Brasil longe do terror

José Horta Manzano

No fim de semana passado, quando participava de reunião multinacional na Turquia, dona Dilma foi questionada sobre o risco de ataque terrorista ao Brasil durante os Jogos Olímpicos de 2016. A pergunta fazia sentido, dado que Paris acabava de sofrer mortífero atentado.

Dilma 1Dilma respondeu um tanto evasivamente, sem muita convicção, como se a pergunta a tivesse irritado: «não estamos muito preocupados com a possibilidade de atos terroristas no Brasil, uma vez que estamos muito longe». Soou distante e não convenceu.

Dias mais tarde, ao dar-se conta de que a afirmação da presidente não havia tranquilizado ninguém, o Planalto incumbiu o ministro da Justiça de serenar a plateia. Com cara de sério, ele cumpriu o contrato. Não sei se todos acreditaram. Em todo caso, o mui oficial portal Cuba Debate – aquele que publica as Reflexiones de Fidel – repercutiu a fala do ministro. Segundo o figurão, o Brasil «está totalmente preparado para garantir a segurança nos Jogos Olímpicos».

Menos romântico e mais próximo da realidade, o jornal O Globo trouxe, no sábado 21 de novembro, interessante artigo sobre ataques terroristas recenseados de 1970 até nossos dias. Uma análise mais atenta indica que o Brasil não está assim tão “longe” como imagina dona Dilma.

Ataques terroristas de 2000 a 2014 Crédito: Jornal O Globo

Ataques terroristas de 2000 a 2014
Crédito: Jornal O Globo

Entre 2000 e 2014, nosso país registrou nada menos que 17 ações terroristas, mais de uma por ano. É verdade que estamos longe do impressionante total de quinze mil atentados ocorridos no Iraque ou dos dez mil do Paquistão. Assim mesmo, constatamos que o Brasil foi alvo de mais atentados do que países teoricamente mais expostos como: Marrocos (12), Croácia (11), Sérvia (11), Portugal (2), Romênia (1) e Polônia (1).

Assalto 5Se, a esses atos reconhecidamente terroristas, acrescentarmos nossos costumeiros arrastões, sequestros-relâmpago, assaltos à mão armada & companhia, ultrapassamos Afeganistão e Paquistão com um pé nas costas. Sem contar os «malfeitos» do andar de cima naturalmente.

Brasil… longe do terror?

Pró-memória urgente

Carlos Maurício Mantiqueira

Aos que creem na vitória do bem contra o mal, eis aqui o manual.

Lembre aos políticos que eles também podem ser vítimas:

Interligne vertical 11ade uma queda – pior que a de viaduto feito às pressas;

de falta de socorro médico porque não há hospitais de qualidade;

de bala perdida no meio de um arrastão;

de depredação, sem aviso prévio, do local onde se encontram;

de sede provocada pela falta de planejamento das autoridades medíocres que permitiram a transformação de rios em esgotos a céu aberto.

Lembre aos juízes que eles também podem ser vítimas de assaltos, de invasões e de violências – incluindo outros arbítrios praticados pelo Estado. Se continuarem julgando contra a letra da Lei, eles deixarão a seus descendentes uma terra de ninguém, zona liberada ao apetite do poderoso de então.

Lembre aos jovens:

Interligne vertical 11aque um dia ficarão velhos;

que, se emigrarem, serão sempre estrangeiros em terra onde não têm raízes;

que tatuagem não sai;

que o álcool e as drogas os ajudam a morrer mais cedo.

Lembre aos banqueiros que são apenas parasitas: lucram emprestando, a juros altos e taxas absurdas, o dinheiro dos outros – não o deles.

Lembrem-se todos: os mais opulentos, corruptos e ladrões servirão de pasto a regimes justos, idealistas, não corrompíveis, que façam respeitar a autoridade.

Conselhos aos turistas

José Horta Manzano

Nos anos 90, a coisa fervia pelos lados da Península Balcânica. Entre sérvios, croatas, bosnianos, a convivência ficou explosiva. Muito guerrearam, muitos mataram, muitos morreram.

