, se 7 ou 8 bandidos tentarem render um local onde 50 pessoas estão presentes ― e é o que geralmente acontece ― o caso muda de figura.

Hoje em dia, praticamente todos carregam um telefone no bolso. Não seria possível muni-los de um «botão de pânico»?Interligne 27

Garis em ação

Garis em ação

De vassourão
A Folha mostrou imagens da Parada Gay paulista, edição 2012. Uma dentre elas, aliás esteticamente bonita, me impressionou. Foi tirada na vertical e mostra um bando de limpadores de rua ocupados em limpar a avenida após a passagem do povaréu.

Caminhão de varredura

Caminhão de varredura

Sempre aprendi que lixo se deve jogar na lata do lixo e não no meio da rua. Afinal, não vivemos dentro de uma lixeira. Mas isso não vem ao caso. Não é a quantidade de detritos que me impressionou, mas o número de garis. Dá para contar mais de 30 homens num espaço de uns 50 metros quadrados. Um luxo!

Tratorzinho de limpeza

Tratorzinho de limpeza

Faz muitos e muitos anos que a figura do limpador de rua desapareceu na Europa Ocidental. Os profissionais foram substituídos por máquinas. Um caminhãozinho dirigido por uma pessoa faz o trabalho dos 30 homens da foto e, evidentemente, sai mais barato para a coletividade. Além de liberar mão de obra para tarefas mais úteis e gratificantes.

Tratorzinho de limpeza

Tratorzinho de limpeza

Ainda hemos de chegar lá.

A Nigéria e o Brasil

José Horta Manzano

Chegou a notícia em pleno Corpus Christi: o parlamento nigeriano acaba de votar uma lei que incrimina toda atitude que possa, de perto ou de longe, indicar simpatia pela homossexualidade. Casamento, relacionamento amoroso, adesão a grupo de direitos homossexuais, vai tudo para o mesmo saco. Não é mais contravenção. Não é mais delito. A partir de agora, é crime, e como tal será tratado todo e qualquer comportamento desse tipo. Veja aqui e aqui.

Pode-se apreciar ou não essa legislação. Fora da Nigéria, a cada um é permitido aplaudir de pé ou execrar o caminho escolhido pelas autoridades daquele país. Mas um mérito não se lhes pode negar: a clareza. Naquelas paragens, aquele que andar fora da linha sabe o risco que está correndo.Interligne 36

Enquanto isso, numa certa República sul-americana muito conhecida nossa, continuamos tergiversando. Em nosso País, as coisas não primam pela clareza. O que parece nem sempre é. O que não parece pode até ser.

Nosso Executivo pouco executa. Por meio de medidas provisórias, tenta, atabalhoadamente, legislar. Age de afogadilho, no dia a dia.

Nosso Legislativo se desobriga de legislar sobre matérias polêmicas. Deixa que outros tomem a iniciativa. Esperneia, faz biquinho, mas acaba dizendo amém aos ditames do Executivo.Bagues 3

Nosso Judiciário navega frequentemente em águas turvas. Volta e meia é chamado a dirimir conflitos para os quais não há base legal clara. Pouco a pouco, estamo-nos tornando um país onde a jurisprudência se substitui à lei inexistente.

É tudo muito estranho. Se considerarmos as nações cujo parlamento já deu embasamento legal definido a uniões homossexuais e adicionarmos aquelas que decretaram sua ilegalidade, o total já ultrapassa 30 países. Cada um é livre de estar ou não de acordo com esta ou com aquela decisão, mas o importante é que a lei foi votada.

E o Brasil liberal, tolerante, amigo, simpático, tropical, acolhedor, jeitoso, boa-pinta, ensolarado, emergente, prafrentex? Será que ainda pretende continuar muito tempo em cima do muro?

Cáspite! Que seja sim ou que seja não, mas legislar é preciso. Está ficando feio.

Urna eletrônica

José Horta Manzano

Os brasileiros costumam se orgulhar da excelência de seu atual sistema eleitoral. A máquina de votar ― apelidada, por extensão de sentido, de «urna eletrônica» ― trouxe um avanço impressionante. Guindou o País à modernidade. Será mesmo?

É verdade que a contagem dos boletins nos anos 50, 60 era lenta, muito lenta. Ao final da votação, encerrado o trabalho das secções eleitorais, as urnas eram lacradas e levadas, sob escolta policial, até uma central de apuração. Permaneciam ali estocadas e intocadas, sob guarda constante, até o dia seguinte, quando as equipes começavam a abrir uma por uma e a contar voto por voto, sob o olhar atento dos fiscais despachados pelos partidos.

Voto com cédula

Voto com cédula

Demorava, é verdade. O resultado definitivo de uma eleição nacional saía, na melhor das hipóteses, 3 ou 4 dias após a votação. Mas podia muito bem demorar duas semanas ou até mais.

Quando os franceses querem lembrar que é impossível ter tudo na vida, dizem que «on ne peut avoir le beurre et l’argent du beurre», não se pode ter a manteiga e o dinheiro da manteiga. Se a eleição à moda antiga, com cédula de papel, apresentava o inconveniente da lentidão da apuração, por outro lado era mais efetiva em caso de contestação. Uma recontagem dos votos era possível e até fácil de fazer.

Já o novo sistema ― eletrônico, sofisticado e modernoso ― me deixa com um pé atrás. Quem me garante que os números que teclei serão realmente creditados ao candidato que escolhi? Quem passou atestado de idoneidade aos gênios que programam aquelas engenhocas? Quem certifica que não há colusão entre as partes para beneficiar este ou aquele candidato, este ou aquele partido?

O exercício da democracia é alicerçado pelo voto popular, mas ainda não foi inventada maneira infalível de banir o risco de fraude. Portanto, a prioridade deveria ser a transparência e a exatidão no cômputo dos votos, não a rapidez da apuração.

Urna transparente

Urna transparente

A meu conhecimento, nenhum país europeu adotou o voto eletrônico. Por aqui pode-se votar na secção eleitoral, por correspondência, por procuração, por antecipação. Experiências têm sido tentadas até com voto via internet. No entanto, nada de «urna eletrônica». Donde se conclui que os europeus estão atrasados nesse particular? Eu não iria tão longe.

Se me fosse dado decidir, eu ficaria com o melhor de cada um dos sistemas. Explico.

1) Revogaria o direito de voto dos analfabetos. Um cidadão que não tem condições de ler ou de escrever num pedaço de papel o nome de seu próprio candidato é presa fácil para o voto de cabresto. É obrigação do Estado alfabetizar a população. Que o façam.

2) Voltaria ao voto à moda antiga, cabine com cortininha, cédula de papel e urna de material transparente.

3) Estenderia aos mesários a obrigação de contar os votos de sua secção. Terminada a votação, cada urna seria aberta na presença de todos os mesários e de eventuais fiscais partidários. Os votos seriam contados à vista de todos. Como se faz no resto do mundo.

4) Utilizaria os modernos meios eletrônicos para a transmissão dos resultados. Terminada a contagem, o resultado seria transmitido por canais especiais a uma central de totalização. As cédulas seriam conservadas para eventuais confrontações.

Essas mudanças tirariam a pulga que hoje vive atrás da orelha de muito cidadão.Interligne 38

Interligne 3eRecebi hoje de uma amiga um desses textos apócrifos que circulam pela internet. Não se pode saber quem o escreveu, nem se corresponde à verdade. Mas não deixa de ser um grito de alerta.

«Na verdade, não parece estranho que os países adiantados repudiam a urna eletrônica? Está aqui uma das inúmeras possibilidades de fraude à luz do dia.

