Voz ativa

José Horta Manzano

Faz três dias, o Planalto emitiu uma nota. Deu conta de um ato que é, sem dúvida, o mais sensato, até esta data, do recém-inaugurado governo: foi designado o porta-voz oficial da Presidência.

Depois de quinze dias cacofônicos, uma voz credenciada vai pôr fim a essa sensação de casa de mãe joana, onde todos gritam e ninguém se entende. Não se dará mais importância se alguém ousar vociferar que meninos vestem azul ou que sapos não se vestem. Somente a voz oficial do governo fará fé.

by Tom Toro, desenhista americano

Falta recomendar aos Bolsonaros juniores que se abstenham de bagunçar o coreto. Compreende-se que seja impossível calá-los, afinal os três são eleitos do povo. Será importante, pelo menos, que abandonem o mau hábito de pôr o verbo na primeira pessoa do plural. No singular, já estará de bom tamanho.

Pega mal referir-se à Presidência com expressões como «nós queremos», «nós decidimos» ou «nós faremos». O povo gostaria de manter a ilusão de que quem decide é o presidente, sozinho, sentado em seu despacho. E não um quadrunvirato reunido em torno da mesa da cozinha.

Lorenzoni e a Mata Atlântica

José Horta Manzano

Doutor Bolsonaro precisa nomear, com urgência, um porta-voz. Ainda deslumbrado pelo sucesso nas urnas, o entourage do presidente eleito tem ido ao pote com muita sede e já dá sinais inquietantes de embriaguez. A vaidade de quem se vê de súbito num palco iluminado está contaminando a fala do primeiro círculo e poluindo a comunicação.

O doutor tem de mostrar quem é que manda no barraco. Entre o general vice, o primeiro-filho, o ministro da Justiça designado e o coordenador-geral da transição, reina a cacofonia. Não se passam dois dias sem que um deles dê declaração-bomba, daquelas que fazem a delícia da imprensa e semeiam desconforto na população.

BR18 – Estadão
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A mais recente vem de doutor Lorenzoni, importante peça no tabuleiro, atual coordenador da transição de governo. Em declaração dada ontem, passou um pito nos noruegueses e incitou-os a «aprender com o Brasil». A briga é com ONGs ambientais que cuidam da floresta tropical. Irritado, doutor Lorenzoni acusou a Noruega de não ter preservado suas florestas, enquanto o Brasil «preservou a Europa inteira, mais cinco Noruegas».

Mata Atlântica em 1500 e atualmente: restam 8%
crédito: planetabiologia.com

Melhor seria se tivesse guardado a língua no bolso. Falar sabendo é uma coisa, falar sem saber e ainda de modo debochado é o fim da picada. Aqui acima, está um mapa da Mata Atlântica. Compara a floresta que os primeiros europeus encontraram em 1500 com o que resta atualmente. Conseguimos aniquilar 92% da cobertura. Isso é que é preservação!

Aqui abaixo vai um mapa da cobertura florestal da Europa atualmente. É fácil constatar que os países escandinavos ‒ Noruega incluída ‒ são justamente os mais verdes, os que melhor preservaram suas florestas.

Europa: cobertura florestal
crédito: jakubmarian.com

O falatório no seio da equipe de doutor Bolsonaro está ensurdecedor. O fato de falarem todos ao mesmo tempo já é irritante. Se, além de falarem junto, ainda proferem besteiras, é caso de polícia.

A palavra alheia

José Horta Manzano

Quando a aparência física de um ator está bastante próxima do personagem que ele representa, os franceses dizem que o artista tem «le physique du rôle» ‒ o físico do papel.

Não tive o prazer de conhecer o novo porta-voz do governo, mas posso, desde já, constatar que ele tem «le nom du rôle» ‒ o sobrenome adequado para o papel que deve exercer. Para quem tem por função carregar a palavra alheia no bolso do paletó, difícil será encontrar nome mais apropriado.

Chamada do Estadão, 28 set° 2016

Chamada do Estadão, 28 set° 2016

Parola é a forma moderna que os italianos usam para dizer palavra. Parole (francês) e paraula (catalão) são irmãs gêmeas. Todos correspondem ao latim clássico parabola, que desembocou, na Idade Média, no verbo parabolare, enquanto o latim clássico preferia loqui.

As duas formas foram produtivas em português. Loqui deu locução, locutor, eloquente, colóquio e tantas outras. Parabolare acabou gerando palavra, parlamento, parlatório, palra. Também é raiz de nosso falar.

Votos de sucesso ao senhor Parola, o bem nomeado!

Interligne 18h

PS: Ter um senhor Parola como porta-voz corresponde a ter um hipotético senhor Leão como fiscal da Receita.