Nomes delicados ‒ 2

José Horta Manzano

O Acordo(1) Ortográfico de 1943 estipulou que nomes geográficos cuja grafia já estivesse consagrada pela tradição podiam conservar a escrita antiga, ainda que contrariasse a norma. A concessão tinha endereço certo: visava a conservar a grafia de Bahia ‒ que, por sinal, é o único exemplo dado.

Outras localidades brasileiras entraram pela brecha. Entre elas, os municípios de Paraty, que se costuma escrever à antiga até hoje. Outro que se encaixou na exceção autorizada foi o município mineiro de Piũi, que aceitou perder o ípsilon final mas recusou o til em cima do u. Em vez do antigo Piumhy, grafa-se hoje Piumhi.

Ao topar com essa palavra, um estrangeiro não familiarizado com nossa escrita há de tropeçar na pronúncia. Aliás, até nós hesitamos. Imagino que, para não-iniciados, deva ser complicado decifrar Itaquaquecetuba, Pindamonhangaba e outras palavras cheias de letras. Cada língua tem seu espírito.

Na série de lugares com nome surpreendente a nossos ouvidos, aqui estão mais alguns exemplos curiosos.

ZORRA
Na província de Ontário (Canadá), encontra-se a pequena localidade de Zorra. O lugarejo, situado numa região eminentemente rural, oferece numerosas casas que se alugam para temporada. Diferentemente do que o nome sugere, Zorra e seus arredores tranquilos convidam ao sossego e ao descanso.

Imagem Google – clique para ampliar

PUTA
O Azerbaidjão, república que fez parte da antiga União Soviética, é um pequeno país à beira do Mar Cáspio. Encerra grandes reservas de petróleo. Nos arredores de Baku, a capital, está uma vilazinha chamada Puta. A região é extremamente árida e desprovida de cobertura vegetal.

Quando algum indivíduo originário do lugarejo se expatria, prefere ser considerado «filho do Azerbaidjão», evitando toda menção ao nome da vila onde nasceu.

CONDOM
Na bela Gasconha, região de vales e colinas do sul da França, está a cidadezinha de Condom, com sua majestosa igreja e suas ruelas medievais. Acontece que condom, em inglês e em outras línguas germânicas, é o nome que se dá ao preservativo.

Em folhetos destinados a turistas britânicos, vem sempre anotado que o nome do lugar não tem conotação erótica. Vem de Condatómagos, denominação dada há dois milênios pelos romanos. Com o tempo, evoluiu para Condatóm e acabou virando Condom. Uma atração turística do lugar é o Museu do Preservativo, criado há quase quinze anos.

UYUMBICHO
Nas cercanias de Quito, no Equador, está a aprazível cidadezinha de Uyumbicho, situada num vale verdejante e cercada de colinas suaves. Fica aqui nossa sugestão para que instalem um jardim zoológico. Levará, naturalmente, o nome da cidade: Jardim Zoológico Uyumbicho. Atrairá turistas e divisas. Garantido.

(1)«Acordo» não é nome adequado, dado que acordo não foi. Na verdade, a reforma de 1943 não foi adotada em Portugal nem nos demais países onde o português é língua oficial. Entrou em vigor apenas no Brasil. Portanto, não se deveria falar em acordo mas em reforma ou norma.

Nota
Este artigo foi amplamente inspirado num excelente blogue espanhol, o Fronteras Blog. Aqui fica meu agradecimento.

Europa: o esgotamento de um ciclo

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 29 abril 2017.

Nada é eterno. Tudo o que nasce acaba morrendo um dia. Humanos e suas criações seguem o mesmo caminho: só subsistirão enquanto fizer sentido. Todo efeito é consequência de uma causa. Desaparecida a causa, o efeito não tem como se sustentar.

Quando foi assinado, sessenta anos atrás, o Tratado de Roma aliava seis países europeus num mercado comum visto como antessala de futura união política. Dois motivos estavam na base da ideia. O primeiro deles era pôr freio a toda veleidade belicista alemã. Duas hecatombes provocadas por aquele país tinham incutido em todos a aversão a enfrentamentos. O segundo motivo vinha paradoxalmente do temor da própria Alemanha Federal de acabar desaparecendo. De fato, nos anos 1950, o grande receio era de que a Guerra Fria esquentasse de vez. Se acontecesse, a Alemanha, situada na linha de frente, seria a primeira vítima. Perigava ser engolfada no universo comunista e tornar-se satélite de Moscou. Obedecendo ao adágio que preconiza que a união faz a força, a Alemanha juntou-se aos vencedores da guerra e subscreveu o tratado.

O tempo passou. Como é natural, erros e acertos foram cometidos ao longo das décadas. Do lado bom, conflitos foram banidos e a Alemanha não foi anexada pela União Soviética. A economia europeia, o ponto mais bem sucedido do tratado, deu salto gigantesco. Tanto é que o Reino Unido, a princípio arredio, se candidatou e entrou para o clube. Com a queda de barreiras que emperram importação e exportação, as trocas comerciais entre parceiros prosperaram.

Por lástima, alguns poucos erros têm golpeado a associação de países. Um dos mais desastrosos foi pecado de vaidade. Esquecidos de que não convém juntar, debaixo do mesmo teto, nações em estágio civilizatório assimétrico, deram preferência à quantidade de membros em detrimento da qualidade e da homogeneidade. Permitir a entrada de países que ainda estavam na era do arado puxado a cavalo não foi boa ideia. Constata-se o resultado hoje. O princípio de livre circulação de pessoas permite que fortes contingentes de imigrantes se estabeleçam onde bem entenderem. Há países, como a Alemanha, onde essa mão de obra abundante e barata é necessária e bem-vinda. Em outros, no entanto, tal afluxo causa tensões e favorece a ascensão de líderes oportunistas que acabam sobressaindo à custa de chavões populistas. A característica maior do populista é sugerir soluções simples para problemas complexos. Designa-se um culpado ideal, um inimigo do povo, e pronto: atribuem-se-lhe os males nacionais.

O Brexit é exemplo típico do que acabo de afirmar. Durante anos, líderes populistas martelaram a ideia de que a criatividade nacional estava cerceada pela rigidez das regras comuns. O país seria mais livre fora da União. Disseram ainda que a vinda maciça de estrangeiros, cujo estereótipo é o «encanador polonês», estava contribuindo para o arrocho salarial, o aumento do desemprego e o empobrecimento dos nativos. Silenciaram sobre as vantagens que o pertencimento à União havia trazido ao Reino Unido. Deu no que deu: um plebiscito meio bobo determinou o abandono do navio. A União Europeia levou um baque, mas não um golpe mortal. Se a segunda economia do continente se vai, as outras permanecem. Por enquanto, ainda dá pra remendar.

by Yasar ‘Yasko’ Kemal Turan, desenhista turco

Agora, chegou a vez da França. Todos os olhos estão voltados para o segundo turno das presidenciais, marcadas para 7 de maio. Os finalistas são Monsieur Macron, europeu convicto, e Madame Le Pen, isolacionista e populista. Analistas estão convencidos de que uma eventual, ainda que improvável, vitória da candidata xenófoba ‒ que exige a saída da França da União ‒ precipitaria o desmonte da UE.

