Democracia direta ‒ 2

José Horta Manzano

Para a esmagadora maioria dos brasileiros, política é conceito vago. É feita de noções disparates que incluem eleições, regalias, títulos, roubalheiras, conchavos, discursos, acertos, malas de dinheiro. Parece-nos que política é coisa de profissionais ‒ nem sempre qualificados ‒ que decidem, entre quatro paredes, os rumos da nação. A quase totalidade da população se comporta como se fossemos todos reféns dos eleitos, sujeitos a caprichos, a conluios, a alguns poucos benfeitos e a enxurradas de malfeitos.

Não deveria ser assim. A própria Constituição determina, logo no primeiro artigo, que «todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente». O grifo é meu. Exercer o poder diretamente não se limita a bater panelas ou desfilar com faixa e bandeira uma vez de tanto em tanto. Há instrumentos mais sutis e eficazes que, por ignorância ou desleixo, são subestimados.

É o caso da SUG ‒ Sugestão Legislativa. O portal e-Cidadania, alojado no site do Senado Federal, acolhe ideias legislativas que podem ser apresentadas por qualquer cidadão. Uma vez lançada, a sugestão será publicada no site e permanecerá à disposição dos visitantes para votação. Aquelas que alcançarem, em até 120 dias, o apoio de pelo menos 20 mil pessoas serão enviadas para análise pelos senadores integrantes da Comissão de Direitos Humanos.

Uma sugestão interessante, apresentada por uma cidadã de Sergipe, está em tramitação atualmente no portal. Preconiza que seja concedido, a professores, desconto de 30% na compra de automóvel. Numa primeira análise, a ideia é generosa. De fato, em vista dos baixos salários, os profissionais do ensino se veem obrigados a exercer em diferentes escolas. Dada a precariedade do transporte público, é indispensável contar com transporte individual. Está formado o círculo vicioso: a baixa remuneração não lhes permite comprar carro; sem carro, não têm condições de se deslocar de uma escola a outra.

A meu ver, ainda que simpática, a sugestão combate o sintoma em vez de se atacar à raiz do mal. Se o professor, mal pago, é obrigado a ter dois (ou mais) empregos, a solução não será dar-lhe os meios de correr de uma escola a outra. Melhor será lutar pela valorização da profissão. No lugar de baixar o preço do automóvel, mais importante será aumentar o salário do professor.

Se o desconto no preço do veículo for concedido, quem vai arcar com a diferença? O fabricante? Certamente não. A concesionária? Que esperança… É evidente que, ao fim e ao cabo, a conta cairá no colo do contribuinte. Visto que a escola pública é financiada com o dinheiro de nossos impostos, será mais racional direcionar o gasto extra para o aumento salarial dos professores em vez de criar mais um dos milhares de nichos legislativos de que nosso país está repleto.

Enfermeiros, faxineiros, cuidadores também enfrentam o problema de trabalhar em dois empregos para conseguir sobreviver. Deve-se conceder também a eles um desconto na compra de carro? Fazer isso seria contornar o problema sem resolvê-lo. Seria conceder mais uma “bolsa família” setorial, uma solução meia-sola.

É de crer que minha visão do problema diverge da maioria dos que se dignaram manifestar no portal do Senado. Em duas semanas, até o momento em que escrevo, apesar de vivermos num país de mais de 200 milhões de habitantes, menos de 10 mil cidadãos se manifestaram. Noventa por cento deles concordam com a sugestão de conceder desconto somente aos professores. Naturalmente, cada um é livre de opinar.

Caso o distinto leitor queira se manifestar, bastam dois ou três cliques. O caminho é por aqui.

Trenzinho da alegria municipal

José Horta Manzano

A Lei de Responsabilidade Fiscal, aprovada (naturalmente) antes da era lulopetista, foi concebida com o objetivo de repor o país nos trilhos sadios da boa economia. O princípio é simples: não se gasta mais do que se tem. Para todo cidadão que gere o próprio orçamento, parece uma evidência. Para as excelências eleitas para conduzir o país, foi preciso fazer uma lei, preto no branco.

Essa lei determina que todos os municípios do país ‒ são quase 5600 ‒ devem prestar contas da arrecadação e dos gastos. No que diz respeito aos dinheiros, um município funciona como qualquer empresa. Assim, tem de apresentar balanço anual mostrando o que entrou e o que saiu para justificar o que sobrou (ou o que faltou). Prestar contas aos acionistas (= os munícipes) é obrigação básica.

