Cuidado com este!

José Horta Manzano

Estamos em plena pré-campanha eleitoral.

  • Não surpreende ninguém que Lula se comprometa a amparar os pobres e a taxar fortemente os ricos.
  • Não surpreende ninguém que o filho do Bolsonaro se deixe (re)batizar nas águas do Rio Jordão, seguindo o ensinamento paterno.
  • Não surpreende ninguém que Caiado compareça a rodeios e outros eventos ligados à agropecuária.

Agora, quando um candidato como Romeu Zema, ex-governador de Minas Gerais, marca território afirmando que pertence à linha dura e quase caricata da extrema direita, a atitude surpreende, sim.

Banana com casca
Num vídeo recente, o ex-governador agiu como se fosse um influenciador do ramo de frutas e legumes. Reclamou da carestia e aconselhou os mais pobres a comerem banana com a casca. O objetivo era de forrar bem o estômago com gasto menor. Para não ser acusado de somente dizer “Faça o que eu digo”, comeu ele próprio uma banana com casca (coisa que nem macaco faz). Pela cara de nojo que fez, o gosto não deve ser magnífico. Ele mesmo confessou, mais tarde, que prefere o fruto “puro”, sem a casca. Ao doutor Zema, não ocorreu que as bananeiras possam ter passado por um tratamento químico para livrá-las de fungos e outras pragas. E que essa película química depositada sobre a casca possa ser nociva à saúde humana.

Trabalho infantil
Em outra aparição pública, doutor Zema propôs que o trabalho infantil volte a ser autorizado, como era nos tempos de antigamente. Segundo ele, se os jovens americanos podem correr o bairro montados numa bicicleta a distribuir jornais, como a gente vê nos filmes, os brasileirinhos também podem. “O que é bom para os EUA é bom para o Brasil”, foi o que ele não disse, mas pensou. A criança que trabalha ajuda no orçamento familiar, segundo o doutor, encantado com essa perspectiva.

Castração química
Numa entrevista também recente, o pré-candidato se pronunciou a favor do endurecimento da pena para condenados pelo homicídio da esposa, namorada, companheira ou ex, o conhecido feminicídio. Preconiza 30 anos de prisão sem direito a nenhuma medida de alívio. E acrescenta um castigo físico: a castração química. Em sua sanha punitiva, o pré-candidato mistura alhos com bugalhos. A castração química é preconizada – e, em certos países, aplicada – para pedófilos, maníacos sexuais, tarados irrefreáveis. Faz sentido: castram-se os criminosos que cometem crimes sexuais. Feminicídio é de outra natureza.

Comentários
O vídeo com a dentada que ele dá na banana com casca está mais pra desafio de tique-toque do que para coisa séria de um homem que se sente à altura de ocupar o maior cargo da República. É cômica a cara que ele faz, de criança que comeu e não gostou. Esse candidato dificilmente seria aprovado no teste de aptidão que este blogueiro propõe para pretendentes à Presidência.

Quanto ao trabalho infantil, percebe-se a tentativa de volta ao século 19, obsessão de adeptos da extrema direita. Senhor Zema, homem de posses cuja família se dedica há quatro gerações a diversos ramos da indústria e do comércio, parece sonhar com a possibilidade de empregar crianças em suas fábricas, economizando assim na folha de pagamento.

Já no que se refere aos 30 anos de cadeia para feminicídio, proponho pena igual para crimes de corrupção sob todas as suas formas (passiva, ativa, suborno, peculato, prevaricação e muitos etcéteras). O problema é que aqui já estamos pisando no calo do pessoal do andar de cima. Vai ser difícil que a ideia siga adiante.

Hipóteses
Duas hipóteses me parecem plausíveis para explicar o curioso comportamento do pré-candidato.

  • 1) Está agindo assim em consequência de acordo fechado com os Bolsonaros. Assumiu o comportamento de linha auxiliar do clã. Faz o papel de durão, intransigente, cruel, linha dura – tudo isso para fazer o filho “01” parecer moderado e palatável. O pagamento virá sob forma de um ministério ou outra benesse equivalente. Se assim for, recomenda-se não votar nesse candidato, belo exemplo de personalidade vil, sorrateira, com vocação para capacho. Um sujeito assim não merece o voto de ninguém.
  • 2) Seu comportamento escancara seu caráter tal como ele é. O personagem é de fato durão, intransigente, cruel e linha dura. Se assim for, recomenda-se não votar nele, belo exemplo de personalidade insensível, incapaz de empatia, indigno de governar um país tão desigual como o nosso. O Brasil não merece um presidente assim.

