A redenção

by Kleber Sales

José Horta Manzano

Não é de hoje que os integrantes do STF fazem suas artes e nos pregam sustos. Oito anos atrás, num belo dia quase no fim de 2018, o inefável Marco Aurélio Melo, então ministro do Supremo, tomou uma decisão monocrática de deixar os brasileiros atentos de cabelo em pé. Provocado por um partido político, deu uma senhora canetada. Mandou soltar todos os cidadãos que estivessem na prisão, com sentença confirmada em segunda instância, mas não ainda transitada em julgado.

Alguém logo calculou quantos presos deveriam ser soltos: 160 mil em todo o país, uma enormidade. Dia seguinte, antes que o primeiro preso fosse liberado, Dias Toffoli, então presidente do STF, anulou a decisão monocrática de Marco Aurélio e tudo votou à estaca zero. Um ano mais tarde, decisão da Corte, tomada em reunião plenária, estabeleceu que o condenado só poderia ser preso depois do esgotamento de todos os recursos legais. O placar foi apertado: 6 x 5. A decisão está em vigor até hoje.

O susto que Marco Aurélio nos causou foi a facilidade com que uma caneta solitária tem o poder de tomar decisões de tanta importância. À época, escrevi um artigo, que o Correio Braziliense publicou. Teci considerações sobre o que me pareceu desvirtuamento do princípio de funcionamento do STF. Por ser um tribunal colegiado, decisões tomadas por um ministro solitário deveriam se restringir a casos de interesse restrito, ao passo que assuntos de alcance nacional deveriam passar sempre pelo crivo da colegialidade.

Dei a culpa pelo deslize do magistrado à vaidade. “É irmã gêmea do orgulho e mãe de muitos defeitos. Traço inerente ao ser humano, afeta-nos a todos, em maior ou menor grau. Na vida do mortal comum, ataques de vaidade explícita não fazem mais que azedar o entorno do vaidoso. Já quando o soberbo exerce função pública de destaque, é mais grave. Imodéstia descontrolada pode extravasar a banheira do poderoso e alagar o país inteiro. Isso ocorre a cada vez que um magistrado é acometido por xilique de prima-dona ferida.”

Para resolver o problema, pareceu-me que seria interessante fazer uma reflexão sobre a abolição da vitaliciedade do cargo de ministro do Supremo. Imaginei que, ao lembrar que seu cargo tem dia e hora para terminar, o togado tenderia a comportar-se com mais responsabilidade. É medida pra ser estudada.

Já a crise que sacode o Supremo atualmente é de outra natureza. Há sempre uma pitada (ou uma mão-cheia) da vaidade, mas o sacolejo atual envolve outra, digamos assim, “fraqueza”, do ser humano: a ganância. E, a meu ver, há um bocado de ingenuidade também.

Esqueça que os ministros do Supremo recebem um ordenado elevado, para os padrões do país. Esqueça que contam com apartamento grátis, automóvel com motorista gratuito, plano de saúde a custo zero, lanchinho, café e almoço por conta da casa. Esqueça que eles têm direito a requisitar jatinho da FAB quando se lhes faz necessário. Qualquer mortal estaria encantado e satisfeito com essa mamata toda.

De repente, aparece um salafrário, daqueles que vendem terreno na Lua. Propõe sabe-se lá que negociata, de graça é que não foi. Enche as Excelências de presentes, viagens, jatinhos, soirées em Londres com charutos e whisky do melhor – tudo por conta da casa. Deus sabe o que o trapaceiro prometeu, o fato é que começou a cumprir sua parte. Quem só ficou na promessa foram as Excelências. Ou não ficaram?

Os magistrados foram de uma ingenuidade magistral quando acreditaram que ninguém jamais ficaria sabendo das tramoias. Deixaram-se cegar também pela ganância desmedida, e de novo ingênuos, ao imaginar que os “negócios” ficariam para sempre atrás da moita.

Agora, pronto. aconteceu o que ninguém queria. Como é que fica?

Minha receita de limitar o mandato dos magistrados parece chá de camomila para paciente moribundo: não vai resolver. O que é que se faz, então?

Para salvar a honra dos magistrados envolvidos e para garantir o futuro de nossa Suprema Corte, não vislumbro melhor solução do que a renúncia pura e simples, com efeito imediato, dos ministros enrolados nesse triste episódio.

