Meio milhão

José Horta Manzano

Nalgum ponto da noite passada, nosso contador de visitantes marcou um número bonito: 500.000. Meio milhão de page views(*), minha gente! Pra um blogue modesto, despretensioso, não ligado a figurão das artes ou da política e, ainda por cima, sem fins lucrativos, é pra deixar o ego satisfeito.

Agradeço ao distinto leitor, tanto àquele que faz visitinha diária, quanto àquele que vem de passagem, que nem visita de médico. Eu me sinto feliz de poder acolher a todos e espero que tenham encontrado o que vieram buscar. E que continuem a vir, que me dá muito gosto.

Aqui vão alguns números do blogue:

  • 6 anos no ar
  • 3.650 artigos publicados
  • 500.000+ page views
  • 1,9 artigos lidos por visitante
  • 2.500 comentários
  • Visitantes de 181 países ou territórios
  • 210 seguidores inscritos

Aproveito para desejar a todos os distintos leitores um alegre período natalino e um ano-novo novo, com saúde e realizações.

(*) Page view é como convém chamar, em internetês, cada artigo lido.

O aniversário do Lula

Josias de Souza (*)

Lula fez aniversário nesta sexta-feira. Deveria ter presenteado a si mesmo com o silêncio. Mas percorre Minas Gerais em caravana. Faz comícios diários. Seus lábios não desgrudam do microfone. Assim, sem medo de ser patético, declarou: «Não é aos 72 anos que vou roubar um centavo para envergonhar milhões e milhões de pessoas que a vida inteira confiaram em mim.»

Lula discursou num comício na cidade de Montes Claros. Apresentou-se à plateia como um símbolo, seu papel predileto: «Estão tentando me destruir desde que nasci. Tentem destruir o Lula, vocês nunca vão conseguir, porque o Lula não é o Lula, é uma síntese daquilo que são milhões e milhões de mulheres e homens. Lula é uma idéia criada por vocês.»

O pajé do PT, de fato, pode se dar ao luxo de falar como símbolo. Deixou de ser qualquer um quando virou líder sindical em plena ditadura. Perdeu eleições como símbolo, chegou ao Planalto como símbolo, invocou a condição de símbolo para sobreviver ao mensalão e, como símbolo, imaginou-se invulnerável no petrolão. Agora, responde pelo que passou a simbolizar.

Suprema ironia: coube ao companheiro Antonio Palocci formular a pergunta que explica por que muitos brasileiros deixaram de respeitar os cabelos brancos do símbolo: «Até quando vamos fingir acreditar na autoproclamação do ‘homem mais honesto do país’ enquanto os presentes, os sítios, os apartamentos e até o prédio do Instituto Lula são atribuídos a dona Marisa?», indagou Palloci na carta que enviou ao PT para se desfiliar da legenda.

Lula tornou-se um símbolo completo. Fez-se sozinho na vida. E se desconstrói sem a ajuda de ninguém. O símbolo discursa como se fosse uma estátua de si mesmo. E age como pardal que suja a própria testa de bronze. Costuma-se dizer que Lula virou um político como todos os outros. Bobagem. Aconteceu algo pior. Lula tornou-se um símbolo completamente diferente de si mesmo.

Certas frases ‒ «Não é aos 72 anos que vou roubar um centavo…» ‒ passam a impressão de que o autor será símbolo do cinismo até o fim. No aniversário do símbolo, um simples “parabéns” soa como ironia.

(*) Josias de Souza é jornalista e comentarista político

Nota deste blogueiro
A frase do Lula lembra uma fala do general De Gaulle em coletiva de imprensa. Em 1958, ele acabava de assumir o governo da França apoiado em nova Constituição que lhe conferia amplos poderes. Dando-se conta de que alguns se mostravam inquietos com tanto poder concentrado nas mãos de uma só pessoa, tranquilizou a população: «Não é aos 67 anos que vou iniciar uma carreira de ditador.»

