Menos médicos

José Horta Manzano

Nesse Programa Mais Médicos, desde que começaram a ser importados profissionais cubanos, dois pontos me incomodaram. Por um lado, o fato de os médicos vindos de Cuba receberem apenas 25% do salário que o governo brasileiro lhes destina, indo o resto para engordar o Estado de Cuba. Por outro, o fato de esses profissionais estarem dispensados de fazer reconhecer seu diploma pelas autoridades brasileiras.

Naqueles tempos pesados em que a confusa doutora Rousseff dava as cartas, esse arreglo bizarro firmado entre Brasília e Havana passou batido. Como se sabe, no entanto, o que nasce torto acaba dando problema mais tarde. E o mais tarde chegou. Varrido o PT do poder e findo o governo transitório de doutor Temer, começa o longo e difícil trabalho de correção do foco da política externa brasileira.

Desde que Lula da Silva assumiu a presidência pela primeira vez, 16 anos se passaram. É muito tempo de descaminho. A reaprumação da conduta dos negócios vai levar tempo e exigir tato e tenacidade. Não convém torcer com violência o timão, que é para o barco não soçobrar. Suave, mas firmemente ‒ eis como o capitão deve agir.

Numa dessas falas que doutor Bolsonaro devia guardar para o círculo íntimo em vez de publicar nas redes, ele se mostrou inconformado com duas distorções do Mais Médicos ‒ as mesmas que incomodam a mim e a muita gente. Dispensar os médicos cubanos de se submeter ao Revalida foi perigosa anomalia. Confiscar ¾ do salário deles os fez cair na servidão.

Porto de Mariel, Cuba

O presidente eleito deveria ter agido com mais cautela. Mas tato, francamente, não é traço marcante de sua personalidade. Disse o que disse e deixou que a fala se espalhasse. A reação veio a cavalo. Sentindo que estava na iminência de passar pelo vexame de ver seus médicos expulsos do Brasil, o regime de Havana tomou a dianteira e convocou-os de volta à base.

O resultado, para o Brasil, não é bom. Em primeiro lugar, doutor Bolsonaro devia ter-se dado conta de que nem todos os brasileiros têm a chance que ele teve de ser atendidos como ele foi, com pompa e circunstância, num dos maiores hospitais do país. A saúde de muitos brasileiros depende da presença de um médico estrangeiro nas brenhas esquecidas de nosso território. Além disso, há um nó pecuniário. Cuba deve muito dinheiro ao Brasil. Considerando só o porto de Mariel, construído com empréstimo do BNDES, a dívida está ainda na casa dos 600 milhões de dólares (2,3 bilhões de reais).

A debandada de oito mil médicos periga entravar a cobrança da dívida cubana. São dois fatores conjugados que doutor Bolsonaro devia ter levado em conta antes de praguejar. Do jeito que vai, forte contingente da população vai sofrer com a falta de médico. Por seu lado, o BNDES vai ficar chupando o dedo à espera de pagamentos de Havana.

Com essa afoiteza, o presidente eleito se iguala a seus predecessores, Lula da Silva e doutora Rousseff. A dupla petista usou nosso dinheiro pra confortar a ditadura dos bondosos irmãos Castro. Doutor Bolsonaro está desperdiçando nosso dinheiro pra acalentar a própria vaidade. Para um presidente que acaba de chegar, foi mal.

De guayabera

José Horta Manzano

Continuo intrigado com o fato de alguns analistas de projeção nacional ainda parecerem receosos de que o Lula se candidate em 2018 e ‒ pior ainda ‒ que volte à presidência da República. É insensato. Senão, vejamos.

O discreto Instituto Paraná Pesquisas, que não é conhecido por estar particularmente chegado a nenhum partido ou movimento político, publicou, duas semanas atrás, sondagem que constatava que 62% dos entrevistados achavam que o Lula devia ir preso. Isso foi antes da sentença condenatória do Tribunal Federal de Curitiba.

Em pesquisa mais recente, saída do forno este fim de semana, o mesmo instituto informa que 65,5% dos eleitores consideram que o ex-presidente recebeu sentença justa. Não ficou claro se os demais teriam sido mais clementes ou, quem sabe, até mais impiedosos. Resumo da ópera: dois em cada três brasileiros descartam o antigo operário. Recusam-se a votar nele.

De guayabera

O homem é, visivelmente, carta fora do baralho eleitoral. Se um diminuto grupo de fiéis ainda o acompanha, não será por cegueira ideológica, mas por cálculo político. No desespero, náufragos costumam abraçar-se a qualquer tronco que ainda dê a aparência de flutuar.

Prova disso é a «Emenda Lula», proposta por um deputado federal, visando a impedir a prisão de candidatos a postos eletivos a partir de oito meses(!) antes da eleição. A proposta silencia sobre o que acontecerá caso os candidatos ameaçados de encarceramento não se consigam eleger. De fato, não se pode garantir blindagem a derrotados. Passado o dia da votação, a vulnerabilidade de cada um deles volta. É da vida.

Em artigo publicado no Estadão deste domingo, a excelente analista Vera Magalhães compara os últimos seguidores do guia a adeptos de seita radical subjugados pela devoção incondicional ao guru, pessoas que se recusam a aceitar que o cenário mudou.

Quando um acusado se encontra na situaçao em que está o guia caído, mais inteligente seria eclipsar-se e recolher-se à humildade. Ameaçar, atacar, vituperar não é boa estratégia. Vociferar contra a mídia, o Ministério Público, a magistratura é péssima escolha: só serve para acirrar ânimos e reforçar antipatias.

