Há pior

José Horta Manzano

Engana-se quem acha que as patacoadas imaginadas por doutor Bolsonaro são o cúmulo do atropelo ao bom senso. Há coisa pior. É verdade que nosso presidente se tem esforçado no campo da irracionalidade. Parece fazer de propósito. Diz hoje para, em seguida, desdizer-se amanhã. Irrefletido, engalfinha-se com a imprensa, esquecido do princípio básico que ensina que você não deve entrar em conflito com os órgãos dos quais pode precisar amanhã. Toma decisões de arrepiar o cabelo. Mas, como eu dizia, há pior.

O inimigo é Papa Francisco

Matteo Salvini, que compartilha com Luigi di Maio o posto de vice-primeiro-ministro da Itália, é o atual enfant terrible da política europeia. Desde a juventude, militou em movimentos nacionalistas que tinham como objetivo a independência do Norte da Itália. Ao ver que, numa Europa forte, não tinha chance nenhuma de atingir o objetivo, deu um passo atrás e decidiu agir na raiz. Se uma Europa forte impede o sonho de independência, o remédio é enfraquecer a Europa.

Dottor Salvini pôs de molho, por enquanto, o discurso separatista. Desde que chegou às altas esferas da política italiana, tem-se dedicado a solapar descaradamente a União Europeia. Faz amizade com qualquer político europeu, desde que isso lhe pareça contribuir para o desmonte do continente. A francesa Le Pen, o húngaro Orbán, o suíço Blocher, o inglês Farage, o holandês Wilders ‒ todos o que puderem ajudar no desmantelamento da União são bem-vindos.

Matteo Salvini: “O meu papa é Bento”

Do extremista americano Steve Bannon, ouviu recentemente um conselho: «Papa Francisco é o inimigo a atacar». Surpreendente de ousadia, não é? O americano, que é justamente aquele cujas posições extremadas já assustaram o próprio Trump, se referia à visão humanitária que o papa tem em matéria de migração.

Sem esperar o conselho do americano, Matteo Salvini já tinha decidido emprestar seu prestígio para demolir a imagem de Francisco. Deixou-se fotografar ostentando orgulhosamente uma camiseta com os dizeres «O meu papa é Bento», uma afronta à Igreja Católica Romana. Cai mal o vice-primeiro-ministro de um país civilizado intrometer-se numa instituição religiosa. Cai pior ainda quando se considera que o povo italiano tem forte ligação com essa Igreja.

Quem se arrepia com os escândalos do clã Bolsonaro deve ter em mente que podia ser pior. Mas estamos no bom caminho pra piorar.

Quem tira o país da crise?

José Horta Manzano

«Hoje, 84% dos brasileiros não sabem dizer o nome de ninguém que conseguiria tirar o país da crise. E sabe quem lidera entre os 16% restantes? O papa Francisco.»

As palavras são de doutor Renato Meirelles, do instituto de pesquisas Data Popular, em entrevista concedida ao Estadão. A afirmação abre as portas a reflexão mais profunda.

Com que então, os brasileiros acreditam, no duro, que a salvação do país estaria nas mãos de um solitário indivíduo? Estamos no século 21, minha gente! Todo brasileiro tem no bolso um minicomputador. Noventa e sete porcento da população adulta sabe, bem ou mal, ler e escrever. Redes sociais se encarregam de difundir uma informação que, se nem sempre é de boa qualidade, sempre informação é. E, apesar de tudo isso, os brasileiros não se deram conta de que o futuro está em suas mãos? Continuam à espera do Messias? Quem diria…

É concebível que, em meados do século passado, quando o grande inimigo do país era a saúva, os brasileiros acalentassem o sonho do salvacionismo, a solução mágica trazida por um super-homem. Aliás, não foi por outro motivo que um certo Jânio Quadros foi eleito ao cargo máximo.

É afligente constatar que ainda persiste a esperança de que um homem providencial venha resolver todos os problemas. Vê-se que de pouco serviu o desastre causado pela passagem de um Jânio, de um Collor, de um Lula ‒ todos considerados tiro e queda.

No discurso de posse pronunciado em 20 de janeiro de 1961, o presidente americano John F. Kennedy incluiu uma frase que ressoa até hoje. Dizem que a sentença foi plagiada. Pouco importa. O fato é que todos os brasileiros deveriam repeti-la diariamente até que se impregnassem do significado. Era assim: «Ask not what your country can do for you. Ask what you can do for your country» ‒ Não pergunte o que é que o país pode fazer por você. Pergunte o que é que você pode fazer pelo país.