Carro elétrico

José Horta Manzano

Em 2019, quando Romeu Zema (governador de Minas Gerais) concedeu a cidadania honorária do estado a Jair Bolsonaro, o governo do capitão estava apenas começando. Ainda não se falava em covid, nem em cloroquina, nem em jet ski, nem em pizza na calçada. Era admissível que alguns cidadãos ainda tivessem esperança de ter um governo decente.

Em 2023, encerrada a era bolsonárica, as ilusões já haviam morrido. Não era mais permitido dar ao capitão o benefício da dúvida, porque dúvida já não havia: seu governo havia sido calamitoso.

Senhor Zema, reeleito governador das Gerais em 2022, não precisava dar vexame, mas deu. Com a cumplicidade da Assembleia Legislativa, organizou uma festa em homenagem ao cidadão honorário. Em agosto passado (dois meses atrás), recebeu Bolsonaro com pompa e entregou-lhe o diploma. Não era obrigado a fazê-lo. Podia ter deixado o título honorífico continuar dormindo na gaveta do esquecimento. Se levou o caso até o fim, foi porque quis.

Vê-se que, para Romeu Zema, o 8 de Janeiro, as joias contrabandeadas, a minuta do golpe, a fuga para Orlando, o escândalo da covid, as vacinas sonegadas, a propaganda de remédios falsos, as bíblias negociadas contra barras de ouro – tudo isso não foi suficiente para mudar sua ideia. Para ele, Jair Bolsonaro continua merecedor da honra de ser declarado mineiro.

De um homem com essa mentalidade, pode-se esperar tudo. Até essa barbaridade que aparece no recorte acima.

Assim como a mentalidade estreita de Bolsonaro via no confinamento da covid apenas uma ameaça à economia nacional, Zema vê no carro elétrico “uma ameaça aos nossos empregos”. Sua visão afunilada não consegue vislumbrar o futuro. Não deve estar a par da determinação de numerosos países de simplesmente proibir o emplacamento de veículos com motor a combustão a partir de 2025 ou 2030.

Se estivéssemos no fim do século XV, esse senhor estaria denunciando a perda de emprego dos copistas medievais suplantados pela imprensa de Johannes Gutenberg.

Mas deixe estar. Não será um sabujo qualquer que vai fazer o mundo parar de girar. Quer doutor Zema goste ou não, o futuro da indústria automobilística estende os braços aos veículos elétricos e a hidrogênio. E isso vai acontecer antes do que ele imagina.

Voto distrital misto

José Horta Manzano

O Senado da República acaba de dar grande passo em direção ao aprimoramento da representatividade dos eleitores. Dois projetos de lei ‒ que se pareciam como duas gotas d’água e que tramitavam havia anos a passo de tartaruga ‒ foram aprovados ao mesmo tempo. Tratam do voto distrital misto para escolha de deputados e de vereadores. Falta ser aprovado na Câmara, o que pode se revelar mais complicado.

Ainda que seja aprovada e promulgada este ano, a lei só será aplicada a partir das eleições de 2020. A menos que uma emenda de última hora apresse sua entrada em vigor, fato que me parece mais que duvidoso. Como resultado, teremos de aguentar mais uma legislatura com deputados eleitos pelo distorcido sistema atual. Paira ainda o espectro de que o STF considere que a lei fere a Constituição. De fato, a carta magna não é clara sobre o assunto.

O novo método não é a panaceia, mas avança no bom sentido. Quando (e se) entrar em vigor, o país será dividido em distritos de população equivalente. Nesse ponto, a porca começa a torcer o rabinho. Por razões que escapam à lógica, a Constituição de 1988 fez uma tremenda confusão entre senadores e deputados federais. Explico.

O Senado representa as unidades federativas. Cada estado, pequeno ou grande, populoso ou não, tem direito a três senadores. Esse dispositivo põe todas as unidades em pé de igualdade. Tanto São Paulo como Rondônia ou Alagoas dispõem de três votos no Senado. Os senadores são, portanto, representantes territoriais.

