Quem garante?

José Horta Manzano

Impeachment? Votação fatiada? Tomada de posse? Viagem à China? Entrar com recurso total? Recurso parcial? Recurso fatiado? Ministro do STF impedido? Conchavo? Conspiração das «direitas»? Conspiração das «esquerdas»?

Para nós, trancafiados contra nossa vontade neste hospício, está ficando cansativo. Já a mídia internacional está-se convencendo de que a política brasileira ultrapassa o entendimento de não iniciados. Notícias sobre a destituição da presidente estão sendo rebaixadas a nota de rodapé. Estrangeiros de cultura mediana não têm formação suficiente para acompanhar nossas reviravoltas nem nossos vaivéns.

Fatiado à moda da casa

Fatiado à moda da casa

Estes dias, na falta de catástrofes, as manchetes têm destacado assuntos internos de cada país. Na parte internacional, os editores estão evitando falar do Brasil. As declarações esquizofrênicas de Mister Trump e as arruaças que se seguiram à proclamação do resultado das eleições presidenciais no Gabão dominam o noticiário. Deu-se também destaque à impressionante manifestação de centenas de milhares de venezuelanos antibolivarianos.

Quarenta anos atrás, tive um colega de trabalho muito espirituoso. Com voz de trovão, leve sotaque estrangeiro, alto, corpulento e desinibido, o homem não passava despercebido. Estávamos em pleno período militar, época em que o Exército ocupava o topo da pirâmide do poder. Pais protegiam filhos. Professores velavam por alunos. Patrões garantiam empregados. E assim por diante, na complexa hierarquia social, até que se chegava ao cume. Lá em cima, «protegendo» todos, estava o poder militar. Irrespeitoso, meu amigo costumava perguntar ‒ com o vozeirão característico: “E quem garante o Exército?”

Lula & Omar Bongo em 2004. Bongo foi "presidente" do Gabão durante 41 anos e meio, até sua morte, quando foi substituído pelo filho.

Lula & Omar Bongo em 2004.
Bongo foi “presidente” do Gabão durante 41 anos e meio, até o dia em que morreu. Foi então substituído pelo filho, que está lá até hoje.

Lembrei desse episódio hoje. Os brasileiros, cuja maioria não suporta mais os descaminhos do andar de cima, forçaram seus representantes a dar um jeito. A solução mais evidente era a destituição da presidente, o que afastaria do poder os personagens mais nefastos. Deputados votaram e garantiram a vontade popular. O Senado votou e garantiu a decisão da Câmara.

Muitos se mostraram desagradados com o «rito». Inconformados, estão apelando ao Supremo Tribunal Federal. Até o momento em que escrevo, mais de uma dezena de representações já foi apresentada ao tribunal maior. Por bem ou por mal, querendo ou não, o STF vai ter de se pronunciar.

Se, quarenta anos atrás, a dúvida era: «Quem garante o Exército?», temos hoje o direito de perguntar: «Quem garante o STF?»

Pensamentos com suas fontes

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Faz alguns dias, lancei uma espécie de desafio. Citei oito frases ‒ sem desvelar o nome dos autores ‒ e propus ao leitor que avaliasse a percepção que elas lhe causavam. Concordavam? Não concordavam? Prometi desvendar o enigma.

Promessa é dívida. Trago hoje o desfecho da novela. Logo aqui abaixo, está a lista de autores. A numeração e a ordem respeitam o post original. Para conhecer o resultado, basta clicar sobre o quadradinho que vem logo a seguir.

Se alguém deixou de ler o post original, ainda dá tempo: basta clicar aqui. Agora vamos ao fim do mistério. Tenho certeza de que muitos se surpreenderão.

Seus comentários são muito bem-vindos e me deixarão muito feliz. Clique no quadradinho pra ampliar.

Cabeçalho 16

 

Ofensa por ofensa

Discussão 1Sonia Racy (*)

Cássio Cunha Lima, líder do PSDB no Senado, adotou um “santo remédio” como resposta para quem o chama de “golpista”: devolver com um “petista”.

Conta o senador que, esta semana, sua tática já surtiu efeito. Ao ser abordado no aeroporto de Brasília com acusação de golpista e retrucar com um petista, viu que o homem ficou sem… reação.

(*) Sonia Racy, jornalista, mantém uma coluna no Estadão.

Quedémonos con lo bueno!

José Horta Manzano

É assim que dizem os espanhóis quando um acontecimento tem um lado bom e outro ruim. «Fiquemos com o que há de bom.» Vamo-nos contentar com o ganho. Depois, com calma, resolvemos o que ficou pendente. O mundo não vai acabar. Nada é perfeito. Às vezes, é preciso entregar os anéis pra salvar os dedos.

