Surdo que não quer ouvir

José Horta Manzano

Assim como o pior cego é aquele que não quer ver, o pior surdo é aquele que não quer ouvir, aquele que só dá ouvidos aos afagos que lhe interessam. Em vez de levar a sério as pesquisas de opinião que mostram o preocupante desgaste de sua popularidade, doutor Bolsonaro prefere dar ouvidos à zoeira que lhe vem de redes sociais atrás das quais tanto podem estar adeptos fanáticos quanto robôs bem programados. Ou os dois.

Como o pior dos surdos, nosso presidente não quer – ou não consegue – captar o rumor surdo que lateja e se avoluma poucos centímetros abaixo de seus pés, quase no ponto de eclodir. Perde apoio diariamente. Cada fala ou gesto desastrado seu resulta na perda de milhares de eleitores.

Se a eleição fosse hoje, doutor Bolsonaro só teria chance de vencer – um tiquinho de chance, frise-se – se o adversário fosse identificado com o lulopetismo. Fora isso, perdia de qualquer um. Marina, Ciro Gomes, Serra, Alckmin, Álvaro Dias, Amoedo ou qualquer outro lhe passaria a perna.

E é bom não esquecer de uma coisa. Se ele continuar a aumentar sua coleção de inimigos ao ritmo atual, vai-se tornar tão impopular que, daqui a três anos e meio, até um lulopetista periga derrotá-lo. Supondo-se que se segure no trono daqui até lá, naturalmente.

Árabes e judeus

José Horta Manzano

Apesar da energia despendida pelos governos petistas para promover e alargar linhas de fratura no seio da sociedade brasileira, o estrago não ultrapassou os clichês ligados à aparência física. As famigeradas quotas raciais foram estabelecidas grosseiramente. Na base, guiaram-se apenas pela cor da pele e restringiram-se a distinguir duas categorias: de um lado, pretos e mulatos; de outro, brancos e orientais. A medida tosca se limitou à aparência externa de cada indivíduo. Não tendo descido a minúcias, a estigmatização poupou a diversidade de nossa herança étnica e cultural. Melhor assim.

Nosso país faz parte do clube seleto dos que não ressentem o eco das rusgas entre judeus e árabes. Passando ao largo das desavenças no Oriente Médio, o brasileiro não demonstra preconceito contra nenhum dos dois povos beligerantes. Seria falso dizer que isso ocorre porque não os conhecemos. A sociedade brasileira integra milhões de descendentes de imigrantes árabes e judeus, que são considerados cidadãos exatamente como os outros, nem melhores, nem piores.

O fato de representantes das duas colônias sobressaírem em altos cargos da política nacional não abala ninguém. A mídia nem costuma sublinhar a origem desses personagens. Os árabes Geraldo Alckmin, Gilberto Kassab, Rosinha Garotinho e Fernando Haddad são conhecidos e apreciados (ou detestados) por motivos que nada têm a ver com a origem de seus antepassados. O mesmo se aplica aos judeus Jaime Lerner, Jacques Wagner, Alberto Goldman e Ilan Goldfajn.

Rainha Silvia da Suécia

No estrangeiro, as paixões são mais vivas. Quando doutor Temer subiu à Presidência, a notícia chegou correndo ao Líbano, terra de seus antepassados. A mídia se empolgou e homenagens foram prestadas ao político brasileiro. No vilarejo de onde vem a família, doutor Temer é nome de rua.

Agora, que doutor Alcolumbre foi eleito presidente do Senado, foi a vez de a mídia israelense se entusiasmar. Todos salientaram o fato de ser a primeira vez que um judeu chega à Presidência de nossa Câmara Alta.

Note-se que o Brasil é menos efusivo quando algum de seus filhos chega a posição importante no exterior. Temos uma brasileira sentada no trono da Suécia e, no entanto, raramente se tem notícias da rainha Sílvia que, filha de Herr Walther Sommerlath e de dona Alice Soares de Toledo, cresceu no Brasil e fala nossa língua como qualquer conterrâneo. Além da coroa, ela dispõe hoje de tripla nacionalidade: brasileira, alemã e sueca.