Já fui fiscal de eleições duas vezes e sempre achei o sistema vulnerável. Numa das vezes,uma urna enguiçou.

Chamamos o TRE, que nos enviou um técnico, um rapaz de seus vinte anos. Pedi a ele que se identificasse e perguntei se era funcionário do TRE. Respondeu-me que trabalhava para uma firma terceirizada.

Abriu a urna, extraiu o disquete dela, tirou do bolso trazeiro da calça jeans um novo disquete e se preparava para instalá-lo no lugar do original. Antes que ele completasse a operação, pedi que me deixasse examinar o novo disquete. O apetrecho trazia apenas uma etiqueta do TRE, um carimbo, uma assinatura e um número de série. Nada provava que o disquinho fosse autêntico, neutro e seguro.

Perguntamos ao rapaz se a mesa tinha de autorizar a troca e autenticar o novo disquete. Ele disse que não, não precisava de nenhuma comprovação. E foi-se embora levando o disquete danificado.

Passei a ter minhas dúvidas sobre a segurança do sistema.»

 

Esquizofrenia

José Horta Manzano

Quando cheguei à Europa, quase 50 anos atrás, nós brasileiros éramos olhados com curiosidade. A gente se sentia realmente estrangeiro. Viajar custava caro, poucos podiam se dar ao luxo de fazer turismo de cá para lá ou de lá para cá. A maioria dos europeus nunca havia visto um visitante vindo de tão longe.

A Europa ainda era cheia de fronteiras, de vistos, de alfândegas. Hoje não é mais assim, mas naquela época, para passar de um país a outro, era absolutamente necessário apresentar documentos. Nossa nacionalidade era tão exótica, que cheguei a assistir a cenas surpreendentes.

Uma vez, ao atravessar uma fronteira rodoviária entre a Itália e a França, o policial de serviço recolheu nossos passaportes, mandou esperar, e desapareceu dentro da guarita. Voltou um momento depois acompanhado de um outro, que parecia ser seu chefe. Pelo olhar benévolo e inofensivo que nos lançaram, percebi que estavam movidos apenas pela curiosidade. Estavam vendo ― provavelmente pela primeira vez na vida ― gente de carne e osso proveniente de uma terra tão longínqua e improvável como era a nossa.

Alguns países exigiam visto de brasileiros. Entre eles, mui estranhamente, a Espanha. A autorização de entrada naquele país tinha um custo, é verdade, mas valia a pena: o visto espanhol era um prazer para os olhos. Uma enorme marca de carimbo de tinta roxa preenchia uma página inteira do passaporte. Metade da superfície carimbada vinha encoberta por uma fieira de estampilhas coloridas. Uma assinatura se sobrepunha ao bonito conjunto. O único senão é que todos os selos, sem exceção, traziam a cara de Franco, o feroz caudilho.

Espanha ― Selos antigos

Espanha ― Selos antigos

O tempo passou, as coisas mudaram. Hoje em dia, nem os próprios diplomatas brasileiros que servem na Europa conseguem dizer com exatidão quantos conterrâneos nossos, entre legais e clandestinos, vivem em cada país. Nos países mais concorridos, somos centenas de milhares.

Uma amiga minha, brasileira mas radicada há muitos anos na Europa, costuma dizer que dar um passeio em Genebra num domingo de verão à beira lago equivale a passear à beira-mar em Natal ou Fortaleza. A paisagem é bonita e os frequentadores são metade brasileiros e metade estrangeiros.

Talvez por falta de visão estratégica, o governo brasileiro costuma ser apanhado de surpresa assim que o panorama mundial se altera. Não só crises financeiras e outros eventos planetários têm o poder de colher nossos mandachuvas de calças curtas. Modificações paulatinas ― e previsíveis ― do comportamento dos cidadãos não costumam ser antecipadas. É preciso que a pressão esteja a ponto de fazer saltar a tampa para que alguém se preocupe em acionar a válvula de escape.

Assim foi com o aumento de brasileiros estabelecidos ― legal ou ilegalmente, pouco importa ― no exterior. Não aconteceu da noite para o dia. O aumento já vem se acentuando há um quarto de século. As representações consulares brasileiras, quase ociosas nos anos 60 e 70, foram-se tornando pouco a pouco mais movimentadas.

Até não faz muito tempo, pelo menos no consulado do Brasil em Genebra, o atendimento era caótico. Levas de conterrâneos se espremiam diante de dois exíguos guichês, senhas não eram distribuídas, não havia nenhuma cadeira disponível, o horário de atendimento era de 3 horas por dia. Cada um tinha seu problema: uma renovação de passaporte, uma legalização de documento, o registro de um recém-nascido, um documento militar, um título de eleitor, uma procuração. O atendimento só era possível na base da cotovelada.

Atendimento reverencioso

Atendimento reverencioso

De uns dois anos para cá, o esforço de um novo Cônsul-geral conjugado a uma tomada de consciência do Itamaraty operaram um milagre. Aquele apinhado de gente em frente do guichê é pesadelo do passado. Hoje marca-se hora ― perdão! ― hoje se agenda por internet e, no dia combinado, recebe-se atendimento personalizado. E pontual.

Não tenho informação, mas suponho que os demais consulados do Brasil estejam agora oferecendo o mesmo tratamento digno que recebemos aqui. Finalmente, o Itamaraty se deu conta de que os milhões de conterrâneos residentes no exterior não são banidos nem desterrados. São brasileiros como os outros e têm necessidade de atendimento.

É curioso constatar que a instituição que vem agora tratando os brasileiros do exterior com tanta urbanidade e tanto mimo é a mesma que afaga caudilhos confirmados e aprendizes, ditadores experimentados e iniciantes, e dignitários de regimes sanguinários no resto do mundo.

Sem dúvida, um caso curioso de esquizofrenia.

Lá, mas não cá

José Horta Manzano

Em junho de 2011, americanos atônitos descobrem que Anthony Weiner, deputado pelo Estado de Nova York, andava distribuindo fotos de suas partes íntimas a suas amantes. Mentira e escândalo sexual estão entre os comportamentos mais rejeitados nos EUA. O bravo deputado tinha transposto a linha vermelha. Foi impelido a renunciar ao mandato.

Em fevereiro de 2013, uma notícia embrulha o estômago dos alemães. Annette Schavan, Ministra da Educação acabava de perder seu título de doutora. De fato, apurações tinham revelado que sua tese de doutorado estava baseada em escritos pré-existentes, um escancarado plágio. Desenxabida, a ministra não teve outra solução senão abandonar o cargo.

Em novembro de 2012, um escândalo abala os Estados Unidos. Boquiaberta, a nação ficou sabendo que David Petraeus, o diretor da CIA(!), traía a esposa. Por aquelas bandas, certas virtudes ainda valem. O personagem tinha escamoteado uma delas. Não deu outra: teve de pedir demissão.

Em março de 2013, a polícia nacional francesa publica o resultado de um inquérito de 4 meses sobre Jerôme Cahuzac, Ministro do Orçamento. Pasmos, os franceses ficaram sabendo que Monsieur le Ministre havia fraudado a Receita. Era beneficiário de 600 mil euros depositados uma conta secreta no estrangeiro mas nunca declarados ao fisco francês. Não lhe restou outro caminho senão a renúncia ao cargo ministerial.

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Faz anos e anos que o Brasil inteiro está sabendo que Paulo Maluf tem problemas com a Justiça. Até uma (curta) temporada na cadeia já passaram, ele e o filho.

