Fake news ‒ 3

José Horta Manzano

Até não faz muito tempo, mentira era chamada de mentira, boato era chamado de boato, mexerico era chamado de mexerico. Mas isso foi nos tempos de antigamente. Hoje mudou. Na medida que são propagados pelas redes sociais, mentira, boato e mexerico têm nome novo, nome que engloba todas as modalidades de engodo: fake news.

Coisa curiosa, não? É proverbial nossa passividade diante de expressões importadas. Soam tããão chiques! Que fazer? Fake news vem fazer companhia a sale, off & alia.

Restaurante cinco estrelas sob direção da família Boato
À beira do Lago Maior, Brissago, Suíça

Na França, a Académie Française cuida da língua. Não chega a editar normas restritivas que engessam a fala e a escrita dos usuários, como faz nossa Academia. Limita-se a aconselhar usos preferenciais e a propor neologismos para traduzir expressões estrangeiras.

Estes dias, a Académie Française sugeriu que fake news seja substituída por expressão nacional. Propôs dois caminhos. O primeiro é falar em information fallacieuse ‒ informação falaciosa, expressão que me parece longa demais pra se tornar popular. O segundo caminho é traduzir pelo neologismo infox, uma colisão entre information e intoxication.

Achei a ideia de infox bem bolada. Na França, tem forte chance de pegar. No Brasil, não adianta nem propor. Não tenho nenhuma esperança de que o brasileiro abra mão de seu fake news, expressão com sabor de Primeiro Mundo.

Polô Coelô

José Horta Manzano

Meio distraído, estava outro dia ouvindo a rádio francesa quando o locutor informou que o novo livro de Polô Coelô já estava nas livrarias. Levei um instante tentando identificar esse autor cujo nome não encontrava eco no meu disco rígido. Logo caiu a ficha: era Paulo Coelho pronunciado à francesa.

O anúncio me trouxe à memória um artigo que tinha lido muitos anos antes. Era uma avaliação do romance O Alquimista sob o ângulo gramatical. O escrito expõe impressionante quantidade de erros, fato surpreendente na obra de escritor tão afamado.

O artigo, publicado anos atrás, é uma aula de gramática portuguesa. Vale a pena conferir. Quanto a Monsieur Coelô, hoje um homem rico, espero que, de lá pra cá, tenha contratado um bom revisor. Aqui está a crítica gramatical.

As “pérolas” de Paulo Coelho

J. Milton Gonçalves (*)

A presente crítica mostra as duas faces de Paulo Coelho: escritor de imaginação fértil, mas que se revela medíocre no manejo da linguagem escorreita.

A apreciação minuciosa do livro O Alquimista (do referido autor) não deve ser tomada como uma ofensa de caráter pessoal; o intuito é mostrar – principalmente aos leitores jovens e aos jornalistas – que nossa língua tem normas e regras que precisam ser obedecidas (sem as quais – quer queiram quer não queiram alguns – nossos objetivos jamais serão alcançados), pois, como observa o gramático Sacconi, “não há profissional sério que não sinta a necessidade de utilizar a norma culta; não há profissional respeitado que não tenha suficientes razões para conhecê-la”.

O escritor Paulo Coelho, que diz já ter encontrado sua pedra filosofal, precisa urgentemente encontrar uma boa gramática, um bom dicionário, e, se preferir – é claro! –, uma pitada de mundrunga para resolver sua deficiência vernácula.

Numa entrevista à revista Playboy, o rei dos best-sellers disse que consegue separar nuvens com a força da mente, parar o tempo, fazer chover e até ficar invisível (entre outras coisas fantasmagóricas). Se nosso mago literário tem tantos poderes assim, bem que poderia invocar os espíritos dos grandes escritores brasileiros para expressar suas idéias, sem maltratar tanto o nosso idioma.

Encontram-se, aqui, apenas algumas das “pérolas” extraídas do seu famoso livro publicado pela Editora Rocco, edição de número 159. É isto mesmo: centésima quinquagésima nona edição. Sinto um extraordinário dó pelos leitores da primeira edição.

1. “Lembrou-se da espada — foi um preço caro contemplá-la um pouco, mas também nunca tinha visto algo igual antes.” (Pág. 71)

Preço caro é erro indecoroso. Caro já significa de preço elevado. O correto é dizer que o produto está caro ou o preço está alto, exagerado, excessivo (o que não é nenhuma novidade hoje em dia).

2. “Haviam certas ovelhas, porém, que demoravam um pouco para levantar.” (Pág. 22)

Não há registro, em nossa literatura, de nenhum outro escritor que tenha empregado haver no plural, com o sentido de existir. Não se pode atribuir a culpa ao revisor, uma vez que esse modelo de concordância aparece mais de dez vezes em todo o livro.