Confirmando a convivência pacífica entre comunidades, temos agora o judeu Davi Alcolumbre e a árabe Simone Tebet no Senado, ambos em posição de destaque. A mídia estrangeira pode continuar se entusiasmando. Quanto a nós, vamos torcer pra que as linhas de fratura criadas à força acabem por cicatrizar sem deixar marcas.

Caiu na rede

José Horta Manzano

Alguém disse que foi no Facebook que doutor Bolsonaro cresceu, e que de lá não quer sair. É verdade, é sinal dos tempos. Quem precisou levar uma sova pra aprender isso foi doutor Alckmin, candidato infeliz à Presidência. Não se tendo dado conta de que os tempos haviam mudado, ele apostou todas a fichas no horário eleitoral ‘gratuito’ transmitido pela tevê. Perdeu todos os anéis e, por um triz, não se foram os dedos.

Doutor Bolsonaro não mora no Alvorada nem no Torto. Fixou residência nas redes sociais. Disse adeus a palanques e comícios, dos quais nunca foi grande fã. Passa longe de escrever artigos para a imprensa e de discursar no rádio. Desdenha aparições na televisão. As redes sociais são sua praia favorita. Esse é, por sinal, o ponto de maior semelhança entre ele e seu homólogo dos EUA. De fato, Mister Trump reza pelo mesmo missal: tudo pelas redes, nada fora delas.

Quem achar isso estranho, que vá se acostumando: estamos no limiar de nova era no terreno das comunicações. Discursos radiofônicos e comícios para um mundaréu de gente traziam ao ouvinte a desagradável impressão de que a fala não havia sido dirigida a ele, mas a uma multidão ‒ um discurso impessoal, que sempre deixava um gostinho de insatisfação.

A comunicação por meio das redes é direta. O recado aparece na palma da mão do eleitor, como se lhe fosse pessoalmente endereçado. Frases curtas e despojadas convidam à leitura e facilitam o entendimento. O cidadão tem uma sensação de intercâmbio amistoso entre o líder e ele, como se a hirerarquia tivesse desaparecido ‒ ainda que isso não seja verdade.

O governo de um país da importância do Brasil, no entanto, é por demais complexo pra ser exercido em ritmo de tuitadas. Frases de efeito, ainda que angariem milhões de likes, se não forem seguidas de ação concreta, não levarão a bom porto. Dez dias é pouco pra avaliar um governo de quatro anos. Mas é bom que, lá em cima, doutor Bolsonaro comece a se preocupar menos com palavras impactantes e mais com ações concretas. É pra isso que foi eleito.

O quarteto cruz-credo

José Horta Manzano

As sondagens mais recentes mostram um curioso quarteto na dianteira da corrida presidencial. São quatro personagens em busca de autor. Acolhidos por um bom dramaturgo, até que comporiam excelente dramalhão. São tipos marcantes, basta escrever o enredo.

Um deles é o cangaceiro esculpido e escarrado. Bota medo em todo o mundo, deita fogo pelas ventas. Grita, ameaça, cospe palavrão. No entanto, sei não, com todo esse esperneio, me faz pensar num certo cão que ladra mas… não morde.

O quarteto cruz-credo

O segundo é o professor. Tem ar cansado, a coluna arqueada, a cabeça que pende para a frente, como se carregasse o peso do mundo nas costas. Fala pausado, como quem explica uma lição ‒ ou como quem se esforça pra não dizer besteira. Deixa a imagem do bom sujeito que gostaria de chegar lá mas não se anima a fazer o esforço necessário, na esperança de seus méritos serem reconhecidos por inércia. Não serão.

O terceiro é a esfinge. Está sempre com cara de quem comeu, não gostou e vai chorar. Parece sempre na defensiva. Quando confrontado com um problema mais complexo, não se vexa em dizer que não tem a solução, mas que tem um amigo que vai resolver o caso. Deixa sempre uma impressão de obra inacabada, de que falta alguma coisa, como uma casa sem alicerce.

