À moda do Porto

José Horta Manzano

Guerrilha 2Sabe aquela adolescente rebelde, respondona, malcriada? Aquela que falta às aulas, enfrenta a mãe, desafia o pai, grita com toda a família, faz tudo o que não deve? Nem toda jovem é assim, mas uma ou outra sempre exagera na dose. Como diz o outro, arroubos da juventude são um mal que a idade cura.

Cura? Algumas pessoas são mais resistentes. Há quem espere até os 30 ou os 40 pra consertar. E há quem não endireite nunca. Nessa categoria, está a presidente de nossa maltratada República.

Ela não confessa comportamento bicudo na juventude – talvez porque ninguém lhe tenha feito a pergunta. No entanto, o fato de ter crescido no torpor de família de classe média próspera e, assim mesmo, ter-se deixado seduzir por grupúsculo paramilitar de métodos violentos é significativo. Sua rebeldia vem de longe.

Avião 6«Elle n’en fait qu’à sa tête»ela não ouve ninguém, como dizem os franceses. Já à beira dos setenta aninhos, dona Dilma persevera. Em matéria de relacionamento humano, é pródiga em desastres: consegue desagradar, ao mesmo tempo, a gregos, troianos, dinamarqueses e mongóis. Semeia antipatia por onde passa. Veja as proezas de que nossa chefe foi capaz em apenas 48 horas.

Em entrevista à Folha de São Paulo, desafiou Deus e o mundo a demovê-la do trono presidencial. «Que venga el toro!» Ora, quem tem 9% de aprovação não está com essa corda toda. Convém guardar a farofa no embornal. Não é momento para bravatas. Enfurecer o adversário é tudo o que ela não devia ter feito.

Revolution 3Segundo o jornalista Cláudio Humberto, pegou mal a carteirada que ela cometeu ao pedir apoio de deputados para contrabalançar acusações de pedaladas fiscais lançadas pelo TCU. Um dos ministros daquele tribunal, irritado, analisou: «Dilma não percebeu que, neste momento, precisa mais de advogado do que de deputado.»

O mesmo jornalista relata que dona Dilma já não reconhece os (poucos) que restam à sua volta. Em reunião no último dia 6, foi grosseira com o ministro Luiz Adams (Advocacia Geral da União) e com um pobre garçom.

Repetindo o desastre protagonizado um ano e meio atrás, a mandatária, a caminho de Moscou, fez escala em Portugal. Com a numerosa comitiva naturalmente. Como da última vez, a agenda oficial omitiu a parada.

A desculpa providencial é «parada técnica» imprescindível em virtude da baixa autonomia do avião. Ora, encher o tanque não demanda mais que umas dezenas de minutos. Fosse só isso, meia hora bastaria. Mas… nossa presidente não resiste a um bom bacalhau à moda do Porto, daquele de arrebitar-se-lhe as orelhas.

Bacalhau 1Sabem quem é o culpado dessas frequentes escalas lusitanas? Pois é o Lula, minha gente. Sim, senhores! Foi ele quem, na hora de substituir o Sucatão, desprezou a indústria nacional e decidiu-se pelo Airbus 319.

Baixa autonomia por baixa autonomia, teria sido melhor prestigiar a Embraer. Afinal, a empresa de São José dos Campos é o terceiro fabricante mundial de aviões.

Alguém imagina avião presidencial de Obama, Merkel, Hollande ou Putin fazendo «escala técnica» bacalhoeira?

Com a Escócia

José Horta Manzano

A voz da razão prevaleceu, melhor assim. Certas coisas fazem sentido, outras, não. Não fazia sentido a Escócia apartar-se do Reino Unido. A meu ver, tirando o orgulho de ter um país pra chamar de seu, todos saíam perdendo nessa história. Sentimentos nacionalistas têm lugar e hora ― não era hora nem lugar.

Embora ache que os escoceses tenham feito a escolha certa, compreendo o anseio que certos territórios acariciam de deixar de fazer parte de determinado Estado. É o caso da Ucrânia oriental, principalmente a região de Donetsk e Lugansk. São territórios tradicionalmente povoados por russoparlantes.

Regiões europeias onde vigora sentimento separatista

Regiões europeias onde, segundo certas fontes, vigora sentimento separatista

Enquanto a União Soviética esteve de pé, pouco importava a que «república» pertencesse o território. De toda maneira, as ordens vinham de Moscou. As quinze repúblicas que formavam União estavam lá pra inglês ver. Tinham menos valor ainda que os Estados que compõem a cambaleante «federação» brasileira.

No dia em que a valente URSS se despedaçou, os problemas vieram à tona. Os russos, que formam a maioria dos habitantes de certas regiões da Ucrânia, tornaram-se, da noite para o dia, estrangeiros. Está aí a semente da briga atual.

É compreensível que os países europeus se unam na defesa das atuais fronteiras russo-ucranianas, ainda que, artificiais, elas não respondam a critérios étnicos e linguísticos. Se abrirem exceção para o leste ucraniano, estarão abrindo as comportas para reivindicações identitárias e independentistas dentro de suas próprias fronteiras. E a Europa está polvilhada por regiões, grandes ou pequenas, que sonham em ser países autônomos.

Regiões europeias onde vigora sentimento separatista

Regiões europeias onde, segundo outras fontes, vigora sentimento separatista

O Norte da Itália tem anseio de tornar-se independente. O novo Estado já tem até nome: Padânia, em alusão ao Rio Po, coluna dorsal da região. Córsega, País Vasco, Catalunha, Tirol do Sul, Transnístria são territórios que, há tempos, reivindicam independência ou autonomia.

A força do sentimento secessionista em cada região varia segundo as fontes. Mas é compreensível que, uma vez abertas as porteiras, a manada tenda a estourar. No fundo, foi bom que os escoceses tenham sido comedidos. Mais vale não bulir com gato que está dormindo.