Concordo e vou além. Ainda que Madame Le Pen perca, a UE, tal como a conhecemos hoje, está com os dias contados. A vitória do candidato liberal pode garantir-lhe alguns anos de sobrevida, nada mais. Os jovens europeus, que não conheceram guerra, fome nem miséria, agem como se essas benesses fossem naturais e automáticas. Por ignorância, atribuem as mazelas à União. O fato é que os motivos que levaram à criação da União Europeia deixaram de existir. O ciclo já se esgotou e a Europa está na UTI. Como todos os acordos, pactos e tratados, este também está chegando ao fim. É pena, mas assim é a vida: tudo o que nasce acaba morrendo um dia.

Make America great again

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 28 jan° 2017

Todos entenderam que a desintegração da União Soviética, na última década do século 20, anunciava o fim do bilateralismo. De fato, o fracasso de setenta anos de coletivismo demonstrou que os trilhos do comunismo não serviam. O sistema implantado por Lenin e aperfeiçoado a ferro e a fogo por Stalin chegou ao apogeu ao derrotar a Alemanha nazista mas foi incapaz de trazer prosperidade e bem-estar ao próprio povo. Acabou apodrecendo sozinho, de dentro para fora, sem bomba, sem guerra, sem choro nem vela.

Durante os vinte anos seguintes, a hegemonia americana instalou-se soberana. Nenhuma potência lhe batia nos tornozelos. Tinha chegado ao primeiro lugar por mérito e também, sejamos francos, pelo fracasso do adversário. Quando o inimigo joga a toalha, o vencedor, ao sentir-se todo-poderoso, baixa a guarda e amolece. Foi o que aconteceu.

Poucos se deram conta de que a Rússia, empobrecida e com o orgulho ferido, não se havia resignado a assumir o rótulo humilhante de «nação emergente». Quem já foi rei não perde a majestade assim tão fácil. As portas se escancararam para a entrada em cena de um salvador da pátria. E ele surgiu de onde ninguém esperava.

bandeira-eua-2No caos que se seguiu à débâcle do império, uma oligarquia formada por um punhado de novos-ricos tomou o lugar da antiga «nomenklatura». O grupo decidiu entregar as rédeas do país a um obscuro funcionário de carreira, na certeza de que, por detrás do pano, continuariam a dar as cartas. Erro fatal. Pinocchio, Dilma e tantos outros demonstram que esse tipo de acerto costuma falhar. Falhou.

Em quinze anos, Vladimir Putin botou pra correr a turma de padrinhos e, com mão de ferro, instalou-se no comando. Um pouco por sorte, um pouco por se ter rodeado de gente competente, conseguiu elevar espetacularmente o nível de vida do povo. Sua popularidade, já nas alturas, continua subindo. A prosperidade do país permitiu-lhe quintuplicar o orçamento militar. Sem estardalhaço, a Rússia voltou a meter medo. Retomou a Crimeia, considerada desde sempre como território nacional. Apossou-se de facto da região oriental da Ucrânia. De olho na base naval que detém em território sírio, não hesitou em apoiar o ditador do país, com o objetivo de conservar as preciosas instalações militares.

Por seu lado, a China encontrou em Xi Jinping o homem forte que lhe faltava. Sereno, mas firme e esperto, o mandatário entendeu que seu país tem tudo a ganhar com a nova paisagem multilateral. Menos belicosos que os vizinhos russos, os governantes de Pequim dão prioridade ao poderio comercial. Cada vez mais, capitais chineses se apoderam de marcas tradicionais, fato que passa batido para a maioria.

E os Estados Unidos, como ficam nestes tempos de transição? Têm ainda, ninguém duvida, o maior mercado e o mais forte poderio bélico do planeta. Mas a assunção de Donald Trump à Casa Branca, contrariando as aparências, ameaça esse predomínio. Sua campanha baseou-se no lema «Make America great again». (Repare o distinto leitor que, num lapsus linguæ, o «again» traz embutida a ideia de que o país já deixou de ser grande.)

bandeira-eua-2Em si, a ideia até que faz sentido: todo mandatário tem obrigação de aprimorar o desempenho do país e a prosperidade da população. O problema é o caminho escolhido: um agourento isolacionismo. Num mundo que tende à multipolaridade, construir muros e romper tratados de comércio internacional não é a melhor maneira de evoluir. Eliminar a versão castelhana do site da Casa Branca, então, é recuo infausto que demonstra estreiteza cultural. «Cê é grande, mas cê não é dois» ‒ responde a sabedoria popular às ameaças do valentão. Deslumbrado com o próprio umbigo, o presidente narcisista não se dá conta de que o mundo gira e o país vai acabar ficando pra trás.

A árvore plantada pelo ingênuo e parlapatão presidente dos EUA não dará os frutos que ele espera. Não tendo entendido como funciona o frágil e sutil equilíbrio entre as nações, optou por entrar de sola, como elefante em loja de cristais. Se for realmente rico como diz ser, deve saber que dinheiro é imune a patriotismo. Caso se sintam incomodados, os grandes capitais de que seu país dispõe não hesitarão em procurar portos mais seguros. E aquele que prometeu fazer «America great again» periga armar um desastre. A continuar por essa vereda, quando se apagarem as luzes do mandato, sua «America» vai estar «smaller» ‒ apequenada.

Desalinhados

José Horta Manzano

Você sabia?

No começo dos anos 1960, a Guerra Fria comia solta. O mundo, inquieto, temia que, a qualquer momento, a guerra esquentasse. Já à época, as duas superpotências ‒ EUA e União Soviética ‒ tinham arsenal nuclear capaz de aniquilar a humanidade. Vivia-se em tensão permanente.

Alguns países de importância secundária, na intenção de mostrar-se independentes tanto do bloco americano quanto do soviético, agruparam-se. Com o incentivo do Egito de Nasser, da Iugoslávia de Tito e da Índia de Nehru, dezenas de países médios e pequenos juntaram-se ao Movimento dos Não-Alinhados.

Não é fácil conciliar interesses de países díspares e espalhados pelo planeta. O objetivo do grupo nunca foi muito claro. Por exemplo, Cuba, membro fundador, embora se declarasse “não-alinhado”, estava visceralmente ligado ao bloco comunista, liderado pela União Soviética.

Nasser (Egito), Nehru (Índia) e Tito (Iugoslávia) Mentores do Movimento dos Não-Alinhados, 1961

Nasser (Egito), Nehru (Índia) e Tito (Iugoslávia)
Mentores do Movimento dos Não-Alinhados, 1961

Os países africanos, que acabavam de conquistar independência, entraram quase todos para o Movimento. Como a Cuba dos Castros, a maioria deles estava alinhadíssima com a URSS, ainda que alguns mostrassem simpatia pelo bloco ocidental. Resumindo, grande parte dos membros era constituída de não-alinhados pero no mucho.

Com a queda do Muro de Berlim e o desaparecimento da União Soviética, o Movimento dos Não-Alinhados perdeu a razão de existir. No entanto, por razões que a razão nem sempre explica, não foi dissolvido. Continua, firme e forte, a organizar cúpulas a cada dois, três ou quatro anos. Os interesses dos membros continuam tão divergentes como sempre foram, mas… quem se importa com esse detalhe?