Nos últimos dias, por ocasião do julgamento da destituição da presidente, pelos senadores, assistimos a um espetáculo decente. Pelo menos formalmente, o desenrolar foi decente e civilizado. Surpreendentemente, o clímax que quase paralisou o Brasil dia 31 de agosto passou praticamente despercebido no exterior.

Senado federal 1Na maior parte dos países, crises envolvendo destituição de medalhões costumam resolver-se bem mais rapidamente. Meses atrás, quando o «rito» começou a se desdobrar, muito se falou e se escreveu sobre ele. À medida que o processo se arrastava, no entanto, o interesse da mídia internacional foi desmilinguindo.

A prova de que o resultado final não impressionou ninguém além de nossas fronteiras foi a repercussão quase nula do impeachment de dona Dilma. O jornal televisivo suíço, fonte-mor de informação da população, sequer abordou o assunto. Na França, os principais jornais não dedicaram mais que 15 segundos à ‘grande’ notícia. Fica a impressão de que, na cabeça de todos, o assunto já se havia esgotado e o mandato da doutora já estava cassado havia tempo.

Quanto a nós, apesar de termos conseguido o principal, continuamos a discutir sobre o accessório. Dona Dilma foi despachada mas não perdeu seus direitos políticos. E daí? Onde está o problema? Alguém imagina que ela venha a se candidatar à presidência em 2018? É possível que a moça tivesse dificuldade até em se eleger para a vereança de Porto Alegre.

Dilma 17O importante é que demos o passo maior para começar a desinfetar o mundo político brasileiro. A estrada é longa, o fim do caminho não está ainda à vista. O parlamento nacional não se transformou, como por magia, em parlamento escandinavo. Mas estamos no bom caminho.

A Constituição foi ferida? Eminentes juristas opinam que sim, enquanto outros doutores asseveram que não. A discussão, neste ponto, deixa de ser política e passa para o plano filosófico. Leis não podem prever tudo. Contradições existem. Em vez de nos dilacerar apoiando este ou aquele ponto de vista, concentremo-nos no principal.

Dos quatro presidentes eleitos pelo voto direto desde o retorno da democracia, dois foram destituídos. São percalços que revelam que o sistema está longe da perfeição. Na minha opinião, a reforma política é necessidade urgente. Gostemos ou não, temos de repensar os poderes e as atribuições do presidente da República.

Enquanto não chegamos lá, fiquemos com o lado bom. Nossos políticos, todos eles, desde presidente até prefeito de lugarejo, sabem hoje que, em caso de «malfeitos», o risco de serem apanhados e apeados é real e bem maior que poucos anos atrás. Podem até acabar atrás das grades. O medo, distinto leitor, é freio excelente.

Interligne 18h

Nota
Aos que aceitam o discurso da presidente, segundo a qual seus 54 milhões de eleitores foram espezinhados, lembro que os algozes ‒ Câmara e Senado ‒ representam a totalidade do eleitorado, ou seja, mais de 100 milhões de cidadãos, o conjunto do voto de todos os brasileiros. No frigir dos ovos, os parlamentares têm, em conjunto, legitimidade bem maior do que a doutora tinha. De cada quatro senadores, três preferiram cassar-lhe o mandato. Precisa mais?

Pedindo socorro ao mundo

by Lezio Jr, desenhista paulista

by Lezio Jr, desenhista paulista

Cláudio Humberto (*)

Após reunião em que concluíram ser irreversível o impeachment, aliados de Dilma Rousseff passaram a defender que ela somente saia do Palácio da Alvorada à força, transformando a residência oficial em “símbolo de resistência”.

A ideia era que ela entregasse o palácio 30 dias após a destituição, como prevê a lei, mas aliados radicais acham que a “ocupação” chamará a atenção do mundo para o “golpe”. Como Dilma ainda resiste a essa presepada, aliados radicalizados pretendem que ela só deixe o Alvorada no fim do prazo de um mês.

Lula caricatura 2aPetistas dizem que é de Lula a ideia de “ocupar” o Alvorada, criando um fato capaz de minimizar os efeitos do impeachment nas eleições.

Em protesto contra Dilma, o Solidariedade mandará, nesta quarta (31), um caminhão de mudança para a porta do Alvorada.

Mundo da fantasia
Petistas acreditam na fantasia de que o Supremo Tribunal Federal seria instância de recurso do impeachment, e querem que fique no palácio.

(*) Cláudio Humberto é jornalista. Publica coluna diária no Diário do Poder.

Coisas da Suíça

José Horta Manzano

Você sabia?

Todo país tem suas festas tradicionais. A Suíça, que começou a se formar há mais de sete séculos, também tem as suas. Uma delas, cuja importância é acentuada pela raridade, é a Festa Federal de Luta e de Jogos Alpestres. A manifestação, que dura um fim de semana, tem lugar a cada três anos. Cada edição se desenrola numa região diferente. Diferentes versões regionais foram unificadas e codificadas em 1895. De lá pra cá, os jogos são nacionais e se organizam regularmente.