Guayabera para todos

Que ninguém se engane. Se a situação do ex-presidente já é complicada, tende a tornar-se insuportável à medida que novas condenações forem aparecendo. Com ou sem a extravagante emenda, ele não será mais eleito para a presidência. Se quiser efetivamente escapar à prisão, há caminho mais promissor.

Um pedido de asilo apresentado ao governo cubano tem todas as chances de ser aceito. Mr. Trump, que já se mostrou contrário a toda aproximação com a ilha caribenha, foi eleito por quatro anos. Não será surpreendente que, em seguida, seja reeleito. Nosso guia, que completa 72 primaveras este ano, terá assim oito anos de tranquilidade nas cercanias de Havana. Basta comprar um par de guayaberas (ou de abrigos Adidas, conforme o gosto), e pronto.

De seu exílio dourado, ele poderá continuar esbravejando contra tudo e contra todos. Passados os anos de autoexílio, terá direito ao indulto humanitário que nossa benevolente justiça costuma conceder a anciãos, por mais graves que tenham sido seus crimes. E voltará, tranquilo, para viver um ocaso dourado num sítio cedido por algum dos últimos fiéis.

Menos médicos

José Horta Manzano0-Sigismeno 1

Estava conversando com meu amigo Sigismeno. Pra variar, o bate-papo era sobre as últimas peripécias da movimentada política nacional. Perguntei eu:

‒ Você viu, Sigismeno, essa decisão que Cuba tomou no âmbito do programa de mais médicos?

‒ Não, essa me escapou. O que foi mesmo?

‒ Pois estavam para enviar uma leva de 700 médicos, dentro do acordo firmado nos governos lulopetistas, quando, de repente, a viagem do pessoal foi bloqueada. E não foi por falta de avião. Parece que não virão mais médicos cubanos. Por aqui, alguns aplaudem a medida, outros não.

‒ E qual a razão da suspensão de envio de profissionais? Informaram?

‒ Olhe, Sigismeno, se entendi bem, 88 dos médicos já enviados ao Brasil entraram na Justiça com pedido para permanecer em nosso território. Não querem saber de voltar para a ilha de origem. Miséria por miséria, preferem a nossa. Para estancar a hemorragia e minorar o vexame, Havana prefere não mandar mais médico nenhum.

‒ E você acredita que a razão seja realmente essa?

‒ É o que a mídia noticiou, Sigismeno. Que eu saiba, ninguém pôs a afirmação em dúvida.

‒ Pois então, me dá muito orgulho ser o primeiro.

‒ Ah, você não tem jeito, Sigismeno. Sempre em desacordo com a maioria. E qual seria, segundo você a razão da súbita suspensão do programa?

‒ Bom, vamos fazer um rápido ‘flashback’. Faz alguns anos, assim que esse envio de médicos foi anunciado, eu já desconfiei que aí tinha coisa meio obscura. Aliás, se não me engano, comentei com você.

‒ Tem razão. Você ficou encafifado com o fato de os médicos não receberem o salário integral na conta bancária como todo assalariado.

‒ Pois é. Na época, o trato era remunerar os profissionais com dez mil reais mensais, o que me parecia um salário correto. O chato é que o médico só recebia três mil, sendo o resto confiscado e enviado diretamente ao governo cubano.

‒ É, era isso. Mas onde é mesmo que você viu problema?

‒ Sabendo que o lulopetismo não é composto de gente «boazinha», cujo desejo profundo é ajudar o sofrido povo cubano, concluí que a dinheirama enviada a Cuba havia de ter outro destino. Desde o começo, me pareceu claro que, daquela bolada, uma parte engordava as caixas do partidão caribenho e outra parte… voltava em malas, malotes e até cuecas.

‒ Ah, é verdade, Sigismeno! Agora me lembro da sua reflexão. Mas o que tem de ver a sua desconfiança com o que está acontecendo agora?

‒ Ora, me parece a consequência lógica da mudança de governo no Brasil. Se o vaivém financeiro funcionou enquanto duraram os governos “amigos”, a engrenagem engripou assim que caíram em desgraça. Depois de impeachment, Lava a Jato, Moro, Lista de Fachin e que tais, o circuito se rompeu.

‒ E por quê?

‒ Ah, não me peça detalhes. Não tenho espiões nem microfones ocultos no Planalto. A verdade é que o círculo não circula mais, se assim me posso exprimir. Talvez a gente não esteja conseguindo enxergar a razão justamente por ela ser simples e evidente: os principais atores da tragicomédia estão presos ou na iminência de sê-lo. Preferem não agravar a própria situação.

Ministra tagarela

José Horta Manzano

Em 1792, no turbilhão da revolução, a França cometeu o irreparável: guilhotinou o rei Luís XVI. Nem a rainha escapou. Por mais que tivesse sido leviano e pouco sensível aos reclamos do povo, o monarca vivia e agia conforme as regras de seu tempo. Se não foi um pioneiro das reformas e da modernização do país, tampouco se comportou pior que seus antecessores. Destituí-lo e afastá-lo da coisa pública ‒ como fizeram, um século mais tarde, com D. Pedro II ‒ já estaria de bom tamanho. Condenar Luís XVI à guilhotina foi rematado exagero.