O homem é procurado por todas as polícias do mundo. Está na lista vermelha da Interpol. Caso cometa a imprudência de pôr um pé fora do território tupiniquim, será mui certamente preso e extraditado para os EUA. Para desencanto dele, terminaram-se os passeios despreocupados que fazia ― à custa do nosso dinheiro ― nos Champs-Elysées, na Via Veneto ou na King’s Road.Maluf

A Justiça de Jersey, ilha anglo-normanda onde nosso simpático personagem tinha encafurnado uma parte dos milhões roubados do povo, começou a devolver o butim diretamente à prefeitura de São Paulo. Em suaves prestações.

Como ensina a Constituição da República, todos os brasileiros são iguais. Alguns, no entanto, são ainda mais iguais que os outros. Um visionário presidente do País, aliás, confirmou essa incontornável realidade em declaração de junho de 2009, quando afirmou que seu companheiro José Sarney não podia ser tratado como pessoa comum.

Maluf tampouco jamais será tratado como pessoa comum. Pelo menos, enquanto permanecer no território nacional, que é vasto. Assim como se deu bem no tempo da ditadura, dá-se melhor ainda nos estranhos tempos atuais.

O mesmo presidente visionário ― hoje emérito ― que havia incensado Sarney foi outro dia pessoalmente levar sua homenagem a Maluf. Fazer uma visitinha de cortesia a um foragido da Justiça planetária não lhe pareceu indecente.

Afinal, Deus é brasileiro.

A frase do dia – 03

«Segundo o diretor do Instituto Nacional de Estatísticas (da Venezuela), Elias Ejuri, a demanda de papel higiênico cresceu nos últimos anos porque, graças à revolução bolivariana, “as pessoas estão comendo mais”. Nem o Indec argentino, encarregado de maquiar a inflação, se tem mostrado tão criativo.»

Rolf Kuntz in Estadão
in Estadão, 25 maio 2013
Link aquiInterligne 2

O roto e o rasgado

José Horta Manzano

Tem gente que vive de ilusão. Um antigo presidente de nossa República declarou, dois dias atrás, que o Brasil «será a 5a. economia do mundo em 2016». Mas não parou por aí. Com sua soberba habitual, conclamou nosso País a «ajudar os vizinhos a sair da pobreza».

Mostrou-se, ademais, maravilhado com o fato de a presidência temporária de duas organizações internacionais estarem sendo atualmente confiadas a brasileiros. Considerando que há 33 organizações internacionais oficialmente reconhecidas, não é espantoso que duas delas tenham um presidente oriundo do país candidato a ser a 5a. economia. Ou não?Estatísticas 1

Não nos esqueçamos de que, além das organizações internacionais oficiais, há dezenas de ultrapoderosas ongs planetárias. O WWF, presidido por uma equatoriana, cuida dos animais selvagens. A UICN (União Internacional para a Conservação da Natureza), presidida por um chinês, encarrega-se da preservação da vida vegetal.

Das duas, uma: ou o Lula conhece esses fatos e os esconde de seu público, ou continua a viver completamente alheio à realidade mundial.

A bem da verdade, seja dito que a fortíssima Greenpeace conta com uma brasileira entre os sete membros de seu conselho diretor. Nosso messias provavelmente não concede grande atenção a ninharias dessa espécie. Pode também ser que seus diligentes assessores, inebriados com sua própria importância, não se tenham preocupado em pesquisar e transmitir o conhecimento ao chefe. É igualmente compreensível que os feitos de Osvaldo Aranha, que presidia a assembleia da ONU quando da criação do Estado de Israel, não sejam levados em consideração pelo ex-presidente. Pela lógica dele, a História do Brasil só começou em 2003. Portanto, fatos anteriores não merecem ser lembrados.

Quando o ínclito personagem diz que o Brasil precisa «ajudar os vizinhos a sair da pobreza», me faz pensar no roto falando do rasgado. Um dos fatores que mais retardam nosso arranque é justamente o fato de nosso país estar amarrado, por regras insensatas e por decisões ideológicas, aos caprichos de seus vizinhos pobres e arrogantes. Com a entrada da Venezuela no Mercosul, o clube dos «descamisados» acaba de ganhar novo membro de peso. A verdade é que, a cada dia que passa, ficamos mais longe de atingir o status de potência internacionalmente respeitada, tal como a imaginava nosso simplório mandachuva.

Ele não consegue entender, mas não custa repetir: não é só o tamanho absoluto da economia que faz um país avançar no processo civilizatório. A China, em números absolutos, é uma economia poderosa. No entanto, em números relativos, a visão é muitíssimo diferente. Há tanta desigualdade social naquele país quanto no Brasil, se não for mais. Injustiças, pobreza, miséria, iniquidade, trabalho em condições de semiescravidão, corrupção desenfreada em todos os níveis, censura de opinião, trabalhadores sem qualquer espécie de proteção social. É isso que nosso líder quer para o Brasil?Estatísticas 2

De que serve, então, ser uma economia poderosa, se a distribuição da riqueza é perversa e iníqua? Não é importante que um país seja rico em números absolutos. É importante que seu povo não dependa de bolsas e de quotas para sobreviver com decência.

No dia em que os brasileiros não precisarem mais de muletas governamentais para garantir vida digna, teremos chegado lá. Pouco importa que o Brasil seja a 1a. potência econômica, a 5a. ou a última. Estatística não enche barriga.

Miscelânea 02

José Horta Manzano

Lá como cá
Sylvie Andrieux, de 51 anos, é deputada socialista francesa há 15 anos. Acaba de ser condenada a 3 anos de prisão. Terá de cumprir o primeiro ano em regime fechado. Durante os dois anos seguintes, estará em liberdade condicional.

Seu crime? Desvio de dinheiro público. O tribunal reconheceu que a deputada favorecia ongs fictícias e associações inexistentes. Ao final, o dinheiro servia para comprar votos. O montante total do «malfeito» foi de 740 mil euros.

No Brasil, desvio de dinheiro público para compra de votos é «malfeito» tão banalizado que já não comove ninguém. Caso a Justiça decidisse mandar todos os infratores para a prisão, melhor seria cercar o Congresso.

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O exílio fiscal
Gérard Depardieu, o ultraconhecido ator francês, é russo fresco, ou seja, tornou-se cidadão russo há poucos meses. Declarou que se sente muito orgulhoso da nova nacionalidade.Gérard Depardieu 2

Para respeitar a obrigação que têm todos os habitantes do território russo, declarou seu endereço às autoridades competentes. Reside à Rua da Democracia n° 1, em Saransk. Sem brincadeira.

O ator acaba de desembarcar em Grojny, na Tchetchênia, para começar a rodar Turquoise, seu novo filme.

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Azeite «do bom»
Mesas de restaurantes europeus costumam servir de morada permanente a uma cestinha meio ensebada onde se alojam o sal, a pimenta, o tempero em pó e a indefectível garrafinha de azeite. Até restaurantes «de bandeja» ― semelhantes àqueles que no Brasil são chamados «por quilo» ― exibem a cesta.Cesta condimentos 2

Como Big Brother, a União Europeia cuida da saúde de seus súditos. Os europeus podem dormir tranquilos, que seus interesses estão em boas mãos. Acaba de ser editado um novo regulamento visando à proteção da saúde dos habitantes.

A partir de 1° de janeiro de 2014, os europeus dirão adeus àquelas garrafinhas bojudas que, raramente lavadas, eram preenchidas de azeite à medida que se iam esvaziando. A regra entra em vigor simultaneamente em todos os países-membros.