Luta suíça 1A festa, que se realiza num estádio, reúne muita gente e conta com a presença do presidente do país. O ambiente é festivo, quase como numa quermesse, com toneladas de salsicha branca com mostarda sendo consumidas. A salsicha branca grelhada é tão importante quanto era comer pipoca no cinema antigamente.

A festa compõe-se de vários concursos e jogos. Um dos mais importantes é o lançamento da Pedra de Unspunnen, um enorme bloco de granito que pesa exatos 83,5kg. Caso o distinto leitor não seja halterofilista, será difícil imaginar como pode alguém levantar um bloco de mais de oitenta quilos e, ainda por cima, atirá-lo ao longe. Não é pra qualquer um. O recorde oficial foi estabelecido faz 12 anos, em agosto de 2004. Um jovem conseguiu lançar a pedra a 4,11m de distância. Importante: utiliza-se sempre o mesmo bloco de pedra.

Luta suíça 3O ponto alto são as competições de Luta Suíça. Pra quem nunca assistiu, é inusitado. Lembra um pouco o sumô ou o judô, mas tem características próprias. Pra começar, não há restrição de altura nem de peso dos concorrentes. Todos estão na mesma categoria. Portanto, é natural que todos tenham perfil de carregador de piano.

Dois competidores se enfrentam no interior de um círculo forrado com serragem. Cada um veste, por cima da calça, um calção de juta preso à cintura. O objetivo é derrubar o adversário e fazê-lo encostar as costas no chão. Não vale agarrar pela camisa, cada combatente agarra no calção do outro. O enfrentamento dura alguns minutos.

Luta suíça 2Terminada a luta, é praxe que o vencedor limpe a serragem que ficou grudada nas costas do perdedor, num simpático gesto de consideração. Em princípio, ninguém sai de perna quebrada, nem sangrando, nem machucado. Tudo termina com tapinhas nas costas. Às vezes, o perdedor deixa escapar umas lágrimas, coisa surpreendente para gigantes de 120kg. Este ano, pela primeira vez desde 1940, o vencedor tinha mais de 30 anos.

Vale a pena dar uma espiada neste vídeo de 1 minuto e meio com uma visão geral dos festejos trienais. A edição 2016 contou com 80 mil espectadores. Como prêmio, o campeão ganha… um touro. Não parece, mas o animal poderá ser bastante rentável se utilizado como reprodutor. Se for bem cuidado, será valor seguro, não sujeito a flutuações da Bolsa. Coisas da Suíça.

Pensamentos sem suas fontes

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Há um princípio geral da neuropsicologia que muitas vezes escapa à nossa atenção: a apreensão da realidade nunca é desprovida de filtragem emocional. Nossos órgãos dos sentidos estão condicionados, sem dúvida, aos estímulos provindos do mundo exterior, mas nem sempre nos damos conta de que eles também estão atrelados às nossas expectativas, princípios, valores e preconceitos. Em certa medida, ouvimos o que queremos ouvir, percebemos os sabores e odores que queremos perceber, temos as sensações táteis que queremos ter.

Blabla 8Os exemplos abundam. Mulheres que acabaram de parir conseguem ouvir os sinais mais sutis de desconforto de seu bebê, quando todos ao redor permanecem indiferentes. A simples visão de uma pessoa suada dentro de um transporte coletivo desencadeia em muitos circunstantes uma sensação olfativa desagradável. Infinitas brigas de casais acontecem quando um dos parceiros não registra conscientemente uma fala qualquer do outro e é acusado de desatenção ou indiferença. Sensações táteis podem ser potencializadas se sentimos admiração, medo ou repulsa pelo que estamos tocando, como a maciez da pele de uma criança, o frio do corpo de uma cobra ou a viscosidade de um verme.

Na área da linguagem humana, o abismo que separa o estímulo emitido e a forma como ele é recebido é sensivelmente mais profundo. Ao escolhermos palavras para manifestar uma opinião, sensação ou sentimento, esquecemos muitas vezes que o outro vai reagir não apenas à intenção que nos moveu, mas fundamentalmente ao peso emocional que cada palavra adquiriu ao longo de sua própria história. Além disso, enfrentamos mais um fator complicador: o tom de voz empregado ao dizer a palavra pode transformar o que pretendíamos ser um elogio em uma ofensa indesculpável.

Blabla 9Só os mais velhos lembrarão de uma frase polêmica dita por Mário Amato, então presidente da FIESP, a respeito da então Ministra da Economia (“Ela é muito inteligente, apesar de ser mulher”) ou de um argumento julgado ainda mais insultuoso usado por Paulo Maluf (“Tá bom, tá com vontade sexual, estupra, mas não mata”). Freud explicando ou não esse tipo de comentário, o que importa é registrar o severo risco de mal-entendidos ao transferir um conteúdo de nosso universo interior para o exterior, sem contextualizá-lo e sem aplicar o filtro da censura social.

