Recolando os cacos

Cláudio Humberto (*)

O fim da baixaria
Diplomatas brasileiros comemoram, mundo afora, o fim da baixaria que marcou as viagens internacionais dos governos do PT.

As comitivas oficiais, de Lula ou de Dilma, tratavam os diplomatas como criados. E ainda deixavam para trás problemas para as embaixadas resolverem, como quando uma nora do ex-presidente Lula achou de meter na mala ricas toalhas e lençóis do hotel. Pagos, depois, pelo contribuinte, claro.

No exterior, a ex-presidente Dilma costumava humilhar diplomatas, referindo-se a eles com ironia até diante de próceres estrangeiros. Dilma abusava de diplomatas, como ocorreu em Londres e Oslo, ordenando até que lhe fritassem ovos caipiras, que sempre levava na bagagem.

Em hotéis de luxo, era frequente membros das comitivas presidenciais implicarem até com a mobília, exigindo sua troca. Sempre aos gritos.

rei-1As desculpas
Por orientação do presidente Michel Temer, o ministro Blairo Maggi (Agricultura) sepultou um impasse diplomático com o governo do Vietnã, que se arrastava desde 2013, provocado por uma grosseria da ex-presidente Dilma: ela cancelou de última hora uma audiência para receber Nguyen Phu Trong, herói do Vietnã e líder máximo do Partido Comunista, que veio ao Brasil sob a garantia de que seria recebido.

O episódio em Brasília representou grande humilhação para Nguyen Phu Trong e o Vietnã, que o tem como uma espécie de “semideus”. O Itamaraty divulgou a lorota de que o ex-chanceler Antonio Patriota foi a Hanoi pedir desculpas. Mas, se ele fez isso mesmo, de nada adiantou. Em visita real a Hanói, Blairo Maggi pediu desculpas e acabou homenageado por Nong Manh, sucessor de Nguyen Phu Trong.

Aliás, a situação do PT é tão ruim que faz lembrar a frase profética do saudoso jornalista Joelmir Beting, que há anos avisou: «O PT começou com presos políticos e vai terminar com políticos presos».

(*) Cláudio Humberto é jornalista. Publica coluna diária no Diário do Poder.

Pega pra cassar

José Horta Manzano

Discussão 1Já discorri, no artigo Voando baixo, sobre o constrangedor episódio protagonizado por dois eleitos do povo, um deputado e uma deputada, integrantes da Câmara Federal.

Os dois têm o que se costuma dizer ‘gênio forte’, próprio daqueles que não costumam levar desaforo pra casa. Ela provocou. Ele devolveu. Foi uma baixaria. Espetáculo deprimente.

Numa roda de amigos, numa conversa de boteco, na sala de visitas de sua própria casa, cada um tem o direito de se exceder, de dizer palavrão, de se exprimir como lhe apraz. As consequências – se houver – ficarão restritas ao círculo íntimo. Quando se é figura pública, o feitio tem de ser diferente.

A partir do momento em que a dama e o cavalheiro se candidataram e foram eleitos, seus menores fatos e gestos passaram a extravasar do âmbito pessoal para adentrar o domínio público. A dama e o cavalheiro não estão no Congresso – em princípio – defendendo seu mesquinho interesse pessoal. Funcionam ali como representantes do naco da população que os elegeu. Aureolados pela glória, nem sempre se dão conta. Mas assim é.

Deputado não é diarista nem recebe por hora. Está investido de sua função 24 horas por dia, esteja em plenário ou não. Se o distinto leitor e eu podemos cometer pequenas faltas, que ninguém é de ferro, a coisa se complica quando o autor do deslize é um eleito do povo.

Discussão 2Voltando ao caso de suas excelências Maria do Rosário e Jair Bolsonaro, devo dizer que o comportamento escrachado de ambos mostrou que nenhum dos dois está apto a exercer as funções para as quais foi eleito. Degradam ambos, ainda mais, a imagem que o povo tem do parlamento. Além da ladroagem, da desonestidade e da incapacidade, suas excelências adicionam outra característica ao arsenal dos parlamentares: a descompostura.