Mãos ao alto 1Se, na época, um hipotético viajante tivesse de aventurar-se por aquelas bandas, convinha seguir rigorosas regras de sobrevivência em regiões de conflito. Assim mesmo, por mais obediente que fosse nosso aventuroso turista, regra nenhuma poderia salvá-lo de um míssil ou uma bomba.

A Guerra dos Bálcãs acabou. Hoje, não só a Albânia é uma festa (dixit Jorge Amado), mas toda a península. A Albânia, por sinal, com seus 3 milhões de habitantes, recebe 3 milhões de visitantes a cada ano. A Croácia, país de 4 milhões de almas, acolhe incríveis 10 milhões de turistas! Manuais de sobrevivência saíram de moda.

Oficialmente, o Brasil não está em guerra ― pelo menos no papel. No entanto, a situação de conflagração civil que castiga o país e se agrava ano após ano causa efeitos iguais aos de um conflito tradicional. Talvez até piores.

Numa guerra, pelo menos, há um inimigo declarado, o que facilita sua identificação. Num estado de quase-guerra, como é o caso brasileiro, a ameaça é difusa. O inimigo não ataca necessariamente com bazuca. O leque de armas é mais sutil, bem sortido, traiçoeiro. A ameaça pode vir de onde menos se espera.

Mãos ao alto 2Não é à toa que a Croácia, cujo território ardia inóspito 20 anos atrás, acolhe hoje o dobro de turistas que acolhemos nós no Brasil. Tenha-se em mente que o pequeno país balcânico tem área equivalente à do Estado da Paraíba.

A Suécia não passou pelas eliminatórias e não conseguiu se classificar para a fase final da «Copa das copas». Assim mesmo, alguns apreciadores do esporte decidiram viajar ao Brasil para assistir a alguns jogos. Estive lendo, horrorizado, as recomendações que o governo sueco dá a seus ousados súditos que se estejam dirigindo a nosso paraíso tropical.

Aqui está uma seleção dessas advertências.

Interligne vertical 11cConselhos de segurança

* A vigilância é sua melhor defesa. Procure saber onde você se encontra e preste atenção a toda modificação súbita na composição do grupo. Fique sempre junto a seu grupo ― quanto mais gente, melhor.

* Mulheres não devem viajar sozinhas sob nenhum pretexto.

* Não use transporte público, especialmente depois de escurecer. Viaje somente em táxis munidos de taxímetro. À noite, se estiver sozinho, o melhor mesmo é evitar andar de táxi.

* Não passeie na praia após o pôr do sol. Evite todo e qualquer lugar pouco frequentado.

* Escolha um hotel seguro. Nunca abra a porta do quarto antes de saber quem está batendo. Em caso de dúvida, confirme por telefone com a portaria antes de abrir.

* Seja cauteloso ao comer ou beber em lugares muito frequentados. Nunca aceite comida ou bebida de estranhos.

* Estelionatos e engodos são comuns: seja vigilante se um estranho tentar atrair sua atenção ou distraí-lo.

* Deixe documentos originais no cofre do hotel. Carregue uma cópia, se necessário.

* Planeje com bastante folga traslados entre hotel e aeroporto. Certos percursos são mais arriscados que outros.

* Nunca ofereça resistência a criminoso armado. Guarde a calma e entregue, sem hesitação, seus pertences. Evite olhá-lo nos olhos.

* Não dirija. Se não houver outro jeito, siga as regras de proteção contra assaltos e sequestros.

* ‘Arrastões’ são uma forma local de crime. Uma gangue pode, por exemplo, bloquear uma rua, uma loja, um bar ou um restaurante e roubar todos os que ficarem encurralados.

Francamente, um guia para intrépidos viajores de malas prontas para Cabul, Bagdá ou Damasco não seria muito diferente. Ou não?

Dá uma vergonha…

Lá não exatamente como cá

José Horta Manzano

Antigamente, exportávamos café. Chegada a industrialização, incrementamos o comércio exterior vendendo chuveiros elétricos para a África e automóveis Passat para o Iraque.