Os desafios da comunicação humana já seriam difíceis de superar caso os problemas parassem por aí. Não é o que acontece. A imagem que fazemos da pessoa que fala ou escreve algo, nossas expectativas em relação a ela, a admiração ou desprezo que sentimos por ela também interferem pesadamente.

Blabla 10Há muitos anos, quando eu trabalhava na área de RH de uma grande multinacional, contratamos um consultor externo para ajudar na elaboração de um workshop que enfatizava a importância do planejamento. Para ilustrar o tema, o consultor optou por inserir uma frase de Karl Marx. Era uma ideia simples, sem duplo sentido e até um tanto ingênua, que apontava a diferença entre o homem, capaz de estabelecer um vínculo entre a meta desejada e sua estratégia de ação, e o animal, que se limita a improvisar soluções pontuais.

Para nosso espanto, em todos os grupos submetidos ao treinamento, várias pessoas reagiam com extrema antipatia à frase e muito tempo era perdido para tentar superar seu impacto negativo. Foi então que alguém levantou a hipótese de que a polêmica estivesse centrada na resistência ao contexto “comunista” do argumento. Quando mais tarde a frase foi apresentada aos demais grupos sem identificação da fonte, a hipótese comprovou estar certa: o argumento passou a ser rapidamente absorvido, sem nenhuma forma de contestação.

Blabla 11Talvez seja de bom alvitre levar em consideração a existência de possíveis restrições à fonte nestes tempos bicudos de triunfo da linguagem politicamente correta. A conclusão inescapável diante desse fenômeno é a de que, hoje em dia, não basta usar a palavra certa, o tom correto, nem adotar uma atitude blasée diante do tema a discorrer. É preciso cuidar para a imagem que projetamos não interferir negativamente na compreensão e na aceitação de nossas mensagens.

Valho-me dessas considerações para propor um joguinho descompromissado aos que me leem. É um exercício divertido e revelador ao mesmo tempo, garanto. Abaixo estão elencadas algumas frases de pensadores famosos, de diversos campos do conhecimento. A proposta é que você leia cada frase e gaste alguns segundos refletindo sobre ela, para avaliar seu grau pessoal de concordância e identificação com essas formas de pensar. Não se trata de um teste de conhecimentos gerais, nem de aferição da sensibilidade de cada um. Depois, quando o impacto emocional de cada raciocínio já tiver sido absorvido, você terá acesso ao “gabarito oficial”. Releia então as frases e examine desapaixonadamente o que mudou na sua percepção. Vamos lá:

     Blabla 12     • 1 «Anatomia é destino.»

     • 2 «Não fazemos aquilo que queremos e, no entanto, somos responsáveis por aquilo que somos.»

     • 3 «Aprendi a não tentar convencer ninguém. O trabalho de convencer é uma falta de respeito, é uma tentativa de colonização do outro.»

     • 4 «Tudo o que nos irrita nos outros pode nos levar a um entendimento de nós mesmos.»

     • 5 «A democracia é apenas a substituição de alguns corruptos por muitos incompetentes.»

     • 6 «A vocação de um político de carreira é fazer de cada solução um problema.»

     • 7 «O medo é pai da moralidade.»

     • 8 «Nem só de Proust vive uma mulher.»

Daqui a dois dias, identificaremos o autor de cada frase. Por enquanto, o distinto leitor está convidado a fazer a lição de casa. Fica o suspense.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Greve de fome

José Horta Manzano

Chamada Estadão, 28 ago 2016

Chamada Estadão, 28 ago 2016

Por mais que seja digno de compaixão, esse antigo inquilino de Guantánamo parou de comer por decisão pessoal. Maior compaixão desperta o infeliz povo venezuelano, que parou de comer por… absoluta falta de alimento.

Tirando o pessoal do andar de cima, o povão do país hermano está mal. Faz meses que entraram em greve forçada de fome, vítimas de autoridades ignorantes, egocêntricas, corruptas e incompetentes.

Impeachment e quotas

José Horta Manzano

Artigo para o Correio Braziliense

No momento em que escrevo, o julgamento da destituição da presidente ainda não terminou. Seria desajuizado, portanto, asseverar qual será o resultado. Manda a prudência ser paciente e esperar o veredicto oficial. Só então conheceremos o sabor do molho que regará as mazelas nacionais pelos próximos anos.

Com impeachment ou sem ele, problemas gigantescos ‒ acumulados, não tratados e amplificados nestes tresvairados anos ‒ terão de ser enfrentados. Não há como escapar. Não é possível empurrar o futuro cada ver mais pra diante. Um dia, ele acaba chegando, e as bombas que não tiverem sido desarmadas perigam rebentar em nossas mãos. Os pavios estão acesos.

