Vaidosos, enfatuados e irresponsáveis

José Horta Manzano

A busca do objetivo não justifica o uso de todo e qualquer meio. Há golpes lícitos, permitidos, reconhecidos, legais. Há outros que se situam perigosamente no limite entre o pode e o não pode. Outros há que, desferidos abaixo da cintura, são ilícitos, proibidos, ilegais, escandalosos. Fogem claramente às regras do jogo.

Greenpeace logo 1Já falei, neste espaço, sobre o olhar pra lá de ressabiado que lanço sobre as atividades de Greenpeace, poderosa organização não governamental. Não são seus louváveis objetivos que me perturbam nem sua alegada luta por um planeta mais respeitoso do equilíbrio ecológico. Nenhum cidadão consciente pode deixar de aplaudir.

O que choca são os impactantes métodos de ação, perigosamente no limite da decência, atingindo, por vezes, a ilegalidade. Essa organização, conhecida por sua truculência, vale-se do idealismo e da ingenuidade de jovens que lhe servem de massa de manobra.

Seus altos dirigentes não costumam se expor pessoalmente em operação arriscada. Quando se trata de desafiar a marinha de guerra russa, a guarda costeira francesa ou a polícia alemã, a infantaria despachada à linha de frente é composta de jovens ― criaturas sinceramente devotadas, daquelas que acham que nada de ruim pode acontecer.

Quarenta anos atrás, quando Greenpeace apareceu, a concorrência era pequena. Pouca gente havia descoberto o filão. Hoje em dia, com a eclosão de zilhões de ongs, o mercado anda saturado. Para sobreviver, cada uma tem de se fazer notar, sob pena de cair no esquecimento. Entre uma causa e outra, a escolha recairá sobre a que causar maior impacto na opinião pública.

Antigamente, quando alguém queria «aparecer», sugeríamos que pendurasse uma melancia no pescoço. Ongs não têm pescoço, mas fazem valer o velho método. Atrair atenção por qualquer meio ― eis o lema.

Greenpeace crime eleitoralEstes dias, nossa velha conhecida Greenpeace fez das suas. A 45 dias das eleições brasileiras, espalhou cartazes por uma centena de pontos de ônibus da cidade de São Paulo. Eles trazem montagem fotográfica em que aparecem, sorridentes, políticos de partidos antagônicos ― o governador paulista e a presidente da República, ambos candidatos à reeleição.

Um metrô como pano de fundo e a frase inscrita ao pé da foto ― “Juntos pela mobilidade” ― induzem o leitor a crer que os dois políticos tenham juntado forças numa hipotética aliança eleitoral. Dado que o governador de São Paulo é dado pelas pesquisas como vencedor já no primeiro turno, a vantagem da duvidosa aliança vai toda para a chefe do Estado brasileiro.

Greenpeace member cardDas duas, uma: ou a ong adotou a técnica da melancia no pescoço, ou está dando uma mãozinha à presidente da República, sabe-se lá com que absconsa intenção.

Seja como for, o fato não pode ser encarado como mera estudantada. Tem de ser chamado por seu nome: crime eleitoral. Com um agravante: cometido por filial de organização estrangeira. Os dirigentes da entidade têm de amargar as consequências. A punição ideal seria o banimento dessa irresponsável instituição do território nacional.

Interligne 18b

Interligne vertical 7Curiosidade:
Tive a paciência de fazer uma busca no amigo gúgol sobre essa ong. O resultado fala por si.

Expressão-chave: greenpeace terrorist organisation mostra 256 mil ocorrências

Expressão-chave: greenpeace terrorist group traz 226 mil ocorrências.

É pra ministro nenhum botar defeito. Ou não?

Exportando desleixo

José Horta Manzano

Sabemos todos que a Vale é importante multinacional de origem brasileira. Implantada nos cinco continentes, explora minas em mais de 30 países. Dá emprego a perto de 200 mil funcionários e integra o seleto cartel mundial das produtoras de matérias-primas.

O que nem todos sabem é que, em 2012, Greenpeace lhe atribuiu o pouco invejável Public Eye Award, o «prêmio da vergonha», concedido à pior empresa do planeta. Desde então, ela figura na Galeria dos Horrores.