E pensar que é tão simples. Na verdade, o presidente da República, sozinho, não vai muito longe. Precisa imperativamente do apoio do Congresso. É aí que entra o papel de cada eleitor. Com a informação que circula livre hoje em dia, não é difícil saber quem é e a que vem cada candidato. Basta votar em candidato honesto, não enrolado com a justiça, que demonstre competência e que apresente um programa aceitável. Um congresso sólido é a melhor garantia de que o presidente andará na linha.

No dia em que todos os eleitores entenderem isso, não vamos mais precisar do papa Francisco para dar cabo dos problemas nacionais. A lavoura estará salva.

A brasilidade em tempos de folia

Myrthes Suplicy Vieira (*)

O que define a brasilidade aos olhos de um estrangeiro?

Futebol 3Eu diria que, se fossemos investigar há algumas décadas como outros povos conceituam nossa cidadania, três fatores seriam elencados em uníssono: futebol/Pelé, café e samba. O tempo passou, muita coisa mudou sob nosso céu de anil e outras percepções foram sendo agregadas para ajudar a formar um painel ilustrativo de nosso país varonil: exotismo tropical (sol, calor, belas paisagens de praia, campo e florestas), povo amistoso, alegre, tolerante e musical, belas mulheres desinibidas e semidesnudas, etc.

Décadas mais tarde, nuvens de chumbo passaram a cobrir os céus deste paraíso tropical e o quadro geral ganhou contornos tenebrosos para além de nossas fronteiras: o lar da corrupção, o campeão no ranking da insegurança pública, o berço das mais diversas endemias e epidemias, o abrigo de malfeitores internacionais, anão diplomático, o lugar no qual a elite é perversa e o povo é domado. Constrangedor, não é? Mas, tudo bem, deixa estar. Afinal, minha gente, é Carnaval! Vamos para a rua festejar!

by Fabio Teixeira, desenhista carioca

by Fabio Teixeira, desenhista carioca

Para os que não sabem o que isso significa no contexto do imaginário nacional, eu explico: antes de mais nada, Carnaval é o espaço da fantasia, da utopia e da autoafirmação nacional. Durante quatro dias, a pirâmide social se achata, papéis sexuais são invertidos, o machismo é suspenso temporariamente, a hipocrisia social desmancha-se no calor dos corpos em êxtase. O país todo se detém mesmerizado para assistir à deslumbrante parada de luzes e sons. Economia e política perdem totalmente seus significados. Não há “sofrência” amorosa que se sustente, não há negativismo capaz de toldar a alegria geral, não há preocupação com o futuro capaz de desbotar as cores da festa. Tudo o que se quer é que o mundo inteiro caia de joelhos diante de nossa criatividade, nossa genialidade, nossa capacidade de superação. Vira-latas são mais belos, mais resistentes, mais amorosos e mais simpáticos do que outras raças, bradamos a plenos pulmões.

Entender um brasileiro que não goste de Carnaval, que não se sinta tentado a jogar tudo para o alto e cair de boca na folia, é coisa que gringo nenhum consegue fazer. Cá para nós, também não há brasileiro que não pense que seus compatriotas avessos ao samba são ruins da cabeça ou doente dos pés. Pois bem, feliz ou infelizmente, esse é o meu caso.

Café 5Trancafiada em casa, tento fazer de conta que o mundo é normal lá fora. Ligo a televisão, ansiosa para mergulhar de cabeça em outra dimensão que exale um pouco de racionalidade, sensatez e compostura. Ledo engano! A mercadoria que você procura não está disponível no momento, alertam todas as emissoras, inclusive os assim chamados canais educativos. Talvez seja essa a época em que o pensamento único seja mais glorificado e incensado.

Nem mesmo os telejornais escapam do delírio geral. Encurtados para não atrapalhar a cobertura dos desfiles nas principais capitais, eles passam atabalhoadamente de um tema para outro, sem aprofundar nenhum. Terremoto atingiu cidade no interior de Mato Grosso? Ai, que hora mais ingrata para acontecer isso! Dilma se suicidou para evitar a cassação? Nossa, não esperava por isso, mas prometo que na Quarta-feira de Cinzas vou entrar na internet para ver os detalhes do velório e as discussões sobre quem vai ser o sucessor. O Lula assumiu que se lambuzou todo com o melaço que nunca havia comido antes e entrou para um convento franciscano, doando todos os seus bens para a caridade? Poxa, se ele tivesse feito isso antes eu ainda votaria nele! O Papa Francisco assumiu que é gay e decretou que, de agora em diante, só haverá mulheres à testa da igreja? Que bom, eu sempre achei esse cara sensacional, mesmo ele sendo argentino. O dólar foi cotado a 8 reais e a CPMF foi aprovada? Isso não me abala em nada, eu já tinha cancelado mesmo minha viagem para Miami.