A administração da UE não quer mais ouvir falar em garrafinhas gordurosas contendo azeite de origem duvidosa. Os novos modelos terão de ser fabricados de forma a impedir a recarga. Uma vez comprados e utilizados, terão obrigatoriamente de ser descartados.

Sei não. Aqui como lá, sacumé, fatta la legge, fatta la burla(*). Já deve ter gente tentando encontrar um meio de recarregar as garrafinhas.

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Les saints de glace
Um dos espantalhos dos agricultores da Europa centro-meridional é o gelo. Não falo do frio do inverno, quando a natureza adormecida está preparada para receber neve e temperaturas glaciais. Falo das geadas de primavera.

A partir de março, a primavera faz ressurgirem brotos e flores. Em abril, a floração das árvores chega ao máximo. Cerejeiras, macieiras, pereiras, ameixeiras, abricoteiros colorem a paisagem. No começo de maio, as flores murcham, caem e dão lugar aos frutos.

Nessa época, as frutinhas são ainda pequeninas e frágeis. Uma tempestade de granizo ou um frio extemporâneo pode dar cabo delas. A preocupação maior dos agricultores é que uma geada sobrevenha e arrase com a plantação.

Desde a alta Idade Média, o povo acostumou-se a invocar a proteção dos chamados saints de glace ― santos de gelo. Trata-se de santos cuja existência é às vezes posta em dúvida, mas que figuram assim mesmo na hagiografia cristã. Implora-se a eles que intercedam junto ao Altíssimo para que não venha nenhuma geada nesse período crítico. A partir de junho, já não faz falta invocar nenhuma entidade: o perigo já está esconjurado pela força do verão.Saints de glace

Conforme o país e a região, cultuam-se diferentes santos de gelo. Na maior parte da França e da Suíça, o povo pensa em São Mamert, São Pancrácio e São Servásio, cujas festas são em 11, 12 e 13 de maio, respectivamente.

Regiões situadas mais ao norte preferem invocar santos cuja celebração ocorre alguns dias mais tarde. Ao contrário, territórios meridionais dirigem suas súplicas a santos comemorados logo no começo de maio.

A razão é simples: no norte da Europa, o perigo das geadas vai até o fim de maio, enquanto nos países mediterrâneos já praticamente desaparece no fim de abril.

Este ano, com invocação ou sem elas, a primavera ainda não se fez sentir. Os dias se alongam, é verdade. Flores já apareceram, já se foram, pássaros já procriaram. Mas o sol ainda não apareceu. Chove diariamente. A previsão é de fraca queda de neve sexta-feira 24 de maio, coisa que não se vê há muitas décadas.

Já não se fazem mais santos de gelo como antigamente. Ou será que o povo se descuidou e deixou de invocá-los?

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(*) Nem bem foi feita a lei, já se inventa a maneira de burlá-la. Provérbio italiano.

Sem gritar água vai

José Horta Manzano

A cidade do Rio de Janeiro já ia para seus 300 anos de idade. Londres e Paris não estavam longe de completar o segundo milênio. No entanto, nenhuma delas contava com sistema de canalização de águas usadas. E como faziam as gentes?

Ora, é simples. No Rio de Janeiro, os dejetos eram acumulados em casa, em barricas de madeira chamadas cubos. Chegada a hora de esvaziar o tonel, um escravo levava a mercadoria para despejá-la na praia mais próxima ou nalgum córrego. Esse labor se desempenhava de preferência à noite, talvez para evitar que o cheiro nauseante assustasse eventuais passantes.Rua medieval 2

Já londrinos, parisienses e mesmo cariocas pertencentes à casta dos sem-escravo tinham de se virar sozinhos. Lavavam seus pertences em bacias e faziam suas necessidades em penicos. De manhã, abriam a janela e simplesmente atiravam a imundície na rua. Como sinal de cortesia para com eventuais passantes, gritavam antes: «Água vai!»(*). Não esqueçamos que o Rio de Janeiro contava já com alguns sobrados, o que não facilitava a vida de quem se encontrasse no momento errado no lugar errado.

As ruas, já desde a antiguidade, costumavam ter uma valeta central ou lateral ― um afundamento do calçamento de pedra. A finalidade era justamente escoar, bem ou mal, as águas servidas. O espaço público era tratado como lixeira. Sob climas tropicais, em especial, ruas e praças haviam de exalar uma abominável fedentina.

A ideia de canalizar o esgotamento doméstico foi um passo admirável. Começou, naturalmente, em Londres, centro urbano mais importante do planeta em meados do séc. XIX. De lá, espalhou-se pelo mundo.Paraty

Até cem anos atrás, o volume de lixo era relativamente baixo. Além daquilo que o esgoto canalizado podia levar, sobrava o lixo doméstico, em maior parte orgânico. Firmas e escritórios deixavam papel e papelão.

Com o inchaço das aglomerações, o volume de lixo, naturalmente, cresceu. Até os anos 1950-1960, os dejetos continuaram sendo basicamente constituídos de restos de comida e de papel. Isso favoreceu o aparecimento da figura do catador de papel, ofício exercido ainda hoje. Dos anos 60 para cá, a composição dos detritos foi-se diversificando. Com a irrupção dos diferentes materiais plásticos, já não se encontra mais lixo como antigamente.Rua medieval 3

Hoje em dia, o plástico ocupa lugar preponderante. O metal, praticamente inexistente no lixo antigo, aparece agora aos montes, usado que é para acondicionar bebidas várias.

Países mais adiantados se deram conta de que os hábitos da população tinham de ser modificados. Sete bilhões de humanos produzem milhares de toneladas diárias de lixo, em boa parte reaproveitável. Reciclável, sim, mas desde que se respeitem normas básicas. Lixo orgânico não pode estar misturado com material plástico nem com metais. Papel é um mundo à parte. Vidro, então, não combina com nada. Como fazer?

Alemanha e nações escandinavas, entre outras, já tomaram sua decisão há pelo menos 20 anos: a triagem tem de começar em casa. É muito mais fácil separar na origem do que esperar que esteja tudo misturado, melado e emporcalhado.

Hoje em dia, cidadãos de vários países ― entre os quais os suíços ― já aprenderam: selecionam os detritos antes de descartá-los. Chega-se a ter 7 ou 8 recipientes em casa, cada um para um tipo de lixo. Em seguida, os recipientes são esvaziados em caçambas específicas. O lixo orgânico será transformado em adubo. Os metais, o plástico, o vidro, o papel retornarão ao ciclo de fabricação de onde saíram. É questão de bom-senso.

Anuncia-se estes dias que o senhor Haddad, prefeito da mais populosa aglomeração brasileira, anda implementando o aperfeiçoamento das megacentrais de triagem de material reciclável. Pretende dar cursos profissionais a catadores de papel. Até empréstimo do BNDES está sendo pleiteado para essa finalidade. Veja o Estadão e O Globo.Rua medieval 1

Por mais que a sorte dos catadores de papel possa condoer nossos corações, somos obrigados a admitir que é ofício em via de extinção. Desapareceram os acendedores de lampião a gás, os amoladores de faca, os motorneiros de bonde, os funileiros que consertavam panelas, os escreventes de feira livre. Os catadores de papel desaparecerão também, que tenham ou não seguido cursos de capacitação.

Ao persistir na opção atual, que deixa a triagem do lixo a cargo do poder público, o prefeito de São Paulo não está prestando um favor à população. Como é habitual nos políticos brasileiros que o têm apadrinhado, o senhor Haddad demonstra não dispor da visão que se espera de um estadista. Afaga os catadores de papel e vai empurrando o resto com a barriga. As gerações futuras que se virem.