Quarta-feira passada, a mina de níquel explorada pela Vale na Nova Caledônia ― território francês do Oceano Pacífico ― registrou seu sétimo acidente industrial desde 2009. Desta vez, foi um vazamento de ácido da unidade metalúrgica.

Vale: exploração de níquel Nova Caledônia

Vale: exploração de níquel
Nova Caledônia

Assustada, a população da vizinhança está à beira de uma explosão de nervos. Tendo em vista a repetição desses incidentes e a falta de comunicação por parte da empresa, a presidente da província tomou a decisão de suspender imediatamente as atividades da usina metalúrgica. Madame Ligeart, a presidente, instaurou um comitê de crise.

Vale 1Pelas primeiras informações, 96 mil litros de ácido clorídrico contendo forte concentração de metais foram despejados. O vazamento poluiu um riacho acabando com os peixes. Do jeito que as coisas vão, a empresa continua forte candidata ao prêmio da vergonha 2015. And the winner is…

Obs:
A informação foi difundida por um site neo-caledoniano de nome altamente sugestivo e perfeitamente adequado às circunstâncias: www.cagou.com.
Isso não é lorota.

A infantaria

José Horta Manzano

Agressão só pode suscitar reação inflamada. Os ecoterroristas da (poderosa) Greenpeace ― aquela que, de paz, só tem o nome ― não conseguiram captar essa mensagem em 40 anos de ativismo.

Que ninguém me entenda mal. Sou o primeiro a preconizar a substituição dos combustíveis fósseis por fontes de energia renovável. Tanto porque a queima de gaz e petróleo polui a atmosfera, quanto porque essa riqueza que não se renova é preciosa demais para ser queimada.

O que desaprovo vigorosamente são os métodos dessa organização não governamental. You can catch more flies with honey than with vinegar ― dizem os ingleses ― é mais fácil apanhar moscas com mel do que com vinagre. O modus operandi aplicado pelos dirigentes de Greenpeace está longe de ser meloso. Está mais para vinagre.

Reunir uma trintena de idealistas jovens e ingênuos e mandá-los para a linha de frente pode lisonjear os dirigentes da organização, mas não fará avançar a defesa da «causa». Nem um milímetro.

A infantaria da ong ― falo do grupo de 30 jovens adultos ― foi escolhido a dedo. No intuito de criar um imbróglio internacional, misturaram gente de uma vintena de países diferentes. Nesse particular, conseguiram seu intento: armaram um tremendo quebra-cabeça para as autoridades russas.

Mas, sacumé, russo não brinca em serviço. O navio ― sim, senhor, a opulenta organização dispõe de dois navios ― foi apreendido. Os arrojados ativistas foram direto para o xilindró. E lá teriam permanecido ainda um bom tempo, não fosse um evento internacional do qual, compreensivelmente, pouco se fala no Brasil: os Jogos Olímpicos de Inverno. Daqui a pouco mais de um mês, em 7 fev° 2014, a cidade russa de Sochi será palco da cerimônia de abertura da versão hibernal das Olimpíadas.

Tal como a Copa 14 é importante para a imagem do Brasil, os JOs de inverno são uma vitrina para a Rússia. Estes últimos dias, o governo de Vladimir Putin abriu um pacote de bondades. Liberou o bilionário Mikhail Khodorkovski, inimigo político do atual presidente, que apodrecia num campo de trabalho na Sibéria fazia 10 anos. Soltou também duas daquelas moças que, cabecinhas de vento, tinham tido a bizarra ideia de cantar uma oração punk em plena catedral ortodoxa.

A infantaria da Greenpeace Crédito: Daniel Teixeira, Estadão

A infantaria da Greenpeace
Crédito: Daniel Teixeira, Estadão

O perdão concedido aos ousados grumetes de Greenpeace se inscreve nessa mesma linha. Tiveram sorte. Não fosse a proximidade dos JOs e a aspiração russa de sair bem na foto, perigavam passar alguns anos pouco calorosos.

O resultado? Pois a poderosa organização conseguiu ser citada pela mída planetária, o que lhe há de granjear apoio e doações ― cada um é livre de doar a quem lhe aprouver. Os 30 incautos que, instrumentalizados, se prestaram a essa palhaçada devem estar-se sentindo heróis.

E o principal, a defesa do Ártico, como é que fica? Pois não saiu do lugar. Ninguém em sã consciência imaginaria um só instante que a gigantesca Gazprom, a Petrobrás russa, renunciasse a suas atividades na sequência de um protesto frouxo e desajeitado.

