Tirar a carne

José Horta Manzano

As crenças antigas, que hoje costumamos chamar de pagãs, eram bem menos restritivas que as nossas. Penso na multiplicidade de deuses e deusas reverenciados por gregos e romanos. Em meio a tanta divindade, havia os deuses bonzinhos, os severos, os camaradas, os bem-comportados, os excessivos. Cada fiel incensava aqueles que lhe parecessem mais chegados. E tudo bem.

Na Europa, a implantação do cristianismo marcou o fim dessa época de folguedos despreocupados. Uma avalanche de sisudez começou já nos tempos de Santo Agostinho, faz quase dois milênios, para atravessar a Idade Média e aterrissar na modernidade de Trump e doutora Damares. Chegamos a uma civilização na qual tudo o que é bom e agradável é proibido. De sexo a sorvete de chocolate, de álcool a provolone à milanesa. Hoje em dia, se não for proibido por lei, será condenado pela Igreja ou, em última instância, vetado pelo médico. Não há como escapar.

Os romanos festejavam sua Saturnália sem se preocupar com o que viria no dia seguinte. Depois que o cristianismo se tornou fé oficial, a coisa mudou. Carnaval, válvula de escape espremida entre Advento e Páscoa, é curto período de relaxamento consentido. Consentido, sim, mas de olho no dia seguinte. Essa sensação de que ‘a festa vai acabar’ está embutida no próprio nome destes dias de folia. Quer ver?

Se etimólogos não são unânimes em apontar a com segurança a origem do vocábulo Carnaval, grande maioria vê nele uma advertência lançada ao distinto público pra que ninguém se esqueça de que a festa é curta e a punição vem logo em seguida. O aviso é: comam carne agora, porque depois vai ser proibido. De fato, é forte a probabilidade de o moto carnem levare ou carnem levamen (= tirar a carne) estar na origem da palavra Carnaval. Como um desmancha-prazeres, a fórmula já vai avisando que a festa é curta e que depois vem ferro.

É que, depois do Carnaval, entra a Quaresma, quarenta dias coalhados de jejum e de abstinência de carne. A confirmar essa etimologia, está o nome que os alemães dão à festa: Fastnacht/Fasnacht, palavra cujo primeiro elemento vem do verbo fasten (= jejuar). Outra confirmação, incontestável, aparece no nome catalão do Carnaval: carnestoltes (= carnes removidas).

Bom Carnaval!

Dinda já era

José Horta Manzano

Turquia 3Todos os brasileiros com mais de quarenta anos hão de se lembrar da Casa da Dinda, aquela que entrou para a história como objeto de grande jogada de marketing de Collor de Mello.

Todo presidente da República tem direito a duas residências oficiais: o Palácio da Alvorada e a Granja do Torto. Ao ser eleito na onda da promessa de «caçar marajás», senhor Collor tomou decisão desconcertante: renunciou às residências oficiais. Para não desperdiçar dinheiro público, segundo declarou, preferiu instalar-se em mansão familiar às margens do Lago Paranoá.

A lógica ensina que, com presidente ou sem ele, residências oficiais continuam tendo de ser mantidas e conservadas com todo o seu pessoal. Portanto, a ausência da primeira-família resulta em economia próxima de zero. Mas, na hora, a decisão causou frisson.

Turquia 2Meses depois, o Brasil descobriu que os fundos «economizados» tinham sido reinvestidos – com juros e correção! – em melhoramentos na Casa da Dinda. Suspeita-se que dinheiro da corrupção tenha sido usado para plantar centenas de árvores e construir cachoeiras motorizadas. Contam ainda que, para maior conforto dos peixes que povoavam os tanques, a água era filtrada.

Quem dá mais? Em matéria de residência presidencial, o máximo que vimos nestes últimos anos foi um reles triplex no Guarujá. De uma banalidade constrangedora. Mas na Turquia, terra de sultães e de odaliscas… ah, no Oriente exuberante, não se fazem as coisas pela metade!

A mesa como meme na internet turca

A mesa virou meme na internet turca

Senhor Erdoğan, que foi primeiro-ministro por mais de onze anos e hoje oficia como presidente da República, mandou construir um palácio presidencial. O suntuoso imóvel, projetado para abrigar condignamente o mandatário, já está pronto. Fica em Ânkara, capital do país.

Sua área construída de 200 mil m2 – duzentos mil metros quadrados! – espalha-se por 1.150 cômodos e custou a bagatela de 490 milhões de euros. O prédio serve de residência para o presidente. Dado que há salas suficientes, é também usado como sede do governo.

Quase todos os turcos são maometanos. Pelo calendário religioso, um dos meses do ano lunar, o Ramadã, é dedicado à oração, ao recolhimento e ao sacrifício. Os preceitos são rígidos: durante um mês, os fiéis devem jejuar do nascer ao por do sol. É natural que o jejum absoluto, sem comida e sem água, resulte em fome de leão ao final do dia.

Quadra de squash

Quadra de squash

Para reunir os ministros para a quebra de jejum, senhor Erdoğan mandou montar uma mesa gigantesca que está fazendo furor. Tem a superfície de uma quadra de squash e custou um milhão de libras turcas: 1.200.000 reais.

Como pode constatar o distinto leitor, desperdício de dinheiro público não é exclusividade tupiniquim.

Interligne 18hUma curiosidade
Contei 29 pessoas ao redor da mesa. Incluindo o lugar vago, cabem 30. Os lugares não seriam suficientes para o espaçoso ministério de dona Dilma. Dez auxiliares teriam de sentar-se à mesa das crianças.