A Confederação das Associações Comerciais e Empresariais do Brasil esmiuçou o assunto pra ver a quantas anda o cumprimento da lei. Descobriu que, de cada três municípios, um deixou de prestar contas do exercício de 2015 ou 2016. Quase dois mil municípios fora da lei! Se optaram por fazer cara de paisagem, alguma razão haverá. É lícito suspeitar que 1/3 dos municípios brasileiros tem algo a esconder. Primeira pergunta: que é que estão escondendo? Segunda pergunta: fica por isso mesmo?

Tem mais. Vinte por cento dos que cumpriram a obrigação de apresentar suas contas (um em cada cinco) tiveram «despesas legislativas» mais elevadas do que o total da arrecadação. O estudo não especifica o que sejam «despesas legislativas», mas o enunciado é autoexplicativo. Não inclui gastos com serviços à população.

A Constituição de 1988 é clara. O inciso VII do Art° 29 estipula que «o total da despesa com a remuneração dos vereadores não poderá ultrapassar o montante de 5% da receita do município». Ora, se milhares de municípios gastaram tudo o que tinham com «despesas legislativas», sem guardar dinheiro sequer pra trocar uma lâmpada, não é difícil concluir que a folha salarial da vereança superou amplamente a barra dos 5%.

A coisa vai mais longe. Algumas cidades fornecem mimos extras aos vereadores: automóvel, quota de combustível, auxílio-paletó(?!), adicionais por presença nas sessões. Adicional por presença? É rematada aberração. Esse pessoal é pago justamente para comparecer às sessões e participar dos debates. O que deveriam era sofrer desconto por faltar a alguma sessão. Funcionário que falta tem desconto no salário. Com maior razão será punido o edil, justamente por representar centenas ou milhares de ausentes.

Acertadamente, o estudo lembra que, em numerosas cidades do mundo civilizado, a função de conselheiro municipal é uma honra concedida a cidadãos de reconhecido bom senso. Há cidades importantes que simplesmente não remuneram seus vereadores. Há outras que lhes concedem nada mais que retribuição simbólica de poucas centenas de reais por mês.

Depois da atual Operação Lava-Jatão, ainda vamos precisar de muitas Lava-Jatinhos. Muita cadeia ainda vai ter de ser construída. Do jeito que a coisa vai, os sucessores dos sucessores dos sucessores dos atuais ministros do STF ainda estarão lidando com denúncias de rapinas. «Pede pœna claudo» ‒ o castigo chega mancando. Pode demorar, mas um dia acaba chegando. Mais rápido se pega um mentiroso que um coxo.

Pobre Messi

José Horta Manzano

A Fifa anunciou ontem que Señor Lionel Messi, jogador argentino de futebol, foi punido por desrespeito ao artigo 57 do Código Disciplinar daquela entidade. Em jogo entre o Chile e a Argentina, contando pela classificação para a Copa de 2018, o hábil esportista «pronunciou palavras injuriosas contra um árbitro assistente». Supõe-se que a injúria tenha sido dirigida à mãe do árbitro, mas o comunicado da Fifa não esclarece esse particular.

A sanção é dupla. Por um lado, señor Messi está proibido de atuar nos quatro próximos jogos da Seleção de seu país. Por outro, terá de desembolsar uma multa de dez mil francos suíços (pouco mais de nove mil euros). O esportista deve estar dando pulos de alegria.

Lionel Messi e Cristiano Ronaldo

Por quê? Ora, distinto leitor, raciocinemos. A edição de ontem de France Football informa o ganho dos jogadores mais bem pagos na temporada 2016-2017. Pela primeira vez em cinco anos, Messi não foi o campeão ‒ perdeu a taça para Cristiano Ronaldo. O português levou pra casa 87,5 milhões de euros enquanto o argentino teve de se contentar com 76,5 milhões (cerca de 260 milhões de reais), uma ninharia. A multa da Fifa não há de lhe pesar muito.

É sabido que essas fortunas abocanhadas por jogadores provêm do salário e são engordadas pela receita publicitária. Quatro jogos de suspensão no «Seleccionado» não fazem grande diferença. Ou melhor, fazem diferença, sim: dão ao jogador «punido» excelente pretexto para gozar de alguns dias de férias.