Mesmo aqueles que, embora culpados, ainda não tenham sido incomodados, é bom que renunciem já. Hoje em dia, nenhum segredo fica mais escondido para sempre.

IPVA

José Horta Manzano

Os adjetivos automotor, automotivo e automóvel são sinônimos. Veículo automotor (ou veículo automotivo ou ainda veículo automóvel) é aquele cujo movimento é gerado por motor próprio. Sendo assim, com a exclusão de patinete tradicional, bicicleta sem motor, barco a vela, triciclo infantil e mais alguns outros, os veículos que povoam nossas estradas, nossas águas e nosso ar são todos automotores.

IPVA (Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores) é, como seu nome indica, o imposto que deve pagar todo proprietário de um veículo automotor.

Li outro dia que o projeto de reforma tributária que está atualmente em discussão propõe que jatinho (private jet) e barco a motor entrem para a lista de veículos sujeitos ao pagamento de IPVA.

Perdi o fôlego. Como é que é? Quer dizer então que, até esta data, proprietários de private jet e de jet ski sempre estiveram livres de pagar o boleto do IPVA?

Tudo indica que sim. Vê-se que essas normas foram estabelecidas pelos do andar de cima, os que fazem as leis do país. Todos, por coincidência, grandes entusiastas de jatinho privado e de lancha veloz.

E assim vai o Brasil, uma república em busca de leis republicanas.

Salve a Seleção!

José Horta Manzano

Até não faz muito tempo, um jogo de futebol entre Brasil e Argentina, ainda que amistoso, ofuscaria todo e qualquer acontecimento e faria a manchete unânime da mídia. Dizem até as más línguas que, entre nossa Seleção e a dos hermanos, não existem partidas «amistosas», que são todas pra valer.

O mais recente encontro entre as duas, realizado hoje do outro lado do planeta, terminou há pouquinho. Curioso, vim conferir o resultado. Abro o Estadão online. Está lá uma manchete em letras enormes com o placar. Placar do jogo? Não, senhores. O placar do voto de Suas Excelências sobre o julgamento do pedido de cassação do presidente em exercício. Aliás, nem placar é, que não passa de projeção.

Dão nome, foto, idade e currículo da «seleção» de magistrados, exatamente como nas figurinhas de futebolistas que se colavam nos álbuns de antigamente. Exatamente como se descrevessem a expectativa de desempenho de cada jogador, dão a probabilidade de voto de cada um dos magistrados. A diferença mais notável entre os astros do gramado e os do tribunal é que aqueles são onze, enquanto estes não passam de sete. No mais, o entusiasmo pelo julgamento é o mesmo.

Vou descendo o elevador do jornal online à cata do resultado do jogo. Depois da manchete principal, vem uma notícia sobre a inflação de maio. Em seguida, nova manchetinha falando de acordos de leniência possíveis entre instituições financeiras e o Banco Central. Mais abaixo, uma chamada para os editoriais do dia informa que um deles discorre sobre o caráter pedagógico do julgamento.

Só depois disso é que aparece o resultado do jogo de futebol. Fico sabendo que o Brasil foi derrotado. Um pensamento me ocorre: se tivesse vencido, será que a notícia teria subido um ou dois degraus na ordem de apresentação do jornal? Nem Nostradamus tem resposta.

Bom, talvez seja eu o único a me surpreender com o que acabo de escrever. É possível que pareça natural a uma maioria de conterrâneos que a permanência ou não de doutor Temer na chefia do Executivo seja o assunto mais importante. Quanto a mim, não vejo com esses olhos, que fazer? Cada um enxerga através das próprias lentes.

Será que ‒ realmente ‒ faz alguma diferença que o presidente seja A, B ou C? Que Temer fique, que Temer caia ou que Temer balance, no fundo, que vantagem Maria leva? O que é que há de acontecer de tão importante para cada um de nós? Espremendo bem, analisando sem paixões, qualquer um chegará à mesma conclusão: nada vai mudar. É muito difícil, pra não dizer impossível, encontrar um homem público sem manchas no currículo. Qual deles nunca deu uma carteirada, nunca pegou carona num jatinho amigo, nunca empregou um parente, nunca inchou uma nota de despesa, nunca deixou a Casa no meio do expediente, nunca furou uma fila, nunca usou nenhum centavo de dinheiro público para fins pessoais?

