Gentílicos compostos

José Horta Manzano

Entre outras acepções, o termo GENTÍLICO é usado para indicar nacionalidade ou origem (de gente ou de coisa, conforme o caso). Brasileiro, argentino, francês, japonês, congolês, australiano são gentílicos que designam detentores de cada um desses passaportes. Ou ainda objetos e fatos originários desses países ou acontecidos neles.

Em casos especiais, seja por questão de fonética, seja por questão de tradição, alguns gentílicos são abundantes, quer dizer, têm duas formas: uma longa e outra curta. Esta última é especialmente usada em gentílicos compostos.

  • Alguns exemplos:
    Francês = franco
    Alemão = teuto
    Português = luso
    Chinês = sino
    Japonês = nipo
    Espanhol = hispano
    Inglês = anglo
    Italiano = ítalo
    Áustria = austro
    Albanês = albano
    Finlandês = fino
    Grego = greco

Chamada Folha de São Paulo, 6 jun 2017

Há outros. O vocabulário da Academia Brasileira de Letras aceita ‘brasilo’ como forma curta para brasileiro. Pessoalmente, acho esquisito e prefiro evitar. Não me soa bem «brasilo-argentino» ou «brasilo-peruano». Que cada um faça como quiser.

Quanto aos gentílicos curtos tradicionais, use à vontade.

  • Assim, teremos:
    Tratado teuto-brasileiro
    Acordo nipo-canadense
    Guerra franco-prussiana
    País hispano-americano
    Relações fino-suecas

E, diferentemente do que escreveu a Folha, terrorista ÍTALO-MARROQUINO.

Quem com ferro fere…

José Horta Manzano

Todos teremos de ir embora um dia – essa é a lei. Já que a partida é inelutável, gostaríamos todos de deixar imagem positiva, pranteada, admirada, respeitada. Nem todos conseguem.

Janio 1Entre políticos e outros medalhões, uma vez cumprida a ambição de chegar lá, resta o consolo de cuidar da própria biografia. «Um dia não estarei mais aqui, mas, pelo menos, deixarei boa lembrança» – costuma ser o mote.

O falecido Jânio Quadros, por exemplo, batalhou para deixar imagem de estadista, de salvador da pátria. O que ficou foi a lembrança de um amalucado sem rumo.

Mandatários poderosos e longevos como Hitler, Stalin, Franco & companhia tiveram todos, um dia, a ilusão de que seriam lembrados como fundadores de nova pátria, de nova estirpe, de nova orientação. São hoje repudiados como arautos da desgraça que, por causa deles, se abateu sobre seu povo.

Aerolula 1O grupo político conhecido como PT pode espernear quanto quiser, que não vai adiantar. Sua imagem guardará a indelével marca da corrupção, da sujeira, do oportunismo e da malandragem. Daqui a alguns anos, quando os atuais figurões estiverem fora de cena, o partido (ou o que restar dele) certamente mudará de nome. Será maneira simbólica de apagar o passado. Há antecedentes no País.

O naufrágio de um agrupamento não significa necessariamente o afogamento coletivo de todos os seus membros. Assim como o senador Suplicy, até seu derradeiro dia de mandato, não terá sido atingido por nenhum respingo de escândalo, outros podem (ou poderiam) livrar a cara – para falar vulgarmente.

A perspectiva de ser lembrada como personalidade execrável não parece comover dona Dilma. Apesar de ter prometido mudança de atitude em seu discurso de reeleita, as últimas notícias não indicam redirecionamento no bom sentido. Aqui está um trecho do artigo publicado pelo jornalista Cláudio Humberto em seu Diário do Poder deste 14 dez° 2014:

Dilma AerolulaInterligne vertical 11a«Militares ganham pouco, ralam muito, são maltratados, sobretudo quem serve no Grupo de Transportes Especiais (GTE), responsável pelos aviões utilizados pela Presidência da República. Mas conseguem se divertir. Mostrando que esculacho não garante respeito, militares da FAB ridicularizam grosserias rotineiras de que são alvo chamando o jatão Airbus, que transporta Dilma Rousseff, de “Vassourão”.