Costuma-se dizer que os franceses se desvencilharam do rei mas guardaram a monarquia. Embora pareçam excessivas, essas palavras não estão longe da realidade. A pompa e os ouros dos palácios parisienses que abrigam as principais instituições são a parte visível. Em meio a brocados, cortinas, tapetes, mármores, lustres, quadros e tapeçarias, paira a nostalgia da realeza.

Palácio de Versailles - Salão dos espelhos

Palácio de Versailles – Salão dos espelhos

O detalhismo protocolar deixa patente, ainda hoje, que o rei se foi, mas ritos e salamaleques continuam. Um banquete preparado duzentos anos atrás no Palácio de Versalhes não era muito diferente das recepções que se oferecem hoje a visitantes estrangeiros importantes. Nesse aspecto, o presidente da República apenas substituiu o rei ‒ o ambiente pouco mudou. Fica a impressão de que os franceses procuram, há dois séculos, se redimir do momento de loucura que os levou ao regicídio.

A rigidez da posição de cada membro do governo no organograma é reminiscência do ancien régime. A fixidez das regras lembra o estatuto de cada antigo cortesão. Nas altas esferas do Estado, a tradição é seguida à risca. O presidente, como nos tempos do rei, tem carta branca não só para escolher ministros e assessores mas para determinar a posição hierárquica de cada um.

Madame Ségolène Royal

Madame Ségolène Royal

Uns são mais iguais que outros. O número um do governo é, naturalmente, o primeiro-ministro. A partir daí, o chefe de Estado é livre para estabelecer, à sua guisa, a ordem protocolar dos demais. Cada presidente fixa a ordem como melhor lhe parecer. Neste final melancólico da gestão de François Hollande, Madame Ségolène Royal, ministra da Ecologia, ocupa a terceira posição. É lugar de alto prestígio.

Cada país enviou representante para acompanhar as homenagens fúnebres feitas a Fidel Castro, o bondoso ditador cubano falecido dias atrás. Somente dois países europeus mandaram a Cuba um membro do governo: a Grécia e a França. Monsieur Hollande designou Madame Royal, número 3 do governo.

lula-dilma-e-maduroEm boca fechada, não entra mosca. Ségolène Royal, que fala pelos cotovelos, é conhecida por declarações desastradas. Entrevistada ontem, ousou declarar que os revolucionários cubanos «se inspiraram na Revolução Francesa mas souberam evitar o terror»(?). Minimizando os excessos cometidos pelos mandachuvas da ilha caribenha durante 60 anos, defendeu o regime e exaltou «a liberdade de consciência(!), a liberdade de religião, a limpeza e a excelente segurança» que reinam na gerontocracia dos Castros. Nem o Lula foi tão ousado.

Defesa tão explícita do violento regime pegou mal pra diabo. Francamente, «liberdade de consciência» não foi a característica maior do regime instaurado por Fidel. Os embaixadores de Luís XVI eram mais talentosos.

Três trapaças

José Horta Manzano

Na Alemanha
Em 2013, Frau Annette Schavan, então ministra alemã da Educação ‒ e amiga pessoal de Angela Merkel ‒ foi acusada de ter plagiado um bom pedaço de sua tese de Filosofia. A primeira reação veio rápido da própria universidade: seu título de doutora foi cassado. Menos de uma semana depois, não teve mais jeito. A trapaceira, constrangida, entregou sua carta de demissão do cargo. Com o «coração pesado», Frau Merkel aceitou imediatamente. Nunca mais se ouviu falar da doutora picareta.

Frau Annette Schavan, ex-ministra da Educação da Alemanha

Frau Annette Schavan, ex-ministra da Educação da Alemanha

No Uruguai
Semana passada, señor Raúl Sendic, vice-presidente do Uruguai, foi citado pela Justiça pelo delito de usurpação de título. Deverá prestar esclarecimentos sobre uma suspeita de fraude. De fato, alguns meses atrás, apresentou-se ‒ em documentos públicos e em atos oficiais ‒ como diplomado em Genética Humana.

Acontece que sua licenciatura não consta em nenhuma instituição de ensino uruguaia. Señor Sendic alega ter feito seus estudos e obtido o diploma em… Havana, Cuba. O quiproquó já dura desde o mês de fevereiro. Havana continua em silêncio, sem confirmar o que diz o vice-presidente. Eis por que a Justiça perdeu a paciência e intimou o figurão. Agora, ou vai ou racha.

Señor Raúl Sendic, vice-presidente do Uruguai

Señor Raúl Sendic, atual vice-presidente do Uruguai

No Brasil
Já dizia o outro que, a cada quinze anos, o Brasil esquece o que aconteceu nos quinze anos anteriores. De fato, era assim, mas parece que o ritmo de esquecimento se acelera. Alguém se lembra de que dona Dilma, então ministra da Casa Civil do Lula, foi um dia apanhada em flagrante delito de trapaça?

Pois é. Foi em 2009, sete anos atrás. Em currículo publicado na mui séria e conceituada Plataforma Lattes, a então ministra se atribuía créditos de doutoramento aos quais não fazia jus. Pra encurtar o caso, tentava tapear, de forma rasteira, o grande público.

Dilma 15Descoberta e denunciada, classificou o embuste de «equívoco», provável obra de algum assessor arteiro. (Como todo universitário sabe, ninguém acessa o próprio currículo se não tiver a senha.)