Registre-se que o único país europeu a participar do Movimento é a Bielorrúsia. Quanto aos países ibero-americanos, vários integram o grupo com a notável exceção das três maiores economias: Brasil, México e Argentina. Praticamente todos os africanos são membros. Os grandes deste mundo (EUA, China, Japão, União Europeia, Rússia) não participam da encenação.

Nicolas Maduro by Darío Castillejos, desenhista mexicano

Nicolas Maduro
by Darío Castillejos, desenhista mexicano

Que discutem nas reuniões? Que resoluções tomam? Que ideologia seguem? Difícil dizer. Quando se juntam visões de mundo heterogêneas ‒ Timor Leste, Paquistão, Burundi, Equador, Afeganistão, Suriname ‒ entre dezenas de outros ‒ é complicado chegar a alguma espécie de consenso.

Mas a vida segue e o Movimento dos Não-Alinhados sobrevive. A Venezuela, mergulhada no caos político e econômico, está recebendo a reunião de cúpula de 2016 do clube dos não-alinhados.

Que um país que não consegue alimentar o próprio povo acolha autoridades de mais de cem países ‒ sem contar as respectivas comitivas ‒ é decisão singular. O tiranete Nicolás Maduro há de ter esperança de que a festa distraia, por um momento, o ronco das barrigas vazias dos infelizes venezuelanos.

Criar novo

José Horta Manzano

Blabla 6O Lula discursou nesta segunda-feira em seu comitê, aquele escritório político curiosamente chamado de instituto. Não fosse o homem um personagem sabidamente esperto, a gente ficaria com a impressão de que ensandeceu, pirou de vez. Atenção ao adjetivo: eu não disse culto nem inteligente, mas esperto.

«Estamos querendo salvar nossa pele e nossos cargos ou criar um novo projeto?» foi a frase emblemática que pronunciou. Pra não complicar, vamos deixar barato o pleonástico «criar novo projeto» – quem conseguiria criar um velho projeto, não é mesmo? Isso dito, a resposta à pergunta do discursante é mais que evidente: estão, sim, todos empenhados em salvar a pele e os cargos.

Blabla 4Projeto? Se em algum momento o tiveram, foi enterrado no exato dia em que, com vista à eleição presidencial, nosso guia assinou a Carta aos Brasileiros. O documento despejava uma pá de cal sobre o ideal que, por mais de vinte anos, havia norteado o partido. Sem choro, nem vela.

Alcançada a presidência, ele e os seus deram adeus definitivo aos princípios, à ética, ao comedimento, à fidelidade, à virtude. Que não nos venha agora com esse ar estupefato de quem não entende o que está acontecendo. O homem sabe muito bem. Afinal, a guinada não ocorreu ao tempo dos sumérios, mas apenas uma dúzia de anos atrás. E o instigador é o próprio, exatamente esse que hoje se surpreende com as consequências dos próprios atos.

Blabla 5Analisando mais atentamente a fala do Lula, vê-se que ele confessou, sem se dar conta, que o «projeto», fosse qual fosse, fracassou. Conclamar correligionários para «criar novo» significa que o antigo não deu certo. Ou não?

Blabla 2Nosso demiurgo orgulha-se de nunca ter lido um livro sequer. Em virtude dessa lacuna, não deve saber que, antes dele, outros já tentaram erguer casa nova sobre alicerces podres. Tivesse usado parte de seu tempo para se instruir, saberia que é obra impossível.

Os cem dias de Napoleão, durante os quais o imperador caído tentou reconstruir a glória estilhaçada, se extinguiram na derrota melancólica de Waterloo. A Comunidade de Estados Independentes, erigida sobre as cinzas da União Soviética, gorou: teve duração efêmera e se desmanchou no ar. A história está repleta de exemplos do mesmo naipe.

Blabla 7O melhor que nosso guia poderia fazer é sair de cena. Com o dinheiro que tem e os ricos amigos que lhe restam, não terá dificuldade em levar vida de luxo e opulência nalgum paraíso tropical.

Quanto menos aparecer, melhor será. Para ele e para todos nós. Que siga o exemplo daquele aliado que ele qualificou de homem incomum. Quem? Ora, distinto leitor, falo do senhor Sarney.

Desde que o maranhense se afastou da política, sumiu do radar. Vive tranquilo, sem risco de ser alvo de condução coercitiva a Curitiba.

Quem avisa amigo é.

Até o Vietnã!

José Horta Manzano

Você sabia?

Vietnam 2Em superfície, o pequeno Vietnã, situado na península indochinesa, é o 64° entre os países. Para compensar, é densamente povoado. Com seus quase 90 milhões de habitantes, aparece classificado em 14° lugar.

Em meados do século 19, a França tomou conta da região e fez dela a colônia conhecida como Cochinchina(1). À custa de mais de 20 anos de luta, o território conseguiu se livrar dos franceses. Os acordos de independência foram assinados em 1954.

O sossego não teve vida longa. Dez anos depois, o país foi invadido pelos americanos, que tinham por objetivo barrar a ameaça comunista vinda da vizinha China. A guerra foi terrível e desigual. De um lado, estava o exército mais poderoso do planeta; do outro, viam-se combatentes de pés descalços.

É verdade que a China e a União Soviética deram sólido apoio. Mas há que se reconhecer o valor dos pequenos vietnamitas. Acabaram despachando os americanos de volta pra casa. A briga entrou para a história como a única guerra oficialmente perdida pelos EUA. Uma façanha!

Do país destroçado de quarenta anos atrás, surgiu um novo Vietnã à força de muito trabalho. Turismo, exportação de peixes, de crustáceos, de café e de outros produtos agrícolas formam hoje a base da receita. Já faz anos que o crescimento do PIB é superior a 5% ao ano.

Artigo do portal VietnamPlus de 4 jan° 2015 informa que o comércio com o Brasil movimentou 3 bilhões de dólares nos 11 primeiros meses de 2014. Prevê-se forte aumento para estes próximos anos.

O Vietnã exporta manufaturados ao Brasil: telefones celulares, fibras artificiais, sapatos, sandálias(!). Nossas exportações para aquele país constituem-se, essencialmente, de produtos agrícolas: milho, soja, tabaco, algodão.

Vietnã – arrozais escalonados nas montanhas do norte (arroz de banhado)

Vietnã – arrozais escalonados nas montanhas do norte
(arroz de banhado)

Parece-me paradoxal que um país com importante parque industrial como o Brasil tenha de importar celulares, sapatos e sandálias(!) do Vietnã. Parece que o mundo está de cabeça pra baixo. Nós é que deveríamos estar exportando esses produtos para eles.

Por que é que, em vez de saquear a Petrobrás, nossos governantes não se preocupam em apoiar e fomentar a pequena indústria brasileira? Por outro lado, como é possível que os mesmos elementos(2) continuem sendo sufragados, eleição após eleição? Será que a casa não vai cair um dia?

(1) Atenção! Não é Conchinchina. É Cochinchina – a letra o não é nasalizada. Pronuncia-se como se fosse Co-chinchina.
(2) No jargão policial, meliantes costumam ser designados como
elementos.

Qui nome qué?

José Horta Manzano

Urna 7Uma das afiliadas ao Partido Comunista do Brasil, atualmente cumprindo mandato de deputada federal, está cotada para dirigir o Ministério da Cultura. Nada menos que isso.