Alguém precisa avisar a esses ecoterroristas que terão muito mais sucesso se fizerem a mesma encenação nas plataformas brasileiras. Na hipótese mais elementar, receberão asilo político, se assim o desejarem. Na hipótese mais optimista, frearão a exploração petrolífera, o que não deixa de ser uma boa herança para os que virão depois de nós.

Bandeirolas

José Horta Manzano

Pouco tempo atrás, eu já disse aqui que a ong Greenpeace, de paz, só tem o nome. É considerada organização terrorista. Diversos governos a põem na mesma categoria dos camicases do Oriente Médio.

Eu enxergo essa organização como uma espécie de seita, uma teia de aranha em que indivíduos bem-intencionados, mas incautos, se arrolam. Em seguida, enroscam-se na engrenagem e não conseguem mais se safar. Sem se dar conta, acabam fazendo tudo o que seu mestre mandar.

Ativistas de Greenpeace na Rússia by Alex

Ativistas de Greenpeace na Rússia
by Alex

A mais recente façanha do grupo ― um verdadeiro coup d’éclat ― foi a tentativa de abordagem de uma plataforma petrolífera russa, em protesto contra a exploração de óleo em águas árticas. Um gesto inócuo, sem utilidade prática. Pode até servir para glorificar a própria ong e para angariar fundos, mas tem efeito nulo sobre a persistência e a determinação das autoridades russas.

Espertos, os dirigentes da ong sortiram a equipe de ativistas com 30 jovens originários de uma vintena de países diferentes. Pensaram, assim, diluir a fúria das autoridades locais. Caso surgissem problemas, quanto maior o número de governos protestando junto às autoridades de Moscou, maior seria a repercussão. Quanto mais alarido, melhor.

Deu mais ou menos certo. Os intrusos foram, naturalmente, pilhados e apanhados pelos guardiães da plataforma. A vintena de governos cujos cidadãos tinham sido detidos protestaram com moderação e acentuada cautela. Afinal, não interessa a governo nenhum meter-se mal com Moscou por causa de meia dúzia de quixotes instrumentalizados por interesses absconsos.

Como resultado, já vai para dois meses que os jovens ― bem-intencionados, mas desmiolados ― conhecem a delícia de estar hospedado em cárceres russos. O inverno está aí. Todos sabem que mais vale passar uma semana de férias em Fernando de Noronha que um ano encerrado numa prisão siberiana. Num inverno de 10 meses por ano.

Na manhã desta quarta-feira 6 de novembro, meia dúzia de jovens encapotados subiram a bordo de um pequeno barco pneumático e deram um rápido passeio no rio Moscova, o curso d’água que corta a capital da Rússia. Convocaram algumas testemunhas para a cena e se deixaram fotografar quando desfraldavam bandeirolas pedindo liberdade para os 30 prisioneiros.

Greenpeace navegando no Rio Moscova Crédito: Vasily Maximov, AFP

Greenpeace navegando no Rio Moscova
Crédito: Vasily Maximov, AFP

É por aí que deviam ter começado, por operações pacíficas. Desde que o mundo é mundo, ações terroristas e demonstrações escandalizadas nunca ganharam guerras. Mais vale um bom acerto de bastidores do que uma gritaria. A algazarra será esquecida amanhã, ao passo que o discreto acordo periga ser cumprido.

Antes de invadir propriedade alheia, é bom estar certo de dispor de força suficiente para garantir a conquista. Quem não contar com um exército capaz de enfrentar os dignos sucessores do temido Exército Vermelho não deve se meter com os russos.

O resultado está aí: crédulos ativistas vão ver o sol siberiano nascer quadrado durante um bom tempo. Enquanto preparam seu novo golpe, os bondosos dirigentes da organização mandam um grupo subir num barquinho e agitar bandeirolas.

Rapidinha 3

José Horta Manzano

Hoje, logo de manhã cedo, militantes da Greenpeace ― ong conhecida por sua agressividade ― decidiram mais uma vez atrair para si os holofotes.

Tentaram escalar a Torre Eiffel. A intenção era desenrolar faixas pedindo que o mundo pressionasse as autoridades russas a liberarem os 30 ativistas que invadiram uma plataforma petrolífera algumas semanas atrás.

