Símbolo descendente

José Horta Manzano

Não sei se o distinto leitor acredita no poder dos símbolos. Não me refiro ao estudo deles, de que a semiologia (ou semiótica) se encarrega. Essa disciplina procura descobrir o significado por detrás de cada sinal, símbolo ou sintoma. Minha pergunta inverte os sinais: até que ponto um símbolo pode influenciar e moldar os que convivem com ele?

brasilia-palacio-alvoradaTomemos o Palácio da Alvorada, por exemplo. Marco maior da modernosa arquitetura brasileira de meio século atrás, é esteticamente marcante. Visto de fora, é único. Não conheço concorrente que, na linha do «despojado chique», lhe faça sombra. No entanto, embora tenha sido construído para servir de residência oficial para o presidente da República, nem sempre foi aceito de bom grado pelos inquilinos. Já houve até presidentes que se recusaram a habitar lá, acusando o edifício de ser gelado no inverno, abafado no verão, pouco funcional, mal isolado e com jeitão de repartição pública. Em uma palavra: inabitável.

João Figueiredo preferiu passar a maior parte do mandato na Granja do Torto. Fernando Collor desprezou o palácio em favor da folclórica Casa da Dinda. E temos agora Michel Temer que, depois de apenas uma semana de experiência, retornou correndo ao Jaburu, que lhe parece mais acolhedor.

tcu-1O Alvorada é um símbolo, sem dúvida. No entanto, até que ponto a obrigação de viver dentro de um edifício inóspito, de temperatura desregulada e pouco funcional influencia o humor do inquilino principal e, em última instância, a governança do país? Será que se tivéssemos uma residência oficial com cara de casa ‒ como a Casa Branca (Washington), o n° 10 de Downing Street (Londres) ou o Palais de l’Elysée (Paris) ‒ nossos governantes não teriam imprimido ao país caminho mais civilizado? Será que um símbolo mais acolhedor não teria contribuído para desencastelar presidentes e aproximá-los dos governados?

Na mesma linha, faz algum tempo que boto reparo na tabuleta plantada à frente do Tribunal de Contas da União. O excelso TCU, como sabem todos, é o controlador de nossas contas. Sua função é ficar de olho para que nossos dinheiros sejam gastos como manda o figurino, de maneira reta e correta. Reta e correta… Repare só na tabuleta fincada bem à frente do Tribunal, no gramado que o circunda. Ela não é reta nem correta!

tcu-2Por imprudência de um artesão ‒ ou, sabe-se lá, por fantasia de um arquiteto ‒, a placa é torta. Pende para um lado. Da primeira vez que prestei atenção, botei na conta de uma ilusão de ótica. Depois de observar dezenas de fotos, tive de admitir a realidadade: a placa que assinala o palácio onde se controla a retidão de nossas despesas está enviesada, oblíqua.

Dizem que o Brasil caiu tanto estes últimos anos que vamos precisar de décadas pra consertar. Que tal começar endireitando a placa do TCU? Custa pouco e pode ser início promissor. Pelo menos, passará a exprimir o que desejamos todos: a direitura.

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Nota interessante
Logo na primeira página do site do TCU, entre generalidades e considerandos, aparece a bandeira do Brasil.

Bandeira brasileira tal como aparece no site do TCU

Bandeira brasileira tal como aparece no site do TCU

Num contexto informal, é admissível que o símbolo maior seja estilizado, distorcido, alterado. No TCU, o tribunal que controla a retidão das contas públicas, não é tolerável. Além de mutilada, a bandeira aparece… desbotada! Dá pra imaginar simbologia mais aviltante?

Pedindo socorro ao mundo

by Lezio Jr, desenhista paulista

by Lezio Jr, desenhista paulista

Cláudio Humberto (*)

Após reunião em que concluíram ser irreversível o impeachment, aliados de Dilma Rousseff passaram a defender que ela somente saia do Palácio da Alvorada à força, transformando a residência oficial em “símbolo de resistência”.

