Pirotecnia

José Horta Manzano

Bronca 2Desde que o mundo é mundo, todos sabemos que as grandes decisões, aquelas realmente capazes de mudar o curso da história, não são tomadas em reuniões sob a luz dos holofotes. Não precisa ter seguido curso por correspondência de espionagem para entender que o segredo é a alma do negócio. Faz séculos que todo comerciante conhece o caminho. Cochicho de corredor vale mais que pronunciamento diante de uma selva de microfones.

Numa operação tão espalhafatosa quanto esquisita, a PF chamou câmeras para testemunhar apreensão de bens do Collor. Foi surpreendente por várias razões. Apreender bens e deixar o dono solto é estranho. Anunciar a notícia aos quatro ventos é mais bizarro ainda. Fica no ar desagradável impressão de pirotecnia, de cortina de fumaça para impressionar a galeria e para ocultar fatos mais estorvantes.

Se o objetivo era impressionar (e pressionar) figurões políticos, os mentores da operação merecem nota dez: semearam desespero. Quem deve, teme. Muitos devem, logo muitos temem.

Bronca 1Em reação vexaminosa e reveladora, nosso guia precipitou-se para confabular com a atual presidente e aconselhá-la. Não se tem notícia de antigos presidentes que se tenham permitido levar, pessoalmente e de vontade própria, conselho ao ocupante do trono. Se aconteceu, ficou nas sombras.

Muito a seu hábito, o antigo mandatário não se contentou com discreta reunião, daquelas em que realmente se decidem rumos. Deixou que detalhes das discussões «vazassem». Ficamos sabendo que sua antiga excelência esbravejou – ora vejam só – com dona Dilma, nossa orgulhosa presidente.

Bronca 3«Você não tem que ficar falando de Lava a Jato!», «Vovê tem de governar, ir pra a rua!» – são expressões desabusadas do pesado esbregue que nossa altiva presidente teve de engolir do guru. O raciocínio peculiar do ex-presidente não evoluiu. Em sua visão de mundo, basta deixar de mencionar a realidade para fazê-la desaparecer. Segundo relato do jornal, a conversa foi «cordial». Permitam-me duvidar.

Pode-se classificar o episódio como encenação para a galeria ou como expressão de terror pânico. Fico com esta última explicação. De toda maneira, reunião decisória é que não foi. Também, pudera: com a água chegando ao nível da cintura, está a cada dia mais próxima a hora do “abandonem a nave e salve-se quem puder”.

Mistérios de gênero

José Horta Manzano

No passado, as atividades femininas restringiam-se a afazeres domésticos e a trabalho na agricultura. Fora desse universo restrito, era o clube do Bolinha: só homens tinham vez.

Soldado 1A Revolução Industrial expandiu o horizonte profissional das mulheres. Guerras que devastaram a população masculina também colaboraram. No século XX, a diversificação das atividades humanas permitiu que moças e senhoras passassem a exercer profissões que antes lhes eram vedadas.

À medida que possibilidades se abriam, nome de profissão foi ganhando equivalente feminino. Assim, apareceram as primeiras médicas, professoras, deputadas, engenheiras, filósofas, escritoras. Até estivadoras, delegadas de polícia e juízas existem. Há diretores e diretoras, vendedores e vendedoras, empregados e empregadas, assalariados e assalariadas.

Curiosamente, uma profissão exercida por número crescente de mulheres ainda não ganhou denominação feminina. Ainda hoje, ouvi pelo rádio o depoimento de uma moça apresentada como soldado da Polícia Militar. «Ela é soldado». Soa estranho, não?

Soldado 2Soldado deriva de soldo, retribuição devida a militares. Em latim, soldus – contração de solidus – designava moeda de ouro ou de prata. Entre as palavras da família, algumas ainda se referem a dinheiro ou a pagamento. Dizemos saldar uma dívida, por exemplo. Os antigos diziam «venda de saldos» – expressão hoje arcaica, substituída que foi por «sale», que é muito mais chique.

Concordo que alguns femininos dão margem a forma estranha. Para evitar hilaridade, é melhor evitar dizer torneira mecânica, por exemplo.

A meu ver, no entanto, não há por que hesitar em dizer soldada. Não me parece ofensivo, nem ambíguo, nem politicamente incorreto. Além do mais, está abrigado sob o manto do vocabulário da Academia Brasileira de Letras. Portanto, é de lei.

A semana em revista

by Amarildo Lima, desenhista capixaba

by Amarildo Lima, desenhista capixaba

Cuba e o Mais Médicos A Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) já recebeu, por meio do Mais Médicos, mais de R$ 4,3 bilhões do governo federal. Alvo de graves denúncias de uso do programa como fachada para financiar a ditadura cubana, a Opas repassava aos médicos apenas 10% dos R$ 11 mil pagos por profissional, levando quase cinquenta cubanos a desertarem e fugirem do Brasil para não correrem risco de deportação.

Claudio Humberto, jornalista.

Comentário deste blogueiro A notícia não menciona crescente suspeita de que boa parte dessa fortuna tenha sido repatriada ao Brasil. Tanto pode ter vindo em malas, como pode ter sido depositada em contas offshore. De toda maneira, que se saiba, o dia a dia do sofrido povo da ilha não melhorou com esses bilhões todos.

Interligne 28aBrasil e ChinaFaçanha diplomática Uma das façanhas da diplomacia inaugurada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2003, foi isolar o País das grandes oportunidades de integração comercial, torná-lo dependente em excesso do Mercosul e da vizinhança e condená-lo a uma relação semicolonial com a China. Rolf Kuntz, jornalista.

Interligne 28aDilma nas mãos de Cunha Enrolada nas pedaladas fiscais, Dilma Rousseff reclama com aliados que está nas mãos do presidente da Câmara, Eduardo Cunha. Ela tem razão em se preocupar. Cunha vive às turras com o PT, que o hostiliza, e será ele quem analisará a admissibilidade de eventual pedido de impeachment. E quem o conhece sabe que se ele colocar o caso em votação, no plenário, dificilmente Dilma escapará. É o que a apavora.

Claudio Humberto, jornalista.

Interligne 28aEquador 2Onda de manifestações no Equador Bastou o papa Francisco deixar o território equatoriano para que milhares de pessoas voltassem às ruas, na última quinta-feira, em Quito e Guayaquil, com faixas de «Fora, Correa, fora» e «O Equador não é a Venezuela».

Sylvia Colombo, jornalista.

Comentário deste blogueiro É em momentos como esse que o Brasil, cuja ambição é liderar a região, teria de usar seu peso político e econômico para pressionar o governo equatoriano com vista a repor aquele país nos trilhos. Somos os principais responsáveis pela sobrevivência de governos autocráticos como os do Equador, da Bolívia e da Venezuela – relíquias mumificadas de um tempo que passou.