Samba 3Nada ganha destaque, nada consegue prender a atenção do telespectador por mais de dois minutos. Uma vez transpostos os temas chatos do cotidiano, a mídia toda abre enormes espaços para o deslumbramento da rainha de bateria, para o escândalo causado por uma socialite que tirou toda a roupa em plena avenida, para a descontração dos blocos de rua. E dá-lhe festa.

Quem não se deu ao trabalho de assistir aos desfiles, não precisa se preocupar. Basta acessar a Internet para ver um resumo dos melhores momentos de cada escola, as fotos mais constrangedoras, as chamadas mais empolgantes do que ainda está por vir. Nas redes sociais, bem ao lado das fotos da participação doméstica na folia, comentários irados de quem dela não fez parte: Já imaginou uma multidão dessas saindo às ruas para protestar? Por que as mulheres aceitam fazer esse papel? Depois se queixam da violência…

Carnaval 1Quer um conselho? Não tente entender nem explicar nada, nem para os moralistas de plantão nem para os estrangeiros atônitos. Somos secularmente o país da improvisação. Depois damos um jeito de colocar a casa em ordem de novo.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

A semana em revista

by Amarildo Lima, desenhista capixaba

by Amarildo Lima, desenhista capixaba

Cuba e o Mais Médicos A Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) já recebeu, por meio do Mais Médicos, mais de R$ 4,3 bilhões do governo federal. Alvo de graves denúncias de uso do programa como fachada para financiar a ditadura cubana, a Opas repassava aos médicos apenas 10% dos R$ 11 mil pagos por profissional, levando quase cinquenta cubanos a desertarem e fugirem do Brasil para não correrem risco de deportação.

Claudio Humberto, jornalista.

Comentário deste blogueiro A notícia não menciona crescente suspeita de que boa parte dessa fortuna tenha sido repatriada ao Brasil. Tanto pode ter vindo em malas, como pode ter sido depositada em contas offshore. De toda maneira, que se saiba, o dia a dia do sofrido povo da ilha não melhorou com esses bilhões todos.

Interligne 28aBrasil e ChinaFaçanha diplomática Uma das façanhas da diplomacia inaugurada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2003, foi isolar o País das grandes oportunidades de integração comercial, torná-lo dependente em excesso do Mercosul e da vizinhança e condená-lo a uma relação semicolonial com a China. Rolf Kuntz, jornalista.

Interligne 28aDilma nas mãos de Cunha Enrolada nas pedaladas fiscais, Dilma Rousseff reclama com aliados que está nas mãos do presidente da Câmara, Eduardo Cunha. Ela tem razão em se preocupar. Cunha vive às turras com o PT, que o hostiliza, e será ele quem analisará a admissibilidade de eventual pedido de impeachment. E quem o conhece sabe que se ele colocar o caso em votação, no plenário, dificilmente Dilma escapará. É o que a apavora.

Claudio Humberto, jornalista.

Interligne 28aEquador 2Onda de manifestações no Equador Bastou o papa Francisco deixar o território equatoriano para que milhares de pessoas voltassem às ruas, na última quinta-feira, em Quito e Guayaquil, com faixas de «Fora, Correa, fora» e «O Equador não é a Venezuela».

Sylvia Colombo, jornalista.

Comentário deste blogueiro É em momentos como esse que o Brasil, cuja ambição é liderar a região, teria de usar seu peso político e econômico para pressionar o governo equatoriano com vista a repor aquele país nos trilhos. Somos os principais responsáveis pela sobrevivência de governos autocráticos como os do Equador, da Bolívia e da Venezuela – relíquias mumificadas de um tempo que passou.

Interligne 28aBrics 2Patota Na Rússia, a presidente Dilma Rousseff defendeu a cooperação entre os integrantes do Brics – Brasil, Rússia, China, Índia e África do Sul – como reação à crise. Presa ao cacoete, mais uma vez uma autoridade brasileira insiste na fantasia do clubinho alternativo como forma de sobreviver no mundo malvado.

Rolf Kuntz, jornalista.

Interligne 28a

A árvore e o fruto

José Horta Manzano

Você sabia?

Papa Francisco 3Aconteceu na Bolívia em 1867. O embaixador britânico foi recebido em palácio pelo ditador Mariano Melgarejo. Como era costume local, foi-lhe oferecido um copo de chicha, bebida feita com milho fermentado. O embaixador recusou e pediu um chocolate quente. A recusa foi tomada como afronta pelo ditador que, enfurecido, decidiu vingar-se imediatamente.

Mandou vir uma grande tigela de chocolate e obrigou o visitante a engoli-la até a última gota. Em seguida, ordenou que pusessem o diplomata sentado de trás pra diante no lombo de um burro. Assim que o homem foi amarrado na incômoda posição, a população foi chamada para o espetáculo. Com o embaixador em cima, o burro deu três voltas na praça principal de La Paz. Após o episódio, Melgarejo despachou o estrangeiro de volta a Londres. Sem o burro.