Demorar, no sentido de tardar, custar, usa-se com a, e não com para: Demorou a retornar à casa dos pais.

Levantar é sinônimo de erguer; levantar-se é que significa pôr-se de pé.

3. “ dois dias atrás você disse que eu nunca tive sonhos de viajar.” (Pág. 86)

A impressão que fica é que PC adora brincar de escrever português. Qualquer pessoa com dois dedinhos de leitura descontraída sabe que e atrás não combinam.

“Há dois dias atrás” é expressão redundante, pois a idéia de passado já está contida no verbo haver, sendo desnecessário o uso do advérbio atrás. Só um cego não vê que os dois termos estão brigando. A excrescência também ocorre nas páginas 103, 133, 161, 210, 242…

4. “O teto tinha despencado muito tempo, e um enorme sicômoro havia crescido no local que antes abrigava a sacristia.” (Pág. 21)

“Fazia aquilo anos, e já sabia o horário de cada pessoa.” (Pág. 76)

Definitivamente o verbo haver é uma enorme pedra no sapato do nosso alquimista. Quando o verbo haver é usado com outro no tempo imperfeito (ou mais-que-perfeito), emprega-se havia, e não : “Quando você chegou, eu já estava na sala havia cinco minutos”. (Arnaldo Niskier)

O mesmo erro encontra-se ainda nas páginas 22, 83, 133, e 157…

5. “Em 1973, já desesperado com a ausência de progresso, cometi uma suprema irresponsabilidade. Nesta época eu era contratado pela Secretaria de Educação de Mato Grosso…” (Pág. 8)

Nesta época refere-se ao período em que o escritor estava escrevendo, e não a 1973. Nessa é que se usa com referência a tempo passado ou futuro. Naquela seria outra opção ajuizada. Os erros se repetem nas páginas 50, 54, 77, 119, 143, 238…

6. “— Então, nas Pirâmides do Egito, — ele falou as três últimas palavras lentamente, para que a velha pudesse entender…”(Pág. 37)

O verbo falar é intransitivo (não pede complemento); o verbo dizer é que se usa transitivamente. Falar só se usa com objeto em expressões como falar verdade, falar inglês, francês etc.

Veja outros casos em que o verbo falar foi usado indevidamente:

“Por isso lhe falei que seu sonho era difícil.” (Pág. 38)

“O velho, entretanto, insistiu. Falou que estava cansado, com sede…” (Pág. 42)

Antes da palavra que, usa-se dizer, e não falar.

7. “E quero que saiba que vou voltar. Eu te amo porque…” (Pág. 189)

Fazer alquimia com as pessoas de tratamento, parece ser a diversão preferida de Paulo Coelho. O próximo exemplo é ainda mais dramático:

“— Eu te amo porque tive um sonho… Eu te amo porque todo o Universo conspirou para que eu chegasse até você.” (Pág. 190)

Sei que é covardia comparar PC com um dos clássicos de nossa literatura. Mas confesso que não resisti à tentação. Compare este trecho de Machado de Assis, extraído de Dom Casmurro: “Aqui tendes a partitura, escutai-a, emendai-a, fazei-a executar, e se a achardes digna das alturas, admiti-me com ela a vossos pés…”

8. “Por isso costumava às vezes ler… ou comentar sobre as últimas novidades que via nas cidades por onde costumava passar.” (Pág. 22)

Não se diz comentar sobre alguma coisa , mas sim comentar alguma coisa: “Todos comentavam o desastre.” (Aurélio)

Dizer últimas novidades é chover no molhado. Novidade já pressupõe algo novo ou acontecimento recente. Não vou dizer que a expressão às vezes deveria estar entre virgulas, para não me tacharem de ranzinza. Veja outros deslizes semelhantes:

“O pastor contou dos campos de Andaluzia, das últimas novidades que viu nas cidades onde visitara.” (Pág.24)

“A gente sempre acaba fazendo amigos novos, e não precisa ficar com eles dia após dia.” Pág. 40)

“O alquimista enfiou a mão dentro do buraco, e depois enfiou o braço até o ombro.” (Pág. 184)

Últimas novidades… fazer amigos novos… enfiar dentro… Por que será que os alquimistas gostam de fazer isso com a gente? Por quê?!

9. “Todos os dias o rapaz ia para o poço esperar Fátima.” (Pág. 157)

A preposição a indica deslocamento rápido, provisório; para, permanência definitiva: Quem vai à praia vai passear; quem vai para o litoral vai morar lá.

10. “Entretanto, à medida em que o tempo vai passando, …”(Pág. 47)

Não existe a expressão à medida em que, mas sim à medida que.