A partir dos anos 1990, começamos a exportar gente. Levas de brasileiros sem formação partiram à conquista do mundo, numa onda migratória que não deixa de lembrar a dispersão de europeus pelo mundo 100 anos antes. Todos empurrados pelo mesmo aperto.

Um novo ítem está pronto para entrar na pauta de exportação: nossa vasta expertise em assaltos coletivos. Temos lá ampla experiência, um know-how preciso e precioso, ainda longe do alcance de todo o mundo, como se verá.Interligne 23

O profissionalismo
Em parcas linhas, a Folha de São Paulo nos informa que 3 bandidos puseram suas mãos à obra em frente ao Aeroporto de Congonhas ― um dos campos de pouso mais movimentados do País. Promoveram um arrastão e levaram os pertences de pelo menos 5 pessoas. Em seguida, escafederam-se.

O caso foi registrado no distrito, mas nenhum dos agredidos julgou útil comparecer à delegacia para formalizar queixa. Ponto para os bandidos, que provavelmente jamais serão identificados. Isso é trabalho bem feito.

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O amadorismo

Bandido mascarado

Bandido mascarado

Este mesmo fim de semana, 4 bandidos aprendizes tiveram a brilhante ideia de levar a cabo um arrastão num restaurante chinês da região parisiense. O acontecimento, fora de moda desde a invasão dos bárbaros, mereceu colunas inteiras de todos os grandes quotidianos franceses. Rádio e televisão não deixaram de noticiar um dos primeiros exemplos da nova e exótica modalidade de crime.

A prova de que os autores do «malfeito» desconhecem o moderno jeito brasileiro de arrastar e continuam confinados ao modus faciendi do século XIX é o fato de se apresentarem mascarados. Fica clara a influência da bandidagem de cinema, popularizada por Holywood desde os anos 30. Isso é coisa de jovens que assistiram demais a programas de tevê.

Caubói mascarado

Caubói mascarado

Imaginem que, para preparar o ataque, os quatro haviam roubado um automóvel na tarde do mesmo dia. Eu disse roubado, não furtado: fizeram descer a proprietária com seu bebê nos braços e levaram o carro.

Terminado o arrastão, os aprendizes não encontraram nada melhor a fazer do que abandonar e incendiar o carro roubado, bem no bairro onde viviam. Espertos, não? Fogaréu, correria, gritos, espanto. Alertada, a polícia chegou rápido, extinguiu as chamas, interrogou testemunhas. Três dos larápios foram logo presos. O quarto, parece história cômica, havia esquecido seus documentos dentro do carro roubado. É de dar dó, coisa de principiantes, tsk, tsk. Não precisou nem a polícia procurar. O elemento se dirigiu ao distrito e se entregou de livre e espontânea vontade.

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É chegada a hora de instaurar um verdadeiro programa de intercâmbio de experiências, digamos, arrastatórias. É uma questão de solidariedade companheira, de dar a mão a quem precisa.

Afinal, o Brasil, que já atingiu patamar de total desenvolvimento e de excelência nesse quesito, tem obrigação moral de prestar assistência a bandidos emergentes como esses da França.

A desigualdade entre as duas sociedades está ficando insuportável.

Miscelânea 04

José Horta Manzano

Frivolidade
Roupas de «griffe» são somente fabricadas em tamanhos que não excedam os limites de tecido adiposo geralmente aceitos.

Primeira reflexão: é cruel, mas vale lembrar que quem pesa 150 quilos não precisa de roupa de «griffe» para aparecer.

Segunda reflexão: quem é rico mesmo e tem fortuna de verdade tampouco precisa vestir roupa chique. Será adulado, agradado, obsequiado, louvado, incensado ainda que se vista com andrajos.

Terceira reflexão: nossos vizinhos do norte, os hermanos bolivarianos, vivem num país que tem sido considerado um dos mais frívolos das Américas. Durante décadas, a Venezuela foi povoada por concursos de miss, lipoaspirações, exibições de riqueza em meio a um mar de miséria, cirurgias plásticas a três por dois. Tão preocupados estavam os cidadãos com seu próprio umbigo, que se descuidaram de cuidar do país. Deu no que deu.Interligne 27

Demagogia
Tanto lá quanto cá. Um dos argumentos de campanha mais contundentes de François Hollande, quando ainda era candidato à presidência da República Francesa, era o gasto excessivo e desnecessário de dinheiro público. Como bom socialista, prometia instaurar um governo austero, sóbrio, de gostos frugais e gastos comedidos.