Queen Victoria:

Queen Victoria: “Bolivia does not exist”

Victoria, imperatriz britânica e mulher mais poderosa do planeta à época, não apreciou o ocorrido. Em reação epidérmica, ordenou que um destacamento da frota inglesa singrasse imediatamente em direção à Bolívia e bombardeasse a capital. Alertada por seus assessores sobre o fato de La Paz ficar nas alturas, longe da costa e fora do raio de ação da marinha de guerra, Victoria descarregou sua raiva simbolicamente. Dirigiu-se ao mapa-múndi, riscou um enorme X sobre o país ofensor e declarou: «Bolivia does not exist» – a Bolívia não existe.

A história encarregou-se de cumprir (ou quase) a profecia da rainha Victoria. Em menos de um século, a Bolívia perdeu metade do território.

Bolívia - territórios perdidos desde 1867 (clique para aumentar)

Bolívia – territórios perdidos desde 1867
(clique para aumentar)

Ao oferecer ao papa Francisco uma bizarra escultura representando um crucifixo camuflado sobre foice e martelo, señor Morales, atual mandachuva da Bolívia, retomou a tradição nacional de ofensa a estrangeiros ilustres.

Com o deboche, o irrespeitoso presidente logrou a façanha de insultar, ao mesmo tempo:

Interligne vertical 12um chefe de Estado;

um sorridente senhor com idade para ser seu pai;

o chefe da religião seguida por 80% dos bolivianos;

um bilhão de católicos que respeitam seu líder religioso.

Não é coisa pouca.

Señor Morales demonstrou o que todos já sabiam: sua estupidez e sua inépcia para exercer o cargo que lhe foi confiado. Descendente político direto do ditador de 1867, confirmou também o ensinamento daquele sábio provérbio: o fruto nunca cai muito longe da árvore.

Carta aberta ao gato do José

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Cachorro 22Prezado amigo felino,

Sabíamos que você, gato inspirado,
Estava deveras acabrunhado e curioso
Dos motivos do tal instituto ter entrado
Em um sono misterioso

Alvíssaras, prezado companheiro,
Folgamos em lhe dizer que o pessoal acordou
E colocou mais brasa no braseiro
Através de duas pesquisas o fim do governo indicou

Informam que a rejeição subiu, como já sabíamos todos
E que a oposição seu patrimônio manteve intacto
E esperavam, impávidos, com esses dados causar impacto
Resgatar sua credibilidade junto aos tolos

Mas, oh, quanta ingenuidade
Já mais ninguém aguenta
Constatar a desdita da presidenta
E desacreditar no fim de sua impunidade

Só faltou explicar
Se, para tudo isso, contribuiu o ocorrido na Venezuela
Ou se o que eles buscavam era só confirmar
Que o Brasil não mais comporta esse bando de Zé Arruela.

Em tempo, será que o Papa Francisco podia
Rezar uma missa de réquiem e colocar um ponto final nessa agonia?

Um abraço carinhoso de suas amigas cachorras.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Je suis François

José Horta Manzano

Papa Francisco

Papa Francisco

Não é raro que governantes e altas personalidades façam declarações inabituais por ocasião de viagem ao estrangeiro. Será por influência do ar viciado da cabine do avião. Será por causa da sensação de liberdade concedida pelo passeio. Freud deve poder explicar. O fato é que figurões costumam soltar a língua.

Assim fez o Lula em Paris, logo no começo do primeiro mandato, quando ainda saboreava a chegada ao poder como conto de fadas – sem imaginar que se transformaria no pesadelo de hoje. Naquela ocasião, confessou algo do tipo: «Sou, mas… quem não é?». Era sobre o caixa dois de seu partido, escancarado pelo escândalo do mensalão. A declaração imprudente do Lula há de persegui-lo pelo resto da existência.

Lionel Jospin, que foi primeiro-ministro da França de 1997 a 2002, tinha ambições presidenciais. O ar viciado do avião há de tê-lo afetado quando voltava de uma viagem ao exterior. Confidenciou a um bando de jornalistas que o presidente Chirac estava velho, com um pé na cova e incapaz de continuar no cargo. A eleição ocorreu meses depois. Chirac ganhou. Derrotado e desmoralizado, Jospin pendurou definitivamente as chuteiras. A entrevista dada no avião foi-lhe fatal.