Interligne 28aBrics 2Patota Na Rússia, a presidente Dilma Rousseff defendeu a cooperação entre os integrantes do Brics – Brasil, Rússia, China, Índia e África do Sul – como reação à crise. Presa ao cacoete, mais uma vez uma autoridade brasileira insiste na fantasia do clubinho alternativo como forma de sobreviver no mundo malvado.

Rolf Kuntz, jornalista.

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Entre cobras e caranguejeiras

José Horta Manzano

Você sabia?

Alguns dias atrás, contei-lhes o caso curioso de um hotel situado exatamente sobre a linha de fronteira entre França e Suíça, situação singular que faz do estabelecimento um caso à parte em matéria de pertencimento nacional.

O Brasil e o Suriname, como sabem meus cultos leitores, são os únicos países americanos a compartilhar fronteira terrestre com a Europa – melhor dizendo, com algum país europeu.

Fronteira seca entre Brasil e França

Fronteira seca entre Brasil e França

De fato, a Guiana Francesa, nossa vizinha de parede, goza do estatuto de território francês ultramarino. É considerada por Paris parte integrante do país, sujeita às mesmas leis, aos mesmos direitos e aos mesmos deveres. Um guianense é tão francês quanto um parisiense ou um marselhês.

Séculos atrás, quando o Brasil começou a tomar forma como nação, a preocupação em demarcar fronteiras tinha caráter essencialmente militar. Cada Estado procurava proteger-se contra invasão de vizinhos.

Hoje a situação é mais complexa. Petróleo, urânio, tungstênio, manganês, lítio e outras preciosidades entraram na sacola de interesses. Convém definir muito certinho onde acaba meu quintal e onde começa o do outro, que é pra evitar confusão.

A fronteira seca entre o Amapá e a Guiana Francesa mede 320 quilômetros. Foi inspecionada pela última vez em 1962, quando se instalaram sete marcos divisórios. Neste meio século, surgiram GPS, drones, helicópteros, aparelhos de precisão, comida desidratada fácil de transportar, mas… a floresta continua lá, inóspita, úmida, impenetrável.

Borne = marco divisório Trijonction = fronteira tríplice

Borne = marco divisório
Trijonction = fronteira tríplice

Paris e Brasília puseram-se de acordo para conferir o trabalho dos anos sessenta. Organizaram uma expedição binacional incluindo legionários, pesquisadores, geógrafos, botanistas e guias. Estão, estes dias, em plena ação. Segundo o último relato, feito pela televisão francesa, já haviam encontrado quatro dos sete marcos divisórios plantados há 52 anos. Faltam três.

Fizeram descobertas surpreendentes, como um rio não repertoriado na última expedição. Ao final da aventura, a linha de fronteira deverá ser corrigida, uns quilômetros mais pra lá, outros mais pra cá.

Nem só de crise político-criminal vive o Brasil. Faz bem à alma saber que outras atividades continuam se desenvolvendo longe de ratazanas políticas e próximas de cobras, aranhas e macacos.

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Quem quiser dar uma espiada na reportagem de cinco minutos da televisão francesa clique aqui.

O conhaque francês

Sebastião Nery (*)

Alcântara era contínuo do palácio do governo do Rio Grande do Norte. Afonso Pena, presidente da República, ia visitar o Estado. Alcântara pediu para fazer parte da comitiva que ia esperar o presidente na estação ferroviária de Nova Cruz, divisa da Paraíba com o Rio Grande do Norte.

O governador concordou. Mas o secretário do governador achou um absurdo. Onde já se viu contínuo esperando presidente? Chamou Alcântara.

– O governador deixou, você vai. Mas, antes de o trem entrar na estação, você salta no triângulo. (Triângulo é o espaço de manobra de trens, na entrada da estação.)

Presidente 4 Afonso PenaAFONSO PENA
Quando o trem do governador ia entrando na estação, antes da chegada do presidente, Alcântara saltou no triângulo. Daí a pouco, entra o trem do presidente no mesmo triângulo para manobrar. Alcântara subiu, foi entrando, deu de frente com o presidente e foi o primeiro a dar boas-vindas a Sua Excelência. E foi mostrando a cidade da janela.

Quando o trem do presidente chegou à estação, o governador, o secretário do governador, os puxa-sacos do governador levaram o maior susto. Era Alcântara quem aparecia na porta, ao lado do presidente, apresentando-o às autoridades estaduais.

ALCÂNTARA
Seguem para Natal. Chegando cansado ao palácio, o presidente pediu logo um banho. De repente abriu a porta do banheiro, meteu a cabeça:

– Onde está o Alcântara?

Alcântara apareceu, conversou com o presidente, saiu. Ninguém entendia nada, Alcântara sendo chamado, Alcântara atendendo.

No dia da partida, à beira do cais (o presidente voltou de navio), Afonso Pena chamou Alcântara, deu-lhe um abraço e lhe disse alguma coisa ao ouvido. Alcântara sorriu, saiu, não disse nada a ninguém.

Garrafa 1A GARRAFINHA
Um mês depois, o Diário Oficial da União publicava um ato do presidente Afonso Pena nomeando Alcântara administrador do porto de Santos. Foi um escândalo no Rio Grande do Norte.

Mistério? Não. No bolso do paletó, tamanho portátil, Alcântara carregava sempre uma garrafinha de conhaque francês. E Afonso Pena era doido por um golinho de conhaque francês.

(*) Excertos das memórias do jornalista Sebastião Nery.

À moda do Porto

José Horta Manzano

Guerrilha 2Sabe aquela adolescente rebelde, respondona, malcriada? Aquela que falta às aulas, enfrenta a mãe, desafia o pai, grita com toda a família, faz tudo o que não deve? Nem toda jovem é assim, mas uma ou outra sempre exagera na dose. Como diz o outro, arroubos da juventude são um mal que a idade cura.

Cura? Algumas pessoas são mais resistentes. Há quem espere até os 30 ou os 40 pra consertar. E há quem não endireite nunca. Nessa categoria, está a presidente de nossa maltratada República.

Ela não confessa comportamento bicudo na juventude – talvez porque ninguém lhe tenha feito a pergunta. No entanto, o fato de ter crescido no torpor de família de classe média próspera e, assim mesmo, ter-se deixado seduzir por grupúsculo paramilitar de métodos violentos é significativo. Sua rebeldia vem de longe.

Avião 6«Elle n’en fait qu’à sa tête»ela não ouve ninguém, como dizem os franceses. Já à beira dos setenta aninhos, dona Dilma persevera. Em matéria de relacionamento humano, é pródiga em desastres: consegue desagradar, ao mesmo tempo, a gregos, troianos, dinamarqueses e mongóis. Semeia antipatia por onde passa. Veja as proezas de que nossa chefe foi capaz em apenas 48 horas.