Como terminou a história? Em pizza. Uma semana depois, ninguém mais lembrava. Virou-se a página e ficou tudo por isso mesmo. Meses mais tarde, a doutora foi eleita para a presidência, num verdadeiro prêmio à pilantragem.

Efeito colateral – 2

José Horta Manzano

Um dia, já faz muitas décadas, os Estados Unidos e a República Popular de Cuba ficaram de mal e cortaram relações diplomáticas. E como é que ficou?

Engana-se quem achar que os dois países simplesmente se deram as costas e nunca mais se falaram. São vizinhos de andar, separados por um braço de mar de 160 quilômetros, unidos por interesses comuns. Pelo menos um milhão de cubanos vivem nos EUA.

Havana, Palacio Presidencial

Havana, Palacio Presidencial

Desde que o último espanhol deixou Cuba, em 1898, os Estados Unidos passaram a ser o país de referência tanto para o povo quanto para o governo da ilha. Uma briga entre eles é como desavença em família. Dois parentes podem até cortar relações, mas continuam mandando recado por intermédio de algum pombo-correio.

Apesar das aparências, Washington e Havana nunca cessaram de se falar. O congelamento de relações foi só de fachada – como são todas as contendas entre países. E quem foi o estafeta, aquele que leva a notícia de um e traz a do outro? Pois foi a Suíça, distinto leitor.

A partir de 1961, os interesses americanos passaram a ser representados pela embaixada da Suíça em Havana. Trinta anos depois, com o esfacelamento do império soviético, o governo cubano entendeu que era hora de preparar o reatamento. A partir de 1991, a embaixada suíça em Washington foi encarregada de defender os interesses cubanos.

Washington, Palácio Presidencial - The White House

Washington, Palácio Presidencial – The White House

Nós – a plebe – não somos informados de certas coisas. Só sabemos o que chega até a mídia. Disseram-nos, meio por alto, que o Vaticano e o Canadá participaram das negociações entre os vizinhos brigados. Não será surpreendente que a Suíça também tenha dado sua contribuição. Afinal, não haviam de afastar aqueles que agiram como pombo-correio durante mais de meio século.

Não saberemos nunca dos detalhes. E é melhor assim. Certas coisas, mais vale ignorar. Fica uma certeza: o governo suíço, embora tenha discretamente mostrado satisfação com a quebra do gelo entre os vizinhos briguentos, exibiu sorriso meio amarelo.

Perdeu o estatuto de intermediário. Daqui pra diante, além de não mais receber pelos serviços de estafeta, deixará de estar a par das futricas, dos segredinhos, dos trambiques, das traições, das negociações secretas. Tornou-se vítima colateral.

Mariel funciona!

José Horta Manzano

Enfeudada há mais de meio século pelo clã dos Castros, faz tempo que a República de Cuba não sabe o que é imprensa livre. Quem quiser se informar sobre o que ocorre – de verdade – na ilha, tem de se valer de outras fontes. O jornal oficial do partido não vai além de platitudes louvatórias ao regime.

Cubanos exilados, principalmente no Estado da Florida (EUA), estão geográfica e sentimentalmente próximos à pátria. O portal Martí Noticias é um dos porta-vozes da comunidade expatriada. Apoiando-se no relato do jornalista independente Moisés Leonardo Rodríguez, o portal deu notícias frescas e pouco glamorosas sobre o Porto de Mariel.

Como meus cultos leitores hão de se lembrar, a construção desse porto, situado a 45km de Havana, ficou por conta de financiamento do BNDES, o banco brasileiro de desenvolvimento econômico. Sim, senhor, o dinheiro usado foi o nosso. O SEU dinheiro, sim, senhor.

O custo total se aproximou do bilhão de dólares, boa parte dos quais foi entregue a fundo perdido, isto é, de mão beijada, de presente, sem necessidade de devolver. Guarda, que é teu! Doaram o fruto do nosso, do SEU trabalho, sim, senhor. País rico é país que doa à ditadura cubana.

Porto de Mariel, Cuba

Porto de Mariel, Cuba

Faz seis meses que, terminada a primeira etapa, o porto está funcionando. Sabe quantos barcos acolheu de lá pra cá? Apenas 57, o que equivale a 9 navios por mês ou 2 por semana. Dois por semana! Segundo o jornalista, esse volume de tráfego está longe de ser suficiente para justificar as instalações. Fica patente o fracasso do investimento multimilionário feito – em nosso nome e com nosso dinheiro – pelos estrategistas do Planalto.

Não precisa ser especialista em economia nem em comércio internacional para entender. Cuba pouco produz além de açúcar. Suas importações não atingem nem o mínimo vital, visto que a população bambeia no limite da linha da miséria. Se o país não se desenvolveu até hoje, não foi por falta de porto. O que faltou foi dinamismo econômico, há decênios sufocado pelo dirigismo estatal.

Mas peraí. Quando a esmola é muita, o santo desconfia. Vá lá que os estrategistas de nosso governo não sejam visionários, mas tampouco são completamente tapados. Investir por inverstir, mais valia pôr essa dinheirama em obra mais promissora. Por que, então, terão enterrado a avalanche de dólares (nossos) justamente num país cuja economia é atualmente inviável?

Duas possibilidades me ocorrem. A primeira é que tenham antecipado o que acontecerá quando os bondosos irmãos não forem mais deste mundo. A aposta terá sido que o regime se abrirá, que capitais do mundo inteiro fluirão para a ilha, que o porto funcionará a pleno regime, que o povo cubano será eternamente grato ao Brasil pelas bondades concedidas.