11. “O rapaz deu uma desculpa qualquer para não responder aquela pergunta.”(Pág. 25)

“Então ele sentiu uma imensa vontade de ir até lá, para ver se o silêncio conseguia responder suas perguntas.” (Pág. 161)

Quem responde responde a alguma coisa: (responder àquela pergunta, responder a suas (ou às suas) perguntas)

12. “O rapaz assistiu aquilo tudo fascinado.” (Pág. 207)

O verbo assistir no sentido de observar exige a preposição a. A expressão àquilo tudo equivale a a tudo aquilo.

13. “Mas tinha a espada em sua mão.” (Pág. 175)

“…Um cavaleiro todo vestido de negro, com um falcão em seu ombro esquerdo.” (Pág. 173)

Não se emprega o possessivo quando se trata de parte do corpo, qualidade do espírito ou peças do vestuário. Nesse caso, usa-se apenas o artigo: (na mão, no ombro).

14. “A menina ficava deslumbrada quando ele começava a lhe explicar que as ovelhas devem ser tosquiadas de trás para frente.” (Pág. 41)

“— Daqui para frente você vai sozinho — disse o Alquimista.” (Pág. 229)

A expressão correta é para a frente (sempre com a presença do artigo). Qualquer gramática elementar registra isso.

15. “Ao invés de encontrar um homem santo, porém, o nosso herói entrou numa sala e viu uma atividade imensa…” (Pág. 58)

Ao invés do aço ou da bala de fuzil, ele foi enforcado numa tamareira também morta.” (Pág. 178)

A locução ao invés de só se usa quando há idéias opostas; significa ao contrário de: Ao invés de atacar, o time só joga na retranca. Quando as alternativas não são contrárias, utiliza-se em vez de, que quer dizer em lugar de: Em vez de jogar com dois atacantes, o time jogou apenas com um.

16. “Tinham-se passado onze meses e nove dias desde que ele havia pisado no continente africano.” (Pág. 95)

O verbo pisar é transitivo direto; rejeita, pois, a preposição em. (Corrija-se para: …havia pisado o continente) “O chão estava coberto com os mais belos tapetes que já havia pisado, e do teto pendiam lustres de metal amarelo trabalhado, coberto de velas acessas.” (Pág. 167)

Aqui o verbo pisar foi empregado corretamente. O exemplo só perde o brilho devido ao erro que aparece na última palavra. É culpa do revisor.

17. “Quase ia falando do tesouro, mas resolveu ficar calado. Senão era bem capaz do árabe querer uma parte…” (Pág. 65)

Na linguagem escorreita não se usa capaz por provável (nem possível), fato comum na comunicação descontraída, em portas de botequins: (…era bem provável que o árabe quisesse).

18. “A África ficava a apenas algumas horas da Tarifa.” (Pág. 43)

“Ah, se eles soubessem que a apenas duas horas de barco existem tantas coisas diferentes.” (Pág. 71)

“Estamos há apenas duas horas da Espanha.” (Pág. 65)

O advérbio apenas não deve ficar entre a preposição e o termo regido. Corrija-se para apenas a.

Não se deve dizer da Tarifa, como está no primeiro exemplo, e sim de Tarifa. Com exceção de Cairo, Rio de Janeiro e Porto, nomes de cidade não exigem artigo.

A presença da palavra exercendo o papel de preposição, no terceiro exemplo, é um pecado inominável. Não é coisa de gente sóbria.

Desculpe-me de minha franqueza, meu prezado alquimista, mas quem redige dessa maneira não deve ter a menor consideração para com seus leitores.

19. “Já não havia mais a esperança e a aventura…” (Pág. 79)

O uso simultâneo de e mais constitui redundância. Elimine um dos dois termos, e a oração ficará irrepreensível.

“Se a gente não for como elas esperam ficar, chateadas.” (Pág. 40)

Tarefa ingrata é tentar descobrir o sentido dessa frase. Cabeça de mago e bumbum de criança sempre têm coisas estranhas, muito estranhas…

20. “‘O pipoqueiro’, disse para si mesmo, sem completar a frase.” (Pág. 55)

Ora, se a frase não foi concluída, então a expressão deve terminar com reticências. Pois a função dos três pontos é exatamente indicar a omissão intencional de uma coisa que se devia ou podia dizer:

Correção: “O pipoqueiro…”

21. “Depois de vencidos os obstáculos, ele voltava de novo…” (Pág.113)

Obstáculos não se vencem; superam-se. Os desafios é que são vencidos.

22. “E que tanto os pastores, como os marinheiros, como os caixeiro-viajantes, sempre conheciam…” (Pág. 26)

Nas palavras compostas por substantivo + adjetivo, flexionam- se os dois elementos.

23. “Assim que sentaram na única mesa existente, o Mercador de Cristais sorriu.” (Pág. 78)

Sentar na mesa deve ser muito engraçado mesmo. Os alquimistas, assim como os políticos, talvez tenham por hábito sentar na mesa; pessoas normais, contudo, sentam-se à mesa.