Fiquei com muita pena do talentoso argentino.

A quem interessar possa
Na lista de France Football, o terceiro lugar na classificação dos mais bem pagos coube ao brasileiro Neymar. Esta temporada, o jovem terá de se contentar com 55,5 milhões de euros (cerca de 190 milhões de reais). Uma miséria.

Quanto ganha um parlamentar suíço?

José Horta Manzano

Você sabia?

Faz semanas que a França vive mergulhada num escândalo político. Cá entre nós, os franceses simplesmente a-do-ram escândalos políticos. Se houver uma pitada de sexo, então, os cidadãos chegarão ao clímax. Que se recorde o caso de DSK (Dominique Strauss-Kahn), aquele figurão francês que, quando diretor do FMI, foi acusado de estuprar uma camareira num hotel chique de Nova York. O homem pegou cadeia, prisão domiciliar com tornozeleira, pagou uma fortuna para escapar a processo por indenização. Para completar, seu casamento foi por água abaixo. O homem ainda perdeu o emprego e disse adeus a qualquer futuro político.

O escândalo atual é de proporções bem mais modestas. Descobriu-se que Monsieur François Fillon, forte candidato às eleições presidenciais de maio próximo, fez mau uso de dinheiro público nos anos em que foi senador. Um jornal satírico dedurou. Naquela época, o hoje candidato empregou esposa e filhos como assessores. Foram pagos com dinheiro público durante anos. A revelação não podia vir em momento pior, quando todos já pressentiam em Monsieur Fillon o próximo presidente da França. Depois das acusações, suas chances desmilinguiram.

Conseil Fédéral (Câmara Federal), Berna, Suíça

Conseil Fédéral (Câmara Federal), Berna, Suíça

Na Suíça, em virtude da proximidade geográfica e linguística, os acontecimentos da França costumam ser acompanhados com atenção. Ficou-se a imaginar se seria possível acontecer algo parecido por aqui. A resposta é simples: não, as regras rigorosas e claras não teriam permitido. Eleitos não podem dar emprego assim, a torto e a direito, a quem bem entendem. Tudo está previsto.

A remuneração anual de um conselheiro nacional (que equivale a um deputado federal brasileiro) compõe-se de 5 itens(*):

1)  26.000 = Salário de base
2)  41.000 = Jetons de presença
3)  33.000 = Gastos com assessores e material
4)  20.000 = Gastos com alimentação e hospedagem
5)   6.300 = Gastos com transporte
   126.300 = Total anual (cerca de 10 mil/mês)

Esse total é uma média. Caso o eleito deixe alguma vez de marcar presença no parlamento, perderá 440 francos por sessão. Os outros itens são fixos. Não há outras regalias. Ninguém tem carro à disposição, muito menos motorista ou guarda-costas. Plano de saúde? Nem pensar. Tampouco existe a noção de «apartamento funcional»: as despesas de hospedagem já estão cobertas pelo item 4.

E se o parlamentar não quiser ter assessor nenhum? Pouco importa. O montante do item 3 será pago de qualquer maneira. Caso o salário de eventuais assessores exceda 33 mil francos anuais, o parlamentar terá de pagar a diferença do próprio bolso.

Pronto, o problema está resolvido. Um escândalo no estilo do que envolve o candidato à presidência da França não pode acontecer na Suíça. As coisas são claras: parlamentares ‒ que são pagos com dinheiro do contribuinte ‒ têm de andar na linha.

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(*) Em francos suíços. Nos tempos atuais, a diferença entre franco, euro e dólar é tão pequena que não vale a pena entrar nos detalhes. Os montantes altos justificam-se pelo fato de o custo de vida na Suíça ser elevadíssimo.

Prendam o mensageiro

José Horta Manzano

Dizem que o moço é excelente jogador. Embora eu aprecie o esporte que um dia quase se chamou «ludopédio», não sou especialista. Mas o astro há de ser realmente muito bom de bola, visto que está contratado por um dos clubes mais prestigiosos da Europa e que seu passe vale milhões.