É, o fruto nunca cai muito longe da árvore.Interligne 05

(*) A expressão sem dizer água vai (ou sem gritar água vai) permanece até hoje na língua. É usada quando alguém comete um ato bruscamente, sem pré-aviso. Corresponde exatamente à expressão francesa sans crier gare e à espanhola sin decir agua va.

L’inutile precauzione

José Horta Manzano

Na época em que Gioacchino Rossini (1792-1868) compôs seu Barbiere di Siviglia, ainda era comum que livros e óperas recebessem não somente um título, mas também um subtítulo. Este último era em geral mais longo e costumava ser mais explícito que o principal.

O título original do libreto do Barbiere é Almaviva ossia l’inutile precauzione ― Almaviva, ou seja, a precaução inútil.

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Segundo o Houaiss, doutor honoris causa «é título laudatório e homenageante, conferido a pessoa sem que esta tenha passado por quaisquer exames ou concursos». Em palavras mais chãs, é badalação. É como dar um agradozinho de Natal ao porteiro do prédio. Não vem necessariamente do coração, mas, nunca se sabe, pode-se até amanhã precisar dele.

O Lula andou passeando pela Argentina para acrescentar mais uma meia dúzia dessas medalhas de chocolate à sua já extensa coleção. Enquanto isso, as consequências nefastas dos erros cometidos por ele e por seus companheiros desde que assumiram as rédeas do País se tornam dia a dia mais evidentes.

Expressões como emergente, potência, Bric, G20, tão em voga até um ou dois anos atrás, andam rareando na linguagem atual.

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Entre as ideias fixas de nosso messias, sobressai a inamovível obsessão por congregar os países vizinhos numa espécie de Confederação do Equador versão 2.0. Países desafortunados de outros quadrantes também são bem-vindos. O objetivo talvez seja o de marcar a História como fundador de um novo Império.

No entanto, o mundo gira e, nessas voltas, a paisagem vai mudando. O fato é que a mania de grandeza de nosso líder tem sido vítima de reveses acachapantes.

Quando ele tentou se meter no meio dos briguentos do Oriente Médio, os contendores deixaram bem claro que não o tinham chamado e que não precisavam dele ― sabiam brigar sozinhos e preferiam que assim continuasse.

O baixinho maluco do Irã, além de não ter ainda conseguido fazer sua bomba, enfrenta contestação crescente. Do jeito que vão as coisas, não deve continuar na presidência de seu país por muito tempo. Será um companheiro a menos.

O bigodudo de Honduras, aquele que, com a complacência do Planalto, transformou a embaixada do Brasil em comitê de campanha, acabou deixando seu país com o rabo entre as pernas. Para nunca mais voltar.Barbiere di Siviglia libretto

Na Venezuela, o líder bolivariano acabou involuntariamente seguindo o conselho que lhe havia dado alguns anos antes um irritado D. Juan Carlos I da Espanha: se calló. O sucessor, além de bufão, é ainda mais destrambelhado que o original. Anda proclamando, a quem interessar possa, que sabe quem são os que não votaram nele. Com nome e endereço. Coisa de desequilibrado acuado.

Sobrou doña Cristina Fernández de Kirchner. Na falta de uma reedição da grandiosa Confederação do Equador, uma diminuta Confederação Platina podia até quebrar um galho. A coisa anda feia pros lados de nossos hermanos, mas, para quem cortejou até ditadores africanos, a Argentina é de bom tamanho. Vantagem adicional: ninguém corre o risco de terminar fuzilado como Frei Caneca.

Precavido, o Lula anunciou que anda rezando para que nossa presidenta se entenda bem com sua homóloga portenha. Como no Barbeiro de Sevilha, é precaução inútil. Não vai dar certo. Dois bicudos não se beijam. Tirando a corrupção generalizada, o Brasil e a Argentina pouco têm em comum. A experiência tem mostrado que uma associação dos dois países, além de contranatural, é contraproducente.

A imaginação de nosso líder anda fértil demais. Um abraço de Cristina equivale ao de um náufrago. Melhor não aceitar, sob risco de afundarem as duas.

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Lembrete
Não consta que alguma universidade brasileira tenha agraciado Sepp Blatter, presidente da Fifa, com o diploma de doutor honoris causa. Que não seja por isso! Os vereadores paulistanos cuidaram do assunto. Em nome de todos os habitantes da metrópole, conferiram ao mandachuva da nobre e imaculada entidade o título de cidadão paulistano.

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Do it yourself

José Horta Manzano

Você sabia?

Tudo começou com um menino esperto, curioso e observador. Era um negociante nato. Desde criança sabia que queria trabalhar por conta própria.

Dedicou-se ao ramo de móveis semiprontos, daqueles que o freguês mesmo monta em casa. A partir de sua Suécia natal, criou a Ikea, um dos grandes conglomerados do planeta. Pouco a pouco, foram sendo acrescentados outros artigos ao sortimento. Atualmente, vendem todos os utensílios e accessórios de que uma casa precisa.

O menino sueco, hoje com 87 anos, chama-se Ingvar Kamprad. Pertence ao restrito clube de bilionários confirmados por revistas especializadas. Vive na Suíça.

Sua rede de lojas, ainda desconhecida no Brasil, está implantada em 43 países. Anualmente, editam um catálogo de vendas. É um verdadeiro livro, espesso, em papel couchê, muito bem ilustrado. Distribuído gratuitamente de casa em casa, sua tiragem total é de 200 milhões de exemplares. Sai em 27 diferentes línguas. Dizem que nem a Bíblia é impressa em volume tão impressionante a cada ano.

Se alguém estiver interessado em conhecer a história do grupo, vai encontrá-la em português aqui.

A Ikea tem por norma dar a seus produtos nomes suecos. Sempre foi assim e, pelo jeito, ainda continuará por muito tempo. Para quem não conhece as línguas escandinavas, certos nomes parecem às vezes impronunciáveis. Já outros soam cômicos para nossos ouvidos. Dou-lhes aqui abaixo uma seleção dos que me pareceram mais engraçados.

Caso alguém pense que estou brincando, que consulte a página original da firma. Aqui.

Clique nas ilustrações para ampliar

Ik-Abat-jour

Ik-Arandela

Ik-Areia colorida

Ik-Baixela

Ik-Brinquedos

Ik-Cabide que volta

Ik-Cadeira para visitas

Ik-Caixa para geladeira

Ik-Colchonete

Ik-Copo

Ik-Cortina

Ik-Escrivaninha boba

Ik-Guarda-sol

Ik-Lata de lixo

Ik-Lustre

Ik-Mesa e cadeiras

Ik-Porta-retrato

Ik-Pregador

Ik-Tigelas para criança

Ik-Travesseiro

Nacionalidade

José Horta Manzano

Você sabia?

Os primeiros europeus começaram a se estabelecer nas Américas por volta de 500 anos atrás. Nos primeiros tempos, brotaram apenas núcleos de povoamento, um aqui, outro ali, mais ou menos estáveis, sujeitos a desaparecer subitamente. Bastava uma epidemia, um ataque de indígenas, uma invasão de piratas ou de corsários para apagar a colônia do mapa.