24. “Naquela época não havia imprensa… Não havia jeito de todo mundo tomar conheci-mento da Alquimia.” (Pág. 133)

Devemos empregar todo o e toda a quando essas expressões equivalerem a o …inteiro e a …inteira: Não havia jeito de o mundo inteiro tomar conhecimento da Alquimia. Todo e toda (sem o artigo) significa qualquer. Toda gramática ensina isso.

25. “A visão logo sumiu, mas aquilo lhe deixou sobressaltado.” (Pág. 162)

Segundo mestre Aurélio, o verbo deixar no sentido de “fazer que fique (em certo estado ou condição); tornar é transitivo direto: Deixei-o alegre; A transação deixou-o rico”.

Na página 167, PC escreveu com rara sobriedade: “O que viu deixou-o extasiado”.

26. “Para quê tanto dinheiro?” (Pág. 203)

O acento só se justificaria se o que estivesse no final da frase: “Tanto dinheiro para quê?”.

27. “Mas de repente a vida me deu dinheiro suficiente, e eu tenho todo o tempo que preciso.” (Pág. 100)

Na linguagem apurada, o verbo precisar não abre mão da preposição de: (todo o tempo de que preciso), a menos que ele venha antes de infinitivo.

Sem querer me parecer ranheta, acho que “de repente” ficaria bem entre vírgulas. É só uma questão de estilo…

28. “As pessoas preferem casar suas filhas com pipoqueiros do que com pastores.” (Pág. 49)

O correto é preferir uma coisa a outra, e nunca do que outra. (Corrija-se para: …pipoqueiros a casá-las com pastores.)

29. “Então os guerreiros viviam apenas o presente… e eles tinham que prestar atenção em muitas coisas.” (Pág. 164)

“No presente é que está o segredo; se você prestar atenção no presente, poderá melhorá-lo.” (Pág. 166)

Presta-se atenção a alguém ou a alguma coisa, e não em.

30. “Ninguém disse qualquer palavra enquanto o velho falava.” (Pág. 170)

“O camelos são traiçoeiros: andam milhares de passos, e não dão qualquer sinal de cansaço.” (Pág. 181)

Qualquer se usa nas orações declarativas afirmativas; nas negativas, usam-se nenhum e suas variações: “Veio duma cidade qualquer, sua vida não foi boa nem má; foi como a dos homens comuns, a dos que não fizeram nenhum destino…” (Cecília Meireles)

31. “A velha pediu para que ele repetisse o juramento olhando para a imagem do Sagrado Coração de Jesus.” (38) (Correção: …pediu que ele…)

“…Pediu para lhe mostrar onde morava Fátima.” (Pág. 189) (Correção: Pediu que lhe mostrasse…)

Seguindo a gramática à risca, pedir para só se usa para solicitar licença, permissão ou autorização. Nos demais casos, usa-se pedir que: “Minha mãe ficou perplexa quando lhe pedi para ir ao enterro”. (Machado de Assis) / Pedira delicadamente que não se deixasse exposto à vista nada de valor”. (Carlos Drumond de Andrade).

32. “— Podemos chegar amanhã nas Pirâmides…” (Pág. 66)

“O rapaz se aproximou de uma mulher que havia chegado no poço…” (Pág. 150)

“Chegou na pequena igreja… quando já estava quase anoitecendo.” (Pág. 245)

Chegar em um lugar é regência dominante na fala brasileira e é encontradiça em alguns escritores medíocres ou sem muita expressão no meio literário, salvo raríssimas exceções.

Verbos de movimento exigem a, e não em: Chega-se sempre, e bem, a algum lugar. O único caso em que se pode empregar em com chegar é na referência a tempo: chegar em cima da hora.

É muito comum a expressão chegar em casa. Os escritores de boa nota, contudo, preferem chegar a casa: “Ao chegar a casa, Tavares encontrou a irmã preocupada“. (Dias Gomes)

33. “— Por que quis me ver? — disse o rapaz.” (Pág. 180)

“— E por que o deserto ia contar isto a um estranho, quando sabe que estamos há várias gerações aqui? — disse outro chefe tribal.” (Pág. 168)

Quando há uma pergunta, no discurso direto, o sensato é empregar um destes verbos: indagar, perguntar, interrogar…

34. “Mas as crianças sempre conseguem mexer com os animais sem que eles se assustem. Não sei porquê.” (Pág. 36) (Correção: Não sei por quê.)

“E por que ?” (Pág. 56) (Correção: E por quê?)

“Até que um deles, o mais velho (e o mais temido), perguntou porque o cameleiro estava tão interessado em saber o futuro.” (Pág. 165) (Correção: …por que o cameleiro…)

“Não pergunte porquê; não sei.” (Pág. 209) (Correção: Não pergunte por quê;…)

Entre muitas outras coisas, Paulo Coelho também não domina o uso dos porquês.

