Da boca pra fora

José Horta Manzano

Dois séculos atrás, Napoleão Bonaparte já tinha aprendido a lição dos antigos. Excluída a opção militar, só resta uma medida para amolecer o governo de um país e obrigá-lo a entrar na linha: o bloqueio econômico. Sem recursos financeiros, ninguém aguenta.

O Brasil e mais onze países hermanos publicaram nota conjunta exortando a Venezuela a voltar aos trilhos. Pelos códigos diplomáticos, é de bom tom, mas… sabe qual será a consequência? Nenhuma. Ou alguém imagina que señor Maduro tem medo de papel assinado? Declarações «da boca pra fora» não botam medo em ninguém.

by Darío Castillejos, desenhista mexicano

Pensando bem, na sua agressiva ingenuidade, Mr. Trump estava mais próximo do bom caminho. Uma ameaça de intervenção militar no país vizinho ‒ se tivesse sido feita na surdina e com jeito ‒ teria sido mais eficaz. Pena que o presidente americano seja tão desastrado. Com seu gesto desengonçado, queimou o trunfo maior e pôs tudo a perder.

Grosso modo, a Venezuela só exporta petróleo enquanto importa todo o resto. Na medida que o mundo continuar comprando petróleo venezuelano e vendendo mercadorias a nosso vizinho de parede, a agonia vai-se prolongar. Se os doze signatários do dito Grupo de Lima ‒ entre os quais, naturalmente, o Brasil ‒ deixassem de comprar da Venezuela e se abstivessem de vender-lhe o que fosse, a ditadura estaria com os dias contados.

Francamente, nesta altura dos acontecimentos, a coisa por lá anda tão feia que vale a pena adotar atitude firme. Perseguida pelas milícias armadas, a procuradora-geral do país teve de se refugiar na Colômbia ontem. O distinto leitor se dá conta da gravidade do acontecimento? É como se doutor Janot, acossado por esbirros palacianos e com a vida em perigo, tivesse de pedir asilo ao Paraguai. O perfeito retrato do deus nos acuda.

As coisas estão de pernas pro ar. Quem devia estar pedindo refúgio é o caudilho e seu entourage truculento e ignorante. Que escapem todos rapidinho para Cuba (ou para a Coreia do Norte) e deixem o maltratado povo venezuelano respirar.

Caminho traçado

José Horta Manzano

Fascismo 4Lúcida e interessante é a visão do escritor boliviano Juan Claudio Lechín(*) sobre as diferenças entre ditadura e fascismo. Seu livro Las máscaras del fascismo, publicado em 2011 por Plural Editores (La Paz, Bolivia), corajoso e didático, põe o dedo na ferida. O livro traz subtítulo sugestivo: Castro, Chávez, Morales, um ensaio comparativo.

Um decálogo (dodecálogo seria melhor dito) elenca as principais características do perfeito caudilho fascista.

Interligne vertical 11c1. O caudilho fascista é messiânico, carismático e de origem plebeia.

2. Os braços do caudilho são o partido e a tropa de choque, seja paramilitar, seja militar ― com forte componente de aventureiros descompromissados e de delinquentes.

3. A língua do caudilho: a propaganda política.

4. A fé do caudilho: uma fantasiosa promessa política redentora.

5. O ouvido do caudilho: serviços de inteligência repressiva, espiões e delatores.

6. O caudilho toma carona na refundação da pátria e/ou na mudança do nome; na reforma constitucional e/ou na modificação da constituição e em novos símbolos do Estado.

7. O caudilho dedica-se a destruir atos eminentemente liberais ― valores e instituições.

8. O caudilho é antiliberal e antiamericano.

9. O caudilho transforma em igualdades políticas os seguintes conceitos: caudilho = partido = Estado = nação = pátria = povo = história épica.

10. O adeptos do caudilho: adesão popular militante. Retorno à servidão.

11. A perpetuação do caudilho no poder: governo vitalício, com ou sem eleições. Monarquia plebeia.

12. Valores medievais: coragem militar, arrojo, prestígio de morrer combatendo, valores marcadamente viris (machistas), senhoriais e homofóbicos. Inflamar a militância com inflamados discursos de confrontação, lutar por um ideal santo, contra o herege irreconciliável.

Com base nas características elencadas, o autor não reconhece o chileno Augusto Pinochet nem o argentino Jorge Rafael Videla como fascistas, apesar de seus crimes. Comandaram ditaduras, mas não fascismos.

A essência do pensamento de Lechín está resumida nestas poucas linhas:

Fascismo 3«El fascismo es un modelo pragmático para la toma absoluta del poder por parte de un caudillo mesiánico, por medio de la seducción o el crimen, las urnas o los fusiles, el discurso o el golpe, la nacionalización o la privatización y cualquier otro instrumento eficaz para el objetivo absolutista. En este concepto se inscriben todos los caudillos, cada uno ciertamente impulsado o frenado por las características de su propia realidad; de ahí que muestren diferentes desempeños aunque subyazca la misma naturaleza.»

Traduzindo, fica assim:

«O fascismo é modelo pragmático para a conquista absoluta do poder por parte de um caudilho messiânico por meio da sedução ou do crime, das urnas ou dos fusis, do discurso ou do golpe, da nacionalização ou da privatização, e de qualquer outro instrumento eficaz para alcançar o objetivo absolutista. Nesse espírito, inscrevem-se todos os caudilhos, cada um, por certo, estimulado ou freado pelas características de sua própria realidade. Eis por que, embora o modus operandi possa diferir, a mesma natureza esteja sempre latente.»