Os senadores têm, neste momento, grande poder e imensa responsabilidade. A decisão que o colegiado tomar não eliminará, por magia, as adversidades que nos afligem, mas certamente definirá o modo como serão abordadas. A sabedoria popular diz que não se deve trocar o certo pelo duvidoso. No entanto, quando o certo ‒ falo dos fatos e gestos políticos destes últimos anos ‒ é tão calamitoso, mais vale apostar no duvidoso. Há sempre uma chance de a coisa pública deixar de ser tratada tão indecorosa e tão catastroficamente.

Cena da Idade Média by Pieter Bruegel (≈1525-1569), artista flamengo

Cena da Idade Média
by Pieter Bruegel (≈1525-1569), artista flamengo

Dado que ainda não atravessamos o túnel do impeachment, quero usar este espaço para tecer considerações sobre a política de quotas. Aprendemos na escola que o feudalismo era o sistema social vigente na Europa medieval. Os manuais ensinam também que essa arquitetura social começou a se extinguir meio milênio atrás e que a Revolução Francesa assestou-lhe o golpe final.

Assim mesmo, no Velho Continente, sobrevivem marcas de estratificação social. Nações do norte vivem de maneira mais igualitária, com diferenças sociais pouco acentuadas. À medida que se caminha para o sul da Europa, desigualdades sociais tornam-se mais e mais visíveis. Portugal e os países da orla mediterrânea estão a anos-luz do igualitarismo escandinavo. A sociedade brasileira descende, em linha direta, desse sistema desigual. Herdou uma estrutura hierárquica que, embora não diga seu nome, guarda traços evidentes de feudalismo latente.

Privilégio é o modus operandi. A palavra não desmerece a etimologia: privilégio é lei privada. O que é vedado à massa dos cidadãos comuns pode ser tolerado quando praticado por personagens do andar de cima. Nosso país foi fundado ‒ e funciona até hoje ‒ com base em regras díspares e desequilibradas. De saída, o sistema começou torto, com a partilha da nova terra em capitanias distribuídas entre os amigos do rei. Faz quinhentos anos que a essência é a mesma.

Garante-se tratamento especial a presidiários conforme o grau de estudos de cada um. Doutores, ainda que condenados por crime pesado, terão direito a cela e a tratamento carcerário diferente do que se dispensa ao populacho. Deputados, senadores e outros eleitos do povo, ainda que acusados de crimes repugnantes, escapam à justiça comum. Serão julgados em foro especial, não misturados à plebe. Pois essa hierarquia entre castas de cidadãos, que nos parece perfeitamente natural, é inconcebível em países mais adiantados.

Faz já algum tempo que, numa tentativa canhestra de diminuir desigualdades, surgiram sistemas ditos de quotas. É solução perniciosa, em que se pretende curar um mal provocando outro. Tenta-se combater estragos causados por privilégios ancestrais criando… novos privilégios. Pior que isso, quotas são às vezes baseadas na raça do cidadão, conceito pra lá de vago entre nós.

Operários, obra de 1933 by Tarsila do Amaral (1886-1973), artista paulista

Operários, obra de 1933
by Tarsila do Amaral (1886-1973), artista paulista

A princípio, considerou-se que a autodeclaração racial bastasse para separar cotistas dos demais. Com o passar dos anos, a imprecisão inerente à própria definição de raça abriu brecha para falsas declarações. Ainda outro dia, um cidadão houve por bem apresentar numerosos laudos assinados por dermatologistas para demonstrar que, pelo critério de coloração de pele, podia ser enquadrado em determinada quota racial. O Itamaraty já criou um mui oficial Comitê Gestor de Gênero e Raça. Estamos pisando terreno minado, que evoca períodos sombrios da História. Comitês encarregados de controlar a raça de cidadãos existiam na Alemanha nazista, de nefasta memória.

Mais vale garantir a todos os cidadãos um padrão elevado de Instrução Pública. Nosso sistema de quotas nada mais é que confissão de fracasso da Educação Nacional. Para banir nossos renitentes resquícios de feudalismo, ainda temos longo caminho a percorrer.

Frase do dia — 314

«O sectário atribui significados transcendentais a seus caprichos – e, se puder, impõe obediência geral a eles. A circular com que Dilma obrigava seus subordinados a usar a palavra “presidenta” jamais serviu à causa dos direitos das mulheres, mas criou uma fronteira de linguagem entre a militância petista e os demais cidadãos.»

(*) Demétrio Magnoli, geógrafo, em coluna publicada em 27 ago 2016.

Erro de cálculo

José Horta Manzano

Faz um mês, o Partido dos Trabalhadores publicou longo arrazoado em defesa de nosso guia. A manobra tem explicação. Em 36 anos de existência, o partido ‒ que começou representando industriários e terminou no banco dos réus ‒ só conseguiu fabricar um líder. Unzinho só. Em união visceral, Lula da Silva é o PT e o PT é Lula da Silva. É composição com dois elementos. Na falta de um, o outro fenece.