De Gaulle disse a verdade. Assim como não tinha sido ditador antes, não se deixou tentar depois. Já quando fala o Lula ‒ homem condenado por corrupção a quase dez anos de cadeia ‒, é permitido desconfiar.

Brexit ‒ 6

José Horta Manzano

Faz hoje um ano que o povo do Reino Unido decidiu que era chegada a hora de se divorciar da União Europeia. Um ano já! Como passa o tempo! Dá a impressão de que foi ontem. No dia seguinte ao voto, boa parte dos britânicos levou um susto quando se levantou. Contrariando todas as pesquisas ‒ que unanimemente indicavam resultado favorável à permanência na UE ‒, 52% do eleitorado exprimiu desejo de deixar o bloco. Não foi pouca gente, não. A diferença entre o «leave» (partir) e o «remain» (ficar) chegou perto de um milhão e meio de votos num universo de trinta e poucos milhões. A vontade popular foi claramente expressa.

Nem os dirigentes britânicos nem os colegas europeus estavam preparados para a surpresa. Nada parecido tinha acontecido antes, e o susto desnorteou meio mundo. O bloco europeu, que tinha começado com seis pioneiros em 1957, cresceu até atingir 28 membros. Encolher, não tinha nunca encolhido. Daí a perplexidade. Como proceder? A receita não está nos manuais.

Passado um ano, tudo ainda está por inventar. Inconformados, os que gostariam que o Reino Unido permanecesse na UE ainda acalentam a esperança de reverter a decisão. Tanto britânicos quanto estrangeiros trabalham nesse sentido. Muitos dos que depuseram na urna voto favorável à saída mordem as unhas ao se dar conta da sinuca em que meteram o país. Se o plebiscito fosse hoje, é grande a possibilidade de o resultado ser diferente. Mas o que está feito, está feito.

As negociações de verdade, previstas para durar dois anos, começam estes dias. Efeitos negativos já se manifestaram. Pra começar, Mr. Cameron, o organizador do plebiscito, foi pressionado a deixar o cargo de primeiro-ministro. Saiu de má vontade, mas saiu. Mrs. May, que imaginou reforçar sua base parlamentar por meio de eleições antecipadas, deu-se mal: tem hoje menos deputados que antes. Se conseguir segurar-se no cargo por mais alguns meses, será muito. A libra esterlina sentiu o baque e perdeu valor com relação ao euro e ao dólar. Se, por um lado, a notícia é boa para exportadores britânicos, é péssima para o cidadão comum, obrigado a pagar mais caro por tudo o que é importado. E olhe que, com a agricultura limitada por razões climáticas, o arquipélago é extremamente dependente de importação de alimentos.

A eleição de Monsieur Macron, seguida pelo estrondoso sucesso dos candidatos de seu partido nas eleições parlamentares francesas, não vem facilitar o trabalho de Theresa May. De fato, muitos viam na deserção britânica o princípio do fim da UE. A consagração de Monsieur Macron, europeu convicto e forte aliado de Frau Merkel, faz a balança pender para o outro lado. A Europa ganhou um reforço e tanto.

Até o momento em que o Reino Unido se tiver emancipado completamente do bloco, quase 50 anos de casamento terão decorrido. É uma existência. Dezenove mil leis comuns a todos os membros terão de ser revistas, revogadas ou reescritas. O trabalho é monumental. Há 3,6 milhões de europeus estabelecidos na Grã-Bretanha. Há também milhões de britânicos residindo em países da UE, especialmente aposentados que escolheram a França, a Espanha, a Itália ou Portugal para passar a velhice. Como é que fica esse povo todo? Serão despachados de volta pra casa?

Haveria ainda muitos pontos a mencionar, mas vamos parar por aqui, senão o artigo fica cansativo. Acredito que dois anos, prazo concedido para a conclusão do Brexit, está longe de ser realista. Vai levar muito mais tempo. Talvez seja mais simples votar de novo e ver se o povo não mudou de ideia. Afinal, todo o mundo pode se enganar e deve ter direito a uma segunda chance.