Já a Câmara representa a população. Em teoria, cada um dos deputados deveria ser o porta-voz de um número equivalente de cidadãos. Foi aí que os constituintes escorregaram. Passando por cima dessa obviedade, determinaram um piso e um teto para deputados de cada unidade federada. Por menor que seja a população, um estado elege um mínimo de oito deputados. Por mais populoso que seja, um estado não poderá eleger mais que setenta representantes. Daí vem a distorção.

Cada deputado paulista representa 650 mil eleitores, enquanto cada deputado roraimense traz a voz de apenas 65 mil eleitores. A deformação é flagrante. Na prática, é necessário que vinte eleitores paulistas unam forças para contrabalançar dois eleitores de Roraima.

Se nada for feito para modificar esse dispositivo constitucional, a disformidade continuará apesar da introdução do voto distrital. Cada distrito paulista terá 650 mil eleitores. Minas Gerais e o Rio de Janeiro contarão com distritos de 370 mil a 385 mil votantes. Enquanto isso, cada distrito do Amapá, apesar de ser habitado por apenas 100 mil eleitores, terá direito a eleger um deputado.

Suas Excelências prestariam enorme serviço à isonomia entre cidadãos se revissem esse dispositivo da Constituição. Não é necessário alterar o número total de deputados. Que se mantenha o número de 513 parlamentares. Basta dividir o eleitorado (ou a população do país) pelo número de deputados e teremos a população que cada distrito deverá abrigar. Vamos admitir que o Brasil tenha 210 milhões de habitantes. Dividindo esse número por 513, chegamos a 410 mil. Cada novo distrito eleitoral ‒ que não coincidirá necessariamente com limites político-geográficos ‒ terá aproximadamente 410 mil habitantes. Essa conta será revista, digamos, a cada três legislaturas (12 anos).

Não é complicado. Mas incomoda muitos políticos, fato que ergue uma barreira no caminho da aprovação. Seja como for, vamos nos contentando com o esboço de voto distrital que vem aí. Já é melhor que nada. Mingau se come pelas bordas.

Baú de memórias ‒ 2

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Uma vez aberto, meu baú de memórias se recusa a ser fechado de novo. Desta vez, as recordações que inundam minha mente dizem respeito a uma experiência tragicômica vivida em família.

Meus avós paternos tiveram 15 filhos biológicos e adotaram outros 17. Meu avô era um rico e pacato fazendeiro de Minas Gerais e espaço não era propriamente o que faltava, nem em suas terras, nem em seu coração. Não é preciso muito esforço de imaginação, no entanto, para prever os infinitos problemas do cotidiano que ele e minha avó tiveram de administrar para cuidar de 32 filhos.

Na adolescência, como era previsível e inevitável, a convivência íntima acabou funcionando como combustível para que alguns filhos biológicos se apaixonassem por seus irmãos adotivos, ou vice-versa. Os mais determinados e rebeldes ignoraram a falta de benção do patriarca e se casaram. Logo a família crescia em ritmo exponencial.

filharada-1Quando, em 1929, explodiu o ‘crack’ da bolsa de Nova Iorque, a única saída que meus avós visualizaram para continuar mantendo com dignidade uma família tão extensa foi a de enviar os filhos mais velhos para trabalhar em São Paulo. Meu pai foi um deles. Aqui se profissionalizou e formou família. Só voltava à casa dos pais nas férias, levando consigo os 5 filhos.

Vivendo e estudando em São Paulo, eu não tinha como me manter em dia com os acontecimentos do ramo mineiro da família. Já não sabia quem tinha nascido, morrido ou casado e já não me lembrava mais quem era filho ou irmão de quem.

Certo dia, já adulta, recebi a notícia de que minha madrinha de batismo havia morrido. Como, na época, meus pais já estavam separados, minha mãe pediu que eu fosse dar a notícia a meu pai em seu novo endereço. Imaginando que o único vínculo que ligava minha madrinha a ele era o fato de ela ser casada com um tio adotivo, não me preocupei em tomar precauções especiais ao dar ciência do ocorrido. Ao ouvir a notícia, meu pai cambaleou, levou a mão ao peito como se estivesse tendo um infarto e, sem ar, disse chocado: “Você está dizendo que minha irmã morreu??”