Em viagem do Sri Lanka às Filipinas, Papa Francisco usou e abusou de sua habitual franqueza. Nada mais fez do que reafirmar posição oficial da Igreja – mas, saída de sua boca, a fala encontra eco planetário. Cobrado sobre o assassinato de caricaturistas franceses, não se escafedeu. Em seu característico estilo direto, defendeu o direito à liberdade de expressão. Mas acrescentou que ele não abrange o direito à ofensa.

Charlie 4Sorridente e expressivo, Francisco fez uma comparação. Usando palavras pouco comuns para o cargo que ocupa, foi claro: «Se alguém vier falar mal de minha mãe, periga levar um soco!». E acrescentou que era reação normal, humana. Finalizou assinalando que não se deve zombar de outras religiões nem menosprezar a fé de outrem. Quem o fizer estará se expondo a represálias.

Reafirmou que não abona, de modo nenhum, os atentados: «É verdade que não se pode reagir com violência.». Mas – emendou – não é aceitável que um punhado de caricaturas «ridicularize uma inteira religião».

Para Francisco na chegada a Manila

Para Francisco na chegada a Manila

Concordo com a posição do surpreendente hermano papa. Por mais chocante que tenha sido o ataque à redação do semanário Charlie Hebdo, deve-se levar em conta que os fanáticos reagiram ao que ressentiam como grave ofensa à sua fé.

A meu ver, a carnificina do Hyper Cacher – supermercado kosher parisiense – foi, essa sim, ignóbil, abjecta, asquerosa. Quatro vítimas foram chacinadas não por algum ato que tivessem praticado, mas unicamente pelo fato de serem judias.

O inquietante espetáculo destampou a fossa onde cochilam pogroms e noites de cristal. O odor fétido, relíquia de uma era de trevas, estagna perigosamente nos ares de Paris.

Interligne 18h

Para assistir ao vídeo do pronunciamento papal (um minuto e meio), clique aqui.

Os poderosos

José Horta Manzano

Copacabana 5A Forbes publicou a lista de personalidades que, segundo seus critérios, são as mais influentes do ano.

Todos os primeiros 10 lugares da lista planetária são ocupados por governantes e personagens das finanças ou do mundo corporativo. É realmente gente que manda, gente que tem real poder.

Já na lista brasileira… a coisa é bem diferente. Entre os 20 primeiros, 9 são jogadores ou gente ligada ao futebol. Os demais são artistas ou pessoas ligadas ao espetáculo. Acrescente-se um autor de romances populares, um piloto de automóvel, uma supermodelo e a lista está completa.

Nenhum político e nenhum empreendedor. Faz sentido. A coisa vai e a coisa vem. Assim como o povo não significa grande coisa para os políticos – a não ser na hora da eleição, os políticos não representam grande coisa para os brasileiros.

A lista dos «poderosos» brasileiros é por demais eloquente: mostra que o ideal do brasileiro – futebol, novela, praia, gente bonita e pouca roupa – não é só um clichê.

Os dez mais poderosos no planeta:
1. Vladimir Putin      Presidente da Rússia
2. Barack Obama        Presidente dos EUA
3. Xi Jinping          Presidente da China
4. Papa Francisco      Chefe do Estado do Vaticano e da Igreja Católica
5. Angela Merkel       Primeira-ministra da Alemanha
6. Janet Yellen        Presidente do Banco Central Americano (FED)
7. Bill Gates          Fundador da Microsoft
8. Mario Draghi        Presidente do Banco Central Europeu
9. S. Brin & L. Page   Dirigentes do Google
10. David Cameron      Primeiro-ministro britânico

Coqueiro 1Os vinte mais poderosos do Brasil:
1. Neymar
2. David Luiz
3. Paulo Coelho
4. Ivete Sangalo
5. Gisele Bündchen
6. Daniel Alves
7. Pelé
8. Roberto Carlos
9. Caetano Veloso
10. Luciano Huck
11. Kaká
12. Luis Felipe Scolari
13. Cláudia Leitte
14. Ronaldo Nazário
15. Gilberto Gil
16. Felipe Massa
17. Chico Buarque
18. Romário
19. Muricy Ramalho
20. Angélica

Cada povo prestigia os melhores. Ou não?

Fontes:
Forbes
Hugo Gloss

Frase do dia — 110

«Eleito papa, Francisco pediu aos argentinos que dessem dinheiro aos pobres em vez de ir a Roma saudá-lo. Há pouco, decidiu tirar um passaporte comum argentino. Doutora Dilma foi a Roma festejar o barrete de Dom Orani Tempesta. Na comitiva, um lote de passaportes especiais.»

Elio Gaspari, em sua coluna da Folha de São Paulo, 23 fev° 2014.