Lula cartilha 4Dotado de ego gigantesco, o Lula cuidou que nenhum personagem lhe fizesse sombra. Botou pra correr os que representassem perigo e barrou a ascensão dos que sobraram. O ápice do culto à própria personalidade foi a designação do «poste» que lhe sucedeu na presidência do país. Acostumado a conviver com vaquinhas de presépio, o Lula foi incapaz de pressentir o desastre que estava por vir. Jamais imaginou que a criatura ousasse se desgarrar do criador. Não se lembrou de que todo passarinho acaba, um dia, abandonando o ninho para voar com as próprias asas.

Semana passada, no intuito de difundir ao redor do planeta a fábula do golpe que está por apeá-lo do poder, o partido houve por bem mandar traduzir o arrazoado em três línguas estrangeiras: inglês, francês e o infalível espanhol. Deu ao libelo o apelido de cartilha. São perto de três mil palavras para tentar convencer que o Brasil vive momento de arbítrio, como uma Venezuela qualquer.

Lula cartilha 2No estrangeiro, o texto não suscitou efeito visível além de convencer os que convencidos já estavam. Nenhum veículo, a meu conhecimento, mencionou o documento. Não se sabe se por coincidência ou para contrabalançar a «cartilha», a Justiça brasileira acaba de indiciar o casal da Silva por corrupção e outros crimes dos quais já estamos cansados de ouvir falar.

Não acredito em mera coincidência. Já fazia meses que se falava do apartamento sem dono e do sítio sem proprietário. Por que abrir o processo justamente agora? No meu entender, é a resposta do Brasil decente ao desespero lulopetista que, ao enviar seu libelo à mídia internacional, emporcalhou a imagem do país.

Lula cartilha 3A consequência veio a cavalo. Enquanto a «cartilha» tinha passado totalmente em branco na mídia europeia, a inculpação da famiglia Lula da Silva recebeu destaque na manhã deste sábado. Os europeus não tinham dado grande atenção ao fato de o Brasil, no entender do PT, ser republiqueta de bananas. Em compensação, milhões sabem agora que o demiurgo escorregou do pedestal e vai se haver com a Justiça. Bem haja!

Moro medalhado

José Horta Manzano

Medalhas, comendas, condecorações e honrarias há muitas. No Brasil, como por toda parte, distribuem-se galardões. Alguns são muito prestigiosos, outros um pouco menos. A presidência da República é distribuidora de medalhas. Governos estaduais e municipais também. Até escolas costumam, em certas ocasiões, medalhar alunos. (No meu tempo, pelo menos, era assim.)

Moro 1A importância da homenagem depende de vários fatores. Entram no cômputo: quem outorga, quem recebe e, naturalmente, a raridade (ou a abundância) de agraciados.

Para autoridades, não é complicado conceder medalha. Não precisa passar por aprovação do parlamento. Não é necessário votar nova lei a cada vez. Decreto presidencial basta. Em certos casos, simples portaria resolve o problema. Como consequência da facilidade, a tendência é o aumento exponencial dos agraciados, o que tem por efeito a perda do valor simbólico da honraria.

Medalha do Pacificador

Medalha do Pacificador

O Exército Brasileiro acaba de outorgar a Medalha do Pacificador ao juiz federal Sergio Moro. Por coincidência ‒ ou não ‒, a cerimônia de concessão da honraria ocorreu no exato dia em que o Senado Federal dava início ao processo de julgamento da presidente emérita.

Estava passando da hora de se lembrarem do destemido magistrado paranaense. Muita gente pouco recomendável e uma baciada de desconhecidos já foram brindados com a homenagem. É verdade que, com ou sem medalha, doutor Moro já entrou para a História do Brasil. Já os desconhecidos que tiveram direito à mesma honraria continuam desconhecidos. E assim hão de continuar.

Janio 3A condecoração mais importante que o Brasil concede a estrangeiros é a Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul. Raros são os agraciados. Infelizmente, dado que o presidente tem a prerrogativa de decidir, algumas gafes têm sido cometidas. Ficou na história a condecoração outorgada pelo folclórico presidente Jânio Quadros a Ernesto “Che” Guevara. A cerimônia teve lugar menos de uma semana antes de nosso presidente renunciar intempestivamente ao cargo.

Entre os medalhados com a Ordem maior, estão a rainha da Inglaterra, homenageada quando de sua visita ao Brasil em 1968. O presidente da França Nicolas Sarkozy e quatro presidentes de Portugal também foram agraciados. Do lado sério, temos ainda o rei da Suécia e sua esposa, a rainha Sílvia ‒ que, por sinal, tem mãe brasileira e foi criada em São Paulo.

