Anônimos

Chamada de O Globo, 17 jun 2022

José Horta Manzano

Desde os tempos bíblicos, uma das diferenças entre o ser humano e o resto dos animais é o fato de os humanos terem nome próprio. Todos os humanos. Até esquimó e índio têm nome.

Dependendo do estágio de civilização, alguns pequenos grupos de indivíduos, por razão de viverem isolados, podem até não ter (ainda) inventado o costume de dar sobrenomes. Mas prenome, isso sim, cada pessoa tem pelo menos um.

Sempre achei inadequado tratar indivíduos desconhecidos por “anônimos”. Como é possível que haja “anônimos” numa multidão, se todos temos nome?

Numa época em que todos buscam se exprimir de modo politicamente correto, me parece desrespeitoso tratar um conjunto de pessoas que aparecem numa foto como se constituíssem uma massa informe, sem identidade e sem individualidade, contratados pra dar volume ao retrato.

Operários, obra de 1933
by Tarsila do Amaral (1886-1973), artista paulista

Ninguém jamais associou mulato à ideia de mula até o dia em que apareceu um desmancha-prazeres pra apontar a etimologia. Ninguém jamais pensou estar sendo indelicado ao chamar um índio de índio, até que ficou combinado que não pode: agora os índios viraram “povos originários”.

A lista de palavras e expressões legítimas que se tornaram impróprias está se alongando a cada dia. Minha observação sobre a impropriedade de tratar de anônimo aquele de quem simplesmente se desconhece o nome entra nessa categoria de inutilidades que só estão aí pra azucrinar.

Mas, cá entre nós, se o termo “anônimos” fosse substituído por “desconhecidos”, até que a chamada do jornal ficava mais sexy, não acha? Veja:


Cenas inéditas da Passeata dos Cem Mil mostram desconhecidos e famosos marchando contra a ditadura militar.


 

Baú de memórias ‒ 2

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Uma vez aberto, meu baú de memórias se recusa a ser fechado de novo. Desta vez, as recordações que inundam minha mente dizem respeito a uma experiência tragicômica vivida em família.

Meus avós paternos tiveram 15 filhos biológicos e adotaram outros 17. Meu avô era um rico e pacato fazendeiro de Minas Gerais e espaço não era propriamente o que faltava, nem em suas terras, nem em seu coração. Não é preciso muito esforço de imaginação, no entanto, para prever os infinitos problemas do cotidiano que ele e minha avó tiveram de administrar para cuidar de 32 filhos.

Na adolescência, como era previsível e inevitável, a convivência íntima acabou funcionando como combustível para que alguns filhos biológicos se apaixonassem por seus irmãos adotivos, ou vice-versa. Os mais determinados e rebeldes ignoraram a falta de benção do patriarca e se casaram. Logo a família crescia em ritmo exponencial.

filharada-1Quando, em 1929, explodiu o ‘crack’ da bolsa de Nova Iorque, a única saída que meus avós visualizaram para continuar mantendo com dignidade uma família tão extensa foi a de enviar os filhos mais velhos para trabalhar em São Paulo. Meu pai foi um deles. Aqui se profissionalizou e formou família. Só voltava à casa dos pais nas férias, levando consigo os 5 filhos.

Vivendo e estudando em São Paulo, eu não tinha como me manter em dia com os acontecimentos do ramo mineiro da família. Já não sabia quem tinha nascido, morrido ou casado e já não me lembrava mais quem era filho ou irmão de quem.

Certo dia, já adulta, recebi a notícia de que minha madrinha de batismo havia morrido. Como, na época, meus pais já estavam separados, minha mãe pediu que eu fosse dar a notícia a meu pai em seu novo endereço. Imaginando que o único vínculo que ligava minha madrinha a ele era o fato de ela ser casada com um tio adotivo, não me preocupei em tomar precauções especiais ao dar ciência do ocorrido. Ao ouvir a notícia, meu pai cambaleou, levou a mão ao peito como se estivesse tendo um infarto e, sem ar, disse chocado: “Você está dizendo que minha irmã morreu??”

Para meu supremo espanto, só descobri naquele segundo que ambos, minha madrinha e seu marido, eram na verdade irmãos adotivos de meu pai. Era tarde demais para fazer alguma coisa. Consolei-o como pude e o levei ao cemitério. Lá, uma multidão de parentes mineiros nos aguardava. Meu pai, ainda muito abatido, sentou-se a meu lado num banco do lado de fora da capela. Permaneceu calado a maior parte do tempo, limitando-se a me abraçar e segurar minha mão. Quando chegou a hora de fechar o caixão, ele levantou-se e perdeu-se em meio ao tumulto que se formou.

Foi quando um desconhecido se aproximou de mim e, com um ar entre curioso e lascivo, deu início a um verdadeiro interrogatório. Nome, idade, profissão, local de residência, nada escapou. Mesmo pressupondo que se tratasse de um amigo da família, eu me esquivava como podia das respostas, já que a tentativa de intimidade forçada só fazia aumentar minha irritação.

cimetiere-1Quando já me preparava para levantar e me afastar dele, veio a última pergunta que esclareceria de vez todo aquele imbróglio: “Desde quando você conhece o Oswaldo? ”. Sem entender o propósito de uma pergunta tão sem pé nem cabeça, respondi de mau humor: “Desde o dia em que nasci, oras!”. Totalmente constrangido, o rapaz abaixou a cabeça, levantou e foi embora.

Na volta para casa, perguntei se meu pai sabia quem era ele. Resumo da ópera: o jovem impertinente era um dos tantos primos que eu não conhecia. Ao testemunhar a forma afetuosa e íntima com que meu pai me tratava, ele simplesmente havia imaginado que eu fosse sua namorada atual.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.