Moi non plus

José Horta Manzano

Chamada do Estadão, 28 out° 2015

Chamada do Estadão, 28 out° 2015

Quem foi que disse que nossa presidente não tem senso de humor?

O lado surpreendentemente cômico da situação faz lembrar a canção composta em 1967 pelo francês Serge Gainsbourg e cantada por ele mesmo em dueto com Brigitte Bardot.

O título era “Je t’aime. Moi non plus”“Eu te amo. Eu também não”.

Aniversário de criança

José Horta Manzano

Olho de sogra 1Tem horas em que a gente percebe claramente que está envelhecendo. Passeando pelo Estadão de 6 julho, topei com um artigo surpreendente. Aprenda a fazer a decoração de um aniversário em casa – era o título. Intrigado, fui dar uma espiada. Não era um texto, mas um filminho de três minutos e meio. Mostra, passo a passo, como recortar bandeirolas e outros penduricalhos para enfeitar festa de aniversário infantil.

Bolo 1Decididamente, faz muito tempo que fui criança. Sei não, mas me parece que, nos tempos de antigamente, donas de casa(1) não precisavam de filminho pra aprender a recortar aquelas bandeirinhas que combinam com festa junina. De qualquer maneira, não havia internet, suplemento feminino de jornal era impresso em preto e branco. Televisão era incipiente, cheia de chuvisco e de chiado, imagem sem cores. Aliás, havia mais televizinhos(2) que televisores.

Televisao 6

As crianças de hoje, mais evoluídas, estão sem dúvida interessadas na decoração e nos quadrinhos grudados na parede. Conosco, era diferente. O que não podia faltar em festa de criança era guaraná e olho de sogra. Brigadeiro, então, era obrigatório. E ápice da comemoração: o bolo! Sempre feito em casa, que «bolo de padaria», além de custar caro, não tinha o mesmo gosto.

by Alfredo Volpi (1896-1988) artista ítalo-brasileiro

by Alfredo Volpi (1896-1988)
artista ítalo-brasileiro

Cachorro quenteCardápios mais consistentes podiam incluir cachorro quente com molho de tomate. A gente não apreciava muito porque, ao apertar o pão umedecido, a salsicha tinha desagradável tendência a escapar pelo outro lado.

Havia quem fizesse docinho de abacaxi. Não era ruim, o chato era aquele cravo-da-índia espetado no meio. Dava um gosto esquisito.

Bala de cocoE as balas de coco então? Vinham dispostas numa espécie de fruteira de dois ou três andares. Cada bala – que os adultos chamavam alfenim – vinha embrulhadinha em papel de seda colorido, com rabicho comprido e todo franjado. Era muito decorativo.

Imagino que, decorada com bandeirolas e quadrinhos, a sala fique muito elegante. Assim mesmo, aposto que a criançada está de olho mesmo é no brigadeiro.

Interligne 18c

Brigadeiro 1(1) Peço desculpas se a expressão dona de casa tiver se tornado ofensiva. Não costumava ser. Se for o caso, desconheço o circunlóquio que a substituiu. Sorry.

(2) Televizinho era a sugestiva maneira de designar aquele que não tinha televisor em casa e que só assistia quando era convidado por um vizinho.

Para comemorar o aniversário

José Horta Manzano

1900 - Antigo Viaduto do Chá

1900 – Antigo Viaduto do Chá

Hoje é 25 de janeiro. A cidade de São Paulo comemora seu aniversário oficial. Para os paulistanos, é feriado, viva! Mas há polêmica em torno da data.

Uns dizem que os jesuítas não podem ter construído a igreja da noite para o dia, portanto, marcar uma data de fundação da cidade é termo equivocado. A missa realizada às 6h da manhã de 25 de janeiro de 1554 simbolizaria apenas a inauguração de um núcleo já fundado e habitado.

Outros invocam o fato de já existir, naquela altura, um outro núcleo colonial mais antigo, situado em Santo André da Borda do Campo. O mandachuva do lugar era o português João Ramalho, aquele que nossos livros de História nunca explicaram direitinho como é que tinha conseguido subir ao planalto antes dos jesuítas, desbravadores oficiais.