A ideia era que ela entregasse o palácio 30 dias após a destituição, como prevê a lei, mas aliados radicais acham que a “ocupação” chamará a atenção do mundo para o “golpe”. Como Dilma ainda resiste a essa presepada, aliados radicalizados pretendem que ela só deixe o Alvorada no fim do prazo de um mês.

Lula caricatura 2aPetistas dizem que é de Lula a ideia de “ocupar” o Alvorada, criando um fato capaz de minimizar os efeitos do impeachment nas eleições.

Em protesto contra Dilma, o Solidariedade mandará, nesta quarta (31), um caminhão de mudança para a porta do Alvorada.

Mundo da fantasia
Petistas acreditam na fantasia de que o Supremo Tribunal Federal seria instância de recurso do impeachment, e querem que fique no palácio.

(*) Cláudio Humberto é jornalista. Publica coluna diária no Diário do Poder.

Dinda já era

José Horta Manzano

Turquia 3Todos os brasileiros com mais de quarenta anos hão de se lembrar da Casa da Dinda, aquela que entrou para a história como objeto de grande jogada de marketing de Collor de Mello.

Todo presidente da República tem direito a duas residências oficiais: o Palácio da Alvorada e a Granja do Torto. Ao ser eleito na onda da promessa de «caçar marajás», senhor Collor tomou decisão desconcertante: renunciou às residências oficiais. Para não desperdiçar dinheiro público, segundo declarou, preferiu instalar-se em mansão familiar às margens do Lago Paranoá.

A lógica ensina que, com presidente ou sem ele, residências oficiais continuam tendo de ser mantidas e conservadas com todo o seu pessoal. Portanto, a ausência da primeira-família resulta em economia próxima de zero. Mas, na hora, a decisão causou frisson.

Turquia 2Meses depois, o Brasil descobriu que os fundos «economizados» tinham sido reinvestidos – com juros e correção! – em melhoramentos na Casa da Dinda. Suspeita-se que dinheiro da corrupção tenha sido usado para plantar centenas de árvores e construir cachoeiras motorizadas. Contam ainda que, para maior conforto dos peixes que povoavam os tanques, a água era filtrada.

Quem dá mais? Em matéria de residência presidencial, o máximo que vimos nestes últimos anos foi um reles triplex no Guarujá. De uma banalidade constrangedora. Mas na Turquia, terra de sultães e de odaliscas… ah, no Oriente exuberante, não se fazem as coisas pela metade!

A mesa como meme na internet turca

A mesa virou meme na internet turca

Senhor Erdoğan, que foi primeiro-ministro por mais de onze anos e hoje oficia como presidente da República, mandou construir um palácio presidencial. O suntuoso imóvel, projetado para abrigar condignamente o mandatário, já está pronto. Fica em Ânkara, capital do país.

Sua área construída de 200 mil m2 – duzentos mil metros quadrados! – espalha-se por 1.150 cômodos e custou a bagatela de 490 milhões de euros. O prédio serve de residência para o presidente. Dado que há salas suficientes, é também usado como sede do governo.

Quase todos os turcos são maometanos. Pelo calendário religioso, um dos meses do ano lunar, o Ramadã, é dedicado à oração, ao recolhimento e ao sacrifício. Os preceitos são rígidos: durante um mês, os fiéis devem jejuar do nascer ao por do sol. É natural que o jejum absoluto, sem comida e sem água, resulte em fome de leão ao final do dia.

Quadra de squash

Quadra de squash

Para reunir os ministros para a quebra de jejum, senhor Erdoğan mandou montar uma mesa gigantesca que está fazendo furor. Tem a superfície de uma quadra de squash e custou um milhão de libras turcas: 1.200.000 reais.

Como pode constatar o distinto leitor, desperdício de dinheiro público não é exclusividade tupiniquim.

Interligne 18hUma curiosidade
Contei 29 pessoas ao redor da mesa. Incluindo o lugar vago, cabem 30. Os lugares não seriam suficientes para o espaçoso ministério de dona Dilma. Dez auxiliares teriam de sentar-se à mesa das crianças.