Em entrevista à Folha de São Paulo, desafiou Deus e o mundo a demovê-la do trono presidencial. «Que venga el toro!» Ora, quem tem 9% de aprovação não está com essa corda toda. Convém guardar a farofa no embornal. Não é momento para bravatas. Enfurecer o adversário é tudo o que ela não devia ter feito.

Revolution 3Segundo o jornalista Cláudio Humberto, pegou mal a carteirada que ela cometeu ao pedir apoio de deputados para contrabalançar acusações de pedaladas fiscais lançadas pelo TCU. Um dos ministros daquele tribunal, irritado, analisou: «Dilma não percebeu que, neste momento, precisa mais de advogado do que de deputado.»

O mesmo jornalista relata que dona Dilma já não reconhece os (poucos) que restam à sua volta. Em reunião no último dia 6, foi grosseira com o ministro Luiz Adams (Advocacia Geral da União) e com um pobre garçom.

Repetindo o desastre protagonizado um ano e meio atrás, a mandatária, a caminho de Moscou, fez escala em Portugal. Com a numerosa comitiva naturalmente. Como da última vez, a agenda oficial omitiu a parada.

A desculpa providencial é «parada técnica» imprescindível em virtude da baixa autonomia do avião. Ora, encher o tanque não demanda mais que umas dezenas de minutos. Fosse só isso, meia hora bastaria. Mas… nossa presidente não resiste a um bom bacalhau à moda do Porto, daquele de arrebitar-se-lhe as orelhas.

Bacalhau 1Sabem quem é o culpado dessas frequentes escalas lusitanas? Pois é o Lula, minha gente. Sim, senhores! Foi ele quem, na hora de substituir o Sucatão, desprezou a indústria nacional e decidiu-se pelo Airbus 319.

Baixa autonomia por baixa autonomia, teria sido melhor prestigiar a Embraer. Afinal, a empresa de São José dos Campos é o terceiro fabricante mundial de aviões.

Alguém imagina avião presidencial de Obama, Merkel, Hollande ou Putin fazendo «escala técnica» bacalhoeira?

Aniversário de criança

José Horta Manzano

Olho de sogra 1Tem horas em que a gente percebe claramente que está envelhecendo. Passeando pelo Estadão de 6 julho, topei com um artigo surpreendente. Aprenda a fazer a decoração de um aniversário em casa – era o título. Intrigado, fui dar uma espiada. Não era um texto, mas um filminho de três minutos e meio. Mostra, passo a passo, como recortar bandeirolas e outros penduricalhos para enfeitar festa de aniversário infantil.

Bolo 1Decididamente, faz muito tempo que fui criança. Sei não, mas me parece que, nos tempos de antigamente, donas de casa(1) não precisavam de filminho pra aprender a recortar aquelas bandeirinhas que combinam com festa junina. De qualquer maneira, não havia internet, suplemento feminino de jornal era impresso em preto e branco. Televisão era incipiente, cheia de chuvisco e de chiado, imagem sem cores. Aliás, havia mais televizinhos(2) que televisores.

Televisao 6

As crianças de hoje, mais evoluídas, estão sem dúvida interessadas na decoração e nos quadrinhos grudados na parede. Conosco, era diferente. O que não podia faltar em festa de criança era guaraná e olho de sogra. Brigadeiro, então, era obrigatório. E ápice da comemoração: o bolo! Sempre feito em casa, que «bolo de padaria», além de custar caro, não tinha o mesmo gosto.

by Alfredo Volpi (1896-1988) artista ítalo-brasileiro

by Alfredo Volpi (1896-1988)
artista ítalo-brasileiro

Cachorro quenteCardápios mais consistentes podiam incluir cachorro quente com molho de tomate. A gente não apreciava muito porque, ao apertar o pão umedecido, a salsicha tinha desagradável tendência a escapar pelo outro lado.

Havia quem fizesse docinho de abacaxi. Não era ruim, o chato era aquele cravo-da-índia espetado no meio. Dava um gosto esquisito.

Bala de cocoE as balas de coco então? Vinham dispostas numa espécie de fruteira de dois ou três andares. Cada bala – que os adultos chamavam alfenim – vinha embrulhadinha em papel de seda colorido, com rabicho comprido e todo franjado. Era muito decorativo.

Imagino que, decorada com bandeirolas e quadrinhos, a sala fique muito elegante. Assim mesmo, aposto que a criançada está de olho mesmo é no brigadeiro.

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Brigadeiro 1(1) Peço desculpas se a expressão dona de casa tiver se tornado ofensiva. Não costumava ser. Se for o caso, desconheço o circunlóquio que a substituiu. Sorry.

(2) Televizinho era a sugestiva maneira de designar aquele que não tinha televisor em casa e que só assistia quando era convidado por um vizinho.

Vazamento seletivo

José Horta Manzano

Espião 4O que se passa na cabeça de cada um é mistério. Quem saberá dizer por que cargas d’água o australiano Julian Assange resolveu, um belo dia, criar um site para espalhar segredos de Estado? Curiosa ideia.

Meus cultos e distintos leitores sabem quem é o mencionado cavalheiro. Fundou um site especializado em divulgar informações sensíveis e chamou-o Wikileaks, numa (pretensiosa) alusão a Wikipedia acoplada à raiz inglesa leak (vazamento).

Vazamento 1Especializou-se em disseminar dados confidenciais do governo americano. Poderia ter escolhido outro país? Sem dúvida, mas, assim que recebeu de mão beijada informações sobre a diplomacia daquele país, optou pela facilidade. A limitação linguística de uma equipe monoglota também há de ter pesado na escolha.

Terá buscado a glória, aquela meia hora de fama que muitos almejam? Pode ser.

Terá agido por desafio pessoal, como aqueles que arriscam a vida escalando o Everest? Quem sabe.

Terá sido por interesse financeiro, como se esperasse recompensa por seus atos? Nada é impossível.

Terá sido para ficar na história como o homem que, sozinho, mexeu com as relações de poder entre as nações, como um Napoleão ressuscitado? Vai ver, é isso mesmo.

Napoleon 3Ninguém me fará acreditar que um peculiar sentido de justiça o tenha movido. Pelo contrário, acho que o indivíduo, parco de inteligência, carrega visão filosófica embotada.

Equador 1Apavorado com prováveis más consequências das estrepolias que praticou, refugiou-se na embaixada do Equador em Londres. Faz três anos que lá está, sem perspectiva de sair. Se puser o pé na rua, periga ser apanhado pela polícia britânica,  encarcerado e extraditado para os EUA.

Louco pra sair da embaixada, Mister Assange arquitetou um plano: deixar vazar informação susceptível de encolerizar determinado país e, em seguida, pedir asilo político às autoridades do Estado ofendido. Mas tem de ser país de peso, que possa forçar o Reino Unido a conceder-lhe salvo-conduto da embaixada até o aeroporto.