Quando um funcionário não funciona, o que é que se faz? Manda-se para o olho da rua. Que se casse o mandato dos dois! E que se aproveite agora, que o voto deixou de ser secreto. Já que o povo nem sempre mostra discernimento ao eleger seus representantes, que o Congresso se encarregue de autoexpurgar-se.

Paraísos fiscais

José Horta Manzano

Ladrão 2Não resta dúvida de que o assunto do momento é a divulgação da roubalheira na Petrobrás. Eleições, temos a cada dois anos, não é surpresa. A baixaria é esperada, programada e bem preparada. Xingamentos, dossiês, ameaças de processo, sopapos, contravenções eleitorais, brigas de rua, calúnias, suspeitas de fraude, tudo isso é corriqueiro e, até certo ponto, tolerado.

Mensalão, dinheiro na cueca, avenidas e túneis superfaturados, viadutos que desabam são acontecimentos ainda mais graves. Infelizmente, sua repetição vem contribuindo para atenuar-lhes o impacto. Já está pra fazer dez anos que somos sacudidos por um escândalo novo a cada semana. O resultado é que o povo anda meio indiferente, apático, blasé.

Petrobras 3Mas a dilapidação da Petrobrás supera tudo o que a imaginação mais fértil (e mais maligna) pudesse antever. Perto dessa rapinagem, mensalão é dinheiro de pinga. O desfalque é tão monstruoso que chega a eclipsar a eleição presidencial. E como é que fica?

Se novo mandato for conferido a dona Dilma, não há conserto. O máximo que se pode esperar é algum esperneio, alguma declaração indignada, e pronto: fim de papo. Se, no entanto, a oposição levar a taça, o maior favor que poderia fazer ao País seria privatizar essa empresa tentacular. É a melhor – se não a única – maneira de evitar que tragédias como a atual se repitam.

No Brasil, o nível moral e intelectual dos eleitos é cronicamente baixo. O Estado, que depende dessa gente para gerir estatais do porte de uma Petrobrás, não está em condições de fazê-lo. Essa firma gigantesca estaria melhor em mãos privadas. Alguém acredita que, se não fosse pública, a empresa pudesse ter sido alvo de gatunagem dessa importância?

Desempenho Petrobrás x grandes petroleiras Índice FTSE - Financial Times Stock Exchange

Desempenho Petrobrás x grandes petroleiras
Índice FTSE – Financial Times Stock Exchange

Certo que não. Seria firma grande e respeitada, daria emprego a milhares de funcionários e – o que é importante – pagaria o devido imposto sobre seus ganhos. Sem ter de arriscar dinheiro do povo e sem ter de se preocupar com a lucratividade da empresa, o Estado recolheria os pesados tributos que incidem sobre a prospecção de petróleo, seu refino e a venda de seus derivados. Quem perderia com isso, se não os assaltantes?

LadrãoIsso posto, sobram perguntas no ar. O afano na Petrobrás sobe à casa dos bilhões. Não são milhões, são milhares de milhões – quantia inconcebível para mortal comum que, no fim do mês, tem de fazer conta de chegar.

Na berlinda, estão um doleiro e um antigo diretor da empresa. Pressionados, propuseram devolver algumas dezenas de milhões. Mas falta explicar onde está o resto do dinheiro. Dizem que foi utilizado para a campanha eleitoral de 2010. De 2010? E por que não para a de 2014? A roubalheira parou em 2010?

Balela. Posso até acreditar que algum trocado tenha ido parar nos cofres do partido dominante. Mas ninguém me fará engolir a toada de que, além do caixa dois de campanha, ninguém se beneficiou.

Ladrão 3São bilhões, minha gente! Do dinheiro seu e do meu. A prova maior de que essa fortuna foi metodicamente remetida para o exterior é a implicação de um doleiro. Fosse o dinheiro destinado a alimentar caixa negra de partidos, não haveria necessidade da intermediação de doleiro. O grosso do butim há de estar bem guardadinho, espalhado por paraísos fiscais, em nome de empresas-fantasma, de parentes, de amigos, de laranjas.

Se um dos diretores da Petrobrás, ator coadjuvante do triste espetáculo, propôs-se a devolver sozinho 70 milhões, onde está a propina distribuída às dúzias de outros beneficiários?