Foi eleito. A coisa não está saindo exatamente como tinha sido planejada, mas não se pode perder a face. O Palácio do Eliseu, sede da presidência do país, anunciou aos quatro ventos que estava leiloando uma parte de sua adega. A venda foi feita e rendeu 700 mil euros. Convenhamos que, num país com PIB de 2 trilhões e 800 bilhões de dólares, não é grande coisa. Não vai ser de grande ajuda para diminuir os bilhões de euros da dívida pública. Mas, tanto lá como cá, o que vale é o símbolo.

Entre nós: garrafas de vinho não se guardam eternamente. Passado um certo número de anos ― que varia conforme a casta ― é grande o risco de sacar a rolha da garrafa e, em vez do precioso néctar, encontrar… vinagre. Portanto, o Eliseu matou dois coelhos de uma cajadada só: saiu bem na foto e, ao mesmo tempo, renovou o estoque de sua adega.

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Güenta firme!
Não sei se os conselhos dados pela Folha de São Paulo sobre como agir em caso de arrastão concordam com a advertência das autoridades policiais. Imagino que sim.

Aquilo é um incentivo à bandidagem! Tudo o que recomendam é que a vítima se mantenha em estado de passividade total. Passado o susto, quem desejar pode até dar queixa na delegacia mais próxima. Para engordar as estatísticas, decerto.

No caso de um assalto «clássico», do tipo um contra um, concordo que fica difícil, na base da valentona, enfrentar um bandido armado. Para esses casos, mais útil seria que as autoridades facilitassem o acesso da população a cursos de defesa pessoal.

Em caso de arrastão, a coisa é diferente. Se 20 assaltantes invadirem um restaurante onde apenas 5 clientes estejam jantando, a situação é realmente delicada. No entanto, se 7 ou 8 bandidos tentarem render um local onde 50 pessoas estão presentes ― e é o que geralmente acontece ― o caso muda de figura.

Hoje em dia, praticamente todos carregam um telefone no bolso. Não seria possível muni-los de um «botão de pânico»?Interligne 27

Garis em ação

Garis em ação

De vassourão
A Folha mostrou imagens da Parada Gay paulista, edição 2012. Uma dentre elas, aliás esteticamente bonita, me impressionou. Foi tirada na vertical e mostra um bando de limpadores de rua ocupados em limpar a avenida após a passagem do povaréu.

Caminhão de varredura

Caminhão de varredura

Sempre aprendi que lixo se deve jogar na lata do lixo e não no meio da rua. Afinal, não vivemos dentro de uma lixeira. Mas isso não vem ao caso. Não é a quantidade de detritos que me impressionou, mas o número de garis. Dá para contar mais de 30 homens num espaço de uns 50 metros quadrados. Um luxo!

Tratorzinho de limpeza

Tratorzinho de limpeza

Faz muitos e muitos anos que a figura do limpador de rua desapareceu na Europa Ocidental. Os profissionais foram substituídos por máquinas. Um caminhãozinho dirigido por uma pessoa faz o trabalho dos 30 homens da foto e, evidentemente, sai mais barato para a coletividade. Além de liberar mão de obra para tarefas mais úteis e gratificantes.

Tratorzinho de limpeza

Tratorzinho de limpeza

Ainda hemos de chegar lá.

Como no faroeste

José Horta Manzano

Batedores de carteira ― antigamente conhecidos no Brasil como punguistas, termo vindo direto da gíria portenha ― sempre existiram. Na Europa, hoje em dia costuma-se chamá-los pickpockets.