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Qualquer parecença com a realidade brasileira destes últimos anos pode não ser mera coincidência.

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(*) Juan Claudio Lechín Weise (1956-) é homem de letras e pensador boliviano, agraciado em 2004 com o Premio Nacional de Novela. Seus estudos começaram em seu próprio país e prosseguiram na Itália, no Peru, na Venezuela e nos Estados Unidos. Diplomado cum laude em Economia pela Universidade de Boston.

Frase do dia — 126

«Ao alinhar-se a Maduro, legitimando-o justamente no momento em que o chavista mais se empenha em esmagar qualquer forma de oposição, o governo Dilma escolheu a causa que mais lhe agrada.»

Editorial do Estadão, 4 abr 2014.

Esquizofrenia

José Horta Manzano

Quando cheguei à Europa, quase 50 anos atrás, nós brasileiros éramos olhados com curiosidade. A gente se sentia realmente estrangeiro. Viajar custava caro, poucos podiam se dar ao luxo de fazer turismo de cá para lá ou de lá para cá. A maioria dos europeus nunca havia visto um visitante vindo de tão longe.

A Europa ainda era cheia de fronteiras, de vistos, de alfândegas. Hoje não é mais assim, mas naquela época, para passar de um país a outro, era absolutamente necessário apresentar documentos. Nossa nacionalidade era tão exótica, que cheguei a assistir a cenas surpreendentes.

Uma vez, ao atravessar uma fronteira rodoviária entre a Itália e a França, o policial de serviço recolheu nossos passaportes, mandou esperar, e desapareceu dentro da guarita. Voltou um momento depois acompanhado de um outro, que parecia ser seu chefe. Pelo olhar benévolo e inofensivo que nos lançaram, percebi que estavam movidos apenas pela curiosidade. Estavam vendo ― provavelmente pela primeira vez na vida ― gente de carne e osso proveniente de uma terra tão longínqua e improvável como era a nossa.

Alguns países exigiam visto de brasileiros. Entre eles, mui estranhamente, a Espanha. A autorização de entrada naquele país tinha um custo, é verdade, mas valia a pena: o visto espanhol era um prazer para os olhos. Uma enorme marca de carimbo de tinta roxa preenchia uma página inteira do passaporte. Metade da superfície carimbada vinha encoberta por uma fieira de estampilhas coloridas. Uma assinatura se sobrepunha ao bonito conjunto. O único senão é que todos os selos, sem exceção, traziam a cara de Franco, o feroz caudilho.

Espanha ― Selos antigos

Espanha ― Selos antigos

O tempo passou, as coisas mudaram. Hoje em dia, nem os próprios diplomatas brasileiros que servem na Europa conseguem dizer com exatidão quantos conterrâneos nossos, entre legais e clandestinos, vivem em cada país. Nos países mais concorridos, somos centenas de milhares.

Uma amiga minha, brasileira mas radicada há muitos anos na Europa, costuma dizer que dar um passeio em Genebra num domingo de verão à beira lago equivale a passear à beira-mar em Natal ou Fortaleza. A paisagem é bonita e os frequentadores são metade brasileiros e metade estrangeiros.

Talvez por falta de visão estratégica, o governo brasileiro costuma ser apanhado de surpresa assim que o panorama mundial se altera. Não só crises financeiras e outros eventos planetários têm o poder de colher nossos mandachuvas de calças curtas. Modificações paulatinas ― e previsíveis ― do comportamento dos cidadãos não costumam ser antecipadas. É preciso que a pressão esteja a ponto de fazer saltar a tampa para que alguém se preocupe em acionar a válvula de escape.

Assim foi com o aumento de brasileiros estabelecidos ― legal ou ilegalmente, pouco importa ― no exterior. Não aconteceu da noite para o dia. O aumento já vem se acentuando há um quarto de século. As representações consulares brasileiras, quase ociosas nos anos 60 e 70, foram-se tornando pouco a pouco mais movimentadas.

Até não faz muito tempo, pelo menos no consulado do Brasil em Genebra, o atendimento era caótico. Levas de conterrâneos se espremiam diante de dois exíguos guichês, senhas não eram distribuídas, não havia nenhuma cadeira disponível, o horário de atendimento era de 3 horas por dia. Cada um tinha seu problema: uma renovação de passaporte, uma legalização de documento, o registro de um recém-nascido, um documento militar, um título de eleitor, uma procuração. O atendimento só era possível na base da cotovelada.

Atendimento reverencioso

Atendimento reverencioso

De uns dois anos para cá, o esforço de um novo Cônsul-geral conjugado a uma tomada de consciência do Itamaraty operaram um milagre. Aquele apinhado de gente em frente do guichê é pesadelo do passado. Hoje marca-se hora ― perdão! ― hoje se agenda por internet e, no dia combinado, recebe-se atendimento personalizado. E pontual.

Não tenho informação, mas suponho que os demais consulados do Brasil estejam agora oferecendo o mesmo tratamento digno que recebemos aqui. Finalmente, o Itamaraty se deu conta de que os milhões de conterrâneos residentes no exterior não são banidos nem desterrados. São brasileiros como os outros e têm necessidade de atendimento.

É curioso constatar que a instituição que vem agora tratando os brasileiros do exterior com tanta urbanidade e tanto mimo é a mesma que afaga caudilhos confirmados e aprendizes, ditadores experimentados e iniciantes, e dignitários de regimes sanguinários no resto do mundo.

Sem dúvida, um caso curioso de esquizofrenia.