O quarto é e não é ao mesmo tempo. Apresenta-se como procurador de um sujeito oculto. Deixa claro e público que não passa de canal de expressão de um terceiro personagem. Transmite impressão de não ter vida própria, dependente que é de ordens vindas da cadeia. Um personagem surreal.

Estamos bem arranjados. Desse magma, só sai uma certeza: o próximo presidente do Brasil será paulista. De fato, todos os integrantes do quarteto viram a luz em São Paulo ‒ o que não é necessariamente motivo de orgulho para o Estado.

Francisco de Paula Rodrigues Alves
(1848-1919)
5° presidente do Brasil

Para constar
Tirando doutor Temer ‒ que é substituto e não foi eleito nominalmente ‒, o último paulista escolhido para presidir o país foi doutor Rodrigues Alves, nascido em 1848(!). Seu mandato terminou em 1906, faz 112 anos. Desde então, neca.

Candidatos: origem do sobrenome

José Horta Manzano

Você sabia?

Na Antiguidade, não havia necessidade de sobrenome. Como vilarejos eram pequenos, o prenome bastava pra identificar cada membro da comunidade. Com o crescimento da população, na Idade Média, foi preciso acrescentar um especificador ao nome de batismo. A mudança foi gradativa e se fez sem método predeterminado. Os sobrenomes se classificam em cinco categorias principais.

1a) Patronímico
O prenome do patriarca serviu de sobrenome para a descendência. Alguns casos são bastante evidentes, como os ibéricos Péres/Perez (filhos de Pero), Álvares/Álvarez (filhos de Álvaro), Esteves/Estevez (filhos de Estêvão), Nunes (filhos de Nuno). Em território germânico, estão os Johnson/Jansen (filhos de John/Jan). Outros patronímicos saltam menos aos olhos.

2a) Toponímico
O nome de família tem relação com o lugar de origem do patriarca. Exemplos: Aguiar (lugar alto onde havia ninhos de águia), da Costa, do Monte, Napolitano, de Toledo, Ribeiro (da beira do rio), Castelo Branco (nome da cidade).

3a) Profissão ou ocupação
O ofício do patriarca acabou dando sobrenome à descendência. A profissão de ferreiro por exemplo, deu: Ferreira, Herrera, Fabbri, Lefèvre, Smith, Schmid, Kovac. Temos ainda: Pastor, Farina, Molino, Trigueiro. Poucos sobrenomes portugueses entram nesta categoria.

4a) Alcunha
Esta tendência é interessante e muito difundida. Famílias ficaram conhecidas por alguma característica física do patriarca ou pela alcunha dele. Calvo, Preto, Manso, Gago, Valente, Bravo.

5a) Nome religioso
Muitas famílias têm sobrenome relacionado com a religião. Exemplos: de Jesus, Assunção, São Marcos, dos Santos, Batista.

Analisei o sobrenome dos principais candidatos à Presidência. A origem de cada um deles está aqui abaixo.

Henrique Meirelles
Meirelles é toponímico. Deriva do município de Meira, na província de Lugo, Galiza, Espanha.

Álvaro Dias
Dias tem origem patronímica. Equivale ao Diez espanhol. Deriva do nome próprio Diago, variante de Diego, Tiago e Iago. Na Idade Média, quando foram adotados sobrenomes, o patriarca devia chamar-se Diago.

João Amoedo
Amoedo é toponímico de origem galega. É o nome de um distrito do município de Pazos de Borbén, na província de Pontevedra, Galiza, Espanha.

Jair Bolsonaro
Bolsonaro é topônimo. É transcrição errônea do original Bolzonaro. O patriarca deve ter sido originário do município de Bolzano Vicentino, situado na província de Vicenza, Vêneto, Itália.