Em qualquer aeroporto do continente, estão espalhadas placas alertando os frequentadores sobre o risco que representam esses amigos do alheio. Há até quadrilhas especializadas nesse estranho esporte. Aproveitam-se de algum momento de distração que o estresse da viagem possa provocar num passageiro para subtrair-lhe algum pertence.

É um delito, sem dúvida. Mas a violência está ausente, o que retarda o efeito. Só mais tarde o lesado se dará conta do furto. Ficará chateado, enraivecido, furioso até, mas não terá sofrido o trauma do ataque cara a cara.

Embora faça parte da coleção de crimes contra o patrimônio, está mais próximo do conto do vigário do que do assalto à mão armada.

.:oOo:.

Sou do tempo em que arrastão era apenas o nome, aliás bem sugestivo, de um tipo de pesca. Elis Regina, nos anos 60, projetou-se no cenário artístico nacional justamente na garupa desse sucesso escrito por Vinicius de Morais e esplendidamente musicado por Edu Lobo.

A pesca de arrasto tem sido incluída ― com razão ― no rol das colheitas predatórias. Como o método não é seletivo, o que cair na rede é peixe. O método não faz diferença entre espécies, nem separa espécimes adultos de presas jovens. Arrasta tudo o que estiver pela frente e contribui para prejudicar a reprodução da fauna marinha. Se todas as pescas seguissem a mesma receita, não demoraria muito para que os oceanos perdessem seus habitantes.Diligencia

Nos últimos anos, o sentido da palavra se alargou. Infelizmente, para um lado pouco musical, nada piscoso, mas assaz inconveniente. Embora seja um quase sacrilégio utilizar o termo no novo sentido, vem sendo empregado para designar os covardes assaltos coletivos que se amontoam no noticiário nacional.

O pior é que os adeptos do novo «esporte» não se restringem ao território tupiniquim. Pode até ser que a expansão da nova modalidade de violência além-fronteiras seja mera emulação do original brasileiro, uma espécie de exportação da nova variedade criminosa. Eu não acredito nessa hipótese, contudo. Levando em conta que somos bilhões no planeta, não é impossível que a mesma ideia tenha surgido espontaneamente na cabecinha tortuosa de delinquentes juvenis do outro lado do oceano.

Faz quase dois meses, contei-lhes a história do primeiro arrastão europeu de que tive notícia. Foi num artigo publicado aqui em 4 de fevereiro. Quem saltou o capítulo que não perca o vale a pena ver de novo. Aqui.

Pois imaginem que a moda está pegando. Aconteceu outra vez. Foi de novo na França, desta vez num trem de subúrbio, faz pouco mais de uma semana. Um bando de 20 a 30 pessoas atacou os passageiros. Parece que a cena foi violenta. Arrancaram dinheiro, celulares e joias dos atônitos viajantes. Alguns dos agressores carregavam até bombonas de gás lacrimogênio para aturdir vítimas mais recalcitrantes. Fugiram a pé, como se usa fazer no Brasil.

Compreende-se a impossibilidade de que um policial seja postado, de plantão, em cada vagão. Que fazer, então?Diligencia 2

Não sei. Para começar do começo, vão ter de inventar um termo para tipificar a nova modalidade de crime. Por enquanto, vem sendo feita uma analogia com o que se costuma ver em filmes de faroeste. O novo tipo de assalto vem sendo chamado de «ataque à diligência».

Confira aqui, aqui e aqui.

O Ipiranga

José Horta Manzano

Os numerosos anos que já vivi me permitiram presenciar ou tomar conhecimento de muita coisa. Fatos raros, fatos corriqueiros. Acontecimentos bonitos, outros menos. Não me lembro de nenhuma ocorrência com as características do que se passou na madrugada de domingo na Avenida Paulista, em São Paulo.

Falo do ciclista atropelado. Meus leitores que moram no Brasil certamente sabem do que estou falando. Em atenção aos muitos que, como eu, vivem longe de Pindorama, deixo o endereço de duas páginas, uma do Estadão e outra da Folha de SP. Primeiro leiam aqui, em seguida aqui. Depois conversamos.

.:oOo:.