A moça já foi prefeita de Olinda. Sua maior qualidade – salientada pelo Estadão – é ser próxima de ambas as cabeças da hidra bicéfala que encarna nosso Executivo. Trocando em miúdos: é vista com bons olhos por dona Dilma e por nosso guia.

Das dezenas de siglas que compõem a aquarela de nosso sistema partidário, o(s) partido(s) comunista(s) são, em teoria, os que contam com alicerce ideológico mais profundo. Em teoria, continuam aferrados à doutrina que, posta em prática por Lênin, terminou no desastre que vimos.

Manif 10Na ideologia comunista, «cultura» é termo dúbio, perigoso, ambíguo – um quase tabuísmo. Cultura é bom na medida que se encaixa nas diretrizes do partidão. Nada de arte degenerada, nada de peças, espetáculos, livros, novelas ou filmes que possam trazer embutida alguma crítica ao regime. Nem a mais leve desviação será tolerada. A censura é fortemente recomendada.

Que nosso Ministério do Esporte tenha estado, estes últimos anos, nas mãos de um nostálgico do paraíso soviético é compreensível. A exaltação da excelência física foi (e continua sendo) característica de regimes autoritários. Em competições olímpicas, a antiga União Soviética era páreo duro. É verdade que, no Brasil, a gestão do ministro comunista foi pífia. A culpa há de ter sido dos loiros de olhos azuis. Que fazer?

Já entregar as rédeas da cultura nacional a um membro de carteirinha do partidão parece-me temeridade. Se a ministra se encasquetar em impor o pensamento único, pode dar um angu danado. A não ser…

… a não ser que as siglas já não signifiquem mais nada. Pensando bem, acho que é isso mesmo.

Partido 1Faz tempo que o Partido dos Trabalhadores abandonou os trabalhadores para dar prioridade aos milionários. O Partido Progressista, bem mais conservador do que seu nome indica, congrega alguns dos milionários mais contestados do país: o Maluf à frente de todos. E por aí vai.

Desconfio que o partido comunista não fuja à regra. De comunista, só tem o nome. Essa insignificância da denominação de fachada de nossos partidos me lembra historinha antiga.

Interligne vertical 7Ao pedir ao cliente que escolhesse a cor da mercadoria, o caipira perguntou:
«Di qui cô qué?»

E o freguês:
«Di caqué cô.»

Vale transpor ao sistema político brasileiro. Na hora de escolher o nome do partido, fica assim:

Interligne vertical 7«Qui nome vai?»
«Caqué um, uai!»

Proponho que o nome de agremiações políticas seja abolido. Que se passe a conhecê-las unicamente pelo número. É mais que suficiente. Sou do 37. Só voto no 59. Prefiro o 83. Que tal?

Brasil salva indústria sueca

José Horta Manzano

Quando o eclesiástico sueco Jacob Wallberg (1746-1778) alterou o sobrenome para Wallenberg, não imaginava que, dois séculos mais tarde, seus descendentes formariam a família mais rica e poderosa do país.

Avião 6Calcula-se que, faz vinte anos, no apogeu de sua influência, os descendentes do patriarca controlavam, direta ou indiretamente, um terço do PIB nacional. A dinastia está presente na banca e na indústria. Os interesses do conglomerado se estendem a grande parte dos grupos industriais suecos: Ericsson, SKF, Scania, Electrolux, Saab.

A Saab tem investido soma elevada na concepção e no desenvolvimento de um avião de caça de última geração, mas sua construção em série dependia de encomenda internacional. Dois países se interessaram pelo novo modelo. A Suíça precisava de 22 unidades e o Brasil gostaria de adquirir 36 aparelhos.

Compra de 22 caças Gripen Plebiscito suíço de 18 maio 2014

Compra de 22 caças Gripen
Voto do povo suíço, 18 maio 2014

Na Suíça, decisões de tal importância não costumam ser resolvidas por uma canetada do presidente. O povo foi consultado. As urnas, impiedosas, trouxeram a resposta: a compra foi recusada. Os eleitores, por maioria de 53,4%, consideraram que não valia a pena gastar tanto dinheiro. Depois do desaparecimento da União Soviética, o espantalho de uma invasão vermelha desbotou.

No Brasil, as coisas não funcionam assim. Uma pessoa sozinha(!) pode tomar decisões que afetam a segurança e as finanças do Estado. Pode passar por cima do parecer das Forças Armadas e do Congresso. O Lula, quando presidente, garantiu a Monsieur Sarkozy que compraria aviões franceses. O tempo passou, e nosso fiel presidente, em meio a tantos afazeres, há de ter esquecido a promessa.

Avião 4Sobrou para a sucessora que, anos mais tarde, deu a decisão. O Brasil vai comprar seus 36 aviões da firma Saab. Marcus Wallenberg, membro do clã bilionário, é presidente e grande acionista do construtor aeronáutico sueco. Estes dias, lançou comunicado à imprensa informando que o grupo industrial se orgulha de «caminhar lado a lado com o Brasil» no importante programa de construção de 36 caças Gripen NG. No fragor da campanha eleitoral, a informação passou silenciosa.

O valor anunciado da transação é de 39,3 bilhões de coroas suecas, algo em torno de 5,4 bilhões de dólares (R$ 13,75 bilhões). Dá uns vinte porcento a mais do que tinha sido noticiado faz alguns meses. Deve ser por causa da inflação sueca.

Interligne 18h

PS: A inflação anual sueca em 2013 foi de 0.14%. Yes, taxa anual.

Ser grandão tem suas vantagens

José Horta Manzano

Dizem que o Brasil não é para principiantes. É verdade, mas não é o único país nessa categoria. Outros lugares do planeta também são bastante complicados. Quando se espatifou, a URSS deixou despojos. São terreno minado.

Durante os 70 anos que durou a União Soviética, as quinze repúblicas que a constituíam eram pouco mais que mera formalidade. Com o esfacelamento do império, fronteiras internas tornaram-se fronteiras internacionais. Isso trouxe tensões.

Localizado no Casaquistão, o centro russo de lançamento espacial de Baikonur se encontrou, da noite para o dia, em território estrangeiro. Mas o Casaquistão, país pobre e encravado no centro da Ásia, é totalmente dependente da Rússia. Um acordo entre Moscou e Astana foi logo encontrado.

Povoada por esmagadora maioria de russofalantes, a Crimeia tinha sido atribuída em 1954, por razões burocráticas, à Ucrânia. Na época, a cessão territorial se resumira a simples canetada. Boa parte da frota de guerra russa está baseada ali, mas, enquanto faziam todos parte da URSS, isso não incomodava ninguém.

O esfacelamento do império russo fez que a marinha de guerra se encontrasse ancorada em país estrangeiro. Um problemão. Os ucranianos do oeste, em maioria de língua materna ucraniana, adorariam unir-se à União Europeia e desligar-se definitivamente da tutela de Moscou. Já os ucranianos do leste, russofalantes, ficariam felizes se pudessem reintegrar a pátria mãe e tornar-se independentes de Kiev.