Dilma está longe de ser uma Miss Simpatia a bordo dos aviões da FAB. A vingança veio a jato: passaram a se referir a ela como “Bruxa”

Taí. Ainda não é tarde demais. Dona Dilma ainda tem quatro anos pela frente para enfeitar a biografia. Se se obstinar nessa arrogância de menina mimada, periga ser um dia lembrada como aquela que já foi tarde.

O Lula e os nazistas

José Horta Manzano

Não há dúvida: o Lula tem o dom do mimetismo. É capaz de captar o espírito do ambiente em que se encontra e devolver o que cada espectador deseja ouvir. Quando, anos atrás, se descreveu como «metamorfose ambulante», não estava gracejando: a definição era exata.

radio 3Tivesse ele surgido nos anos 40 ou 50, seu sucesso teria sido muito mais longevo. Teria durado 20 anos no poder ou até mais. Como Franco, Salazar, Stalin & companhia. O Lula procura sempre – dentro dos limites de sua própria erudição – adaptar o pronunciamento à plateia.

Para falastrões, o problema maior de nossos tempos é que a informação se propaga com a velocidade do raio. Falou aqui e agora, todo o mundo já está sabendo daqui a segundos. Portanto, ficou difícil restringir o discurso aos que compareceram de corpo presente. Celulares permitem propagação imediata por meio de voz, uotisápis, feicibúquis, fotos, vídeos e outros tchapitchápis.

Em pronunciamento feito ontem em Pernambuco, o Lula comparou Aécio Neves aos nazistas(!). Questionou o fato de o moço não ter pegado em armas contra a ditadura – escamoteando o fato de que, nascido em 1960, o senhor Neves era pré-adolescente quando dona Dilma tentava um golpe armado contra o governo.

Foi mais longe. Herodes, Jesus Cristo, The Economist e os banqueiros entraram no discurso. Discurso? Estava mais pra salada mista. O tribuno insistiu na contraposição entre «nós» e «eles», sendo que, desta vez, o «nós» são os nordestinos. «Eles» são o resto do povo brasileiro.

Foi ovacionado, naturalmente. A esmagadora maioria dos ouvintes não faz a menor ideia do que tenham sido os nazistas. Aliás, duvido que o próprio Lula tenha ampla noção do assunto. Ninguém calculou mentalmente pra se dar conta de que dona Dilma e o senhor Aécio não são da mesma geração e que, portanto, suas trajetórias não poderiam ter sido paralelas.

DiscursoHerodes entrou na história do Lula como Pilatos entrou no Credo: por estar no lugar errado e na hora errada. Mais desonesta ainda é a tentativa do Lula de identificar a mineira bem-nascida Dilma com os deserdados do Nordeste enquanto instala o mineiro bem-nascido Aécio como carrasco dos desprovidos.

Em resumo, uma fala sem pé nem cabeça, pronunciada por quem não sabe o que está dizendo e destinada a quem não sabe o que está ouvindo.

A difusão ultrarrápida da informação, no entanto, trabalha contra tribunos populistas. Discursos incisivos têm efeito ambíguo. Agradam a uns e chocam outros. Será por isso que os mandatários atuais se opõem tão ferozmente à liberdade de imprensa.

Candura e caradura

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 2 nov° 2013

Libellus vere aureus nec minus salutaris quam festivo de optimo statu rei publicæ deque nova insula Utopia. Sem brincadeira, esse era o título original do livro ― escrito em latim, como se usava ― que Sir Thomas More publicou em 1516. Passou de moda dar nomes tão longos. Para se referir à obra alegórica do humanista inglês, basta hoje chamá-la Utopia. Aliás, o termo genial criado pelo erudito britânico está hoje no balaio das palavras comuns, prestígio máximo reservado a raros nomes próprios.

A Utopia de Sir Thomas encerrava uma crítica, velada mas acerba, à orientação que tomavam os costumes da sociedade e dos governantes de seu tempo. Não cabe aqui discutir os prós e os contras da visão política do autor. Meio milênio escorreu, o mundo já não é o mesmo, comparações não fazem sentido. O fato é que utopia, neologismo autêntico, entrou nas línguas modernas com o sentido de ideal inatingível, quimera, sonho impossível de realizar.