Essa possibilidade sofre de um pecado original. O perigo é grande de, uma vez enterrados os Castros, o Brasil ser rejeitado por ter sido financiador da ditadura e amigo dos opressores. Por jamais ter movido uma palha em socorro dos infelizes que, por delito de opinião, apodreciam nos calabouços. Sejamos francos: todo cubano sonha mesmo é com os EUA, não com o Brasil. Ter construído Mariel não faz diferença.

Porto de Mariel, Cuba

Porto de Mariel, Cuba

A segunda possibilidade já me tinha ocorrido algum tempo atrás. Na época, fiquei meio sem jeito de expô-la, a hipótese era ousada demais. Hoje faz sentido. O saqueio da Petrobrás se encarregou de preparar os espíritos para revelações ainda mais extraordinárias.

Não se pode (por enquanto) provar nada, mas não é absurdo imaginar que as obras do porto tenham sido hiperfaturadas. Afinal, as empreiteiras são as mesmas que trabalham para a petroleira brasileira, logo…

E o que terá acontecido com o hiperfaturamento? Ora, não é proibido imaginar uma partilha fraterna da propina entre companheiros: de um lado, a gerontocracia cubana e, de outro, a nomenklatura de Brasília. Uma ação entre amigos, por que não?

Por enquanto, ficamos na conjectura. Mas deixe estar, que indícios e registros ficam na história e, um dia, acabam vindo à tona. Quanto mais gente envolvida, maior o perigo de vazamento. Planejamento, arquitetura, construção e gestão de um porto marítimo exigem uma multidão.

É garantido que, no dia em que a ditadura cubana for banida, processos de expurgo vão ser abertos. Quando cai um regime ditatorial, é a regra. Entre os que forem apanhados, alguns podem muito bem solicitar o benefício da “delação premiada”, tão em voga atualmente. É aí que muita gente, por aqui, periga ver destruída sua biografia.

Os de fora ‒ 1

José Horta Manzano

Nós, de fora, também temos obrigação de votar. É só meio voto, mas já é melhor que nada. Por que meio voto? Porque só nos obrigam a escolher o presidente, chefe do Executivo. Quanto a nossos representantes no parlamento, aqueles que levam nossa voz até lá, não os temos. Do ponto de vista da representação democrática, somos cidadãos de segunda linha.

Voto inteiro ou meio voto, o fato é que mais 350 mil conterrâneos que vivem fora das fronteiras estavam inscritos e habilitados a votar. Muitos, desse contingente, se dirigiram àquela maquineta esquisita e despositaram ali crença e esperança.

2014 Exterior Turno 1É compreensível que a taxa de abstenção dos que votam no exterior seja elevada. Diferentemente dos que residem em terras de Santa Cruz, a urna mais próxima não está ali na esquina: pode estar a centenas de quilômetros de distância. Nem todos têm tempo, dinheiro e paciência para fazer o trajeto.

Assim mesmo, formamos contingente de eleitores maior que o do Estado de Roraima. Visto sob o aspecto eleitoral, os brasileiros do exterior constituem a 28a. unidade federativa da República.

Por definição, vivemos todos mergulhados num universo diferente da pátria-mãe. Não fomos bombardeados com propaganda eleitoral. Nenhum de nós recebe bolsa isto ou bolsa aquilo. Nem cesta básica. Isso nos confere certa isenção na hora de votar. Se a gente vota neste ou naquele candidato, será mais por acreditar que levará o País a bom porto, e menos por algum interesse pessoal.

Acredito que a esmagadora maioria dos expatriados brasileiros esteja feliz com os resultados vindos do exterior. Dona Dilma foi a preferida de apenas 18,3% de nós. Dona Marina foi sufragada por 26,1% dos expatriados. E Aécio levou a parte do leão: 49,5%. Por um trisquinho, não teria sido eleito no primeiro turno!

Andei examinando o voto dos brasileiros ao redor do mundo. Salvo alguma discrepância notável, a tendência foi a mesma: Aécio em primeiro, bem distanciado. Marina em segundo. E, na rabeira, dona Dilma.

Discrepâncias, há. Duas são mais gritantes.

Entre os brasileiros residentes em Havana (Cuba), dona Dilma sugou 84% dos votos – um espanto! Eu disse espanto? Nem tanto assim. Pensando bem, Cuba não é exatamente o paraíso sonhado de todo candidato à emigração. Em sua esmagadora maioria, os gatos pingados que vivem na capital cubana hão de ser gente ligada a interesses diferentes do dia a dia do comum dos mortais: Porto de Mariel, pessoal diplomático, pessoal das empreiteiras, espiões, olheiros, lobistas. O voto faz sentido.

Colégio Eleitoral de Caracas, Venezuela

Colégio Eleitoral de Caracas, Venezuela

A surpresa grande está em outro lugar: na velha, boa e muy bolivariana cidade de Caracas (Venezuela). Naquele reduto controlado com o braço armado de um certo señor Maduro, os eleitores puseram Aécio Neves na cabeça. Com 50,75% dos votos, seria eleito no primeiro turno! Sei não. Nossos compatriotas estabelecidos no paraíso moldado por Chávez não dão a impressão de estar muito felizes com a situação.