Começou pela França, tradicional adversário dos ingleses. Semana passada, seu site soltou informação segundo a qual não somente o atual presidente francês foi espionado pela NSA, mas também seus dois antecessores, Sarkozy e Chirac. Quatro dias depois, Mister Assange pediu asilo à França. A resposta veio no mesmo dia. O Palácio do Eliseu, estimando que o requerente não se encontra em situação de perigo imediato, rejeitou o pedido.

Espião 3O segundo na lista foi o Brasil. Logo depois que dona Dilma voltou dos EUA, Wikileaks noticiou que não só ela, mas dezenas de figurões da República tinham sido espionados. Não funcionou. O escândalo engendrado pelo Lula, quando recusou extraditar o condenado Cesare Battisti, deixou marcas em Brasília. Rapidinho, dona Dilma mandou dizer que essa história de espionagem é página virada.

Ela não disse, mas ficou o aviso: que não se atreva esse indivíduo a pedir asilo. Nem vem, que não tem.

Sejam quais forem os motivos que levaram o personagem traquinas a fazer o que fez, o preço está saindo salgado. E o equilíbrio entre as nações continua inalterado. Uma frustração. Ah, se arrependimento matasse…

O fim do amém

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 4 jul 2015

Revolution 1O dicionário ensina que revolução, no contexto político, é rebelião contra o poder vigente, com vista a implantar mudanças profundas. Diz ainda que pode ocorrer de maneira progressiva ou repentina. Quanto maior for a rudeza, mais caracterizada estará a reviravolta.

A transição do regime militar para a democracia plena, que os manuais situam em 1985, não pode ser catalogada como revolução. Na verdade, a eleição presidencial daquele ano marcou o desfecho de um processo paulatino, gradual e sobretudo consentido. A mudança pode não ter agradado aos mandatários da época, contudo não ocorreu à revelia deles. Tendo sido autorizada, revolução não era.

Já a ruptura havida em 1964, dado o grau de brusquidão, encaixa-se melhor, stricto sensu, no conceito de revolução. Aliás, foi assim qualificada nos primeiros anos, embora seja hoje mais usual designá-la como golpe.

Dilma e Lula 4Nossos pais e nossos avós – esses, sim – conheceram tempos bem mais turbulentos. Na primeira metade do século XX, revoluções e golpes (bem sucedidos ou não) sobrevinham a cada par de anos. Por um sim, por um não, entrincheiravam-se cidadãos, desembainhavam-se espadas, granadas explodiam, casernas eram sitiadas. Visto com óculos atuais, esse rebuliço nos parece longínquo, intangível, empoeirado, perdido nos livros de história.

Os brasileiros que assistiram, já em idade de entender, ao golpe de 1964 já estão todos, há anos, agasalhados sob o manto do Estatuto do Idoso. Mais velhos ainda estão os que viveram uma revolução de verdade, daquelas boas, com canhão e tropa nas ruas. São hoje anciãos.

Os tempos mudaram. Não se pega mais em armas pra impor ideias, que isso está completamente démodé. Armas, hoje, são muito mais numerosas que antigamente, circulam bem mais rápido, estão em mãos de muito mais gente, mas servem pra outros fins.

Revolution 2No que diz respeito à política, os jovens adultos brasileiros, aqueles que entram agora na casa dos vinte e poucos anos, andam desencantados. Levantamento recente do TSE informa que, no espaço de sete anos, nossos cinco maiores partidos perderam dois terços dos afiliados menores de 25 anos. O desinteresse da banda jovem é flagrante e inquietante: são precisamente eles que, daqui a vinte anos, conduzirão o País.

Quais serão as razões desse desamor? Poderíamos culpar internet, redes sociais, materialismo, facilidades do mundo moderno. Será? Se assim fosse, o desinteresse dos jovens pelas coisas da política seria planetário, o que está longe de ser verdade. As causas são domésticas.

Pra começo de conversa, os que chegam hoje aos vinte aninhos só conheceram, no topo do Executivo, a dupla Lula & Dilma. Não nos esqueçamos que o presidente anterior, ao impor a sucessora, fez questão de apregoar que ela era ele e que ele era ela. Ou seja, ficou claro que eram angu da mesma tigela.

Dilma e Lula 5Tem mais. Desde que se conhecem por gente, os jovens de hoje vêm sendo diariamente bombardeados com escândalos, roubalheiras, prisão de medalhões. E mais roubos, e mais escândalos, e falcatruas, e mentiras, e caraduras. Convenhamos: é muita água pra pouco pote. Compreende-se que se sintam enfastiados e que menosprezem política e políticos.

O que anda fazendo falta é o debate de ideias, a troca de argumentos, o empenho pelo bem comum, a demarcação rigorosa entre o público e o privado. O Executivo onipresente destes últimos dez anos tem relegado o Legislativo a papel de figurante de opereta.

A crise de governança gerada pela ação desastrada da presidência da República está mostrando corolário positivo: o fortalecimento do parlamento. Deputados e senadores, desacostumados que estavam de fazer aquilo para que foram eleitos, andam meio aturdidos. O momento parece confuso, mas o tempo se encarregará de pôr ordem na casa.

Senado federal 1Suas excelências já dão mostras de que a era do amém chegou ao fim. Não é revolução de tanque e canhão, mas é como se fosse: as consequências serão notáveis.

No Brasil, a prática costuma contradizer a teoria. Nosso presidencialismo está-se transmutando em parlamentarismo de facto. Após tantos anos de um Executivo onipotente acolitado por congresso submisso, a virada é notícia animadora.

Aperfeiçoamentos terão de vir, ressalte-se. Para viabilizar o novo modelo, é imperioso implantar voto distrital e cláusula de barreira. Mas há um tempo pra tudo. Por ora, festejemos a revolução que se desenrola diante de nossos olhos e façamos votos para que o reequilíbrio entre poderes seja duradouro. Será bom para todos nós. Que os anjos digam amém.

Guerreiro do povo brasileiro

José Horta Manzano

Tribunal 8José Dirceu, bravo herói do povo brasileiro, ordenou a seus advogados que entrassem com pedido de habeas corpus preventivo. Fiquei tão comovido! Um homem tão bom descer à humilhação de implorar por clemência. Uma crueldade.

Como sabem meus distintos leitores, não sou do ramo, daí minha ignorância. Tenho dificuldade em entender certas firulas jurídicas. Como é possível um cidadão obter garantia de que não será preso antes mesmo da expedição de mandado de prisão? E sem que se conheça o exato teor de eventual acusação?