O novo povoado inaugurado em 1554 nada mais seria do que a transferência do bastião já existente em Santo André para um local mais seguro, mais facil de proteger. Se a colônia já estava lá, não pode ter sido fundada no dia e no ano que nossa historiografia reteve. O 25 de janeiro seria, portanto, apenas o dia da mudança.

1925 - Antigo Viaduto do Chá

1925 – Antigo Viaduto do Chá

Seja como for, na falta de provas cabais com firma reconhecida em cartório, fiquemos com a data oficial. Vale tanto quanto qualquer outra.

Para combinar com o dia, quero falar-lhes sobre o Viaduto do Chá, um dos símbolos maiores da cidade. O que nem todos sabem é que o viaduto que conhecemos hoje não é o original. Um outro existiu antes dele.

Jules Martin (1832-1906), um imigrante francês bastante ligado às artes e à arquitetura, apegou-se de tal modo à cidade que passou a se empenhar em resolver alguns de seus problemas. Muito conhecida é sua planta de São Paulo, feita com arte e esmero em 1877. Por essa mesma época, veio-lhe a ideia de construir uma ponte ligando o centro da cidade aos novos bairros que surgiam do outro lado do vale do Anhangabaú.

Não foi empresa fácil. Reunir os fundos necessários, convencer os edis, obter ganho de causa na desapropriação de casarões pertencentes a figuras influentes, tudo isso foi uma batalha que consumiu 15 anos. O viaduto foi finalmente inaugurado em 1892, assentado em sólida estrutura de ferro importado.

A cidade cresceu muito e muito rápido. Trinta anos mais tarde, a obra começou a parecer acanhada, estreita, insuficiente. Novo projeto foi feito.

1945 - Novo Viaduto do Chá

1945 – Novo Viaduto do Chá

Desta vez, o leito da ponte teria o dobro de largura e ficaria assentado sobre um elegante arco de concreto sustentado por dois largos pilares. O novo viaduto, esse que está lá até hoje, foi inaugurado em 1938.

Mas… que fazer entre a demolição do primeiro e a construção do segundo? Como fariam bondes, automóveis e transeuntes para atravessar de um lado para o outro? A solução encontrada foi simples: primeiro, constrói-se o novo; só então, demole-se o velho. E assim foi feito.

O novo viaduto não ocupa, portanto, o lugar exato do antigo. Fotos, vistas, gravuras da velha construção e da nova encontram-se por toda parte. O que eu nunca tinha visto era um retrato das duas pontes coexistindo: a nova já pronta, e a velha ainda de pé. Consegui, por um desse acasos difíceis de explicar, uma foto de 1938, creditada a Benedicto J. Duarte, que mostra justamente o breve período em que as duas construções coabitaram, uma praticamente colada à outra. A raridade fotográfica está logo mais abaixo.

O viaduto da esquerda é o novo, mais largo. Talvez no futuro se encontre algum outro testemunho visual desse momento singular. Por enquanto, acredito eu ser essa a única imagem.

Atualmente - Novo Viaduto do Chá

Atualmente – Novo Viaduto do Chá

No primeiro plano, à direita, está o prédio da Light, hoje transformado em centro comercial. Sempre à direita, mais ao fundo, percebe-se o prédio Matarazzo em construção, um dos raros testemunhos da arquitetura mussoliniana existentes na cidade. Depois da débâcle do império Matarazzo, o prédio serviu de sede para o Banco do Estado (Banespa). Atualmente, abriga a Prefeitura do município.

No fundo, à esquerda, vê-se o Palacete Prates, na esquina da Praça do Patriarca com Líbero Badaró. Seria demolido nos anos 60 para ceder lugar a uma torre de vidro que guarda o nome do antigo proprietário. É o Edifício Conde de Prates.

Feliz aniversário, São Paulo!Viaduto do Chá I e II

Nota: Clique nas fotos para aumentar