Naqueles tempos recuados, vigorava o sábio e ancestral costume segundo o qual filho de peixe peixinho é. As colônias fundadas no continente eram mera extensão dos povos europeus que as tinham criado. Assim, um cidadão da Nova Inglaterra era tão britânico quanto um legítimo londrino. Um português nascido na Bahia, ainda que de terceira ou quarta geração, continuava sendo tão lusitano quanto se tivesse visto a luz em Viana do Castelo ou em Freixo de Espada à Cinta.Passeport français

As colônias britânicas foram as primeiras a se proclamarem independentes da metrópole europeia. É bem verdade que a França, por razões de rivalidade com a Inglaterra, deu aos colonos uma mãozinha mais que bem-vinda. Mas essa já é uma outra história.

Os ingleses não apreciaram nem um pouco o fato de perder a importante fonte de ganho. Espernearam durante algum tempo, mas acabaram se dobrando à realidade. A separação era sem volta.

Algumas décadas mais tarde, tanto a América portuguesa quanto a espanhola espertaram e se dispuseram a seguir o exemplo dos colonos britânicos. O povoamento ibérico era, no entanto, geograficamente extenso, esparso. E as comunicações entre os diversos núcleos era precária, quase inexistente. Esse fator inviabilizava uma ação concertada. As regiões colonizadas foram-se despedindo da metrópole, cada uma por sua conta. Pelos anos 1825, o continente já contava uma vintena de novos países soberanos.

Junto com a independência, apareceu a questão da nacionalidade. Se fosse mantida a tradicional regra da lei do sangue, a jus sanguinis, as novas nações estariam fadadas a ser povoadas por estrangeiros até o fim dos tempos. Com efeito, pela lei do sangue, filho de inglês é inglês, filho de espanhol é espanhol, e assim por diante. Somente a naturalização, ou seja, o abandono da nacionalidade herdada e a aquisição de uma nova poderia resolver o problema.

Mas os tempos eram outros. Poucos eram alfabetizados. Não se podia exigir que cada vivente enfrentasse os trâmites burocráticos inerentes a um procedimento de naturalização. Os habitantes da Nova Inglaterra encontraram solução bem mais simples para contornar o problema da naturalização maciça: instauraram a lei do solo, a jus soli. Pela nova norma, bastava nascer no território para adquirir automaticamente a nacionalidade do país. Para problemas iguais, soluções iguais. Todos os novos países americanos adotaram o mesmo princípio.

Passeport russe

Tão acostumados estamos com esse sistema, que não nos damos conta de que é criação relativamente recente. E tem mais: a instituição da lei do solo é praticamente restrita aos países americanos. Fora do continente, poucas são as nações que seguem essa doutrina. Por outro lado, todos os países do mundo mantêm, naturalmente, a lei do sangue para seus cidadãos.

Exemplificando, podemos dizer que, se um casal brasileiro tiver um filho na Alemanha, a criança não será alemã, dado que a legislação daquele país não conhece a lei do solo. O pequerrucho será necessariamente brasileiro. Brasileiro nato, ou seja, brasileiro desde o nascimento. Se assim não fosse, o infeliz não teria nacionalidade, seria apátrida.

Num exemplo inverso, o filho de um casal alemão nascido no Brasil terá, desde o primeiro choro, dupla nacionalidade: a alemã, pela lei do sangue; e a brasileira, pela lei do solo.

Portanto, todos os filhos de brasileiros nascidos no exterior são brasileiros natos. Se o parto ocorrer num dos (raros) países que reconhecem também a lei do solo ― os países americanos, em princípio ― a criança terá nacionalidade dupla, a brasileira e a do país de nascimento.

A jus sanguinis (lei do sangue) é universal. Afinal, gato que nasce no forno não é biscoito. A jus soli (lei do solo) é a exceção instituída para resolver a questão da cidadania nas antigas colônias do continente americano.

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Foi anunciado que uma estrela da tevê brasileira, Xuxa Meneghel, recebeu seu passaporte italiano. A Folha de São Paulo afirmou que ela «se tornou» cidadã italiana. O site Terra foi ainda mais enfático. Falou em «conquista» da cidadania peninsular. Ambos estão mal informados.

Xuxa, como todos os «oriundi», já nasceu com duas nacionalidades. Podia até nem saber disso quando era mais jovem ― provavelmente não sabia mesmo ― mas o fato de uma norma de direito ser desconhecida não anula sua validade.

O que a estrela fez foi apenas requerer seu documento de identidade italiana, papel ao qual sempre teve direito, ainda que não o possuísse antes.

Fato semelhante ocorreu com uma antiga primeira-dama do País alguns anos atrás. Muitos se escandalizaram porque aquela senhora «requereu» sua nacionalidade estrangeira. Nada mais falso. A nacionalidade ela sempre teve. O que pegou muito mal foi ela ter aceito, simploriamente, que lhe entregassem o passaporte enquanto o marido presidia o País. Podia ter esperado até que ele terminasse o mandato.

Enfim, bons modos não se compram, não se vendem, não se alugam, não se emprestam. Quem tem, tem. Quem não tem está condenado a passar a vida dando vexame.

Amianto

José Horta Manzano

Mais de dois milênios atrás, esse material e suas extraordinárias propriedades já eram conhecidas. Os antigos gregos deram-lhe o nome de ásbestos (= indestrutível), nome justificado pela excepcional resistência ao calor desse silicato.

Romanos e gregos endinheirados gostavam de encomendar roupas tecidas com fibras de amianto. A particularidade maior dessas vestes era deveras fora do comum. Quando se sujavam, nada de lavar com água: bastava atirá-las ao fogo que, em vez de as consumir, limpava-as.

Mas nada é perfeito. Plínio, o Velho (23 dC – 79 dC), o maior naturalista romano, já notara que os escravos cujo trabalho consistia em manipular fibras de amianto costumavam apresentar problemas respiratórios e pulmonares. O potencial de nocividade do amianto já é conhecido, portanto, há pelo menos dois mil anos.

Isso não impediu que industriais do fim do século XIX, em busca de um material resistente à tensão, ao calor, ao frio e ao fogo se interessassem pela fibra. Desde então, esse material tem sido utilizado em duas aplicações principais: como revestimento externo de superfícies e diretamente incorporado à massa quando da preparação de um composto.

Pontos onde o amianto está presente Crédito: INRS, França

Pontos onde o amianto está presente
Crédito: INRS, França

Como revestimento externo, finas partículas de amianto são projetadas contra a superfície de um objeto, a fim de torná-lo resistente ao fogo. Roupas de bombeiro são um exemplo.

Encontramos também o velho ásbestos entre os componentes de outros produtos. É o caso do cimento-amianto, amplamente utilizado para a confecção de telhas onduladas, tubulações, caixas d’água, conexões.

Como Plínio já tinha observado vinte séculos antes, estudos científicos levados a efeito no século XX confirmaram que a inalação de pó de amianto é causa de patologias mortais. Os industriais desconheceram a constatação e continuaram a expor seus funcionários aos riscos da manipulação da fibra.

Nos últimos vinte anos, os países mais adiantados baniram, um após o outro, o fabrico e a comercialização de produtos contendo amianto. A Suíça fez isso já em 1990. A França proibiu totalmente o amianto em 1997. Em 1999 foi a vez da União Europeia de impor a todos os países membros que banissem a fibra. Um prazo de adaptação até 31 de dezembro de 2004 foi concedido.

E o Brasil? Sacumé, sempre se dá um jeito. O território brasileiro tem importantes jazidas de uma variedade de amianto. Naturalmente, um discreto lobby passeia pelos corredores brasilienses para defender os interesses dos produtores. Até o momento, não há nenhum sinal de que esse material venha a ser proibido. Talvez mais preocupados em não perder eventuais mimos dos lobistas, nossos legisladores vêm empurrando com a barriga o assunto incômodo.