Para meu supremo espanto, só descobri naquele segundo que ambos, minha madrinha e seu marido, eram na verdade irmãos adotivos de meu pai. Era tarde demais para fazer alguma coisa. Consolei-o como pude e o levei ao cemitério. Lá, uma multidão de parentes mineiros nos aguardava. Meu pai, ainda muito abatido, sentou-se a meu lado num banco do lado de fora da capela. Permaneceu calado a maior parte do tempo, limitando-se a me abraçar e segurar minha mão. Quando chegou a hora de fechar o caixão, ele levantou-se e perdeu-se em meio ao tumulto que se formou.

Foi quando um desconhecido se aproximou de mim e, com um ar entre curioso e lascivo, deu início a um verdadeiro interrogatório. Nome, idade, profissão, local de residência, nada escapou. Mesmo pressupondo que se tratasse de um amigo da família, eu me esquivava como podia das respostas, já que a tentativa de intimidade forçada só fazia aumentar minha irritação.

cimetiere-1Quando já me preparava para levantar e me afastar dele, veio a última pergunta que esclareceria de vez todo aquele imbróglio: “Desde quando você conhece o Oswaldo? ”. Sem entender o propósito de uma pergunta tão sem pé nem cabeça, respondi de mau humor: “Desde o dia em que nasci, oras!”. Totalmente constrangido, o rapaz abaixou a cabeça, levantou e foi embora.

Na volta para casa, perguntei se meu pai sabia quem era ele. Resumo da ópera: o jovem impertinente era um dos tantos primos que eu não conhecia. Ao testemunhar a forma afetuosa e íntima com que meu pai me tratava, ele simplesmente havia imaginado que eu fosse sua namorada atual.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Memória ameaçada

José Horta Manzano

Dos edifícios antigos que subsistem nas cidades brasileiras, raros são os que têm mais de um século. Poucas casas foram levantadas no século XIX num País escassamente povoado à época. Assim mesmo, dentre as poucas que restam, boa parte anda abandonada ao deus-dará.

Interesses comerciais primam sobre considerações históricas. Um século atrás, as cidades eram bem menores e seu perímetro construído, restrito. As aglomerações cresceram vertiginosamente. As construções mais antigas se encontram hoje, naturalmente, em regiões valorizadas, em pleno centro das metrópoles.

Com a valorização das regiões centrais, o proprietário de construções antigas tende a vendê-las a promotores. Novos edifícios ― altos e modernos ― surgirão dos escombros da História destruída. Para o brasileiro padrão, mais vale um belo prédio moderno de 20 ou 30 andares, dotado de todas as comodidades da vida moderna, do que um velho casarão. Diferentemente do que ocorre na Europa, a velha construção aparece como mancha urbana, excrescência a ser eliminada quanto antes. Afinal, em Miami não há essas velharias.

Crédito: Germano Neto

Igreja de Nossa Senhora da Conceição, Ouro Preto
Crédito: Germano Neto

É triste, mas assim é. E assim seguimos. O grosso de nossa população não aprendeu a conceder o devido valor aos (poucos) testemunhos históricos que nos restam. E, como ninguém consegue dar o que não tem, os adultos de hoje estão desarmados para transmitir às novas gerações a formação e a informação que eles mesmos não receberam. Assim, nossos jovens não dispõem de fontes onde impregnar-se.

Um exemplo noticiado pela Folha de São Paulo de 16 de abril vem a calhar. A reportagem nos informa que a igreja de Nossa Senhora da Conceição, erguida em Ouro Preto na primeira metade do século XVIII (1724), foi obrigada a fechar suas portas ao público visto o risco de desabamento.

Há mais: o templo abriga o túmulo e o Museu do Aleijadinho, o maior escultor barroco que o Brasil conheceu. Cansado de esperar por providências das autoridades pagas para cuidar de nosso escasso patrimônio arquitetural, o próprio vigário tomou a iniciativa de interditar a igreja.Igreja N. Sra. Conceição 2

Há mais ainda: o edifício está tombado como patrimônio nacional desde 1949. Portanto, está há mais de 60 anos sob os cuidados do Poder Público.

A região das cidades históricas das Minas Gerais abriga o coração de nosso patrimônio arquitetônico. Ouro Preto, antiga capital da província, é sua expressão maior. Qualquer aluno de escola média sabe quem foi Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho. O que nem todos sabem é que, do jeito que vão as coisas, nossos netos perigam apenas conhecer sua obra através de belas fotos, nada mais. Serão fotos digitais e, com um pouco de sorte, em alta resolução. Naturalmente.

Vamos esperar que o tempo, a umidade e os cupins se encarreguem da demolição? Não vai precisar esperar muito.