Vai ser difícil encontrar a pérola rara, o imaculado, o honesto absoluto. Mas tem pior. Se, por um milagre do Espírito Santo, encontrassem o homem providencial, quem garante que fosse bom administrador? Honestidade e retidão não são necessariamente sinônimos de boa capacidade política e administrativa.

Em vez de insistir no «Fica, Temer!» ou no «Fora, Temer!», deveríamos pensar no «E depois de Temer?». Parlamentarismo? Voto distrital? Presidente da República desprovido de poder? Monarquia? O debate importante tem de passar por cima de querelas passageiras e enxergar mais longe. Pra frente, Brasil! Salve a Seleção!

Inauguração e reinauguração

José Horta Manzano

Dois dias atrás, comentei a ida de nosso despeitado Guia à Paraíba para reinaugurar um dos novos braços do Rio São Francisco bifurcado. Num inacreditável atrevimento, doutor Temer, presidente em exercício, tinha ousado inaugurar oficialmente o trecho dias antes. Na cabeça de nosso demiurgo, o único habilitado a dar boas notícias é ele próprio. Aos demais, cabe apenas anunciar o lado sombrio.

crédito: Diário do Poder

Em desagravo à ofensa de que havia sido vítima, o Lula juntou correligionários, convocou a militância, distribuiu bonés e camisetas vermelhas, contratou transporte coletivo e mandou organizar nova inauguração. Na impossibilidade de qualificá-la de “oficial”, chamou-a de “popular”.

Diário do Poder informa hoje que o Lula evitou deslocar-se em voo de carreira à Paraíba. De fato, a quase certeza de tomar uma vaia o impede de viajar como um mortal qualquer. Preferiu alugar o Legacy 600 de prefixo PR-AVX, jato particular que um dia pertenceu Eike Batista (hoje inquilino do Complexo Penitenciário de Bangu).

crédito: Diário do Poder

Sabe-se que o fretamento desse jato para viagem de ida e volta à Paraíba sai por volta de 100 mil reais. Nem o PT nem o escritório político do Lula (também conhecido como “instituto”) assumem ter pagado um centavo. O distinto leitor tem liberdade total para imaginar a origem do financiamento da viagem.

Lobismo e propinas

José Horta Manzano

AviaoFuncionários das duas maiores empreiteiras do Brasil assistiram, estupefactos e impotentes, à prisão do presidente da empresa. Coisa nunca antes vista nessepaiz. Ambos os encarcerados são homens de estirpe graúda, daqueles que costumam privar da intimidade de presidentes, ministros e senadores.

A proximidade – pra não dizer promiscuidade – entre grandes empreiteiros e medalhões da política faz parte do jogo do poder. Uns e outros comungam, se autoalimentam, relacionam-se em simbiose. Um círculo não pode viver sem o outro.

Em princípio, nas democracias civilizadas, lobistas a serviço de empreiteiras têm cadeira cativa no parlamento. Tapinha nas costas, convite para fim de semana em hotel de luxo, carona em jatinho, um relógio de marca aqui, uma gravata de seda ali – são mimos corriqueiros. Em contrapartida, as empreiteiras representadas pelos simpáticos lobistas têm preferência na hora de atribuir obras públicas. Ninguém veria ilegalidade nem imoralidade nessa prática.

Relógio 3O problema começa quando, por meio de assalto ao erário, o dinheiro do contribuinte é surrupiado. No Brasil, o meio mais utilizado é o sobrepreço. Incha-se artificialmente o valor da obra. O governo aceita, faz a encomenda e paga a conta (com nosso dinheiro). Em seguida, uma retrocomissão é devolvida – não ao erário, mas a determinados figurões. É o que se conhece como propina. É aí que a prática brasileira, levada ao paroxismo estes últimos anos, diverge do que se faz em lugares mais civilizados.

Pronto. O lobismo é comum, existe no mundo todo, não é ilegal nem imoral. Equivale a levar uma flor para a professora. Propina, razão pela qual estão botando figurões atrás das grades, é outra coisa. É crime.