«Mais médicos» ― enfim a hora da verdade

Percival Puggina (*)

Médico

Médico

O pedido de asilo da cubana Ramona Matos Rodriguez, que desertou do programa «Mais médicos», quebrou os ponteiros do relógio do governo petista em relação à sua tramóia com a empresa Castro & Castro Cia Ltda, com sede e foro na cidade de Havana. Chegou a hora da verdade.

Impõe-se, portanto, que eu escreva este artigo. Durante meses, os defensores do indefensável, com a fria determinação dos mentirosos contumazes, tentaram negar os fatos. Tentaram transformar esse negócio escandaloso em inaudita solidariedade do povo cubano para com os países necessitados. Também para eles acabou o tempo da mentira.

Não se trata, aqui, de mostrar o quanto sei sobre a realidade daquela ilha caribenha, mas de mostrar há quanto tempo tais fatos são bem conhecidos. Por isso, transcrevo a seguir um trecho do meu livro Cuba ― A Tragédia da Utopia, publicado em 2004. É o relato de uma informação que recebi na Embaixada de Cuba quando a visitei em 2001 e ainda sequer cogitava escrever o referido livro (pag. 113).

Interligne vertical 12«Em 2001 fui visitar a embaixada brasileira em Havana. Ela se situa no excelente prédio da Lonja de Comércio (Bolsa de Valores), uma edificação do século XIX, recentemente restaurada. (…) Durante a entrevista (com o secretário da embaixada), entrou na sala uma moça de cor negra que lhe dirigiu algumas palavras em espanhol e se retirou deixando expedientes sobre a mesa.

Quando ficamos novamente sós, ele explicou que a moça era cubana, excelente funcionária, contratada pela embaixada junto a uma das duas agências oficiais através das quais o governo cubano loca mão-de-obra a organizações estrangeiras que funcionam no país. A embaixada fornecera uma descrição do perfil da pessoa que procurava, a agência estabelecera o valor da remuneração em 200 dólares mensais, enviara algumas moças para serem entrevistadas e aquela havia sido escolhida.

Dos 200 dólares com que a embaixada remunerava a agência, a moça recebia em pesos o equivalente a 20 dólares. O restante ficava para seu generoso patrão, o Estado cubano. Diante dessa dura realidade a representação brasileira, incluíra a funcionária em sua folha de pagamentos e lhe repassava, por fora, 500 dólares mensais. É o que a maior parte das representações estrangeiras e empresas de fora fazem como forma de motivar seu pessoal.

Não é diferente o que acontece em relação aos muitos convênios que o governo cubano estimula que sejam firmados com países latino-americanos para fornecimento de pessoal médico, especialmente na área de medicina comunitária. Cuba não sabe o que fazer com os médicos que tem (um médico para cada cento e poucos habitantes!) e os médicos não sabem o que fazer com o que sabem. Acabam nas portas dos hotéis, oferecendo serviços como guias turísticos.

Através desses convênios e do mecanismo de apropriação do salário de seu pessoal nos tenebrosos níveis acima descritos, o governo consegue captar dólares no exterior. E ainda faz o seu «comercial» como um país solidário que presta importante ajuda à saúde pública das comunidades carentes do planeta.»

Há 13 anos, portanto, Cuba já adotava esse procedimento. De um lado, anuncia ao bom e generoso povo cubano que está prestando ajuda humanitária. De outro, apropria-se da renda produzida pelos recursos humanos que aloca, numa proporção jamais sonhada pelo mais porco dos «porcos capitalistas” dos quais tanto mal dizem. Pior ainda: nos tempos do patrocínio soviético, a paga cubana em recursos humanos consistia em enviar jovens para as guerrilhas comunistas nos conflitos da África subsaariana. Sangue cubano por rublos e petróleo, em nome da «unidade dos povos».

A bolsa...

A bolsa…

Agiu certíssimo a doutora Ramona. Quero ver a retirarem do gabinete da liderança do DEM. Pago para ver! Ronaldo Caiado é osso duro de roer. Quero ver, também, quem terá coragem de desmentir as informações que ela presta sobre o sinuoso percurso dos valores que o governo brasileiro paga, per capita, a Raúl Castro. E quero ver, por fim, o que dirá a Opas, a altissonante Organização Pan-americana de Saúde, intermediária oficial dessa operação, sobre o contrato dos médicos cubanos com a tal Sociedade Mercantil Cubana Comercializadora de Serviços Médicos Cubanos SA que a contratou.

Outra coisa que ninguém conta, mas sobre a qual tenho informação de cocheira: faltam médicos em Cuba. Os negócios dessa empresa locadora de médicos(!) esvaziaram os serviços locais, que estão sendo prestados por estudantes latino-americanos de medicina. Repito: quebraram-se os ponteiros desse negócio. O que ainda existe de moralmente sadio na sociedade brasileira não pode conviver passivamente com um declarado e certificado regime de escravidão em território nacional. Com a palavra a Ministra Maria do Rosário.

Ou os cubanos não são humanos?

(*) Arquiteto, empresário e escritor. Edita o site puggina.org

Não sabem nem mentir

José Horta Manzano

Um bando de trapalhões, é isso aí. O Brasil-potência está nas mãos de uma malta de trapalhões ignorantes e desonestos. Mas deixe estar — não passam de aprendizes.

Ainda não se deram conta de que o mundo mudou. Vivem ancorados nos anos 70, vociferam contra ditadores que já estão a sete palmos sob terra, desenterram esqueleto de presidente destituído, instauram comissões para investigar o lado da verdade que lhes interessa. Para essa gente cheia de mágoa e rancor, o passado parece mais importante que o futuro.

