Ser ou não ser, eis a questão

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Li estes dias o resultado de uma pesquisa realizada pelo Datafolha a respeito de como os brasileiros entendem a responsabilidade da mulher em casos de estupro. Ainda que o instituto venha enfrentando severa crise de credibilidade, o resultado não surpreende: 1 em cada 3 brasileiros acredita que a mulher vítima tem, de alguma forma, culpa pela violência sofrida, seja por se vestir de maneira provocante ou por “não se dar ao respeito”.

Por mais chocante que seja constatar que essas crenças machistas subsistem, acredito que a expressiva maioria dos estudos realizados sobre o tema até hoje conseguiu apenas tangenciar outras questões, que me parecem mais centrais do ponto de vista científico: Como se dá o desejo feminino? O desejo masculino tem o poder de deflagrar o feminino em qualquer situação? A tensão ajuda ou atrapalha na aceitação do intercurso e no atingimento do prazer? Qual é a relação entre gozo sexual e emprego de violência?

fiu-fiuA sexualidade humana comporta muitos mitos. Que a curva de excitação sexual tenha um traçado diferente no caso masculino e no feminino, é fato sabido e aceito há muito tempo. Que o estímulo visual seja mais decisivo para desencadear o desejo masculino, também. O que raramente se investiga e pouco se fala, entretanto, é sobre a capacidade “natural” que homens e mulheres têm de controlar o impulso sexual.

Em torno dessa última questão orbitam múltiplos fatores culturais, religiosos e outros relativos ao gênero propriamente dito. Ao menos no que diz respeito à cultura ocidental, a conduta feminina tende a ser sempre crivada por duas representações simbólicas presentes na tradição judaico-cristã: ou ela é Eva, a mulher ingênua, forçada a se submeter ao homem por não ter sido feita da mesma matéria-prima; ou ela é Lilith, a primeira esposa de Adão e feita do mesmo barro, a mulher-diabo, a serpente maliciosa que seduz prometendo bem-aventurança para quem ousar desrespeitar a proibição celestial e experimentar do fruto da árvore do conhecimento.

Se socialmente a mulher é tratada como legítima descendente de Eva, espera-se que ela se preserve virginal até que um laço conjugal tenha sido oficialmente reconhecido. Posteriormente, mesmo tendo jurado fidelidade eterna a um só homem, que, no mínimo, aparente recato ‒ seja em público, seja na intimidade do casal. A regra é clara e repetida à exaustão em todos os manuais de educação feminina: à mulher de César não basta ser honesta, ela tem de parecer honesta.

fiu-fiuSe, movida por ilusões de igualdade de gênero, a mulher se mostra fogosa com seu companheiro ou, pior, desejosa de novas experiências sexuais com outros parceiros, desperta imediatamente fúria, condenação social e dúvidas quase unânimes quanto à sua verdadeira natureza. Não será ela na verdade uma loba disfarçada em pele de angelical ovelha? Não terá ela manipulado o comportamento do homem, atiçando seu desejo através de posturas corporais, gestos, roupas, falas e silêncios cúmplices para depois recuar e se pretender vítima do que não pode ser controlado?

Eis um aspecto da questão da violência sexual que raramente vem à tona em estudos interculturais: afinal, o impulso sexual masculino não pode mesmo ser controlado? Em geral, no levantamento de responsabilidades, parte-se da premissa de que cabe à mulher bem-criada, de princípios morais sólidos, opor-se a investidas sexuais indesejadas. Nem sequer se discute na maior parte das vezes se a menor força física feminina seria de fato suficiente para deter um impulso considerado tão vital e tão incontrolável para o homem.

A pesquisa Datafolha vai mais longe e assinala uma outra realidade paradoxal. Apesar de homens e mulheres apresentarem porcentagens praticamente iguais (cerca de 30%) de concordância com a ideia de que a mulher é parcialmente responsável pelo estupro, elas divergem muito em outro aspecto: 85% das mulheres e 46% dos homens dizem temer ser estuprados.

fiu-fiuAí parece estar o cerne de uma questão psicológica que mereceria ser investigada mais a fundo. As perguntas que não podem ser existencialmente caladas são outras: Se eu estivesse diante de uma situação real de ameaça de estupro, resistiria ou não? Daria minha vida para defender a integridade do meu corpo e da minha alma? Se não resistisse, como explicaria para os outros e para mim mesma as circunstâncias que me levaram a fraquejar?

Indo dolorosamente mais fundo nesse questionamento, eu diria que há um outro medo ainda inexplorado. Mais profundo que o pânico dos piores pesadelos, ele atormenta em especial as mulheres (ainda que detectável também entre homens) em todas as partes do mundo: o medo de gozar durante um estupro.

Uma possibilidade terrível, sem dúvida, mas característica da imperfeita natureza humana. Uma probabilidade que não se ousa confessar nem para o próprio analista e que, no entanto, contém a chave da verdadeira liberdade psicológica, independente de gênero.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

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