A Crimeia era importante demais para Moscou. Quando as ambições de Kiev começaram a se tornar muito nítidas, os russos organizaram um plebiscito e, em três tempos, se apossaram da península. Com toda a frota, naturalmente. E não se fala mais nisso. Já no leste russofalante da Ucrânia, a briga é mais complexa. O território é vasto. E a maioria de origem russa não é tão esmagadora quanto na Crimeia ― boa parte da população é constituída de ucranianos.

Crédito: Cosmovisions.com

Crédito: Cosmovisions.com

O resultado é o que vemos atualmente. Tanques de guerra, bandeiras arriadas e substituídas por outras, guerrilha urbana, ataque a avião civil. As democracias tradicionais (Europa, América do Norte, antigas colônias britânicas) impuseram sanções comerciais à Rússia. Dizem que é para castigá-la por estar fornecendo armas aos rebeldes ucranianos. Em represália, Moscou anunciou que está estudando proibir o sobrevoo de seu território a aviões matriculados em países que estiverem aplicando as sanções. Parece bobagem, mas, se a ameaça for levada a efeito, vai causar um senhor problema.

Praticamente todos os aviões que saem da Europa em direção ao Extremo Oriente sobrevoam território russo. Muitos dos voos que seguem da América do Norte à China ou ao Extremo Oriente utilizam rota que corta caminho pelo espaço aéreo russo.

Não acredito que Moscou ponha em prática essa proibição. Se o fizer, vai criar um enorme quebra-cabeça para viajantes, companhias aéreas, aeroportos, controladores de voo, horários, conexões. Toda a logística terá de ser revista. Vai ser um pandemônio.

Com seu território superlativo, equivalente ao dobro da superfície do Brasil, a Rússia demonstra que ser grandão tem suas vantagens, sim, senhor.

Daqui ninguém me tira

José Horta Manzano

A Rússia é o maior país do planeta. Sua superfície equivale a dois Brasis. Com tanto espaço para população relativamente pequena ― de uns 140 milhões de habitantes ― convém perguntar por que razão se batem pela Crimeia.

Por que fazem tanta questão de conservar um território exíguo, do tamanho do pequenino Estado das Alagoas? Seriam os russos gananciosos a ponto de tomarem à força um pedaço de terra estrangeira, assim, sem mais nem menos, pelo prazer de aumentar seu próprio território? Que diferença faz acrescentar 27 mil km2 a um país que já dispõe de 17 milhões de km2? A Crimeia, afinal, não tem petróleo, nem ouro, nem urânio.

O buraco é mais profundo. Por grande que seja, a Rússia tem um problema antigo de difícil solução: seu imenso território é encravado, a porta de saída é estreita. Com exceção de alguns trechos, suas costas estão expostas a mares frios, daqueles que congelam no inverno e dificultam ou impedem a navegação.

Faz séculos que o governo russo tenta por todas as maneiras estender suas costas a águas mais clementes. Cada quilômetro de beira-mar livre de gelo agregada ao território representa uma vitória.

O avanço em direção ao sul é o objetivo maior do Estado russo. Em todas as guerras que o país travou, o butim mais significativo foi sempre a conquista de mais uma franja de costa. Foi o que aconteceu ao final da Guerra Russo-Finlandesa e da Segunda Guerra Mundial. Cada uma delas aumentou a exposição do país a mares temperados.

Rússia e península da Crimeia

Rússia e península da Crimeia

Pois a Crimeia entra nessa linha. Banhada pelo Mar Negro, situada a uma latitude de 45 graus, tem suas costas livres de gelo o ano inteiro. Do ponto de vista estratégico, é uma das joias da coroa. Para Moscou, aquela peninsulazinha vale ouro.

De qualquer maneira, era território russo até 1954, quando foi atribuída à Ucrânia por decisão burocrática tomada em Moscou. Na época, como a Rússia e a Ucrânia faziam parte da União Soviética, essa redefinição de fronteiras internas não trazia consequência. Hoje não é mais assim. Mas frise-se que a população daquele território ainda é majoritariamente de origem e de língua russa.

Os EUA e a UE podem reclamar, ameaçar, espernear ― não vai adiantar. Exagerando nas tintas, eu diria que é mais fácil os russos entregarem um pedaço da Sibéria que a Crimeia. Os estrategistas do mundo inteiro sabem disso. O que se vê estes dias não passa de jogo de cena. A Rússia lá está e lá continuará «duela a quién duela». (*)

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(*) Nota em atenção aos mais jovens
Em 1992, quando de uma entrevista à televisão argentina, Collor de Mello ― então presidente do Brasil ― soltou uma joia de puro portuñol. Querendo afirmar que todos os corruptos seriam desmascarados e punidos, traduziu ao pé da letra nossa expressão “doa a quem doer”. Ficou incompreensível para ouvidos castelhanos. Foi um desastre.

Do Brasil para o mundo!

José Horta Manzano

Você sabia?

No Brasil e da maioria dos países americanos, o papel da rádio-televisão estatal é secundário. No Brasil, especialmente, a radiodifusão pública resume-se a meia dúzia de estações de cunho eminentemente local.

Assim ficou definido desde que surgiram as primeiras emissões de rádio, pelo final dos anos 20. Na Europa, o Estado assumiu essa responsabilidade e, durante meio século, guardou o privilégio exclusivamente para si. Até os anos 70, praticamente não havia estações comerciais no continente. Nem de rádio, nem de televisão.

De uns 30 ou 40 anos para cá, a situação se afrouxou. Centenas de estações surgiram. Mas uma prática subsiste: a cobrança da taxa de rádio e tevê. De cada possuidor de aparelho de rádio ou de televisão é cobrada uma taxa anual. Na origem, esses recursos serviam para financiar os programas da rádio e da televisão públicas, dado que nenhuma publicidade era difundida.

Os tempos foram mudando, a publicidade foi-se insinuando aos poucos, mas a taxa continua de pé. Por quanto tempo ainda, não se sabe. Na verdade, o celular é hoje capaz de captar, via internet, programas de rádio e de tevê. No entanto, seus possuidores não são sujeitos à taxa de difusão. Como é que vai ficar no futuro? Quem viver verá.

Televisão ― o começo

Televisão ― o começo

Na Europa, o fato de as transmissões radiofônicas terem sido asseguradas durante meio século pelo Estado trouxe uma consequência desconhecida no Brasil. O Estado tornou-se responsável pelo alcance, pela qualidade e pela diversidade de suas emissões. A não necessidade de buscar recursos publicitários deu ensejo a uma diversificação de programas desconhecida na Terra de Santa Cruz. Alguns canais da televisão pública podem se permitir levar ao ar rodas literárias, debates filosóficos ou documentários científicos em horário nobre.

Outra consequência de a rádio e a televisão terem sido confiadas ao Estado foi a criação de canais especificamente voltados para projetar a imagem nacional além-fronteiras. Desde os tempos pré-históricos das ondas curtas, grandes países se esforçaram de propagar sua voz. Era o caso do Reino Unido, da antiga União Soviética, da França.

Hoje em dia, com uma simples parabólica ― às vezes até sem ela ― qualquer um pode acompanhar programas de rádio e televisão emitidos pelas empresas públicas dos grandes países e também de países médios e pequenos, como Portugal, Espanha, Suíça, Bulgária, Dinamarca, Itália, Áustria. Até países exóticos têm emissoras ― em diversas línguas ― que dão ao país uma importância que ele nem sempre tem. O exemplo maior é Al-Jazeera, do Catar.