Chamada do Estadão, 28 set° 2016

Chamada do Estadão, 28 set° 2016

Saiu a notícia de que está processando o Estado brasileiro. Reclama que o processo por fraude fiscal movido atualmente contra ele sofreu vazamentos indevidos. Pode até ser. Notei, no entanto, uma particularidade. Reparem que o esportista não se atraca com a Justiça, preferindo dirigir sua cólera contra o fato de a informação ter sido dada a conhecer ao grande público. É como quem dissesse: «Não discuto culpabilidade, só não quero que fiquem sabendo.» É compreensível e acho que entendi o porquê.

neymar-2Ninguém, em sã consciência, procura confusão, certo? Isso vale para todos, inclusive ‒ e especialmente ‒ para clubes de futebol. É fácil entender. Jogador problemático periga ver o valor de seu passe desmilinguir. E o salário idem. Elementos indisciplinados, teimosos, difíceis de gerir, orgulhosos, agitadores são descartados. Fraudadores da Receita e gente enrolada com o fisco são também olhados com desconfiança. Qual é o clube que desembolsaria dezenas de milhões de euros para comprar o passe de um indivíduo que amanhã, sabe-se lá, pode até ser despachado para o xilindró?

Atacar-se ao mensageiro para desviar a atenção da mensagem é tática pra lá de difundida no Brasil atual. Mas estes tempos de Lava a Jato têm demonstrado que, por mais rico e famoso que seja o acusado, ninguém está acima da lei comum. Pelo menos, é o que diz a Constituição.

Frase do dia — 275

«Em seis minutos, quando você houver terminado de ler este texto, 12 brasileiros terão perdido o seu emprego: dois a cada minuto. Será difícil achar outro. Quem encontrar dificilmente será com um salário semelhante.»

José Nêumanne Pinto, escritor e jornalista, em artigo publicado no Estadão de 2 nov° 2015.

O sal e o salário

José Horta Manzano

Em São Paulo, professores em greve despejaram sacos de sal em frente ao prédio da Secretaria da Educação. O simbolismo, ligado ao pedido de aumento de ordenado, é claro: a palavra salário deriva de sal.

Até aí, poderia até ser engraçado. Parece menos agressivo do que o vandalismo cometido semana passada. Naquela ocasião, tentaram arrebentar, com um aríete, a porta do venerando prédio de 1894, obra do arquiteto Francisco de Paula Ramos de Azevedo – o mesmo que concebeu o Theatro Mvnicipal.

Manif 16Foi menos violento, sem dúvida, mas nem por isso mais civilizado. Na ânsia de defender seus interesses, manifestantes pouco estão se lixando para eventuais vítimas colaterais de seus atos.

Terminada a passeata, vão pra casa descansar. É aí que entra em cena a figura humilde do limpador de rua que, nesse dia, terá trabalho extra. Sem aumento de salário, por mais que haja sal a varrer.

Tem mais. Os tempos são de penúria hídrica, nome eufemístico para o que se costumava chamar seca. Em tempos de seca braba, até água de reúso entrou em pauta. As toneladas de sal derramadas na cidade entrarão pelos bueiros, passarão pela canalização de esgoto e, fatalmente, se somarão aos outros agentes poluentes para piorar a qualidade da água de rios e reservatórios. É tiro no pé, atitude imbecil.

Secretaria da Educação, São Paulo Prédio projetado por Ramos de Azevedo e inaugurado em 1894

Secretaria da Educação, São Paulo
Prédio projetado por Ramos de Azevedo e inaugurado em 1894

Professor é figura importante. A criança tende a ver nele uma referência. Todos nós guardamos lembrança dos mestres que nos guiaram os primeiros passos fora do ambiente caseiro. A gente costuma guardar memória mais viva daquele (ou daquela) que nos ensinou as primeiras letras do que dos muitos que vieram mais tarde.

Professor que participa de depredação de bem público – ou mesmo aquele que apenas aplaude passivamente – está traindo a função que deveria exercer na sociedade. Toda a categoria docente deveria pensar duas vezes antes de se associar a manifestações em que reina a incivilidade. Pega mal pra caramba.

Quem quer ser prefeito?

José Horta Manzano

Você sabia?

Estes dias, a França está elegendo prefeitos e vereadores (chamados conselheiros municipais). São dois turnos de votação espaçados por uma semana. Os candidatos que obtiverem pelo menos 10% dos votos passam ao segundo turno.

São muitas prefeituras. Em consequência do lento crescimento populacional ao longo dos séculos, o país conta com quase 37 mil municípios, a grande maioria com menos de 1000 habitantes.