É intrigante. Se um ministro caído pode, por que não poderiam seus companheiros de infortúnio? Como é possível que Odebrecht & colegas não tenham pensado nisso antes de serem encarcerados? Estariam livres e soltos hoje. Gente imprudente…

Tribunal 7O requerimento foi impetrado por seis (meia dúzia) dos maiores advogados criminalistas brasileiros. Presumivelmente fazem trabalho voluntário. De fato, o requerimento de 40 laudas argumenta que senhor Dirceu «nunca se pautou por fins mesquinhos ou gananciosos». Acrescentam que «com ele, não encontrarão riquezas escondidas». Afirmam ainda que «dele, não acharão contas no exterior».

Discorri, mês passado, sobre a diferença entre titular e beneficiário de conta bancária em paraíso fiscal. Que clique aqui quem quiser refrescar a memória. O homem forte da era Lula não há de ser titular de conta nenhuma no exterior, que bobo não é.

O que mais me comoveu no pedido de clemência foi a alegação de que o impetrante está hoje «no crepúsculo de sua vida», que já foi «processado, condenado, preso». Como tem apanhado da vida, esse infeliz…

Tribunal 9Fugindo à verdade rigorosa, o documento alega ainda que o requerente está com 70 anos de idade. Admito que número redondo soe melhor, mas José Dirceu acaba de completar 69 anos, o que não faz dele propriamente um ancião. Marín, de 83 aninhos, continua enjaulado em Zurique. Sem habeas corpus.

Enfim, ficamos aqui na torcida para que o egrégio tribunal seja sensível ao drama daquele que já foi agitador de massas, prisioneiro, exilado; um homem que mudou de nome e que se casou sem revelar à esposa a verdadeira identidade; um santo, que não fez outra coisa na vida senão dedicar-se à redenção da miséria dos brasileiros, sem jamais pedir nada em troca. Um franciscano.

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Observação:
Desiludido com os novos caminhos do partido, o petista histórico Hélio Bicudo, homem de cultura e fundador do PT, desfiliou-se em 2005, à época do mensalão. Tempos mais tarde, revelou a intenção verdadeira da implantação da bolsa família. O vídeo, de um minuto e meio, está aqui.

Casamento à beira-mar

José Horta Manzano

Você sabia?

Bagues 2Há de ter sido lindo, muito romântico. O noivo já não era tão jovem, mas pouco importa: o que conta é o simbolismo da união. Troca de alianças é sempre momento marcante.

A cerimônia foi simples e durou apenas 15 minutos. O histórico e aprazível burgo de Cananeia, no litoral sul de São Paulo, foi escolhido como palco. A bênção aos nubentes foi concedida por uma mãe de santo.

Não sei se a tevê brasileira terá dado a notícia. Na mídia escrita, não vi nada. Foi preciso consultar o jornal regional italiano Gazzetta di Parma pra ficar sabendo.

Quem era o casal? Quanto à noiva, a notícia pouco diz. Já o noivo é mais conhecido – trata-se de signor Cesare Battisti, notorio foragido da justiça italiana, país onde foi condenado, à revelia, à prisão perpétua por participação em quatro homicídios.

CananeiaÉ exatamente aquele a quem nosso guia garantiu asilo político, em petulante escárnio à democracia italiana. Ainda pior fica o quadro se levarmos em conta que esposa, filhos e netos de nosso ex-presidente são cidadãos daquele país.

Sutileza, inteligência e coerência nunca foram características daquele que um dia imaginou ficar registrado na História do Brasil como salvador da pátria.

Que goze, abastado e tranquilo, sua velhice. E que nos deixe em paz.

Do respeito devido a delatores

José Horta Manzano

by Amarildo Lima, desenhista capixaba Clique para aumentar

by Amarildo Lima, desenhista capixaba
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Viagem ao exterior costuma acalmar medalhões. A distância do Planalto, a rotina quebrada, o entorno diferente, os compromissos com gente desconhecida, tudo isso contribui para distender o espírito.

Uma das grandes pérolas do Lula, por exemplo, foi soltada durante viagem a Paris. Se um pequeno excesso de vinho de Bordeaux ajudou a relaxar o então presidente, não se sabe. Fato é que nosso guia fez aquela famigerada confissão sobre caixa dois. Alegou que seu partido fazia o que todos os outros sempre tinham feito. Algo do tipo: «Sou, mas quem não é?»

Dona Dilma – não é a primeira vez que o demonstra – parece fugir ao padrão. Passeia atualmente sua ranzinzice pelos EUA, de onde continua nos remetendo chispas mal-humoradas e arrevesadas.

Ainda ontem, acuada pelas acusações que se aproximam perigosamente de sua augusta pessoa, soltou nova pérola: «Eu não respeito delator». Desvairada, foi buscar no fundo do baú uma lição recebida de dona Mariquinhas, no grupo escolar, lá pelos anos 50. Lembrou-se de que os inconfidentes mineiros foram traídos por um delator. E deixou no ar a analogia pérfida: delação premiada equivale a traição.

Dilma ObamaNo fundo, dona Dilma tem razão. Hemos de convir que, pelas leis de toda organização criminosa, entregar comparsas é atitude imperdoável. No entanto, a coerência manda que a presidente rechace todas as delações que lhe disserem respeito, tanto as que a atormentam quanto as que a favorecem.

Aos olhos de dona Dilma, delatores da megarroubalheira da Petrobrás são infames, desprezíveis, levianos, e a eles não se deve dar crédito. Como justificar, então, a acolhida que a presidente reservou às revelações de um certo senhor Snowden, aquele jovem destrambelhado que delatou as práticas da agência nacional de segurança de seu país?

by Renato Luiz Campos Aroeira, desenhista carioca Clique para aumentar

by Renato Luiz Campos Aroeira, desenhista carioca
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Sem dúvida, meus distintos leitores se lembram que, quando a delação daquele funcionário «arrependido» foi espalhada aos quatro ventos, dona Dilma não se mostrou indignada nem disse que não respeitava delatores. Muito pelo contrário. Baseada unicamente na delação – que, por ironia, nem premiada era – cancelou visita de Estado programada para os EUA. E fez beicinho durante dois anos.

Tsk, tsk, francamente… A coerência não é a qualidade primeira de nossa presidente. Se eu fosse ela, reduziria a frequência de viagens ao estrangeiro. Não lhe fazem bem.