O Brasil conta hoje com muitos cidadãos vivendo fora de suas fronteiras. Embora ninguém conheça o número exato de indivíduos, estimativas chegam a falar em 3 milhões. É um bocado de gente. Se uma organização estatal e forte antes não fazia falta, agora faz. Não há quem garanta aos expatriados a ligação rádio-televisiva com a terra natal.

Na Europa Central, nenhuma emissora de rádio brasileira está disponível por satélite. Quanto à televisão, apenas duas emissoras comerciais podem ser captadas. O pacote básico da tevê a cabo inclui uma estação brasileira de cunho religioso, daquelas que transmitem novelas entremeadas de proselitismo neopentecostal. A maior emissora de televisão brasileira também está disponível, mas… só para quem estiver disposto a pagar. Na Suíça, a assinatura sai por 42 dólares mensais, mais de 500 por ano (pra lá de 1100 reais). Precisa ser fanático por novela. Quanto ao rádio, nada ― nem de graça, nem pagando.

Organizações estatais de rádio e televisão

Organizações estatais de rádio e televisão

É pena que assim seja. Quem sabe um dia destes, lá em Brasília, alguém acorda. Acho difícil. Os brasileiros são pouco voltados para o exterior. Muitos imaginam que o mundo começa e termina dentro das fronteiras nacionais.

O Brasil conta com uma esquálida organização estatal de comunicação, é verdade. Mas toda tentativa de vitaminá-la tem esbarrado na confusão entre Estado e governo. Os brasileiros do exterior gostariam de sentir a presença da terra de origem. Dispensam autolouvação do governo de turno. Muito obrigado.

V como Velocidade

José Horta Manzano

Sigismeno é boa gente, mas meio bobão. Embora seja muito aplicado, atencioso e curioso, a compreensão de certas coisas lhe escapa. Para compensar, o que lhe falta de cultura sobra-lhe de boa vontade. É um tipo agradável.

Hoje, logo de manhã, leu uma chamada do Estadão online que lhe deu nó nos miolos. A manchete associa o nome de Ayrton Senna ― o símbolo de um Brasil veloz e triunfante ― a um reles congestionamento de tráfego, símbolo de um Brasil lento e descrente.

Eu lhe expliquei que, assim que o glorioso campeão de velocidade sobre quatro rodas desapareceu num trágico acidente, seu nome havia sido dado à antiga Rodovia dos Trabalhadores. A intenção, naturalmente, era ligar o nome do corredor a uma estrada por onde se costumava transitar em alta velocidade.

Sigismeno, que não sabia disso, olhou-me muito espantado. Ele me perguntou por que tinham «desomenageado» (não reparem, Sigismeno inventa neologismos de vez em quando) todos os trabalhadores para homenagear um só. Quis saber se uma só figura podia ser mais importante que todos os outros reunidos. Fiquei sem saber responder.

Chamada do Estadão de 29 nov° 2013

Chamada do Estadão de 29 nov° 2013

Refletindo um pouco mais sobre o caso, concluí que realmente não faz sentido, numa cidade que se expande a cada dia, dar preferência a desnomear logradouros tradicionais para honrar novos ídolos. Teria sido tão mais simples dar o nome do campeão a, digamos, um novo bairro. Um bairro inteiro!

Além de não desonrar todos os trabalhadores do Brasil, traria vantagem adicional: afastaria o vexame de ligar o nome de Senna ao de um congestionamento de tráfego.

É comum e compreensível banir estátuas e homenagens a heróis caídos em desgraça. Na antiga União Soviética, estátuas de Stalin desapareceram. Naquele país, até uma cidade mudou de nome: Leningrado recuperou seu primitivo nome de São Petersburgo. No Iraque, a imensa escultura representando Saddam foi posta abaixo. Na própria cidade de São Paulo, logo em seguida à implantação do regime republicano, a Rua da Imperatriz virou 15 de novembro, enquanto a Rua do Príncipe tornou-se Quintino Bocaiuva.

Já faz quase 20 anos que a estrada mudou de nome. Mas só hoje Sigismeno se deu conta disso. Ficou deveras chocado com a confiscação do nome antigo, perpetrada em detrimento de todos os trabalhadores. Há de ser para confirmar a tradicional máxima: rei morto, rei posto. Mesmo assim, não faz sentido. Trabalhador nunca foi rei no Brasil.

Se Sigismeno chegar a alguma conclusão, eu lhe conto.

Eu espio, tu espias, ele espia

José Horta Manzano

De certas coisas, mais vale não falar. Não se pode dizer tudo o que se pensa. Não se pode fazer tudo o que se quer. Não se pode ficar sabendo de tudo o que se passa. O mundo é assim, sempre foi, e assim há de continuar. Cada macaco no seu galho.

Todos os suíços sabem que suas montanhas lembram queijo Emmenthal. São todas cheias de furos, de túneis, de cavernas, de depósitos de munição, de bunkers, de sofisticados sistemas de ventilação, de importante estoque de víveres, de geradores de energia, de postos de comando dotados de sofisticada eletrônica. Parece que até baterias antiaéreas, tanques de guerra e aviões estão armazenados em galerias escavadas. Esses refúgios, que existem há séculos, estão previstos para abrigar, em caso de guerra, o governo e as personalidades que conduzem o país.

Antena Crédito: Riccardo Umato

Antena
Crédito: Riccardo Umato

Devem servir também como reserva de alimentos para a população em caso de bloqueio do país. Todos sabem da existência dessas instalações, mas muito poucos estão a par dos detalhes. Uma meia dúzia de oficiais de alta patente, ninguém mais. Não faria sentido anunciar aos quatro ventos a localização, o conteúdo e a função de cada esconderijo. Não ajudaria ninguém e, pior, daria preciosas informações a eventuais adversários.

Por definição, o que é secreto não deveria ser comunicado ao distinto público, muito menos publicado em jornal. É o caso das atividades ligadas aos serviços de inteligência. Nesse campo, toda discrição é pouca. Se assim não for, não faz sentido. Um serviço secreto aberto à curiosidade pública não tem razão de ser.

Essa CPI da espionagem, a meu ver, não deveria nem ser cogitada, que é vespeiro peçonhento. Furiosa da vida quando se soube espionada, dona Dilma reagiu como criança mimada: melindrou-se e acabou dando mais uma prova de sua inexperiência. Armou um fuzuê, desperdiçou a deferência especial de ser a primeira a discursar na abertura anual dos trabalhos da ONU, esperneou, procurou juntar aliados, perturbou relações bilaterais entre o Brasil e os Estados Unidos. Tudo isso para um resultado nulo.

Estes últimos dias, chegou a vez de nossa despreparada presidente engolir sapinhos. O anúncio de que nossos serviços de inteligência também espionam invalida todo o esperneio destas últimas semanas. Ou dona Dilma sabia de tudo ― nesse caso, tem simplesmente mentido e feito jogo de cena. Ou dona Dilma não sabia de nada ― nesse caso atesta sua inaptidão para exercer as funções que lhe foram confiadas.