Já faz mais de 10 anos que estrategistas obram para implantar no Brasil uma hegemonia política. Ideólogos, políticos e marqueteiros compõem o grupo. Alguns rostos, daqueles que aparecem à luz do dia, são ultraconhecidos. Há também aqueles de quem pouco se fala, eminências pardas a mover-se nos bastidores palacianos. O ponto comum entre todos é que têm arregaçado as mangas, muita vez com invulgar ousadia. Têm dado o melhor de si com vista ao objetivo comum que estipularam: perpetuar-se no comando do país.

São cândidos sonhadores. Estão tomando a utopia ao pé da letra sem se dar conta de que a missão é impossível. Já faz tempo que o povo, esperto, sabe que não há mal que sempre dure nem bem que nunca se acabe. Tudo tem um começo e um fim. Acreditar na perenidade de uma situação é devaneio.

Nossos sagazes planejadores não são os primeiros a tentar desafiar a finitude de todas as coisas. Ao ser implantado em 1933, o III Reich estava previsto para durar um milênio. Durou 12 anos. A União Soviética, ao preço de muita tristeza, de muita fome e de milhões de mortos, conseguiu resistir por algumas décadas, mas acabou desmoronando sozinha, num tombo melancólico e inglório. Ao atual regime chinês, de comunista, só sobrou o nome. A realidade no Império do Meio está bem longe da senda traçada por Mao.

Utopia

Utopia

Franco, Perón, Nasser, Salazar, Stalin, Marcos, Duvalier, Tito, Saddam ― todos passaram. A energia que dedicaram à tarefa de se enraizar no poder foi tamanha que não lhes sobrou tempo para cuidar da biografia. Foram todos varridos do palco e nem sequer deixaram rastro charmoso na História.

A casta que se alojou no governo federal está cada dia mais numerosa. Vai-se tornando mais e mais difícil manter coesa essa multidão. Trincas, rachaduras e dissensões já estão começando a surgir ― é inevitável. Não por acaso, dois frutos do mesmo eito estão entre as figuras mais cotadas para competir com a atual presidente nas próximas eleições, enfrentar a batalha de sucessão e encarar o veredicto das urnas. Dona Marina foi titular de um ministério alguns anos atrás. E o senhor Campos fazia parte, até anteontem, da base de sustentação do regime.

Se nossos bisonhos estrategistas deixassem a soberba e a caradura no vestiário e vestissem a túnica da modéstia, não tardariam a se dar conta de que, conquanto possam vencer uma que outra batalha, não ganharão a guerra pela eternização do statu quo.

A bolsa família, responsável por uma avalanche de votos, não deu os resultados que se podiam dela esperar. O número de beneficiários, que, segundo lógica elementar, deveria ir aos poucos diminuindo, tem paradoxalmente aumentado a cada ano. De locomotiva capaz de eliminar a miséria e alavancar a prosperidade, o programa tornou-se sombra protetora debaixo da qual estagnam famílias inteiras. Recebem peixes, sim, mas não foram iniciadas nas artes da pesca.

Temos estádios de padrão Fifa, mas serviços médicos públicos de padrão africano. O nível de instrução do povo não avançou uma polegada. A criminalidade se alastra a olhos vistos. A violência de todos os dias prospera. O vício da corrupção grassa, viçoso como nunca se viu. Vai-se insinuando na população uma percepção de decomposição social. Estão-se abrindo as portas de um futuro perigoso.

Em vez de trabalhar para permanecer no poder ad vitam æternam, melhor farão nossos diligentes dirigentes se se esforçarem para deixar boa lembrança de sua passagem pelos píncaros. Serão mencionados com admiração e simpatia nos livros de História dos séculos por vir. O resto é utopia.

Esquizofrenia

José Horta Manzano

Quando cheguei à Europa, quase 50 anos atrás, nós brasileiros éramos olhados com curiosidade. A gente se sentia realmente estrangeiro. Viajar custava caro, poucos podiam se dar ao luxo de fazer turismo de cá para lá ou de lá para cá. A maioria dos europeus nunca havia visto um visitante vindo de tão longe.

A Europa ainda era cheia de fronteiras, de vistos, de alfândegas. Hoje não é mais assim, mas naquela época, para passar de um país a outro, era absolutamente necessário apresentar documentos. Nossa nacionalidade era tão exótica, que cheguei a assistir a cenas surpreendentes.