Um século de pérolas presidenciais

“Hoje eu estou saudando a mandioca, uma das maiores conquistas do Brasil!”
Presidente Dilma Vana Rousseff

Presidente 2“É verdade: eu sou uma mulher dura cercada de homens meigos.”
Presidente Dilma Vana Rousseff

“O meio ambiente é uma ameaça para o desenvolvimento sustentável.”
Presidente Dilma Vana Rousseff

“Fui agora ao Gabão aprender como é que um presidente consegue ficar 37 anos no poder e ainda se candidatar à reeleição.”
Presidente Luiz Inácio da Silva, dito Lula

“Sou filho de uma mulher que nasceu analfabeta.”
Presidente Luiz Inácio da Silva, dito Lula

“Nem parece África!”
Presidente Luiz Inácio da Silva, sobre Windhoek, capital da Namíbia, África

Presidentes“Acho que nós, brasileiros, ainda não entendemos que a política externa é interna.”
Presidente Fernando Henrique Cardoso

“A caneta que nomeia é a mesma que demite”.
Presidente Fernando Henrique Cardoso

by Gerson Salvador, desenhista mineiro

by Gerson Salvador, desenhista mineiro

“Em Minas Gerais, a política é como crochê: não se pode dar ponto errado, sob pena de ter de começar tudo de novo.”
Presidente Itamar Augusto Cautiero Franco

“Seja legal com seus filhos. São eles que vão escolher seu asilo.”
Presidente Itamar Augusto Cautiero Franco

“Neste presidente, ninguém coloca uma canga.”
Presidente Fernando Affonso Collor de Mello

“Eu tenho aquilo roxo!”
Presidente Fernando Affonso Collor de Mello

Presidente 3“Governo é como violino: você toma com a esquerda e toca com a direita”
Presidente José de Ribamar Ferreira de Araújo Costa, dito Sarney

“No Maranhão, depois dos 50, não se pergunta a alguém como está de saúde. Pergunta-se onde é que dói.”
Presidente José de Ribamar Ferreira de Araújo Costa, dito Sarney

“Esperteza, quando é muita, come o dono.”
Presidente Tancredo de Almeida Neves, quando governador de Minas

“Sei que o país é essencialmente agrícola. Afinal, posso ser ignorante, mas não tanto.”
Presidente João Baptista de Oliveira Figueiredo

“Um povo que não sabe nem escovar os dentes não está preparado para votar.”
Presidente João Baptista de Oliveira Figueiredo

“É muita pretensão do homem inventar que Deus o criou à sua imagem e semelhança. Será possível que Deus seja tão ruim assim?”
Presidente Ernesto Beckmann Geisel

“O Brasil vai bem, mas o povo vai mal.”
Presidente Emílio Garrastazu Medici

“O poder é como um salame, toda vez que você o usa bem, corta só uma fatia, quando o usa mal, corta duas, mas se não o usa, cortam-se três e, em qualquer caso, ele fica sempre menor.”
Presidente Arthur da Costa e Silva

“A esquerda é boa para duas coisas: organizar manifestações de rua e desorganizar a economia.”
Presidente Humberto de Alencar Castello Branco

“Não troco um só trabalhador brasileiro por cem desses grã-finos arrumadinhos.”
Presidente João Belchior Marques Goulart

“Bebo porque é líquido. Se fosse sólido, comê-lo-ia.”
Presidente Jânio da Silva Quadros

Presidentes galeria“Intimidade gera aborrecimentos e filhos. Com a senhora não quero ter aborrecimentos e muito menos filhos. Portanto, exijo que me respeite”.
Presidente Jânio da Silva Quadros, quando prefeito de SP, dirigindo-se a uma jornalista que o havia tratado por você.

“O otimista pode até errar, mas o pessimista já começa errando.”
Presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira

“Costumo voltar atrás, sim. Não tenho compromisso com o erro.”
Presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira

“Deus poupou-me o sentimento do medo.”
Presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira

“Quanto menos alguém entende, mais quer discordar.”
Presidente Getúlio Dornelles Vargas

“Eu sempre desconfiei muito daqueles que nunca me pediram nada. Geralmente os que sentam à mesa sem apetite são os que mais comem.”
Presidente Getúlio Dornelles Vargas

Presidente 1“No ministério tem gente capaz, o problema é que a maioria é capaz de qualquer coisa.”
Presidente Getúlio Dornelles Vargas

“A questão social é um caso de polícia.”
Presidente Washington Luís Pereira de Souza

“Durante a penúltima campanha presidencial, afirmava-se que o candidato não seria eleito; eleito, não seria reconhecido; reconhecido, não tomaria posse; empossado, não transporia os umbrais do Palácio do Catete.”
Presidente Arthur da Silva Bernardes

Inspirado em coletânea organizada por Pedro Luiz Rodrigues e publicada no Diário do Poder.

Dinda já era

José Horta Manzano

Turquia 3Todos os brasileiros com mais de quarenta anos hão de se lembrar da Casa da Dinda, aquela que entrou para a história como objeto de grande jogada de marketing de Collor de Mello.

Todo presidente da República tem direito a duas residências oficiais: o Palácio da Alvorada e a Granja do Torto. Ao ser eleito na onda da promessa de «caçar marajás», senhor Collor tomou decisão desconcertante: renunciou às residências oficiais. Para não desperdiçar dinheiro público, segundo declarou, preferiu instalar-se em mansão familiar às margens do Lago Paranoá.

A lógica ensina que, com presidente ou sem ele, residências oficiais continuam tendo de ser mantidas e conservadas com todo o seu pessoal. Portanto, a ausência da primeira-família resulta em economia próxima de zero. Mas, na hora, a decisão causou frisson.

Turquia 2Meses depois, o Brasil descobriu que os fundos «economizados» tinham sido reinvestidos – com juros e correção! – em melhoramentos na Casa da Dinda. Suspeita-se que dinheiro da corrupção tenha sido usado para plantar centenas de árvores e construir cachoeiras motorizadas. Contam ainda que, para maior conforto dos peixes que povoavam os tanques, a água era filtrada.

Quem dá mais? Em matéria de residência presidencial, o máximo que vimos nestes últimos anos foi um reles triplex no Guarujá. De uma banalidade constrangedora. Mas na Turquia, terra de sultães e de odaliscas… ah, no Oriente exuberante, não se fazem as coisas pela metade!

A mesa como meme na internet turca

A mesa virou meme na internet turca

Senhor Erdoğan, que foi primeiro-ministro por mais de onze anos e hoje oficia como presidente da República, mandou construir um palácio presidencial. O suntuoso imóvel, projetado para abrigar condignamente o mandatário, já está pronto. Fica em Ânkara, capital do país.

Sua área construída de 200 mil m2 – duzentos mil metros quadrados! – espalha-se por 1.150 cômodos e custou a bagatela de 490 milhões de euros. O prédio serve de residência para o presidente. Dado que há salas suficientes, é também usado como sede do governo.

Quase todos os turcos são maometanos. Pelo calendário religioso, um dos meses do ano lunar, o Ramadã, é dedicado à oração, ao recolhimento e ao sacrifício. Os preceitos são rígidos: durante um mês, os fiéis devem jejuar do nascer ao por do sol. É natural que o jejum absoluto, sem comida e sem água, resulte em fome de leão ao final do dia.