Jornais ― e até a própria chapa-branquíssima Agência Brasil ― informaram estes dias que países estrangeiros dispõem de centenas de antenas de comunicação instaladas em território brasileiro. Quatro países estão mencionados: EUA, França, Chile e… Romênia. Só esta última conta com 20 antenas próprias plantadas legalmente em território brasileiro! Datam da época soviética?

Eu confesso que não sabia disso. Mas tenho uma desculpa: não sou presidente da República. O ocupante do cargo maior dispõe de assessores, informantes, secretários, assistentes, ministros, comissários, enfim, gente paga para mostrar-lhe o caminho das pedras. Ou a equipe de dona Dilma é constituída de incapazes, ou a presidente não lhes dá ouvidos. Tenho tendência a dar mais crédito à primeira hipótese.

Antena

Antena

Falou-se de antenas instaladas por quatro países. E os outros? Rússia, Reino Unido, China, Alemanha, Japão, Venezuela, Argentina como fazem para se informar? Escutam A Voz do Brasil ou o Jornal Nacional?

Faltou ainda mais um capítulo. O Brasil também há de ter antenas plantadas em território alheio, pois não? Quantas são? Onde estão? Para que servem?

Se os responsáveis não acharam útil informar nem a presidência da República ― que parece cair das nuvens com a descoberta ―, não é a nós, meros mortais, que grandes revelações serão feitas.

E está muito bem assim. Serviços secretos não têm vocação para trabalhar abertamente, muito menos para conceder entrevistas coletivas. Deixemos que cumpram sua missão tranquilamente.

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Informações repercutidas por:
Agência Brasil
Estadão
Blog Link, alojado no Estadão

O 13 de maio às avessas

José Horta Manzano

Sob forte pressão das potências da época, o Brasil foi praticamente forçado a abolir a escravidão. O século das luzes, os anos 1700, já havia despertado no mundo europeu uma nova reflexão sobre o assunto.

O fato de um indivíduo ser automaticamente condenado a uma vida de escravidão unicamente por pertencer a determinada raça começou a incomodar. O que antes parecia fazer parte da ordem natural das coisas passou a ser questionado.

A Revolução Francesa acelerou a reflexão. «Se, depois de lutar tanto, conseguimos nos desvencilhar de nossos senhores, não faz sentido mantermos outros estratos de população sob regime forçado de trabalho» ― foi o que pensaram as mentes mais iluminadas.

Um afrouxamento gradual do sistema escravagista teve lugar a partir do início do século XIX. A Inglaterra em 1838 e a França em 1848 extinguiram definitivamente a estrutura escravocrata. Foi abolida a captura de africanos, assim como seu uso como escravos. Terminada a Guerra de Secessão, a escravidão foi extinta também nos Estados Unidos em 1865.

Estetoscópio

Estetoscópio

O Brasil demorou um pouquinho mais. No entanto, a abolição da importação de novos escravos, decretada em 1850 ― associada à Lei do Ventre Livre, em 1871 e à Lei do Sexagenário, em 1885 ― já haviam decretado de facto o fim do sistema no País. A lei de 13 de maio de 1888 apenas apressou e oficializou uma situação à qual o Brasil já se encaminhava inexoravelmente.

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Mas o homem é incorrigível. Você expulsa o fantasma pela porta, ele volta pela janela. Volta e meia, descobre-se que algum poderoso anda explorando um grupo de gente em situação de fragilidade, num esquema de semiescravidão. Situações assim são frequentemente flagradas em regiões recuadas do território. Mas também em grandes cidades, principalmente em São Paulo, desbaratam-se frequentemente oficinas clandestinas que exploram o trabalho de bolivianos, peruanos, chineses, em situação análoga à escravatura.

A cada vez, a imprensa denuncia, a tevê faz eco, liberam-se os cativos. Quanto aos culpados, bem, sacumé, nossa Justiça é atulhada de chicanas, para usar palavra da moda. O processo, quando há, arrasta-se por tanto tempo que o crime periga prescrever. Mas essa é uma outra história, não é o assunto do dia.Interligne 18f

O assunto do dia é uma notícia assustadora em cuja veracidade eu não acreditaria, não tivesse ela sido publicada em vários jornais: o Brasil reintroduz a escravidão.

Já não se procede mais como 150 anos atrás. Afinal, o mundo progrediu. Já não se veem mais empreendedores independentes trabalhando em sistema vertical, tipo serviço completo, incluindo a colheita da mercadoria humana na origem, o transporte até nossos portos e a comercialização de indivíduos em leilão público.

Hoje nos limitamos a ser cúmplices de um moderno trato de escravos, versão 2.0, coisa fina. Nossas mãos ficam limpas, o trabalho sujo é deixado a cargo de outros. Fechamos um olho para a realidade e fingimos, assim, que ela não existe.

O mais inquietante nessa moderna variante do escravagismo é a ação governamental direta. No século XIX, o governo se limitava a dar seu beneplácito, enquanto o trabalho grosso era executado por empresários pouco humanitários, que se encarregavam de trazer o negros e de comercializá-los. As autoridades se contentavam com os frutos da operação, que vinham sob forma de impostos e de votos dos fazendeiros satisfeitos.

Na escravidão atual, o governo federal é conceptor, executante e beneficiário da operação. Os frutos continuam a ser colhidos sob forma de impostos e de votos, exatamente como no passado. Uma jogada de mestre!

Não sabem do que estou falando? Cáspite! Da importação de médicos cubanos. Não sou médico, nem beneficiário da bolsa família. Tampouco vivo em São Nicodemo do Brejo. Não recorro ao SUS. Portanto, prefiro não entrar em considerações gerais sobre a conveniência ou não de se importarem médicos. Eles, que são brancos, que se entendam. Prefiro deixar essa discussão aos interessados diretos.

Mas não posso deixar passar em branco uma evidência: o povo brasileiro ― através de seus representantes democraticamente eleitos ― está patrocinando uma moderna estrutura de semiescravidão. Somos cúmplices da abominável chantagem que a gerontocracia de Havana está impondo aos jovens médicos cubanos.

Médico

Médico

Com o desaparecimento da antiga União Soviética, Cuba perdeu seu padrinho. Desde então, a miséria da população, a falta de perspectivas, a desesperança revelam a falência do regime. A ilha vive de expedientes. Os turistas trazem alguma migalha, os cubanos do exterior ajudam com mais um pouco, o regime bolivariano garante o fornecimento de petróleo. E assim, os infelizes vão levando adiante. Fazem o que podem.

Exportar revolução, coisa que se fazia muito lá pelos anos 70, saiu de moda. Para aliviar o sufoco financeiro, o regime dos Castros imaginou um estratagema: exportar profissionais da área médica. Como se pode facilmente imaginar, médicos e enfermeiros são bem-vindos em qualquer lugar do mundo.

Faltava encontrar um meio de garantir que os modernos escravos entregassem o soldo aos mandachuvas de Havana, exatamente como a prostituta faz com seu cafetão. Não foi difícil. O acordo ― aceito pelo Brasil ― estipula que os salários não serão pagos diretamente ao profissional, mas ao governo cubano. Que, por sua vez, guardará o que julgar conveniente e retrocederá ao médico a quantia que bem entender.