Esses pequenos municípios são constituídos por casarios que datam da Idade Média, época em que cada povoado se bastava a si mesmo. Cada um sobrevivia com o que produzia. Eventos importantes eram as feiras, momento em que mercadorias eram trocadas ― cada vilarejo vinha vender seu excedente e buscar aquilo que não tinha condições de produzir.

Só para efeito de comparação, o Brasil, com 200 milhões de habitantes, está composto por menos de 5600 municípios. Isso indica a existência de ilhas densamente povoadas cercadas por desertos populacionais. Na Europa, diferentemente, a ocupação do solo é pulverizada.Prefeito francês

Estas eleições francesas trouxeram uma curiosidade dificilmente imaginável no Brasil. Alguns pequenos municípios não têm nenhum candidato disposto a assumir a prefeitura. São 64 vilarejos onde está claro que ninguém quer saber de encrenca.

Cargo de prefeito de vilazinha dá muito trabalho. Além disso, o rendimento é pequeno demais. O eleito terá de cuidar de tudo, ouvir reclamações, servir de árbitro em conflitos de vizinhança, tudo isso sem deixar de exercer sua profissão, que seu ordenado não será suficiente para sobreviver.

Salário de chefe do executivo municipal na França é fixado por lei nacional e varia conforme o número de habitantes do lugar. Num vilarejo de 500 habitantes, o salário bruto será de 646 euros. Se o município abrigar entre 500 e 1000 habitantes, passa a 1178 euros.

Levando em conta que o salário mínimo nacional é de 1445 euros brutos, ordenado de prefeito de cidadezinha é realmente uma merreca. Por sinal, nem a paga de prefeito de cidade grande ― de mais de 100 mil habitantes ― é fabulosa: não chega a 4 salários mínimos.

Passada a votação, os municípios que ficarem órfãos de prefeito serão governados por um interventor nomeado pelo poder central. Até a próxima eleição.

Helvetismos 2

José Horta Manzano

Você sabia?

Prisão suíça
Quase três meses atrás, eu lhes informava que prisioneiros do Centro de Detenção de Genebra haviam prestado queixa por tratamento desumano. A superfície das celas dividida pelo número de ocupantes dava, em alguns casos, 3,84m2 por inquilino, quando as normas internacionais estipulam um espaço mínimo de 4m2 por pessoa.

A denúncia havia sido aceita e, em Primeira Instância, os requerentes tiveram ganho de causa. Mas o Ministério Público entrou com recurso. A causa foi para a Segunda Instância, que aceitou a incumbência de rejulgá-la.

Cadeia

Cadeia

O Tribunal de Justiça, a instância superior, embora reconhecendo que as condições de detenção são, de fato, difíceis, considerou que elas não chegam a violar o espírito da Convenção Europeia dos Direitos Humanos (CEDH). Negou provimento e anulou o julgamento da instância inferior.

Portanto, os suplicantes podem dizer adeus à indenização pela qual ansiavam e vão ter de se conformar em viver com 0,16m2 de espaço a menos.

Por enquanto, pelo menos. Ainda cabe recurso ao Tribunal Fédéral, o STF suíço. Mas é uma medida que engendra custas e custo elevados ― advogados, neste país, cobram honorários de arruinar qualquer cristão. Só costuma apelar para o supremo quem tem razoável dose de certeza de obter ganho de causa.

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Policial suíço
Embora haja pequenas variações de uma região a outra, a formação de um agente policial suíço é estruturada de maneira bastante uniforme. Para poder prestar o exame de admissão à Escola de Polícia, o candidato tem de ser titular de um diploma profissional ― pouco importa de que profissão seja. O certificado que se recebe ao final da escola média, aquela que se termina pelos 18 anos de idade, também pode ser aceito. Cabe à Escola de Polícia julgar caso por caso.

Se for aceito, o candidato poderá prestar o exame de admissão. Parece que não é moleza. Há até cursinhos preparatórios para as provas. Se conseguir vencer essa etapa, o postulante seguirá um curso de um ano em período integral. Durante esse ano, dado que não poderá trabalhar, receberá um salário bruto de 4’000 francos (= 9’500 reais), remuneração correspondente ao grau de aspirante.