Quadra de squash

Quadra de squash

Para reunir os ministros para a quebra de jejum, senhor Erdoğan mandou montar uma mesa gigantesca que está fazendo furor. Tem a superfície de uma quadra de squash e custou um milhão de libras turcas: 1.200.000 reais.

Como pode constatar o distinto leitor, desperdício de dinheiro público não é exclusividade tupiniquim.

Interligne 18hUma curiosidade
Contei 29 pessoas ao redor da mesa. Incluindo o lugar vago, cabem 30. Os lugares não seriam suficientes para o espaçoso ministério de dona Dilma. Dez auxiliares teriam de sentar-se à mesa das crianças.

CuritibaLeaks

José Horta Manzano

Prisioneiro 3A julgar pela frequência com que algum fragmento de processo judicial aparece na imprensa, ouso supor que a divulgação dessas informações esteja dentro das normas legais brasileiras.

Dia 23, o blogue do repórter Fausto Macedo, alojado no Estadão, contou as peripécias que a PF empreendeu para colher o hoje notório senhor Odebrecht.

A reportagem desce a minúcias e conta tudo tim-tim por tim-tim. Mostra a ficha policial do acusado, descreve a tocaia da polícia, reproduz documentos oficiais. Como é possível que peças de um processo ainda não concluído cheguem às mãos de jornalistas e sejam publicadas? É surpreendente.

Dia 24, repeteco. A mídia tornou a divulgar peça dos autos. Desta vez, foi um manuscrito do acusado, interpretado como ordem para que se destruam certos papéis. Como é possível que documento desse jaez chegue à imprensa numa fase tão precoce do desenrolar do processo?

Carta 2Não sou do ramo. No entanto, pela facilidade com que tais documentos são servidos a jornalistas, é de imaginar que se trata de procedimento ordinário, lícito e normal. É surpreendente.

Por um lado, o fato de escancarar, a conta-gotas, fragmentos de processo é péssimo para o acusado. É complicado entender detalhes desmembrados de um todo. Esse desembrulho público pode induzir não iniciados a pintar o diabo ainda mais feio do que ele é.

Por outro lado, a divulgação temporã pode ser excelente para o acusado, pois deixa a seus advogados tempo pra montar uma explicação credível. Caso essas revelações continuassem adormecidas até a hora do julgamento, o efeito poderia ser muito mais incisivo.

Policia 2Enfim, se estamos dentro da legalidade, nada resta a fazer além de aceitar. O contraste com o funcionamento de processo em outras terras é marcante. Vejam o caso do senhor José Maria Marín.

O medalhão do futebol foi preso em Zurique dia 27 de maio, faz praticamente um mês. O processo de extradição segue seu curso, mas nenhuma informação vazou. Aliás, não foi comunicado ao distinto público sequer o nome do estabelecimento penitenciário onde o extraditando está hospedado.

Cada terra com seu uso.

Lobismo e propinas

José Horta Manzano

AviaoFuncionários das duas maiores empreiteiras do Brasil assistiram, estupefactos e impotentes, à prisão do presidente da empresa. Coisa nunca antes vista nessepaiz. Ambos os encarcerados são homens de estirpe graúda, daqueles que costumam privar da intimidade de presidentes, ministros e senadores.

A proximidade – pra não dizer promiscuidade – entre grandes empreiteiros e medalhões da política faz parte do jogo do poder. Uns e outros comungam, se autoalimentam, relacionam-se em simbiose. Um círculo não pode viver sem o outro.

Em princípio, nas democracias civilizadas, lobistas a serviço de empreiteiras têm cadeira cativa no parlamento. Tapinha nas costas, convite para fim de semana em hotel de luxo, carona em jatinho, um relógio de marca aqui, uma gravata de seda ali – são mimos corriqueiros. Em contrapartida, as empreiteiras representadas pelos simpáticos lobistas têm preferência na hora de atribuir obras públicas. Ninguém veria ilegalidade nem imoralidade nessa prática.

Relógio 3O problema começa quando, por meio de assalto ao erário, o dinheiro do contribuinte é surrupiado. No Brasil, o meio mais utilizado é o sobrepreço. Incha-se artificialmente o valor da obra. O governo aceita, faz a encomenda e paga a conta (com nosso dinheiro). Em seguida, uma retrocomissão é devolvida – não ao erário, mas a determinados figurões. É o que se conhece como propina. É aí que a prática brasileira, levada ao paroxismo estes últimos anos, diverge do que se faz em lugares mais civilizados.

Pronto. O lobismo é comum, existe no mundo todo, não é ilegal nem imoral. Equivale a levar uma flor para a professora. Propina, razão pela qual estão botando figurões atrás das grades, é outra coisa. É crime.

Criar novo

José Horta Manzano

Blabla 6O Lula discursou nesta segunda-feira em seu comitê, aquele escritório político curiosamente chamado de instituto. Não fosse o homem um personagem sabidamente esperto, a gente ficaria com a impressão de que ensandeceu, pirou de vez. Atenção ao adjetivo: eu não disse culto nem inteligente, mas esperto.

«Estamos querendo salvar nossa pele e nossos cargos ou criar um novo projeto?» foi a frase emblemática que pronunciou. Pra não complicar, vamos deixar barato o pleonástico «criar novo projeto» – quem conseguiria criar um velho projeto, não é mesmo? Isso dito, a resposta à pergunta do discursante é mais que evidente: estão, sim, todos empenhados em salvar a pele e os cargos.

Blabla 4Projeto? Se em algum momento o tiveram, foi enterrado no exato dia em que, com vista à eleição presidencial, nosso guia assinou a Carta aos Brasileiros. O documento despejava uma pá de cal sobre o ideal que, por mais de vinte anos, havia norteado o partido. Sem choro, nem vela.

Alcançada a presidência, ele e os seus deram adeus definitivo aos princípios, à ética, ao comedimento, à fidelidade, à virtude. Que não nos venha agora com esse ar estupefato de quem não entende o que está acontecendo. O homem sabe muito bem. Afinal, a guinada não ocorreu ao tempo dos sumérios, mas apenas uma dúzia de anos atrás. E o instigador é o próprio, exatamente esse que hoje se surpreende com as consequências dos próprios atos.

Blabla 5Analisando mais atentamente a fala do Lula, vê-se que ele confessou, sem se dar conta, que o «projeto», fosse qual fosse, fracassou. Conclamar correligionários para «criar novo» significa que o antigo não deu certo. Ou não?

Blabla 2Nosso demiurgo orgulha-se de nunca ter lido um livro sequer. Em virtude dessa lacuna, não deve saber que, antes dele, outros já tentaram erguer casa nova sobre alicerces podres. Tivesse usado parte de seu tempo para se instruir, saberia que é obra impossível.