Guilherme Boulos
Boulos é patronímico. É a versão árabe de nosso nome próprio Paulo. A transcrição Boulos vale para a fonética francesa. Para ser pronunciado corretamente por nós, deveria ser grafado Bulos. Esse nome sugere que a família tem origem cristã.

Fernando Haddad
Haddad é nome de profissão. Em árabe, designa o ferreiro, uma das raras profissões da Idade Média, época em que o homem era faz-tudo, sem especialização. Este candidato é descendente longínquo de um artesão da forja.

Ciro Gomes
Gomes é sobrenome patronímico comum ao espanhol e ao português (Gómez/Gomes). A origem é o nome próprio Gome, difundido na Idade Média, hoje desaparecido. Gome pertence à mesma raiz do latim homo (=homem).

Marina Silva
Silva é o sobrenome mais difundido nos países de fala portuguesa. É considerado toponímico, derivado do latim silva (=selva, mato, bosque, floresta). No Brasil, sua difusão foi amplificada pelo fato de muitos ex-escravos o terem adotado como nome de família.

Geraldo Alckmin
Alckmin não tem origem clara. É forte a probabilidade que derive do árabe al-kimyia, que significa química e também alquimia. Se assim for, trata-se de nome ligado ao ofício do patriarca.

Quem jogará a final?

José Horta Manzano

A abundância de partidos que abarrota a cena política nacional há anos é de mentirinha, uma ilusão. Nenhuma das siglas menores chega a cutucar as três grandes.

No frigir dos ovos, é forçoso constatar que, neste último quarto de século, a presidência da República ‒ o cargo maior ‒ tem sido rateada entre duas siglas: PSDB e PT. É o que alguns chamam impropriamente de «direita x esquerda». Não é assim que eu rotularia, mas essa é história pra outro capítulo.

Pelo ranger da carroça, as eleições de 2018 vão soar o fim desse monopólio. Lula da Silva, eterno candidato do Partido dos Trabalhadores, está atrás das grades e, se nada de extraordinário acontecer, lá deverá continuar por bom tempo. Segundo as pesquisas eleitorais, nenhum candidato logrará herdar os votos do demiurgo. Nem nomes de siglas nanicas nem mesmo os do próprio PT. A sobrevivência do partido está ameaçada.

by João Bosco de Azevedo (1961-), desenhista paraense

No polo oposto, o ex-governador de São Paulo, candidato do PSDB, não conseguiu decolar até agora. A propaganda eleitoral certamente vai granjear-lhe votos, mas não há garantia de que ultrapasse os concorrentes.

Já doutor Bolsonaro parece ter lugar garantido na final do campeonato. A pergunta à qual ninguém pode responder neste momento é: quem será o adversário?

Uma coisa é certa. Pela primeira vez desde o triste fim de doutor Collor, o resultado da corrida é nebuloso. O vencedor permanece incógnito, o que não é um mal em si. Pelo menos, teremos subidas de adrenalina.

Candidatos de ficha pra lá de limpa hão de atrair a simpatia do eleitor. Cansados de assistir aos crimes, à corrupção, à roubalheira, à desfaçatez, à impunidade que reina no andar de cima, os brasileiros darão o voto àquele (ou àquela) que apresentar maior garantia de integridade. É certeza. Nosso Guia, ainda que estivesse livre e solto, não venceria.

O PT e a modernidade

«Em geral, se quer atribuir esse antipetismo [paulista] a uma posição conservadora. Eu penso que é o contrário. O PT não está conseguindo dialogar com o contrário do que eles dizem, que é a modernidade de São Paulo.

Se pegar São Paulo como metáfora do capitalismo brasileiro, é o estado com a maior presença de desenvolvimento econômico, onde a classe média é muito expressiva, gente que opera sabendo que o que ela tem se deve ao próprio esforço e não a benesses do Estado, do governo ou de quem quer que seja.

Esse eleitorado tem sido muito maltratado pelo discurso petista. De certo modo, a maioria da população de São Paulo tem esse éthos empreendedor, individualista. O paulista tem sido tratado em bloco como se fosse reacionário, de direita.