Veja como mestre Salomão Serebrenick elucida o caso sem magia nem bruxaria, no seu fabuloso livro 70 Segredos da Língua Portuguesa:

“A melhor norma prática a seguir é esta: só juntar os dois elementos num único caso — quando se tratar de uma resposta ou de uma explicação; nos demais casos, que constituem a grande maioria, separar os dois elementos.

Em final de frase, acentua-se o e: Já sei por quê. Também se acentua quando se trata de substantivo: É bom conhecer o porquê das coisas.

35. “Eu lhe ensinarei como conseguir o tesouro escondido. Boa tarde.” (Pág. 51)

O verbo ensinar merece atenção muito especial. Quando se ensina algo a alguém, temos: O professor ensinou-lhe a lição. Quando se ensina alguém a fazer algo, temos: O professor ensinou-o a ler e escrever.

No segundo caso, temos um erro quase que insignificante. Mas não nos esqueçamos de que a língua é feita de detalhes: os cumprimentos bom-dia, boa-tarde e boa-noite só se constroem com hifem. É uma pena que certos alquimistas não estejam preocupados com essas coisas miúdas: o negócio deles é encontrar a pedra filosofal. Aposto que nem querem saber se hifem é variante de hífen. O vernáculo para eles está em último plano.

36. “Mas o comerciante finalmente chegou e mandou que ele tosquiasse quatro ovelhas.” (Pág. 25)

O verbo mandar na acepção de ordenar rege o pronome oblíquo o. No entanto, se o infinitivo for um verbo transitivo, como no caso em questão, é admissível também o pronome lhe. Segundo Celso Luft, também é correto construir: mandou-o (ou mandou-lhe) que tosquiasse as quatro ovelhas. Assim, PC teria quatro motivos para não pecar:

a) …mandou-o que tosquiasse…
b) …mandou-lhe que tosquiasse…
c) …mandou-o tosquiar…
d) …mandou-lhe tosquiar…

Todos sabemos que consultar um dicionário de regência verbal não é tão divertido quanto separar nuvens com a força da mente (ou fechar os olhos e viajar pelos campos de Andaluzia…), mas aprendem-se coisas insuspeitas.

O enredo do livro O Alquimista é interessante. Isso nos faz entender por que Paulo Coelho é um dos dez escritores mais lidos em todo o mundo. Li a versão em inglês, e fiquei encantado. Com certeza, ele faz jus a todos os prêmios que tem recebido até aqui. Mas uma coisa precisa ficar bem clara: enquanto Paulo Coelho não permitir que suas obras sejam revisadas por pessoas competentes, jamais será reconhecido, no Brasil, como um grande escritor, porque definitivamente nosso mago vendedor de livros não conhece o idioma em que se exprime.

E digo mais: se continuar atropelando nossa tão maltratada língua, sempre haverá alguém com motivo de sobra para escrever frases como esta: “Podia haver prêmios literários conferidos a escritores para que não escrevessem.” (Afonso Lopes Vieira, Nova Demanda do Gral, pág. 319)

(*) J. Milton Gonçalves é escritor graduado pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Pres. Venceslau (SP), com especialização em Metodologia do Ensino Superior e em Linguística Aplicada (PUC/SP). Hoje é diretor de duas escolas de idiomas e presta serviços de consultoria bilíngue e de revisão linguística a várias editoras do país.

Nota deste blogueiro
Desde 2002, Monsieur Polô Coelô é membro da Academia Brasileira de Letras — um verdadeiro imortal.

Colonização cultural

José Horta Manzano

Um dos recalques mais profundos de que sofrem certos integrantes de nosso «governo popular» é definido pela magistral locução complexo de vira-lata. Muitos figurões – entre os quais nosso guia – não conseguem se libertar desse sentimento de inferioridade que lhes corrói as tripas.

Cachorro 23O Lula, apesar de ser hoje um homem rico e de ter ocupado o posto mais importante da República, continua vendo um fosso entre ele e a «zelite». Convenhamos que, em grande parte, o culpado é ele mesmo.

Discurso 2Desde que subiu pela primeira vez numa caixa de sabão pra discursar na porta da fábrica onde trabalhava, passaram-se quase quarenta anos. Tempo para estudar, houve. Se nosso guia preferiu dedicar-se exclusivamente a assuntos que lhe pareceram mais lucrativos, foi por opção livre e consentida. Se ainda hoje é inculto, fala palavrão em público e gospe pro santo, que não se espante se a maioria o rejeita.