Lula e BasharDo lado menos sorridente, além do «revolucionário» Guevara, foram distinguidos o ditador sírio Bashar El-Assad, Cristina Kirchner, o aprendiz de ditador peruano Alberto Fujimori (hoje presidiário), os ditadores Nicolae Ceaușescu (Romênia) e Josip Tito (Iugoslávia). Doutora Dilma fez questão de condecorar dois presidentes da terra de seus antepassados: os búlgaros Parvanov (em 2011) e Plevneliev (em 2016). É provável que este senhor tenha sido o último a receber a medalha das mãos da doutora.

Com Trump presidente, um de seus eleitores não teria nascido

Ruy Castro (*)

Um amigo meu, filho de brasileiros, mas nascido nos EUA em 1948, cidadão americano e residente a vida inteira na Califórnia, vai votar em Donald Trump. Tento convencê-lo de que, se Trump fosse presidente em 1948, seus pais não teriam se conhecido na casa de Carmen Miranda em Los Angeles, muito menos teriam se casado, e ele não existiria. Por uma razão: com as restrições que Trump acha que se deve impor à imigração, os dois, mulatos, brasileiros e pobres, dificilmente teriam entrado nos EUA.

Houvesse um Trump na Casa Branca em algum momento do século 20, muita gente que contribuiu para o poderio americano, inclusive na área de espetáculos, não teria chegado sequer a Ellis Island, porta de entrada dos EUA para milhões de refugiados da fome e da perseguição religiosa na Europa. Eis alguns.

by Silvano Gonçalves Rosa Mello (1974-), desenhista mineiro

by Silvano Gonçalves Rosa Mello (1974-), desenhista mineiro

Os meninos Asa Yoelsen e Israel Baline, foragidos dos pogroms da Rússia nos anos 1890, não teriam se estabelecido na América, adotado os nomes de, respectivamente, Al Jolson e Irving Berlin, e inventado a música americana. Aliás, deve-se a Berlin dois hinos caros aos EUA e que Trump vive cantando em cerimônias: o de Natal, White Christmas, e o triunfal God Bless America.

Instituições como Fred Astaire, os Irmãos Marx, Frank Sinatra, Johnny “Tarzan” Weissmüller, Rita Hayworth, Kirk Douglas, Jerry Lewis, Dean Martin, Tony Bennett, Stanley Kubrick, Natalie Wood, Raquel Welch são ou eram, todos, americanos de primeira geração. Bastava um parágrafo na lei para que seus pais não tivessem saltado do navio e eles nunca aportassem em Hollywood.

Aliás, nem haveria Hollywood – porque foram judeus europeus como Adolph Zukor, Carl Lemmle, William Fox, Samuel Goldwyn, Louis B. Mayer e os irmãos Warner que a inventaram.

Se Trump ganhar e mandar construir um muro em volta do meu amigo, será bem feito.

(*) Ruy Castro (1948-) é escritor, biógrafo, jornalista e colunista. O texto foi publicado na Folha de São Paulo.

Medalhistas indignos

José Horta Manzano

Imagine o distinto leitor que houvesse uma edição dos Jogos Olímpicos a cada três meses, num total de quatro por ano. Perderia toda a graça, não? Tudo o que é demais perde importância e acaba cansando. Uma das lindezas da Olimpíada é a rarirade. Quanto mais espaçadas as edições, maior será a expectativa.

Em pleno embalo gerado pela participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial, nasceu a Ordem do Mérito Aeronáutico. Exército e Marinha já tinham criado insígnias honoríficas para homenagear seus benfeitores. A Aeronáutica não podia ficar atrás. Um decreto-lei de novembro de 1943, assinado pelo ditador Getúlio Vargas, criou a condecoração. O propósito era distinguir personalidades ‒ militares ou civis ‒ que tivessem prestado serviços relevantes às Forças Aéreas.

Ordem do Mérito Aeronáutico 1Nos primeiros tempos, os agraciados foram poucos, quase todos militares. Durante os primeiros vinte anos, apenas 50 cidadãos, em média, receberam a medalha a cada ano. Já nos anos 1970, a condecoração foi distribuída a perto de 140 pessoas por ano. Entre 1980 e 1994, o número de premiados subiu para 215 anuais. A era FHC, de 1995 a 2002, manteve a média de 220 agraciados por ano.

Já não era pouca gente, mas o Lula fez melhor. Durante seus oito anos no Planalto, outorgou a medalha a 313 cidadãos por ano, 42% a mais do que na era FHC. Doutora Dilma, então, promoveu verdadeira “socialização” da condecoração. Durante seus cinco anos de mandato, 490 pessoas receberam a distinção anualmente, num aumento de 56% com relação ao governo de nosso guia.

Entre os que tiveram direito à honra no governo Dilma, estavam os notórios heróis do povo brasileiro José Dirceu e José Genoino, personagens que, como sabemos todos, prestaram inestimáveis serviços à nação e à Aeronáutica em especial. Faça-me o favor! Tem limite pra tudo.