Eu acredito que isso é um grande equívoco do PT, que explica não só o crescimento de Aécio, como a vitória de Alckmin.»

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Excerto de entrevista concedida por Milton Lahuerta ao jornal O Globo. O entrevistado é coordenador do Laboratório de Política e Governo da Unesp. Para ler o texto integral, clique aqui.

Vaidosos, enfatuados e irresponsáveis

José Horta Manzano

A busca do objetivo não justifica o uso de todo e qualquer meio. Há golpes lícitos, permitidos, reconhecidos, legais. Há outros que se situam perigosamente no limite entre o pode e o não pode. Outros há que, desferidos abaixo da cintura, são ilícitos, proibidos, ilegais, escandalosos. Fogem claramente às regras do jogo.

Greenpeace logo 1Já falei, neste espaço, sobre o olhar pra lá de ressabiado que lanço sobre as atividades de Greenpeace, poderosa organização não governamental. Não são seus louváveis objetivos que me perturbam nem sua alegada luta por um planeta mais respeitoso do equilíbrio ecológico. Nenhum cidadão consciente pode deixar de aplaudir.

O que choca são os impactantes métodos de ação, perigosamente no limite da decência, atingindo, por vezes, a ilegalidade. Essa organização, conhecida por sua truculência, vale-se do idealismo e da ingenuidade de jovens que lhe servem de massa de manobra.

Seus altos dirigentes não costumam se expor pessoalmente em operação arriscada. Quando se trata de desafiar a marinha de guerra russa, a guarda costeira francesa ou a polícia alemã, a infantaria despachada à linha de frente é composta de jovens ― criaturas sinceramente devotadas, daquelas que acham que nada de ruim pode acontecer.

Quarenta anos atrás, quando Greenpeace apareceu, a concorrência era pequena. Pouca gente havia descoberto o filão. Hoje em dia, com a eclosão de zilhões de ongs, o mercado anda saturado. Para sobreviver, cada uma tem de se fazer notar, sob pena de cair no esquecimento. Entre uma causa e outra, a escolha recairá sobre a que causar maior impacto na opinião pública.

Antigamente, quando alguém queria «aparecer», sugeríamos que pendurasse uma melancia no pescoço. Ongs não têm pescoço, mas fazem valer o velho método. Atrair atenção por qualquer meio ― eis o lema.

Greenpeace crime eleitoralEstes dias, nossa velha conhecida Greenpeace fez das suas. A 45 dias das eleições brasileiras, espalhou cartazes por uma centena de pontos de ônibus da cidade de São Paulo. Eles trazem montagem fotográfica em que aparecem, sorridentes, políticos de partidos antagônicos ― o governador paulista e a presidente da República, ambos candidatos à reeleição.

Um metrô como pano de fundo e a frase inscrita ao pé da foto ― “Juntos pela mobilidade” ― induzem o leitor a crer que os dois políticos tenham juntado forças numa hipotética aliança eleitoral. Dado que o governador de São Paulo é dado pelas pesquisas como vencedor já no primeiro turno, a vantagem da duvidosa aliança vai toda para a chefe do Estado brasileiro.

Greenpeace member cardDas duas, uma: ou a ong adotou a técnica da melancia no pescoço, ou está dando uma mãozinha à presidente da República, sabe-se lá com que absconsa intenção.

Seja como for, o fato não pode ser encarado como mera estudantada. Tem de ser chamado por seu nome: crime eleitoral. Com um agravante: cometido por filial de organização estrangeira. Os dirigentes da entidade têm de amargar as consequências. A punição ideal seria o banimento dessa irresponsável instituição do território nacional.

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Interligne vertical 7Curiosidade:
Tive a paciência de fazer uma busca no amigo gúgol sobre essa ong. O resultado fala por si.

Expressão-chave: greenpeace terrorist organisation mostra 256 mil ocorrências

Expressão-chave: greenpeace terrorist group traz 226 mil ocorrências.

É pra ministro nenhum botar defeito. Ou não?