Arribado à presidência, seus áulicos o aconselharam a empreender ações firmes para liberar o povo dos grilhões da colonização estrangeira. Passaram a estigmatizar tudo o que lembrasse louros de olhos azuis. Abriram os braços a Ahmadinedjad, do Iran; a Chávez, da Venezuela; aos bondosos irmãos Castro, de Cuba; a Evo, da Bolívia. Para reforçar, sorriram a ditadores africanos.

Na cabeça dessa gente, o remédio para nos livrarmos do complexo de inferioridade é renegar a cultura ocidental, justamente aquela da qual fazemos parte.

Discurso 3Raciocínio míope. Antes de descartar uma camisa, convém ter outra à mão, caso contrário, periga-se sair à rua descamisado. Dado que ninguém pensou em providenciar camisa nova, continuamos usando a que ia ser jogada fora. Com furos, rasgos e remendos aumentados e visíveis.

Na França, uma das funções da Académie – instituição equivalente a nossa ABL – é sugerir termos e expressões para substituir empréstimos estrangeiros. Por conselho dos acadêmicos, não se diz marketing, mas mercatique. Não se fala em software, mas em logiciel. Ninguém jamais disse fax, mas télécopie. Email é conhecido como message électronique. E assim por diante. Certos neologismos pegam, outros não. C’est la vie.

Chamada Estadão, 29 jul° 2015

Chamada Estadão, 29 jul° 2015

A chamada que colhi hoje no Estadão mostra que a aproximação com Ahmadinedjad, Chávez, Castro & cia não surtiu efeito tangível no campo cultural. Continuamos colonizados. Food park, contêiner, food truck, bike food… um condensado de falta de imaginação!

A desenvoltura que muitos demonstram na hora de roubar é proporcional à timidez de que todos dão prova na hora de ousar expressões novas. É pena.

Mistérios de gênero

José Horta Manzano

No passado, as atividades femininas restringiam-se a afazeres domésticos e a trabalho na agricultura. Fora desse universo restrito, era o clube do Bolinha: só homens tinham vez.

Soldado 1A Revolução Industrial expandiu o horizonte profissional das mulheres. Guerras que devastaram a população masculina também colaboraram. No século XX, a diversificação das atividades humanas permitiu que moças e senhoras passassem a exercer profissões que antes lhes eram vedadas.

À medida que possibilidades se abriam, nome de profissão foi ganhando equivalente feminino. Assim, apareceram as primeiras médicas, professoras, deputadas, engenheiras, filósofas, escritoras. Até estivadoras, delegadas de polícia e juízas existem. Há diretores e diretoras, vendedores e vendedoras, empregados e empregadas, assalariados e assalariadas.

Curiosamente, uma profissão exercida por número crescente de mulheres ainda não ganhou denominação feminina. Ainda hoje, ouvi pelo rádio o depoimento de uma moça apresentada como soldado da Polícia Militar. «Ela é soldado». Soa estranho, não?

Soldado 2Soldado deriva de soldo, retribuição devida a militares. Em latim, soldus – contração de solidus – designava moeda de ouro ou de prata. Entre as palavras da família, algumas ainda se referem a dinheiro ou a pagamento. Dizemos saldar uma dívida, por exemplo. Os antigos diziam «venda de saldos» – expressão hoje arcaica, substituída que foi por «sale», que é muito mais chique.

Concordo que alguns femininos dão margem a forma estranha. Para evitar hilaridade, é melhor evitar dizer torneira mecânica, por exemplo.

A meu ver, no entanto, não há por que hesitar em dizer soldada. Não me parece ofensivo, nem ambíguo, nem politicamente incorreto. Além do mais, está abrigado sob o manto do vocabulário da Academia Brasileira de Letras. Portanto, é de lei.

PT ou BR

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 6 jun 2015

Ortografia 2Dia 13 de maio, comemoramos a Lei Áurea, que pôs fim à escravidão oficial e entrou para a hagiologia nacional. Em Portugal, o 13 de maio celebra a Virgem de Fátima. Este ano, porém, um clamor quase empanou o fervor. É que, justamente nesse dia, entrou oficialmente em vigor, em terras lusas, a grafia determinada pelo Acordo Ortográfico alinhavado em 1990 pelos integrantes do clube lusófono.

No Brasil, a resistência ao AO90 foi pouca, não passou de protestos frouxos. O adiamento da entrada em vigor, programada agora para o fim deste ano, nem tinha razão de ser. Na prática, Inês é morta: a nova grafia já mandou a antiga às favas.

by Fábio Nienow, desenhista gaúcho

by Fábio Nienow, desenhista gaúcho

Mais do que pelo sol tropical, o brasileiro tem o couro curtido pelas lambadas que levou ao longo dos séculos. Revoluções, golpes de Estado, implantação e supressão súbita de leis, reviravoltas políticas repentinas e constantes, insegurança jurídica causam aflição crônica. Com paciência beneditina e resignação bovina, aprendemos a engolir pronunciamientos e a lidar com eles. Dançar conforme a música não é, entre nós, mera figura de estilo.