Polícia suíça

Polícia suíça

As matérias principais do curso são:

Direito penal e Código de processo penal
Código de processo civil
Defesa pessoal
Policiamento de proximidade
Psicologia
Ética profissional e Direitos Humanos
Lutas marciais, corrida a pé, natação, esportes
Conhecimentos gerais

Terminado o curso, o aspirante ainda tem de ser aprovado no exame final. Se passar, seu salário inicial será de 6’100 francos (= 14’500 reais). De 5 em 5 anos receberá aumento por tempo de serviço. A partir do vigésimo ano, chegará ao topo da carreira e atingirá salário de 9’000 francos (= 21’500 reais). O 13° salário não é obrigatório na Suíça. Algumas empresas o adotaram, outras não. A Polícia, generosa, paga esse benefício a seus membros.

Por aqui, caro leitor, nem sonhe em oferecer «um cafezinho» a um policial para se livrar de uma multa. Não vai funcionar e você pode se estrepar.

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No Brasil, para combater a praga da corrupção policial não há outro meio: o salário tem de ser pra lá de atraente. O maior receio de todo policial tem de ser o de perder o emprego. E ele tem de estar ciente de que um cafezinho ou uma cervejinha podem render-lhe expulsão sumária da corporação.

Com políticos, é um pouco mais complicado.

Miscelânea 07

José Horta Manzano

Briga de bandido

Certas coisas são tão notórias e evidentes, que não precisam mais ser mencionadas. Pelo contrário: mais vale fingir que não existem e mudar de capítulo.

A Folha de São Paulo nos relata a continuação da encrenca ligada a falcatruas em licitações para o metrô de São Paulo. Conforme já comentamos neste blogue três semanas atrás, a Siemens andou botando a boca no trombone para denunciar que foi passada pra trás em alguma dessas concorrências viciadas.

Note-se que o gigantesco complexo industrial, maior empregador privado da Alemanha, está implantado no Brasil há mais de um século, desde 1905. De repente, em 2013, se dão conta de que falta lisura às licitações para serviços públicos.

Caminhão Siemens

Caminhão Siemens

Isso parece mais briga de bandido, despeito de concorrente passado pra trás.

Aqui entre nós, que ninguém nos ouça: a Siemens, como outras grandes empresas alemãs, é acusada de ter colaborado com o regime nazista. Pior que isso, afirmam alguns que se serviu de mão de obra escrava durante a Segunda Guerra.

Se assim for ― e é bem provável que tenha sido ― temos aí um excelente exemplo do roto falando do rasgado.

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O roto pelo rasgado

Reportagem do Estadão, assinada por Fernando Gallo, informa que o governador de São Paulo efetuou uma substituição na chefia do Arquivo Público do Estado. Dispensou o antigo titular, afiliado ao PT. Em seu lugar, empoleirou um afiliado ao PSDB.

Desconheço a qualificação tanto do recém-demitido quanto do recém-admitido. O que me parece lamentável é que a direção do órgão técnico encarregado de zelar por nossa parca memória histórica seja tratado com tal leviandade.

Arquivo público não é sinecura de que se valham os governantes de turno para mimosear amigos e correligionários.

Só falta o governador de São Paulo se sair com a mesma justificativa usada por nosso inefável ex-presidente: se todos fazem assim, por que não eu?

Quando se pretende dar lições de moral aos outros, mais vale andar na linha. O governador está cobrindo sua casa com telhas de vidro.

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Rasgou a fantasia

Encantaram-se todos com a notícia de que o prefeito de um município do interior paulista havia renunciado ao mandato por «descobrir» que o salário era insuficiente. Todos aplaudiram, acharam maravilhoso que um cidadão recusasse a se vergar à corrupção para aumentar seus ganhos.

Quanto a mim, fico aqui meio cismado. Por que, diabos, esse senhor esperou tanto tempo para rasgar a fantasia? É médico de formação, portanto, supõe-se que conheça as operações básicas e que esteja capacitado a agir dentro de um mínimo de coerência.

Ajuda financeira

Prefeito honesto

Com que então, o digníssimo senhor prefeito não se preocupou com o salário da função antes de se candidatar? E por que terá esperado quase um ano para renunciar? Esperava conseguir, uma vez eleito, algum «favor especial» que, no final, não lhe foi concedido? Será que não passou pela cabeça do digníssimo prefeito que sua renúncia está causando transtorno aos quase 20 mil habitantes do município, cidadãos estes que não são obrigados a aturar seus saltos de humor?

De gente assim prefiro manter distância. Quando se assume uma responsabilidade, vai-se até o fim. O ato cometido por esse senhor é por demais leviano para meu gosto.

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