Qui se ressemble

José Horta Manzano

O comportamento das autoridades brasileiras continua assombroso. Chegou a hora de perguntar se há um limite.

Acredito que seja do conhecimento de todos que um templo dito «de Salomão» foi inaugurado em São Paulo. Já me referi a esse assunto dias atrás. Está aqui .

Que fique bem claro: este não é um panfleto anticlerical. Continuo acreditando que assuntos religiosos residem no foro íntimo de cada um e de lá não deveriam sair. Se uma seita conseguiu juntar os quase 700 milhões de reais que custou a construção desse edifício, good for them ― sorte deles. Como se dizia antes da autocensura que hoje vigora: eles, que são brancos, que se entendam.

Imagino que parte desses milhões tenha saído do bolso de gente simples de espírito e escassa de finanças. É a prova do sucesso espetacular de um casamento perfeito entre populismo e messianismo. Mas não é esse o ponto que quero hoje abordar.

Todos os jornais denunciaram, uns dois ou três dias antes da inauguração, o fato de a autorização de construir ter sido expedida com base em dados fraudulentos. Os empresários, para escapar das restrições inerentes a construções novas, alegaram que se tratava da reforma de prédio existente.

by Júnior Lopes, desenhista paraense

by Júnior Lopes, desenhista paraense

Na verdade, o alegado prédio já havia sido demolido anos antes. Nada mais restava senão um terreno nu. Com essa declaração falsa, a seita logrou burlar a regulamentação de zoneamento e, ainda por cima, economizar alguns milhões em emolumentos.

Autorização de construir alicerçada por declaração ardilosa ― como qualquer um pode imaginar ― não tem validade, é nula. As autoridades competentes podem entrar com ação demolitória.

O embuste foi anunciado aos quatro ventos dias antes da inauguração. Apesar disso, as mais altas autoridades da República fizeram questão de comparecer à cerimônia. Estavam lá a presidente do país, o governador do estado, o prefeito da cidade, o vice-presidente do STF, magistrados, militares, parlamentares, ministros.

Todos aqueles medalhões mandaram ao povo um recado claro: a lei é feita para deserdados. Pobres e remediados são os que têm de obedecer. Já empresários bilionários não estão sujeitos a esses incômodos. Estão acima da lei comum.

Os figurões vieram «prestigiar» o empresário trapaceiro. Qui se ressemble s’assemble, dizem os franceses ― os semelhantes se atraem. É de deixar de queixo caído.

Pra terminar, fica uma pergunta: cá entre nós, alguém acredita que haverá ordem de demolição?

E mais uma, de última hora: será que o prestígio do Lula anda tão baixo que se esqueceram de convidá-lo?

Interligne 18bVídeo da inauguração
Um novo «Reino de Deus» in Deutsche Welle

Tapeação de Salomão

José Horta Manzano

Em artigo publicado no Estadão deste 25 de julho, Diego Zanchetta informa que, ao final de quatro anos de obras que saíram por 680 milhões(!), o novo Templo de Salomão está sendo inaugurado em São Paulo.

Pertence a uma conhecida seita neopentecostal autodenominada Igreja Universal do Reino de Deus, controlada por um senhor chamado Macedo.

Os atributos do recinto são coisa de novo-rico, dignos de um castelo «medieval» de Las Vegas: quatro vezes a superfície do Santuário Nacional de Aparecida com espaço para 10 mil pessoas sentadas, revestimento de mármore cor-de-rosa italiano, iluminação garantida por 10 mil lâmpadas, oliveiras importadas de Israel, telão maior que os dos estádios da Copa das Copas. Pra ministro nenhum botar defeito, sô!

Foto Estadão

Foto Estadão

Aliás, não só ministro, mas presidente, ex-presidente, governador e prefeito foram convidados para a cerimônia de inauguração. Sem público, naturalmente, que é para prevenir vaias. Rapidinho, dona Dilma confirmou presença. É altamente provável que os outros convidados «de honra» compareçam também. Afinal, em época de campanha eleitoral, é permitido fazer o diabo.