Genoino e DirceuUm decreto do ano 2000, bem anterior à atribuição da medalha a nossos heróis, regulamenta a atribuição da honraria. Um de seus artigos determina que serão excluídos da Ordem agraciados que tiverem sido condenados pela justiça brasileira por crimes contra o erário ‒ entre outros. Os «heróis» se enquadram nesse caso.

Durante o governo da doutora, enquanto o lulopetismo ainda parecia poderoso, o alto comando da Aeronáutica hesitou e fez cara de paisagem. Preferiram descumprir um preceito legal a desagradar a turma do andar de cima. A distinção dos dois condenados foi vergonhosamente mantida.

Com o governo titubeante da doutora escorrendo pelo ralo, o Comando da Aeronáutica decidiu agir. Por meio de portaria publicada semana passada no Diário Oficial da União, os medalhistas indignos foram excluídos da Ordem. A justiça tarda mas não falha.

Diário Oficial da União, 18 ago 2016

Diário Oficial da União, 18 ago 2016

Nem todoas as doze mil pessoas agraciadas desde que a Ordem foi criada hão de ter sido benfeitoras das Forças Aéreas. É plausível que, desde o começo, compadrio e corporativismo tenham influído na escolha de comendadores, oficiais e cavaleiros. Em outros termos: tem muito lixo aí. Com tantos membros, já faz tempo que a Ordem anda meio chinfrim. É como Olimpíada quatro vezes por ano.

Mas é fato que o caso de nossos dois «heróis» ‒ caídos, julgados, condenados e presos ‒ passou dos limites. Não se podia deixar como estava. A justiça às vezes pode tardar, mas, um dia, acaba golpeando.

O florão da América

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Pode ser que eu me engane, mas guardo a nítida impressão de que duas visões contrastantes, praticamente opostas, do Brasil se digladiaram nas cerimônias de abertura e de encerramento dos Jogos Olímpicos Rio 2016.

A primeira me emocionou até às lágrimas por ter sido proposta com a alma. Retratou com incrível senso estético e sutileza o país que poderíamos ter sido caso tivéssemos aprendido a tempo a reconhecer e explorar com responsabilidade social os imensos recursos naturais e humanos de que dispomos. Inovou ao incorporar terapeuticamente o lado B, sombrio, de nossa história. Corajosamente deixou de lado o ufanismo inconsequente e se permitiu representar também nosso passado de cumplicidade com a escravidão, de descaso e aniquilamento das tradições indígenas, de instrumentalização arrogante da mão de obra imigrante. Graças à delicadeza e tom poético das imagens, pôde ilustrar também o Brasil que poderíamos vir a ser caso o desejo de transformação habitasse o coração de todos. O país que seríamos capazes de construir se e quando nos sentíssemos todos, de fato, donos deste país. Simbolicamente, nos apresentou ao mundo como o espaço privilegiado do sonho, da esperança, do potencial, da semente ávida por germinar e se erigir em árvore bela, de raízes profundas.

JO 2016 7A segunda, paradoxalmente, só fez por me distanciar emocionalmente. Para mim, significou tão somente um espetáculo elaborado com a cabeça, de caso pensado. Apresentou apoteoticamente ao mundo o Brasil que somos apesar dos pesares, o país que nos orgulhamos de exibir “para inglês ver”. Trabalhou exclusivamente com os arquétipos já consolidados na cabeça de todo estrangeiro: aquele país tropical onde predomina a festa, a mistura, a informalidade… e, infelizmente, a alienação. Aquele pedaço do mundo onde o circo consegue disfarçar inconscientemente a falta de pão, onde a alegria é ensaiada e a igualdade é vivenciada com alívio apenas em dias de Carnaval. A superação de limitações, como de hábito, não foi convidada para a festa. Em consequência, o bombástico festival de cores e de sons deixou em mim novamente uma triste assinatura: já está bom assim, não é preciso se esforçar mais, esse é o máximo a que podemos aspirar.

Não digo estas coisas com rancor. Sei que estávamos todos merecendo um intervalo, que precisávamos de alguma forma de catarse. As duas cerimônias valeram por isso. Apenas não consigo ocultar de mim mesma uma certa tristeza, amargura ou inquietação com os contornos que o futuro de nossa pátria pode assumir uma vez terminada a festa. Sinto medo de que o desânimo tome conta mais uma vez de nossos espíritos antes que a faxina esteja realmente concluída.

JO 2016 8Apavora-me a ideia de que um novo controlador-geral da nação surja para nos ditar o ritmo, as tarefas de cada um e as áreas que ainda falta limpar. Que um novo salvador da pátria consiga mais uma vez nos seduzir com a promessa de dias melhores se fizermos tudo que seu mestre mandar. Que acreditemos mais uma vez que o futuro a Deus pertence e que, por pura cordialidade, aceitemos transferir alegremente a Ele a responsabilidade pela construção.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.