Calejados por sucessivas reformas ortográficas, não opusemos grande resistência a essa enésima modificação. O que mais nos incomoda é o pouco tempo que tem decorrido entre remodelações. Pessoas que, em 1990, tinham 55 anos ou mais viram-se obrigadas a aprender a escrever pela quarta vez! Alfabetizadas pela antiga grafia pseudoetimológica, já tinham sido forçadas a se adaptar à reforma de 1943 e à de 1971. A de 1990 amolava, sim, ainda que o desconforto não se tenha convertido em rebelião.

Orthographia 1Já em Portugal, a perspectiva de alterar hábitos de escrita encontrou oposição vigorosa. A resistência não se prendia aos mesmos motivos que provocavam mau humor no Brasil. O problema estava mais para orgulho ferido que para simples aborrecimento.

De um século para cá, houve numerosas tentativas de harmonização da escrita entre Brasil e Portugal. Nenhuma vingou. Em 1907, a Academia Brasileira de Letras propôs novas regras, que não foram seguidas nem mesmo no Brasil. Em 1911, Lisboa alterou profundamente a escrita – mas a novidade só valeu para Portugal. Em 1931, nova tentativa de aproximação gorou. O Brasil fez grande reforma em 1943, ignorada por Portugal. Em 1945, foi a vez de Portugal remodelar sua escrita, sem que o Brasil acompanhasse.

Placa 15O AO90 propunha-se a acertar o passo desse fado do linguista doido. Mas a medida – ressentida em Portugal como insuportável intromissão estrangeira na língua, um crime de lesa-pátria, um terremoto – mexeu com os brios da nação e levantou protesto maciço. Nem a finalidade explícita da reforma, a unificação da língua escrita, aplacou os ânimos.

Conceda-se que, em Portugal, a reforma desfigura uma batelada de palavras de uso frequente, o que explica a grita, os libelos inflamados e a objeção indignada. Gente de peso, figuras públicas, escritores, políticos, linguistas opuseram-se ostensivamente às novas regras. Blogues de resistência cívica continuam na luta ainda agora.

Peço ao distinto leitor a amabilidade de lançar uma vista a estes dois fragmentos.

Interligne vertical 12«Minha mulher a dias, que labuta asinha mas esbanja lixívia em sanitas e autoclismos, queixou-se do novo lanço com portagem que lhe cabe enfrentar, com a carrinha, na hora de ponta. Posto que o trecho tenha ficado giro, sabe a desperdício. Deixa a molesta sensação de cobres terem sido deitados fora.»

«O abaixo assignado promette aos seus freguezes que todas as encommendas effectuar-se-hão com a maior promptidão e exactidão. Tambem encarrega-se de n’ellas ageitar quaesquer eventuaes concertos.»

O primeiro parágrafo, que segue escrupulosamente as normas do AO90, foi escrito em português europeu. Qualquer cidadão luso o lerá sem perder uma palavra. O segundo trecho, calcado em anúncio publicado num jornal brasileiro faz 150 anos, foi grafado no estilo antediluviano da época – mas em português do Brasil.

by Alexandre Affonso, desenhista

by Alexandre Affonso, desenhista

Essas duas passagens mostram que, para a mútua compreensão, pouco conta a grafia. Ainda que se alcançasse a harmonização, o efeito seria o de emplastro em perna de pau. Por mais que se reforme a escrita, a variante europeia e a brasileira seguirão, impávidas, inexorável rota de afastamento.

Pragmáticos e despidos de exaltações nacionalistas, softwares continuam a oferecer ambas as variantes: português-pt e português-br, à escolha do freguês. O AO90 ilustra a desabusada tirada de Horácio: «Parturient montes, nascetur ridiculus mus» – a montanha pariu um ridículo camundongo.

Paralimpismo 2


Interligne vertical 12Algum tempo atrás, insurgi-me contra o neologismo «paralímpico», termo que entra em colisão frontal com o espírito de nossa língua. Passou-se quase um ano, e a situação não se moveu nem um milímetro. Com a honrosa exceção da Folha de São Paulo
― que se mantém, firme e forte, contra a corrente ― os outros meios impressos se vergaram à caprichosa ignorância dos que deram nome ao comitê nacional que cuida das competições paraolímpicas. Como maria vai com as outras, o Estadão e o Correio Braziliense seguem a corrente. É pena. Achei oportuno reproduzir aqui o mesmo artigo que saiu no Correio Braziliense em 1° de setembro 2012.


Paralimpismo

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 1° setembro 2012

Enganam-se o gentil leitor e a distinta leitora se imaginarem que estou aqui, a mando de sabe-se lá que multinacional, cumprindo a nobre missão de apresentar-lhes novo produto de limpeza. O que parece nem sempre é, como sabem todos os que, um dia, já passaram pela experiência de levar gato por lebre. Comecemos pelo começo, que dá mais certo.