Devagar com o andor

José Horta Manzano

Papa Francisco

Papa Francisco

O melhor conselho que se pode dar ao Papa Francisco ― se é que cai bem dar conselho a um papa ― é que procure pisar leve. Ele anda caminhando por terreno minado. A Cúria e o establishment vaticano estão se sentindo incomodados com a falta de cerimônia do pontífice. Quando se sacode o abacateiro, algum abacate pode até nos cair na cabeça. E dos grandes.

Por detrás do ar circunspecto e dos gestos suaves e compungidos dos cardeais que administram as burras e os segredos do Vaticano, há muito mais do que possa imaginar nossa ingenuidade. Interesses financeiros gigantescos, relações perigosas com grupos de reputação sulfurosa.

O Washington Post adverte que as reformas promovidas pelo papa estão deixando «muito nervosos» os capi (chefões) da organização mafiosa ‘Ndrangheta(*). Esse bando de criminosos, ativos na Calábria, são considerados ainda mais violentos que os mafiosos sicilianos.

Se facilitar, Papa Francisco poderá passar para a História como Francisco, o Breve. Seria um desperdício.

(*) Para quem faz questão de pronunciar bem.
Nessa palavra, os italianos põem o acento tônico na primeira sílaba. Portanto, pronuncie drângueta, como lâmpada, cândida, cânfora.

Como nos veem

José Horta Manzano

Frequentemente me perguntam como o Brasil é visto do estrangeiro. É difícil responder. Eu diria que, salvo raras exceções, o europeu já não enxerga mais nosso País como uma imensa floresta infestada de cobras e macacos. Já é alguma coisa, mas a visão evoluiu pouco, ainda não tanto como gostaríamos. Os clichês têm vida longa.

Julgamentos do STF, vinda de médicos de Cuba, leilão de pré-sal, licitação de trem-bala, nada disso é noticiado por aqui. Por um lado, porque não apresenta grande interesse para o europeu médio, e, por outro, porque não se encaixa no que o imaginário popular espera do Brasil. Além do que, francamente, o europeu está-se lixando para uma penca de corruptos que está sendo julgada. Que sejam castigados ou não, a História do mundo não vai se alterar. Acaso alguém, no Brasil, se emocionou quando alguns dirigentes do Regime Khmer Vermelho foram julgados no Camboja?

Falou-se muito da visita do papa Francisco, isso sim. Todos os canais de tevê e as estações de rádio davam frequentes boletins. Afinal, é o primeiro papa não-europeu e não originário da orla mediterrânea. A Argentina e o Brasil são percebidos mais ou menos como o brasileiro percebe a Ucrânia e a Polônia ou a Suécia e a Noruega ― dois países que fazem parte de uma só salada. Portanto, a visita do papa ao Rio foi ressentida aqui mais ou menos como a primeira visita que o recém-eleito João Paulo II fez à sua Polônia natal.

Mas o grande assunto destes últimos anos foi, sem dúvida alguma, o levante popular de junho. Eu não diria que chegou a assustar, mas surpreendeu todos. Justamente porque contradizia a ideia que todos têm de um povo brasileiro alegre, feliz, despreocupado, desligado da realidade, desorganizado. Excluídas as catástrofes naturais, faz tempo que o Brasil não aparecia com tanta insistência nas manchetes.

Nem mesmo isto funciona mais! by Patrick Chappatte, cartunista suíço

Nem mesmo isto funciona mais!
by Patrick Chappatte, cartunista suíço

Antes desses protestos, o último a reter a curiosidade dos europeus, salvo melhor juízo, foi o Guga. E isso aconteceu justamente porque, como no caso das passeatas, o esportista catarinense fugia ao clichê. A aparência física do moço não corresponde à imagem que por aqui se tem dos habitantes do Brasil. O esporte em que ele sobressaía tampouco bate com o que geralmente se espera. Além do que, o tenista, com seu eterno sorriso, conquistou simpatias. O povo aqui se sentiu tão surpreso como nos sentiríamos nós se um futebolista birmanês fosse sagrado melhor jogador do ano.

Bem, que a verdade seja dita. Temos de reconhecer que os governantes do Brasil não se têm esforçado para passar ao mundo a ideia de um país sério e organizado. Faz já uns dez anos que nossos mandachuvas tentam pular direto do estágio do carro de boi para o do avião supersônico. Enganam-se. Não se começa a construir um edifício pelo telhado.

O Brasil não será visto como país importante só porque o Planalto decidiu que assim deve ser. Toda obra tem de começar pelas fundações. Não se podem queimar as etapas. O caminho é longo, mas inevitável. Só nos resta torcer para que a decisão ― irresponsável, a meu ver ― de acolher a Copa do Mundo em 2014 não contribua para arranhar a imagem do País. Que já não é lá essas coisas.