Militante de Greenpeace na Torre Eiffel by Thomas Samson, AFP ― 26 out° 2013

Militante de Greenpeace na Torre Eiffel
by Thomas Samson, AFP ― 26 out° 2013

Não conseguiram grande coisa. A polícia francesa nunca está muito longe dos monumentos parisienses, apinhados de turistas em qualquer época do ano. Agiu rápido e desalojou os intrusos.

Melhor teriam feito os belicosos ecologistas da Greenpeace se tivessem invadido um monumento moscovita. Mas… cadê coragem?

Os piratas modernos

José Horta Manzano

Those were the days, my friend. Aqueles, sim, é que eram dias. Aqueles, sim, é que eram heróis. Aqueles, sim, é que eram gente de fibra e de coragem.

Quando Diogo Cão, Cristóvão Colombo, Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral zarparam, no comando de uma frota de frágeis caravelas de madeira, só podiam contar com a cara e a coragem. Se algo pior acontecesse ― e o risco era omnipresente ― não tinham a quem apelar. Ocorresse um naufrágio durante uma tormenta, ninguém os poderia socorrer. Seria o fim, certo como um e um são dois.

Pirata

Pirata

O mundo mudou. Hoje funciona diferente. Mapas de navegação sofisticados, relógios ultraprecisos, balizas de sinalização luminosa, dispositivos de localização geográfica, radar, sonar, telefone por satélite compõem uma rede de proteção (quase) infalível. Competições de volta ao mundo para navegadores solitários são organizadas todos os anos. Solitários é força de expressão. Cada navegante tem seu cordão umbilical ligado permanentemente à base terrestre, comunica-se várias vezes por dia por videoconferência, ingere alimentação balanceada. O risco de apanhar escorbuto perdeu-se na poeira de um passado longínquo. Navegar, hoje, com toda essa mordomia, virou moleza.

A ong Greenpeace, dedicada à defesa do meio ambiente, foi fundada mais de 40 anos atrás. Dizem muitos que, de peace (paz), só tem o nome. Seus métodos costumam ser musculosos. A União Europeia tende a considerá-la uma organização terrorista. Seus objetivos são certamente nobres, mas suas intervenções costumam ser espetaculosas, arriscadas, no limite da legalidade ― quando não abertamente ilegais. Fazem isso porque, como os modernos navegadores, sabem que alguém sempre há de se abalar para tirá-los de situações delicadas.

A mais recente travessura dos ongueiros foi particularmente ousada. Um punhado de ativistas ― entre os quais uma conterrânea nossa ― aventuraram-se em águas russas. A fim de demonstrar que não estão de acordo com a decisão de Moscou de extrair óleo de sua costa ártica, arriscaram-se a abordar, sem ser convidados, uma plataforma petrolífera ao largo de Murmansk.

Tivessem desembarcado em plataforma brasileira, teriam causado um auê, mas não acredito que corressem maior perigo. Nesta terra tropical, tudo acaba se arranjando. Especialmente quando se tem como pagar bons advogados. Tudo terminaria ao redor de uma bela pizza. Quem sabe até lhes fosse concedida a Ordem de Rio Branco, tão desprestigiada ultimamente.

Para desgraça de nossos aprendizes de pirata, as coisas na Rússia não costumam se desenrolar tão suavemente como no Brasil. Tomar de assalto uma instalação estratégica do país é afronta levada muito a sério por lá. As autoridades se sentem humilhadas com a demonstração de que não estão dando conta de defender os bens do país. É difícil de engolir. Todos os invasores foram detidos.

Sábado último, Greenpeace convocou manifestações concertadas e simultâneas em dezenas de países do mundo. Tinham por intuito chamar a atenção do planeta para a desventura dos jovens ativistas, agora retidos pelas autoridades russas.

Pirata

Pirata

Cada um tem sua maneira de enxergar o mundo. Concordo com o princípio que motiva os ativistas. Acho até que nenhum campo de exploração deveria ser instalado tão cedo na faixa de pré-sal do litoral brasileiro. Se dependesse de mim, esse tesouro seria guardado como reserva estratégica para o futuro ― nunca se sabe o que pode acontecer. Usemos o dos outros e guardemos o nosso.