Sentindo os ventos fétidos que prenunciavam as atrocidades da Segunda Guerra Mundial, um certo Dr. Ludwig Guttman, cirurgião do Hospital Judeu de Breslau (hoje Wroclaw), deixou a Alemanha em 1939 e se refugiou na Inglaterra, onde continuou a exercer seu ofício.

Os Jogos Olímpicos previstos para 1940 e para 1944 não se realizaram, por razão de conflito mundial. Mas Londres fez questão de sediar os de 1948. Quis mostrar ao mundo que, apesar das perdas, dos bombardeios, das privações, o velho leão ainda estava de pé, alerta, pronto para mostrar-se sob seu perfil mais favorável.

Os combates haviam deixado um rastro de mutilados e estropiados. Dr. Guttman teve a brilhante ideia de valer-se dos holofotes dos Jogos Olímpicos para promover uma manifestação paralela, exclusivamente dedicada a atletas cadeirantes. Diga-se logo que a ideia não despertou no público nenhum entusiasmo delirante. A vista daqueles amputados reavivava feridas dolorosas e ainda não cicatrizadas. Aquilo trazia lembrança do que todos queriam justamente esquecer. Apesar de o bom doutor ter tentado oficializar sua iniciativa, o sucesso foi tênue. Ainda não era a hora.

A ideia cochilou. Foi preciso que uma geração inteira se passasse para que a humanidade estivesse pronta a aceitar a novidade. Veio aos poucos. Já em 1960, nos Jogos de Roma, houve um embrião de competições para atletas diminuídos por defeitos físicos. Pouco a pouco, a nova prática foi ganhando os espíritos, e diretórios nacionais foram-se formando. Logo veio a necessidade de criar um comitê internacional para coordenar os diretórios nacionais da nova modalidade esportiva. Em 1989, fundou-se em Düsseldorf o organismo tutelar. Faltava dar-lhe o nome.

Não houve grandes discussões. Tomou-se o prefixo grego παρα (para), que evoca a semelhança, a proximidade, e juntou-se-lhe o nome tradicional das competições. Nasceram assim os Jogos Paraolímpicos. As duas raízes gregas compuseram um adjetivo novo, claro, explícito. Ingleses, alemães, franceses, castelhanos decidiram amputar a primeira letra do nome principal. Para nós, soa estranho. Resultaram formas como Paralympic Games, Paralympische Spiele, Jeux Paralympiques, Juegos Paralímpicos. Parece produto de limpeza.

Pelo menos desta vez — é tão raro, daí nosso orgulho — foi-nos permitido desdenhar com certa superioridade da falta de cultura dos falantes dessas línguas. Nós, com nossos Jogos Paraolímpicos, havíamos tido a sabedoria de manter o aspecto, o som e a ideia, tudo sem deturpar nenhuma palavra! Foi envaidecedor, digo sinceramente. No tempo em que ainda era permitido se exprimir assim, cheguei a pensar: «eles, que são brancos, que se entendam».

Mas não há mal que sempre dure nem bem que nunca se acabe. Ao contrário do que cantava Eduardo das Neves na marchinha que compôs em 1902 em homenagem a Santos Dumont — «a Europa curvou-se ante o Brasil» —, desta vez fomos nós que sucumbimos. O Brasil acabou dobrando-se diante da Europa.

Não sei quem teve a fabulosa ideia, nem quando esse espantoso estalo terá ocorrido. O fato é que a palavra tradicional foi atirada à lata de lixo da história. Atropelamos o espírito de nossa língua. Foram ignorados os usos e costumes de nossa norma culta que, tradicionalmente, impelem o prefixo a adaptar-se ao nome. Mil anos de formação de nosso falar foram alegremente desconsiderados. Se era para encurtar, que se oficializasse ‘parolímpicos’. Seria uma forma intermerdiária, nem lá nem cá, que talvez satisfizesse a gregos e a troianos.

Mas, não. O braço brasileiro da organização traz o exótico (e mui oficial) nome de… Comitê Paralímpico(sic) Brasileiro. Com site e tutti quanti. O nome de origem foi transfigurado através de uma verdadeira política de faroeste, daquelas que primeiro executam o suspeito, para impossibilitar o devido julgamento. Não se julgam cadáveres.

A adulteração foi heresia perpetrada ao arrepio da forma sacramentada pelo Vocabulário Ortográfico da ABL, guardião da língua! Que aqueles que patrocinaram esse ‘malfeito’ levantem os braços ao céu e agradeçam por não se queimarem mais hereges em fogueiras.

Se alguém pensou em colonização cultural, não há de estar longe da verdade.