Sai do teu sono devagar

José Horta Manzano

A cidade do Rio de Janeiro, além de ser afamada pela beleza de sua exuberante natureza, é mundialmente lembrada por suas praias de areia fina. Quem diz praia, diz calor. Os registros meteorológicos trintenais da cidade, compilados entre 1961 e 1990, atestam que temperaturas de 40° (ou mais) já chegaram a ser registradas em todos os meses do ano, com a honrosa exceção de junho. No sexto mês do ano, a máxima registrada durante esses 30 anos não passou de 39°.

Essa tropicalidade toda convida a uma comida leve e fresquinha, acompanhada por uma bebida gelada sorvida num canudinho. Ou não? Pois parece que não. O restaurante mais badalado da cidade leva o estranho nome de Antiquarius. Para quem procura refeição fresca, não é um nome atraente.

Falando em comida fresca, a imprensa noticiou que, na noite de 6 de agosto, o Procon carioca fez uma batida de caráter sanitário em alguns dos mais conceituados restaurantes da cidade. Era a Operação Ratatouille, em alusão ao prato provençal e também ao filme de animação homônimo.

Nosso Antiquarius ― assim como outros conceituados restaurantes ― foram inspecionados. Escândalo! Quilos e mais quilos de alimentos com data de validade vencida foram pilhados. Como é que pode?

Restaurante Antiquarius, Rio de Janeiro by Lalo de Almeida, NYT

Restaurante Antiquarius, Rio de Janeiro
by Lalo de Almeida, NYT

Bem, alguma desculpa sempre se arruma. Para um dos gêneros incriminados, o Antiquarius informou que já não constava mais do cardápio fazia um ano. Ora, se já não é servido, por que razão ocupava espaço na geladeira?

Tivesse algo parecido acontecido em outros lugares do mundo, a onda de choque teria sido bem mais intensa. Em Paris, Londres ou Nova York, um restaurante acusado de servir comida suspeita pode fazer uma cruz sobre sua reputação. Não se levantará nunca mais. Não sei como os cariocas endinheirados encaram a situação. Evitarão essas estalagens suspeitas? Ou passarão por cima e se arriscarão a pagar elevadas quantias para encomendar pratos pra lá de duvidosos?

Rato

Rato

No Brasil, a avalanche de irregularidades e de casos escabrosos é tamanha, que um escândalo ofusca o anterior. Passados uns poucos dias, já ninguém se lembra.

No entanto, o caso dos restaurantes cariocas apanhados de calça na mão não escapou ao respeitado New York Times. Numa crítica azeda, o correspondente do jornal no Rio de Janeiro destaca o fato de o Antiquarius ostentar decoração de falso estilo fazenda antiga. E sublinha que um bacalhau ensopado custa ali 68 dólares(!).

O Rio anda na berlinda estes últimos tempos. Entre a copinha, a visita de Papa Francisco, a copona e os Jogos Olímpicos, a cidade está sendo examinada com lupa. E continuará assim até 2016.

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Miscelânea 01

José Horta Manzano

VAMOS NESSA, MERMÃO!
O Estadão anuncia que a polícia carioca faz operação para desarticular uma determinada milícia, que atual na zona oeste da cidade. Faz parte da arrumação da casa para preparar a visita de Papa Francisco, prevista para julho próximo.

Ficam no ar as perguntas:
1) Por que não fizeram antes?
2) Precisa vir um visitante ilustre para que se limpe a casa?
3) Que tal programar uma visita importante por mês?

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PRA INGLÊS VER
Dia 13 de maio, o ex-presidente Lula apareceu, elegantemente vestido de vermelho da cabeça aos pés, para prestigiar um evento comemorativo dos dez anos durante os quais seus companheiros vêm tentando conciliar corrupção e governança. Sem grande sucesso, frise-se.

Profundo conhecedor dos que o cercam desde que se meteu em política, o Lula ousou exprimir-se com inabitual e surpreendente franqueza. Confessou que não existe político de moral e ética irretocáveis.

Crédito: Filipe Araújo, AE

Crédito: Filipe Araújo, AE

É impressionante a leviandade com que certas pessoas atribuem seus próprios defeitos ao resto do mundo. Que cada um fale por si!

Nota picante:
O ínclito personagem deixou-se fotografar vestido de vermelho, a folhear um livro vermelho, sentado num sofá vermelho, tendo ao fundo um cartaz vermelho. Há de ser só pra inglês ver e repórter registrar. Em mais de uma ocasião ele já declarou jamais ter lido um livro.

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BRIGA DE ENXADA
A Comissão Pastoral da Terra, braço secular da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, empunhou a enxada e se prepara para briga feia com o governo central do País.

Em defesa dos índios, lançou nota pública denunciando a atitude da ministra da Casa Civil. A acusação é de que o governo privilegia suas boas relações com empreiteiros em detrimento da população.