Ninguém está ligando para os operários que passam anos enchendo os pulmões de pó cancerígeno. Faz 50 anos que se sabe que os pobres diabos terão a vida encurtada por um câncer bronco-pulmonar, uma fibrose pulmonar, um câncer da pleura ou do aparelho digestivo.

E daí? Quem está preocupado com a vida dos que trabalham em mina de amianto ou dos que pavimentam nossas estradas? Para cuidar deles, temos o SUS(*), que oferece fabuloso atendimento de Primeiro Mundo.

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(*) Para quem não estiver familiarizado, o SUS (Sistema Único de Saúde) é o sistema brasileiro de saúde pública. Alguns anos atrás, um simplório presidente do Brasil ― que já terminou seu mandato ― não corou nem se vexou ao declarar que, graças ao SUS, o Brasil já se tinha praticamente tornado um país do Primeiro Mundo. Mas o mundo dá voltas. Alguns anos mais tarde, o mesmo cavalheiro teve graves problemas de saúde. Não procurou o SUS.

Uma reflexão para o 13 de maio

José Horta Manzano

Os primeiros europeus a desembarcarem na ilha Hispaniola estavam a serviço da coroa espanhola. Cristóvão Colombo em pessoa pisou aquelas praias em 1492. Aventureiros logo apareceram à cata de metais preciosos. Encontraram ouro na parte oriental da ilha.

Como no restante das terras americanas, também em Hispaniola grande parte dos indígenas sucumbiu às doenças trazidas pelos estrangeiros. Os poucos que escaparam mostraram-se inaptos ao trabalho servil e preferiram refugiar-se nas zonas montanhosas. Para explorar suas minas, os espanhois recorreram à mão de obra africana, importada em condições de escravidão.

A parte ocidental da ilha, desprovida de riqueza mineral, foi abandonada. Acabou colonizada por franceses, que lá criaram grandes plantações de tabaco e de cana de açúcar. Como os espanhois, também eles se valeram de escravos trazidos da África.

No fim do séc. XVIII, a Revolução Francesa inaugurou um período conturbado. Na confusão daqueles anos, a parte oeste da ilha, depois de muitas peripécias, conseguiu expulsar os cultivadores franceses e declarar sua independência em 1804. Era o nascimento do Haiti, primeiro país negro independente.

Nenhuma potência colonial europeia apreciou. Muito menos a França, que levou mais de 20 anos para reconhecer a perda da antiga colônia e só o fez com uma condição: a de que o novo país pagasse uma indenização de 90 milhões de francos à antiga metrópole. O dinheiro era destinado a ressarcir os plantadores que haviam perdido suas terras. Haiti pagou.

Crédito: Gonzalo Fuentes, Reuters

Crédito: Gonzalo Fuentes, Reuters

Dois séculos se passaram. Alguns anos atrás, o presidente Chirac decidiu designar o 10 de maio como dia comemorativo da abolição da escravidão.

Haiti, como país independente, nunca deu certo. Desde a partida dos colonos, ditaduras, golpes de estado, catástrofes naturais se abateram sobre o país, numa série ininterrupta de infelicidades.

No 10 de maio deste ano, uma ong francesa chamada Cran (Conselho Representativo das Associações Negras) prestou queixa contra a Caixa de Depósitos, estabelecimento bancário estatal francês equivalente a nossa Caixa Econômica. Acusam o banco ― que é um dos braços financeiros do governo francês ― de cumplicidade de crime contra a humanidade.

Referem-se aos milhões que o Haiti pagou para conseguir ter sua independência reconhecida. Segundo o Cran, o montante não foi inteiramente redistribuído aos plantadores, tendo sobrado um saldo que a Caixa embolsou. Calculam que os 90 milhões da época equivalem a 21 bilhões de dólares atuais, montante considerável.

O próprio presidente Hollande já declarou que a queixa não será levada em consideração. Não entendi bem o objetivo real da iniciativa, mas qualquer um percebe que ela não tem a menor chance de prosperar. É mais uma daquelas ideias despropositadas que dão a seus autores 5 minutos de exposição midiática, nada mais.

Concordo que se possa, em parte, atribuir o atraso do pequeno país caribiano ao montante exorbitante pago à antiga metrópole. No entanto, em vez de uma queixa de crime contra a humanidade, melhor seria se pedissem que o governo francês lhes desse uma mão para melhorar a Instrução Pública haitiana.

Vamos ver como evolui

José Horta Manzano

Desta vez, não deu

Não se sabe bem quem terá tido a ideia. O marketing foi deixado aos cuidados de um músico baiano que costuma se apresentar com a cabeça encimada por uma touca que lembra a de um mestre-cuca. Um pouco menos elegante, é verdade.Touca mestre-cuca

Inventaram um dispositivo meio esquisito, parecido com brinquedo de criança, feito de plástico, recheado de bolinhas, com alças laterais onde se encaixam os dedos. Para rimar com ecologia, anunciaram que seria feito a partir de cana-de-açúcar. Para rimar com nacionalismo, foi tingido de verde.

Na hora de escolher o nome, fizeram um esforço especial para escapar do ridículo. Quiseram compensar a escolha infeliz do apelido dado ao simpático tatuzinho que simboliza a Copa (mas não só…), o pobre Fuleco. Chamaram o novo brinquedinho de caxirola. Não ocorreu a ninguém que os estrangeiros pronunciarão caksirôla. Faltou aconselhamento.

Para reforçar o marketing, distribuíram a novidade ― de graça! ― num recente jogo de futebol. Cinquenta mil exemplares. Que desastre! Torcedores descontentes com o desempenho de sua equipe não pensaram duas vezes. Tomados pela decepção e pela raiva, lançaram sobre o gramado o que traziam na mão. Era justamente nossa caksirôla em fase de teste. Centenas delas terminaram no gramado, perturbando o jogo. A história não diz se o dispositivo foi aprovado como instrumento. Contudo, o teste detectou que é excelente projétil.

Resultado: autoridades baianas baniram o aparelhinho das partidas que vierem a ser disputadas em Salvador. É de imaginar que outros Estados sigam o exemplo, a não ser que… bem, sabemos todos que os argumentos da Fifa costumam ser convincentes.

Vamos ver como evolui.Interligne 4f

Brincando com a saúde… dos outros

Uma mafia de falsificadores de leite foi flagrada no Rio Grande do Sul estes dias. Por ganância, batizavam o alimento com substâncias comprovadamente cancerígenas. O detalhe sórdido é que um dos criminosos mandava separar uma parte do leite bom para consumo de sua família. A adulteração vinha em seguida. Mateus, primeiro os teus!Vache 2

Em 2008, escândalo semelhante estourou na China. Uma gangue mafiosa explorava o mesmo filão. Acrescentavam melamina ao leite. Apanhados, foram presos e julgados. O caso rendeu duas penas de morte e mais uma de prisão perpétua. As penas capitais já foram executadas em 2009. A firma de lacticínios ― a maior da China ― foi à falência.

Voltemos ao Rio Grande. Dos 8 presos, um já foi solto. Seis ― bem orientados por seus defensores ― declararam que só se pronunciarão em juízo. O oitavo falou. Disse que não sabia de nada.

Que pena merecem os que vendem gato por lebre e expõem crianças, velhos e doentes ao câncer?

