Os podres de todos

José Horta Manzano

Faz alguns meses, a água estagnante que banha os altos círculos da República deixou aflorar os primeiros relentos do “dossier” Vorcaro. Naqueles mesmos dias, talvez pouco antes, doutor Fachin, presidente pro rata temporis do STF, havia proposto a seus colegas a introdução de um código de ética que regulasse o comportamento dos magistrados.

O código foi prontamente rejeitado por alguns dos ministros. À época, ninguém ligou coisa com coisa, o que é que o caso Vorcaro tinha a ver com a rejeição de um código de conduta. Pareceu apenas orgulho de certos membros que recusavam sofrer a humilhação de ver seus atos limitados por um cabresto virtual. Hoje, estourados os escabrosos escândalos dos últimos dias, compreende-se a razão da recusa do cabresto. Não era orgulho ferido, não, senhor.

O estudo do rastro das digitais deixadas no telefone de Vorcaro demonstra o envolvimento – de “irmão”, em alguns casos – entre certos integrantes do STF e o ex-banqueiro trambiqueiro. Pessoalmente ou por intermédio de parentes, estão implicados Gonet (PGR), Alexandre de Moraes, Dias Toffoli, André Mendonça, Nunes Marques, Luís Fux. Não se sabe se a decodificação do celular já terminou, portanto, pode haver mais surpresas no fim da linha.

Em maior ou menor grau, todos os mencionados estão envolvidos, O mais encalacrado, até agora, é Alexandre de Moraes, que também é, por coincidência, o que recebeu (por intermédio da esposa) o montante mais elevado.

Por mais que Vorcaro fosse generoso (como todos os que esbanjam dinheiro alheio), não acredito que tenha distribuído essa grana toda encantado pelo brilho da careca de Moraes ou pelo aspecto sizudo e distante de Toffoli. Alguma transação havia. Até agora não vazou qual seja. Qualquer hora vem.

Não tive fígado para assistir aos insultos que Suas Excelências trocaram nos debates desta semana. Prefiro não descambar da perplexidade direto à depressão. Nem aos cortes e videozinhos assisti. Achei que não valia a pena.

Sou de outro tempo, de quando não se ouviam palavrões. Em família, não se discutia no almoço de domingo, ainda que houvesse ademaristas e janistas em volta da mesa. Sei que hoje não é mais desse jeito. Assim mesmo, tenho dificuldade em acompanhar debate entre homens togados que se atiram impropérios.

Os senhores ministros que fizeram o que nunca deveriam ter feito e foram apanhados com a calça nas mãos não têm escolha: têm de renunciar ao mandato, pendurar a toga no gabinete de despacho, esvaziar as gavetas e chamar um táxi para casa.

Quatro ou cinco demissões de uma vez? É surpreendente, mas seria o melhor caminho. Melhor do que se segurar na cadeira manca e conservar o mandato no grito. A vergonha, se é que a sentem, veio para ficar. Olhados com desconfiança, serão até o fim da existência.

Enriqueceram, mas perderam a honra. É pena.

Bandido importado

José Horta Manzano

Prisioneiro 2Um oficial graduado da Polícia Penitenciária, um joalheiro, um açougueiro e um policial. Essas são as vítimas pelo assassinato das quais a Justiça italiana condenou à prisão perpétua o cidadão Cesare Battisti. Os crimes ocorreram na Itália dos anos setenta, no período conhecido como ‘anos de chumbo’.

Preso, o condenado conseguiu escapar e refugiar-se na França, onde sua presença foi tolerada durante vários anos. Depois de idas e vindas durante as quais chegou a obter a nacionalidade francesa ‒ mais tarde revogada ‒ seu processo foi parar em Paris, no Conselho de Estado, corte encarregada de dar a palavra final.

Em 2004, pouco antes do pronunciamento definitivo de extradição, signor Battisti desapareceu do mapa. Sumiu de circulação, mas não saiu da lista de fugitivos procurados pela Interpol. Perdido na multidão, viveu anos tranquilos no Rio de Janeiro até que seu paradeiro foi descoberto e denunciado à polícia brasileira.

Foi preso pela PF em 2007. Sua extradição foi imediatamente pedida pela Itália. As tratativas se arrastaram por anos, até que o Supremo Tribunal Federal decidiu em favor da entrega do ex-terrorista à Itália. Cabia ao presidente da República assinar o documento.

O presidente era o Lula, que, ao que tudo indica, não é grande especialista na história recente da Itália. Nem recente nem antiga, diga-se. Não há de se dar conta do que possam ter sido os ‘anos de chumbo’. Orientado por assessores improváveis, decidiu negar a extradição de signor Battisti. O detalhe singular é que a recusa foi dada a conhecer em 31 dez° 2010, último dia de seu mandato.

battisti-2O tempo passou e o Brasil esqueceu o caso. De lá pra cá, signor Battisti casou-se e tem uma filha nascida em nosso país. Nós podemos ter esquecido, mas na Itália a lembrança da decisão contestável do Lula ainda permanece viva. Volta e meia, ressurge. Semana passada, aconteceu de novo.