Uma vez, ao atravessar uma fronteira rodoviária entre a Itália e a França, o policial de serviço recolheu nossos passaportes, mandou esperar, e desapareceu dentro da guarita. Voltou um momento depois acompanhado de um outro, que parecia ser seu chefe. Pelo olhar benévolo e inofensivo que nos lançaram, percebi que estavam movidos apenas pela curiosidade. Estavam vendo ― provavelmente pela primeira vez na vida ― gente de carne e osso proveniente de uma terra tão longínqua e improvável como era a nossa.

Alguns países exigiam visto de brasileiros. Entre eles, mui estranhamente, a Espanha. A autorização de entrada naquele país tinha um custo, é verdade, mas valia a pena: o visto espanhol era um prazer para os olhos. Uma enorme marca de carimbo de tinta roxa preenchia uma página inteira do passaporte. Metade da superfície carimbada vinha encoberta por uma fieira de estampilhas coloridas. Uma assinatura se sobrepunha ao bonito conjunto. O único senão é que todos os selos, sem exceção, traziam a cara de Franco, o feroz caudilho.

Espanha ― Selos antigos

Espanha ― Selos antigos

O tempo passou, as coisas mudaram. Hoje em dia, nem os próprios diplomatas brasileiros que servem na Europa conseguem dizer com exatidão quantos conterrâneos nossos, entre legais e clandestinos, vivem em cada país. Nos países mais concorridos, somos centenas de milhares.

Uma amiga minha, brasileira mas radicada há muitos anos na Europa, costuma dizer que dar um passeio em Genebra num domingo de verão à beira lago equivale a passear à beira-mar em Natal ou Fortaleza. A paisagem é bonita e os frequentadores são metade brasileiros e metade estrangeiros.

Talvez por falta de visão estratégica, o governo brasileiro costuma ser apanhado de surpresa assim que o panorama mundial se altera. Não só crises financeiras e outros eventos planetários têm o poder de colher nossos mandachuvas de calças curtas. Modificações paulatinas ― e previsíveis ― do comportamento dos cidadãos não costumam ser antecipadas. É preciso que a pressão esteja a ponto de fazer saltar a tampa para que alguém se preocupe em acionar a válvula de escape.

Assim foi com o aumento de brasileiros estabelecidos ― legal ou ilegalmente, pouco importa ― no exterior. Não aconteceu da noite para o dia. O aumento já vem se acentuando há um quarto de século. As representações consulares brasileiras, quase ociosas nos anos 60 e 70, foram-se tornando pouco a pouco mais movimentadas.

Até não faz muito tempo, pelo menos no consulado do Brasil em Genebra, o atendimento era caótico. Levas de conterrâneos se espremiam diante de dois exíguos guichês, senhas não eram distribuídas, não havia nenhuma cadeira disponível, o horário de atendimento era de 3 horas por dia. Cada um tinha seu problema: uma renovação de passaporte, uma legalização de documento, o registro de um recém-nascido, um documento militar, um título de eleitor, uma procuração. O atendimento só era possível na base da cotovelada.

Atendimento reverencioso

Atendimento reverencioso

De uns dois anos para cá, o esforço de um novo Cônsul-geral conjugado a uma tomada de consciência do Itamaraty operaram um milagre. Aquele apinhado de gente em frente do guichê é pesadelo do passado. Hoje marca-se hora ― perdão! ― hoje se agenda por internet e, no dia combinado, recebe-se atendimento personalizado. E pontual.

Não tenho informação, mas suponho que os demais consulados do Brasil estejam agora oferecendo o mesmo tratamento digno que recebemos aqui. Finalmente, o Itamaraty se deu conta de que os milhões de conterrâneos residentes no exterior não são banidos nem desterrados. São brasileiros como os outros e têm necessidade de atendimento.

É curioso constatar que a instituição que vem agora tratando os brasileiros do exterior com tanta urbanidade e tanto mimo é a mesma que afaga caudilhos confirmados e aprendizes, ditadores experimentados e iniciantes, e dignitários de regimes sanguinários no resto do mundo.

Sem dúvida, um caso curioso de esquizofrenia.

