Não dá mais tempo

José Horta Manzano

Não se pode dizer que nosso guia tenha subido na vida trabalhando duro. Antes de atingir a idade de 40 anos, já tinha deixado de bater ponto. Daí pra diante, dedicou-se a deitar falatório enquanto os companheiros cuidaram do resto. E que resto!

Tempos Modernos (1936), Charles Chaplin

Tempos Modernos (1936), Charles Chaplin

Esse percurso peculiar há de lhe ter dado a impressão de que o mundo funciona na base da força do pensamento. Basta desejar – e vociferar quando necessário – para moldar presente e futuro. Insistindo em sofismas, nosso guia tentou mudar até o passado, um assombro! Por um momento, houve gente que chegou a acreditar.

Esporte 2Hoje, tudo isso acabou. Afinal, nenhum mal é eterno. Alguns anos atrás, no entanto, quando «fez o diabo» para conseguir que os Jogos Olímpicos de 2016 fossem atribuídos à cidade do Rio de Janeiro, nosso demiurgo ainda vivia num mundo de fantasia.

Há de ter acreditado que bastava um sopro seu para garantir o sucesso dos atletas brasileiros. A designação do Rio de Janeiro foi considerada um fim em si, uma conquista, uma glória, o coroamento de admirável percurso político pessoal.

Esporte 3Desmancha-prazeres, o destino ousou contrariar o que parecia ser favas contadas. O vergonhoso desempenho da seleção nacional de futebol no Campeonato Mundial de 2014 despejou um balde de água gelada em muitas esperanças. Mensalão, petrolão e generalizada incompetência governamental lavaram a jato a glória pré-contabilizada.

O resultado é que os JOs 2016 perderam o encanto antes mesmo de começar. Faltando menos de um ano, pouco se fala neles. A julgar pelos resultados do Campeonato Mundial de Atletismo – que se desenrola estes dias em Pequim – dos duzentos e tantos milhões de habitantes de que dispõe, o Brasil não conseguiu espremer um número expressivo de atletas.

Esporte 1Com amor-próprio mais enraizado que o nosso, a China – país de pouco peso no esporte até então – trabalhou duro para brilhar nas Olimpíadas de Pequim, em 2008. E brilhou. No quadro de medalhas, apareceu em primeiro lugar, à frente de mastodontes como os EUA e a Rússia. Das 302 medalhas de ouro possíveis, abocanharam 51, uma façanha.

Em relato desta semana, o portal esportivo da televisão pública francesa apregoa em manchete: «Le Brésil sans relief à Pékin un an avant les Jeux Olympiques de Rio»o Brasil irrelevante em Pequim um ano antes dos Jogos Olímpicos do Rio.

JO 2016Do jeito que vão as coisas, podemos ir-nos preparando para mais um vexame transmitido ao vivo em escala planetária. É pena. Quem sabe um dia aprendem que, para as coisas funcionarem, não basta desejar: há que trabalhar.

Entre cobras e caranguejeiras

José Horta Manzano

Você sabia?

Alguns dias atrás, contei-lhes o caso curioso de um hotel situado exatamente sobre a linha de fronteira entre França e Suíça, situação singular que faz do estabelecimento um caso à parte em matéria de pertencimento nacional.

O Brasil e o Suriname, como sabem meus cultos leitores, são os únicos países americanos a compartilhar fronteira terrestre com a Europa – melhor dizendo, com algum país europeu.

Fronteira seca entre Brasil e França

Fronteira seca entre Brasil e França

De fato, a Guiana Francesa, nossa vizinha de parede, goza do estatuto de território francês ultramarino. É considerada por Paris parte integrante do país, sujeita às mesmas leis, aos mesmos direitos e aos mesmos deveres. Um guianense é tão francês quanto um parisiense ou um marselhês.

Séculos atrás, quando o Brasil começou a tomar forma como nação, a preocupação em demarcar fronteiras tinha caráter essencialmente militar. Cada Estado procurava proteger-se contra invasão de vizinhos.

Hoje a situação é mais complexa. Petróleo, urânio, tungstênio, manganês, lítio e outras preciosidades entraram na sacola de interesses. Convém definir muito certinho onde acaba meu quintal e onde começa o do outro, que é pra evitar confusão.

A fronteira seca entre o Amapá e a Guiana Francesa mede 320 quilômetros. Foi inspecionada pela última vez em 1962, quando se instalaram sete marcos divisórios. Neste meio século, surgiram GPS, drones, helicópteros, aparelhos de precisão, comida desidratada fácil de transportar, mas… a floresta continua lá, inóspita, úmida, impenetrável.

Borne = marco divisório Trijonction = fronteira tríplice

Borne = marco divisório
Trijonction = fronteira tríplice

Paris e Brasília puseram-se de acordo para conferir o trabalho dos anos sessenta. Organizaram uma expedição binacional incluindo legionários, pesquisadores, geógrafos, botanistas e guias. Estão, estes dias, em plena ação. Segundo o último relato, feito pela televisão francesa, já haviam encontrado quatro dos sete marcos divisórios plantados há 52 anos. Faltam três.

Fizeram descobertas surpreendentes, como um rio não repertoriado na última expedição. Ao final da aventura, a linha de fronteira deverá ser corrigida, uns quilômetros mais pra lá, outros mais pra cá.

Nem só de crise político-criminal vive o Brasil. Faz bem à alma saber que outras atividades continuam se desenvolvendo longe de ratazanas políticas e próximas de cobras, aranhas e macacos.

Interligne 18e

Quem quiser dar uma espiada na reportagem de cinco minutos da televisão francesa clique aqui.

Regime

José Horta Manzano

«Mais si la diète à base de soupes de légumes semble tenir toutes ses promesses, comme le souligne la presse brésilienne en chroniquant la nouvelle silhouette de la présidente, le passage sans transition de la lutte des classes à celle contre les féculents s’avère plus délicat pour le Parti des Travailleurs.»

Dilma 11«Se o regime [Ravenna] à base de sopa de legumes parece cumprir o que promete, como destaca a imprensa brasileira ao comentar a nova silhueta da presidente, a passagem brusca da luta de classes à luta contra carboidratos se revela mais delicada para o Partido dos Trabalhadores.»

A frase, representativa do fino e ácido humor francês, foi extraída de artigo intitulado Dilma Rousseff põe o Brasil de regime publicado no portal da televisão internacional francesa – TV5 Monde.

Frase do dia — 116

«Le Vénézuéla c’est l’Ucraine de l’Amérique Latine.»

«A Venezuela é a Ucrânia da América Latina.»

Patricia Loison, apresentadora do Grand Soir 3, importante telejornal com duração de uma hora transmitido diariamente pela televisão francesa. Vai ao ar assim que termina o programa principal do dia. Em geral, começa por volta de 22h.

Quem tiver curiosidade de assistir vai encontrar neste link. A menção a nosso vizinho bolivariano está na edição de 5 mar 2014. Começa no minuto 17’30’’