Já leram? Agora estamos todos a par. Não tenho nenhum detalhe a acrescentar, não sei mais do que aquilo que os jornais publicaram. E já é o suficiente. Tivesse um figurão político sofrido um atentado, tivesse uma grande estrela do cinema caído no Vesúvio, tivesse nevado em Manaus, nenhum desses acontecimentos teria provocado o choque que essa notícia me assestou.

Imaginaram a cena? Cinco horas da madrugada, um jovem volta da balada ao volante de seu carro. Não se sabe ainda por que razão, atropela um operário que, de bicicleta, seguia para seu emprego. A vítima tem seu braço arrancado ― sim, extirpado, desarraigado, separado do corpo. O membro fica agarrado ao para-brisa do automóvel. O motorista não se detém para prestar socorro à vítima desmembrada.

E não é só. O jovem universitário ― universitário! ― continua seu caminho com o braço sanguinolento teimosamente colado ao vidro dianteiro. Não lhe passa pela cabeça que todo braço é irrigado por artérias e que a vítima, que naquele momento se esvazia de seu sangue, há de estar precisando de ajuda. Não lhe ocorre que uma chamada de emergência pode ser feita de seu próprio celular. Não se preocupa nosso universitário em ao menos devolver à vítima o braço decepado.

Quem conhece a cidade de São Paulo sabe que, da Avenida Paulista até a Avenida Ricardo Jaffet, vão bem uns 15 minutos. Quando o tráfego está livre, naturalmente. Portanto, afaste-se a ideia de uma reação tresloucada, impensada, tomada sob momentânea e violenta emoção. O que nosso universitário fez foi, como se diz, de caso pensado. Pensado, pesado e arquitetado. Teve um bom quarto de hora para sopesar o que tinha feito e o que se preparava a fazer.

E o que fez? Parou seu veículo às margens do riacho Ipiranga ― sim, exatamente aquele do Hino Nacional ―, atirou lá o membro decepado e foi-se embora tranquilo, na certeza de nunca ser desmascarado.

Neandertal

Sabe-se que, 50 mil anos atrás, os Neandertais já tinham assimilado a noção de solidariedade. Quando a doença, um acidente, a velhice impedia que um deles continuasse a dar sua contribuição ao grupo, os demais o amparavam e provinham ao seu sustento. É uma das características que marcam a diferença entre humanos e animais. Há que reconhecer que algum resquício troglodita ainda resiste nas profundezas da alma.

O que ocorreu na Avenida Paulista às 5h da manhã deste domingo é para mim mais chocante e mais preocupante que todos os arrastões que entopem as páginas policiais de nossos jornais.

Mais do que se preocupar com dividendos de um hipotético pré-sal ou com o resultado de futuras eleições, nossos mandachuvas deveriam tomar a temperatura do desastre que a impunidade crônica está preparando para os que comandarão o país dentro de 20 anos.

De minha parte, não posso fazer grande coisa além de apontar o que me parece errado. Que aqueles que detêm o poder cumpram seu dever e façam o necessário. E urgentemente. A quase garantia de impunidade tem de ser erradicada da paisagem tupiniquim. O Brasil tem de voltar a ser um país normal. A continuar como está, nossos netos voltarão ao estado selvagem.

As margens do Ipiranga, que um dia foram plácidas, estão tingidas de sangue. De sangue e de vergonha. De 1822 para cá, elas já se tinham habituado a receber poluição e detritos, mas não estavam preparadas para dar guarida ao produto de atrocidade tão covarde.

Arrastão europeu

José Horta Manzano

Imaginamos todos que arrastão seja exclusividade tupiniquim, coisa nossa, exclusividade nacional. Pois vou mostrar ao distinto leitor e à graciosa leitora que estão enganados.

A antiga arte da pirataria atingiu seu apogeu lá pelos anos 1700. Falo daquela de cinema, de espadachins com tapa-olho preto, daquela que nos inspirava temor, respeito e até ― convenhamos ― uma certa admiração. Essa, feliz ou infelizmente, acabTGV 1ou.