Os cem dias de Napoleão, durante os quais o imperador caído tentou reconstruir a glória estilhaçada, se extinguiram na derrota melancólica de Waterloo. A Comunidade de Estados Independentes, erigida sobre as cinzas da União Soviética, gorou: teve duração efêmera e se desmanchou no ar. A história está repleta de exemplos do mesmo naipe.

Blabla 7O melhor que nosso guia poderia fazer é sair de cena. Com o dinheiro que tem e os ricos amigos que lhe restam, não terá dificuldade em levar vida de luxo e opulência nalgum paraíso tropical.

Quanto menos aparecer, melhor será. Para ele e para todos nós. Que siga o exemplo daquele aliado que ele qualificou de homem incomum. Quem? Ora, distinto leitor, falo do senhor Sarney.

Desde que o maranhense se afastou da política, sumiu do radar. Vive tranquilo, sem risco de ser alvo de condução coercitiva a Curitiba.

Quem avisa amigo é.

Lavagem de alma

José Horta Manzano

Vaia 1Nada como uma boa crise pra derrubar máscaras. Enquanto a maioria do povo brasileiro acreditava que o País estivesse sendo bem conduzido, os do andar de cima viviam tranquilos, satisfeitos, confiantes. Arrotavam importância.

No entanto, como não há mal que sempre dure nem bem que nunca se acabe, más notícias começaram a chegar. Primeiro veio o mensalão, levado na brincadeira no início, cozinhado em água fria em seguida, sempre negado pelo Lula apesar das suspeitas que ainda recaem sobre ele. O escândalo abalou a confiança que muitos tinham nos medalhões, mas não foi suficiente para apartá-los do poder.

Como num rodamoinho, em que o movimento descendente começa lento e vai-se acelerando mais e mais, as más notícias têm chegado. Más notícias para eles, bem entendido. Para nós outros, são boas-novas.

Lavanderia 1Essa Operação Lava a Jato está impressionante de ousadia. E de eficácia. Destemidos, os que a dirigem têm cercado gente graúda. Não só cercado, como acuado, acusado e despachado ao xilindró. Coisa nunca vista antes nessepaiz. O povo parece que acordou. A última pesquisa de opinião indica que nove em cada dez brasileiros reprovam o governo de dona Dilma.

O Lula anda deprimido. E não é pra menos: uma a uma, as cavilhas que o prendiam ao pedestal da glória vão sendo desparafusadas. Em excelente artigo, o jornal O Globo relata a fala patética que o taumaturgo, desnorteado, despejou num colóquio com religiosos, havido em seu comitê político, aquele que leva o pomposo qualificativo de instituto.

Nosso guia confirma o que já sabíamos: que tanto ele quanto dona Dilma e o partido estão todos no «volume morto». Na metáfora saborosa, o que chama mais a atenção não é o volume, é o morto.

Represa 5Sem que o orador se dê conta, suas palavras denotam que ele ainda se sente parte integrante do governo. Fala em «nossa» rejeição. Diz que «a gente» tem de mudar.

Mostra também que seus métodos de governar pararam no tempo. Acusa a sucessora de permanecer trancada em palácio e dá a receita para romper a clausura: sair por aí, passar a mão na cabeça, dar beijo. Ele continua achando que, para se aproximar do povo, basta subir num palanque. É tão simples, não é mesmo?

Diz que, há meses, ele e sua turma são incapazes de dar uma boa notícia aos brasileiros. O ex-presidente tem razão. As boas notícias não têm vindo do Planalto, mas do Poder Judiciário. Interpelações, perquisições, devassas e prisões podem aporrinhar a vida do Lula, mas têm lavado nossa alma.

Governo concordou

Cláudio Humberto (*)

O governo Dilma soube com antecedência dos planos do governo venezuelano de destacar um grupo de militares à paisana, passando por manifestantes, para hostilizar os senadores que foram a Caracas visitar presos políticos. Também a embaixada brasileira demonstrou saber da operação de intimidação: diplomatas tinham ordem para não acompanhar os senadores na van que seria alvo dos milicianos.

by Roque Sponholz, desenhista paranaense

by Roque Sponholz, desenhista paranaense

O embaixador brasileiro Ruy Pereira entrou no avião dos senadores antes que desembarcassem, cumprimentou-os e “vazou”.

Os pilotos da FAB que conduziram os senadores foram avisados pelas autoridades venezuelanas para preparar o voo de volta imediatamente.

Após o desembarque dos senadores em Caracas, os pilotos da FAB foram de novo abordados e aconselhados a “nem almoçar” na cidade.

O grupo de senadores de oposição foi a Caracas visitar presos políticos venezuelanos, mas mal conseguiu sair do aeroporto.

(*) Cláudio Humberto, bem informado jornalista, publica coluna diária no Diário do Poder.

Diplomacia espezinhada

José Horta Manzano

Ignorantes e deslumbrados, os incapazes que assumiram o comando da nação há 12 anos precipitaram-se ao pote de mel, que era o que realmente lhes interessava. Ávidos mas ingênuos, não se deram conta de que o Brasil não é um planeta isolado. Sua visão estreita não lhes permitiu enxergar a importância da inserção de nosso País em circuitos adequados e proveitosos.

A prova desse desprezo pela diplomacia e pelas relações internacionais foi dada com a nomeação, para cargos de responsabilidade crucial, de gente que não é do ramo. No Ministério das Relações Exteriores, titulares entram e saem. Tão pouca importância é atribuída ao cargo, que pouca gente saberia dizer quem é o atual titular. Por detrás da figura do ministro oficial, porém, paira uma sombra sinistra.

Dilma e GarciaRefiro-me a um certo senhor Garcia, cujo nome ficará para sempre associado ao epíteto “top-top”, de triste memória. Sem formação diplomática, o homem é uma espécie de elétron livre no organograma do governo. Na teoria, não passa de assessor sem função definida – um «aspone», como qualificam línguas vulgares. Na prática, sua influência nefasta está entre as principais responsáveis pelo amadorismo e pela tacanhice de nossa política externa. O personagem está entre os fundadores do Foro de São Paulo – isto talvez explique aquilo.

Não bastassem os 12 anos de constrangimento que esse senhor já contribuiu para nos impingir, o vexame continua. Em entrevista concedida ao Estadão e publicada ontem, senhor Garcia se pronuncia como se ministro de Relações Exteriores fosse.

Foro Sao Paulo 1À pergunta sobre se nosso governo vai chamar o embaixador na Venezuela para consultas – código diplomático para exprimir forte desagrado –, o «assessor» é taxativo: «Isso não está em cogitação. O governo brasileiro já se manifestou contra atos extremados e não é o caso de dar mais extensão a esse episódio.»

Levando em conta que dona Dilma & companhia andam, neste momento, atazanados por problemas mais prementes, é de duvidar que se preocupem com assuntos menores, como política externa. Senhor Garcia periga continuar poluindo nossa imagem e emperrando nossas relações com o mundo civilizado.