Vamos ver como evoluiInterligne 4i

Bismarck tinha razão

José Horta Manzano

Leis & salsichas
Atribui-se ao homem político alemão Otto von Bismarck (1815-1898) uma citação que, traduzida em tupiniquim, fica mais ou menos assim: «Se a humanidade soubesse como são feitas as salsichas e as leis, teria pesadelos à noite».Salsicha

Cento e cinquenta anos depois do prussiano, Geraldo Alckmin (1952-), governador de São Paulo, acaba de dizer a mesma coisa. Usou palavras mais duras, mas a constatação é a mesma. Foi bem mais contundente que Bismarck.

Segundo reportagem da Folha de São Paulo, o governador disse: «O povo não sabe de um décimo do que se passa contra ele próprio, se não, ia faltar guilhotina para a Bastilha, para cortar a cabeça de tanta gente que explora esse (sic) sofrido povo brasileiro».

Por aí se vê que, lá como cá, ontem como hoje, pouca coisa mudou nas práticas políticas.

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Não é nem deixa de ser
A França foi o 14° país a instituir o casamento entre pessoas do mesmo sexo. «Foi longe demais!», dizem uns. «Já estava passando da hora!», reclamam outros. Os dois campos têm razão.

Como já comentei neste mesmo espaço algum tempo atrás, não é a formalização do casamento, em si, que atrapalha tanto assim. É a autorização da adoção, que entrou embutida de contrabando no novo texto legal francês.

Por isso ― na minha opinião pessoal ― têm razão os que consideram que a lei extrapolou ao incluir a adoção plena. Têm também razão os que acham que o reconhecimento da união homoafetiva já não veio sem tempo.

Enquanto isso… enquanto isso, numa certa República que conhecemos bem, tergiversa-se. Na falta de um texto completo, abrangente, definitivo, claro, o brasileiro tem de recorrer a jeitinhos. Um remendo aqui, uma resolução ali, um decretozinho acolá. O CFM se mete, a OAB dá seus palpites, até o STF entra na dança. Já os congressistas, que foram justamente eleitos para fabricar leis, não estão fazendo seu trabalho.Justiça

Situações esdrúxulas se criam. Inseminação artificial pode. Adoção pode. Barriga de aluguel pode. Quanto a casamento, depende. Tem de encontrar um cartório de boa vontade. E um bom advogado em caso de contestação. Na falta de lei clara, conquistam-se direitos no grito, na marra, na valentona, na Justiça. Ora, o poder judiciário foi concebido para julgar na base da legislação existente, não para criar leis.

Fica difícil entender por que o parlamento brasileiro, tão rápido no gatilho quando se trata de reconhecer direitos de outras minorias, não legiferou até hoje com relação a essa realidade social.

Talvez seja influência das salsichas de Bismarck. Em outras palavras, os deputados devem ter avaliado que, se votarem uma lei autorizando claramente a união homossexual, perigam perder votos de adeptos de seitas neopentecostais.

Entre o bem de uma categoria de cidadãos e os votos de outra, ficam com os votos.

Passa passa três vezes

José Horta Manzano

Na quinta-feira 25 de março de 1999, Jiang Zemin, presidente da China, estava na Suíça em visita oficial. A recepção havia sido preparada em detalhe e tudo corria bem. Cordões de isolamento, crianças agitando bandeirinhas, percurso em limusine dessas que começam aqui e terminam na esquina, autoridades sorridentes, flores por toda parte.

Assim que a comitiva parou na praça do Palácio Federal, em Berna, bem em frente ao edifício que abriga o governo e o parlamento suíço ― o equivalente da brasiliense Praça dos Três Poderes ― a coisa subitamente desandou.

Vaias, gritos, apitos se fizeram ouvir. Do alto dos prédios desenrolaram-se bandeiras do Tibete. Cartazes com os dizeres «Free Tibet» apareceram por todo lado. As autoridades suiças, que não esperavam por essa, não sabiam se riam ou choravam.

O presidente da China teve um ataque de fúria. Rispidamente, perguntou à presidente da Confederação Suíça se ela não tinha capacidade de controlar seu próprio país. E acrescentou: «Vocês acabam de perder um bom amigo».

Assim mesmo, o resto do programa foi cumprido. Mas o mandachuva chinês continuava muito chateado. Como é costume, veio a troca de presentes. O governo suíço ofereceu ao chinês uma caixinha de música de grande valor, toda esculpida e pintada à mão, uma maravilha mecânica. E o visitante, depois de examinar o presente, ousou: «Ela parece funcionar melhor que a segurança do país».

A visita continuou num clima azedo. Desde então, nunca mais nenhum dirigente máximo chinês visitou a Suíça em caráter oficial.

O estrangeiro, pouco afeito à liberdade de opinião de que gozam os cidadãos europeus, não conseguia entender que perigosos manifestantes pudessem ter sido deixados à vontade. Em seu país, esse tipo de acontecimento é inimaginável. Antes de eventos importantes, tomam-se as devidas providências para esconder a miséria e neutralizar eventuais manifestantes.

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Mata atlânticaNa terça-feira 17 de outubro de 2006, Celso Amorim, ministro das Relações Exteriores do Brasil, assinou um manifesto no caderno opinião da Folha de São Paulo. O texto, tecido em tom épico e voluntarioso, rechaçava toda e qualquer intervenção estrangeira em assuntos referentes à floresta amazônica. Assegurava que o Brasil era suficientemente grandinho para cuidar sozinho de seu território. E terminava com uma afirmação pra lá de ufanista: «A Amazônia é um patrimônio do povo brasileiro, e não está à venda».

Em 1° de agosto de 2008, menos de 2 anos após o inflamado libelo de nosso inefável chanceler, foi criado, por decreto, o Fundo Amazônia. Como qualquer um pode conferir no próprio site do Fundo, ele se propõe a apoiar projetos que visem a gerir, controlar, monitorar, fiscalizar, manejar, desenvolver, zonear, ordenar, conservar, recuperar o território amazônico. Os verbos utilizados são exatamente esses.

Ao contrário do que a fala do chanceler dava a entender, o Fundo aceitou doações de governos estrangeiros. Compreende-se que, embora a Amazônia não esteja propriamente «à venda», aparecendo alguém com dinheiro na mão, dá-se sempre um jeitinho e aceita-se de bom grado. O Estadão de 6 de maio último nos dá conta do que chama “vexame amazônico”.

Ora, basta de brincadeira. Se o chanceler brasileiro, o inenarrável Amorim, declarou que o Brasil podia cuidar sozinho de seu patrimônio, é incongruente ter aceitado doações de governos estrangeiros para esse fim. Quem aceita ajuda financeira torna-se, até certo ponto, devedor. O provedor tem direito a explicações sobre o uso do dinheiro.

Mas o pior não é ter cantado de galo para, em seguida, render-se ao maná financeiro aportado por alemães e por noruegueses ― como diria Padim Ciço, todos louros de olhos azuis. O pior mesmo é que, nos últimos cinco anos, a destruição da floresta amazônica continuou impávida, a zombar dos milhões angariados pelo Fundo.Desmatamento

Está feita a prova de que, com ou sem Fundo Amazônia, com ou sem aporte de dinheiro de governos estrangeiros, o governo brasileiro continua mostrando absoluta incapacidade de controlar seu próprio território. «Tem mulher e filhos que não pode sustentar», como costumávamos cantar.

Daqui a um século, quando nada mais sobrar da antiga floresta, restarão a nossos trinetos os olhos para chorar. A arrogante frase do insigne ministro será então citada como exemplo de nacionalismo tosco, míope, vazio e daninho que terá contribuído para uma catástrofe de proporções planetárias.