Insistem em seguir adiante de olhos vendados. Fazem como se o Brasil fosse povoado por jecas-tatus broncos, toscos, desdentados e ignorantes. Pois ignorantes são eles. Podem encher-se de botox, implantar fios de cabelo, tingir as melenas, mas não passam de gente tosca e primitiva. Civilização é artigo que não se vende em supermercado.

Dilma à saída do restaurante estrelado Crédito: Nuno Fox, Expresso

Dilma à saída do restaurante estrelado
Crédito: Nuno Fox, Expresso

Com o advento — e o contínuo aperfeiçoamento — dos modernos meios de comunicação, o sigilo tem encolhido. Fica cada dia mais difícil manter segredo sobre atos e fatos. Todos carregam no bolso máquina fotográfica, gravador, telefone, agenda e computador. Equipamento com que James Bond nem ousava sonhar cabe hoje num bloquinho de plástico de cento e poucos gramas, accessível a todos.

A última tentativa de trapaça de nossos medalhões foi desvendada no mesmo dia em que aconteceu. A presidente e sua alentada equipe de assessores e apaniguados planejavam, já há de fazer um bom tempo, desaparecer dos radares no fim de semana para gozar as delícias de uma gastronômica etapa lisboeta. Durante dois dias, atravessariam uma espécie de zona de sombra entre as neves suíças e o mormaço cubano.

Plano havia. Tanto é verdade que, já na quinta-feira, as reservas de hotel e alojamento já estavam feitas. A prova da exatidão dessa tese está na reportagem do brasileiro Estadão e na do lusitano Expresso. Nossos ingênuos dirigentes não imaginavam que alguém os pudesse surpreender durante a excursão clandestina. Realmente, é coisa de gente incompetente.

Dizem que dona Dilma, apanhada de calça curta, ficou furibunda. Note-se que, vindo dela, não é surpreendente. Para esquivar-se de interpelação embaraçosa, escapuliu do hotel pela porta de serviço e ordenou que seus cortesãos arrumassem uma explicação que satisfizesse a plebe.

Trocando os pés pelas mãos, os áulicos tentaram serzir, mas o buraco era grande demais. Não deu. Ficou pior a emenda que o soneto. Dá vergonha e nojo da mesquinhez dessa gente. Pior ainda é o medo que dá saber que nosso país está nas mãos de ineptos.

Se, até hoje, ainda não afundamos de todo é de crer que Deus é mesmo brasileiro.

Frase do dia — 92

«O Brasil já é o segundo maior exportador para Cuba, excluindo-se o petróleo venezuelano: China (42%), Brasil (16%) e Canadá (15%). Os principais produtos vendidos ao país são óleo de soja, milho, frango, arroz, carne e café.»

Patricia Campos Mello, enviada especial a Havana pela Folha de São Paulo.

Está aí a confirmação de que o Brasil voltou a ser exclusivamente exportador de matéria-prima. Nem a pobre e desindustrializada Cuba se interessa por nossos produtos industriais. A China — nosso “parceiro estratégico”(!) — nos deu um chega pra lá e tomou nosso lugar.

Miscelânea 10

José Horta Manzano

Idiota 3Mensalão
O que mais vai-se ler hoje são análises ― serenas ou inflamadas ― do mais recente episódio do mensalão, de seus comos e de seus porquês. Não vou-lhes dar mais do mesmo. De toda maneira, o que está feito, feito está.

A meu ver, o julgamento do mensalão, que termine ou não com gente na cadeia, terá sido um divisor de águas nas práticas judiciárias brasileiras. E é isso que a História guardará. Passemos a outro assunto.

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La vie en rose
Na Suíça, como em qualquer parte do mundo, autoridades penitenciárias têm, vez por outra, de usar a força para acalmar prisioneiros mais exaltados. Os suíços mandaram fazer estudos para encontrar método melhor que a tradicional camisa de força para sossegar os que surtam. Especialistas recomendaram que se encerrassem os mais atacados em celas cor-de-rosa durante um certo tempo, até que serenassem.

Cela calmante, Suíça

Cela calmante, Suíça

Na Suíça alemã, já chegaram à conclusão que 2 horas são suficientes para acalmar qualquer um. Já na Suíça francesa, não se sabe se por displicência ou vingança, chegam a «esquecer» o preso durante 5 dias nesse mundo unicolor. Os encarcerados reclamam, não tanto da cor, mas principalmente da humilhação.

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Caros celulares
O roubo de celulares está-se tornando calamitoso na Guatemala. Por um telefonezinho de bolso, assaltantes são capazes até de cometer o irreparável. Diante disso, o Congresso resolveu legislar. Acabam de aprovar uma lei que pune ladrão de celular com até 15 anos de prisão mais multa de, no mínimo, 25 mil dólares.

A nova lei não admite embargos infringentes.

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Idiota 4Gelo para quem pode
A crise financeira que começou em 2008 com a quebra do Banco Lehman Brothers arruinou muita gente. No entanto, é sabido que a balança tem dois pratos. Para que um desça, é preciso que o outro suba. Se muita gente perdeu dinheiro, outros ganharam fortunas. Dizem até que há hoje mais milionários do que antes da crise.

Algumas firmas, de olho nessa clientela abastada e composta em maioria por novos-ricos, não se tem privado de oferecer o que o mercado pede. Uma empresa americana está fazendo sucesso vendendo… gelo! Ah, mas não é um gelo qualquer, quá! É gelo para ricos. Vêm sob forma de cubinhos ou de bolinhas.