A hora é agora

José Horta Manzano

Regimes autoritários cujo mando está em mãos de um homem só dificilmente sobrevivem ao desaparecimento do guia, do timoneiro, do number one, ou como se queira chamá-lo. Assim foi na China de Mao, na Itália de Mussolini, na Espanha de Franco, no Portugal de Salazar e até no Haiti de Duvalier.

Há exceções que apenas confirmam a regra. São pouquíssimas. Entre elas, a mais conhecida: a Coreia do Norte. Poucas informações passam pela malha finíssima de segredo que envolve o país, mas tudo indica que sai líder, entra líder, e tudo continua como antes.

A partida de Chávez deixou órfãos. Não penso tanto nos eleitores que, fanáticamente ou não, o apoiavam. Para os venezuelanos, até que o futuro não se anuncia tão sombrio. Pior do que estava, é difícil que fique. Alguém terá de dirigir o país. Será aquele que o quase ditador havia ungido, será algum outro, será o chefe da oposição, pouco importa: alguém surgirá. E esse alguém estará a léguas do carisma do predecessor. Como disse François Hollande ao substituir Nicolas Sarkozy, o país terá, por fim, um presidente «normal». Seja ele quem for, o novo dirigente venezuelano será menos exótico.

Os verdadeiros órfãos de Chávez estão fora das fronteiras venezuelanas. Como é que ficará o clã dos Castros em Cuba? E a Nicarágua de Ortega? E a Bolívia, o Equador? E a Argentina, nossa vizinha tão próxima? Todos eles dependiam, em maior ou menor medida, do apoio venezuelano. Um precisava de ajuda econômica, outro carecia de sustentação política, aqueloutro necessitava esteio ideológico. Alguns precisavam de tudo isso. Todos terão de encarar um futuro incerto. Nenhum deles tem chance de sair ganhando.America latina

No fundo, no fundo, o Brasil não é o maior prejudicado pela a falta do comandante. Pelo contrário. Não se pode contrariar o destino, nem refazer a História. Se uma luz miraculosa lograsse iluminar meia dúzia de decididores em Brasília, o que hoje parece uma contrariedade poderia ser transformado em tremenda oportunidade de “remettre l’église au milieu du village”, como dizem os franceses, de repor as coisas nos devidos lugares no âmbito do Mercosul.

Nosso bizarro clube está cada vez mais para agremiação ideológica que para associação de promoção comercial. O pequeno Paraguai, punido por respeitar sua própria Constituição, já foi botado para escanteio faz meses. Um Uruguai espremido entre dois vizinhos gigantescos não tem como fazer ouvir sua voz. A Venezuela, antes de retomar o caminho do crescimento equilibrado, assistirá a inevitáveis querelas intestinas que tendem a enfraquecê-la ainda mais. A Argentina, já afligida por crônicos problemas econômicos, será estrangulada pela falta dos dólares bolivarianos. Nesse cenário de infortúnio, o Brasil tem duas opções: ou continua sua obra estéril de bom samaritano, ou assume de vez as rédeas do clube e impõe-lhe as normas que o farão desempacar.

Pode insistir, como vem fazendo há anos, na tentativa de salvar a economia argentina. Até hoje, tem sido perda de tempo, de esforço e, principalmente, de dinheiro. Um poço sem fundo. Temos passado anos a discutir troca de geladeiras por chuveiros elétricos, enquanto muitos trens passaram. Não lhes fizemos caso, perdemos todos eles e continuamos a discutir geladeiras e chuveiros.

As cabeças pensantes de Brasília ― que ainda as há, tenho certeza ― podem agarrar a oportunidade para desempoeirar o Mercosul e para abrir o subcontinente a novos acordos comerciais e a novos horizontes condizentes com os tempos atuais. Que se ponham de lado as ideologias que nos atravancam e que se pense no crescimento econômico do País. O subcontinente nos acompanhará, é certeza.

Continuo torcendo para que os que decidem em nossas altas esferas virem a página dos ressentimentos pessoais e deem ouvidos ao chamado dos novos tempos. Não tenho muita esperança, mas não custa sonhar. Sai de graça e não faz mal a ninguém.

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Nota: Fala-se no diabo, e logo aparece o rabo. Li um post da Sylvia Colombo, correpondente da Folha de SP em Buenos Aires. Achei que era um bom complemento ao texto acima. Se quiser conferir, o caminho está aqui.