Tem um detalhe que me incomoda. Fiel que ousar vir a pé, sozinho, movido por sua própria fé, não será admitido no local. Para frequentá-lo, é obrigatório vir em caravana. O adepto terá de inscrever-se junto à única empresa de ônibus coveniada com a seita. E terá de desembolsar obrigatoriamente 45 reais, ainda que resida a um quarteirão de distância. A notícia não deixa claro se o pagamento obrigatório da entrada será descontado do dízimo.

Em terras mais civilizadas, esse tipo de procedimento já teria sido denunciado como exploração da ingenuidade popular, num processo com excelentes chances de sucesso e de consequente interdição da seita no território nacional.

Mas em nossa terra, sacumé, a coisa é mais maneira. Já que pode servir de vitrina eleitoral, por que não fechar um olho? Afinal, parte importante de nossa vida política é alicerçada na exploração da crendice do povão. Ou não?

Bismarck tinha razão

José Horta Manzano

Leis & salsichas
Atribui-se ao homem político alemão Otto von Bismarck (1815-1898) uma citação que, traduzida em tupiniquim, fica mais ou menos assim: «Se a humanidade soubesse como são feitas as salsichas e as leis, teria pesadelos à noite».Salsicha

Cento e cinquenta anos depois do prussiano, Geraldo Alckmin (1952-), governador de São Paulo, acaba de dizer a mesma coisa. Usou palavras mais duras, mas a constatação é a mesma. Foi bem mais contundente que Bismarck.

Segundo reportagem da Folha de São Paulo, o governador disse: «O povo não sabe de um décimo do que se passa contra ele próprio, se não, ia faltar guilhotina para a Bastilha, para cortar a cabeça de tanta gente que explora esse (sic) sofrido povo brasileiro».

Por aí se vê que, lá como cá, ontem como hoje, pouca coisa mudou nas práticas políticas.

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Não é nem deixa de ser
A França foi o 14° país a instituir o casamento entre pessoas do mesmo sexo. «Foi longe demais!», dizem uns. «Já estava passando da hora!», reclamam outros. Os dois campos têm razão.

Como já comentei neste mesmo espaço algum tempo atrás, não é a formalização do casamento, em si, que atrapalha tanto assim. É a autorização da adoção, que entrou embutida de contrabando no novo texto legal francês.

Por isso ― na minha opinião pessoal ― têm razão os que consideram que a lei extrapolou ao incluir a adoção plena. Têm também razão os que acham que o reconhecimento da união homoafetiva já não veio sem tempo.

Enquanto isso… enquanto isso, numa certa República que conhecemos bem, tergiversa-se. Na falta de um texto completo, abrangente, definitivo, claro, o brasileiro tem de recorrer a jeitinhos. Um remendo aqui, uma resolução ali, um decretozinho acolá. O CFM se mete, a OAB dá seus palpites, até o STF entra na dança. Já os congressistas, que foram justamente eleitos para fabricar leis, não estão fazendo seu trabalho.Justiça

Situações esdrúxulas se criam. Inseminação artificial pode. Adoção pode. Barriga de aluguel pode. Quanto a casamento, depende. Tem de encontrar um cartório de boa vontade. E um bom advogado em caso de contestação. Na falta de lei clara, conquistam-se direitos no grito, na marra, na valentona, na Justiça. Ora, o poder judiciário foi concebido para julgar na base da legislação existente, não para criar leis.

Fica difícil entender por que o parlamento brasileiro, tão rápido no gatilho quando se trata de reconhecer direitos de outras minorias, não legiferou até hoje com relação a essa realidade social.

Talvez seja influência das salsichas de Bismarck. Em outras palavras, os deputados devem ter avaliado que, se votarem uma lei autorizando claramente a união homossexual, perigam perder votos de adeptos de seitas neopentecostais.

Entre o bem de uma categoria de cidadãos e os votos de outra, ficam com os votos.