Dá para entender. Comparado com as somas polpudas com que grandes empresários costumam apoiar campanhas políticas, o voto de alguns pobres bugres conta muito pouco.

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Cobranças e pedidos

José Horta Manzano

Papa Francisco foi entronizado. Uma situação bizarra, em que dois pontífices coexistem, um já aposentado e outro na ativa. Quem tem menos de 500 anos de vida ― e acredito que seja o caso de todos nós ― nunca viveu uma situação semelhante.

A História já registrou momentos confusos, quando dois homens reivindicavam o mesmo trono, ambos convictos de representar a autoridade suprema da Igreja. Cada um considerava o outro um antipapa. O cristianismo chegou até a conhecer três papas ao mesmo tempo. Mas isso já faz muito tempo, muito mesmo. O último capítulo desse cisma desenrolou-se há 600 anos.

Cada país, cada povo, cada religião, cada confraria, cada clube tem suas regras. Ainda que nenhum caso parecido tenha ocorrido nos últimos séculos, a doutrina da Igreja não impede o Sumo Pontífice de renunciar a seu cargo. As regras, portanto, não foram infringidas.

A cada função correspondem rituais que lhe são inerentes. Representar um grupo é encargo cerceado por normas explícitas. Até reis e dirigentes absolutistas costumavam respeitar uma certa liturgia. Caso algum detalhe do cerimonial não esteja escrito em papel quadriculado, vale o bom senso. Certas quebras de protocolo podem até ser divertidas e inócuas. Em geral, são aceitas de bom grado. Já outras transgressões pegam mal.Dilma e Cristina

Centenas de chefes de Estado, primeiros-ministros, presidentes e outras personalidades viajaram a Roma estes dias. Foram todos marcar presença. Coube a cada um deles levar a homenagem de seu país ao novo chefe do Estado do Vaticano. Cerca de 150 países enviaram representantes para a entronização do papa.

Não deveria passar de uma visita protocolar, algo como dar bom-dia ao vizinho. Muitas vezes, preocupados com nossos problemas quotidianos, não temos a menor vontade de saudar vizinho no elevador. Mas faz parte do jogo. Todo jogo tem suas regras.

Espantosamente, alguns dos visitantes ultrapassaram os limites fixados pelo protocolo. Por sorte, não foram muitos. Mas dois deles extrapolaram. São justamente pessoas importantes em seus respectivos países.

Cristina Fernández de Kirchner, presidente da vizinha República Argentina, foi uma delas. Com uma das mãos, ofereceu ao homenageado uma cuia de chimarrão. Sem cerimônia, aproveitou para estender a outra mão com um pedido ao Papa Francisco: solicitou seu apoio no diferendo que a opõe ao Reino Unido a propósito das Ilhas Falkland/Malvinas. Por sorte (ou por pudor), os fotógrafos não registraram nenhum tapinha nas costas.

Foi como se a senhora Fernández de Kirchner dissesse: «Olhe aqui, Santidade, o senhor pode até ser papa, mas não deixa de ser argentino. Portanto, fique com esta cuia e me ajude a agregar aquele arquipélago ao nosso território. Meu futuro político depende disso». Que falta de classe! Pior ainda quando se sabe, pela imprensa do país hermano, que a convivência entre a “presidenta” e o então cardeal foi áspera.

Dilma Rousseff, presidente da República Federativa do Brasil, foi ainda mais longe. Não ousou dizer na cara do Papa Francisco o que queria, mas fez chegar-lhe um recado pelos jornalistas. Antes mesmo que o novo chefe da Igreja assumisse o cargo oficialmente, Dilma deu-lhe, por caminhos tortuosos, uma lição (não solicitada) sobre como conduzir o rebanho. Instou o novo pontífice a procurar compreender as «opções diferenciadas das pessoas»(sic).

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Dizem que o poder inebria e que, às vezes, chega a cegar. Quando é exercido por pessoas pouco preparadas, a coisa é ainda pior. De um convidado para uma homenagem, espera-se que venha com os braços cheios de presentes e que se retire com as mãos vazias. Choradeira tem hora. Onde já se viu fazer pedidos públicos ao homenageado do dia? Tem cabimento dar-lhe lições de bem governar? O comportamento das duas senhoras foi ousado e grotesco. Deram, mais uma vez, mostra de absoluta falta de tacto. Há hora e lugar para tudo, mas elas não leram o manual.

A língua portuguesa tem muitas palavras em vias de extinção, por mera falta de uso. A atitude da chefe do Executivo de nosso País comprovou a obsolescência de um desses termos: recato. Faz muita falta a nossos mandachuvas.

Em castelhano, por acaso, a palavra é a mesma.