Nos tempos áureos, piratas eram aqueles que agiam por conta própria, empresários autônomos, como diríamos hoje. Já corsários obravam a mando e por conta de terceiros. O mandatário tanto podia ser o rei da Inglaterra, como o da França ou o mandachuva de outro lugar qualquer.

Um ponto comum unia os atacantes: sabiam o que buscavam. Coisa pouca não lhes interessava. Arriscavam pesado, mas, sabiam escolher o alvo. Se conseguissem vencer a batalha, a recompensa era garantida e farta.

Os tempos passaram. Ouro e pedras preciosas já não são transportados por via marítima. Hoje vão por avião e seguem percurso ultraprotegido, com escolta de agentes de óculos escuros e fones de ouvido, tudo vigiado por câmeras e snipers. Piratear avião para roubar-lhe o conteúdo? Podia ficar bem em filmes dos anos 70. Hoje, nem pensar.

Já vão longe os tempos de Ronald Biggs e seu milionário assalto ao trem pagador. Já vão longe? Talvez nem tanto…

Jornais da França informam que, talvez por não contarem com nenhuma Iemanjá a festejar, uns 30 pequenos delinquentes juvenis escolheram o dia 2 de fevereiro para assaltar um trem. Não um trem qualquer, faça-me o favor: um trem-bala. Sim, senhor.

Os membros da quadrilha mirim promoveram uma vaquinha, mas ela não deve ter rendido o suficiente para comprar bilhetes para todos. Tomaram, então, a decisão de não embarcar no trem como passageiros, mas de obrigá-lo a parar nalgum ponto do percurso.Capitão Gancho

Não foi difícil. Conseguiram lanternas vermelhas, do tipo utilizado pelas estradas de ferro francesas para assinalar perigo grave logo à frente. Instalaram as luzes ao longo da linha. Os maquinistas têm instrução categórica de imobilizar a composição à vista dessas lanternas. É sinal de emergência extrema.

Parado o trem, assim que os responsáveis pela segurança se deram conta de que não se tratava de acidente, mas de um assalto, acionaram o dispositivo que tranca imediatamente todas as portas dos vagões de passageiros. Por mais que o bando tenha tentado forçá-las, não tiveram sucesso. A invasão do trem-bala foi assim evitada. A polícia veio em seguida e carregou boa parte dos frustrados atacantes ao distrito.

Quem quiser conferir, leia aqui, aqui ou aqui.

Qualquer semelhança com um arrastão tupiquim não é simples coincidência. As mesmas causas costumam engendrar as mesmas consequências. A população das periferias francesas é frequentemente constituída de gente pouco instruída, de origem estrangeira, rejeitada pelo resto da população. Alguns de seus membros, mais ingênuos ou menos escrupulosos, acreditam que a violência seja o caminho mais rápido para obter o TGV 2dinheiro que lhes falta. E para adquirir os objetos que cobiçam.

Hoje há menos piratas pelo mundo. Mas que não se acanhem os novos capitães gancho, sejam eles franceses ou somalis. Caso um dia, apanhados, consigam escapar, nosso País não costuma negar asilo a fugitivos de Justiça. Se tiverem sido condenados, a acolhida será ainda mais efusiva. E se o crime tiver sido de sangue, terão direito a tapete vermelho e, quem sabe, até a um empreguinho público, uma sinecura qualquer.

Já faz tempo que nossas ‘otoridades’ perderam o senso da honra e do ridículo.

É sol, é sal, é sul!

José Horta Manzano

Muito melhor que eu, Everaldo José dos Santos conta a história da marchinha Allah-la-ô, gravada por Carlos Galhardo em 1941, nos tempos áureos do carnaval de rua.

Ao saber dos quase 41 graus registrados hoje no Rio de Janeiro, não pude deixar de me lembrar da composição de Haroldo Lobo e Nássara.

Crédito: Yann Arthus-Bertrand

Crédito: Yann Arthus-Bertrand

O calor tropical não devia ser muito mais suave que o de agora na então Capital Federal. Mas as praias eram menos frequentadas, o que certamente amenizava a temperatura. A coabitação era, digamos assim, menos íntima e o calor humano menos invadente.

Melhor que tudo: não havia arrastão!