Feita de água duplamente destilada, essa nova maravilha é isenta de sais minerais que lhe possam alterar o gosto. Em compensação, o preço é salgado. Uma embalagem de 50 cubinhos sai por 325 dólares, o que dá 6.50 dólares por cubo. Uma boa notícia: o valor do despacho no interior do território americano está incluído no preço. Compradores de outros países pagarão um acréscimo para cobrir o frete.

Quem foi mesmo que disse que a estupidez humana não tem limites?

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Idiota 1Ladrão que rouba ladrão
A cadeia da cidade de Pavia, na Itália, foi assaltada. Os ladrões vinham de fora do estabelecimento. Levaram o cofre-forte onde era conservado, entre outros pertences, o dinheiro pessoal dos detentos ― uma espécie de caixa econômica interna. As economias de cada um estavam lá. A quantia roubada situa-se, segundo a fonte, entre 5000 e 6000 euros.

Além de força muscular, os assaltantes deviam ter conhecimento perfeito daquelas paragens. Penetraram no estabelecimento, atravessaram subterrâneos, abriram portas, carregaram o cofre, desapareceram, e ninguém se deu conta. Estão sendo procurados.

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Sob pressão, não!
O senhor Assange, aquele que está asilado na embaixada equatoriana em Londres, andava meio esquecido. Pressentindo que, do jeito que as coisas vão, periga passar o resto da vida na prisão onde se encurralou voluntariamente, resolveu fazer alguma coisa para ressurgir no noticiário. Aproveitando a deixa que lhe deu dona Dilma, fez declaração à Folha de São Paulo, por email. Aplaudiu a decisão da presidente de cancelar sua visita de Estado aos EUA.

Valeu-se da mesma ocasião para dar um conselho a nossa voluntariosa presidente. Declarou que o cancelamento da visita não é suficiente. Falta ainda dar asilo tropical a uma jornalista britânica que se encontra atualmente em degredo na Rússia.Idiota 2

O senhor Assange provavelmente ignora que não tem chance nenhuma de ser atendido. Nós todos, escolados, sabemos que dona Dilma nunca decide sob pressão. A não ser que a pressão venha de La Paz. Ou do Lula. Ou das ruas. Ou de Buenos Aires. Ou de Havana. Ou de Caracas.

Senhor Assange, se me lê, guarde bem: Mrs. Rousseff never makes any decision under pressure. Nunca mesmo.

Melhorou um bocado

El Malecón

El Malecón

José Horta Manzano

Dia 8 de janeiro, postei o texto De quoi je me mêle?  para expressar minha indignação contra o que me pareceu uma intromissão irresponsável da República Federativa do Brasil nos assuntos internos da vizinha Venezuela.

Mais do que a ingerência explícita, chocou-me o fato de a manifestação impertinente, que empenhava nossa nação, ter partido de um mero assessor especial da presidência da República.

Uma semana depois, em 15 de janeiro, nova intrusão ― anônima, é verdade, mas presumivelmente oriunda do mesmo gabinete ― obrigou-me a voltar à carga. Argumentei em novo post ― Ah, se Bolivar soubesse… ― que a Venezuela não era um protetorado brasileiro. Não cabia a nossas autoridades dar pitacos em seus assuntos internos.

Não acredito que os mandachuvas de Brasília se deixem guiar por minha visão de mundo, embora ache modestamente que, se o fizessem de quando em vez, talvez não lhes ficasse mal.

Deve-se dar a César o que lhe pertence. E razão, como sabemos todos, dá-se a quem tem. Hoje quero exprimir meu alívio. Finalmente, o Itamaraty deu mostra de que ainda guarda um resquício de bom senso. Alvíssaras!

A Agência EFE, em notícia repercutida por diversos órgãos de imprensa, informa que o titular das Relações Exteriores de nossa República ― ministro que leva o adequado e conveniente nome de Antonio Patriota ― foi muitíssimo mais prudente sobre o assunto.

Em entrevista coletiva, nosso chanceler evitou dar diretivas ao governo venezuelano. Diferentemente do desastrado assessor especial, ponderou que cabe às autoridades do país vizinho encontrar solução para o imbróglio político em que se enfiaram. A meu ver, ainda falou mais do que precisava, talvez levado pelo entusiasmo do momento. Assim mesmo, manteve postura profissional e não cometeu o irreparável. Veja aqui e aqui.

Talvez nosso iracundo assessor especial tenha sentido o desaveu, o discreto puxão de orelha. Talvez não. Em todo caso, permito-me dar a ele uma sugestão: faria melhor se decidisse passar uma temporada numa certa ilha caribenha. Se faltar dinheiro para a passagem, posso até oferecer pequena contribuição para completar a vaquinha. Meu óbulo não há de ser pesado, pois periga sermos muitos a querer contribuir.

A brisa suave que sopra por sobre o malecón(*) e o mormaço tropical não hão de lhe fazer mal. Poderia até aproveitar para congraçar-se com velhos companheiros, hoje já companheiros velhos.

Entrevistas coletivas não são comuns naquelas paragens. O silêncio evitaria, assim, que o mundo ouvisse o santo nome de nossa República atrelado a uma percepção política que estacionou nos anos sessenta.

Não custa sonhar, não é mesmo?

(*) Malecón é o nome do passeio marítimo de Havana.