Tamanho não é documento

José Horta Manzano

A necessidade de aproximação entre países europeus se fez sentir sobre as cinzas fumegantes da Segunda Guerra. Para evitar que nova catástrofe sobreviesse, era urgente enquadrar a Alemanha. Era melhor não bobear. Se nada fosse feito, nova perigava estourar logo logo.

O embrião da atual União Europeia surgiu já no início dos anos 50, com a Ceca – Comunidade Europeia do Carvão e do Aço. São as matérias primas essenciais para fabricar armas e tanques. Controlar essa indústria em conjunto era boa vacina contra surpresas bélicas.

Em 1957, o Tratado de Roma fundou o Mercado Comum. Seis eram os países-membros: a Alemanha (naturalmente), a França, a Itália, a Holanda, a Bélgica e Luxemburgo. Embora o peso econômico dos três grandes fosse incomparavelmente superior ao dos demais, o nível de desenvolvimento e o PIB per capita de todos eram equivalentes.

Europa UEQuase vinte anos depois, nos anos 70, a lembrança da guerra já começava a se esfumar. O clube foi admitindo novos sócios. Afastado o espectro de conflitos armados, foi-se firmando a ideia de que quanto maior fosse o número de sócios melhor seria para todos. Sucessivamente, países foram sendo incorporados até chegar aos atuais 28 membros.

No papel, é bonito. O conjunto conta com meio bilhão de habitantes (duas vezes e meia a população brasileira). Em extensão, é o sétimo território no planeta, logo após Brasil e Argentina. Tem o maior PIB mundial – 18 trilhões de euros. Porém…

Na prática, a teoria é outra. Na ânsia de arrebanhar países, privilegiaram a quantidade em detrimento da qualidade. Deu no que deu, um dramático desequilíbrio entre membros.

Enquanto cada um tinha sua moeda, ainda era possível, por meio de desvalorizações, corrigir discrepâncias entre sócios. Depois que se cometeu a loucura de instituir moeda única para economias díspares – deixando a cada país a liberdade de determinar sua própria política monetária – o desastre estava programado. Taí, estourou. O problema grego escancarou a imprudência.

Macarrão 1O Mercosul está seguindo o mesmo caminho temerário. Já emperrado pelas rusgas crônicas entre o Brasil e a Argentina, chamou a Venezuela e agora a Bolívia. Sem contar a Guiana (ex-inglesa) e o Suriname (antiga Guiana Holandesa), que estão à porta, com um pé dentro. Por que não a Mongólia?

Francamente, está armada a receita do cruz-credo. Se o clube já não funcionava com quatro sócios, por que, diabos, funcionará com sete ou oito? Tamanho não é documento. Como dizem os italianos: “Pochi ma buoni, come i maccheroni” – pouco, mas bom, como o macarrão.

De ceca em meca

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 1° junho 2013

Quando, em 1951, foi criada a Ceca ― Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, as cicatrizes da Segunda Guerra ainda estavam abertas. Ninguém tinha vontade de reviver a experiência.

Para o fabrico de tanques de guerra, aviões e outras armas, era imprescindível dispor de aço e de carvão. O intuito da nova instituição era esconjurar o perigo de um rearmamento, em especial da temida Alemanha. Controlando a produção de aço e a extração de carvão, ficava mais fácil vigiar. Cada país ficava sabendo o que o vizinho andava aprontando.

Deu certo. A Europa começou a se apaziguar. Seis anos mais tarde, os mesmos países fundadores da Comunidade do Carvão e do Aço deram um novo passo: assinaram o Tratado de Roma e fundaram o Mercado Comum Europeu.

Foi um sucesso. Na França, forjou-se até a expressão les trente glorieuses, os trinta anos gloriosos. Esse epíteto tem sido utilizado para indicar os anos 60, 70 e 80, período de calma e de crescimento econômico ininterrupto que trouxe paz e progresso a todos os povos da Europa Ocidental.

Mas o passar do tempo altera a percepção das gentes. Passados 50, 60 anos da hecatombe de 1945, a geração que tinha conhecido a guerra foi desaparecendo. Para os jovens de hoje, a União Europeia, sucessora do Mercado Comum, é ressentida como causa de muitos dos males. Os funcionários de Bruxelas tornaram-se saco de pancada. Atribui-se-lhes a culpa de tudo o que não funciona: crise econômica, inflação, desemprego, desindustrialização, descontrole imigratório.

Exorcizado o perigo de nova guerra, a UE deixou de fazer sentido para as novas gerações. É mais estorvo que solução.

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No começo dos anos 1960, o espectro do comunismo rondava os países da América Latina. Naquele mundo bipolar, ou se estava de um lado, ou se estava do outro. A paleta política só tinha duas cores e não deixava espaço para outros matizes. Cuba já havia caído na órbita da União Soviética. Muitos brasileiros sentiam medo. Essa insegurança está na raiz da reviravolta que o Brasil sofreu em 1964, quando o poder passou para as mãos dos militares.

O que aconteceu desde então, todos conhecem. A quebra da legalidade, programada em princípio unicamente para repor o País no bom caminho, acabou durando muito mais do que estava previsto. Endureceu e eternizou-se. O regime de exceção só começou a terminar em 1985, com a eleição ― ainda que indireta ― de um presidente civil. O tiro de misericórdia veio mesmo em 1988, com a promulgação de nova Constituição.

Óculos escuros de sinistra memória

Óculos escuros de sinistra memória

No entanto, o passar do tempo faz que pessoas se vão e lembranças se embacem. A geração que conheceu o sufoco do regime militar está envelhecendo. Mais alguns anos, e não sobrará ninguém. A História pode-se repetir. Aliás, as primícias estão apontando no horizonte. Quem tiver olhos para ver, que veja.

Caída justamente no feriado do 1° de maio, uma notícia inquietante passou quase despercebida. O Instituto Datafolha publicou uma pesquisa de aparência inofensiva, mas que deveria dar que pensar. Segundo a sondagem, apenas 53% dos paulistanos concordam com a frase «democracia é sempre melhor do que qualquer outra forma de governo». Infere-se, por consequência, que a outra metade dos entrevistados não se importaria se não vigesse a democracia. Um cidadão em cada dois.

A pesquisa foi mais longe. Uma pergunta mais explícita deixou claro que 19% dos paulistanos concordam que «em certas circunstâncias, é melhor uma ditadura do que um regime democrático». De cada 5 entrevistados, um pensa assim. E a curva é ascendente.

Tanto em ceca quanto em meca, as mesmas causas costumam engendrar os mesmos efeitos. Em 1964, o rebuliço nas altas esferas era tão grande que a população do País viu com bons olhos, num primeiro tempo pelo menos, a instalação de uma ditadura. Havia esperança de que os militares varressem o «mar de lama», como se dizia na época e preparassem o Brasil para um futuro risonho. Deu no que deu.

Daqui a alguns anos, poucos se lembrarão dos anos de chumbo. Pelo andar da carruagem, a incompetência que nossos mandachuvas têm mostrado de fixar objetivos para o País tende a paralisar a governança, a ratificar sua irrelevância e, pior, a atestar sua perniciosidade. A tentação de invocar uma quebra da ordem constitucional e a instalação de um regime moralizador pode tornar-se irrefreável.

Os que controlam as rédeas do poder deveriam refletir profundamente sobre o futuro que estão forjando para os brasileiros e, naturalmente, para si mesmos.