Para garantir que não haverá fugas nem deserções, os infelizes profissionais são proibidos de trazer consigo a família. Mulher e filhos, tomados como reféns, permanecem na ilha. Para fechar o cerco, o Brasil se comprometeu a não acolher pedido de asilo de nenhum médico cubano. Parece intriga da oposição, futrica de vizinho maldoso, piada de salão, mas é a pura verdade. A confissão saiu, com ar displicente, da boca do próprio advogado-geral da União.

Socialismo o muerte

Socialismo o muerte!

Condenados por assassinato, gente com sangue nas mãos, é acolhida de braços abertos. Aconteceu, não faz muito tempo, com um foragido da justiça italiana. Quanto a médicos que só perigam ter nas mãos o sangue de brasileiros cuja vida estiverem tentando salvar, esses não terão direito a nenhum asilo. Que venham, socorram nossos deserdados, e em seguida voltem rapidinho para o inferno de onde saíram. Passar bem!

E pensar que a razão de ser da revolução do socialismo o muerte foi exatamente eliminar a exploração do homem pelo homem!

Pior ainda é pensar que as autoridades de nosso País se acumpliciam, em nosso nome, com essa maquinação. Dá muita vergonha e muita raiva.

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Observação
Um recorte deste artigo de Flávia Marreiro, da Folha de São Paulo, deveria ser entregue a cada médico cubano que pisasse solo brasileiro.

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O que era, o que era!

José Horta Manzano

Você sabia?

Aqui vai a resposta à pergunta de ontem. Os dois únicos países duplamente encravados, ou seja, aqueles de onde precisa atravessar pelo menos dois países para chegar ao mar aberto são: o Usbequistão e o Liechtenstein.

Como sabem todos os meus eruditos leitores, o Usbequistão era uma das 16 repúblicas que compunham a antiga União Soviética. A grande maioria de seus habitantes fala uma variante de turco, língua do ramo altaico. Há ainda pequena minoria russa e mais outra de origem persa. Partindo do Usbequistão e atravessando o Casaquistão, chega-se ao Mar Cáspio. O problema é que, apesar do altamente rentável processamento de caviar que ali se faz, o Mar Cáspio é como um imenso lago. Salgado, sim, mas fechado. Não se comunica com mar aberto.

Já o Principado do Liechtenstein é um fragmento da Idade Média esquecido nos montes pré-alpinos. Ocupa território minúsculo, encravado entre Suíça e Áustria, dois países que tampouco têm acesso ao mar. No Liechtenstein, o idioma oficial é o alemão, a língua de cultura que se aprende na escola. Em casa, fala-se um dialeto do ramo alto-alemão (Hochdeutsch), incompreensível para um alemão.

Parabéns ao caro leitor João, que se arriscou e chegou pertinho.

De ceca em meca

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 1° junho 2013

Quando, em 1951, foi criada a Ceca ― Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, as cicatrizes da Segunda Guerra ainda estavam abertas. Ninguém tinha vontade de reviver a experiência.

Para o fabrico de tanques de guerra, aviões e outras armas, era imprescindível dispor de aço e de carvão. O intuito da nova instituição era esconjurar o perigo de um rearmamento, em especial da temida Alemanha. Controlando a produção de aço e a extração de carvão, ficava mais fácil vigiar. Cada país ficava sabendo o que o vizinho andava aprontando.

Deu certo. A Europa começou a se apaziguar. Seis anos mais tarde, os mesmos países fundadores da Comunidade do Carvão e do Aço deram um novo passo: assinaram o Tratado de Roma e fundaram o Mercado Comum Europeu.

Foi um sucesso. Na França, forjou-se até a expressão les trente glorieuses, os trinta anos gloriosos. Esse epíteto tem sido utilizado para indicar os anos 60, 70 e 80, período de calma e de crescimento econômico ininterrupto que trouxe paz e progresso a todos os povos da Europa Ocidental.

Mas o passar do tempo altera a percepção das gentes. Passados 50, 60 anos da hecatombe de 1945, a geração que tinha conhecido a guerra foi desaparecendo. Para os jovens de hoje, a União Europeia, sucessora do Mercado Comum, é ressentida como causa de muitos dos males. Os funcionários de Bruxelas tornaram-se saco de pancada. Atribui-se-lhes a culpa de tudo o que não funciona: crise econômica, inflação, desemprego, desindustrialização, descontrole imigratório.

Exorcizado o perigo de nova guerra, a UE deixou de fazer sentido para as novas gerações. É mais estorvo que solução.

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No começo dos anos 1960, o espectro do comunismo rondava os países da América Latina. Naquele mundo bipolar, ou se estava de um lado, ou se estava do outro. A paleta política só tinha duas cores e não deixava espaço para outros matizes. Cuba já havia caído na órbita da União Soviética. Muitos brasileiros sentiam medo. Essa insegurança está na raiz da reviravolta que o Brasil sofreu em 1964, quando o poder passou para as mãos dos militares.

O que aconteceu desde então, todos conhecem. A quebra da legalidade, programada em princípio unicamente para repor o País no bom caminho, acabou durando muito mais do que estava previsto. Endureceu e eternizou-se. O regime de exceção só começou a terminar em 1985, com a eleição ― ainda que indireta ― de um presidente civil. O tiro de misericórdia veio mesmo em 1988, com a promulgação de nova Constituição.

Óculos escuros de sinistra memória

Óculos escuros de sinistra memória

No entanto, o passar do tempo faz que pessoas se vão e lembranças se embacem. A geração que conheceu o sufoco do regime militar está envelhecendo. Mais alguns anos, e não sobrará ninguém. A História pode-se repetir. Aliás, as primícias estão apontando no horizonte. Quem tiver olhos para ver, que veja.

Caída justamente no feriado do 1° de maio, uma notícia inquietante passou quase despercebida. O Instituto Datafolha publicou uma pesquisa de aparência inofensiva, mas que deveria dar que pensar. Segundo a sondagem, apenas 53% dos paulistanos concordam com a frase «democracia é sempre melhor do que qualquer outra forma de governo». Infere-se, por consequência, que a outra metade dos entrevistados não se importaria se não vigesse a democracia. Um cidadão em cada dois.

A pesquisa foi mais longe. Uma pergunta mais explícita deixou claro que 19% dos paulistanos concordam que «em certas circunstâncias, é melhor uma ditadura do que um regime democrático». De cada 5 entrevistados, um pensa assim. E a curva é ascendente.

Tanto em ceca quanto em meca, as mesmas causas costumam engendrar os mesmos efeitos. Em 1964, o rebuliço nas altas esferas era tão grande que a população do País viu com bons olhos, num primeiro tempo pelo menos, a instalação de uma ditadura. Havia esperança de que os militares varressem o «mar de lama», como se dizia na época e preparassem o Brasil para um futuro risonho. Deu no que deu.

Daqui a alguns anos, poucos se lembrarão dos anos de chumbo. Pelo andar da carruagem, a incompetência que nossos mandachuvas têm mostrado de fixar objetivos para o País tende a paralisar a governança, a ratificar sua irrelevância e, pior, a atestar sua perniciosidade. A tentação de invocar uma quebra da ordem constitucional e a instalação de um regime moralizador pode tornar-se irrefreável.

Os que controlam as rédeas do poder deveriam refletir profundamente sobre o futuro que estão forjando para os brasileiros e, naturalmente, para si mesmos.