A revista editada pela Polícia Penitenciária italiana volta ao assunto. Até hoje, a corporação não se conforma com a impunidade do condenado pelo assassinato de um dos seus. Chegou até lá a notícia de que, com a queda de Lula, Dilma & companhia, o Brasil dava mostras de querer se reinscrever no clube das nações civilizadas. Naturalmente, estão animados.

Signor Battisti também acusou o golpe. Inquieto com a perspectiva de ter de prestar contas à Justiça de seu país, entrou com pedido de habeas corpus preventivo junto ao STF. O ministro Luís Fux repeliu a solicitação. Encorajada, a Polícia Penitenciária italiana espera agora que o asilo concedido a signor Battisti seja anulado e que o condenado seja finalmente extraditado ou, mais provavelmente, expulso do Brasil em direção ao México ou à França, países pelos quais passou nestes anos de evasão.

Já temos número mais que suficiente de bandidos nacionais. Não precisamos de condenados importados.

L’Etat c’est moi!

José Horta Manzano

Alguns dias atrás, o ultramidiático ministro Barbosa, do STF, fez mais um de seus pronunciamentos polêmicos. Demonstrou desagrado com o conluio que, segundo ele, enreda advogados e juízes.

Foi um deus nos acuda. Advogados e juízes, naturalmente, se ensombraram. Mas não só eles: qualquer cidadão minimamente recatado se insurgiria contra a fala do ministro. Não tanto pelo fundo, mas pela forma. Conluio, a palavra utilizada, traz uma carga pejorativa pra lá de pesada. É termo mais apropriado para descrever acordo entre bandidos do que acerto entre magistrados.

Mas há que ser condescendente. Quem nunca pronunciou uma palavra torta que atire a primeira pedra. Vamos ignorar o termo empregado, demasiado forte. Façamos de conta que ele tenha apontado indícios de conivência entre juízes e advogados. Fica menos excessivo. Mas… será verdade?

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Tivesse sido uma declaração vazia, fruto de um momento de mau humor, a fala de Joaquim Barbosa já teria sido esquecida. Acontece que, na edição online deste 17 de abril, o Estadão nos brinda com um artigo intrigante.

Segundo a reportagem, o ministro Fux ― também membro do Tribunal Supremo ― estaria dando sinais de envolvimento em atividades conflitantes. O artigo explica o caso tim-tim por tim-tim. Não vale a pena repetir a informação. Aqueles que porventura tenham perdido o capítulo podem atualizar-se aqui.

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Os franceses têm um ditado, frequentemente citado: «on ne peut pas être juge et partie», não se pode ser ao mesmo tempo réu e juiz. Na França, a lei proíbe expressamente que eleitos pelo povo (deputados, senadores) ou nomeados de alto escalão (ministros, por exemplo) continuem a exercer o ofício de advogado. A antiga atividade tem de ser posta entre parênteses, pelo menos enquanto durar o novo cargo do cidadão. Há conflito de interesses evidente. Não convém deixar pairar a sombra de uma suspeita sobre essas personalidades.

No Brasil, curiosamente, essa colisão potencialmente explosiva parece não preocupar muita gente. Ministros e deputados mantêm sua banca de advocacia, como se fossem cidadãos comuns. Não são.

A partir do momento em que alguém se vê investido do poder, das regalias e, sobretudo, da responsabilidade de uma função pública, deixa ipso facto de ser um cidadão como qualquer outro. Ganha direito a foro especial, a mordomias, a salário garantido pelo erário. Por outro lado, não é normal que continue envolvido com as mesmas atividades do tempo em que não estava imbuído de poder.

Se o ministro da Pesca continuar a dar aulas particulares de grego bizantino, ninguém vai se incomodar. Se o ministro da Saúde continuar a acudir seus antigos pacientes, ninguém vai tampouco achar ruim. Mas que um ministro do STF ― a instância julgadora suprema ― guarde, de perto ou de longe, ligação com a defesa deste ou daquele réu é difícil de admitir.

Print Depicting the Execution Louis XVI in 1793

Luís XIV, dizem, considerava que o Estado era ele ― «l’Etat c’est moi!». Décadas mais tarde, Luís XVI, seu descendente, terminou na guilhotina.

Não acredito que o povo brasileiro, embora entorpecido pela magistral estratégia de marketing orquestrada pelo poder central, esteja pronto para uma revolução à francesa. Cabeças dificilmente rolarão.

Decapitado foi o bom-senso, e está fazendo muita falta. O simancol, como dizíamos antigamente, anda escasso.

Será que liberou de vez? Geral?