No entanto, discordo da maneira de agir dos ongueiros. Intervenções violentas, teatrais e, sobretudo, ilegais não me parecem ser a maneira mais eficaz de convencer as autoridades de Moscou para o desastre ecológico que podem estar provocando.

Alguém imagina que, na sequência da invasão da plataforma, a prospecção petrolífera no Mar Ártico seja suspensa? Não acredito. Pode até surtir efeito contrário. As atividades de extração de petróleo naquela região podem vir a ser dissimuladas sob manto de segredo ainda mais espesso. Terá sido uma expedição à toa, sem finalidade prática.

Os jovens ativistas não serão, imagino, condenados a apodrecer durante anos num campo siberiano de reeducação. Mas também não há de ser amanhã de manhã que serão liberados. Se não me engano, a legislação russa não prevê embargos infringentes. Com certos países, é melhor não facilitar.

O roto e o rasgado

José Horta Manzano

Tem gente que vive de ilusão. Um antigo presidente de nossa República declarou, dois dias atrás, que o Brasil «será a 5a. economia do mundo em 2016». Mas não parou por aí. Com sua soberba habitual, conclamou nosso País a «ajudar os vizinhos a sair da pobreza».

Mostrou-se, ademais, maravilhado com o fato de a presidência temporária de duas organizações internacionais estarem sendo atualmente confiadas a brasileiros. Considerando que há 33 organizações internacionais oficialmente reconhecidas, não é espantoso que duas delas tenham um presidente oriundo do país candidato a ser a 5a. economia. Ou não?Estatísticas 1

Não nos esqueçamos de que, além das organizações internacionais oficiais, há dezenas de ultrapoderosas ongs planetárias. O WWF, presidido por uma equatoriana, cuida dos animais selvagens. A UICN (União Internacional para a Conservação da Natureza), presidida por um chinês, encarrega-se da preservação da vida vegetal.

Das duas, uma: ou o Lula conhece esses fatos e os esconde de seu público, ou continua a viver completamente alheio à realidade mundial.

A bem da verdade, seja dito que a fortíssima Greenpeace conta com uma brasileira entre os sete membros de seu conselho diretor. Nosso messias provavelmente não concede grande atenção a ninharias dessa espécie. Pode também ser que seus diligentes assessores, inebriados com sua própria importância, não se tenham preocupado em pesquisar e transmitir o conhecimento ao chefe. É igualmente compreensível que os feitos de Osvaldo Aranha, que presidia a assembleia da ONU quando da criação do Estado de Israel, não sejam levados em consideração pelo ex-presidente. Pela lógica dele, a História do Brasil só começou em 2003. Portanto, fatos anteriores não merecem ser lembrados.

Quando o ínclito personagem diz que o Brasil precisa «ajudar os vizinhos a sair da pobreza», me faz pensar no roto falando do rasgado. Um dos fatores que mais retardam nosso arranque é justamente o fato de nosso país estar amarrado, por regras insensatas e por decisões ideológicas, aos caprichos de seus vizinhos pobres e arrogantes. Com a entrada da Venezuela no Mercosul, o clube dos «descamisados» acaba de ganhar novo membro de peso. A verdade é que, a cada dia que passa, ficamos mais longe de atingir o status de potência internacionalmente respeitada, tal como a imaginava nosso simplório mandachuva.

Ele não consegue entender, mas não custa repetir: não é só o tamanho absoluto da economia que faz um país avançar no processo civilizatório. A China, em números absolutos, é uma economia poderosa. No entanto, em números relativos, a visão é muitíssimo diferente. Há tanta desigualdade social naquele país quanto no Brasil, se não for mais. Injustiças, pobreza, miséria, iniquidade, trabalho em condições de semiescravidão, corrupção desenfreada em todos os níveis, censura de opinião, trabalhadores sem qualquer espécie de proteção social. É isso que nosso líder quer para o Brasil?Estatísticas 2

De que serve, então, ser uma economia poderosa, se a distribuição da riqueza é perversa e iníqua? Não é importante que um país seja rico em números absolutos. É importante que seu povo não dependa de bolsas e de quotas para sobreviver com decência.

No dia em que os brasileiros não precisarem mais de muletas governamentais para garantir vida digna, teremos chegado lá. Pouco importa que o Brasil seja a 1a. potência econômica, a 5a. ou a última. Estatística não enche barriga.